Trevisan

  • Bloqueio criativo

    O escritor senta na frente do computador disposto a renovar o romance como gênero literário. Quer fazer algo inovador, ainda não identificado, de difícil classificação. A tela pisca. O escritor pensa em estratégias variadas e fuma um cigarro enquanto pensa em qual delas adotar.

    Contar a história ao contrário, como já fizeram no cinema, quando todo mundo saiu da sala com cara de paisagem. Ou utilizar vozes narrativas alternadas: a primeira pessoa em alguns parágrafos, em outros a terceira, em outros ainda a segunda. Fazer o leitor pensar, preencher as lacunas da história — lacunas propositais, bem entendido. O presente e o passado em harmonia. Quebrar a estrutura narrativa linear, usar fragmentos de história, fluxos de consciência. Misturar a linguagem literária com a jornalística. Fundir estilos. Ficção e realidade de documentário. Metaficção. Personagens reais e personagens inventados, em intensa conexão. Biografia e ficção. Mistura de gêneros. Western e ficção científica, com algumas gotas de horror gótico. Robôs que sangram. Narrador onisciente e monólogo interior.

    O escritor se desespera, levanta-se da cadeira e anda pela sala. Não sabe por qual caminho seguir. Tudo o que lhe vem à mente parece já ter sido feito antes. Maldito Cortázar! Maldito Trevisan! “Vamos, experimente uma nova linguagem, invente palavras, termine parágrafos com ‘apesar de’, assim mesmo, sem ponto final”, ele confabula consigo, “seja moderno, use o formato das mensagens eletrônicas e conte uma história de amor que tem início numa conversa de Whatsapp e acaba em violência doméstica, com direito a poças de sangue no chão da cozinha.”

    Em agonia explícita, o escritor bate a mão na mesa e grita: “Já sei!”. Estica os dedos sobre o teclado e escreve: “Era uma vez…”

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