Comida di Buteco

  • Happy hour

    Sempre me impressionou a mania que muita gente tem de marcar encontros que  sabe que nunca vão acontecer. “Precisamos nos ver qualquer dia desses”, “Para a semana talvez, quem sabe”, “A gente precisa se ver por aí.” Tenho para mim que é algo brasileiro. Brasileiríssimo.

    “Dessa vez a gente marca. Prometo. Sem enrolação.” Aquele passeio nunca vai acontecer, todo mundo sabe; mas gosta de fingir que vai.

    Um acampamento na montanha, um bate e volta na praia, um chope numa noite de sexta-feira, happy hour da firma, visita na casa do amigo domingo à tarde, aquela caminhada ao redor da lagoa.

    A graça é combinar. Descrever o passeio. Comparecer já é outra história.

    É como se, por exemplo, antes da saída propriamente dita fosse preciso sonhar, imaginar, narrar, visualizar. Até os perrengues são imaginados primeiro. Talvez nunca aconteçam, mas tudo bem.

    Gosto tanto de ouvir conversas dos outros. No ponto de ônibus, na fila de um show, na lanchonete. Por experiência própria, sei quando, entre dois amigos, eles marcam algo sem a menor intenção de concretizar a promessa.

    Não é mentira por maldade nem nada, não chega a ser desfeita, pouco caso, nem mesmo rompimento de uma amizade antiga — é um jeitinho todo particular nosso. É, na verdade, uma identidade nacional, um costume que, de tão antigo, já está quase para ser patenteado.

    Quando dois ou mais amigos se encontram, há um acordo tácito, cúmplice, em torno de uma promessa que jamais será cumprida.

    É nessa hora que muita gente usa ao máximo sua dose de humor, imaginação e paciência.

    Ninguém chega a se odiar, tampouco acontece um bate-boca mais acalorado. Não há nenhuma guerra iminente, insultos ou processo em andamento. Quando me deparo com conversas assim, vejo um ar sereno no rosto dos amigos envolvidos, um riso debochado nos lábios, uma maluquice sem maiores consequências.

    De vez em quando, um amigo pergunta ao outro se aquele tal bar, que ficou tão famoso no Comida di Buteco, continua funcionando ou se já fechou. “Ah, então qualquer dia desses a gente marca. Pode ser? Desta vez a gente vai mesmo. Nada de ficar só de papo.”

    Aí eles descrevem a cerveja gelada, porção de fígado com jiló, um grupo de chorinho tocando, uma turma se acabando de tanto sambar. Qualquer dia desses e qualquer hora dessas eles irão finalmente, vão deixar de conversa fiada, nem que chova no dia. Por enquanto, eles combinam indefinidamente o dia. O pior é que ninguém reclama. E isso é o que mais me diverte.

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