Vamos Barbarizar!

  • Vamos Barbarizar!

    Me virei na cama. Entre o sono e o sonho:

    Queria só beber. Girei.

    Bebê que sorria.

    Contei as letras. Nenhuma sobrava. Nenhuma faltava.

    Foi então que percebi: naquela noite, eu era um caleidoscópio.

    Meu poder não era criar palavras, mas embaralhá-las. As letras continuavam todas ali. Só mudavam de lugar. E, com isso, mudava tudo.

    No mundo dos sonhos, fui contratado como revisor de um jornal.

    Entrei na redação disposto a revolucionar o ofício. Adeus, manchetes sensacionalistas! Bastava uma giradinha e uma notícia desalentadora poderia ganhar outro sentido.

    Fui parar na seção de notícias do cotidiano.

    Comecei por uma que havia me feito rir no dia anterior:

    Homem casado é morto por moto de menina Z…, meio vesga, que morou oito meses presa no sótão pelo tio.

    Girei.

    As palavras se embaralharam.

    Preso homem amoroso que é investigado por estelionato e, ao mesmo tempo, namorou dezoito moças…

    Interessante.

    Mas faltava alguma coisa.

    Foi quando surgiu, ao meu lado, um sujeito de chifres vermelhos e espírito de porco.

    — Vamos barbarizar?

    Aceitei a sugestão.

    Girei outra vez.

    Homem que namorou dezoito moças ao mesmo tempo é investigado e preso por estelionato amoroso…

    Estelionato amoroso? Por essa nem eu esperava.

    Eu já estava gargalhando quando acordei.

    Corri para o papel e anotei as duas versões antes que desaparecessem.

    Voltei para a cama.

    E dormi de novo.

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