Papilo o quê? Expectorei na tosse esta pergunta para minha filha Violeta, liberando as vias áreas de um agente irritante. Nunca entendi o seu sonho de ser uma papiloscopista. Quando meninas sonhavam em ser princesas, a minha desejava ser papiloscopista. Hoje fico aliviada dela não ter brincado de cadáveres ao invés de bonecas. Quando ela me falou pela primeira vez da profissão tão sonhada, confesso que não entendi. Naquela manhã ensolarada, ela desembuchou na lata, com voz grave e semblante decidido: “Mãe, quando crescer eu quero ser papiloscopista”.
Será que seria uma criança de aura índigo? ou eu estaria confundindo a palavra papiloscopia com parapsicologia? Violeta me desorientava com seu ar fatídico, parece ter nascido de fora para dentro.
Quando menina, ela passava horas a fio trancada no quarto desenhando papiros. O talo do papiro chega a medir seis metros de comprimento, a flor da planta lembra os raios de sol, uma planta sagrada para os povos antigos. Assim divaguei pelos papiros:
— Será que a profissão de papiloscopista poderia ter a ver com aqueles vibrantes papiros? Ou seriam pupilas? Afinal, ela era a minha menina dos olhos. A pupila fica no centro da íris, também pode ser um botãozinho ou um mamilo. Violeta era minha pupila, que também apreciava os fósseis. Seria então paleontologia a tal da profissão? Quem sabe minha pupila seria uma cientista que estudaria as formas de vida existentes no passado. Ao menos, para uma mãe, parecia mais palatar esta opção.
Ela adorava carimbar. Carimbava as mãos, dedos e pés , com tinta ou carvão. Carimbava até o rosto na areia da praia. As visitas na nossa casa já sabiam do passe de entrada: seriam carimbadas por Violeta, que construía um cadastro de gente de forma obsessiva. Até que ela começou a desenhar papilas dérmicas, desenhava com perfeição as digitais, que além de exclusivas, nos fazem companhia até a morte.
A ameaça desta bizarra profissão me eriçava os pelos dos braços, provocando-me um estranho acovardamento. Hoje acordei desassombrada e decidi perguntar direto a Violeta, mas vacilei e desisti, porque sei que me responderia curta e grossa, com língua
afiada de pirarucu, com sua lixa que esfola. Digitei mais de vezes para perguntar a IA, e dei de cara com a morte. Não tinha como fugir. É verdade, nós somos todos mortais. Adeus à doce ilusão de eternidade. Isso sim deve ser o nosso fantasma.
Duro mesmo era saber que minha flor Violeta tinha o desejo de convívio intenso com defuntos. Ela labutaria com corpos mortos, para na superfície de suas peles descobrir a profundidade da sua alma, revelada nas suas identidades fragmentadas, matadas,
acidentadas, afogadas, carbonizadas. A descoberta me causou horror, o de quem tenta encobrir com o véu do silêncio a palavra morta, como se ela, a morte, fosse um destino inevitável apenas para o outro. Melhor restar-me como espectadora, enquanto violeta testemunharia o nirvana, esse estado inorgânico de seres humanos destituídos ou libertados de qualquer tensão ou pressão de vida.
— Mãe! O que queres aí?
Assim atirada, interrompeu a minha pesquisa. Entravei, mas já acalmada por destramar a possível causa do seu desejo papiloscópico! Matei a charada: ela foi atiçada pela síndrome de Nagali. Eis aí a resposta deflagrada. Os portadores da síndrome de Nagali não tem nenhuma impressão digital, um defeito genético raríssimo que impede a formação das digitais no feto. Violeta foi um destes bebês. Antes tivesse perdido suas digitais por acidente. Sem cristas na epiderme das mãos e dos pés, a menina das pontas dos dedos lisas, seria um dia identificada por suas pétalas de margarida.
Agarrada ao edital do concurso para a função de papiloscopista da polícia federal, Violeta se trancou no seu casulo onde chocava seu desejo fálico. Que insígnia portaria ali no seu distintivo? Talvez conseguisse enfim abrir sua guarda e sairia cheia de marras e nóias à caça dos pobres mortais. Mas não foi fácil como pensava. Tirou de letra as matérias teóricas, aprofundada no direito criminal como se fosse o próprio algoz. Mas como uma mula empacou num pulo.
A pedra no caminho era um salto para frente, um teste de impulsão horizontal. Se sustentava em barras, mas não conseguia pular com impulso para frente. Eu assistia comovida ao esforço de minha filha, que pulava sem parar. Ficava com dores nos joelhos e articulações, mas não abdicou. Às vezes ela mesma caia de risada, quando nem conseguia sair do lugar. Seria mais uma vez avacalhada! Saltar para frente com propulsão e coragem devem ser um privilégio de poucos, por isso estancamos diante das pedras, olhando desesperados para trás. Mas naquele ano ela pulou, cravando a distância máxima para as mulheres e aterrou na areia do estádio do Maracanã, sob os aplausos da plateia de avaliadores. Desta vez não foi vencida pelo teste de aptidão física, que elimina de cara quase metade dos candidatos. Violeta começou aos 25 anos e só teve êxito aos 33 anos. A mais velha papiloscopista daquele ano, uma façanha só possível pelo impulso louco do desejo. A sua obstinação era rastilho de pólvora.