por Ney Humberto F. Medeiros

  • A Fisioterapia

    As pessoas que se aproximam da melhor idade, como é o meu caso, após anos de atividades intensas, acabam chegando a uma clínica de fisioterapia. Comigo não foi diferente. Ou era fisioterapia ou cirurgia.

    Por ser um ambiente procurado por pessoas que normalmente sofrem com algum trauma ou alguma incapacidade física, logo imaginamos um lugar de sofrimento. Pessoas com semblantes tristonhos, sofridos e amarrados pelo peso da dor.

    Mas, quando cheguei à clínica do Mateus, o que vi foi totalmente diferente.

    Mateus sempre tinha um jeito descontraído. Conversava com todos de maneira muito calorosa e receptiva. As palavras usadas por ele eram motivacionais e verdadeiras.

    Ele tinha um repertório de histórias engraçadas para contar sobre sua terra natal, sobre futebol com os amigos e sobre as peripécias do casal de filhos.

    Quem chegava sem esperança logo notava que ali era uma oportunidade para mudança e reabilitação. Ter a saúde restaurada. Viver sem dores e sem limitações, exceto aquelas que chegam com a idade.

    A clínica realmente era um lugar muito acolhedor.

    Certo dia, estava em uma das minhas incontáveis sessões quando chegou um sujeito muito engraçado. Ele tinha a voz do Patolino, os braços do Popeye e o jeito de caminhar do Pateta.

    Tudo ele perguntava para o Mateus. O sujeito era um rato de academia que havia se lesionado provavelmente por conta dos exercícios em demasia. Na realidade, ele queria continuar sua rotina louca de atividades e, ainda por cima, fazer fisioterapia.

    Incansavelmente, ele perguntava:

    — Esse exercício com os halteres eu posso fazer na academia?

    Mateus pacientemente respondia:

    — Esse exercício, no momento, não convém.

    Outra vez ele perguntava:

    — Esse exercício com a barra fixa eu posso fazer?

    Mateus novamente respondia:

    — Esse exercício, no momento, não é apropriado. Assim você não ficará bom nunca.

    No outro dia, quando eu cheguei, o tal sujeito estava fazendo uma sessão no aparelho de estimulação elétrica funcional. Matheus havia dito para ele:

    — Quando a tensão estiver fraca para você, me avise.

    Não demorou muito, e o rapaz o chamou com a voz do Patolino:

    — Mateus, pode vir aqui. A tensão já ficou fraca para mim.

    Prontamente, a situação foi resolvida. Parecia o próprio Rambo, com vários fios grudados nos ombros.

    Passados mais alguns minutos, o fato se repetiu.

    — Mateus, pode vir aqui rapidamente. A tensão já ficou fraca de novo.

    E lá se foi Mateus.

    Os demais pacientes que estavam na clínica passaram a trocar olhares, já com certo ar de deboche.

    Para piorar a situação, o tal sujeito passou a assistir a alguns vídeos engraçados no celular no volume máximo, gerando desconforto em alguns e risos em outros pacientes.

    Ao término das sessões, os aparelhos de estimulação elétrica funcional emitiam um sinal sonoro. É um simples alerta. Algo bem corriqueiro para o ambiente da clínica.

    Quando terminou a sessão do tal sujeito perturbador, ao ouvir o primeiro “bip”, ele gritou num tom de total desespero:

    — Mateus! Mateus tem algo apitando aqui!

    O fisioterapeuta que estava atendendo uma senhora demorou um pouco para responder. Outro paciente que estava bem próximo respondeu em socorro ao nosso amigo, porém em tom jocoso:

    — Vai explodir! Vai explodir!

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