Shakespeare

  • Ah, o charme

    Acho que não me expliquei direito. Não é que eu seja contra a beleza ou a considere efêmera. Mas só acho que ela não é fundamental. Tudo bem, eu sei que esse meu comentário faria o Vinicius de Moraes sair da tumba para puxar meu pé. Mas a vida tem dessas coisas e não expresso minha opinião levianamente.

    Sim, você não disse que eu faço isso, eu sei. Claro, vou esclarecer meu ponto de vista e se bobear você vai concordar comigo. Vamos lá.

    Considere assim, a pessoa é linda. Mas é bom lembrar que ninguém é lindo para sempre, como se sabe. Porque beleza é um aspecto estético relativamente estático. A movimentação da beleza nas pessoas é pequena. Normalmente ela evolui e se adapta com o passar do tempo, mas muito raramente para melhor. Tem uma cena de Henrique V, de Shakespeare, que o rei inglês diz à princesa Catherine de Valois que ela tem sorte de casar com um homem feio como ele. Porque o tempo, que sempre retira a beleza das pessoas, pouco estrago fará em seu aspecto. É engraçado, se pensar bem.

    Mas enfim, deixa voltar ao raciocínio se não eu me perco. A beleza sofre mutações que são reflexo de aspectos ligados a vivência. Coisas como a quantidade de sol que recebemos ou os aborrecimentos em geral e, em especial as frustrações amorosas, só para citar três exemplos que tendem a alterar a beleza. Tem muito mais e você mesma pode enumerar um quilômetro delas. E é bom lembrar que trata-se de uma tendência não uma garantia porque não estou falando de ciência exata.

    Mas o fato é que esses acontecimentos, que podemos chamar assim, deixam suas marcas em nós, refletindo em nosso aspecto externo, seja em nosso comportamento seja em nossa aparência. Em outras palavras, a beleza que recebemos da mãe-natureza, em coordenação com nossa herança genética, passará por alterações lentas ao longo dos anos. É meio óbvia essa idéia, concorda? Afinal ninguém passa incólume pela vida.

    Mais vinho? É francês, gostou?

    Bom, agora vamos examinar o charme.

    Esse aspecto não vem conosco de berço, como a beleza. Não se herda charme. Trata-se de  algo que você desenvolve, cria, adapta a você e ao meio em que está. É fruto de muita dedicação sua a arte de conhecer as pessoas, percebe-las realmente e entende-las. De buscar na observação e no convívio o que você pode fazer para atrair a atenção delas. Positivamente, lógico. Em essência, o charme é capaz de tornar você mais atraente, mais belo até. E ao contrário da beleza, o tempo só faz melhorar o charme. Sim porque charme é movimento, requer prática diária e se beneficia do conhecimento acumulado. Charme é essencialmente dinâmico.

    Qual conhecimento? Ora, minha querida, o que vem das relações humanas, do querer conhecer melhor outras pessoas em geral e aquelas que são nosso objeto do mais puro e legítimo desejo.

    Sim, isso mesmo, charme é a arma de sedução por excelência. Se bem que chamar de arma é uma palavra absurdamente imprópria. Melhor que arma seria ferramenta? Não, muito pesado. Talvez, deixa ver, habilidade social ou artística ou quem sabe sócio-artística, que tal?

    Gostou né, pois é, charme é habilidade sócio-artistica. Sócio porque está ligado ao convívio social, sem ele não há razão para ser charmoso. E artístico porque é a mais bem-acabada dança de acasalamento que alguém pode fazer.

    Mas claro que derramar charme é exibir-se. Por que não? Isso faz parte do pacote básico que a mãe-natureza nos dotou. Garante desde a perpetuação da espécie até momentos agradáveis e deliciosos. Por vezes, sem exagero, inesquecíveis e que uma vez rememorados sempre nos trazem aquele sorriso saudoso. Ser charmoso ajuda quando a causa é nobre.

    Perceber que há charme no ar é fácil mas precisa estar atento. Porque tem dias que a gente está tão distraído – ou compenetrado ou tão para baixo – que se um elefante fizer um grand jeté na nossa frente é capaz de passar despercebido. Juro, sei como é por experiência própria.

    Mas se você está de olhos bem abertos aí é tranquilo. Se precisasse resumir eu diria que no caso masculino, o charme é a exibição de testosterona do bem, feita na quantidade certa, sem quebrar a cristaleira mas deixando claro que o sujeito está ali pronto e tem muitas coisas interessantes a dizer. Elas normalmente percebem os passos dessa dança com os olhos e com os ouvidos. Bem escolhidas as palavras e o timbre de voz, não há como não prender a atenção dela.

    No caso feminino, o charme é o encantamento diáfano que é atirado ao ar por ela, misturando suas essências e hormônios em um vapor translúcido irresistível. Esse bruxedo é percebido pelo olfato e o olhar. Porque é em silêncio que a mulher é mais charmosa.

    E você me percebeu como?

    Ah minha querida, de todas as maneiras e mais algumas…

  • Ofensas mal disfarçadas

    Para viver em sociedade é preciso estar atento. Olhos bem abertos e ouvidos bem sintonizados.

    Por que existem várias maneiras de se ofender alguém sem usar palavreado de baixo calão. Por exemplo, atribuir à sorte as conquistas dos outros é uma delas. É uma forma velada de desprezar a preparação e o esforço que outros tiveram.

    Como se as coisas só dessem certo para uns como resultado da ocorrência de eventos positivos, favoráveis ou inesperados. Coisas que acontecem fora do controle ou da vontade humana mas que nunca dão errado. Aleatório puro ou sorte em estado bruto.

    Para essa classe de escolhidos não é preciso fazer esforço algum. Basta ficar lá sentado, embaixo da árvore como aquele primo do pato Donald, o Gastão, que o universo se movimentará a seu favor. Afinal, eles foram ungidos pela sorte, sem saberem porque e sem terem feito nada para isso.

    Bem feitas as contas, é maluquice das boas imaginar que a vida possa se organizar dessa forma. Mas para gente que acredita em terra plana, achar que a sorte é só para uns e não para outros é café pequeno.

    Outra forma de ofender sem arreganhar os dentes é mostrar surpresa ante uma demonstração de esforço genuíno ou conhecimento. Nesses casos a frase do ofensor vem acompanhada de um sorriso, ou mesmo riso, em que diz “nunca imaginei que você fosse capaz de se classificar” ou “nunca pensei que você conhecesse Moliére” (ia escrever Shakespeare mas decidi dar uma folga ao britânico).

    Nos dois casos, para ficar só em dois, não raro o ofendido não percebe que está sendo espezinhado. Fica meio atônito, sem ter o que falar direito, tentando compreender se aquilo que escutou é elogio ou crítica. É quase paralisador.

    Mas há raros momentos em que percebe a ofensa e reage, mesmo fazendo uso de ironia para não perder a linha nem provocar uma briga. Aí, o efeito é devastador contra…ele próprio! O ofensor se ofende e diz que não se pode elogiar. Faz uma bela volta no salão interpretando a vítima, em um papel escrito com a mais fina arte da manipulação. Envergonhado, o ofendido se cala e se esconde ante a culpa que lhe impingem. Quanta maldade.

    Se você chegou até aqui é porque testemunhou – ou foi vítima – dessas formas de ofensa. E se arrepende de não ter dado a resposta adequada ou ter se afastado diplomaticamente, sem oferecer o espetáculo patético da sua falta de ação.

    Isso agora é passado. O que foi não pode ser mudado. E mesmo que você consiga enterrar no mais profundo de si essas ofensas sofridas, isolando essa bagagem da superfície onde vive, o reflexo delas ocasionalmente vai latejar na sua mente. Pode não ser sempre mas em algum momento, quando você escutar um elogio, aquele parasita desprezível vai rastejar para fora do buraco em que você o confinou. Só para plantar a dúvida em você, tirando o gosto doce das coisas boas e legítimas da vida.

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