Seu Homero

  • Seu Homero

    Da entrada da pequena galeria na rua das Laranjeiras, entre Ipiranga e a Pinheiro Machado, no fundo à esquerda existe a Barbearia Del Prete. Na porta o letreiro indicando o tipo de freguês aceito, homens. Porque aquele é, desde 1966, um Cabeleireiro Masculino.

    Andei devagar até a barbearia saboreando as recordações que tinha dali, lá do século passado.

    Quem cresceu em Laranjeiras, naquele trecho do bairro, um dia cortou cabelo ali. Seu Homero tem mais de seis décadas de atividade tesourando cabelos masculinos. Eu e meus irmãos estamos nessa contabilidade.

    Nos mudamos para a Pinheiro Machado, vindos do Bairro Peixoto, nos loucos anos 70, por volta de 1971. Seu Homero já tinha 10 anos de dianteira quando meus cabelos e de meus dois irmãos conheceram suas tesouras. Só deixei de cortar com ele quando me mudei para São Paulo, em 1988.

    Quando estive em férias com minhas filhas na casa da avó, fui dar uma volta pelo bairro e quando dei por mim estava na entrada da galeria. Impossível não entrar.

    Cheguei até a entrada da barbearia e vi lá dentro, sentado pensativo, seu Homero. Mas não entrei. Passei direto. Voltei devagar olhando dentro. Respirei fundo e entrei. Educado ele se levantou e me cumprimentou. Eu disse que era um antigo freguês e quando sentei sem a máscara ele me olhou atento pelo espelho. Não me reconheceu obviamente, mas isso não impediu de conversarmos sobre muitas coisas enquanto ele cortava meu cabelo.

    Ele falou de outros clientes, sessentões, que voltaram ao salão. Teve um que levou uma foto de quando era menino e, claro, seu Homero reconheceu a garotada que ele tesourava os cabelos. Eu declarei minha idade, 55, ele sorriu e aposto que pensou: mais um garoto que retorna.

    A conversa seguiu outros rumos e ele quis saber o que eu fazia por ali e aproveitei para expor coisas que tenho pensado e o rumo que pretendo dar à minha vida. Ou seja, conversa típica de barbearia, ao lado de política e futebol. Ele me escutou atento e opinou de forma a não me induzir a nada mas oferecendo sua visão de vida muito mais experiente que a minha. Boas palavras, afinal.

    Serviço feito e devidamente pago, agradeci e combinei que assim que as dúvidas forem sanadas passarei ali para contar. E, bem ao gosto dos tempos atuais, fizemos uma selfie.

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