A cortina se abre. No palco, um homem come uvas. O público aguarda. A publicidade anunciou que era a melhor peça da temporada teatral da cidade. O homem chupa uvas. Os críticos elogiaram a engenhosidade do diretor, a sutileza da atuação, a trama tão bem engendrada. O homem mastiga uvas. “Impressionante!”, publicaram os jornais, revistas e sites da internet. “Ação sem limites, com ritmo e intensidade”, declarou a seção de teatro do Jornal da Manhã, logo após a noite de estreia. O homem termina de chupar as uvas, restando apenas uma. Ao levá-la à boca, a uva reage. Em saltos frenéticos, atinge o homem no rosto, na virilha, na nuca. Voa para longe, estanca para tomar impulso e, com a velocidade de um raio, dispara na direção do ator e perfura o seu crânio entrando pelo olho direito. Silêncio. O público reage, levanta-se e aplaude freneticamente. Cai o pano. Da uva rebelde nunca mais se ouviu falar.
Crônicas Cariocas
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As uvas
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Poema #05: a vida é um doce
em frente à rua
um senhor passa
com seu carrinho de doces
e um radinho tocando:
“doce doce doce a vida é um doce doce mel…”
os olhos de minha lembrança
rolam
feito bolinha de gude encaçapando
o buraco mais fundo chamado
túnel do tempo
e percebo
há quanto tempo
já não saboreio mais
o doce -
Noites sem fim
Estou desde às 23h30min acordado. Dormi praticamente duas horas. Já são 4h30min, e nem um sinal de sono. Esboço bocejos ritmados, como se meu corpo fosse se render. Vejo meu filho e minha esposa dormindo plenamente e eu reflito sobre a beleza e a aflição. Logo mais irei ao trabalho, às 7h. Como todos os dias, receberei reprimendas do patrão, que nunca está satisfeito com o trabalho – e ter de suportar isso com insônia é a pior das dores. Aliás, penso que a insônia é uma combinação, desta vez, com os esporros que levei e a saúde desregulada. O Dr. Josias não tem apreço pelo bem-estar da sua equipe. Não trabalha como os novos advogados, que, na sua maioria, prezam pela saúde mental. Estamos cheios de colegas com depressão, burnout e ansiedade. É o maior sacrifício para que ele conceda férias. Gianini está há mais de um ano sem tirar, e o pior, ela vai vender parte das férias agora, para, depois, passar alguns dias em casa. Tudo isso só me complica, porque vira uma bola de neve. À medida que deixo de dormir, penso que o organismo se acostuma. Só me lembro, nessas horas, do desespero de meu pai, doente de câncer, por não ter conseguido dormir durante a noite. Quantas ele passou em claro… Chorava ao perceber que o sol nascia e não tinha dormido nada. Estou no mesmo caminho. Já tomei melatonina e relaxante muscular, e nada. São pelo menos três noites seguidas de insônia; desta vez, porém, nem mesmo conseguir pregar os olhos por uns instantes. O dia não rende. Você pode ser, inadvertidamente, um sujeito mal-educado e ranzinza. Peço desculpas quando um fato assim acontece. Ontem mesmo, ao dormir cerca de três horas à noite, fui ríspido com um colega que queria tirar uma dúvida processual. Logo me arrependi profundamente e pedi-lhe desculpas, colocando a culpa na falta de sono – só não sei se surtiu efeito. Agora, no tempo em que escrevo, já se passou meia hora. Devo estar em pé já, já, e disposto, às 6h30min. Meu filho vai demandar a minha atenção, como todos os dias o faz pela manhã: “Papai, me ajuda nisso ou naquilo!”. Tenho de preparar a sua farda, a lancheira e a mochila, para que ele, sim, passe um dia ameno e sem percalços. Minha esposa acordará em cima da hora de ir para o trabalho, com a desculpa de ter dormido mal – quando percebo que ronca ao meu lado. Nesse momento, penso na existência, nas possibilidades de mudança, de como poderia ter uma vida mais tranquila e sem preocupações exageradas. Além do mais, sei que viver assim é não viver. É passar pela vida, simplesmente. Meu organismo não desliga. Não paro de pensar, a mente é inquieta, desde a juventude. Dormir, então, está fora de cogitação. Quando o faço, por descuido, é como o céu que se abre para eu deitar, solene, absoluto. O sono é uma espécie de nuvem fugaz. Há uma maneira de agarrá-la? Quero, ainda, quando puder, me derramar na minha rede e dormir sem fim.
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Um Fim de Tarde
A agitação urbana de um fim de tarde qualquer esconde a beleza dos detalhes de uma rotina, por vezes, sufocante. O encontro involuntário de corpos esconde histórias de superação e de fracasso. Rostos pálidos, corpos suados, almas vazias. A garotinha olha pela janela do vagão. Alguns ficaram na estação! Não houve tempo, mas haverá uma segunda chance. O silêncio dos que entraram convida-me à observação. São Bento, Sé, Japão-Liberdade. Mais pessoas entram no vagão; outras tantas ficam pelo caminho. Meu destino está longe, ainda há tempo para reflexões.
O jovem à frente carrega em sua mochila diversos sonhos. Em meio a tantos livros, suas habilidades vão sendo, aos poucos, lapidadas. Em breve, alguém poderá até pagar por elas. Mas, hoje, o dia não foi dos mais gratificantes. Seu rosto expressa a decepção por uma resposta mal formulada. A única pergunta que não poderia ser feita foi, justamente, uma das escolhidas por seu algoz. Uma só questão capaz de soterrar o esforço de uma noite em claro. Sim, apenas uma noite! Convenhamos: outros afazeres eram, igualmente, inadiáveis. Mas a resignação é o remédio mais barato com que saudamos nossas impotências.
A senhora ao lado leva consigo um bolo cuidadosamente mantido sobre seu colo. O esmero é tanto, que fico até constrangido por parecer indiscreto. Mas não posso deixar de notar um certo ar de satisfação e de orgulho pela obra finalizada. Foi ela que ficou encarregada de fazer a sobremesa, já que para seus comensais são as mãos dela as mais competentes na arte da culinária. Tamanha responsabilidade nada mais é do que o reconhecimento por um talento aperfeiçoado pelos serviços diários de uma brava dona de casa. Sua netinha mais velha, adentrando a adolescência, merece mais esse empenho! Ai de quem ousasse tirar dela essa saborosa tarefa!
Olho para o outro lado, e vejo um rapaz. Não mais carrega dentro de si aquela ingenuidade tão típica dos jovens, mas ainda não sucumbe ao peso das próprias frustrações. Sua coluna ainda é ereta; seus braços ainda são rijos. Suas escolhas, porém, não foram as melhores. O contraste entre a vida sonhada e a vida vivida faz dele um ser humano, talvez, infeliz. Nem sempre está pensativo, pois raramente tem tempo para essas coisas! Mas, nesta tarde, o seu olhar vazio e a sua coluna arqueada denunciam a melancolia de sua existência. Até mesmo os trabalhadores mais eficientes podem envergar sob o peso de decepções tão profundas. É necessário continuar, seguir em frente! “Amanhã vai ser outro dia” – é o que costuma dizer um tal de Chico por aí.
A dois passos de mim, a jovem concentra sua atenção na tela de seu celular. Pelo movimento de seus dedos e o sorriso em seus lábios, mantém uma conversa bastante animada. Quiçá por descuido, lança um breve olhar em minha direção. Seus olhos não chegam a ser de ressaca, mas projetam intensidade e mistério. Está a poucas estações de encontrar sua amada. Tão jovem, tão certa de tudo! No começo, tudo foi tão doloroso, mas eles tiveram de aceitar. A mãe acolheu; o pai renegou; o irmão não entendeu. Hoje em dia, se o tabu foi quebrado, a antiga cumplicidade familiar ainda pena para ser restabelecida. Mas, um dia, ele vai dobrar os próprios preconceitos!
Histórias de vida tão distintas que aguçam a minha curiosidade pelo desconhecido. A frenética e amorfa multidão ganha cadência e toma formas mais humanas. E eu, minha cara amiga? Por que carrego esse semblante? Tristeza, contemplação, fadiga ou apenas vadiagem? Amanhã, não terei tempo para tamanha divagação. Também faço parte da mesma engrenagem! Por ora, é preciso seguir o fluxo. De volta a uma rotina modorrenta, minha estação já está logo ali.
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Carona
O cara entrou, bateu a porta e começou. Disse que tinha deixado todos os filhos em casa, um deles, o mais novo tinha morrido dois dias antes, a mulher tinha mudado pra casa da irmã mais velha, tinha ido buscar alguma força pra suportar todo o resto que ainda viria pela frente. Que ela era uma boa mulher, que ele tinha tirado de um grande amigo seu, traição não foi, ele acha, o amigo tratava a mulher muito mal, mulher que nem ela merecia ser bem amada por um homem que nem ele, era morena ele disse, quase mulata, melhor que a outra que ele tinha antes dela, branca que nem leite, aguada de idéias, que deixou ele por causa de um vendeiro da fazenda, matou o sujeito dias depois numa tocaia, e enterrou o corpo embaixo de uma parte esquecida da casa, aquelas casas morrem com o tempo, disse, ninguém mais mexe nelas, vai passando de um pra um até que tudo se acaba. Disse que vai buscar a mulher, deixou comida para os filhos até a noite, um deles vai pra escola, atravessa doze quilômetros até chegar lá, então tem fome, que nem os outros que ficam trabalhando na roça das fazendas vizinhas, agora é tempo de colheita de café, bom de aproveitar porque paga meio ano, o outro meio fica no vazio, não adianta encher a cidade de mais gente, então ficam. Diz que está velho, mas ainda forte, que a vida lhe fez calos no lombo, andou por todo canto deste mundo desde pequeno, sem parada, sempre buscando alguma coisa, mas não sabia dizer o que era, que decerto Deus era que tinha posto aquela sina de andar. Diz que gostava de estrada, do jeito que elas vão esticando pra longe, que pode sempre ter algum outro mundo do lado de lá na outra ponta, que acha triste viver sem saber onde vai dar esse ou outro caminho qualquer. Diz que um dia vai sumir por algum outro lugar, no dia que alguma coisa mudar sua vida de uma hora pra outra, que isto pode bem acontecer, aconteceu com ele muito antes, teve quatro esposas antes da mulata e da branquinha, filhos com quase todas elas, pode ser que alguém deixado lá atrás um dia apareça pra acertar as contas. Chacoalha a cabeça espantando alguma coisa, um instante de silêncio e retoma. Diz que o mundo mudou demais desde que era moço, que apareceu uma coisa que ele não sabia que existia, que era o medo de ficar sozinho, solidão já tinha visto nos outros, no jeito de olhar do seu pai, da última vez que pode encontrar com ele, vinte anos antes, quando o pai olhou pra ele da cama do quarto, sozinho, esperando a morte chegar dali há pouco. Que não sabia que palavra era essa até há pouquinho, quando o mundo cresceu de repente numa hora que ele parou pra olhar o vazio em volta, numa tarde de nuvens de chuva e distância limpa, o mundo quieto. Ele diz que deve ser este o sinal, que a hora que a gente ouve desde pequeno vai chegando, que a gente nunca acredita que um dia ela vem, que vai dando uma vontade de voltar pra trás, de fazer meia volta em certos caminhos por outro lado, pra banda deixada naquele tempo em que teve que escolher uma ou outra estrada, assim é que é a vida, uma fica na frente dos pés vazando pra longe, a outra vai viver nos pés de outro que escolher seguir por ela.
Ele bate a porta e desce num lugar onde não existia nada. Vazio geral ao redor da estrada. E ficou lá esperando, desintegrando-se aos poucos no retrovisor.
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Poema #72: Um momento… todos os momentos
Um momento cristalizou
todos os outros momentos
de espera e indagação.
Um momento trouxe à tona
todos os outros momentos
de sublimação dissimulada.
Um momento estabeleceu o paradoxo
de todos os outros momentos
entre o que se quer concretamente
e o que se assume perante a consciência
para fugir do inevitável.
Um momento levantou questões
de todos os outros momentos
dos quais buscava-se o refúgio
na indiferença e no não-sinto.
Um momento mostrou claramente
aquilo que os outros momentos,
todos eles, deixavam transparecer.
Um momento revelou o arrependimento
por todos os outros momentos, e, no entanto,
esse próprio momento foi abjurado
diante do não-poder.
Um momento trouxe consigo a culpa
de se ter detonado a bomba existente
e oculta de todos os outros momentos.
Um momento revelou o medo de como-ser
nos momentos que virão, contudo
veio a certeza de que não será
como foram todos os outros momentos.
Um momento levou com ele
todas as certezas anteriores,
e agora a dúvida se generalizou
diante do entrelaçamento de valores
de todos os outros momentos.
Um momento exigiu a coragem de encará-lo
e avaliar o que de perdido ficou
em todos os outros momentos.
Um momento deixou claro que também ele
deveria ter sido evitado, como o foram
todos os outros momentos.
Pois na medida em que aconteceu
despertou coisas novas
que não se poderia ter descoberto,
uma vez que depois de o ter feito
ficou implícita a necessidade de conduzir
o que iniciado foi; mas que é escusado
perante conceitos e medos tradicionais
que, em última análise, determinaram o afastamento
característico de todos os outros momentos.
Um momento e a vida estancou de repente
tornando difícil todos os outros momentos
sem aquele em que houve a revelação e a descoberta
de um prisma novo e em si mesmo fascinante.O Acaso das Manhãs
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Poema #02: Involuto
Quero a involução
A proteção contra os ventos
Útero da mãe
Turbulência amniótica.O desequilíbrio de voltar
O ser ainda sem ser
Todos os caminhos por andar
Todas as guerras por vencerQuero o grito de mãe
Na hora de parir
O choro engasgado
A dor de nascerCoragem para voltar
Tudo feito novo
Certeza de não errar
Leite materno como sustentoQuero vida inteira
Apagadas as besteiras
Quero vento novo
Soprando semente verdadeira. -
Manteiga ou margarina?
Sempre tive aversão a manteiga. Desde a infância aquele tablete meloso e gorduroso colocado em um recipiente de vidro com tampa, invariavelmente lambuzada porque essa criatura ia se espalhando pelos cantos, me dava engulhos.
Para meu desespero ela ocupava lugar de honra na mesa do café da manhã e era compartilhada por todos, menos eu, em nacos enormes em cima do pão francês.
Menina estranha, comentavam, quem sabe se a gente oferecer margarina ela não prefira?
Só aventar essa possibilidade já me dava vontade de sair da mesa – margarina, para mim, era a versão tabajara da minha desafeta, algo inventado por alguma mente pervertida.
Ocorre que em determinadas situações fora de casa eu me via, inúmeras vezes, obrigada a aceitar o famoso pão com manteiga que me ofereciam, não só por cerimônia, mas também porque na maioria dos casos ele já vinha pronto para a mesa.
Em outras, me vinham com a pergunta: manteiga ou margarina? Ou seja, não havia a terceira opção – nenhuma das duas. Era, então, obrigada a optar pelo menos péssimo, no caso a manteiga, mesmo que isso me desse ânsias de vômito.
Essa encruzilhada gastronômica da infância me fez lembrar que, na vida, somos constantemente obrigados a optar pelo menos ruim, também. Isso serve para decisões prosaicas como escolher a mesa de fora em um restaurante e enfrentar o frio, ou ficar nas mesas de dentro ao lado do piano e ter dificuldade para conversar.
Serve também para o cinema: poltronas da ponta para poder entrar e sair com mais facilidade, mas com menor visibilidade, ou no meio da fila, com vista panorâmica, mas no meio de duas pessoas comendo pipoca?
Pensando um pouco mais a fundo, muitas vezes nos vemos frente a esse dilema na hora da decisão sobre quem serão nossos dirigentes, ou do apoio que daremos a uma ou outra corrente política, do partido que tomamos frente aos conflitos mundiais e assim por diante.
Infelizmente muitas de nossas escolhas dependem de colocarmos na balança não o que é melhor, mas o que é menos ruim… e aí a consequência gastro-econômico- social é pior do que engolir margarina, não acham?
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INVISÍVEIS
Karolayne, ou Lane para os mais chegados, leva uma vida normal. Mora sozinha, de aluguel, numa casa de vila. Uma sala apertada acoplada à cozinha e, no andar de cima, um quartinho com banheiro: “minha suíte”, como ela chama. Acorda cedo, por volta das cinco da manhã, com o despertador do celular. Não que precise, seu corpo, moldado à rotina, já sabe a hora de levantar. Assim como a de dormir. Vai para a cama sempre antes das dez.
Toda manhã parece se repetir. Escova os dentes antes e depois do café, come seu pão esquentado na torradeira e bebe de um gole o leite gelado sem açúcar. Quando não há pão, se vira com biscoitos.
A rotina se repete como um ritual insondável e cada amanhecer traz os mesmos rumos e planejamentos. Enquanto acaba de se arrumar para sair, pensa nas tantas vezes em que sua existência se confunde com o próprio ato de seguir automaticamente.
No caminho para pegar o ônibus e ir ao trabalho – Lane é diarista – ela reflete como a vida é difícil e, por vezes, sem sentido. Cuida da casa dos outros, tira o pó dos móveis, varre e passa aspirador, lava a louça acumulada, troca as roupas de cama, limpa banheiros e desentope ralos e pias. Pequenas ações que exigem uma vigilância constante, quase mecanizada. Lane sempre teve mania de limpeza.
O curioso é que não tem quase tempo para si. Sua mania de limpeza termina assim que chega em casa. Se comparada com os apartamentos das madames onde trabalha, a sua moradia parece um local deixado de lado e malconservado. O cansaço justifica seu desleixo.
Ocasionalmente, pensa desistir. Todo dia é a mesma droga. Mora afastado e pega um ônibus que leva em torno de uma hora e meia. Isso se não houver trânsito. Durante o trajeto, dentro do coletivo, geralmente em pé e espremida com outros passageiros, Lane se pergunta se o resultado do seu esforço é feito para ser invisível. O olhar cansado, os gestos repetidos, a paciência infinita, tudo transformado em banal.
A maioria de suas patroas, com certeza, não saberia viver sem sua ajuda. Ela, no entanto, começa a perceber a condição de invisibilidade do seu trabalho.
E se não fosse ela para arrumar a casa, ordenar as coisas, fazer as compras no supermercado, até servir de psicóloga para ouvir as queixas e lamentações das madames? As ações de Lane nunca são reconhecidas e ela, sem rancor, aparenta se resignar.
À noite, logo que chega, toma seu banho. Chuveiro elétrico. Lane não costuma usar o chuveiro nas casas onde trabalha. Questão de princípios, que ela nem sabe a razão. Talvez cerimônia. De roupa de dormir, vai à cozinha e prepara uma xícara de chá, que fumega como um prêmio secreto. Ali, no instante em que o mundo se aquieta, ela se reconhece como uma pessoa que tem a percepção da sua própria invisibilidade, entre silêncios e coisas triviais. Reside aí um certo orgulho velado. A xícara de chá funciona como uma metáfora de recompensa e reconhecimento pessoal. Nesses raros momentos, Lane pressente que pode haver alguma poesia no ordinário.
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Um homem, um barco e um tempo
Havia um barco, um homem e um tempo.
Um barco de madeira, pequeno e velho.
Um homem cansado, derrotado e velho.
Um tempo desgastado, encrustado e velho.
A morte já era companheira do homem, o banco de areia, o destino do barco e os ponteiros quebrados o fim de um tempo.
Mas, de repente… E as histórias são sempre cheias de de repentes…
Uma tempestade e o mar agitado, mas tão agitado como jamais vira aquele homem.
Ondas enormes como jamais sentira aquele barco.
Um tempo sem tempo como o próprio tempo jamais fora.
E o medo do fim.
Do homem, do barco e do tempo.
Agitação e horror e sal e vento.
A escuridão da escuridão tomou o espaço.
O homem, o barco e o tempo.
No entanto…
E as histórias também são cheias de no entantos…
A força, que o homem supunha não existir, passou a ter.
O barco, que supunha o homem não suportar, se segurou.
O tempo, que supunha o homem não mais haver, nunca deixou de ser!
E então, surpreendido por si mesmo e pelas circunstâncias, atravessou o mar e o vento.
Seguiu firme até que o dia e o sol pudessem dar vista de coisa ou de gente.
Enfim, quando assim sucedeu, o homem já estava próximo da terra, vivo e refeito.
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Amigos
Saí de casa por volta das 8 e meia da manhã como fazia todas as segundas, quartas e sextas, andei alguns passos e cheguei à praça. O jogo ainda não havia começado. Arnaldo, Alfredo e Ranulfo já estavam lá conversando sobre a vida alheia, um esporte praticado com afinco na nossa cidade. Aquelas reuniões com os amigos de uma vida inteira ainda eram bastante agradáveis, apesar de o carteado ter perdido um pouco da graça desde que deixamos de jogar valendo dinheiro. Foi o Alcindo, que morreu de tristeza quatro meses atrás, quem sugeriu. Essa grana faz falta pros nossos remédios, argumentou com certa razão. Afinal, somos todos aposentados e clientes preferenciais do Antônio Careca, o dono da única farmácia da região. Digo que o Alcindo morreu de tristeza porque pra ele foi um choque tremendo quando a Arlete teve um ataque cardíaco fatal enquanto via o último capítulo da novela. Convivência de 61 anos — 63 se considerarmos também o período de namoro e noivado — definitivamente não é pra qualquer um. É tempo demais vivendo junto, o que torna a coisa sempre dolorosa quando termina. Se não é pelo amor propriamente dito, é pelo hábito. Claro, costume e preguiça também são capazes de manter muito casamento por aí, mesmo nos dias hoje, marcados por tanto progresso e emancipação feminina. O fato é que exatamente 19 dias depois do enterro da patroa, coube ao Alcindo fazer a passagem, como costuma dizer o Arnaldo, frequentador convicto do centro espírita do bairro onde moramos.
— Sempre o último a chegar, hein, Hildebrando — falou Arnaldo assim que me viu.
— É o trânsito — tentei ser engraçado.
— Pois eu estava só esperando você aparecer pra dar uma notícia importante pros três — prosseguiu ele.
— Notícia? Que mistério é esse? Fala logo, homem! — impacientou-se Alfredo, o mais agitado do grupo.
— Ontem eu estive lá no centro…
— Xiiii, aí vem coisa — interrompeu Ranulfo.
— … e a dona Isaura psicografou uma mensagem do Alcindo — informou enquanto tirava um papel do bolso.
— Como é que é? O Alcindo baixou no centro ontem? — perguntei ainda sem compreender direito o que se passava.
— E pra quem é a mensagem?
— Pra nós quatro, Ranulfo. Pra mim, pra você, pro Hildebrando e pro Alfredo.
— E o que ele diz? Vai nos contar ou não? Pra que tanto suspense?
— Calma, Hildebrando. O troço tá meio em código, linguagem telegráfica, sei lá. Mas, pelo que entendi, acho que houve um erro.
— Erro, que espécie de erro?
— Parece que a hora do Alcindo ainda não tinha chegado, Alfredo. Tá escrito aqui, deixa eu ver… “mais cedo que o programado… era a vez de um amigo… amigo da praça e das cartas… falha no controle… a melancolia ia passar… Arlete ainda não tava pronta pra me receber…”. Resumindo: um de nós quatro é que devia ter morrido.
— Quem? — os três, quase ao mesmo tempo.
— Não dá pra saber, mas o fim da mensagem deixa claro que o pessoal lá de cima está disposto a corrigir essa falha de alguma maneira.
— Ressuscitando o Alcindo? — indaguei.
— Não, isso não se pode fazer. Eles pretendem vir buscar o sujeito certo.
— Quando? — continuei.
— Pelo que diz aqui “antes que o oito vire nove”, ou seja, antes que agosto termine.
— Hoje é dia 25 — anunciei consultando meu relógio de pulso.
— E agosto tem 30 ou 31? — quis saber Alfredo, ao mesmo tempo que, mais trêmulo do que o habitual, tentava obter a resposta fazendo o teste no dorso da mão.
— Calma, Alfredo, tá achando que você vai ser o premiado? — provocou Arnaldo.
Naquele dia, não houve jogo. Cabisbaixos e pensativos, fomos tomando o rumo de casa. Em frente ao portão, ouvi os latidos do Max vindos do lado de dentro. Meti a chave na fechadura com certa dificuldade. Antes de entrar, ainda olhei pra trás e pude ver, na praça, nossa mesa habitual deserta. Aliás, contrariando o costume, a praça inteira se encontrava completamente vazia naquele momento.
***
Bem, o 11 já virou 12, e hoje é véspera de Natal. Nós quatro continuamos vivos e resolvemos celebrar a data aqui em casa. A dona Isaura não dá mais expediente no centro. Há três meses foi internada numa clínica psiquiátrica de uma cidade vizinha à nossa, e, infelizmente, o caso é grave. São quase 9 horas, e eles devem estar chegando. Pelo menos hoje não vou ter de ouvir o Arnaldo dizer que estou sempre atrasado. Nosso amigo ausente não mandou mais notícias, e nunca mais tocamos no assunto. É bem provável, porém, que, na hora da ceia, a gente faça um brinde em homenagem ao Alcindo.
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O gordinho do STF
Quando Flávio Dino tomou posse como ministro do STF, o que nele se sobressaiu não foi o currículo, a trajetória política ou as ideias jurídicas. Foi o tamanho.
Julgar os indivíduos pela primeira impressão é um defeito do ser humano, especialmente do brasileiro, que, com sua índole zombeteira, adora rotular os indivíduos por alguma característica que lhe chama a atenção – careca, dentuço, narigudo, balofo, baixinho, gago, crioulo, japa, baiano, gay, geninho, coroa. O apelido vem antes da pessoa e não raro em tom desabonador. Quem se atreve a criticar essa postura corre o risco de ser tachado de ‘woke’, patrulheiro dos costumes, censor do humor alheio.
Pessoas com sobrepeso carregam um fardo que vai além da massa corporal: além de preocupações com a saúde e limitações práticas, convivem com preconceitos que lhes são impostos antes mesmo de serem devidamente conhecidos.
Quando foi indicado por Lula para uma cadeira no STF, Dino despertou desconfiança entre os adversários. Além da hostilidade da balança, pesava contra o fato de ser egresso do antigo PCdoB, partido tido como radical. Além de gordo, comunista!
Confesso que quando o vi chegar ao STF, carregava certa prevenção contra ele (e não pelos quilos a mais). Não esperava grande coisa do homem. Seria mais um político a usurpar uma das suntuosas cadeiras da Corte. Alguém cercado de ‘aspones’ e vantagens remuneratórias, onerando a nós, contribuintes, que não entendemos bem qual utilidade nos proporciona para justificar as mordomias que usufrui.
Apesar disso, havia algo nele que me inspirava simpatia. Talvez porque homens ‘corpulentos’ transmitam frequentemente um sentimento de afabilidade, alguns até chamados carinhosamente de ‘fofos’. Lembrava-me ele o Stay Puft Marshmallow Man, o gigantesco boneco de marshmallow evocado pelos Caça-Fantasmas. Um personagem improvável de aparência inofensiva e bonachona capaz de provocar tumultos monumentais em Nova York.
Dino (não vou mais citar sua condição corporal para não estigmatizar o coitado), tendo ocupado o posto de governador do Maranhão, notabilizou-se por uma gestão bem avaliada. Seu jeito professoral de se expressar ajudou. Em vez de mais um integrante do Supremo a se expressar com excesso de rebuscados malabarismos léxicos, tínhamos alguém que fala a língua que os analfabetos em ‘juridiquês’, como eu, entendem. O fato de ter sido um bem sucedido político (foi também senador e deputado), facilitou, uma vez que, para ser eleito, teve de aprender a arte de se comunicar com o cidadão comum.
O fato é que Dino tem se saído (muito) melhor do que a encomenda. Quanto a minhas objeções, fui obrigado a admitir que estava (com perdão da expressão) ‘redondamente’ enganado. Até mesmo os mais extremados opositores tiveram que se render a suas evidentes qualidades.
Dino não hesitou em mexer em vespeiros nem desafiar dogmas firmemente estabelecidos. Orçamento secreto, penduricalhos, supersalários e aposentadoria compulsória a magistrados (vista como prêmio a condutas desviadas) são alguns espinhosos temas que o homem encarou, batendo de frente com poderosos interesses corporativos. Digno Dino voltou sua atenção não apenas a malfeitores de organizações criminosas, mas aos que estão encastelados nas diversas esferas do poder, mamando nas tetas do Estado.
Protegido pela estabilidade do cargo, poderia simplesmente acomodar-se com as benesses que a função lhe assegura, cumprindo diariamente o ritual de despachar, analisar processos e proferir longos e sonolentos votos. Preferiu, no entanto, usar de suas prerrogativas para sair da mesmice e moralizar o serviço público.
Se na silhueta carrega algo de Sancho Pança, é de Don Quixote que herdou o espírito guerreiro, enfrentando os moinhos da burocracia, dos privilégios e da inércia estatal.
Lamento apenas que muitas dessas iniciativas não tenham tido a devida repercussão no polarizado debate público, incapaz de enxergar, para além de ideologias, o valor das ações em benefício da coletividade.
Por tudo isso, penitencio-me por ter começado essa crônica preso às características físicas de Dino. Perdi um tempão falando do peso do sujeito quando o que deveria importar é o peso de suas ações.
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Noites frias
Adoro noites frias. Sentir aquele ar frio entrando pelos pulmões traz uma quietude, uma paz. É um convite à contemplação.
Deixo a janela do meu quarto sempre aberta até a hora de dormir. Me cubro, cobertas pesadas imobilizantes e não deixo nem o nariz de fora. Ali imóvel meus pensamentos voam enquanto meu corpo segue inerte. É uma delícia.
Mas antes, bem antes, há mais o que fazer. Algo quente a comer, mas sem excesso. E algo etílico a beber, mas com excesso moderado – se é que isso existe.
Conversas boas, a meio tom de voz. Ninguém fala alto, quase sussurros. Como se o frio exigisse esse diálogo contido. Falamos nesse tom para não perturbar o frio, acho.
Nenhum assunto polêmico. Só se fala sobre amenidades ou profundidades estéticas. Cinema, literatura, escultura, pintura, poesia. Uma citação de um autor elegante surge no ar acompanhado de um gesto circular. Ou afirmar algo com pouco embasamento mas muita vontade de ser verdade, com o que todos concordam e pouco se importam. Se é fato, tanto faz, mas o vinho das noites frias ajuda a sedimentar essa certeza efêmera.
Ninguém segue com debates depois das noites frias. Nas manhãs frias, o tom é outro, a disposição é outra e a vida é muito outra. Tudo assume seu papel à luz do sol, chamado há muito tempo de astro-rei, mas ao redor do qual nossa vida gira. Literalmente.
E girando segue seu curso, horas após horas, até que o entardecer se aproxima. Não precisando nem conferir o tempo no relógio. Basta sentir a temperatura cair. Sinal inquestionável que o sol vai se por.
E teremos mais… noites frias.
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A medida do viver
Há um ditado segundo o qual cada um morre do que vive. Quem é destemido e aventureiro corre o risco de morrer em uma de suas aventuras. Os que vivem no limite (físico, emocional ou intelectual) consomem a “reserva de vida” em nome da intensidade. Têm a morte como um risco calculado ou um subproduto da paixão. Ernest Hemingway, por exemplo, viveu de forma viril e perigosa. Sua morte por suicídio, após o declínio da saúde, foi o desfecho escolhido por um homem que não suportava a ideia de uma vida cotidiana e banal. A ausência de aventuras o tornou desventurado.
Por sua vez, aqueles que se preservam a ponto de nada ousar morrem em casa por tédio ou inação. Na tentativa de evitar o fim, acabam por anular o próprio percurso. Como dizia Millôr, quem se cuida demais não morre – mas também não vive. Mesmo porque o tédio e o sedentarismo não são apenas estados mentais; são agentes patogênicos. Quem fica demais na cama, livre de estímulos, rapidamente começa a definhar.
Não há escapatória, por isso o ideal é procurar o equilíbrio: nem os excessos, que precipitam o fim; nem as omissões, que tendem a retardá-lo mas da mesma forma levam a ele. Com a desvantagem de tornar meio insossa a vida. Não existe, contudo, uma lógica que determine o efeito de uma ou outra escolha. O Universo é indiferente à nossa orientação existencial. O aventureiro pode morrer de um engasgo doméstico ou de um tropeço no meio-fio (a chamada “morte boba”), e o homem prudente pode ser vítima de um desastre natural ou de uma bala perdida. A morte nem sempre faz jus ao estilo de vida.
Uma das razões para isso é o fator genético. Muitas vezes, o destino biológico ignora nosso comportamento. Alguém que fuma e bebe com frequência pode chegar aos 90 anos (foi o caso de Winston Churchill, que tomava uísque no café da manhã), enquanto que um atleta vegano pode desenvolver uma patologia fulminante.
O fato é que todos passam pelo dilema sobre a escolha do modo como querem, ou devem, viver. Mesmo os que trabalham em casa (teoricamente, o lugar mais seguro) têm que decidir entre excesso e prudência. É claro que os excessos no contexto doméstico são diferentes dos que ocorrem fora de casa (se bem que certas brigas de casal não estão longe das escaramuças urbanas).
Mas dormir tarde, estender-se mais tempo do que o devido diante do computador, esquecer-se de tomar água ou estirar o corpo para reativar a circulação – tudo isso atenta contra as prescrições contidas nos manuais de bem viver. Eles mandam não apenas selecionar a comida, abolindo gorduras e açúcares, como também cultivar hábitos saudáveis. Enfim, mandam viver com a consciência de que se vive.
Tais regramentos são difíceis de cumprir. O mais das vezes nos alheamos deles, empolgados com uma ideia, uma meta, uma atividade prazerosa. A cada alheamento desses morremos um pouco, mas só nos damos conta disso quando as costas, as articulações (as velhas “juntas”) ou os olhos começam a doer.
O verdadeiro dilema é: viver espontaneamente, despreocupados do que a cada dia vai nos matando? Ou ficar atentos aos hábitos ruinosos na busca de assegurar uma vida longa? Para a segunda alternativa é preciso desprendimento e sobretudo tempo. Ninguém vive se cuidando quando tem objetivos a conquistar. E talvez a pior morte seja a que se insinua na vida sob a forma de limites e prescrições. A pessoa pode vir a descobrir, já tarde, que o que mais lhe fez mal foi a falta de alguns excessos.
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A Caruta
A velha Caruta acordou sobressaltada. Um desassossego lhe correu pela espinha, um arrepio de premonição de desgraças. Esfregou os olhos lambuzados de sono, destrancou a janela, abriu meia folha, xingando o gemido nos gonzos, e espiou o dia.
Lusco-fusco, brisa morna, como se soprada pela lua sufocada no entremeio das gameleiras, obra de dez braças dali. Parava no escuro, pesava. Isso não era bom sinal.
Não sabia o quê, mas o peito oprimido, carregado – sentiu o coração estremecer. Lembrou-se do sonho de uns momentos antes: que estava morta – branca, fria, espremida num cantinho da cova, sobre umas folhas de taioba, como uma quarta de geleia, se desfazendo, se desfazendo.
Gelou: e se não era, num aviso, mais que um aviso? Não seria que estava morta e ninguém sabia? Apalpa-se. Não representava que estivesse mais morta que sempre. Tinha cruzado a cumeeira da velhice, antiga de não se lembrar mais. Era um pouco morta, era, de verdade.
Sacudiu a esquisitice de cima dos ombros. A velhice era um castigo de que não tinha salvação. Escancarou a janela e, arrastando as chinelas, virou para a porta da cozinha.
Mal distinguia o vulto do dia. Deu dois passos no terreiro e estacou. Bem que não estava assim atrapalhada à toa: o mundo amanhecera diferente demais. Onde a estripulia do amanhecer, esse estrupício de todo santo dia?
O silêncio reinando – como não pusera reparo nessa reinação estranha? Mas que era? Meu Nosso Senhor! Onde a passarinhada dos diabos? Pôs sentido nas coisas, estudou as redondezas.
Quietude. Divulgava a cerca, as árvores, os cornos da serra, os beiços do bambual. E a quietude. Bicho nenhum. Seria que só ela de vivalma nesse fim de mundo? A Caruta começou a se enfezar. Embrulhada com o que não existia, gente! O silêncio, onde se viu? O mundo mais quieto que a morte.
Que é isso, minha Santa Luzia! Enfiou os dedos nos vãos dos olhos, jogou a remela na poça d’água. A água barrenta se esguedelhou num remelexo. Estou viva, se disse a Caruta.
Esgaravatou os ouvidos com os dedos nodosos. Não fosse esse silêncio! Um despropósito. Chamou: Dourado! Palerma! Chumbado! Boca-Preta! A cachorrada estava metida nalguma biboca perdida. Cachorrada sem préstimo, o diabo se serviu,
comeu.A Caruta juntou nas conchas das mãos um punhado de quirera, semeou no tempo. As pombas? Nenhuma. As galinhas? Os bichinhos na disputa, nas pinicadas, brigando para encher o papo? Tudo deserto.
Já não ouvira o galo, fugido da obrigação – acender a manhã. Estranhice. Será que eu estou morta e não sei? E morto sabe da morte? O mundo despovoado. Não posso eu sozinha ser o povo deste mundão. Sozinha e Deus! O Diabo não.
Sozinha – e se eu for só um punhado de pó e eu nem sei? Creio em Deus Padre! E se benze, a Caruta. Será que ela está morta? Não é dada a essas pensamentações. Umas cismas trançadas.
Mais um argumento: Só se estiver morta! Já vivi tudo quanto tinha para viver, gente! Pensava e pensava. Trançava as suas cismas. Devagar. O dia amanhecia de repente, atordoado, mais morto do que vivo. A Caruta atolou as canelas na lama do mangueirão. Onde o diabo dessas vacas? As amaldiçoadas das porcas?
Sentou num tronco podre, os cotovelos ossudos nos joelhos, segurou os queixos com as mãos. Pois é, pois é! Sim, senhor! Não pode ser, mas é. Estou morta, mortinha que nem este pau, que já vai se decompondo.
Apalpou os bolsos do vestido, achou o pito, remexeu o fumo, bateu o isqueiro. Tudo muito meticulosamente. E chupou, chupou fundo. Morto não pita? Ela se ri: Não pitava!
Relanceou os olhos na casa, o paiol, a tulha, uma plantação deste lado, uma capoeira, depois o mato grosso na beira do morro. Tudo como sempre. Mas o silêncio. Que silêncio! Só se ouve o vento resmungar, inda que a contragosto, irritado, descompassado.
A velha soltou um suspiro fundo. Pois é, nenhum sintoma de vida, em lugar nenhum. Observou o horizonte, e voltou às pressas para casa, chegou, deu um tranco na porta emperrada, na frente, e ficou zanzando na sala.
Regular bem eu regulo. Louca não estou. Só se eu virei o morro, saí de fininho da vida no sono, no sonho. Ainda bem que eu não me desesperei de nervosa, tanta bobagem para escarafunchar na cabeça. Ainda bem que eu virei o morro sem perceber, como quem sacode o pó da estrada para retomar a caminhada. A estrada da vida não tem fim, continua até depois do sonho.
Cismou e cismou. Nada mais a fazer. A vida se acabou, pronto. Valeu a pena? Isso não lhe competia. Arrazoar de Deus ou do Diabo. Estranhava o mundo deserto, isso era. Mas devia estar acostumada: a vida na Tapera da Onça sempre fora um deserto só. Quem se esquecera da vida numa furna como aquela, decerto que desertara do mundo.
Mas, e os bichos? Não faz sentido um mundo sem bichos. Tinha só duas vacas, duas porcas e a cachorrada. Mas, e a passarinhada? Tinha uma égua que era só pereba, pele e osso. Onde a Gateada? Para onde fugiu o mundo todo?
Só se o mundo acabou. Ora veja! Não era ela também uma mulher perdida no mundo? Deu com aquele buraco, ali se hospedou para o resto da vida. O Quim da Tapera botava nela os olhos sonsos, não dizia nada. Nem precisava. Foram se cheirando, como dois bichos. Quer ficar? Fique. Daqui não tem mais além – teria dito? Há muito tempo, sem conta.
Muito antigamente a Caruta ganhou as estradas da vida, ave sem pouso, até pousar no estrado de varas do Quim da Onça, o Quim que um dia uma onça comeu.
Enterrou o homem, os restos, no pé de um jequitibá. A onça, sapecou fogo na bicha, o cano grosso da espingarda goela a dentro. Ela se lembra. Coisas que pareciam ter acontecido há um século.
Agora estava morta, embora desenterrada, oras. Mas quem iria enterrá-la? Ali ninguém aparecia, nunca, jamais. Morta, ufa! Já cansara de se dizer morta, em cima das pernas, pererecando entre as taipas.
Destapou os caldeirões no fogão. Encostar o estômago? Que nada! Nunca fora de muito comer. E morto lá come? Arre! Isso de morto virou uma ideia fixa! Mas, se eu estou morta? Se não tem vivalma neste fim do mundo – por que eu?
Olhou o picumã nos caibros da cozinha, que nem morceguinhos dependurados. Se ao menos houvesse morcegos! Só se isto for o purgatório, Deus e o Diabo disputando a minha carcaça.
Mas ninguém se conforma com a própria morte. A Caruta deliberou tirar a limpo o acontecido, que só parecia doidice. Como? Não sabia. Desinventar a morte! Dependurou a espingarda, socou com raiva a pólvora e o chumbo, tomou o rumo do mato, desembestada. Uma plantação abandonada. O sujo da mataria escorada na serra.
Gozado: quietude demais, como se fosse uma fantasia. Onde os veadinhos? Os macacos nos galhos que nem uns diabinhos pretos? A passarinhada? Santo Deus! É um silêncio dos infernos!
Pegou numa trilha funda, alcançou o Ribeirão da Capivara, subiu a ribanceira à cata de vau. As águas claras gorgolejando num verde cheiroso. Peixe nenhum. Mosquito nenhum. Sozinha só. Nenhum bicho no mundo. Nem ela. A Caruta abre bem as pernas, para se equilibrar melhor, arregaça o vestido, para dentro d’água. Deus louvado! Apoia a espingarda no ombro, aponta para o alto, aperta o gatilho. Um estrondo trovejando, ecoando a solidão.
Depois, nada. Barulho nenhum. Só as folhas bolem, caem. Passarinhos voando assustados? Nada. Bicho fugindo? Bulha nenhuma. Escorou a coronha numa pedra, despejou o polvarinho na boca enorme, socou, e atirou de novo. Como um trovão. Será?
Quase nem se ouviu o eco do tiro. A velha desanimou.
Voltou para casa às pressas. Virgem! E grunhiu, num riso destrambelhado. Não foi nada, não, só o mundo que acabou. Gingou o corpo para trás, rápido para casa. Que teimosia, gente! Morri, está bem. Vou resguardar o meu cadáver na minha cova. A par do finado, a cova aberta há quantos anos! Pegou com raiva o facão dependurado do ombro esquerdo e, no caminho, cortou umas folhas de taioba. Tal e qual no sonho, bem forradinho o leito da última jornada.
Deitou o corpo no buraco, revirou-se, esperou. Não se sentia cômoda. Diacho. Não estava à espreita da morte, mas já mortinha bem morrida. Tinha que arejar a mente. Não tem cabimento tanta preocupação, lembrando os problemas da vida.
Bem que gostaria do Palerma ali na cabeceira. Cachorro inteligente, sempre jurara que o bicho iria assistir a sua morte, se afogar na tristeza, ganir a dor do peito e, desalentado, se acabar junto dela. Peste! Tudo era uma peste, tudo tinha sumido. Por que o diacho da peste desse cachorro tinha que sumir também? Culpa dela, que partira sem aviso. Esquisitice. Morrer na sequela do sonho, sem nem reparar.
Bom. Agora é se despedir de quanta bobagem se imagina. Imaginando as coisas da vida em cima de nada, oras! Quem diria que isto é o outro lado da vida? Tudo que é vivente se esfarinha no tempo – só resta você, alforje de nada?
Morrer, o mundo deixar de existir? Só você de bicho. E não tem sentido chorar a miséria, você já era. Ah Caruta, sossega! Que esfrega, a vida! Essa cama não é de empréstimo, é para todo o sempre. E não cansa? Todo o sempre é tempo demais. Mexe e remexe na cova. Incomodada como o diabo. Esta casca de ossos é velha demais, não tem posição que aguente.
Ela se encolhe, se põe de cócoras. Uma coisa fazia falta: o pito. Faz mal morto pitar? Amansa as iscas de fumo na cunha das mãos, enche bem cheio o cachimbo. E pita com gosto. Chupa no canudo com sofreguidão – e, a cada chupada, a cara mais chupadinha. A pele esticada, lisa, lisinha – parece pele de rã, rãzinha. Serenada, a Caruta cachimbava. De longe se distinguia a fumacinha se suspendendo da cova, bamboleando no ar.
A Caruta morreu entanguidinha no resvalo da cova – uma geleia de carniça, comidinha dos urubus. Bichos do demo! Ao pé da velha, uma pelanca podre, uns ossinhos, decerto de cachorro – decerto o Palerma, vindo arrefecer seus dias junto da dona. Decerto um urubu lhe bicava o olho, outro urubu sugava o olho da Caruta.
Vejam! Na caveirinha, os dentes cravados no canudo do pito – a Caruta fungou o derradeiro respiro no oco do pito. O canudo encravado na boca, não sai não. Nem o demônio preto do urubu roubou.
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À Semelhança
O mundo carecia de uma criatura que pudesse consolar a todos. Então os homens e as mulheres criaram Deus. Quer o tenham concebido pensando em seus sonhos mais queridos ou, ao contrário, moldado-o a partir do barro da natureza, o fato é que Deus surgiu aos olhos de todos com forma humana. A empatia foi imediata e assim o mundo ficou completo: agora havia um Deus.
O tempo passou, a vida seguiu, o mundo se transformou, o cotidiano se instalou, a percepção das coisas se acomodou. Os animais, com a cabeça baixa, sempre olhavam para o chão. Os homens e as mulheres, com a cabeça erguida, olhavam para a frente e, às vezes, olhavam para o céu. Para onde o Deus inventado olhava, não era possível saber. Sozinho, muito sozinho, ele frequentemente se queixava de que, depois de o terem feito tão semelhante aos homens e às mulheres, esses mesmos homens e mulheres o tivessem banido para longe de onde viviam. Passou então a vagar pelos ermos do céu e do horizonte, ensimesmado e muito apreensivo com a possibilidade de que um dia, por ser inútil, os homens e as mulheres o desinventassem.
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Reflexo de si
Ela o fez numa terça-feira comum, entre o primeiro e o segundo gole de café. Decidiu que tentaria encontrar a empatia. Não a palavra desgastada em discursos, não o conceito bonito das redes sociais. Mas a coisa viva, o fio de ouro que une as almas. A primeira tentativa foi com o barista. Enquanto ele entregava o copo, ela manteve o olhar fixo, buscando além do cansaço das olheiras, além do sorriso profissional. O que viu foi um reflexo. Sua própria imagem minúscula, curvada, nos olhos castanhos dele. Ela estava buscando o outro e encontrou a si mesma, pequena e distorcida, na superfície espelhada da íris. Foi um começo desanimador. No ônibus olhou para a senhora com as sacolas pesadas. Nos seus olhos azuis desbotados pelo tempo, parecia haver um céu nublado de preocupações. A senhora notou o olhar fixo e franziu a testa, puxando as sacolas para mais perto. O que a narradora buscava como empatia foi recebido como uma ameaça. O fio não se conectou; foi um fio cortado antes do ponto.
A frustração cresceu. Ela começou a ver olhos por toda parte. Olhos apressados, vidrados em telas, fechados de sono, abertos de tédio. Cada um parecia uma fortaleza com as pontes levadiças erguidas. Como encontrar a empatia no olho do outro, se o olho é justamente a fronteira, a porta que só se abre por dentro? Foi então, já no fim do dia, desistindo da busca ativa, que algo aconteceu. No corredor do prédio, esbarrou no vizinho do andar de cima, um homem reservado que sempre carregava um peso silencioso nos ombros. Ele segurava um vaso com uma orquídea murcha. O acidente foi banal: uma batida de ombros, o vaso se espatifou no chão de cimento. Ela se abaixou ao mesmo tempo que ele, os dois juntando os cacos de barro e os pedaços da flor frágil. “Ela já estava morrendo”, disse o vizinho, com uma voz mais suave do que ela imaginava. “Minha esposa plantou. Faz três anos que ela se foi.” Ao ouvir, ela não olhou nos olhos dele imediatamente. Olhou para as mãos dele, tremulas, segurando o caule quebrado. E só então, quando ele suspirou, seus olhos se encontraram. E nos olhos dele, úmidos e sem tentar disfarçar, ela não viu um reflexo de si mesma. Viu um céu diferente, particular, de uma saudade que não era dela. E, por não ser dela, ela pôde respeitá-lo, acolhê-lo sem invadi-lo. A empatia não estava no olho do outro, estava no espaço entre o seu olhar e o olhar dele. A busca terminou onde não deveria ter começado: fora de si. A empatia não é um tesouro escondido na íris alheia. É a coragem de deixar seu próprio mundo em suspenso, para que o universo do outro, por um instante, possa brilhar com sua própria luz estranha, incompreensível e inteiramente digna de ser vista.
Naquela noite, ao fechar os olhos, ela não viu mais imagens refletidas. Viu portas. E entendeu que a verdadeira conexão não está em arrombar essas portas com o olhar, mas em sentar-se respeitosamente na soleira, fazendo companhia à luz, ou à escuridão, que vem de dentro.
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Poema #04: Oceano de estrelas
o teu encanto de sereia
levitou a serpente
por entre minhas teias
tua pele luxo de seda
por cima de mim
feito mágica de Aladdin
sucumbiu com minhas destrezas
teu palato de rio doce
desaguou no meu remo
este tão cansado e enfermo
de navegações ocres
e ao velejarmos sobre ondas rítmicas
& místicas
no compasso do som das baleias
gozamos no alto do mundo
um bilhão e duzentas mil estrelas -
Passagem
Talvez essas sejam as minhas últimas palavras. Mas sempre acho que serão as minhas últimas palavras. Insisto em escrever isso, quando sinto dores (fortes dores). Estou completamente enferma, e os médicos não detectam nada. Já fiz uma porção de exames, e ainda os faço. Gasto um dinheirão com isso. Se procuro na internet os sintomas, acho que vou morrer a qualquer instante. Já me falaram que sou hipocondríaca. Claramente isso não corresponde à realidade. A doença silenciosa e fatal é ainda mais cruel dos três últimos anos para cá. A causa de tudo foi a morte repentina de Charlote, a minha gata. Ela tinha apenas oito anos. Gatos vivem em média quinze anos. Nunca achei que fosse perdê-la da noite para o dia. Primeiro, ela ficou muito quieta; depois, passou a não enxergar, batendo-se pelos cantos, desnorteada. Eu a levei à emergência. O médico-veterinário disse que havia características de envenenamento. Mas como, se não uso nada dessas coisas, nem mesmo inseticida? Ela teve uma hemorragia e depois uma parada cardiorrespiratória. Charlote foi cremada e suas cinzas ainda permanecem comigo, porque preciso de sua presença. Quando a peguei na rua, o fiz justamente pela proteção transcendental dos gatos às pessoas. Eles nos curam, é verdade!; puxam as energias negativas, dores e cansaço. E foi assim, durante os belíssimos oito anos: Charlote me ajudou muito. Na verdade, meu caso de enfermidade é crônico (e possivelmente degenerativo). Ora estou com dores nas costas, ora com enxaqueca. E eu só tinha a Charlote para me acudir nas piores horas. Pensei que ia abandoná-la antes do tempo, e foi ela quem me pregou uma peça. Me deixou desolada e mais doente (mas não quero que se sinta culpada por isso; ela tinha de ir por algum motivo, que ainda não decifrei). Já não controlo os meus músculos. Quando vou comer, derramo toda a comida. Ando desengonçada. Tropeço nas ruas por qualquer mínimo buraco. Semana passada caí, bati a cabeça e fiquei desacordada. Uma senhora muito idosa me socorreu, jogando água no meu rosto e dizendo, como um mantra, que todo o mal iria passar. Pensei na minha avó, que morreu há trilhões de anos, mas deixou o seu amor eternizado em mim. Quis pedir para a velhinha me carregar com ela, já que estava prestes a morrer; para cuidar de mim como a uma netinha. Quando disse que estava mesmo quase partindo desta para uma melhor (tenho fé!), a velhinha deu uma risada e me recriminou, depois, severamente. Que era muito nova para pensar nessas coisas de morte. Não sei bem como estarei daqui a algumas horas. Tomei seis remédios obrigatórios e mais dois para dormir. Espero morrer dormindo, como se não tivesse acontecido nada. A minha passagem, na verdade, é um verdadeiro nada no mundo. Decreto todos os dias o fim da minha existência, para encerrar logo esse martírio, mas esse troço parece estar contra mim.
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Olhos de cobra
Eu gosto de sair andando sem um rumo definido. Desde moleque assim. Lembro-me da felicidade que sentia ao perceber o dia chegando pelos vãos da janela, era como um chamado da liberdade me arrancando da cama de volta para o mundo que o sono da noite anterior havia me tirado a contragosto. Saía descalço, pisando a grama molhada, enquanto os primeiros raios do sol criavam um pano cintilante sobre as várzeas cobertas de orvalho, a névoa rasteira sobre a superfície dos veios d’água. Ali, sem saber do intrincado invisível que me circundava e me atraía, eu observei um fenômeno que me acompanharia pelo resto da vida e que, de alguma forma enviesada, me escancarou um destino além da minha compreensão e controle. Enquanto pisava prazerosamente a grama molhada, eu ouvi um barulho que me era desconhecido, um guincho de algum animal, um som arranhado e ao mesmo tempo sufocado, como quando se tenta tirar um grito da garganta rouca e quase muda. Aquele som ficava cada vez mais próximo e então vi, na beira do rego d’água, frente a frente, uma cobra e um sapo. Ela tinha a bocarra aberta e os olhos arregalados fixos nos olhos do outro, como se o hipnotizasse. E era dele que vinha aquele som gutural, pontuado por alguma estridência, como se gritasse por socorro. Enquanto, num arrastar dramático que ficou tatuado em minha memória, como se eu pudesse ver dentro do seu corpo todas as contrações que tentavam contê-lo e puxá-lo para o sentido contrário, ele ia, em pequenos pulos, para dentro da boca da cobra. E assim se deu, até que ela o engoliu, aquele grito calando-se aos poucos conforme ele afundava para dentro dela, até que a boca se fechou e tudo ficou silencioso. E agora era apenas o som da água que escorria, densa e veloz, enquanto a serpente parecia fechar e abrir os olhos, lentamente, como quando se ativa as papilas gustativas para identificar e apreciar, um a um, a variedade de sabores de uma iguaria. Exceto por aquele fato raro daquela manhã, aqueles passeios nas primeiras horas do dia eram como se eu retomasse meu lugar no mundo, como se de dentro dele viesse um chamado, com letreiros enormes e fanfarras e uma grande faixa que dizia “bem-vindo ao seu lugar”. Mas a visão daquele dia não passou impune, não conseguia retomar meu caminho que era apenas deixar correr as horas enquanto me perdia na contemplação da vida. Sentia-me culpado por não ter salvo aquele sapo, podia ter pego um pedaço de pau e pelo menos espantado a cobra, mas não, fiquei inerte, como se algo dentro de mim dissesse que aquela era uma lição necessária, ou talvez tenha sido mesmo a faceta maquiavélica dessa coisa chamada destino que me fez ser apenas um observador estático dos minutos finais do pobre animal. Não consegui esquecer e ao cair da tarde subi até a igreja que ficava a um quilometro de casa, no alto, em direção ao centro da cidade. Fique lá, sentado em um dos bancos na terceira ou quarta fileira, enquanto olhava a pintura belíssima numa abóboda sobre o altar, um grupo de anjos rechonchudinhos de cabelos encaracolados flutuando em volta de Nossa Senhora com o menino Jesus no colo. Eu pedi encarecidamente que ela me perdoasse por aquele crime, ao mesmo tempo em que esperava algum movimento em seu rosto, talvez ela se voltasse para mim, e através de algum gesto, mínimo que fosse, me fizesse entender que ela tinha recebido o pedido e me perdoaria. Nada disto aconteceu, mas saí de lá certo de que a minha oração teria chegado aos ouvidos de Deus e que a minha fé, ainda que titubeante, haveria de ser suficiente para que eu alcançasse o perdão.
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Poema #71: Tratado de Anatomia
A anatomia dos carros na rua
revela a um homem que os vê
(entre outras coisas)
uma força neutra a interferir
e modificar a paisagem desolada
de quem anteriormente os criou.A anatomia das mulheres
(independente dos lugares
em que se encontram) remete-nos
a uma forma viva de organização planejada
onde a beleza é fruto dela mesma, transfigurada.A anatomia do pensamento de quem
(por exemplo escreve este poema)
nada mais é do que uma consequência imaterial
de causa e efeito entre o sentir de maneira sensível
diferentes realidades projetadas na sombra
do poste de observação.
O Acaso das Manhãs -
Voraz
Fico observando uma lagartixa colada no vidro da janela.
Minha mãe diria que ela não tem modos! Arreganhada desse jeito, toda exposta.
Minha filha se arrepiaria, sentiria medo, nojo. Não olharia.
Eu a observo. Será que ela sabe que está assim tão exposta, tão vulnerável?
A lagartixa, no entanto, tem os olhos fitos nos insetos pululando à luz da lua. Livre de qualquer opinião.
Sem vergonha nenhuma, deseja.
Dane-se todo o resto!
De vez em quando me serviria ser uma lagartixa…
Completamente entregue aos meus desejos.
Grudada na tua janela despudoradamente.
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Pizza fria
Zimi parecia debochar de tudo o que desprezava sem dizer uma palavra.
Era algo em sua presença.
Algo que se manifestava especialmente na inconveniência das filas.
De mercado, de banco, qualquer uma.
Ele estava com o título de eleitor cancelado por falta de uso, e dessa vez, a fila para regularizar o documento.
A fila era monstruosa e havia gente ansiosa pelo título, especialmente jovens que votariam pela primeira vez.
Eram divididos em duas bolhas tóxicas que chamavam de ideologia.
Zími soube na véspera através de um noticiário televisivo que aquele seria o último dia para regularizar a situação.
Enquanto ele esteve ali, ninguém da imprensa apareceu.
Alguns daqueles jovens talvez soubessem que se votar mudasse alguma coisa, teriam essa possibilidade cortada imediatamente.
Talvez soubessem que poder votar não faz de lugar nenhum uma democracia.
Conheceu uma universitária que tentou fazê-lo gostar de MPB.
Só conseguia pensar sobre como alguém daquela idade podia suportar músicas que ele abominava desde os anos setenta.
Zími usava uma camiseta da banda Mission of Burma, e ela gostava de Gonzaguinha.
Contou a ela que a última vez em que votou foi quando a urna eletrônica foi implantada.
Ele gostava das cédulas de papel, para escrever palavrões.
Nunca mais compareceu às urnas.
Disse a ela: “Políticos dividem as pessoas em dois grupos: instrumentos e inimigos.”
Lembrou do tempo em que na escola passava de ano no terceiro bimestre, só para passar o resto do tempo cabulando aula no Ibirapuera.
Um recurso ingênuo que na época parecia fazê-lo reduzir o dano do tempo de vida perdido no colégio de freiras.
Antes da internet e sem a bolha do celular.
“Pensava que passaria sua vida vagando a esmo, com a pecha de perdedor, mas não me preocupava. Eu não era articulado o suficiente para explicar com clareza o que eu pensava, E se fosse articulado, tomaria porrada da repressão da época.”
Foi expulso da escola de freiras na sexta série.
Na época, voltando à escola depois de três dias suspenso por insubordinação, foi pressionado pela freira na frente dos colegas.
Foi perguntado sobre qual era o motivo de sua revolta.
Zími respondeu: “A primeira revolta é contra a suprema tirania da teologia do fantasma deus. Enquanto as pessoas tiverem um mestre no céu, serão escravos na Terra. E sou contra o uso da religião para justificar hierarquias, obediência e dominação.”
Apanhou em casa e foi então transferido para uma instituição não religiosa, onde se deu melhor e não teve problemas para concluir o segundo grau.
Depois cursou jornalismo, concluindo o curso antes que tivesse internet em casa, na segunda metade dos anos noventa.
Perguntou-se novamente se haveria sentido ter passado por aquilo depois da internet.
O horário de funcionamento daquele cartório eleitoral chegou ao fim, e as pessoas ali eram avisadas que somente em novembro poderiam novamente ter suas situações regularizadas, caso não resolvessem suas pendências naquele dia.
Zími foi embora sem regularizar nada.
Estava ali porque tinha a tarde livre, e o barulho de uma reforma no apartamento de cima não lhe dava sossego.
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Ontológico, hedonismo e deletério
Nem tudo está perdido em matéria de palavras. Esta semana, em diferentes textos, encontrei ontológico, hedonismo e deletério. Uma delas, não confesso qual, me obrigou a ir ao dicionário. Não eram textos de filosofia profunda, apareceram como se fossem palavras corriqueiras. Não são. O dicionário está cheio delas, a maioria esquecidas e empoeiradas, talvez aguardando a ressurreição. Quando uma desaparece definitivamente leva consigo uma forma de ver o mundo.
Admito que implico com algumas palavras. Se pudesse as baniria por lei. Uma delas é progenitora. Só serve para noticiário policial ou conversa com meliante. Neste último caso com a devida cautela: periga ele não entender.
- Como vai sua progenitora?
- Progenitora é a sua mãe.
- Exatamente.
Na mesma linha vai cônjuge. A única vantagem é não ter gênero definido, mas isso é vantagem recente em palavra antiga. Se o seu cônjuge apresentar você como ‘minha cônjuge’ peça divórcio. Trata-se de falsa erudição, nem sei por que casaram. Pode ser até que ele seja um adorador do gerúndio! Fuja igualmente de gente de vocabulário limitado ou deturpado tipo táuba, às vezes contagia e a cura é difícil.
Implico com nubente, acho patíbulo triste e gáudio antiquada. Tenho sentimentos por cabotino e perspicaz. As palavras e eu somos realmente inseparáveis. Elas ajudam a moldar ideias: mais palavras, mais nuances de pensamento. Diversidade é tudo. Mas, se houver opção, prefiro as menos pretensiosas. Podem não acreditar, mas é complicado escrever simples.
Outro dia quis descrever um árabe usando aquela túnica comprida comum entre eles. Escrevi caftan e o corretor de textos sublinhou a palavra em vermelho. Caftã também não deu certo. Tudo bem, vamos ver a tradução em português. É cafetã ou cafetão. Como? Não dá para dizer que o cara usava um cafetão! Optei pela palavra em inglês mesmo, escrevi kaftan. É claro que o corretor reclamou. Fazer o quê? Se não temos uma palavra adequada, roubamos de outra língua.
E o que dizer quando, em conversa informal, um amigo diz valhacouto? A gente até para de respirar para aproveitar o momento porque uma coisa assim dificilmente se repetirá em nossa vida. Ouvir alguém utilizar palavras como amiúde, azêmola ou excelsa nos dá alguma esperança. Não a de que todas as palavras vão sobreviver – essa eu já perdi – mas a de que sempre existirão pessoas cuja conversa é um deleite.
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Eu não devia me chamar BETHÂNIA
Meus pais me deram esse nome porque se conheceram no show da cantora num teatro na Lagoa. Engraçado que nem gosto assim dela. Talvez por ter ouvido tanto minha mãe cantar. Após a morte de meu pai, então, era quase todo dia. Da Bethânia eu só gostava de “Olhos nos Olhos” do Chico Buarque. Ficou impregnada em mim, uma espécie de hino materno. Toda vez que ela ensaiava ficar melancólica, punha o disco com a música. A razão de eu gostar da canção era a letra, uma resposta feminina a um abandono. Para mim, a melhor versão de uma doce vingança.
Pesquisei o nome. Bethânia vem do original hebraico que faz referência a uma pequena cidade no Monte das Oliveiras. Nada a ver comigo, meu sobrenome nem é Oliveira. Outra coisa irritante era, por causa do meu nome, me associarem a um determinado comportamento. Pela escolha sexual da cantora, alguns me viam como uma possível transgressora. Uma associação que nunca entendi bem. No meu caso, soava como uma antítese. Sou hetero convicta e tento disfarçar meu preconceito com lésbicas. Com gays também. Não devo ser uma pessoa razoável nesse aspecto, admito.
Bethânia, a cantora, é feia demais. Eu sou linda, branca, loura e de olhos claros. E imodesta, claro. Cultivo a exteriorização do belo e deglutível, um mundo onde a fantasia não se oponha à realidade.
Com o tempo, surgiram fortes crises de identidade e angústia. Muito do que eu sentia vinha do desgaste diário de esconder dos outros quem eu verdadeiramente era: uma burguesinha chata.
Sem me esforçar, eu parecia o tipo da garota, cujo comportamento era considerado convencional. Devia ter sido chamada de Patrícia. Patricinha, em vez de Bethânia. Ao contrário do que pode sugerir o meu nome, sou vaidosa ao extremo, adepta de procedimentos estéticos e skincare. A maquiagem tem de ser impecável. Levo horas escolhendo roupa, mesmo para ir só na esquina. Coloquei silicone nos seios para aumentar o volume e botox a fim de suavizar minhas linhas de expressão. Posto fotos sensuais de biquíni no Instagram e não me importo de sexualizarem minha imagem. Não tenho orgulho disso, mas é mais forte do que eu.
Não vou dizer a minha idade.
Sou católica sem convicção e sem frequentar a igreja. Implico com padres, além de achar a missa um porre. Penso que Jesus foi um hippie revolucionário. Não sou ateia declarada por medo do desconhecido. Carrego bastante culpa dentro de mim.
O corpo é minha doutrina filosófica. A existência humana é a matéria. Sigo dietas variadas, de low carb a zero lactose. Quando conveniente, alardeio veganismo, embora nunca abra mão de um churrasco se a carne for de primeira. Linguiça, coração de galinha e asa de frango fazem um estrago na pele. Evito. Já tentei jejum intermitente e não deu certo.
Fiz análise durante um tempo e não consegui pôr para fora uma parte de quem eu era: uma pessoa vazia. Guardar dentro de mim aquilo que acreditava conseguir esconder me causou forte dependência a remédios. Ansiolíticos tarja preta. Minha analista deu a entender que eu tinha dupla personalidade. Preferi não levar a sério.
Quando meu pai era vivo, costumava ouvir música erudita com ele. Se estou sozinha, gosto de escutar a Sinfonia Surpresa, de Haydn ou o Concerto para Piano em Lá Menor, de Schumann. Pouca gente sabe disso. Na minha playlist, Dylan, The Cure e Beto Guedes. Ecletismo musical é comigo.
Quando posso, vou ao cinema. Herdei o gosto dos meus pais. Wim Wenders, Goddard, Pasolini e Bergman. Não perco os filmes do Woody Allen e do Almodóvar. Assisti umas cinco vezes ao Fitzcarraldo, do Herzog. Amo a cena em que Klaus Kinski cruza de barco o Amazonas ao som da ária “A Te, o Cara”, de Vincenzo Bellini. Minhas amigas temem tubarões assassinos, aliens e sextas-feiras treze, já meus medos têm mais a ver com o jogo de xadrez com a morte, no “Sétimo Selo”. Quando quero, sou um bocado cult.
Vivo na Internet. Curto uma relação parassocial. Amar pessoalmente dá trabalho e causa desilusões. Evito interações profundas que me causem tédio imediato.
Não posso ver um mendigo na rua que logo me enterneço. Empatia absoluta com a miséria alheia. Às vezes posso parecer até ingênua ou demagoga. Nem ligo.
Sou contra as drogas. De alucinada, basta a vida. Prefiro estar consciente, embora deteste o concreto, o tangível. Fumo cigarros eletrônicos e, vez em quando, bebo gim tônica ou dry martini. Tomo creatina, malho na academia e faço bronzeamento artificial. Detesto ir à praia. Já peguei micose na areia. Piscina de clube nem pensar. Confesso que sofro com essa pressão social e midiática que impõe certos padrões estéticos. Ainda bem que sou bonita e magra.
Tenho pavor da rejeição. De qualquer tipo.
Sei que não combina com meu estilo de vida, mas gosto de ler. Tenho uma queda por escritores da contracultura que rejeitam os valores tradicionais. Talvez atração do que é contrário. Li Kerouac, tenho livros sobre a vida de Ginsberg e curto a poesia marginal de Leminski e alguma coisa do Bukowski. Para impressionar, levo sempre comigo um livro para ler no metrô. Nem leio, fico vendo se estão me notando. Gosto de passar essa imagem intelectual. Jovem socialite, colunável e cerebral. Repito, sou o próprio contrassenso. Adoro incongruências, a começar pelo meu nome. Bethânia. Não tem nada a ver comigo.
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O homem que ouvia estrelas
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.
— Olavo BilacHavia um homem naquela cidade que buscava sempre os lugares mais altos e afastados. Depois de um dia cheio de trabalho, distrações e malcriações, ele subia morros, montanhas e prédios. Fosse onde fosse. Fosse como fosse…
Depois de um tempo, um menino miudinho, mas vivo no olhar e nas ideias, decidiu acompanhá-lo.
E, a partir daí, homem e menino subiam morros, montanhas e prédios toda noite.
Espia! Ouve com atenção… Sempre dizia o homem!
O menino, falante e curioso, também sempre perguntava o que é que as estrelas diziam!
Com o tempo, aprendendo com o velho homem, o menino passou a ouvir e entender.
E entendia de sonhos e memórias de outros tempos.
E entendia de pessoas, sentimentos e sensações.
E foi entendendo o porquê daquele homem, até então, viver só.
A gente precisa fugir do barulho e da confusão pra poder ouvir certas coisas que não dá pra ouvir lá embaixo.
E dizia sussurrando, quase que em uma oração.
E dias e noites e tempos distintos levaram o homem para lugares ainda mais longínquos. E o menino o seguia e crescia.
Até que o tempo, mandatário das coisas e das gentes, levou de forma definitiva o homem.
O menino estava só, mas não estava.
Dentro dele, as palavras do homem ressoavam, brilhavam, ressignificavam…
O menino aprendeu que só precisava ficar em silêncio pra pode ouvir estrelas.
E ouvir estrelas era a melhor coisa do mundo quando se tinha fome ou quando se sentia frio.
E ouvir estrelas era a melhor coisa do mundo para um homem que voltava a ser menino…
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O ocaso do macho
A onda de feminicídios e a misoginia escancarada nas redes sociais costumam ser atribuídas à ação de influenciadores da machosfera e aos algoritmos raivosos da extrema direita. A explicação procede, mas pode ser ampliada.
Numa abordagem, digamos, ‘psicossocial’, diria que se trata de uma reação de desespero do macho da espécie diante de um mundo que já não gira exclusivamente ao seu redor. Um último suspiro do velho sistema patriarcal que vem derretendo frente à crescente participação feminina na vida política e social.
Freud explica: o comportamento hostil ante o sexo oposto decorre da ferida narcísica que vitimou o rapagão magoado, que exercia o papel de provedor, centro da casa, autoridade inquestionável. Com o ego machucado pela perda dessas prerrogativas, sente-se como um reizinho destronado e se volta com agressividade contra as ex-vassalas.
Jung também daria seu pitaco: a cultura patriarcal superestimou valores associados ao masculino, como dureza e racionalidade, enquanto escondia sob o tapete dimensões ligadas à ‘anima’: intuição, sensibilidade, acolhimento. Sem saber lidar com a ‘porção feminina’ presente em si mesmo, o brutamontes partiu pra porrada.
Psicologismos à parte, o fato é que o Clube do Bolinha entrou em estado de insolvência.
As mudanças vêm em ritmo de tartaruga. Considere-se, por exemplo, o Congresso brasileiro: as mulheres ali reunidas não teriam quórum sequer para conter as bancadas da Bala, do Boi e da Bíblia (redutos amplamente masculinos). Luta desigual: Barbie x Conan o Bárbaro.
No STF, a pobre Carmen Lúcia segura as pontas do ‘bloco do eu sozinha’, no julgamento das pautas de interesse da parcela de 51% da população brasileira. Até o presidente ‘progressista’, ao tirar uma carta da manga para a nova vaga aberta na Corte, descarta a dama de copas e prefere o evangélico de confiança.
Ainda assim, já houve progresso. Afinal, não há muito tempo, a discussão girava em torno de decidir se quem veste saia e soutien poderia ter direito a voto.
Com o tempo, elas timidamente começaram a ocupar algumas cadeiras nas universidades. Depois chegaram aos escritórios, aos postos de chefia e aos concursos públicos. Quando se deram conta, estavam assinando contratos, coordenando equipes e ornamentando com plantas e objetos decorativos o ambiente cinza de trabalho.
Se o fanfarrão tem a força, a dama tem a resiliência. Suporta em silêncio a dor do parto para cumprir o indispensável desígnio de gerar a vida que biologicamente lhe cabe. Já o bebezão beberrão choraminga por parir um novo mundo, no qual tem de partilhar decisões com a parceira, antes ignorada. Reclama, tadinho, do orgulho ferido. Mas minimiza a situação opressiva de quem dá à luz sem sequer poder abortar pois seu corpo é tratado como propriedade do Estado religioso varonil.
Mas não adianta espernear, Zé Mané. Seu reino está sucumbindo em meio às garrafas de cerveja que você vira nas madrugadas de bar, falando de futebol e putaria, enquanto a patroa, sem receber um puto, rala pra não deixar desestruturar o lar e não desencaminhar os filhos que você botou no mundo ao dar vazão a seu instinto carnal.
A força bruta já teve seus dias de glória quando era necessário colocar um sujeito parrudo portando um tacape na entrada da caverna para impedir o assalto de inimigos ou de feras que espreitavam ao redor.
Mas não dá para reproduzir esse padrão paleolítico depois da invenção da vacina, da internet e do vaso sanitário. O que pode sustentar a estabilidade da sociedade do futuro não é a largura do bíceps nem o comprimento do pênis, mas a colaboração, a solidariedade, a preservação ambiental. E nesses quesitos o bicho-homem já mostrou historicamente sua inabilidade.
Não seria justo generalizar: nem todos os varões sufocaram em si os aspectos sensíveis da personalidade. Não me refiro apenas aos gays, mas aos emotivos, os suscetíveis ao martírio dos necessitados que se mobilizam para melhorar o mundo, preferencialmente sem recorrer à violência.
Na outra ponta, também há mulheres com posturas mão-de-ferro. Margaret Thatcher é o exemplo mais citado. Uma machona que tratou demandas sociais com cacetete. Modelo de mulher, segundo o manual dos homens.
Há também aquelas acomodadas que obtêm benesses por sua apropriada condição de submissão. São as que só votam em homens pois os julgam mais capacitados para tomar decisões.
Mas de uma maneira geral, recortes eleitorais comprovam diferenças de comportamento político entre os gêneros, com maior sensibilidade feminina a pautas sociais e humanitárias, enquanto o eleitorado masculino tende a se inclinar a discursos de ordem e segurança.
Computando apenas votos femininos, teríamos nos livrado do estorvo trumpista, e os EUA teriam pela primeira vez uma presidente mulher (algo que teria um impacto mais disruptivo do que a eleição de um presidente negro, trauma já superado com Obama). De fato, a sociedade americana, mais do que o racismo, escancarou seu machismo.
Escolha seu time. De um lado, os vilões que envergonham a raça humana: Nero, Calígula, Átila, Gengis Khan, Pizarro, Robespierre, Hitler, Mussolini, Stalin, Pol Pot, Mao Tsé-Tung, Franco, Salazar, Idi Amin, Pinochet, Garrastazu Médici, Kim Jong-Un, Bin Laden, Bashar Al Assad, Netanyahu, Putin. Só marmanjo.
Do outro lado: Joana d’Arc, Teresa de Calcutá, Simone de Beauvoir, Hanna Arendt, Angela Merkel, Greta Thunberg, Malala, Claudia Sheinbaum, Julia Gillard, Michelle Bachelet, Mãe Stella de Oxóssi, Sônia Guajajara, Marina Silva, Djamila Ribeiro. Aquelas que, a partir de trajetórias distintas, ajudaram a construir um mundo mais justo, equitativo… e feminino. Para homens e mulheres.
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O que sei de futebol?
De futebol mesmo, sei apenas que a bola é redonda e que, se ela entrar na trave do adversário, é gol.
Agora, de Copa do Mundo eu sei. Sei muito. E sinto saudades; quantas saudades!
A vida era coletiva, colorida, exibida, assumida e feliz. Muito feliz.
A Copa do Mundo daqueles tempos era um acontecimento inigualável. Não existia outro evento capaz de ofuscá-la.
Imagine um bairro simples, na periferia de alguma cidade do interior do país, onde nunca faltava um campinho de terra e toda a gurizada era da seleção brasileira.
Camisetas variadas, calções curtos, pés descalços, rostos vermelhos, suor misturado à poeira. Meninos jogando com a mesma paixão dos craques que, dali a poucos dias, entrariam em campo representando o Brasil.
E a data da Copa se aproximando cada vez mais.
Os locutores das rádios falavam animados, contagiando os ouvintes para a abertura do “maior espetáculo da Terra”.
Bilhões de pessoas estariam diante das televisões, onde pretos e brancos se igualavam na transmissão ainda sem cores dos primeiros campeonatos.
Outra maravilha daquele tempo era a cumplicidade. O desejo de estar junto. A casa cheia, cheiro de fritura vindo da cozinha, torresminho, cerveja, um olho no churrasco e outro na televisão.
As bandeirolas verdes e amarelas atravessando as salas, ou o vizinho com a enorme bandeira espetada num cabo de vassoura, tremulando orgulhosa na janela.
E o silêncio absoluto no instante do pênalti?
A sinceridade do choro de homens, mulheres e crianças diante da perda de um gol ou da derrota do time.
O grito único das pessoas explodindo na hora do gol. Depois, as carreatas, os buzinaços, as bandeiras se tocando pelas janelas dos automóveis.
Que maravilha foram as Copas do Mundo daquele tempo.
Que saudade tenho delas.
Eu falharia se precisasse contar tudo isso aos meus netos; tamanha emoção não cabe em palavras…
Meus amigos jogadores, não me deixem falhar.
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O Teste
— Quantos quilos você tem?
— Uns cento e dez.
— Próxima! Mais rápido, minha filha. Anda um pouco. Desfila. Imagina que tem uma plateia aqui só pra te ver. Vamos logo, meu amor, não tenho o dia todo. Chega, pode sair. A gente entra em contato. Próxima! Próóóóxima! Quantos quilos você tem?
— Cento e vinte e um.
— Próxima! Uau, acho que você vai servir. Como se chama?
— Zulmira.
— Então, Zulmira, você tem problemas com nudez? Ainda estou pensando, não é nada certo, mas talvez alguma nudez venha a ser necessária. Só peitos, não se preocupe, tudo de muito bom gosto. E vai ser rápido. Na hora devo colocar uma luz fraca em cima de você… Seria um empecilho?
— Não, tudo bem. Eu…
— Agora anda um pouco, como se estivesse desfilando. Meio Gisele, entende? Meio Gisele, eu disse! Mais disposição, atitude de mulher empoderada. Solta o cabelo. Balança a cabeça. Plínio, joga o ventilador em cima dela. Pega aquele lençol e enrola no corpo. Bem sensual, não seja tímida. Anda, Zulmira, tá esperando o quê? Não precisa ficar com vergonha. Parece bom. Quantos quilos você tem?
— Cento e trinta e sete, acho. Não fico me pesando toda hora.
— Perfeito. Você não é muito alta, né? Um metro e… Idade?
— Quarenta e nove.
— Onde você mora?
— Quintino.
— Cruzes, onde fica isso? É longe, né? Você vai conseguir chegar na hora? Eu não tolero atrasos é bom que você saiba. Plínio, mais alguma?
— Não, Daniel, essa aí é a última.
— Você tá com sorte, Zulmira, vamos fechar com você. Alguém já te disse que você tem muito potencial? Contente, querida?
— Claro. Sempre foi meu sonho. Olha, eu decoro rápido, tenho muita facilidade. E os ensaios quando começam?
— Relaxa, Zulmira. Você não tem texto, não precisa decorar nada. Também não tem que participar de nenhum ensaio. Uns dois dias antes da estreia você passa aqui, a gente conversa sobre marcação, mas é tudo muito simples. Você fica uns trinta segundos em cena e sai. Vai dar tudo certo. Os caras querem ver as garotas, as gostosonas. A sua parte é mais um alívio cômico, entende?
— Mas é só isso? E o contrato?
— Não tem contrato, é cachê. Cinquenta reais por sessão, recebe no domingo.
— Mas eu pensei que…
— O que foi, Zulmira? Não tá satisfeita eu chamo outra.
— Não é isso, é que eu pensei…
— Pensou o quê? Meu bem, você não viu o anúncio? Tá claro no anúncio.
— Eu não li o anúncio. Nem sabia que tinha um anúncio.
— Veio pela agência?
— Não, tava passando aqui na porta…
— Então é isso, minha filha, já expliquei tudo. Conversa com o Plínio se tiver dúvida, mas o negócio é esse mesmo que eu falei. Plínio, tô atrasado, preciso correr. Liga pro elenco e avisa que os ensaios começam amanhã, tudo bem?
— Pode deixar, Daniel.
— Acho que lá pelas seis tá bom. Ah, e fecha o teatro pra mim, ok?
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D. Henrique
Se ouve lá de casa, uma légua de distância – diz o Tio Abílio.
Canto mais belo não há – diz Tia Adélia.
E a Mocinha sorri encantada. É um passarinho mágico, dentro dela.
D. Henrique, tal se soubesse, modula o trinado leve no ar do meio-dia, trinado alegre se espiralando na varanda, nos pomares, nos campos sem fim.
Era presente do Tio Juvenal, trazido de longe, do sítio do Fogo-Apagou, que se agacha numa furna de além da Serra-do-Meio, num lugar que se esconjura já no apelido: Deus-Me-Livre. O nome D. Henrique, homenagem ao audaz navegante. Não tinha cruzado os mares, arrostado perigos, tempestades, naufrágios? Certo que não: canário-da-terra, muito nosso, desta beiradinha de sertão. Amarelinho, o amarelo vivo, lindo, jamais visto – tirante a laranja, mas a gema do ovo, a gema do ouro. Com o cinza descendo nas costas, crescendo, até a cauda – manto real. E o canto, de maravilha. Certo que de um outro mundo, de sonho, da fábula.
A Mocinha era a dona – por isso feliz, feliz como um passarinho. O gorjeio de D. Henrique, o sorriso nos olhos da Mocinha – um namorinho, às escondidas. Ah, ninguém não saberia dos trinados do seu coraçãozinho, a sua paixãozinha. Sabe, eu tenho um passarinho – queria contar. As palavras não dizem o sentimento – todo mundo tem um passarinho. A verdade se imagina – o coração no poleirinho, que balanga pra cá, pra lá.
Ao Nando, o noivo, sentado sério na varanda – Sabe, eu tenho um passarinho. Os olhos dele, de surpresa – o que demais? D. Henrique sacode as asinhas, estufa o peito, as peninhas de ouro. Ah, sei – diz o moço: – É um passarinho de ouro. A Mocinha ofendida, lá com ela. Não é só isso não. Ele nem não existe, de tão bonito. O pensamento tão gravezinho, o Nando nem não entende. Consola – É muito lindo, sim, o canarinho. Não via quem não queria, só de brincadeira que falou. Se ela dissesse: Não se brinca com o sentimento dos outros, Nando. A cara morena dele tão perto – precisava que falasse de amor? E se fosse de brincadeira? Não pensava muito, não. Se encosta, dizendo, o que nem carecia: Nando – eu, você. D. Henrique pula que pula, o biquinho treme na melodia que só ela sabe – batendo palmas no jeito bem dele. E o Nando – Não é que esse passarinho canta bonito? É diferente, não tinha reparado. É até inteligente – ela pensa.
Você põe o dedinho, provoca. D. Henrique vem com o biquinho, as bicadinhas. Bravinho, se arrepiando inteirinho – ou era só que estaria brinca-brincando? Os azuis do céu, a capricho – límpido, livre: a alegria do canarinho, mesmo se bravinho. A Mocinha treme os labiozinhos, estralozinhos, a lingüinha, arremedo de assobio – Assim que se canta, D. Henrique. E D. Henrique, garboso, vestido no seu manto do maior orgulho, trina que trina e trina – como que uma caçoada! – os mais belos trinados. Dedinho no pescoço, na cabecinha – num agrado, o elogio merecido? Não deixa não. De um a outro poleiro, o balanço arisquinho. Elogio? É o meu natural, não precisa não. Folhinha de almeirão? Ah, sim. Mas me ensinar? Isso não. Nasci sabendo, com o sangue. A longa viagem, escura – viu a luz, que lindos gorjeios! Que vida rebentava daquele peitinho! As peninhas de ouro brilhando no sol. Dona Mocinha, trocar minha agüinha? Um banho molhadinho, espanejar mil pozinhos d’água no ar. Esse beicinho, Dona Mocinha? Me dar um beijinho? Muito agradecido – o imaginado é já o sentido. Tri e tri e trinos de luz, claridade, suavidade! Nosso namorinho, Dona Mocinha.
Seu Nando manda dizer que hoje demora mais – o recado, grave. Que novidade! Caçar um jeito de não ouvir o tempo, o de sempre – os dedos delicadíssimos no bordado do enxovalzinho. A calma tristeza sentada na varanda – só D. Henrique vê, solidário, distraído da cantoria que quer sair, explodir na lindeza da tarde clara. Horas sem fim bordando a solidão – tão monótona a espera! Por que será que o Nando demora tanto? Madornando, fecha os olhitos. Desperta com os cuidados – Que seria? Uma desgraça? Madornando, desperta: os trinos agudos, estridentes, tanta alegria, D. Henrique até desafina! Se fosse possível! A Mocinha abre um sorrisinho – Tenho você, D. Henrique. Mas repreende – Estou triste, D. Henrique! Tri, tri, triste? Tri de trinados e trinados, alegres embalando a tarde! Colorindo, perfumando a alegria – Teu noivo chegou! Teu noivo chegou! O Nando – sujo, suado – traz o seu sorriso bom. Cansado, o jeitão aborrecido, por trás o gosto do encontro, curto – Já são horas, logo vou chegando.
O Nando implicava com D. Henrique – Como que vigia a gente, segurando vela, oras! Tem ciúmes – pensava a Mocinha. Uma pontinha de orgulho se acendia nos olhinhos – Tem ciúmes de mim, sim, sim! O Nando implicava, desimplicava – a Mocinha via os olhos dele bulindo: a mãe vinha surgindo na varanda, com café, bolinhos, ou o pai procurando, pretextando os dois dedos de prosa, as honras da casa – D. Henrique dava o aviso, apartava os dois pombinhos. Inteligente, sim senhor! E amigão! Pois é, o Nando nem se desgostava mais com o canarinho. Mas deu de inventar outra implicância: Não gosto de passarinho preso não – falou. A Mocinha até pensava: Fala com franqueza. Desgosta de verdade! Foi pensando. Com o pensamento, quem é que pode? Entra na ideia, sem nem pedir licença. Não sai mais não – preocupaçãozinha cresce que cresce: Meu D. Henrique, infeliz na prisão! Meu prisioneiro, coitadinho. Isso não se faz – desumano, cruel demais. Chorou sentida, magoada nas cordas mais doloridas da sua almazinha ingênua. Soltar D. Henrique – ficar tão sozinha! Um pedaço de mim! É tudo que eu tenho – minha fábula encantada! Não soltar? Não pode ser! Eu não sou tão má. Não tenho tanta ruindade. Como se matasse um pedaço de mim! A Mocinha balangou, balangou – a gangorra da indecisão, as rodas do monjolo plec, plec, a mão do pilão puf, puf! roendo o seu coraçãozinho.
Soltou D. Henrique. Aberta a portinhola – um adeus choroso, demorado, engasgando as palavras na garganta, nem D. Henrique cantava. Vai, amorzinho. Vai, meu tesouro – antes que eu mude de ideia. A cabecinha fora da porta – D. Henrique olha à esquerda, à direita, assuntando. A Mocinha descuidou – lá se foi ele. Adeus! Adeus! Pousa na roseira florida, que lindo! Mas cuidado, D. Henrique – cuidado os espinhos. Ai, meu Deus! Ele não conhece o mundo lá fora. Tantos perigos! Não vai resistir. Meu Deus, o que eu fiz? Mandei D. Henrique para a morte? D. Henrique saltita na laranjeira, na cerca, na jabuticabeira – o trinado claro, nunca tão lindo! A Mocinha vê, de longe – os olhinhos marejados, a dor bulindo naquela aguinha. D. Henrique voa, avoa – some-se no azul. Livre – isto a liberdade! Ingrato – tanto que era amado! Ingrato nada – livre, é o que é. Liberdade, o dom precioso! A Mocinha abraça o Nando – tantas lágrimas, e contidas: inda um esforço de mostrar alegriazinha. Abraça a mãe, abraça o pai – Deixa, menina, que ele volta. Ah, pai: deixa ele ser livre – a Mocinha engole a lagrimazinha. Há uma dorzinha neste mundo, ninguém não vê, enorme, enorme.
Quando D. Henrique voltou – Meu castelo, meu lar! – nunca mais porteirinha fechada. D. Henrique senhor do mundo, livre, trina, trina os límpidos cânticos da liberdade! A Mocinha não cabe em si, tão feliz! Um sorriso largo, livre – livre é uma palavra tão linda! A Mocinha casou, saiu da Fazenda Gabirova para a Fazenda Pau d’Alho, foi feliz. Há dessas histórias de amor, perfeitas, neste planeta. O Nando pegou amor no bichinho – preparava o ovo matutino, limpava a gaiolinha, na tardinha regava o canteirinho de almeirão: D. Henrique não tinha do que se queixar. Uma canarinha – que maravilha de canarinha! Quatro ovinhos, quatro! Nenhum vingou, D. Henrique nem viu. Governava o seu reino, navegante nas águas da alegria. A Mocinha vai se lembrar, por toda a vida! Houve tempos difíceis – os primeiros, depois melhoraram – mas foram tão bons! Ela sempre vai se lembrar. Nas bodas de ouro – rodeada dos muitos filhos, netos, bisnetos – ela vai se lembrar. Ela, o Nando! D. Henrique, Sua Majestade, a nobreza nas peninhas de ouro, penugenzinha, fino pozinho de ouro borrifadinho! O gorjeio de ouro tremulando claro, alto, léguas em redor, leve, livre, límpido – D. Henrique, a rica mágica: este mundo encantado!
