Coluna ‘Poesias de 1 a 99’

  • Poema #85: A verdade sobre a mentira

    Tenho dito mentiras
    sem tomar consciência
    de sua contextura falsa.

    Não tenho desmentido o que digo
    pois tenho a concepção de que minto
    sobretudo para mim mesmo.

    Sendo assim as minhas mentiras
    não podem acarretar
    na perda de qualquer afeição.

    E já que é precisamente sobre a falsidade
    que se alicerça o convívio entre os homens,
    as palavras de mentira ou verdade que eu disser
    nada significam de permanente num relacionamento.

    Mas não posso deixar de convir
    que assim fazendo, a cada dia
    eu amanheço mais distante de mim.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #81: A lua escura

    “se soletra L-U-A”

    sabe,
    há um momento
    em que a lua
    fica escura.

    é quando,
    a escuridão maior
    vinda dos montes
    cobre a Rua Fácil.

    e tudo,
    vira um só quadro
    negro, uma lousa
    fria que antecede
    a morte.

    Da Essencialidade da Água

  • Poema #10: Liturgia do instante

    Lento, tudo está lento…
    Vejo meus passos firmes, passos soltos
    E já não sei mais o que solto, pelo que passo
    Se quando firmo, não me atento.

    Doce, tudo está salvo.
    Tampouco o hoje é, sorte.
    Se é veneno um tanto, e quanto ao não que houve?
    E quando o há? Sabemos?

    Se o quanto ouço, ou vejo
    Fizer mera semelhança ao sentido…
    Se por falar em sentir, se exaltar-lhe o tato
    For, ainda assim, coisa-fato… não me remeto ao senso de ser simples isto.

    Existo. Voo.
    Plaino sobre a superfície d’areia
    Que me recolhe toda a intuição da corrente
    Vou contra, sou filho. Soo, assopro, conduzente que não leva, mas vai.

    Ah, eu deixo isso de saber muito
    Para quem não me entende.
    Segredo maior não há – no uno verso
    Que não lhe enfrente. Talvez, por isso, seguro seja seguir.

    Saúde!
    Um gole lento na palavra
    ausente.

  • Poema #16: Poema ao vento

    Poema ao vento
    Cesto vazio em pouso certo
    Cascalho de ilusões
    Sem tempo.

    Poema ao vento
    E nenhuma certeza das coisas
    Nenhuma certeza.

    De repente uma linha intrometida atrapalha o poema, como um rio conquista com ajuda das águas a terra branca, areia, alguma coisa separando os versos e construindo as margens. Há um menino do outro lado e ele abana um boné vermelho para o poeta. O poeta não se sente muito bem no meio de um parágrafo, mas, mesmo assim, acena para o menino…

    Poema ao vento
    Um contratempo
    Mapa e ponte
    Descaminho
    Novo tempo

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