XÊNIA precisa matar alguém

  • XÊNIA precisa matar alguém

    Xênia estava a ponto de desistir de tudo. Vinha tendo problemas com o marido e os filhos. Ele, gordo, careca, sempre doente e reclamando da próstata que aumentara, do café frio, da chuva, do custo de vida e do governo. E, principalmente, dela. O filho mais velho, vagabundo, demente e drogado, sonhando ser cantor de rock. E não gostava de banho. A menina, uma amoral rebelde e chata, tinha o corpo coberto de tatuagens e piercings. Havia feito três abortos e agora descobrira ser lésbica.

    Xênia queria mudar tudo, mas não encontrava solução. Em busca de alívio, quando sentia que a cabeça estava a ponto de estourar, ia a um bar perto de casa, pedia uma Malzbier gelada, uma porção de torresmos e deixava-se ficar ali, em pé, encostada no balcão, por horas a fio, a pensar sobre nada. Uma espécie de pausa necessária. O dono do boteco, um português que torcia pelo Fluminense, já havia tentado puxar conversa, mas desistira: a mulher parecia em transe, absorta e presa a seu mundo.

    Um sábado, quando Xênia estava no tal boteco, uma mulher loura, alta e bem vestida se aproximou e puxou assunto com ela. Precisava de um serviço urgente, de preferência naquele final de semana. Xênia era a pessoa mais indicada – ela disse – soube disso no primeiro momento em que pôs os olhos nela. Precisava que ela fosse a um apartamento e matasse quem lá estivesse. Só confiava nela para esse trabalho.

    Por que ela? Xênia pensou no anjo que encomendou um réquiem a Mozart. No fundo não queria matar ninguém. Inusitado e tragicômico ser escolhida para esse tipo de serviço. Imaginou-se como o personagem Barry, o assassino de aluguel da série, que viu seu mundo dar uma reviravolta. A misteriosa mulher insistiu e lhe ofereceu uma quantia irrecusável. Devia ser milionária. A seguir, passou-lhe uma bolsa com a pistola e o silenciador para ela fazer o trabalho. Xênia logo associou aquele convite ao conto “O Cobrador”, de Rubem Fonseca. Talvez por ansiar uma guinada em sua vida, aceitou. Logo ela, pacata dona de casa, sempre comedida, que não matava nem uma formiga. Não estava se reconhecendo. A loura, então, passou-lhe um pacote com a metade da quantia combinada. O restante, depois do serviço.

    De lá, foram para o aeroporto Santos Dumont. A mulher deveria seguir na ponte-aérea para São Paulo, de onde só retornaria na segunda-feira. Uma única recomendação: não poderia causar grande sofrimento às vítimas. Serviço limpo e direto.

    Despediram-se, Xênia chamou um táxi e se dirigiu ao endereço que lhe fora passado. Um condomínio residencial de luxo. Durante o trajeto, sua respiração desacelerou e sentiu sumir o peso do próprio corpo. Era como se flutuasse em um espaço onde o tempo tinha deixado de existir.

    O taxista avisou que haviam chegado. Xênia pagou a corrida e saiu do carro, quase em frente ao condomínio. Na entrada, o porteiro acenou, como se a conhecesse. Isso não era normal. Achou estranho, mas foi em frente. Compenetrada, pegou o elevador, tirou a arma da bolsa e colocou, calmamente, o silenciador. Tocou a campainha. Demorou um instante e a porta foi parcialmente aberta. Xênia perguntou pela dona da casa. Uma moça morena, vestida de branco, possivelmente a diarista, respondeu que a patroa estava viajando e perguntou se era só com ela. Xênia não esperou mais. Forçou a porta entreaberta, empurrou a mulher para dentro e com a pistola engatilhada, atirou duas vezes. Antes de cair, a moça ainda a olhou com incredulidade e assombro.

    Xênia, com o coração acelerado, respirou fundo para não perder o controle, passou por cima do corpo, atravessou a sala e seguiu por um longo corredor que a levaria a outros cômodos. As pernas ainda bambeavam. No primeiro quarto, à direita e com a porta aberta, em frente, sentada e se penteando, uma menina com tatuagens e piercings, só de calcinha, com uma garota a seu lado, despida e também distraída. Sem ser notada, Xênia não esperou sequer que virassem. Fez um furo no meio das costas da moça e, antes que sua acompanhante pudesse esboçar qualquer reação, enfiou-lhe um tiro certeiro, quase à queima-roupa. Aguardou um pouco a fim de se certificar de que ambas estavam mortas. Xênia espantou-se com sua frieza. Ainda que estivesse com taquicardia e as mãos geladas de suor, agia como uma assassina experiente.

    Ainda trêmula, voltou ao corredor e foi ao próximo quarto, à esquerda. Percebeu logo o cheiro de maconha e os sons estridentes de um rock nacional. Quando entrou, o rapaz a olhou, assustado. Xênia chegou bem perto, apontou a arma na sua cara, tirou-lhe o cigarro de maconha da boca e, com o cano dentro, detonou o tiro. Deixou o corpo ali mesmo, no meio do quarto, com o som ainda às alturas. Xênia detestava rock.

    Agora, tinha pressa. A ansiedade a mil. Precisava acabar logo com o serviço e sumir dali. Só restava um último quarto, no fim do corredor. E, antes que pensasse em abrir a porta, um homem o fez por ela. Vestia uma espécie de roupão, era calvo, barrigudo e com cara de idiota. O que mais a impressionou foram seus olhos. Cansados e sem brilho. Olhos de uma idiotice clara e assumida. Convidou-a a entrar no quarto, andou calmamente até a cama e sentou-se. Xênia sentiu um arrepio percorrer seu corpo e, antes que pudesse se arrepender, disparou. Mal o homem tombou sem vida na cama, ela já se encontrava de costas, saindo do quarto.

    Não tinha mais nada a fazer. Surpreendeu-se agora bem disposta e empolgada. Conferiu se não havia ninguém no apartamento e saiu. O porteiro sequer notou a sua passagem. Missão cumprida.

    O português tricolor enfim trouxe a Malzbier e os torresmos. Xênia agradeceu, deu um gole na cerveja e fechou, por um momento, os olhos. A imaginação podia mitigar a realidade. No entanto, se achava longe de conhecer suas verdades e pôr um fim em seus tormentos e inquietações. O filme das execuções ainda passava na sua cabeça. Ao menos, sentia-se, de alguma forma, aliviada. Mastigou com vontade o pedaço de torresmo. Xênia estava morrendo de fome.

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