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  • Sugando Ana Paula

    Ana Paula nunca teve sorte no amor. Abusada na infância diversas vezes por um primo, calou-se sobre o ocorrido. Seu primeiro namorado era gay e ela demorou a descobrir. Achou que o problema era dela. Depois ficou noiva de um piloto de helicóptero que viajava muito e quase não ficava com ela. O noivado se arrastou com promessas de casamento. Um dia recebeu do noivo uma carta terminando tudo. Custou a se recuperar.

    Na faculdade conheceu um professor e se apaixonou. Não demorou e descobriu que ele era casado e tinha duas filhas. A caçula quase da idade dela.

    As sucessivas desilusões deixaram marcas e Ana Paula resolveu ficar um tempo sem se relacionar. Tentava disfarçar sua tristeza e seguia levando a vida. Procurou ajuda com terapia. Algumas sessões e a conclusão: sua infelicidade tinha origem na anulação dos próprios desejos.

    Ana Paula tentou se soltar e exigir menos. Não teve tantas oportunidades, apenas alguns namoros frustrantes. Parecia que tinha o dom de escolher parceiros ruins.

    Ainda assim, manteve a esperança de encontrar alguém. O homem escolhido deveria ter maturidade emocional, não precisava ser milionário nem bonito. Ela até simpatizava com calvos.

    Formou-se em Arquitetura e abriu um escritório em sociedade com uma colega da faculdade. Ana Paula descobriu que sua sócia era homossexual e apaixonada por ela. Mais para tentar manter o negócio do que por real interesse, cedeu e tentou a relação. Não deu certo. Terminaram a sociedade.

    A seguir, conheceu um engenheiro industrial numa festa de fim de ano. Atração imediata e recíproca. Ela custou a acreditar. Ele era um encanto, carinhoso, quase sem vícios, bem apessoado, enfim, de acordo com suas exigências. O namoro prosperava e Ana Paula não cabia em si de felicidade.

    Mas seu engenheiro, numa viagem a trabalho, sofreu um acidente de carro numa estrada, foi hospitalizado e entrou em coma durante quatro dias, até ser declarada sua morte cerebral.

    Durante esses quatro dias, ela ficou a seu lado no hospital, rezando e pedindo a Deus que ele sobrevivesse. Deus não poderia fazer isso com ela. Ana Paula, a partir do dia da morte do namorado, tornou-se uma descrente incondicional.

    Desanimada, sem estímulos, convenceu-se de que seu destino era ficar sozinha. Uma sina. De agora em diante, só casos passageiros, uma trepada aqui e ali e nada de expectativas.

    Era ainda uma mulher bonita, tinha um belo corpo e se comunicava bem. O sexo, no entanto, raramente a satisfazia. Convivia com ejaculações precoces e impotências alheias. Os orgasmos eram raríssimos. Assim, passou a cogitar seriamente a abstinência sexual.

    Até que uma amiga lhe falou a respeito de um sugador de clitóris em formato de porquinho – a escolha perfeita para quem buscava autoprazer aliado à fofura.

    Ana Paula visitou uma sex shop e se impressionou com a quantidade de brinquedos eróticos:  anéis penianos, massageadores, plugs anais… O tal “sugador de clitóris porquinho”, sugerido pela amiga, tinha dez modos de variações, era à prova d’água, não necessitava de pilhas e vinha com carregamento USB. Um pouco caro, mas ela considerou o custo-benefício, já imaginando os benefícios futuros.

    Na primeira noite quase desfaleceu de tanto gozar. Perdeu a conta. Imediatamente apaixonou-se. De agora em diante, não faria mais sentido buscar um homem que se encaixasse nos seus sonhos, melhor usufruir do seu fiel e incansável sugador.

    Num sábado chuvoso, sentindo-se romântica, resolveu fazer em casa uma harmonização de queijos e vinhos. Cortou pão francês emrodelas, queijos brie e camembert, além de um parmesão italiano. Abriu um cabernet chileno, separou duas taças (uma para ela e outra para o porquinho) e serviu o vinho. Depois de brindar, selecionou uma playlist de músicas calmas, apagou a luz e acendeu as velas. À mesa, arrumada com capricho, Ana Paula olhava, arrebatada, para seu parceiro sugador. Ele só faltava falar…

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