Quem ou o quê?

  • Quem ou o quê?

    Nem só de pão vive o homem…

    Vive atrás do salário, da prestação da casa própria, do preço da gasolina, da promoção que não veio, da aposentadoria que talvez venha, da dieta que começa na segunda-feira e do boleto que, pontualíssimo, nunca se esquece dele.

    Ah, e também de notícias.

    Escândalos financeiros, guerras, feminicídios, golpes, corrupção, propaganda eleitoral. Mudam os candidatos, às vezes os partidos, raramente o modelo. Entre uma tragédia e outra, um anúncio oferece um colchão ortopédico em doze parcelas sem juros.

    O ser humano é realmente uma criatura admirável.

    Acorda, olha o celular e, antes mesmo do café, já sabe o que o aguarda. Ainda assim, escova os dentes e vai trabalhar.

    No caminho, reclama do trânsito, no trabalho do salário, no almoço do preço da comida.

    Não pensem que estou falando apenas dos pobres, dos fracos, dos desafortunados ou dos “menos favorecidos”.

    Não.

    O rico também sofre. Naturalmente, sofre com algum conforto, o que não deixa de ser uma vantagem considerável.

    Mas sofre.

    Talvez esteja aí uma das coisas mais estranhas sobre a humanidade.

    Somos capazes de assistir a uma guerra durante o jantar e, logo depois, discutir porque alguém deixou a manteiga fora da geladeira.

    Choramos por desconhecidos.

    Brigamos com quem amamos.

    Economizamos para o futuro e compramos por impulso.

    Queremos viver muito, mas passamos boa parte da vida com pressa.

    Inventamos máquinas para poupar tempo e imediatamente encontramos novas maneiras de não ter tempo algum.

    Construímos cidades, escrevemos poemas, fazemos transplantes de coração, mandamos sondas para outros planetas.

    E ainda não aprendemos a conviver direito com o vizinho.

    Quem somos afinal? 

    Porque somos?

    Não sei.

    Faço parte da espécie, o que certamente prejudica a imparcialidade da minha pergunta. 

    Só sei que, apesar de tudo, amanhã alguém vai plantar uma árvore, outra pessoa vai preparar o café para quem ama, uma criança vai aprender uma palavra nova, haverá quem estenda a mão para um desconhecido e quem ria até perder o fôlego por uma bobagem qualquer.

    Talvez seja por isso que continuamos.

    Eu, pelo menos, decidi uma coisa: não vou mais questionar

    Não por enquanto.

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