Crônicas Cariocas

  • Tudo o que cabe num instante

    Celina abre os olhos e vê que está na cozinha. A louça é de porcelana e as panelas são todas novas. Em cima do fogão há um frango assado na travessa, pronto para ser servido. Demora alguns segundos para perceber que esta é a sua outra casa. Feliz, prepara-se para receber o marido, que volta do trabalho, e os filhos, da escola. Os meninos, quando chegam, dão-lhe beijos no rosto. Atrás deles, o marido a abraça e a levanta no ar como se não se vissem há meses. “Eu te amo”, diz ele, mordiscando sua orelha. Todos se sentam à mesa, e os pequenos contam como foi o dia na escola.

    Em silêncio, Celina aproveita a paz do momento. O marido pega sua mão e diz que, na próxima semana, pedirá férias na empresa e a família toda poderá passar uns dias no litoral. E que depois disso ela poderá pensar em seus estudos de pós-graduação, um sonho há muito acalentado. Celina estava prestes a responder quando um murmúrio chegou aos seus ouvidos: “Acorda!”, ouviu uma voz vinda de longe. “Acorda, sua vadia!”, a voz foi ficando mais nítida. “Acorda, sua merda!”, e ela não conseguiu mais ouvir as crianças nem o marido. Sentiu tontura, levantou-se da cadeira e, antes que alguém pudesse segurá-la, caiu. Ao abrir os olhos, percebeu que estava no chão. Sua cabeça doía e sentiu um gosto metálico e quente na boca. “Levanta já, sua fingida!”, disse a mesma voz. “Eu não te bati tão forte, não seja dissimulada. Anda, levanta e me traz outra cerveja.” Celina se levantou, limpou o sangue com as costas da mão e andou até a geladeira, implorando aos céus pelo próximo golpe que lhe trará alívio e a levará de volta à outra família.

  • No fim das contas

    Dizem que Clara tinha um termômetro dentro do peito. Não daqueles de mercúrio, prateados e precisos, mas um daqueles antigos, de líquido azul, que oscila com lentidão, sensível até à sombra de uma nuvem. Enquanto a cidade fervia em seus extremos, nas correrias matinais, ela se movia com uma cadência que parecia de outro século. Seu apartamento minúsculo era seu laboratório de clima interior. As pessoas que a visitavam, esperando talvez um santuário de positividade tóxica ou uma fria fortaleza de racionalidade, saíam confusas. Havia espaço para tudo. Num cantinho, um travesseiro macio para os dias de tristeza fina, daquela que não precisa de discurso, apenas de um canto para se aninhar. Na estante, uma coleção de pedras lisas, frias ao toque, para quando a raiva dava uns sopros quentes por dentro e precisava ser contida na palma da mão, até esfriar. A regulação emocional não era um botão de liga e desliga, nem uma represa que contém um rio. Era mais parecido com a arte do agricultor que conhece a terra. Há hora de plantar a semente da paciência, há hora de colher o fruto da alegria, e há, principalmente, tempo de deixar o campo em repouso, quando a exaustão toma conta. Ela deixava o calor da ansiedade subir, mas abria as janelas da respiração profunda para criar uma corrente de ar.

    Seus amigos a chamavam de “a equilibrista”. Num dia de grande contrariedade no trabalho, em vez de explodir na reunião ou definhar na cama, ela se dirigia direto à feira. Comprava limões, e passava a tarde fazendo uma torta de limão e merengue, batendo os ovos com uma força concentrada e metódica, ralando a casca amarela que soltava um aroma ácido e vívido. A frustração se transformava em energia motora, e no final, tinha um doce para dividir. A emoção não havia desaparecido; havia sido cozinhada, transformada.

    O grande mal-entendido sobre regular as emoções, é achar que se trata de uma guerra a ser vencida. Um combate contra a própria humanidade. As pessoas buscavam anestesiar-se com distrações infinitas, com otimismo forçado, com uma hiperprodutividade que é apenas outra face do pânico. Queriam silenciar o termômetro interno a marteladas. Ela preferia aprender a lê-lo. Havia, é claro, os dias em que o termômetro parecia quebrar. Em que a tristeza era um oceano e não uma poça, ou a raiva um incêndio e não uma fagulha. Nesses dias, sua regulação assumia a forma mais humilde e sábia: ela recuava. Desligava o telefone. Deitava-se. Sabia que tentar “consertar” um tsunami com um balde era vaidade. Às vezes, a maior regulação está na rendição temporária, no deixar a tempestade passar, confiando na arquitetura básica do próprio ser, que sempre busca o equilíbrio. A paz, no fim das contas, não é a ausência de tempestade o maior valor, mas a habilidade de lembrar-se de como fazer uma boa torta de limão.

  • Não sou desse mundo

    Já amanheceu. São cinco da manhã e não preguei os olhos. O sol não tem um pingo de pudor, atiça a minha visão e o meu corpo. Tento me levantar, mas o corpo pesa uma tonelada. Passo mais cinco minutos deitado, esperando as engrenagens do corpo funcionarem. É pavorosa a sensação de enfrentar o dia. Fico mais cinco, dez minutos olhando para o nada – naturalmente, para as nuvens escassas, que teimam em se afastar, porque podem se movimentar a esmo; eu, pobre de mim, já não tenho forças para avançar. Peço a um ser celestial que me proteja, sem vontade de continuar nessa peleja. Não sou crente nem nada, mas devo confessar que me apego a algum ente superior para me tranquilizar; a ansiedade é grande. O coração está a mil, e o dia nem começou direito. Sei que vou enfrentar Matias, Augusto, César e Eveline, todos meus chefes, que passam orientações descoordenadas e depois exigem coerência no trabalho. Levanto, lavo o rosto e escovo os dentes, automático. Passo alguns minutos olhando as rugas no rosto, ao mesmo tempo em que aplico um hidratante para a pele ressecada – ainda assim sou vaidoso, para manter a aparência. Preparo o café e penso no que virá. Deixo o café esfriar, pensando, disperso. Me embaraço nas minhas próprias alucinações. O dia pode não ser tão ruim assim. O dia pode ser o pior que já vivi. Os sonhos não me deixam mentir. Invariavelmente sonho com Matias e com César, os mais rigorosos, me pedindo para preparar o controle de caixa do mês, insistentes. Acordo, várias vezes, aperreado, até perco o sono. Essa noite sonhei com Eveline, a mais mandona, me pedindo para desviar um dinheiro do caixa, que não iam perceber. Eu, atordoado, como se fosse verdade, acolhi os seus mandos – tenho medo dela. Logo mais estava sendo preso pela polícia e encaminhado para a delegacia. Lá, sofri com os maus tratos infligidos, a mim e aos meus colegas de cela. No total, pelas minhas contas fajutas, fiquei sete anos preso, por desvio de dinheiro – roubo, precisamente. Por isso acordei assim. Hoje, sim, pode ser um péssimo dia. Eveline irá me encontrar e falar pela milésima vez que eu estou acabado, com olheiras. “Não dorme nunca esse malucão!”. Matias, que é casado, tem um caso com Eveline, que é solteira, a mandachuva da empresa. Estou em tempo de pedir as minhas contas e fazer de suas vidas um inferno, entregando as relações escusas e os rombos praticados por César, com a justificativa de sempre estar muito complicado de dinheiro, como se a empresa fosse um banco… Enfim, paro agora de falar dessas pessoas imundas, que escarram seriedade, quando, na verdade, são sujas. Como diria o meu pai, eu não sou desse mundo. Prefiro sair para viver o meu sonho de ser escritor por tempo integral, viver da arte. Só me falta a coragem, a fuga do medo de viver em dificuldade.

  • A reciclagem

    Passei a semana aturando o discursinho mequetrefe de que quase todo mundo se transforma no trânsito porque falta empatia. É isso mesmo, vou até repetir: quase todo mundo se transforma no trânsito porque falta empatia. Dá pra acreditar? Imagina só, aguentar três horas e meia sem intervalo nem cafezinho, por cinco noites seguidas, ouvindo um gordo mórbido de voz fina soltando esses impropérios, um atrás do outro. O seu vocabulário por certo tinha escolhido a empatia como termo-mãe. Uma frase terminava com empatia, outra tinha empatia no meio, logo depois, a empatia embalava mais seis ou sete palavras para que a próxima, novamente, terminasse com empatia. Empatia, empatia, empatia. PeloamordeDiós, quem aguenta?

    E pior, ele falava meio mastigado, por obrigação, como se contasse os minutos para degustar a próxima coxinha. Além disso, sequer olhava para mim ou para os outros delinquentes com a carteira suspensa. Na primeira noite, fixou os olhos em algum ponto da parede no fundo da sala e assim recitou, hora após hora, versinhos decorados, como se ensaiasse um monólogo contemplando alguma capa da Playboy. Pensando bem, acho que ele mirava mesmo um grande bolo de chocolate, babava um pouco do lado esquerdo, inclusive. Ou teve um AVC, não sei. Mas, puta merda, aquilo realmente era um longo e triste monólogo.

    Perder a carteira e ter de aguentar a conversa fiada dos taxistas e motoristas de Uber foi fichinha perto desse martírio. Cogitei até a possibilidade de ofertarem o curso de reciclagem exatamente desse jeito para nos torturar. Aliás, isso é obvio. A tortura sempre foi e sempre será uma alternativa. É aquela coisa, o seu filho fez algo terrível? Faça-o assistir aos jogos do Grêmio. Repetiu a traquinagem? Piore tudo, faça-o assistir aos jogos do Grêmio ouvindo um sertanojo universitário. Se mesmo assim não funcionar, entregue-o para adoção. Não dá, nem tudo tem conserto.

    Eu tinha. Quer dizer, eu tenho. Na verdade, eu nem merecia passar por uma reciclagem. Sejamos razoáveis, dessa vez não ameacei ninguém com um facão nem causei grandes problemas. Tudo isso por conta de três ou quatro multinhas de trânsito. Cadê a empatia do governo nessas horas? Santo Deus. Haja empatia, empatia, empatia. Aliás, aquele gordo com fala fina nunca coube dentro de um carro. É fisicamente impossível. Nem se retorcendo muito. Ele então deve ser um daqueles donos de caminhonetes gigantes com micropênis que fecham todo mundo por aí e se acham os reis da estrada. É tudo uma questão de compensação, no fim das contas, quase senso comum.

    Eu até sonhei com alguém declamando: empatia… empatia… empatia… Depois a gente surta e a culpa é nossa. Falando sério, não sei se consigo imaginar o trânsito sem xingamentos. É como a espuma do chope, sabe? Acho que o pessoal da empatia deveria considerar também o insulto como algo terapêutico. A gente sai do trabalho depois de um dia tenso, xinga um ou outro retardado no trajeto e chega em casa mais tranquilo. É isso. E tem mais: uma ofensa morna e sem ameaças, que não leve à luta corporal, não deixa de ser um xingamento com empatia.

    Não vou mentir. Apesar de tudo, esse troço repetido mil vezes no cursinho de reciclagem me obrigou a refletir sobre algumas coisas. Não muitas, é verdade. Mas, talvez eu até tire o tacape do porta-malas. Estou começando a achar que é melhor não ter armas no carro porque quase todo mundo se transforma no trânsito. Empatia é o caralho.

  • A Vida e as suas Escolhas

    E se, de repente, nos fosse dada a capacidade de vivenciar as consequências de decisões que não tomamos? Não falo, evidentemente, de questões rotineiras e banais, o que seria uma insanidade total. Mas somente de escolhas que podiam ter transformado nossas vidas por completo. Como reagiríamos, se tivéssemos a possibilidade de sentir as tempestades e as bonanças de caminhos nunca percorridos? Ainda conseguiríamos nos reconhecer por trás de tão distintas experiências?

    Diante da improbabilidade do desenvolvimento de uma tecnologia que permita tal maluquice, recorramos, pois, a um exercício mental de digressão. Como o aluno que aplica uma prova real sobre sua operação matemática inicial, poderíamos, dessa forma, especular a respeito da conveniência de nossas escolhas. Eu sei, minha cara leitora! A vida é, infinitamente, mais complexa e incerta do que uma operação matemática. Mas você também já deve ter-se imaginado como estaria agora, caso tivesse feito uma escolha diferente em algum momento de sua vida.

    Geralmente, essas conjecturas vêm às nossas mentes quando quebramos a cara ou estamos, simplesmente, com algum tempo disponível. Mas, contrariando a agitação desvairada desta cidade, não tenho podido reclamar de escassez de tempo. Poderia, aqui, enriquecer minha fala com a descrição de uma grande desilusão amorosa ou de uma demissão laboral. Mas, se assim agisse, faltaria com a verdade e sabotaria o objetivo inicial do exercício de imaginação proposto. Por mais incerto que esteja a respeito da real utilidade de tal esforço, preciso parecer convincente, não acha? A bem da verdade, o que está por trás de tudo isso é uma vã e pueril tentativa de experimentar diferentes vidas – umas melhores; outras nem tanto.

    Pergunto-me, volta e meia, o que teria acontecido comigo, se não tivesse pegado aquele ônibus, feito aquela viagem, começado uma conversa trivial com aquela jovem. Ou ainda, se tivesse escolhido outra profissão, insistido em estender aquela estadia, dito “até breve” em vez de “adeus”. Claro está que as decisões que tomamos ou deixamos de tomar podem afetar, diretamente, não apenas as nossas vidas, como as de outras pessoas também. Até mesmo aqueles que nunca vimos à nossa frente podem ser impactados por elas. Quantas pessoas alegam, por aí, ter encontrado a sua alma gêmea por acaso? Nesse sentido, o acaso nada mais foi do que o resultado de uma decisão anterior, por mais involuntário que possa ele ter sido. Ah, sim… Aquela parada rápida na cafeteria do centro da cidade teria sido tão banal, caso nunca tivesse propiciado o encontro entre dois corpos e duas mentes que se complementam tão bem! Teria eu sentido o prazer de tamanha excitação, caso não tivesse ido àquela festa supostamente tão chata e desanimada?

    Realmente, o que mais me fascina como consequência de nossas próprias escolhas são, justamente, essas relações interpessoais que estabelecemos com maior ou menor frequência. Penso que a riqueza de nossas interações sociais reflete a complexidade de uma grande teia social que construímos ao longo de nossas vidas. Quanto mais intensas e enriquecedoras forem essas nossas experiências com outras pessoas, mais resistentes serão os seus fios. Mas, além das relações amorosas e sexuais, existem os mais variados tipos de interação. Dessa forma, seria eu capaz de compreender tão precocemente o valor de uma verdadeira amizade, caso tivesse ignorado aquele jovem mais novo que me fez uma pergunta tão idiota? Ou ainda, poderia eu ter esse tipo de conversa com você, nobre leitora, caso não tivesse decidido escrever sobre a vida e seus encantos misteriosos?

    De fato, não podemos comparar o que vivemos com o que podíamos ter vivido. Além disso, é evidente que não dispomos de tanto controle sobre nossas vidas. No entanto, as frequentes contingências que se abatem sobre elas são intermediadas por resoluções que, de vez em quando, nós tomamos – mesmo que despretensiosamente. Por mais que as consequências não tenham sido planejadas e que as ações não tenham sido, profundamente, avaliadas, a bruma que esconde o que está diante de nós também faz parte das nossas vidas. Nós somos nós somente porque vivemos as agruras, os prazeres, os aprendizados e as decepções de nossas caminhadas de um jeito que somente nós podíamos ter vivido.

    Enfim, creio que não importa se um dia quisemos, realmente, estar aqui. Mais interessante é saber como chegamos a este estágio. É desse tipo de particularidade que somos feitos. Nem sempre essa singularidade será do agrado de outras pessoas. Mas, quando aprendemos a valorizá-la, ficamos mais livres para seguir nossos caminhos, por mais tortuosos que eles possam ser. Assim sendo, não existem, pois, decisões certas ou erradas! Por mais equivocadas que possam parecer, todas elas ajudaram a moldar o nosso ser.

  • A burocracia universitária que expulsa e nega o direito de voar

    É difícil ver uma grande oportunidade bater à porta e saber que as chances de dar certo são poucas.

    Digo isso porque o processo de inscrição para a mobilidade acadêmica está aberto na UFBA. Eu sempre soube que, ao concluir minha graduação, gostaria de tentar fazer mestrado no Nordeste — independentemente do estado, contanto que tivesse bolsa. Pois bem, logo na graduação apareceu essa oportunidade. O pior é que eu só a vi no início desta semana e a ignorei de primeira; afinal, não tenho condições financeiras nem rede de apoio para me ajudar a sair do Rio de Janeiro e custear a vida em outro estado.

    Deixo claro que sou beneficiária de auxílios governamentais e de permanência estudantil. É isso que me mantém viva. Sem isso, sou só mais uma pessoa em extrema vulnerabilidade social, empurrada de volta para o mercado de trabalho precário e, muitas vezes, informal. A vida acadêmica foi a minha oportunidade de sair de Belford Roxo para estar na maior universidade do Brasil em termos de ciência e cultura.

    Infelizmente, a atual política de assistência estudantil não permite que você receba bolsas institucionais quando está em mobilidade acadêmica. Os auxílios são suspensos até o retorno, e você ainda precisa enfrentar a burocracia de avisar para que não os cancelem de vez. Esse é o meu medo: ir com uma mão na frente e outra atrás. Eu quero ir pela oportunidade. Sei o quanto isso vai me agregar academicamente e proporcionar enriquecimento sociocultural. Afinal, é a Bahia!

    Abri até uma campanha no Apoia.se, mas, na minha cabeça, poucas pessoas vão querer ou poder ajudar uma moça que faz universidade. É capaz de me mandarem trabalhar, assim como a minha própria família nuclear faz sempre que tem a oportunidade. É frustrante.

    Eu canso de falar que pobre não consegue estudar plenamente. Tem dificuldade de fazer os estágios obrigatórios, de participar de projetos de extensão e de pesquisa porque as atividades acontecem nos horários em que precisam estar trabalhando. Também não consegue ir a congressos da área em outros estados por falta de tempo e de dinheiro, além das passagens muito caras. Eu mesma só consegui ir apresentar um trabalho para o qual fui aceita na Escola de Enfermagem da USP porque pagaram para mim, para que eu não perdesse a oportunidade. E graças ao ID Jovem, claro, que me garantiu ao menos a passagem com 50% de desconto para diminuir as despesas que eu jamais teria como arcar devidamente sozinha. Nós precisamos urgentemente atualizar as políticas de assistência estudantil para esses casos.

    Que oportunidade nós, estudantes da classe trabalhadora, temos de desfrutar de tudo o que a universidade proporciona? Eu não trabalho fora, porque a própria universidade exige que você se dedique exclusivamente para receber as bolsas de pesquisa, ensino e extensão. E convenhamos: R$ 700,00 não é um valor que arque com as grandes despesas de um estudante. Tinha que ser, no mínimo, um salário mínimo para custear a vida do aluno, já que é exigida exclusividade para o ambiente acadêmico. Estudar é direito, mas também é trabalho. Você lê, estuda, produz ciência e conhecimento por meio da pesquisa, contribui para a sociedade por meio da extensão e não recebe o suficiente para subsistir.

    Bolsas de mobilidade acadêmica deveriam existir e se manter, principalmente para os alunos que, assim como eu, não trabalham, dedicam-se integralmente à universidade, estão inscritos no CadÚnico e são inseridos em programas de transferência de renda. Só assim a educação pode realmente mudar vidas. Mas sabemos que isso não é do interesse da burguesia e da classe política que está no poder. Para a direita e os defensores do sistema capitalista neoliberal, a educação seria totalmente privada. Os pobres continuariam exercendo funções servis para que poucos lucrem e encham os bolsos — e, com os bolsos cheios, forneçam redes de apoio para que seus próprios filhos façam mobilidade acadêmica tanto dentro do território brasileiro quanto internacionalmente.

    Eu sou uma mulher negra, periférica e universitária. Por que eu não tenho o direito de ter uma trajetória dentro da universidade que me abra portas e possibilidades?

    Mandei uma mensagem no WhatsApp para o atual vice-diretor do meu curso de Serviço Social pedindo orientações. Espero que ele consiga me responder, porque as inscrições se encerram no dia 30/06 e eu ainda preciso abrir processo no SEI, falar com a COAA e com os setores de mobilidade acadêmica das universidades, ir ao médico pedir atestado de saúde física e mental, além de outras demandas burocráticas que me fazem querer desistir e deixar tudo como está.

    A data final foi prorrogada (era para ter sido encerrada no dia 31/05). Talvez seja um “sinal” do universo? Seria cômico se não fosse desesperador. Também penso na possibilidade de onde vou deixar minhas gatas, no que fazer com meus móveis e, agora, no curso de escritora que estou fazendo na ABL — uma oportunidade incrível para a minha carreira como escritora, mas da qual não conseguirei mais participar se eu for. Fico com o pé atrás de deixar as duas oportunidades passarem. Como será quando eu retornar para o Rio? Cheguei a comprar uma passagem de ônibus para Vitória da Conquista com o ID Jovem 100%. De trezentos e cinquenta e poucos reais, paguei apenas uma taxa de R$ 21,51 para o dia 1º de agosto.

    É uma luta diária e constante. Essa seria uma ótima oportunidade, e eu quero conseguir fazer tudo a tempo, mas realmente não sei se vai dar. É triste viver em uma sociedade que menospreza e acaba perdendo bons estudantes que poderiam garantir mudanças significativas para o mundo.

  • Apenas uma bolinha

    Ele achava que o mundo estava diminuindo. Disse isto num churrasco com os amigos naquele encontro habitual do condomínio. Foi para casa. Deitado, olhando o teto que lhe parecia mais baixo, ele ainda ouvia as gargalhadas do pessoal. “Tá diminuindo teu cérebro, isto sim”.

    Acordou cansado, algo recorrente nos últimos meses, como se algo estivesse lhe sugando as energias durante o sono. Olhou a mancha no travesseiro. Aumentava dia a dia, um líquido escuro que escorria do seu ouvido direito e que deixava uma crosta ressecada por dentro da orelha. Na primeira que vez que aconteceu ele procurou o médico, um velho amigo da faculdade da cadeira de medicina. O diagnóstico foi enigmático: “isto acabaria acontecendo qualquer dia”. Não questionou. Considerou tratar-se de mais uma das tantas bobagens daquele professor esquisitão, que apesar da amizade de longa data, lhe causava um certo ranço por conta de suas posições políticas.

    Parou diante da rampa que levava ao piso do anfiteatro e das salas de música onde lecionava todas as manhãs. Parecia estranhar o lugar. Sabia que ali era o seu local de trabalho, mas, com o pescoço curvado para a tela do celular, tudo o que vinha na sua cabeça era a imagem de extratos bancários, programas de TV sobre investimentos financeiros e lançamentos imobiliários em Miami, para onde viajava a cada ano com toda a família. Ergueu a cabeça por um instante e olhou para a rua. Percebeu que além do outro lado da calçada não havia nada, um vazio, como se a paisagem de edifícios que se estendia até os altos da cidade tivesse sido apagada com uma borracha. Sentiu-se tonto, achou que ia cair e sentou-se num banco de ripas ao lado da rampa. Isto já acontecera outras vezes e tornara-se mais frequente junto com outras anomalias que ele percebeu surgirem nos últimos tempos.

    Começou a rir quando viu um boneco balançando em frente ao posto de gasolina, na esquina depois da grade que cercava o terreno da universidade. Incomodou-se e parou de rir. Estranho aquilo, pensou. Outro dia quase perdera o folego ao gargalhar de forma descontrolada da água que escorria em espiral na pia do banheiro masculino. Sorte que estava sozinho, pensou no momento.

    Chegou tarde em casa, mais do que de costume. Tinha entrado no metrô na direção errada e de tão apressado acabou passando direto pelo grupo de amigos que o chamava para um vinhozinho no pergolado, numa área ajardinada do condomínio.

    O socorro chegou na madrugada. O mal cheiro que vinha do seu apartamento começou a incomodar logo ao anoitecer. Sumira do convívio e do trabalho havia dias. Bateram em sua porta, tentaram seu celular, mas nenhuma resposta.

    O bombeiro derrubou a porta do apartamento e levou a mão sobre o nariz. Apesar da máscara, o cheiro era repugnante. E o assombro ao entrar em seu quarto: as paredes forradas de bandeiras verde e amarelo, cartazes de manifestações, chapéus, bonés, cornetas, e ele mesmo deitado sobre a cama enrolado em uma bandeira do Brasil. Estava imóvel. O bombeiro se aproximou e virou lentamente sua cabeça. Viu a mancha escura imensa que se espalhava por sobre o travesseiro. Uma bolinha pequena escorreu do ouvido do defunto e acomodou-se numa dobra do lençol. O policial que acompanhava o procedimento pegou a bolinha e a olhou cuidadosamente.

    “Parece um cérebro em miniatura”.

    Riram. Depois colocou a bolinha num saquinho plástico e saíram.

  • Poema #75: 459 A

    Abandono total
    numa casa de 29 m²
    com vista de fundo
    para um bambuzal.
    O piso era claro
    antes de eu pisá-lo,
    mas depois a vida
    converteu-se em
    desordem e acordei
    deitado de costas
    num corredor
    do lado de fora,
    com a chave na mão
    esquerda coberta de
    sangue e a fúria cega
    de quem não se lembra
    de nada.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #07: Parado há duas horas

    Estou parado há duas horas.
    Já fui de um lado a outro
    Fui de esquina a esquina
    Percorri cada quadrado de chão.

    É que me cansaram as pernas
    Então deixei-me aqui.
    Por um lado parece-me um tanto sagrado,
    De outro, nefasto e ridículo.

    É que andei tanto que já não tenho por onde ir.
    Cumprimenta-me o passo do outro
    Que por um lado atravessa a rua
    Do outro, acena e desvia
    Ou o de mais longe, que caminha
    E eu, que já não soube de onde vinha
    Só, via.

    O movimento do mundo me desloca,
    Por isso a pausa.
    A náusea desta vida, caro Sartre,
    É a de se encontrar em plena avenida, aos arredores
    Sem saber por onde se ia,
    Sem esperar pela chegada.

    É que todos pareciam tão certos.
    — “É por ali”, saltou o jornaleiro.
    — “Mas estou parado fazem duas horas, meu senhor…
    Lhe pareço estar atrasado?” — disse-lhe.
    — “Estou aqui há 40 anos, meu jovem…
    Sei bem o que é ver a ida sem esperar pela volta”.

    Tens razão, pensei. O que estou eu a aguardar então?
    — “Te agarre ao que te aguarda”, dizia-me já a se voltar.
    Pensei de pronto… pobre sujeito que sou
    Quantas coisas me aguardam
    E eu aqui, parado, a pensar.

    Mas queria tanto ficar…
    Cogitei o primeiro passo.
    Espera… e por onde vou, se nem me lembro o porquê de vir?
    E de toda aquela confusão, soltava o riso o jornaleiro.

    — “Vamos, garoto… logo a multidão lhe arrasta
    E aí terá de ser levado pelos outros…
    Aproveite enquanto ainda há teu tempo!
    Ainda há teu lugar!
    Enquanto puderes estar contigo,
    Não te faças isso de deixares-te levar.”

    Aflito com a escolha a ser feita, lhe acenei:
    — “O que me agarra ao momento parece-me serem os pés, jornaleiro!”
    Fincados no mundo, eu suspirava…
    Já me era suspeito de que fostes tu, dura vida
    Que me aguardavas.
    E então caminhei.

    Desde então, por duas horas caminhava.

  • Caso verdade

    Uma. Duas. Três. Já eram suficientes para tirar a paciência de qualquer um, mas não parou por aí. Aos poucos, seguindo o mau exemplo, os vizinhos começaram a depositar suas sacas de lixo na calçada alheia. Alguns moravam perto, entretanto, logo chegariam os mais distantes. Definitivamente,  já estava configurado o abuso. Educadamente o “dono” da calçada resolveu pedir à proprietária do bar em frente – responsável pela primeira saca de lixo – que, por favor, não mais deixasse lixo em sua calçada. A mulher não gostou. Foi logo dizendo que não era a única da rua a colocar o lixo no local. Ainda com paciência, o homem disse que falaria com todos e o bar apenas tinha sido o primeiro lugar a ser visitado por ele. A mulher, sentindo-se menos injustiçada, comprometeu-se a não mais depositar seu lixo na calçada vizinha. Assim também fizeram todos os outros anfitriões, confessadamente arrependidos.

    O homem voltou pra casa satisfeito. Comentou com a esposa que não mais teriam problemas. Muniu-se de um balde, desceu as escadas e pôs-se a lavar a calçada certo de que a teria limpa na manhã seguinte. 

    Um barulho furtivo acabou por despertá-lo quando dormia em frente à tv. Resolveu olhar sem  se deixar ver. Decepção! Cada um daqueles que, pela manhã, havia se comprometido com ele, agora vinha apressadamente, quase correndo deixar seu lixo  às escondidas. A mulher ofendidíssima era novamente a primeira a fazê-lo enquanto o marido já a esperava com o carro ligado. Outros fingindo naturalidade, repetiam o malfeito.

    O homem na janela espumava. Daria um jeito naquilo ou mudaria de nome.

    Quando o dia começou, o bairro agitou-se. Havia lixo espalhado em todos os cantos. Principalmente em determinados estabelecimentos e portões.  

    O morador voltava de sua caminhada matinal e a mulher do bar gritou:

    — Quero ver se é homem pra fazer na minha frente! 

    Não ouviu resposta. Aliás, nenhuma reação foi percebida. Silêncio.  

    Não se dando por vencida, ela tenta mais uma vez:

    — Deve ter ficado nervosinho. A mulher dormiu de calça jeans, brabinho?

    Enquanto ela provocava e os vizinhos comentavam, Valmir, lá de dentro do bar, estava pronto para filmar caso o homem perdesse a cabeça. Ela não paravs e o homem resistia.

    — Tu é um frouxo! Quer bancar o nervosinho? Vem me encarar! — disse, batendo no peito. — Tá com medinho? 

    Boa tarde!

    Seguem texto e sugestão de imagem.

    Atenciosamente,

    Valeria Soares

    De súbito o portão se abre e uma esposa furiosa vai com tudo pra cima da mulher do bar. 

    — Vavá! Socorro!

    — Você tá provocando meu marido pensando que ele vai cair na sua armadilha?! Manda o Vavá filmar agora.

    Só a polícia conseguiu separar as duas. Ninguém foi preso. Ultimamente a calçada anda limpíssima. Cada um deu um jeito de cuidar do próprio lixo  sem poluir o bairro. Todo mundo aprendeu a lição.

     Principalmente: ninguém quer cair nas garras da esposa.

  • O Rei, o poeta, a mulher e o mar

    Conto publicado no livro O rei, o poeta, a mulher e o mar

    Um reino é algo muito sério. É algo místico, um poema, embora inacabado – posto que um reino situa-se no lugar dos sonhos, em terras longínquas da memória – mas vivo e pulsante. Tudo já se desfez, tudo se desfaz e tudo ainda está por se desfazer. Uma canção do tempo sem tempo.

    O rei, homem culto, sabedor dos livros, das histórias de paz e das histórias de guerra, era angustiado ser. Conhecia das nuvens o mistério, dos gritos do mar os apelos, da musicalidade do tempo o motivo. Conhecia os palmos, os metros, os quilômetros, enfim, a extensão real e a extensão imaginária do seu reino. De cor e de olhos e de boca e de memória sabia os rios, as matas, as aves, os bichos todos. Sabia os rostos e os nomes dos soldados vivos e mortos do seu exército.

    Quando abria as mãos, as linhas que se desenhavam nas palmas pareciam os limites, as fronteiras postas, justas, expostas. Aquelas que se alargariam com o tempo e com as batalhas e com o sangue de muitos.

    O rei fitava, do alto da torre mais alta e mais larga, tudo o que conquistara e tudo o que deixara: mocidade, amores, filhos…Vislumbrava uma riqueza sem tamanho e sem medida. Entretanto, o que há pouco tempo era motivo de orgulho e sagacidade, transformara-se em silêncio e tristeza. Silêncio primeiro.

    Tristeza depois.

    Os barcos iam e vinham do leste a oeste, de uma ponta a outra, com o frio e com o calor… Inúmeras bandeiras: vermelhas, amarelas, azuis e brancas…

    Velas e mastros inúteis. Marujos e mais marujos imprestáveis! Muralhas, pedras, visgos estéreis. Exército desassombrado de espadas sujas e pó. Heróis e nada.

    Léguas e léguas e terras e terras sem fim. Havia um fim. O homem que sabia e tinha tudo e que era senhor das coisas e de outros homens e de outros sonhos não via mais sentido em nada.

    De súbito, deixou o trono, no canto largou também as vestes reais, depositou a coroa sobre a mesa e de si para si pensou que o viço do mar o vislumbrava, que o barulho das ondas o chamava, que o cheiro do amor o excitava…

    Do grito do mar os apelos. Os apelos. Os apelos!

    Abriu as grandes portas de madeira e os soldados, mudos e espantados, não ousaram perguntar o motivo da nudez real. O rei, por sua vez, olhou um a um, de cima a baixo. Homens servis e sem vontade própria. Apenas temor e obediência. Basta!

    Avançou para o pátio e a guarda, também atônita e silenciosa, acompanhava os seus movimentos cada vez mais rápidos, cada vez mais decididos. Após atravessar toda a extensão do pátio central chegou ao portão primeiro, àquele chamado de principal. Do mesmo modo, os que guardavam mais uma entrada nada disseram, nada fizeram…

    A rua, as ruas. Pequenas. As casas, as pessoas, os bichos, as plantas, todos olhavam para o rei. Este, com passos largos e firmes, seguia em direção ao cais. Os apelos do mar!

    Mas eis que um velho e louco poeta o interrompe. Estava nu! Um rei nu! Não podia estar nu! Ninguém ousara dizer, contudo, ele dissera. Estava nu e pronto! Imagine um rei nu! Prestava-se a um papel ridículo!

    Os olhos reais, graves e sérios, emudeceram o poeta. Não! Não estava nu! Estava livre… Completa e absurdamente livre! O reino era uma coisa inventada, um poema, um conto quem sabe! O rei, uma peça, um senão, um coitado! O que diria o poeta com as suas mais belas e fortes palavras? Hein? Escreveria sobre o ouro do sol e das paredes do palácio, das tempestades e do mito real destroçando um monstro marinho. Heróis e nada! Os apelos do mar… Nem mesmo as palavras o prenderiam… O poeta, estupefato, tentou tocar-lhe o ombro, no entanto, a decisão estava tomada: era o mar. E prosseguiu acelerado rumo ao cais. Maravilhado pela vontade real, o poeta resolveu acompanhá-lo, mudo, mas feliz em ver um homem tão firme em seus propósitos.

    Agora dois homens buscavam o mar.

    A medida em que caminhavam, deixavam mais pessoas boquiabertas. Vilas ficavam para trás. E outros bichos e outras gentes contavam a respeito do rei nu e do velho e louco poeta que atravessavam o reino em busca do mar. Dois homens que andavam firmes e ligeiros. Dois homens apenas…

    Uma mulher.

    E isso tem significativa importância para uma história – qualquer que seja – a presença de uma mulher. Não era tão bela, não era tão baixa, não era tão triste. Uma mulher que carregava um enorme saco, o rosto cansado, cabelos longos e claros e os olhos que denunciavam lágrimas de outrora. O poeta a viu. O rei a viu. A mulher os viu. Postos os olhares e as almas, a mulher largou o que tinha e os seguiu sem dizer palavra. Sentiu-os como a brisa, sentiu-os como o mar… O rei estava livre, o poeta estava absorto e a mulher… Bem, a mulher levava consigo os pensamentos, o coração e os sentidos de uma mulher…

    O mar já próximo estava daqueles três seres. O cheiro e o sabor das águas tomavam cada qual de um jeito: a excitação real, a translucidez do poeta e os sentimentos da mulher. Força, palavra e coração. Vento, barco e desejo.

    O último obstáculo: a montanha do sul. Elevada formação rochosa. Pedra. Pedra-pedra. Pedra-só. Pedra inteira e decididamente pedra. Três criaturas que voavam pelo caminho, deixando poeira e mais gentes e bichos perplexos. A história do rei e do velho poeta agora contava, também, com uma mulher de olhos cansados. Decerto desamara a infeliz. Desamara a vida. Desamarrara, no entanto, o que havia feito, pensado, sentido. Estava pronta para o que ainda não fizera, pensara ou sentira.

    O vento forte daquelas terras castigava todos os três. De mesma forma. Mesma medida. Pele seca, carne pouca, mãos pesadas, ouvidos raros, porém, olhos acesos e pisadas precisas… Toda pedra tem sua função de pedra. Toda pedra tem sua porção de mal: machuca, rala, corta, sangra, corta, rala, machuca, sangra, corta. Mas passa.

    O mar… O mar já se via! O mar já se via! Ah! O cheiro do mar e o gosto do mar e o sabor das ondas… As águas e os olhos. Assim como um poema breve, como um poema apenas. E os três caminhantes respiravam já o mar, sentiam o que se tem para sentir quando se busca o mar: amor água sal vento vela palavra muda descoberta.

    Não demorou nada e as mãos reais tocaram as águas e as lágrimas da mulher e as palavras do poeta se misturavam àquela cena. Um barco queria. Um barco só. E os homens que estavam no cais não disseram coisa alguma, apenas consentiam com o baixar de cabeças. Tomou-lhes o barco branco, cujo nome, AURORA, fazia gosto, desde o primeiro olhar, ao coração da mulher.

    Sobreveio a chuva.

    As amarras foram retiradas e os ventos desenhavam as ondas e o amor impulsionava a embarcação. Uma nau e sua pequena tripulação. Todos os que assistiam tão insensata cena, horrorizados estavam com o tempo e com a chuva e com os fortes ventos. Ninguém vai ao mar assim! Ninguém vai ao mar assim! O que se quer é a morte. O que se quer é o fim…

    Mas.

    O rei, o poeta e a mulher não responderam. Não olharam para trás. O barco, a nau, os sonhos, o que quer que sejam, estavam soltos estavam no mar. Eles eram o mar agora.

    Nenhum ser daquele reino jamais voltara a vê-los. Entretanto, no dia da partida não anunciada, os que se lembravam do rei, do poeta e da mulher, guardaram nos olhos, na cabeça e nos sentidos vários o último contorno da embarcação na linha do horizonte…

  • Quem foi Maria?

    Outro dia fiquei alarmada com a possibilidade de ficar demente a ponto de não reconhecer mais quem sou. Pensei: vou escrever para mim mesma. Um diário, talvez possa ajudar a resgatar a minha identidade. Um fio de esperança porque não há garantia de que tal leitura venha a me atrair no futuro: recordar o passado pode nem interessar a essa outra pessoa em que eu terei me transformado.

    Melhor deixar para lá. Afinal, mais cedo ou mais tarde, vamos desaparecer como todos os nossos antepassados, tanta gente que nos precedeu e a quem devemos tanto, mas que já perdemos de vista. Quase nada deles chega até nós, e a maioria do que chega vem como histórias repetidas ao longo de gerações em que verdades e invenções andam lado a lado.

    Só vamos em geral até aos avós, quando muito aos bisavós. Fazemos árvores genealógicas com nomes e datas, mas ninguém sabe quem realmente foi Maria, como pensava, se foi feliz, qual a sua cor predileta, se gostava de feijão.

    Viraremos cinzas. Talvez por isso insistamos em deixar uma marca para a posteridade. Alguns conseguem, nem todos por boas razões. A posteridade é um ente imaginário e real que habita um futuro que não viveremos. Uma quimera que perseguimos e que, como disse o Groucho Marx, nunca fez nada por nós. Ainda assim a desejamos, vá entender. Acho que essa contradição está no cerne do medo que temos de perder a nossa pouca importante individualidade.

    Quando menina tive um diário. Reli e não vi nada de interessante. Eu já fui aquela pessoa, ainda sou, mas também não. Será o mesmo se escrever um novo. Deixar a vida seguir talvez seja o melhor caminho, a demência é mais problema dos outros do que do demente em si. Pode até ser menos doloroso, quem sabe?

  • Fantasias

    — O que foi dessa vez, Noêmia?

    — Sei lá. Não está funcionando.

    — Você sabe o trabalho que me deu arrumar essa fantasia de bombeiro, né?

    — Calculo.

    — E não era isso que você queria? Um bombeiro para apagar seu fogo com uma mangueira enorme?

    — Então…

    — Então, o quê?

    — Mangueira enorme, uma piada…

    — Sem ironias, Noêmia.

    — A questão foi que você não ficou bem de bombeiro, meu amor.

    — Sério isso? Já tentamos piloto de avião, você implicou com o meu quepe; vim de médico e você reclamou da falta de um estetoscópio; inventou um salva-vidas e faltou a boia. Agora a mangueira é o problema. Assim não dá.

    — Tive uma ideia.

    — O que será dessa vez, Noêmia?

    — Super-heróis. Sempre tive atração por super-heróis.

    — Pronto! Só falta agora me vestir de Batman.

    — Não, você está mais para Robin.

    — Que tal, He Man?

    — Inviável, você não tem a “Força”. Tinha pensado no Homem-Aranha.

    — Não acredito!

    — Você até se parece um pouco com o ator que faz o Peter Parker.

    — Nem sei quem é.

    — Começamos a conversar e você já mostra um desânimo danado. É broxante, sabia?

    — Você levou em conta, Noêmia, que aquela fantasia de Homem-Aranha deve dar um calor danado? Está fazendo quase 38 graus.

    — Ligamos o ar.

    — Não vai dar certo.

    — Você não disse que faria tudo para me satisfazer?

    — Mas não me desidratar.

    — Então, o Hulk.

    — O da televisão?

    — Não, o verde.

    — Onde vou arranjar tinta para o corpo? E também vai sujar a nossa cama toda.

    — Pensei também no Homem de Ferro, mas acho que não vai combinar com você…

    — Por quê?

    — Deixa pra lá. Apaga a luz. Vamos dormir.

    — Ei, Noêmia, sabe o que pensei? Posso me fantasiar de Wolverine. O que você acha da ideia?

    — Você está mais para Professor Xavier, querido.

    — Depois não vá reclamar que não quero participar das suas maluquices.

    — Wolverine é demais, meu amor. Deita e dorme.

    — O que foi agora, Noêmia?

    — Pensei na Mulher-Maravilha.

    — Fantasias homossexuais a esta altura?

    — Por quê, não posso?

    — Não vou passar por esse ridículo.

    — Bobagem, você ficaria uma graça de maiô com cinto e uma peruca.

    — Sem chance…

    — E aí, Noêmia, gostou?

    — Foi bom. Mas rápido demais.

    — Mas você não pediu o The Flash?

    — Não era ao pé da letra. A rapidez era só para tirar a minha roupa.

    — Sabe de uma coisa, melhor deixarmos pra lá esse negócio de sexo com super-heróis.

    — Logo agora que eu tinha pensado no Thor?

    — Desisto…

  • A alegria das pequenezas

    — Olha o que eu achei!

    — O que é isso?

    — Um mixer, menina! Um mini mixer! E ainda funciona à pilha. Já pensou? Posso levar para qualquer lugar.

    — Levar? Para onde?

    — Para onde eu quiser!

    — Você só pode estar doida. Tanta alegria por causa de um mini mixer?

    — Ah, e você? Ficou quase uma semana comemorando a caça aos caramujinhos do jardim.

    — Como assim? — perguntou Ana. — Que duelo de esquisitices é esse?

    — Foi a Márcia quem começou — disse Tânia. — Veio com uma conversa de “alegria das pequenezas”.

    — Não foi bem assim! Eu só perguntei se você já tinha reparado na quantidade de coisas pequenas que conseguem deixar a gente feliz.

    — E eu respondi que não fazia a menor ideia do que você estava falando.

    — Pois eu expliquei.

    — Explicou demais.

    As três riram.

    — Ana, eu resolvi prestar mais atenção nessas pequenas alegrias. Não casa, carro, viagem ou joias. Estou falando de um cheiro, um objeto, um hábito, uma coincidência qualquer. Dessas coisas miúdas que aparecem no meio do dia e passam despercebidas.

    — E o mini mixer entrou nessa lista?

    — Entrou! Como não entraria? Pequenininho, leve, à pilha… achei uma graça.

    — Aí ela começou a rir de mim — disse Márcia. — Só que eu lembrei dos caramujos.

    — Ah, não…

    — Ah, sim! Você me telefonava toda contente: “Hoje encontrei trinta!” No outro dia eram vinte. Depois dezesseis. Parecia que estava vencendo uma batalha histórica.

    — Está bem… admito.

    Ana balançou a cabeça.

    — O que a falta de boleto, marido, filhos e preocupação faz com uma pessoa…

    — Ah, faça-me o favor! — respondeu Márcia. — E o seu pijama de bolinhas?

    Ana começou a rir.

    — Não vale.

    — Vale, sim. Você entrou aqui em casa dizendo: “É de plush! É de plush!”, como se tivesse ganhado um prêmio.

    — Eu amei aquele pijama.

    — Está vendo?

    Ana ficou alguns segundos pensando.

    — Quer saber? Acho que vocês têm razão.

    — Sabia! — comemorou Márcia.

    — Espera. Também tenho minhas pequenezas.

    — Agora ficou interessante — disse Tânia.

    — Arroz-doce.

    — Não vale! — protestou Tânia. — Tem que ser uma coisa que surpreenda. Tipo gostar de cheiro de querosene.

    — Você é impossível. Então vamos lá: lençol de quatrocentos fios; controle remoto com pilha nova; aproveitar os restinhos de batom e fazer um blush exclusivo; olhar a pracinha bem cedo, antes da algazarra das crianças; maçã gelada; ônibus chegando na hora; e, claro, meu pijama de bolinhas.

    — Gostei do blush — disse Márcia.

    — Agora é a sua vez, Tânia.

    — Eu?

    — Sim. Quero ver.

    Tânia pensou um pouco.

    — Gosto de entrar no carro e perceber que tem gasolina suficiente. Gosto do cheiro da chuva. Gosto quando minha secretária chega pontualmente.

    Fez uma pequena pausa.

    — E gosto muito de recolher roupa do varal.

    As duas olharam para ela.

    — Não riam. Acho aquilo quase filosófico. Tiro um pregador de um lado, depois do outro, dobro a roupa, coloco no cesto… não sei explicar. Aquilo me dá uma paz enorme.

    Márcia sorriu.

    — Logo você, que fez pouco caso do meu mini mixer…

    — Está bem, está bem. Já entendi.

    — Entendeu mesmo? — perguntou Márcia.

    — Entendi. A partir de hoje vocês não me pegam mais.

    — Quero só ver.

    Dois dias depois, o celular de Márcia apitou.

    Era uma mensagem de Ana:

    “Meninas… descobri um sabonete que tem cheiro de infância.” 

    🌷

  • Qual seu sonho hoje?

    Talvez a melhor maneira de realizar sonhos seja reparti-los em porções diárias. Se sonhar é a realização de desejos, como disse Freud, o pai da psicanálise, até mesmo os que se disfarçam de pesadelos tentam construir novos significados para abrir nossos caminhos.

    O sonho sempre está noutro lugar, ali onde não estou. Ele está no outro lado da montanha, na caída do sol, no ano seguinte, no tardar da maturidade, no horizonte do ideal e assim nosso imaginário viaja para longe do real.

    O encontro marcado com o sonho já produz, por si, prazer.

    O entusiasmo que nos proporciona sonhar nos inebria feito realizar, então, guardamos sonhos sempre as mãos, para que não nos escapem. Quando se realizam, se acabam, como a lua cheia que míngua tão logo atinja sua plenitude.

    Assim como o desejo só se interessa por desejar, o sonho só quer sonhar. Quando mais jovens, aprendemos que adultos precisam ter a sabedoria de adiar as gratificações e a satisfação imediata, que devem plantar com esforço e esperar com paciência para colher. Difícil mesmo é suportar o angustiante tempo da espera, não é à toa que dela, da espera, nasceu a esperança e nos agarramos a ela, na aposta de um ‘Royal street flush’ e lançamos nossa bola para os céus na tentativa de um ´strike´.

    Mas se para viver é preciso plantar e colher todos os dias, não deixe que a fantasia da grande safra do porvir atrapalhe seus planos. Quando “+ adultos” somos, sabedoria é perceber que nunca deixamos de ser crianças, que de maduros só temos a casca e que de imortal só mesmo o inconsciente.

    A vida é uma atleta de alta performance. Corre rápido demais.

  • Vinte Meia Um

    O ano é 2061, não se esqueça disso. Foram essas as últimas palavras do meu chefe depois de ele ter me explicado todo o projeto. Parece que a solicitação tinha partido lá de cima (ele reforçou a informação com o dedo indicador da mão direita apontado para o alto quando me passou a tarefa). O novo dono da revista cismou que queria uma matéria sobre como estaria o mundo daqui a 35 anos. Bem, eu sou o mais novo da redação (em tempo de casa) e não podia recusar um pedido do chefe. Na verdade, acho que foi mais uma ordem. Transmitida com educação, mas uma ordem. Seja como for, nunca foi do meu feitio desrespeitar algo chamado hierarquia. Mais tarde, refletindo melhor, acabei me sentindo orgulhoso de ter sido o escolhido. Afinal, se o doutor Santiago julgava aquilo tão fundamental… De qualquer forma, foi até engraçado essa incumbência ter surgido justamente nessa época. Um dia antes de receber a solicitação, eu havia lido no jornal alguma coisa a respeito de como tinham sido furadas as previsões de um filme lançado em 1991 sobre o ano de 2026. Nesse caso, o futuro já tinha se tornado presente e não era lá muito semelhante àquilo mostrado três décadas e meia antes. Quer saber? Apesar de mais conformado, continuava a achar a coisa toda meio sem graça e sem sentido, inútil até. Especialmente para o big boss, o maior interessado na brincadeirinha. Todo mundo na revista sabia muito bem que ele já tinha 75 anos (embora aparentasse menos). Nesse estágio da vida, já vai ser muita sorte se ele conseguir saber como será o mundo daqui a uma década, essa é que é a realidade. Não é só uma questão de estar vivo. É preciso também estar com saúde, enfim, no gozo de suas faculdades mentais, pra usar uma expressão cortês e um tanto clichê. Enfim… Não tinha mais tempo a desperdiçar com especulações vazias então li alguns livros, conversei com especialistas, entrei em páginas sugeridas pelo Google e fiz anotações. Nutri-me de uma dose substantiva de otimismo e decidi que o mundo futurístico seria um lugar bom pra se viver. Assistindo a todas as besteiras que o homem tem feito ultimamente, não é tão fácil ter essa esperança, mas vá lá, a imaginação (pelo menos ela) (ainda) é livre. Assim, doenças graves não seriam incuráveis em 2061. Transplantes, vacinas, tratamentos, remédios, a medicina continuaria a evoluir cada vez mais, elevando a expectativa de vida humana às alturas. Seria bastante razoável supor que alguém de 75 tivesse a chance real de conseguir mesmo saber como estaria o mundo 35 anos mais tarde. Além disso, a automação e o avanço tecnológico seguiriam seu curso em marcha acelerada, o mesmo acontecendo com a tão falada Inteligência Artificial. Também não dá pra projetar o futuro sem imaginar algo parecido com o que nos é apresentado pelo cinema de ficção científica: naves espaciais, velocidade de informação, robôs inteligentes, aparatos tecnológicos incríveis, computadores falantes, câmeras onipresentes e oniscientes. O texto tomava corpo, e eu me sentia entusiasmado. Perto do fim, um pensamento infeliz me perturbou: já estava com 58 anos e talvez não vivesse pra conferir os acertos de minhas elucubrações. Foi quando reparei no Renato, meu neto de 6 anos. Sentado no chão, ele mexia concentrado em seu tablet. Voltei os olhos à tela do notebook mais uma vez e retomei o trabalho, o prazo dado por meu chefe estava se esgotando.

  • Repensando os provérbios

    Camões diz num soneto que o mundo é feito de mudanças. Isso contraria o Eclesiastes, para o qual não há nada de novo sob o sol. O mais prudente é chegar a um equilíbrio e reconhecer que as coisas mudam para permanecer iguais. Ou se tornam iguais a cada vez que mudam.

    Se as coisas se transformam – mesmo mantendo sua essência –, transforma-se também a linguagem. Os provérbios, por exemplo. Eles são generalizações, e como tais expressam verdades aparentemente imutáveis. Mas será que não têm de se adaptar à evolução dos tempos? Sempre é possível, nem que seja por um artifício poético ou irônico, vê-los com nova roupagem.

    Diz-se (ou melhor, Hobbes disse) que o homem é o lobo do homem. Ora, hoje ele é muito mais logro do que lobo. Nosso propósito é antes enganar do que devorar o semelhante. Passamos-lhe a perna nos negócios, nos concursos, nas relações sentimentais. E queremos que ele se mantenha vivo para presenciar nossa vitória – o que seria impossível caso o triturássemos entre caninos esfaimados. Retifiquemos, então: “O homem é o logro do homem.”

    Vivemos tempos pragmáticos e pouco dados a especulações filosóficas. A especulação que nos interessa hoje é a financeira, por isso proponho esta atualização para o axioma de Descartes: “Penso, logo invisto.” Trocar “existir” por “investir” ajusta-se melhor a uma época na qual se cultiva pouco o ser e se mede o valor das pessoas pelos valores que elas têm no banco.  

    “O que os olhos não veem o coração não sente” é outra sentença que não bate muito com a realidade – mesmo porque pode ser facilmente contestada. Suponhamos que nossos olhos não vejam um buraco à nossa frente. Fatalmente cairemos nele, e duvido que em tal circunstância o coração não sinta e não responda com uma galopante taquicardia. Mudemos, pois, esse brocardo para alguma coisa como: “O que os olhos não veem pode nos fazer tropeçar.” Simples, prático, irrefutável.

    “O futuro a Deus pertence” também deve ser visto com reservas, pois não expressa uma verdade universal. Um político nepotista, por exemplo, dirá com bem mais exatidão: “O futuro aos meus pertence.” E quem pode dizer que ele está errado?

    A atual onda ecológica torna suspeita a afirmação segundo a qual “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”. Ter um pássaro na mão sugere a atitude politicamente incorreta de comê-lo ou engaiolá-lo, enquanto que deixar os dois a voar concorre para a preservação da espécie. É um gesto de respeito à vida, que os ecologistas e os poetas agradecem. Proponho, então, uma variante menos ofensiva à Natureza (se algum grupo preservacionista quiser aproveitá-la, fique à vontade): “Um pássaro na mão não vale a sua extinção”. Para terminar, sugiro que se substitua o ingênuo “Quem sai aos seus não degenera” por algo mais condizente com a natureza humana. Levando em conta a força da genética, troquemos o verbo e passemos a dizer: “Quem sais aos seus não se regenera.” O povo há muito reconhece essa verdade, traduzida no conhecido provérbio: “Pau que nasce torto, morre torto.”

  • Zé das Estrelas

    E o Zé deu de olhar as estrelas. Foi subir no telhado uma vez, e não acabou mais. Tinha descoberto a América. O Zé ficou encantado com as estrelas que ele viu no céu. Como se nunca tivesse visto. E olha que eu vivo com o Zé há quase cinqüenta anos. Ele sempre foi uma pessoa normal. Até que deu de olhar as estrelas.

    Não dorme mais na cama, o esquisito. “Faz tempo que eu quase não dormia, Cida”, ele diz. E é verdade: ele só dormia de dia. De noite ficava futricando, não tinha sossego na cama. Ainda bem que o Zé deu de olhar as estrelas. Fica lá em cima do telhado, de boca aberta, como se quisesse comer todas as estrelas do mundo.

    Hoje eu não agüentei, peguei e fui lá com ele. A nossa casa não é muito alta, é só um chalezinho de madeira; o telhado é que é inclinado demais, mas não é difícil subir. O Zé segurou a escada, eu subi devagar, segurando bem. Fiquei toda tremendo lá em cima, enquanto o Zé subia; depois me arrastei pela beirada, até a cumeeira. Fiquei lá em cima abraçadinha com o Zé, a noite inteira, olhando as estrelas.

    Sabe, eu posso cair do telhado. O Zé pode cair do telhado. Mas vai ser uma morte feliz, se a gente morrer. O Zé aponta uma estrela, só com os olhos, impossível não seguir os olhos dele. É como se o Zé fosse um santo fazendo um milagre. Eu só não estou seguindo os olhos do Zé, quando estou mergulhada neles. Tantas estrelas lá dentro. Não é à toa que o Zé ficou maravilhado.

  • Um trabalho de verão

    Ele tinha um trabalho a ser feito pelo seu primeiro ano de faculdade de jornalismo. Aliás, o segundo em sua segunda semana de aula. O assunto era: escrever uma história curta sobre algum acontecimento marcante de sua vida, em terceira pessoa. Mal sabia por onde começar, coitado. Viveu tantas coisas em seus 34 anos, mas há muito tempo, apenas lutava pela sua sobrevivência, feito um leão na selva cercado por uma alcateia de hienas. Pensou em escrever sobre um de seus primeiros sonhos que teve quando criança, que era ser jogador de futebol, porém os carrinhos e os empurrões prepotentes que sofreu de alguns adultos ao curto tempo de sua infância, fizeram com que as pernas de seus sonhos bambeassem e a arbitragem da vida o colocasse para fora dos gramados verdes. Pensou em escrever sobre o seu primeiro beijo, ou sobre amores platônicos que teve em salas de aula em sua adolescência, porém como era o mais velho da sala, não quis arriscar em ser interpretado como um demodê piegas e ser motivo de chacota e bullying nos próximos quatro anos. Martelou em escrever sobre as tardes de domingo que sempre passa com sua mãe, (o único dia da semana que consegue visitá-la) aliás, por ele, visitaria sua amadíssima com mais frequência. Porém a urgência de seus dias o impede de sentar calmamente à mesa da cozinha em que lhe espera sempre com um bolo de fubá quente e o café preto 3 corações em seu acolhedor apê. Pensou em escrever sobre a viagem que fez recentemente a São Thomé das Letras/MG, porém teve receio de querer se mudar para lá em definitivo e viver como um hippie, comercializando artesanatos e suas poesias, sob efeitos de cogumelos azuis, ocasionando assim o trancamento de seu curso. Melhor não. Pensou em escrever sobre como foi o seu dia anterior. Por mais que ele saiba que todos os dias são especiais e que devemos viver intensamente cada dia como se fosse o último, nada de tão especial ocorreu naquele dia. Talvez ter pago seus boletos antes do vencimento e poder ter uma boa noite de sono sem dever nada a ninguém, tenha sido um ato heroico e vitorioso desse cidadão do proletariado que tanto apanha todos os dias desse pugilista chamado Capitalismo. Ele pôde então naquela noite sonhar mais uma vez. Ele pensou. Pensou. Pensou. Pesou tanto a memória de arquivos do notebook de sua cabeça, que resolveu então fechar a tela do que foi passado, jogou uma água fresca em seu rosto já bem oleoso de tanta transpiração por falta de inspiração, vestiu sua camiseta preta desbotada do Pink Floyd e partiu rua afora, sob uma tarde ensolarada e quente de sábado, para enfim na noite de sua apresentação, ler para todos que aquele dia foi tão marcante quanto as marcas de verão que nos deixam em algum momento na epiderme de nossas vidas.

  • O segredo da boa colheita

    Ao entardecer, quando o estranho passou, meu irmão e eu abrimos-lhe o crânio com o grosso ramo de videira que usamos para ocasiões semelhantes. Um único golpe, preciso e sem fúria, nada mais. O chapéu que o estranho usava empoleirado na cabeça rolou alguns metros adiante. Meu irmão o apanhou do barro vermelho e o pôs na sua própria cabeça. Será um ano bom, produtivo e faremos um bom dinheiro — isso foi o que concluímos, meu irmão e eu, apenas com uma troca de olhares.

    Arrastamos o estranho até o paiol e acendemos a lamparina de óleo. A luz embaçada fez brilharem as pás dos ventiladores de teto, espantando os morcegos. Arregaçamos as mangas e estudamos por alguns minutos o corpo inerte do estranho. Era um homem de quarenta e poucos anos, forte e parrudo, farto de carnes, gordura e músculos. Um perfeito fertilizante natural. Abrimos uma vala funda ao pé de uma videira e lá o enterramos com cuidado, como manda a tradição nas vésperas da colheita. Assim, o sangue drenado do corpo sem vida do estranho manchará as uvas, suas carnes nutrirão as raízes e fortalecerão as gavinhas e seus ossos darão vigor novo a esta terra queimada pela névoa e pela geada. A vinha crescerá até que o suco flua, nobre, único, virtuoso de sua fermentação secreta.

  • Regulação emocional

    Há um aquário dentro do meu peito. É uma caixa de vidro invisível onde as emoções nadam como peixes de cores e tamanhos diversos. Alguns pequenos e ágeis, prateados como a alegria de uma manhã de sol depois da chuva. Outros são lentos, escuros, quase como enguias que se escondem nas pedras, como a mágoa que insiste em não desgrudar do fundo.

    Hoje pela manhã, acordei com um peixe-elétrico no aquário. Era a ansiedade, nadando em círculos rápidos, fazendo as plantas do equilíbrio balançarem como se um tremor as atingisse. No café, quase derrubei a xícara. As mãos pareciam pertencer a outra pessoa. O peixe-elétrico soltava descargas: “Você esqueceu de responder aquele e-mail importante”, “E se a reunião das dez der errado?”, “O mundo é um lugar perigoso e você não está preparado”.

    Antigamente, eu teria jogado mais comida no aquário. Comida envenenada: rodadas de pensamentos catastróficos e repetições mentais, como uma tempestade que turva a água completamente. Ou então, tentaria pescar o peixe-elétrico à força, com as mãos nuas, só para levar um choque mais forte e assustar todos os outros peixes.

    Mas o tempo me ensinou a respirar antes de agir. Parei diante da janela e observei o vaso de espada-de-são-jorge sobre a mesa. Inspirei fundo, como se pudesse oxigenar a água do aquário por dentro. Nosso centro emocional não se trata de matar o peixe-elétrico, mas sim me alertar e manter vivo.

    Essa “Regulação emocional” não é uma guerra, é jardinagem subaquática. É cuidar para que o peixe da raiva não cresça tanto que engula o peixinho da serenidade. É não alimentar em excesso o dragão-marinho da autocrítica, que adora devorar os coloridos cardumes da autoestima.

    Ao longo do dia, usei as ferramentas simples do regente de aquários:A rede da pausa: O filtro da perspectiva, e as pedras do ritual.

    Não somos donos das emoções que nascem em nós. Elas surgem como peixes num viveiro. Somos responsáveis pela qualidade da água, pelo equilíbrio do ecossistema interior. Às vezes, um peixe triste precisa nadar até o fim. Ao final do dia, o aquário não está cristalino, porque a vida não é assim. Mas a água está mais translúcida e por isso consigo ver o fundo, minhas convicções e meus valores. O peixe-elétrico ainda está lá, mas agora ele nada mais devagar, sem descargas. Ao lado dele dança o peixe-dourado da gratidão, e assim aprendemos que a regulação emocional não é sobre controle rígido. É sobre criar um habitat onde todos os peixes, até os mais escuros e pontiagudos, possam coexistir sem envenenar a água. É a arte sutil de ser, ao mesmo tempo, o aquário, o peixe e o cuidador. E seguir nadando, mesmo quando a água parece escura, basta respirar, esperar e cuidar.

  • O entregador

    O café esfriava enquanto eu assistia à saga do entregador, em frente à portaria, tentando descarregar do furgãozinho um pacote grande e pesado. A situação era cômica: ele andava de um lado para o outro, movia a encomenda pra lá e pra cá, e terminava sempre com a mão no queixo, pensativo. Por certo, não tinha carrinho de transporte nem experiência.

    O porteiro não deixou a guarita e certamente nem pensou em ajudar. Aliás, complicaria um pouco a vida do coitado, pedindo todas as referências possíveis para atrasar ainda mais o recebimento da encomenda, com cara de quem comeu e não gostou. Ele é bastante conhecido no condomínio, faz o tipo que reclama de tudo. Arrisco a dizer que se ganhasse na Mega-Sena, reclamaria três dias seguidos por ser obrigado a se apresentar no Banco para receber o dinheiro. Depois, reclamaria dos familiares e amigos, eternos pedintes. Depois, é óbvio, arrumaria outra e mais outra e mais outra coisa para reclamar. Um reclamante assíduo, crônico. Confesso, às vezes me pareço com ele.

    O velho do 101 apareceu, retornava do passeio matinal com o seu companheiro canino. Pois bem, vendo a situação do entregador, se ofereceu para ajudar, mas o cachorro pulou para dentro do furgão e causou um baita alvoroço. Imagino que quase nada lá dentro se manteve no lugar, o próprio furgão chegou a balançar com o cão pulando entre as encomendas. Os dois demoraram um bocado para capturá-lo e, logo depois, o entregador agradeceu e dispensou a ajuda com um sorriso amarelo. É claro, não consegui ouvir palavra alguma, mas me era tudo tão nítido que eu poderia narrar a situação como se estivesse sentado o tempo todo no banco do carona.

    Quando lembrei do café já era tarde. Pois é, talvez eu tenha perdido a hora bisbilhotando a vida alheia. Nem sequer olhei para o relógio, peguei rápido a mochila e fui para o trabalho. Como de praxe, o porteiro não respondeu ao meu bom-dia. Quando passei pelo furgão, ainda estacionado na frente do prédio, percebi o entregador empilhando caixas lá ao fundo e, estampado com letras garrafais, na incômoda e pesada encomenda, o meu nome.

  • Serena

    Serena entrou no meu mundo por acaso – se é que posso acreditar em acaso; não estou tão seguro assim. Eu não pretendia adotar, essa era uma máxima que construía na minha cabeça pelo fato de ter um primo adotado que sofreu com vários transtornos por não o aceitar. Wilson, o nome dele, tentou se matar umas duas vezes, mesmo recebendo o apoio dos meus tios para tudo. Ele era depressivo em grau máximo e bipolar. Mas isso agora não vem ao caso… Voltemos: desde muito cedo, queria ter a minha família, com filhos biológicos. Mas Nazaré apareceu. Ela veio trabalhar em casa, recém-chegada do interior, e nós não sabíamos que ela estava grávida. Ela escondeu até onde pôde, mas logo começaram os enjoos, e Nazaré, revoltada com o pai da criança que esperava, dizia que iria abortar. Flávia e eu não deixamos. Foi um deus nos acuda, porque Nazaré falava que não queria ser mãe aos dezessete anos; que sabia da vida difícil que levara, com oito irmãos, no interior; que mulher parida é desprestigiada pela sociedade, como sendo mulher da vida ou algo do tipo. Ficávamos no seu pé todos os dias, convencendo-a de que uma criança é uma dádiva, uma bênção, com todos os argumentos que tínhamos. Foi difícil, quase impossível de segurar a revolta da mãe. Então, me prontifiquei a ficar com Serena – o nome que escolhemos; já um prognóstico para serenar as nossas vidas, tão agitadas –, disse a ela que a menina seria muito bem-criada, teria, certamente, uma vida bem diferente da que Nazaré teve. Nazaré aceitou a proposta, sempre reclamando por estar grávida, pelo peso e tudo o mais para fazer as tarefas de casa, das quais a dispensamos. Veio a sua irmã Lucila para ajudar nos afazeres domésticos. Serena nasceu, e, como esperado, foi enjeitada pela mãe; sequer recebeu a primeira amamentação. Logo, Flávia e eu a pegamos para criar, nos idos de 80, e registramos como nossa filha, com o inteiro consentimento da mãe – o que se chama de adoção à brasileira. Não havia essa burocracia que há hoje. Serena caiu perfeitamente em nossos braços, arrebatados que estávamos por sermos pais. Depois de Serena, felizmente Flávia engravidou duas vezes, e tivemos Serginho e Paulo Filho. A família estava completa. Nazaré continuou conosco e passou a ter uma relação melhor com a filha biológica, ainda que não quisesse ter as responsabilidades de mãe. Nazaré marcava uma diferença grande na relação com a pequena, que a amava. Serena hoje só nos dá orgulho: é formada em engenharia pelo ITA e trabalha num centro de tecnologia em Orlando. De seis em seis meses, ou ela vem nos visitar, ou vamos vê-la. O amor é infinito; não cabe no peito e no pensamento. Ela é minha princesa e meu encantamento. Nasceu justamente para ser a nossa filha amada.

  • Adalberto, O Invejoso

    Dizem por aí que o Sr. Adalberto de Castro venceu na vida. Conforme seu obituário, esse dedicado empresário do setor têxtil aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho. Ainda menino, começou a trabalhar como engraxate. Sem muito tempo para frivolidades, abandonou os estudos e foi tentar a sorte na cidade grande. Apesar dos inúmeros percalços, tornou-se um reverenciado empresário, dono de várias indústrias espalhadas pelo País. Para a opinião pública civilizada, um visionário empreendedor. Para seus bárbaros detratores, um capitalista sem escrúpulos.

    Não se sabe, exatamente, o que levou Adalberto a tal precoce desfecho. Dizem que trabalhava muito. Era deveras devotado à administração de suas empresas. Sentia prazer em dar ordens a seus subordinados. Mas, nos últimos anos, os negócios já não iam mais de vento em popa. Por certo, tudo piorou desde que o atual governo tomou posse! Afinal, suas qualidades como gestor e administrador eram irrefutáveis. Com o tempo, as duplicatas acumulavam-se, os fornecedores exigiam a quitação de suas dívidas, os gerentes de banco, antigamente tão solícitos e atenciosos, já não o tratavam com a mesma deferência. Ainda assim, continuava a ser um distinto cidadão, pois aos aduladores de sempre interessavam menos os balanços patrimoniais de suas empresas do que o status de sua persona.

    O que poucos sabiam, no entanto, é que Adalberto era um homem invejoso. Não tinha inveja de seus concorrentes, visto que nenhum deles dispunha do mesmo tino comercial que a sua intuição foi capaz de agraciar-lhe. Para surpresa até mesmo dos mais íntimos, o que seus penetrantes olhos escuros não revelavam era o ciúme que nutria das pequenas conquistas de seu primo Felisberto Leão. Homem simples, de temperamento tranquilo, com aquele olhar irritante de um bovino em engorda, Felisberto representava tudo o que era, simplesmente, inatingível para Adalberto. Tinham quase a mesma idade, costumavam brincar juntos quando crianças. Felisberto era daqueles medíocres que tão comumente conhecemos aqui e alhures. Não era bom nos esportes, não tocava nenhum instrumento musical, não sabia dançar. Mas teimava em ser feliz! E o pior: gostava de viver naquele fim de mundo! Não tinha grandes pretensões, não pensava no amanhã, não planejava seu futuro.

    Esse comodismo indolente de Felisberto irritava, profundamente, Adalberto – pessoa inquieta, insatisfeita e gananciosa. Após a mudança deste para a capital, os dois parentes afrouxaram o laço de sua antiga amizade. Raramente se viam, mas o bem-sucedido empresário recebia, com certa frequência, notícias de seu primo por meio de sua irmã mais velha. Nada o deixava mais amuado do que um compromisso indelegável em sua cidade natal. Mas as suas origens teimavam em se revelar na curiosidade com que perguntava de seus antigos conhecidos. Como quem tentasse manter velhos sentimentos enterrados sob a fleuma de um rico homem de negócios, Adalberto lutava para manter uma certa distância de seu passado pobre e interiorano.

    Tudo isso fora, enfim, desfeito quando a notícia da morte de Adalberto de Castro difundiu-se por aquelas duas cidades. Passado e presente convergiram para as exéquias daquele nobre senhor. Entre lamentos e lamúrias, suas qualidades eram ressaltadas e seus defeitos, ignorados. Todos queriam valorizar o tipo de relação que haviam tido com o falecido – não sendo Felisberto Leão uma exceção entre eles. Para o saudoso primo, Adalbertinho sempre havia sido seu melhor amigo. Esteio moral e financeiro da família Castro, a irmã e seu marido esforçavam-se, também, para mostrar aos alcoviteiros de plantão o quão irreparável seria aquela prematura partida. Mas, como tudo na vida, aquele espetáculo fúnebre chegava ao seu fim. As máscaras eram retiradas, o figurino era guardado, o cenário era desfeito – e o morto era enterrado.

    De volta a sua pequena cidade, Felisberto se dirigiu, como de costume, ao boteco do Seu Manuel. Não querendo mais rememorar lembranças do querido amigo, já que as almas também devem descansar, resolveu abrir o jornal local para inteirar-se a respeito das novidades municipais. Para seu desgosto, o diário havia feito um grande especial sobre aquele filho ilustre. Que piegas, meu Deus! Sua impressão era de que o mundo havia parado para lamentar a morte de Adalberto! Mas já não era mais possível suportar tamanho luto! Basta! A vida exigia resignação e perseverança dos que ficavam! Sendo assim, após revisitar os tantos feitos empresariais do finado, atirou o jornaleco sobre uma das mesas e, entre dois goles de uma caninha, exclamou resoluto:

    — E, além de tudo, aquele filho da puta era feliz! Também pudera! Com todo aquele dinheiro! – Era o desabafo de quem havia vivido sempre à sombra do primo famoso. A partir de então, liberto dos grilhões que o finado havia lhe imposto, nunca mais falou de Adalberto. Leve como uma pluma, sua mente e seu coração foram purgados da inveja que sempre sentiu do endinheirado parente.

  • Desertos

    Os dois esqueletos de um condomínio em construção, voltados para o oeste, acolhem o vento de inverno que rasga as redes de proteção, agora de um laranja desbotado que denuncia o esgotamento de todos os prazos. Assovia por suas entranhas de tijolos cinzentos, cor de sem vida, e ecoa pelos corredores e escadarias e as futuras dependências de 5000 m2 e 800 quartos, o básico de que precisam para viver os que chegarão flutuando sobre tudo e todos, qualquer dia destes. Com suas ideias equivocadas sobre humanidade, graus e degraus.

    De alto a baixo, outra rede de malha fina, como um véu esbranquiçado e vazado de poeira, protege os passantes dos estilhaços de argamassa e blocos, enquanto balança como se fosse um fotograma daquele velho filme sobre prédios que navegam o mundo da contabilidade, do Monty Phyton. A manta que torna invisíveis os corpos que despencam dos andaimes e desaparecem no disco colorido das estatísticas.

    Cá embaixo, neste universo ordinário em que as vidas comuns se colidem, o funcionário baixinho com a aba do seu boné voltada para trás orienta a entrada e saída dos carros no estacionamento junto do metrô. Nos intervalos, dá uma leve polida na sua Mercedes, um Monza Hatch azulado em tons diversos por retoques de spray, e ajusta com chaves de fenda duas caixas de som enormes no espaço do bagageiro. Fala ao celular com sua mulher sobre a feijoada que ela irá deixar no forno, antes de sair para o turno de sábado num hospital na Freguesia, do outro lado da cidade. Coça o rosto cavoucado da idade, passa a flanela para tirar um cisco do teto amassado do carro. Olha para chão junto ao muro e sorri satisfeito. Um sabiá come a quirera espalhada sob uma minúscula edícula que ele tinha arranjado com pedaços de tijolos e uma cobertura de plástico. Um trem emerge por sobre o pontilhão e para na estação do outro lado da avenida. O sabiá estaca por um segundo, um grão suspenso no bico. Não porque o estrondo metálico das rodas sobre os trilhos o incomodasse, mas porque ele percebeu que aquele trem hoje chegara com um minuto de atraso. Em seguida continuou com suas coisas de sabiá.

    O mato cresce sob alguns automóveis abandonados nos fundos do estacionamento, esse deserto, como são desertos as rodoviárias, como é deserto a paisagem daquele velho que fuma, debruçado meio corpo na janela do sobrado espremido entre dois edifícios, do outro lado da rua. Uma senhora desce vagarosamente a rampa do mercado, a bengala na mão esquerda, enquanto com a direita tenta conter o carrinho abarrotado de compras. Elegante, usa sapatinhos cor de rosa e um conjunto de calça e blusa na cor azul turquesa. Colar e brincos de pérolas e anéis prateados nas duas mãos. Uma mulher de cabelos encaracolados vem em seu socorro até que ela consiga sentar-se em um dos bancos perfilados junto a porta de saída. Recupera o fôlego, ergue a cabeça e me olha desolada, como se ponderasse sobre a minha inutilidade de observador. Eu penso em lhe dizer que naquele momento eu rascunhava uma história que iria abalar os alicerces da literatura universal, mas reconsidero. Não é aconselhável dividir segredos com estranhos.

  • Poema #74: ( )

    Suspenso na tarde
    como uma lâmpada queimada
    num porão deserto,
    figura o lado esquerdo
    de um parêntesis aberto.

    Seu estado resulta
    do itinerário de sombras
    em que um homem se perde
    na solidão de seus próprios passos,
    esquecidos sequer sem deixar uma marca.

    Sua abertura demonstra
    a imperiosidade do erro
    que determina sempre
    que as flores se abram para cumprir
    seu papel de beleza e de decomposição.

    O parêntesis aberto no escuro
    não é senão a necessidade
    de se sair do estágio de clausura,
    quando se esgota (ou assim se imagina)
    a fonte de oxigênio íntimo do ser.

    Mesmo quando já se sabe
    que na asfixia de ele estar fechado
    sobrevive pelo menos a sua integridade,
    e abri-lo significa a dispersão da energia
    que ele guarda de si para si como um transistor.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #03: Magia

    O outono deixa cair seu manto branco sobre as montanhas
    Nada mais é nítido, nada mais é real.
    Tudo vira sonho .
    Há magia sob o tecido d’água que misteriosamente pede aconchego.
    Todos são um. Confundidos, ofuscados.

    O outono salpica a noite com estrelas tantas
    O olhar se perde, tudo parece sonho.
    Há magia sob o céu bordado, que misteriosamente provoca suspiros.
    Todos são encantados. Confundidos, ofuscados

    O outono desenha montanhas azul-marinho guardando a cidade
    Nada mais é nítido, nada mais é real.
    O olhar é impedido, tudo parece sonho.
    Há magia nos limites, que misteriosamente convidam à introspecção.
    Todos são iludidos. Confundidos, ofuscados.

    O outono exibe luares que emudecem
    Tudo é nítido, tudo parece sonho.
    Há magia sob a luz delicada, que misteriosamente desperta amantes.
    Todos são tocados. Confundidos, ofuscados.

    O outono azula o dia, clareia até a cegueira
    Tudo é perturbadoramente nítido, tudo é real.
    O olhar é indiscreto, nada é segredo.
    Há magia sob a luz, que misteriosamente revela.
    Todos são desprotegidos, todos são desvendados.

  • Atonais

    Um frango feliz, estampado numa caixa de nuggets.

    Era o que Zími pensava sobre quase todas as pessoas que conhecia.

    E essa imagem bizarra virou uma camiseta usada por sua parceira musical Mila Cox.

    A sensação de certa segurança e conforto que vivia nesse ano ainda não era familiar o suficiente, A sua paranóia consistia no medo que tinha de voltar às condições precárias em que vivia até o ano anterior.

    Zími beirava os cinquenta anos, e entendia que atualmente sua faixa etária poderia significar o fim da linha, ou alguém que resistia a um declínio mais triste.

    A qualidade de vida dependia mais do que nunca de uma segurança financeira insustentável para a maioria.

    Essa maioria se recusava a pensar.

    Eram os frangos felizes na caixa de nuggets.

    Então ele entrou no apartamento que eles dividiam na Rua da Glória, e a viu com a camiseta.

    Estava sentada no sofá assistindo youtube na TV.

    Mila Cox tem vinte e três anos.

    A vizinhança especula muito, mas ninguém sabia nada sobre eles.

    Zími achou a camiseta dela legal, mas nem sabia que Cox havia se inspirado em algo que ele havia comentado usando o frango para ilustrar a cena descrita.

    Zími sempre voltava da rua com o saco cheio. Vestia uma camiseta gasta do Husker Dü, e falou: “O inferno é acordar e perceber que o mundo ainda é o mesmo.”

    Ela respondeu: “Mas pelo menos algumas coisas loucas aconteceram num período curto de tempo. Temos uma banda chamada Crop Circles, e quando escolhemos esse nome, era impensável que Donald postasse aquela foto dele com o ET.”

    Zími entrou no banheiro, e olhou no espelho enquanto mijava.

    Ele sabe que a grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana.

    Sabia também que uma tumba mais fria e úmida que os quartos de pensão em que viveu até o ano anterior era o destino inevitável de todos.

    Mila Cox agora fazia café e Zími captou o aroma enquanto lavava  as mãos.

    Ambos desconfiavam que os dois são autistas, mas nunca falam do assunto.

    Preferem saborear silenciosamente a delícia de não serem o frango na caixa de nuggets.

  • A Copa das geladeiras

    Existem fenômenos que a ciência ainda não conseguiu explicar.

    As pirâmides do Egito.

    A matéria escura.

    O motivo pelo qual abrimos a geladeira durante os jogos da Copa do Mundo.

    O melhor é que todo mundo faz isso. Se você está assistindo a Copa do Mundo com um grupo em sua casa, veja bem se não é assim mesmo.

    O jogo está empatado, faltam três minutos para acabar, o atacante avança pela direita, o estádio inteiro prende a respiração… e quem está no meio do sofá empurra os outros e se levanta para verificar se, por acaso, surgiu um pedaço novo de queijo desde a última inspeção realizada há exatos quatro minutos.

    Outro, torcedor fanático, rói as unhas.

    A amiga, que não entende nada de futebol, caminha pela sala torcendo as mãos.

    Independentemente do método escolhido para lidar com a tensão, mais cedo ou mais tarde todos acabam diante da geladeira.

    Lógico que são pessoas íntimas, mas, em circunstâncias normais, nenhum deles mantém uma relação tão próxima com a minha Samsung Duplex.

    Quanto mais decisivo o jogo, mais frequentes as visitas.

    E tem inserções específicas por perfil:

    – O fiscal de refrigerante, que conta quantas latinhas ainda sobraram;

    – o explorador de potes, que abre recipientes à procura de algo que não sabe nem dizer o que;

    – o supersticioso, que procura por um raminho de quatro folhas na gaveta de hortaliças;

    – e o peregrino da luz branca, que apenas contempla o interior da geladeira em silêncio, como quem procura respostas existenciais entre a margarina e o pote de azeitonas.

    Na final da Copa, a porta da geladeira passa mais tempo aberta do que fechada.

    Talvez a Copa não revele apenas como torcemos.

    Revele como esperamos.

    Porque diante da ansiedade, da incerteza e dos noventa minutos que parecem eternos, fazemos o que os seres humanos sempre fizeram: procuramos conforto.

    Alguns encontram na fé. Outros na estatística.

    Nós, brasileiros, procuramos na geladeira.

    E, quase sempre, encontramos apenas a mesma garrafa de água que já estava lá no primeiro tempo.

    Mas voltamos.

    Porque a esperança, assim como a Copa, é uma coisa que se alimenta sozinha.

  • Voos mais altos que nós mesmos

    O piso são nuvens; entre o céu e a terra, tal qual um dito rodapé, eis o cinturão cintilante que traz a cor das bagagens, no compartimento acima da cabeça e no nível do pé: laranja e amarela. Sigo fotografando estrelas sobre o oceano, a 12km de altitude, alaranjando a escuridão que me faz perceber Avior brilhando perto da ponta da asa metálica que me atravessa a madrugada e tantos tempos.

    Após turbulências tantas em terra, céu de brigadeiro, enfim.

    Enquanto isso, sem porto, me aproximo do lugar que meu pai me guarda. Trago a alma leve; no clarear do dia, Romeu e Julieta, versão Los Hermanos, chega-me ao coração pelos ouvidos.

    Tudo se ajeita depois das tempestades. A vida é a urgência das coisas extraordinariamente simples do dia-a-dia.

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