sopa de legumes

  • A sopa

    Todo mundo tem suas loucuras na vida, não tem? Pois eu, confesso, sou louco por uma sopa. Quente. Incrementada. Caudalosa. Vejo no computador agora os mais variados tipos de sopa: caldo de kenga simples, sopa de legumes, caldo de frango com batatas, caldo de mandioca simples. Algo em comum une todas elas: o ritual do prazer doméstico. Quando era pequeno, intimamente, torcia para ficar gripado só para, na hora certa, tomar aquele santo remédio que é uma pratada com macarrão, frango desfiado e legumes, que é meu tipo preferido.

    A sopa de legumes, mais do que qualquer outra, é a minha preferida — parece receita de avó. A iguaria pede sofá, cobertor e pernas esticadas. O telefone que espere. Os e-mails ficam para depois. Os chopes que esperem.

    No começo, confesso, era uma paixão moderada. Eu fingia uma gripe de propósito, adorava pegar um resfriado para ficar em casa, faltar na escola e tomar pelo menos uns três pratos.

    Meu coração batia até mais forte quando o vento assobiava. Quando o céu estava escuro e ameaçava chover.

    Aí eu cresci, minha loucura só aumentou e me flagrei procurando, para o desespero de todos, sopa nos horários mais indecentes.

    O calor derretia meus neurônios, na TV todo mundo falava em tomar pelo menos um litro de água por dia, os pernilongos me elegiam na hora de dormir e eu suspirava, desavergonhadamente, por uma sopa. Os protestos eram muitos: “Você está louco”, “Está precisando de um médico”, “Quem sabe uma internação não resolva”.

    De vez em quando, eu inventava desculpas: “É a mudança brusca de temperatura”, “A gripe me pegou de jeito”. De vez em quando, para não dar muita bandeira, eu aceitava um chope gelado, uma porção de filés com fritas, assim agradava amigos, namoradas, parentes. Mas sempre deixava escondido em algum lugar — dentro do forno, micro-ondas — aquele prato bem generoso de sopa. Meu sonho era viver num mundo onde meu prazer, sem incomodar ninguém, fosse respeitado. E, dentre todas as opções, a de legumes sempre ganhava. Salsinha, cebolinha, alho-poró.

    Certa vez, numa viagem à praia, enquanto todo mundo se esbaldou com cerveja gelada, churrasco e camarão empanado, eu saí batendo perna atrás de um lugar onde servissem uma boa sopa. Caminhava longe, pagava propina para guardas de trânsito, policiais, donos de restaurantes.

    Depois de um tempo, passei a redigir manifestos, fazer abaixo-assinados que obrigassem os restaurantes a manter, pelo menos, algumas opções — mesmo num calor de quase 40 graus.

    Hoje, não faço questão de esconder minha preferência. Acredito que, se eu me mudasse para o deserto do Saara, lutaria pelo direito humano a um prato de sopa. É um encontro ao qual todo ser humano precisa ter direito, pelo menos uma vez na vida, esse ritual intimista. Estou pensando em comprar um bilhete, ganhar na Mega-Sena, comprar uma praia particular, onde cada um poderá tomar, sempre que quiser, seu prato predileto de sopa. Mesmo que debaixo de um sol, numa espreguiçadeira, olhando o mar. O mais sagrado de todos os direitos.

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