Os humanos mais valentes creem que a solidão não vá corroer seus desejos, ao vagar pelo mundo sem olhos para fitar, que não é a forma mais sutil de ser gente. Passar minutos apreciando os outros se amontoarem em si, vagando em suas ideias ou cruzando pelas ruas frias e úmidas, pode nos trazer uma sabedoria solitária.
Porém, é uma companhia quase ausente de um par de mãos, que poderiam acalentar um nobre olhar. O oposto a esses instantes se percebe na vivência amorosa de quem se doou por outra vida.
Quanto pode pesar para um pai no leito de morte de seu filho? A mão que a poucos minutos pressionava com o amor de um abraço, foge para o silêncio eterno.
A criatura foi gerada do desejo de um ser, que acalentava sua forma de manter-se vivo no filho, e nos breves instantes seguintes, o rumo muda o tempo.
A vida inteira acreditamos que temos tempo, mas depois disso, descobrimos que ele era escasso, e se foi entre os dedos.
Imagine se você encontrasse a criança que você foi um dia, numa mesa de uma cafeteria, pronta para uma conversa leve.
O que você acha que ela diria com franqueza sobre sua vida? Que parte mais lhe interessa saber? e qual dela esconder?
A parte mais difícil não é partir, mas sim voltar ao lugar onde você estava.
Porque quando você retorna percebe que não trouxe de volta quem você costumava ser. Aquela versão de você, ficou para trás, perdida em algum lugar no tempo. Você caminha pelos mesmos lugares, pelas mesmas ruas, mas algo não se encaixa.
Os lugares ainda estão lá, intocados, como se o tempo nunca tivesse passado. E você olha ao redor e entende o quanto você mudou. As pessoas ainda veem a sua versão antiga, como se você fosse uma fotografia guardada na memória delas. Mas aquela versão de você, não existe mais, foi deixada para trás pelo tempo, e você se sente deslocado em um lugar tão familiar.
Talvez por isso, a parte mais difícil não é partir. É voltar. E perceber que você não cabe mais onde um dia pertenceu.
Por vezes novas vidas nos lembram a peça de Samuel Beckett, “Esperando Godot”, onde dois homens esperam por alguém, que nunca chega. Nada acontece. E, ainda assim, tudo acontece.
Eles conversam, repetem gestos, esquecem o que disseram, pensam em ir embora, mas ficam, sempre ficam, como nós, esperando algum sentido, ou respostas. Esperando o momento que a vida finalmente começará. Ele nos mostra que a existência humana não é uma jornada épica, mas uma repetição de dias, hábitos, pensamentos e esperas que sustentam nossa própria angústia.
O vazio não é falta de conteúdo, é o próprio conteúdo. Essa espera pode ser pelo sentido da vida, ou pela felicidade futura que prometemos a nós mesmos, ou apenas uma desculpa para não confrontar o vazio do presente. No final ninguém é salvo, e nada é resolvido, mas mesmo assim eles continuam esperando.
Admitir que nada é mais angustiante do que imaginar que algo deva estar a caminho. “O Ser humano suporta o absurdo, desde que possa esperar por algo” (Samuel Beckett)