Cães felizes

  • Tempo de voar

    Qual o momento da vida ideal para a emancipação? 

    Bem, com a Mafalda e o Capitão foi notória a emancipação canina. Ela, por volta dos 10 meses. Ele, aos 18 meses. Ambos nos testaram e mostraram seus limites e vontades próprias.

    Domingo.

    Lá fomos nós. Eu, Mafalda e Capitão para o ParCão. Cães felizes e serelepes corriam desmbestadamente. Sentei em um dos bancos e retomei a leitura dos contos da escritora Marina Colasanti.

    Ao fundo, o monólogo me chamou atenção. 

    A maioria dos tutores, em roda, conversavam. Bem, na verdade, só uma pessoa falava. Um único tom de voz em desabafo. 

    — Ela tem o apartamento dela que fica aqui pertinho da praça. Está todo mobiliado e ela não quer sair.

    A indignação estampava o rosto da mulher.

    — Já está com 35 anos, trabalha, mas não quer sair de casa.

    Todos sustentavam um olhar embaraçado. Ninguém se arriscava a dizer qualquer palavra. 

    Meu coração apertou. Decidi acolhê-la. Me aproximei.

    — Já conversamos, falamos com ela, incentivamos a ter sua própria vida, mas ela se recusa.

    Braços e mãos inquietas daquela mãe em agonia, gesticulavam em protesto. E todos, mudos. 

    Sorrateiramente, as pessoas foram se afastando uma a uma. 

    Um pingo de pessoas, eu, inclusive, proferimos palavras de consolo.

    — Calma. Daqui a pouco ela irá viver a vida dela — dizia um.

    — Ela precisa se sentir segura. Afinal, morar sozinha pode causar solidão — dizia outro.

    Mas a mãe parecia não ouvir.

    — Quero liberdade. Quero não precisar me preocupar em ter que fazer comida. Quero não ter que lavar e passar o uniforme de trabalho dela. 

    Amparei suas palavras.

    — Entendo a senhora. Mas talvez ela precise de uma ajuda profissional para encorajá-la e se organizar para tal mudança.

    Ela me encarou. Respirou profundamente e as palavras saíram lentas e serenas.

    — Quero poder deixar a casa só do meu jeito. Eu e meu marido estamos aposentados. Queremos descanso. 

    O choro a dominou. Segurei-lhe a mão. Todos partiram. Todos, não. Os cães sentiam a dor alheia. A rodeavam, lambiam as pernas da triste mãe, pulando e pedindo colo.  

    Ela se abaixou e os acariciou.

    — Minha filha precisa dar conta das coisas dela. Tomar as rédeas da própria vida. Fazer a transição para a vida adulta.

    Se levantou e me encarou como suplicando respostas.

    — Onde foi que erramos na criação?

    Eu não as tinha. Mas os Aumigos, a acarinhavam com lambeijos na certeza de diminuírem o sofrimento daquela mãe. 

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