Sherlock Holmes

  • O gordo morto do bigode amarelo

    Saí do banheiro com uma novela policial na cabeça. Tudo estava relativamente estruturado, antevia até a camisa surrada, os trejeitos e os problemas psicológicos do protagonista. É certo, adicionaria ainda um detalhe ou outro conforme a escrita fosse se desenrolando, mas o essencial eu já tinha: um crime, um criminoso e uma investigação.

    A narrativa, sem muitas pretensões, não se tratava de algo tão complexo quanto. O nome da Rosa, nem tinha personagens tão espetaculosos quanto Sherlock Holmes ou Hercule Poirot, mas seria uma novelinha honesta, ou nem tanto, e ocorreria aqui perto de casa.

    Resumindo: o morto, um velho barrigudo com bigode amarelo, é descoberto numa manhã calorenta de sábado no corredor central do Mercadão da Prochet. Um policial de folga, chamado Othon, aparece ao acaso com sandálias velhas e camisa aberta para o seu tradicional desjejum na cafeteria Odebrecht, quando percebe os portões fechados, as viaturas e a ambulância no estacionamento. Entra, então, pela lateral e dá de cara com o seu arquirrival, polidinho e barbeado, de terno azul turquesa, também chamado Othon. Aliás, Doutor Othon, mais precisamente: Investigador Doutor Othon. A desgraça tinha um doutorado no Paraguai, em Astrofísica, Alquimia ou Arritmia, não interessa, e arrotava aquilo aos quatro ventos, toda semana.

    Pois bem, nosso herói encontra o gordo morto do bigode amarelo sendo conduzido para a ambulância. Não há sangue nem sinais de violência. Enquanto fecha, meio desajeitado, os botões da camisa, ouve com raiva os comentários sarcásticos do colega polidinho e barbeado, de terninho azul turquesa. Depois segue para a Odebrecht e pede um café quente, fresco e rápido. Os funcionários estavam ainda meio atônitos e sequer haviam aberto a cafeteria, mas não negariam o pedido de um cliente assíduo. É aguardando o café apressado que Othon decide se intrometer na investigação do rival, numa corrida detetivesca sem precedentes para ver quem consegue desvendar o crime primeiro. Isso, claro, para ele terá início na segunda-feira, porque ninguém merece um caso tão repentino, assim, logo no começo do fim de semana.

    Talvez a investigação descubra uma rede luxuosa de prostituição para a qual o gordo morto do bigode amarelo devia. Talvez ele tenha sido assassinado por engano, na noite anterior, quando comeu castanhas envenenadas numa das lojinhas do Mercadão. Talvez ele tenha sido sufocado na sorveteria e arrastado até o corredor central pelo mestre sorveteiro, um arqueólogo boliviano aposentado que, há quarenta anos, teve a namorada roubada pelo gordo, ainda vivo, do bigode amarelo.

    A trama ganharia as manchetes da Folha de Londrina: “Doutor Othon desmantela rede de prostituição”; “Castanhas envenenadas: um crime ao acaso?”; “Crime no Mercadão: uma vingança de quarenta anos”; “Doutor Othon em detalhe: entrevista com o investigador mais charmoso da Pequena Londres”. É óbvio que nosso herói não cairia numa patacoada midiática dessas e seguiria outras pistas, montando aos poucos o quebra-cabeças do caso do gordo morto do bigode amarelo. Usando da chantagem e da violência, que sempre foram os seus instrumentos mais úteis, Othon conduz a novela para um desfecho macabro, envolvendo figurões do alto escalão político da cidade e culminando na morte do rival, polidinho, de azul turquesa, enquanto se barbeava.

    Pois é, fiquei com essa história na cabeça por uns dias e agora já não sei se devo escrevê-la. No sábado, fui com a minha esposa tomar um café no Mercadão e mirava aqueles corredores com a curiosidade de uma criança. Me pegava a todo momento pensando: E se isso? E se aquilo? As ideias surgiam ao acaso e eu viajava bonito na maionese. De tão absorto na trama, que parecia ocorrer ali, bem na minha frente, mal notei a aproximação de um senhor, polido e barbeado, de terninho azul turquesa. Demorei também a entender o cartão que me entregou, com destaque, em dourado, para as palavras: Investigador Doutor Othon. E só voltei a mim quando o polido e barbeado investigador, irritado, chamou-me à atenção estalando os dedos com certa repulsa, virando os olhos, como a lamentar a lerdeza do brasileiro médio meio imbecil, e pediu se tinha uns minutos para conversar…

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