Me virei na cama. Entre o sono e o sonho:
Queria só beber. Girei.
Bebê que sorria.
Contei as letras. Nenhuma sobrava. Nenhuma faltava.
Foi então que percebi: naquela noite, eu era um caleidoscópio.
Meu poder não era criar palavras, mas embaralhá-las. As letras continuavam todas ali. Só mudavam de lugar. E, com isso, mudava tudo.
No mundo dos sonhos, fui contratado como revisor de um jornal.
Entrei na redação disposto a revolucionar o ofício. Adeus, manchetes sensacionalistas! Bastava uma giradinha e uma notícia desalentadora poderia ganhar outro sentido.
Fui parar na seção de notícias do cotidiano.
Comecei por uma que havia me feito rir no dia anterior:
Homem casado é morto por moto de menina Z…, meio vesga, que morou oito meses presa no sótão pelo tio.
Girei.
As palavras se embaralharam.
Preso homem amoroso que é investigado por estelionato e, ao mesmo tempo, namorou dezoito moças…
Interessante.
Mas faltava alguma coisa.
Foi quando surgiu, ao meu lado, um sujeito de chifres vermelhos e espírito de porco.
— Vamos barbarizar?
Aceitei a sugestão.
Girei outra vez.
Homem que namorou dezoito moças ao mesmo tempo é investigado e preso por estelionato amoroso…
Estelionato amoroso? Por essa nem eu esperava.
Eu já estava gargalhando quando acordei.
Corri para o papel e anotei as duas versões antes que desaparecessem.
Voltei para a cama.
E dormi de novo.