São Francisco de Assis

  • Quatro patas — dentro e fora de mim

    Chove. Acordo na escuridão com o som de gotas furiosas contra a telha ondulante a minha direita, no vão coberto entre o edifício em que me encontro e o do lado. Ouço o ritmo onírico do meu Zeca roncando. Ele sonha. É lindo. Expressão da mais tenra felicidade em mim, tanto quanto a sensação de ter seu pesinho peludo em meu colo, ou seu pulinho, todo molhado, ao sair do banho e deitar de bruços, confiante, sobre a toalha limpa estendida sobre minhas pernas esticadas.

    Só quem tem a honra de ter um cachorro na vida pode entender corporalmente o que descrevo.

    Chove.

    Zeca silencia, mas ainda consigo ouvir sua respiração heroica. Um único pulmão, sete doenças respiratórias; seus joelhinhos traseiros tão frágeis. Algumas medicações de uso contínuo, bombinha diária, colágeno e acupuntura. Meu spitz alemão não demonstra fraquezas — muito pelo contrário: é o cachorro mais feliz — e mais bagunceiro e inteligente — que conheço, e quanto orgulho há nessa declaração.

    Quanto Zeca me ensina sobre a vida, todos os dias.

    A ausência dos seus roncos na madrugada me coloca em estado de alerta. Ele é meu coração fora de mim e o sorriso estampado no rosto dos costumeiros transeuntes que têm a felicidade de ver o Zeca passar.

    Antes dele — e por um tempo curto demais, contemporaneamente a ele — existiu a Mia. Mia foi meu primeiro amor de quatro patas. A que quebrou todos os meus ‘ainda receios’ de ter um cachorro. Eu (morria) de medo de cachorros.

    Tudo começa com a Lua, o basset fêmea da vovó Trude — minha avó austríaca postiça, vizinha de andar, que fazia doces, tinha uma risada que ainda ressoa na memória daqueles olhos azuis inesquecíveis. Ela nos deixava usar seu telefone fixo, pois nós ainda não tínhamos… Que memória para mostrar o quanto o mundo mudou, de 30 anos para cá… as relações de vizinhança eram familiares de portas abertas; telefone era luxo e não essa extensão de nós mesmos reconfigurada em sua versão “smart” e multifuncional. Hoje sequer sabemos os nomes de nossos vizinhos — ou quando muito, nos limitamos a isso. Voltemos a Lua:

    Eis que minha “tia-basset” me deu uma mordidinha no joelho quando eu era pequenina. Nada grave, só o suficiente para transformar qualquer cachorro solto ou passeando em sua coleira em uma ameaça. Ameaça é pouco; trauma mesmo.

    Passei a atravessar calçadas ao avistar um quatro-patas, sem olhar se vinha carro ou não, para desespero dos meus pais.

    Nesse meio tempo, em Santa Maria Madalena, minha avó Odila — a de sangue que eu conheci — teve vários cachorros… mais de cinquenta, para meu desespero (e ela reconhecia cada um por seu latido particular, vale frisar o feito do amor canino). O primeiro e mais emblemático foi o Rique, um fox paulistinha que todas as manhãs comemorava minha presença com uma euforia que me aterrorizava (Zeca faz o mesmo estardalhaço hoje em dia e me desafia a levantar da cama até que a euforia se dissipe). Era só depois do almoço que a pequena Bia e o intrépido Rique se acostumavam à presença um do outro. À noite, éramos melhores amigos até que, na manhã seguinte, tudo recomeçava.

    Naquela época, vovô ainda era vivo e eles moravam em uma chácara antes dos cartórios, prefeitura e a famosa praça da Dercy. Uma vez deixei a porta do quarto em que dormíamos eu, mamãe, papai e minha irmã aberta. Rique entrou, pulou na cama e comeu a cabeça do meu Ken! Eu amava bonecas. Chorei, me revoltei e passei o resto do dia sem falar com ele.

    Cerca de um ano depois, meus avós já moravam em outra casa, uma cuja fachada desenhada foi campeã de uma competição decorativa de copa do mundo, no caminho para o mausoléu da Dercy Gonçalves — a pirâmide de cristal que ela mandou construir para si antes de morrer. Eu caminhava uma esquina abaixo, à esquerda da Catedral, quando um rottweiler escapou de uma casa na mesma rua. Eu devia ter uns onze anos.

    Lembro de ser encurralada por dentes à mostra, latidos fortes e muita saliva, dos meus punhos cerrados porque minha mãe dizia que assim os cães não sentiam o cheiro do medo, da minha voz ausente, do pânico interno… e do Rique.

    Meu pequeno e bravo amiguinho se meteu entre mim e um cachorro inúmeras vezes maior do que ele.

    A partir dali, todos os cachorros exceto o Rique tinham licença para me causar medo. No meu
    coração, ele passou a ser o meu cachorro. Anos depois, numa quarta-feira de cinzas, chegou a Mia.

    Dois meses, olhos azuis que lembravam os da vovó Trude, pulgas, carrapatos, anemia… mal se mexia, aquele bocadinho de pelo branco acuado. Eu e Bruna, minha caçula, tínhamos arquitetado um plano estrategicamente convincente para nossos pais: eu falaria com a mamãe; ela, com papai.

    — Fala com seu pai — disse minha mãe.

    — Fala com sua mãe — ouvi a resposta paterna da boca da Bruna.

    Meus pais sempre foram muito unidos, mas não esperávamos tanta sintonia. Trouxemos a cachorra.

    Mia veio para este mesmo apartamento em que agora escrevo. Passou sua primeira noite no quarto da minha irmã, onde estamos, eu e Zeca. Ela recebeu vacinas, remédios, amor, e o virar das costas dos meus pais num primeiro momento. Somente por pouquíssimos dias. O pelo branco tornou-se creme, com botinhas claras nas quatro patas e uma manchinha na testa. Os olhos ficaram verdes. Miou antes de latir. Era medrosa, companheiríssima, educadíssima, uma verdadeira lady. Uma vira-lata com ares de pedigree — enquanto Zeca tem pedigree e alma de vira-lata.

    Mia tinha seus hábitos. Dormia com música clássica e pedia para ligar o aparelho de CD se chegava a sua hora. Nas viagens, acordava em todos os pedágios para observar. Na rua, se parávamos com alguém, ela também parava e esperava a prosa terminar. Em restaurantes, só se sentava se colocássemos uma toalhinha no chão. Andava entre um e outro de nós quatro, jamais à frente. Em todos os seus 13 aniversários tinha festa com decoração, banquete canino e vela. Nasceu em vinte e quatro de dezembro.

    Uma vez, apagou a vela com um soprinho. Tínhamos esse momento em vídeo. Ainda deve existir em algum arquivo digital… Foi o elo da nossa família, sem que soubéssemos dessa força.

    Com o tempo, Bruna arranjou a Summer, uma lulu-da-pomerânia quase anã – minha afilhada. Depois, apareceu o Charlie, irmão da Summer.

    Agitado, esbaforido, barulhento, comedor de chinelos, móveis e paredes.

    Zeca é o Charlie que veio morar comigo, amor à primeira vista de nós dois. Seu caráter não combinava com a pompa do nome, por isso, foi preciso rebatizá-lo.

    Mia, que morava com meus pais, uma senhora de classe, não teve paciência para o irmão.

    Pouco depois, ela começou a enfraquecer. Vieram exames. Um baço prestes a explodir, um fim de semana sem disponibilidade veterinária e o baço rompido.

    Câncer.

    Foi operada às pressas. Voltou para casa. Eu e papai fazíamos os curativos.

    Me lembrei de um incidente, anos antes, em que os olhos da Mimi ficaram pretos e ela perdeu os movimentos das pernas. “Cheiro de tinta”, sentenciou a veterinária, vindo da obra de um vizinho. Eu, que então morava no Rio, subi a serra e fiquei fazendo fisioterapia com ela, com o auxílio de uma toalha. Seus movimentos retornaram. O verde da esperança voltou a refletir em seus olhos.

    Eu passei o último dia da vida dela carregando-a no colo. Ela, molinha, outra vez. Levei-a para sentir o vento e o sol na área aberta do apartamento. A mesma na qual ela amava jogar bolinha com o papai. Mantive sua patinha na minha mão. Tentei oferecer comida.

    Mia nunca recusava comida. Naquele dia, entretanto, recusou. Água, apenas via seringa. Zeca circulava ao nosso redor e insistia em convidá-la para brincar. Não entendia nada.

    Bruna, no Rio, precisava chegar. Papai foi buscá- la no fim do dia. Mia esperou o quanto pôde.

    No fim da noite, Zeca tentou novamente se aproximar. Ela reuniu uma força que já não parecia existir e rosnou grosso:

    — Sai pra lá, moleque!

    Ele entendeu. Ficou perto, sem incomodá-la novamente.

    Minutos depois, abraçada por um de meus braços e acariciada pela minha outra mão, Mia olhou lúcida e profundamente nos meus olhos.

    Gritei por minha mãe.
    Mia suspirou forte.
    Eu sabia.
    Minha mãe, idem.
    Mia, mais do que nós.
    Zeca também; chegou a fechar os olhos nesse momento.

    Mia se foi como viveu: em paz e com muita classe. Era 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis.

    Três anos depois, há uma semana, saiu uma reportagem no jornal da minha cidade, A Voz da Serra:

    “Domingo é dia de São Francisco de Assis, o protetor dos animais”

    Na página de folha dupla havia a fotografia da Paróquia da Rua Duque de Caxias e, ao lado, em proporções enormes, um único cachorro nos braços de sua tutora.

    Era Mia.
    E era minha mãe.

    Mamãe, que estava na rua e sem óculos, recebeu uma mensagem com a foto do jornal no WhatsApp, enviada pela dona da banca. Respondeu:

    — Que legal.

    Emiliene percebeu pelo tom sem emoção alguma da escrita que ela não havia entendido. Ligou.

    — Você viu o jornal, Lucia?

    — Vi, dia de São Francisco, vamos levar Zeca para benzer amanhã. Sempre vai ser emblemático para nós. O dia em que a Mia partiu…

    — Lucia, você viu a foto?

    Então ela, desligando, deu o zoom no arquivo de imagem. E viu.mEnviou para mim e minha irmã no nosso grupo “Fofinhas”. Choramos as três. Três exemplares do periódico foram comprados.

    As cinzas da Mia repousam na estante da sala, ao lado das do papai, que partiu oito meses depois dela. Câncer, também; mesmo nível de avanço em ambos, metástase.

    Às 4h da tarde do dia 04 de outubro, eu e mamãe levamos Zeca para a bênção de São Francisco.

    Éramos 4: papai, mamãe, Bruna e eu. Quatro cachorros atravessaram a minha vida: Rique, Mia, Summer e Zeca. Comecei a escrever esta crônica às 4h da manhã.

    O “quatro” ancora ao chão aquilo que não podemos tocar, mas nos toca.

    Os vivos levam consigo os seus mortos. Sou um pouco Makepeace, personagem principal de “A Crônica das Sombras”: os fantasmas se alojam em mim, partilham das minhas forças, participam das minhas decisões e, às vezes, emprestam seus olhos aos meus.

    Eu tenho um cachorro — e uma pequena multidão dentro de mim.

    Naquela tarde, todos nós caminhamos com Zeca pela Rua Duque de Caxias.

  • Onde foi que erramos?

    Um grupo de renomados cientistas das mais variadas áreas uniu-se para criar o ‘relógio do juízo final’ (‘doomsday clock’), um instrumento que estima o tempo restante para o fim do mundo, a ocorrer à meia-noite em ponto. Como num conto de Edgar Allan Poe, o soturno soar das 12 badaladas anuncia a chegada da morte.

    O escalar das horas, ao contrário dos relógios convencionais, não ocorre em função do decorrer regular e inexorável do tempo, mas do processo de deterioração das condições que mantêm o organismo vivo. 

    Em 2026, os ponteiros desse cronômetro macabro foram ajustados para o horário de 23:58:35, ou seja, míseros 85 segundos aquém do horário fatídico em que daremos adeus ao planeta azul que nos abrigou por tantos milênios. A marcação que vinha oscilando para cima e para baixo, nunca chegara tão perto do apocalipse final como agora. E nada indica que vá reverter sua marcha funesta rumo ao precipício.

    A maioria das pessoas é persuadida pelos negacionistas que essa ameaça, mesmo que fundamentada em estudos gabaritados de especialistas, não é para ser levada a sério. Esse relógio fictício não passaria de obra fantasiosa de cientistas catastrofistas com intenções malévolas. Podemos continuar agindo com irresponsabilidade, egoísmo e negligência que nada de ruim vai acontecer. Nossa civilização, fundada na lógica otimizadora do mercado, sempre ‘dará um jeito’ de manter tudo funcionando, não devemos nos preocupar.

    Será? Um idôneo check-up revelaria que a nossa idosa e judiada Terra apresenta um quadro clínico de degeneração grave, prestes a ser levada à UTI. O diagnóstico é que infelizmente está vivenciando os últimos suspiros de senilidade, açoitada pela corrida armamentista, guerras sem fim, mudanças climáticas, pandemias, descontrole da tecnologia etc.

    Um fator determinante que fez disparar o temporizador fatal foi a ascensão ao poder de governantes de qualidade deplorável que romperam os já frágeis acordos internacionais e deram as costas para a destruição ambiental. Trump e Putin, os mais poderosos estadistas em capacidade bélica da atualidade, lideram essa safra de maçãs podres, a mando de Tânatos ou Lúcifer.

    Os seres desprezíveis que estão conduzindo nossa existência à derrocada ainda se dizem religiosos e representam eleitores tementes a Deus que deturpam os ensinamentos dos grandes mestres espirituais do passado. Para usar a parábola bíblica, transformaram a água límpida do amor no vinho azedo do ódio.

    Jesus que difundiu o perdão e o amor ao próximo teria vergonha dos pastores evangélicos mercenários e de pregadores racistas e supremacistas que se dizem seus adeptos. Maomé que propagou a caridade e a justiça social deu cria a células jihadistas sanguinárias, tipo Estado Islâmico. Moisés ensinou aos hebreus leis morais e sociais que redundaram no sionismo e em genocidas como Netanyahu. Os preceitos de Buda, voltados à não-violência e à compaixão, foram sucedidos no Extremo Oriente pelas tiranias de Pol Pot e Kim Jong-un.

    Nossa civilização tem produzido cada vez menos pessoas de valor como Aristóteles, Confúcio, Lao Tsé, São Francisco de Assis, Dalai Lama, Gandhi, Chico Xavier, Bezerra de Menezes, Mãe Menininha de Gantois, Irmã Dulce, Madre Teresa de Calcutá, Rabino Sobel e Dom Paulo Evaristo Arns.

    Personalidades com visões diferentes, mas que têm em comum o anseio por um mundo mais igualitário e maior solidariedade entre seus habitantes, independente de suas crenças. Se pudessem ser reunidas numa sala, esses seres abençoados deixariam suas divergências de lado, dariam as mãos e subscreveriam um manifesto ecumênico pelo bem da Humanidade.

    Cada vez mais escasseiam cidadãos da estirpe de Nelson Mandela, Martin Luther King, Malcolm X, Albert Einstein, José Mujica, Papa Francisco, Ailton Krenak, Cacique Raoni, Malala e Greta Thunberg.

    Como fazem falta brasileiros de caráter como Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco, Ulysses Guimarães, Teotônio Vilela, Sobral Pinto, Hélio Bicudo, Oswaldo Cruz, Paulo Freyre, José Lutzenberger, Roberto Burle Marx, Cândido Rondon, Dorothy Stang, Chico Mendes, Betinho, Abdias do Nascimento!

    Sem contar artistas e escritores que lutaram ou continuam lutando pelo bem comum como: Charlie Chaplin, Hannah Arendt, George Orwell , Ken Loach, John Lennon, Bob Marley, Bob Dylan, Bono, Peter Gabriel, Nina Simone, Joan Baez, Villa Lobos, Portinari, Machado de Assis, Carlos Drummond,  Carolina de Jesus, Guarnieri, Vinícius de Moraes, Renato Russo, Cazuza e tantas outras mentes iluminadas que fizeram da arte instrumento para transformar o mundo.

    Tanta gente que poderia fazer diferença sucumbiu ante dirigentes abjetos que conduzem nossa civilização para a desgraça, líderes que deveriam nos envergonhar, mas que continuam nos guiando com nossa humilhante anuência.

    Nossa civilização que foi capaz de promover avanços inimagináveis na ciência e na qualidade de vida, falhou miseravelmente na simples tarefa de conservar a Terra habitável.

    Foram os povos primitivos, chamados de atrasados, que mantiveram uma relação verdadeiramente sagrada com o planeta. Nela, o tempo subordina-se aos ciclos naturais que fazem com que o relógio do juízo final seja apenas uma inútil quinquilharia. Entre eles, a vida pode seguir seu curso e ser gozada em sua plenitude.

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