Crônicas Cariocas

  • Um beijo ardente

    O empresário e a jovem secretária amante beijam-se ardentemente no quarto de luxo de um hotel evidentemente de luxo também.  Findo o beijo, ele leva as mãos à boca, sentindo algo estranho. Que foi, ela diz, não gostou? Ele corre pro banheiro, olha-se no espelho, abre a boca e lá está: um vão, uma janela, onde deveria estar um dente, um pré-molar tipo ostentação, de ouro 24k! 

    Assustado, sempre protegendo a boca, corre de volta pro quarto, abaixa-se, procura no chão, embaixo da cama, debaixo dos lençóis… Que foi?, pergunta de novo a jovem secretária amante. Os dois se abaixam pra procurar juntos. Em vão. Ele tem um insight mesmo sem saber o que isso significa, e se pergunta: será? 

    Que foi?, ela quer saber outra vez de novo. Não é possível, ela diz depois de ele contar. Será? 

    Difícil seria explicar pra esposa, chegando o empresário às 2 da matina, sem um dente – e de ouro 24k! Caiu na rua, no bueiro, caiu na privada, um assaltante… ela, a esposa, não engoliria. Sua vida, a dele, viraria um inferno.

    Abriu o jogo: minha jovem secretária, hã, amante, hã, engoliu. 

    Seu dente?!, exclama a esposa estupefata. 

    De ouro 24k, ele responde embaraçado.

    Pediu perdão. Era íntegro. Momento de fraqueza. Mil promessas. Amava a esposa. Como a ninguém. 

    Inútil, em vão, outro vão. A vida dele virou um inferno. 

     A esposa processou a amante: “Garimpo ilegal, além do mais!. Quero o dente – o pré-molar de ouro 24k! – de volta. Custe o que custar!”. 

    Não pelo valor, poderiam comprar uma dentadura inteira de ouro 24k. É questão de honra!, afirmou a esposa, peremptoriamente.

     Processo de rico corre mais rápido que entregador de pizza. Contra pobre, é quase instantâneo. O juiz deu 24 horas pra jovem secretária amante desengolir o dente. Métodos, ele disse, existem aos magotes – juiz gosta de enxundiar o verbo.

    Sentença cumprida, o dente foi devolvido são e salvo. A esposa guardou o agora suvenir no porta-joias. A essa altura o empresário já tinha reposto o dente, dessa vez mais modesto, de acrílico. Até porque, obviamente, um dente que passou pelo que passou o pré-molar de ouro 24k, entrando por onde entrou, saindo por onde saiu, quem teria coragem de usar?

    O beijo da jovem ex-secretária ex-amante marcou pra sempre, como uma nódoa de cajú, o cuore do empresário. 

    A esposa passou o resto da vida conjugal tentando um beijo daquele pra agradar o marido. Em vão. A vida toda arrancou dinheiro dele, mas nunca conseguiu arrancar sequer um incisivo.

    O caso ficou conhecido como O Beijo de Lingote. A jovem ex-secretária ex-amante, ganhou fama como A-Garimpeira-do-Pré-molar-de-Ouro-24k. Coitada.

  • Finjo que consigo viver assim

    Procuro acalmar Luana. Ela está em polvorosa, com medo de ser demitida. O nosso chefe é de veneta, a cada minuto podemos esperar um vendaval ou um refresco brando de mar. Ele é uma boa pessoa, já demonstrou diversas vezes quando quer nos ajudar, mas pode pegar no meu pé ou no pé de qualquer colega por semanas, e isso nos aflige. Nas reuniões, somos chamados a falar: sempre me saio mal, por conta da minha timidez excessiva, mais especificamente por conta do autismo. Acho, talvez, que ele tem pena de mim, por isso não me põe para fora; ou mesmo porque, como tenho muito foco, consigo terminar as atividades a contento. Nessas reuniões, passo ideias às vezes confusas até para mim. Definitivamente, não sei me expressar. Mas estou há três anos na empresa, e até hoje não recebi feedback sobre o meu comportamento. Meu chefe sabe que tenho autismo, mas prefere esquecer; ele me trata como um sujeito “normal” – até gosto disso. Não desejo ter “privilégios”, somente ser aceito com minhas intrínsecas condições. Tem vezes, como hoje, que quero ficar isolado; tenho medo do mundo. Luana me dá todo o suporte, porque é sensível à situação. Ela está há menos de um ano na empresa e me pede, sempre, conselhos sobre o que fazer, sobre como se portar. Digo, sempre, para agir de maneira espontânea e leve, como de fato ela é – e eu a admiro por isso. A pobre tem receio de ser demitida, e diz que procura outras opções. Não consegue, absolutamente, se acostumar com a inconstância emocional do nosso chefe. Hoje mesmo ele chegou nervoso, estilo vendaval; bateu na mesa, chamou Luana para que “prestasse” atenção nos aluguéis em atraso. Luana é casada, possui dois filhos e marido, e é praticamente arrimo de família. Tenho pena de sua decisão, do que está passando. Tenho um apego emocional a ela, porque sei que me entende, por isso faço de tudo para que fique no escritório. Mas não teve jeito, na segunda-feira passada ela chegou superanimada, dizendo que tinha sido chamada para outro trabalho. Que passou numa seleção acirradíssima. Ela é uma mulher de muitos valores e merece ser feliz, é assim que penso agora… O que posso fazer? Nada. Desejei-lhe toda a felicidade do mundo. Wilson e Renato, meus colegas, ainda me dão um suporte, brincam para me distrair, pelo menos sei que não ficarei sozinho. No entanto, tenho muitos medos; o trabalho pode se tornar um ambiente hostil, e ter de me virar sem Luana é mesmo angustiante. Ela já saiu sem dar um tchau. E entendo a sua euforia. Não tenho filho para criar, sequer sou casado. Moro num flat que era do meu pai, que ele me deixou de herança. Tenho uma vida moderada, às vezes – ou muitas vezes – reclusa. E assim vou me virando para viver nesse mundo cão, que não entende a neurodivergência. Meus colegas de trabalho brincam, e tenho certeza de que sequer lembram que sou autista. As pessoas fingem que me entendem. E finjo que consigo viver assim.

  • Poema #84: A Solidão do Poema

    O poema
    necessita de um outro
    poema
    assim como o poeta
    necessita
    de uma con/vivência poética.
    Os versos
    não nascem do nada
    assim, exclusivamente,
    inspiração.
    A noite
    precede o sopro lírico
    e ambos se integram
    ao poema acabado.
    O poeta,
    este ser solitário,
    desce das montanhas
    de seus sonhos
    para recolher os fragmentos
    da realidade dos homens,
    e com eles constrói no poema
    uma unidade hipotética.

    O Acaso das Manhãs

  • Retrato

    De Pipa para Pernambuco, pela estreita estrada, seguimos. Nada no peito, a não ser a batida do novo. Um beat surdo que ecoa, único, em cada ouvido. Seguimos. Somos expectativa e viagem.

    Os olhos decifram a paisagem: o pequeno cemitério cheio de árvores floridas e um homem só, que olha o túmulo de alguém que, pela primeira vez, está só.

    O caminho não é este, mas termina no encontro do rio com o mar. Beleza pura. Voltamos à estrada desejada, à experiência planejada, ao rumo escolhido.

    Entre os coqueiros, aceleramos e assistimos ao vento. Uma torre de telefonia informa que o aparente isolamento não existe.

    O gado branco e magro descansa. Longos espaços sem ninguém. Mal sabemos em que dia da semana estamos.

    O peixe rosado é escamado, as senhoras conversam, a varanda é gradeada, a casa é verde e rosa, a lavoura é de camarão.

    Uma Assembleia de Deus, um jardim de mandioca, uma conversa animada no botequim.

    O vento dança nos coqueiros. Os pensamentos vão devagar… Devagar, a vida passa nos olhos de ressaca do homem que olha a segunda-feira.

  • E Ainda é Agosto

    “É 29 de agosto. Em 48 horas, sua vida mudará para sempre.”

    Mais uma vez estava eu vidrada diante da tela. O dia era 29 de agosto, ontem, como foi no ano passado e no ano antes dele. A melodia inebriante preenchia os vazios que o ar-condicionado a 21ºC fazia flutuar no quarto hermético do Cachambi:

    O som avança em pequenos impulsos, como passos curtos e apressados que de repente… desaceleram. Expande e…. recolhe. O acordeão dá a sensação de ar sendo empurrado e puxado, como se abríssemos e fechássemos o peito. O piano pinga notas regulares por baixo, num conta-gotas, como dedos tocando uma superfície de vidro. Há uma leveza quase mecânica, quase de caixinha de música, acrescida de alguma coisa melancólica presa entre uma nota e outra.

    Este ano, como em todos os outros, meu encontro é diferente: percebo detalhes que nenhuma das minhas versões havia percebido antes. Convidei também minha eu de quatro anos, que se senta ao meu lado, entre os mesmos lençóis que a minha versão em carne e osso, sorridente, embora presa dentro de um porta-retrato de vidro. Cabelos fartos, longos e cacheados, os lábios que não precisavam, àquela altura, dos dentes para mostrar, através das íris, a felicidade de estar vivendo o presente. Hoje não sei fazer o mesmo com tamanha desenvoltura e naturalidade.

    Na fotografia, estou com a guirlanda do casamento da minha mãe e um vestido branco, pronta para me casar com um dos meus amigos mais antigos. Não seria a única vez: nós dois nos casaríamos outras vezes em festas juninas, três ao todo, como se a infância insistisse em ensaiar futuros que jamais aconteceriam daquela forma; décadas depois, tive o prazer de projetar e acompanhar as etapas iniciais da casa onde ele e a esposa, meus queridos amigos, morarão em breve.

    É ou não uma prova cabal de que o destino adora ironias, coincidências e, às vezes, tem um senso de humor bastante sofisticado?

    De vez em quando, a luz da tela atravessa o quarto e o vidro devolve cenas de Amélie. O rosto dela se sobrepõe ao meu, de criança, depois desaparece. Em certos segundos, já não sei muito bem qual das duas estou olhando.

    Quem sabe, pelos reflexos, me pareça cada vez mais evidente que fui crescendo como uma mistura amadurecida das minhas referências preferidas: um pouco Amélie Poulain, um pouco Margherita Dolcevita, Lois Lane, Hermione Granger, Bela
    personagens que, por razões diferentes, foram me cedendo pedaços até que eu pudesse desenvolver os meus, autênticos. Depois de certa idade, minhas referências femininas passaram a ser também Jane Austen, Hilda Hilst, Clarice Lispector, Etta James, Norah Jones, Celine Dion, Julia Roberts e mulheres comuns do dia a dia, cujas qualidades absorvo profundamente — pela leitura, tom de voz ou proximidade — para ir recortando os fragmentos que compõem o meu eu de hoje: sempre, e cada vez mais, um livro de fotografias rasgadas e reconstituídas.

    É curiosamente apropriado que essa fusão aconteça atrás de um vidro. Afinal, em Amélie, um dos homens que melhor sabe ler a vida passa vinte anos refazendo o mesmo Renoir. Chamam-no de homem de vidro.

    Daqui a três meses, eu de hoje e Amélie Poulain teremos quinze anos de diferença etária. O engraçado é que, embora essa diferença aumente ano após ano, a profundidade da nossa familiaridade não diminui. Encontrar Amélie nos 29 de agosto da vida é como reencontrar uma amiga de infância.

    E cá estamos, as três, pausando o filme para vibrar com uma ideia criativa, uma inspiração, fazer anotações ou preparar um café na minha moka italiana para tomar com Nino Quincampoix no Café des 2 Moulins.

    Até que a “Amélie aqui” começa a recortar antigas cartas de amor de sua vizinha imaginária, ressecada pela vida.

    Então penso que uma semana também possa ser remontada assim:

    A tesoura tem uma vantagem loquaz sobre a memória: rasga, de fato, a cronologia. Torna-a palpável:

    uma observação astronômica pode parar ao lado de uma conversa sobre romance imaginado; um homem de setenta e tantos anos opera o septo porque ainda espera encontrar o outro pé para seu par de chinelos — sem roncos, parcimônia libertária do romantismo; alguns takes adiante, outro homem fotografa, quem sabe, para não desaparecer; a Lua pulveriza matéria depois dos impactos e, vista daqui, chamamos os vestígios claros de raios.

    Eu me deitei por duas horas no banco sem encosto do condomínio e vi o vermelho se apossar do brilho refletido da Lua. Eclipse parcial. A olhos nus. Sombras mimetizaram por instantes o coelho que tantos enxergam — dizem que só os apaixonados conseguem vê-lo.

    A humanidade é esquisita: passa por colisões e inventa nomes e figuras de linguagem bonitas para aquilo que permanece visível. Ou quase.

    Me disseram, também nesses últimos dias, que há muita coisa bonita para vermos no céu. Algumas imperfeições só aparecem por causa da luz refletida pela atmosfera da Terra. Gosto particularmente de imperfeições. E, durante um eclipse, quando alguma coisa que costumava iluminar desaparece, vemos mais estrelas. Não seria assim quando nos deixamos colidir com o silêncio? Percebemos mais outras coisas, no todo de todas as coisas?

    Anotei isso. E percebi: vivenciei um eclipse em solitude física, enquanto vozes de todo o Brasil atravessavam meus ouvidos com comentários e explicações astronômicas. Eu, que quando criança ganhei medalha e certificados em Olimpíadas Brasileiras de Astronomia, sorri.

    Entre as anotações da semana — eleições, guerras, mísseis, geleiras, Wall Street em queda — havia também uma rosa. Murcha. Faltou hidratação. Tenho bebido pouca água. Por alguns dias, certas coisas pareceram sofrer do mesmo descuido. Cortada do pé e posta numa sacada, a rosa começou a perder pétalas. A Fera permanece, então, a mesma fera? Ou a Bela – que não é princesa – faz uma jogada no tabuleiro de xadrez da vida para que a magia aconteça?

    Tenho pensado que preciso de mais vermelho na vida…

    O quarto de Amélie interrompe meus desejos; seus pequenos incêndios domésticos, o contraste cromático com o verde. Minhas plantas. Sinto falta de casa.

    Talvez eu acrescente vermelho ao meu quarto, quando — ou se — eu voltar. Não por decoração. Por discurso.

    Amélie e minhas diferentes eus gostamos de estratagemas: surpresas, escolhas semânticas, pequenos deslocamentos de sentido. Em 31 de agosto, há quem a rotule covarde por não encarar o que sente. Então ela escancara a porta. Eis ali Nino Quincampoix, o encontro jamais previsto, sempre esperado. Há um abismo entre fugir da realidade e entender que ela também pode ser abordada pelas laterais.

    Há quem pergunte diretamente.
    Há quem deixe uma pedra no bolso.
    Há quem devolva um álbum.

    Há quem recorte uma carta antiga até ela dizer uma coisa nova.
    Há semanas em que o risco da resposta parece menos
    sedutor que o conforto da dúvida.

    Ainda assim, “a sorte é como o Tour de France”: esperamos tanto algo específico e, quando finalmente chega, passa depressa. “É preciso saltar a barreira sem hesitar”. Estou aprendendo isso.

    Talvez por isso algumas conversas recentes tenham começado a virar literatura; não para conservar pessoas dentro de orações, mas porque certos toques modificam a maneira como percebo o que já estava ao redor: um céu, uma rosa, um silêncio, uma escolha de palavras.

    Uma colecionadora de pedras encontra, de vez em quando, alguém que coleciona resquícios.

    E alguma coisa acontece: acho que Amélie esteve no Norte Shopping. Na falta contemporânea de orelhões, resolveu chamar minha atenção me lançando o objeto de que eu precisava.

    Ontem, indo comprar velas para um parabéns-surpresa, percebi que havia esquecido o isqueiro-amarelo-herança-da-avó-fumante-para-a-neta-que-não-fuma, que costumo carregar. Minutos depois, esbarrei numa planta no shopping, ouvi um tilintar no chão e dela caiu um isqueiro. Preto. Preto no chão quase branco. Parece até piada, Amelie! Aos quatro anos eu já sorria sem precisar mostrar os dentes. Aos trinta e sete, ainda faço planos com fotografias, filmes franceses, números, homens de vidro, palavras recortadas e futuros quartos vermelhos.

    Há quem julgue isso como evitação da realidade.

    Há também quem chame isso literatura.

    Já é 30 de agosto. Será que, em 24 horas, minha vida mudará para sempre? Penso em procurar um tarólogo…

    Em todo (a)caso, o amor faz bem.

  • Poema #20: Mar e Voz

    O fraco risco frágil
    e trêmulo uma voz
    uma voz apenas
    ruído longínquo e espesso
    uma voz
    um frasco, risco
    murmúrio e sonho
    voo largo e concreto da voz
    num desencontro imponderável
    a pedra a areia o risco
    inevitável
    voz das brumas
    voz das sombras
    voz apenas
    de tudo o que se podia
    tudo o que se queria
    tudo que se sonhava
    e nada se via
    voz apenas
    voz de melancolia
    mar marulhar marulho
    bruma
    a escuna no escuro
    o som da voz
    na voz
    foz
    inominável voz
    trêmula, espessa, rara
    inevitável desencontro
    voz das sombras
    voz apenas
    voz das brumas
    coisas poucas que se ouvia
    e, no entanto, nada havia
    mais que a vida
    uma via
    voz apenas
    voz enfraquecida
    no ar zoar zunir
    a sombra
    a figura
    o som
    na voz uma voz
    outra voz
    outro ser
    longínquo e espesso
    e fraco
    frágil
    desencontro apenas
    voz apenas
    voz das brumas
    voz das sombras
    claras espumas
    olhos e ondas
    nada se via
    do tudo que se sentia
    no mar que havia

  • O Sorriso Perdido

    Jandira teve uma infância de indigente. Criada com mais seis irmãos numa cidade pequena no interior, enquanto seu pai trabalhava na roça, ela ajudava a mãe a cuidar da casa e das crianças. Na tapera em que moravam, a miséria acompanhava de perto a família. Não havia comida todos os dias, faltava luz elétrica e, no caso de Jandira, lhe faltavam todos os dentes da frente. Era pobre, raquítica e banguela.

    Com dez anos, foi entregue aos cuidados de uma senhora para trabalhar na fazenda. Logo aprendeu as tarefas domésticas e se destacou na cozinha. Dava gosto a sua força de vontade e o esforço que fazia em aprender e melhorar. Seu jeito tímido e sempre sorridente cativava. Ela sorria, tapando a boca com a mão. “Jandira, abre essa boca, menina, onde se viu rir assim de boca tampada”.

    Com o tempo Jandira foi se tornando peça-chave na fazenda, uma espécie de faz tudo. Movida por aspirações maiores, mudou-se para a cidade grande e arrumou emprego como ajudante de cozinha numa lanchonete.

    Ela não pensava em namoro, diversão, em mais nada, somente trabalhar e guardar dinheiro quando sobrava algum. Vendendo quentinhas nas horas vagas, obteve certa prosperidade. Seu tempero era comentado. Nessa toada foi levando a vida, sorrindo de boca fechada e sonhando com o dia de deixar de ser banguela e poder dar gargalhadas com seus dentes à mostra. A vida por uma dentadura completa.

    Com obstinação e alguma sorte, finalmente conseguiu no programa do SUS um implante dentário. O procedimento envolvia cirurgia, seguida de osseointegração e colocação da base fixa. Jandira nunca tinha ouvido falar daquilo, apavorou-se e quase desistiu. Mas a longa espera por uma dentadura falou mais alto. Tomou coragem e confirmou o bendito implante.

    Os pinos de titânio foram fixados no osso maxilar de Jandira que aguentou firme, como só Deus sabe. Enfim, teria de volta a função estética do sorriso. Tudo o que sempre havia sonhado.

    Com dentes novos, era outra mulher. Durante o dia, vivia de boca aberta mostrando os dentes por qualquer motivo, orgulhosa que só. À noite, rezava fervorosamente para que não houvesse nenhuma infecção ou rejeição. Eventuais dores e algum sangramento na gengiva, mas nada de grave. O implante múltiplo tinha sido um sucesso. Somente uma singularidade: com o tempo, foi percebendo que quando ia sorrir, involuntariamente tapava a boca. Talvez reminiscências antigas e enraizadas. Bem no fundo, sua alma ainda trazia o seu velho sorriso desdentado.

  • A arte de pensar com as mãos ocupadas

    Desde pequena desenvolvi uma habilidade peculiar: só penso direito quando minhas mãos estão ocupadas. Dê-me um novelo de lã e duas agulhas e, pronto, minhas ideias começam a trabalhar — às vezes até antes de mim. Sempre achei que esse hábito era apenas um jeito de evitar a ociosidade manual, uma espécie de TOC artesanal. Até perceber que havia ali um mecanismo mais profundo, quase científico, embora absolutamente nada acadêmico.

    Foi observando uma laçada suspensa no ar que me dei conta: é justamente ali, naquele meio ponto indefinido, que minhas ideias se alinham. Enquanto o fio decide se vai para frente ou para trás, meus pensamentos aproveitam para fazer o mesmo. É o meu equivalente pessoal àquela tragada longa no cigarro que dizem “oxigenar o cérebro” — só que, no meu caso, o vício é lã mesmo.

    Em uma daquelas conspirações do destino que parecem escritas por roteiristas com senso de humor, me inscrevi em um curso de literatura na FFLCH chamado Entre tecer e narrar. Não precisei de mais nada: senti imediatamente que estava no lugar certo. Ali entendi que minha mania de tricotar enquanto penso não é simples mania — é método. E dos bons.

    Assim como um tecido precisa de ar entre os pontos para não virar uma manta rígida, a escrita precisa de silêncio. De pausas. Daquele branco estratégico que dá espaço para o sentido respirar. Sem esse espaço, o texto fica apertado, sufocado — tipo blusa de tricô que encolheu na máquina.

    Não é por acaso que “texto”, do latim textum, significa tecido. Cada escritor encontra seu jeito de abrir essas frestas de ar: uns caminham, outros meditam, outros procrastinam com categoria. Eu, fiel à minha natureza, entrelaço fios. Entre um ponto e outro, vou entrelaçando também sentimentos, ritmos, memórias e as divagações que, com alguma sorte, viram parágrafo.

    E tudo começou com uma frase do curso, tão certeira quanto agulha que espetou o dedo:

    “A tessitura pode ser uma imagem da criação verbal, porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.”

    Pois é. No fim das contas, descobri que não tricoto para passar o tempo.

    Tricoto para pensar.

    E penso melhor quando minhas mãos estão trabalhando — porque, talvez, essa seja mesmo a minha arte.

  • O fim do mundo

    Francisco saltou do metrô apressado. Estava a 300 metros do consultório, e faltavam apenas cinco minutos para o início da sessão. Não se atrasava nunca e, ao contrário de muitos, estava sempre bem-disposto às segundas-feiras. O terapeuta também raramente o atendia fora do horário. Naquele dia, tudo foi diferente. Entrou 45 minutos depois da hora marcada. Tinha muita coisa para falar, havia ensaiado um discurso na véspera. Havia feito anotações no bloco de notas do celular. Já acomodado no divã, começou:

    — Sabe qual é meu maior desejo?

    — …

    — Que o mundo acabe.

    — Mas do jeito que o homem vem tratando o meio ambiente…

    — Não é isso, você não entende! Queria que o mundo acabasse hoje. Ou no máximo na semana que vem. Será que o, deixa eu ver aqui, o Kim Jong-un não tem lá um arsenal atômico secreto… Ou o Irã, quem sabe o Irã… Alguém podia apertar um botão e bum! acabar com tudo. A Rússia está doidinha pra provocar a terceira guerra mundial. Esse Putin não regula bem, parece questão de tempo… Sem contar o Trump, esse doido é um caso à parte…

    — Bem, hoje a gente fica por aqui.

    — Nossa, tive a impressão de que o tempo passou tão rápido…

    — Mas, se você quiser, a gente volta a falar sobre o fim do mundo na próxima sessão, ok?

    Até semana que vem.

    ***

    Enquanto isso, lá em cima no firmamento, o Criador, em companhia de seus anjos, arcanjos, serafins e querubins, repassava a agenda da semana: terça-feira: atentado em universidade americana (39 mortos e 43 feridos); quarta-feira: tsunami e terremoto no Japão (987 mortos, 1264 feridos e 5 mil desaparecidos); quinta-feira: enchente na Malásia (294 mortos e 500 desparecidos); sexta-feira: inundação de lama no Nepal (175 mortos e 384 desaparecidos); sábado: incêndio em floresta da África do Sul (45 pessoas mortas, flora e fauna devastadas); domingo: FIM DO MUNDO.

  • A verdade é de cada um

    É preciso ter cuidado com as máximas que pretendem nos ensinar como viver. Elas são inevitáveis, pois o desamparo do ser humano leva-o  a continuamente procurar fórmulas que o conduzam à almejada felicidade. Mas nem tudo o que elas dizem devem, como se diz, ser tomado ao pé da letra.

    Por exemplo, li uma vez este conselho dado já não me lembro por quem: “A gente deve enfrentar o que mais teme.” Visando pôr em prática a orientação, comecei a pensar no que mais temo. Várias coisas me causam temor, mas fico em pânico só com a ideia de pensar em ser perseguido por um cão feroz. Um rottweiler, por exemplo. Perto do meu prédio tem uma casa onde existe um. Eu bem poderia me acercar do muro e deixar o cão se aproximar para tentar perder o medo. Desisti. Tampouco me disponho a enfrentar outras coisas que me arrepiam, como passeios à noite por ruas escuras levando o celular.

    Outra regra muito propagada, sobretudo pelos mentores da autoajuda, é a de que não devemos desistir dos nossos sonhos. Houve um tempo em que eu sonhava muito em ganhar na loteria esportiva. Passei então a jogar toda semana, e não apenas isso; para demonstrar o fervor da minha esperança, aumentei gradativamente a quantia investida no jogo. Um belo dia (uso o chavão porque, de fato, aquele foi um dia belo), me dei conta de que a prática semanal já tinha me levado uma pequena fortuna. Parei. E não só: fiquei convencido de que a certos sonhos é preciso renunciar.  

    Outro ditado desconfiável é aquele segundo o qual “quem procura acha”. Não dou conta dos objetos que, depois de ter perdido, procurei muito e não consegui achar. Um deles foi um relógio que, não sei por que cargas d’água, deixei na areia da praia. Outro cujo extravio doeu bem mais foi um livro dado por uma namorada; esqueci-o no banco de um ônibus, e não adiantou ir à garagem mais de uma vez. Não consegui achar. Desconfio de que esse esquecimento concorreu para que ela, com o tempo, também viesse a me esquecer.

    Não sãopoucas as chamadas “verdades universais” que, apesar do nome abrangente, não se aplicam a todo o mundo. Até mesmo delas é preciso desconfiar. Fala-se, por exemplo, que Deus ajuda quem cedo madruga. Evite dizer isso a quem sofre de insônia e, por mais que tente, não consegue voltar aos braços de Morfeu depois das três da manhã. Se alguém com esse tipo de problema ouvir que “Deus o ajuda”, vai lastimar pelo resto das noites a ironia. Sejamos então humildes ao invocar o conteúdo desses brocardos, que devem ser recebidos com desconfiança. Eles têm o seu grau de verdade, são inclusive bonitos de ouvir e parecem concentrar o suprassumo do conhecimento humano. Mas sabedoria é como roupa; por mais vistosa que seja, não se ajusta a todo o mundo. Tem que ser primeiro provada para se revelar (ou não) útil a quem a usa.  

  • O PARDALZINHO

    O nenê era como um pardal palpitando na palma da mão. Estava morto?

    Não sei o que vou fazer. Depósito com cuidado na covinha, aberta no jardim, cercada de flores.

    Aí ele pára de se mexer. Dá uma respirada comprida, dá que nem uma tossinha engasgada, dá outra respirada já meio sumida, e pronto: agora está morto.

    A Cida ainda está chorando. Mulher chora por qualquer coisa. Era o filho dela? Também era o meu filho.

    Nunca mais vou-me esquecer daquele montinho de terra, parecia que estava pulsando, como se o Eusébio estivesse vivo ali dentro. Eu quis homenagear o meu pai dando o nome dele ao meu filho.

    E agora está morto embaixo da terra. E eu o sinto pulsando embaixo da terra. Se o meu Eusébio morreu duas vezes – se ele estava vivo quando o deixamos embaixo da terra?

    A Cida me culpa, eu me culpo, a minha mãe me culpa, o mundo me culpa – e eu culpo todo mundo. Deus é o grande culpado! Se o Eusébio ia morrer, por que nasceu?

    E eu o vejo vivo como um pardalzinho palpitando na palma da mão, pulsando muito de levezinho – embaixo da terra.

  • Isso é para a vovó

    Meu primo Alfredo chegou correndo e me entregou um pacote pequeno. Disse: “É pra entregar pra vó.” Entrei em casa e falei: “O Alfredo mandou entregar isso pra vovó.” Paty, minha irmã menor, fazia a lição da escola na mesa da copa e gritou na direção da cozinha: “Manhê, o Juca falou que o Alfredinho mandou uma coisa pra vó.” Minha mãe, sem parar de mexer nas panelas, virou o rosto e alterou a voz: “Então fala pro Juca levar logo isso pra sua avó.” Juquinha foi até a sala onde seu pai lia o jornal e falou: “Paiê, olha aqui, o Alfredo trouxe isso e falou que é pra vovó.” O pai olhou na direção do quarto de costura em que a velha finalizava um vestido de baile feito por encomenda e gritou: “Mãe, olha, tem uma encomenda aqui, o Alfredinho, filho da Virgínia e do Alencar, foi quem mandou. Ele disse que é pra entregar pra senhora, pega aqui?”

    A avó primeiro tirou os óculos e os olhos do vestido esticado sobre a Singer, pensou um pouco e sorriu para si mesma. Ajeitou os cabelos num coque apressado. Levantou-se e caminhou devagarinho desde o fundo do quarto até a sala. Tinha um sorriso tímido nos lábios e uma esperança brilhando no olhar.

  • Anjo-cão

    Não à toa, diz-se o cão é o melhor amigo do homem.

    Lá fomos nós para o passeio rotineiro no ParCão, eu e o Capitão. 

    Capitão é um Beagle que mora com a nossa filha. Nos três dias da semana que ela trabalha o dia inteiro, ele fica conosco. A modernidade da guarda compartilhada. 

    Na época do caso a ser narrado ainda não tínhamos adotado a Mafalda. 

    Sempre que chegamos, antes de brincar com os aumigos no ParCão, Capitão cheira todo o terreno com o super focinho. Desenterra qualquer coisa estranha e late incansavelmente até que vejamos. 

    Acho interessante o fato de não sabermos os nomes dos frequentadores humanos, mas conhecemos todos os cães pelo nome. Assim é com o Capitão.

    — Oi, Capitão! Quer água.

    — E aí, Capitão! Disposto hoje?

    — Capitão… a Abgail já quer brincar com você.

    E todos são amáveis com os quatro-patas. Mas entre os adultos, uns se falam e outros não. Complexo.

    Naquele dia de outono, os machos reinavam no campo cercado. Abgail era a única fêmea. Uma linda Beagle. Eu, concentrada na leitura, sentada no banco de concreto, acolhida pela sombra da Amendoeira, seguia alheia ao ambiente. Queria concluir a história pois já estava de olho em outro livro. Quem lê me julga traidora-literária, com um e já almejando outro.

    De repente, reboliço. Capitão, como sempre, espiou a confusão e desconsiderou, prosseguindo com a cheiração local. Ele não é chegado a tumultos, nem eu.

    Compenetrada na história não reparei no início da correria. 

    Ambulância. 

    Espichei o olhar. 

    — A coisa foi feia. — balbuciei.

    Acalmados os ânimos, fui assuntar.

    Caminhei até a aglomeração onde uma senhora era porta-voz.

    — Abgail se aproximou de um senhor sentado em um dos bancos de cimento. Latiu insistentemente de maneira diferenciada — de acordo com a relatora do ocorrido. — Dessa maneira, a cadela conseguiu chamar a atenção dos outros cães e das pessoas.

    Menos a do Capitão — pensei.

    O idoso estava passando mal, desfalecendo. Abgail foi a única a perceber o estado do senhor. Os latidos alertaram a todos.

    — Gritei: corre, corre, corre! — contou a senhora.

    Foi socorrido a tempo por um homem que lhe segurou a cabeça para não bater no chão. Ataque cardíaco. Infartou.

    Estamos à mercê de infortúnios a qualquer segundo da vida.

    Graças ao Anjo canino Abgail, o idoso não morreu. 

    Encafifada com a esperteza da cadela fui buscar explicações neurocientíficas. Pessoas em processo de infarto exalam substâncias químicas que podem ser detectadas pelos cães logo no início do ataque. 

    Mais um motivo à adoção canina!

    Feliz de quem tem um Anjo-cão!

    *Especialmente no Dia Mundial do Cachorro

  • Imagine a minha dor

    Me vi no fundo do copo. É aterrorizante se ver distorcido, confuso, sem se entender bem. Vi também todos os meus achaques ali, quando me sentei e pensei em Ludmila. Ela me deixou, há anos, sem chão. Não porque quisesse. Ela me foi arrancada, a fórceps, como num nascimento complicado. E olhe que Ludmila se cuidava. Não fumava nem bebia, como eu. Aliás, todas as minhas doenças advêm disso, da minha vida tresloucada, irresponsável, principalmente depois da partida de Ludmila. Talvez por isso ela nunca quis ter filhos comigo. Até hoje não sei se era má vontade ou infertilidade. Uma vez ela me liberou para ser pai, se quisesse engravidar outra. Falei para ela que não existia outra. Não cogitava ficar com qualquer mulher. Ser pai nunca foi o meu sonho, ademais. E nunca fui cobrado por isso, de quem quer que fosse, nem mesmo dos amigos, porque havia, há tempos, colocado um ponto final neste assunto, para que ninguém me aperreasse. Pensava, inclusive, que não gostava especificamente de mulher, do gênero feminino, mas sim da Ludmila. E isso me trazia uma louca distorção. Não era capaz de me imaginar por cima de Cláudia Raia ou de Christiane Torloni – a quem razoavelmente aceitava como divas, sensuais, e nada mais. Ludmila era minha fonte de inspiração. Meus melhores sentimentos surgiram a partir dela. Nos conhecemos incrivelmente na infância e logo nos apaixonamos. Não tive outra mulher na minha vida. Meu pai era um puto, porra-louca, vagabundo, e me levou à força para um cabaré (lembro-me dessa espécie de pocilga, nojenta, o cabaré da Zitinha). Dei um tapa no rosto da puta Morena e pulei o muro. Corri feito um fanático, chorando, me sentindo sujo, me sentindo inapto para o meu amor. Ludmila era um corpo e uma alma minhas, com as quais eu tinha, inclusive, me formado como ser humano. Absolutamente, meus pais, separados, tinham suas vidas e seus filhos novos, e se esqueceram de mim. Me pagavam uma mixaria para passar o mês; salário de “cala-boca”; como se fizessem muito por mim. Não me davam um pingo de atenção, mesmo quando fiquei doente no hospital, por conta da diabetes; aí foi quando Ludmila permaneceu serena, dona de si, porque não era vinculada a nenhum escritório, porque era uma puta profissional (não profissional puta), e não necessitava permanecer, como eu, horas e horas no escritório, no meu caso de contabilidade. Por essas e outras, me casei cedo. Não tinha tempo a perder, se já sabia que era e sempre seria Ludmila, o meu grande amor. Mas ela partiu o meu coração (poderia ter sido o meu a parar naquele momento), enquanto o dela pifou. Ela teve um mal súbito quando eu viajava a trabalho. Soube de sua morte quando a vi estirada na cama, branca, possivelmente no mesmo dia do ocorrido. Imagine a minha dor. Não suporto mais estar morto por dentro. E sequer vislumbro um novo e absurdo amor. Se possível, me entenda, fulana…

  • O que te mantém vivo?

    Uma ideologia política, uma crença religiosa, uma visão de mundo ou um passatempo qualquer. A ambição por riqueza, a busca de reconhecimento, a luta por poder ou a simples necessidade de sobrevivência. Muitas podem ser as razões que nos mantêm vivos. Das mais vulgares às mais sublimes; das mais egocêntricas às mais altruístas. A natureza daquilo que nos estimula a levantar todas as manhãs pode dizer muito sobre nós mesmos, nossas histórias e nossas perspectivas.

    Não falo do que simplesmente nos anestesia, meu caro amigo. A essência das coisas que mitigam o sofrimento e apagam certas lembranças difere daquilo que nos injeta ânimo e disposição para construir um futuro melhor. Não basta resistir; é preciso superar! Volta e meia, encontramos pessoas que, apesar de todas as adversidades enfrentadas, dispõem da energia necessária para seguir suas respectivas caminhadas. Por mais que tentem desumanizá-las e tornar suas vidas insuportáveis, elas se negam a simplesmente fazer parte de uma desconhecida e misteriosa engrenagem. Elas vivem, têm sonhos, acreditam em dias melhores, compartilham momentos de alegria e outros de tristeza. Mas de onde vem toda essa resiliência?

    Vejamos o exemplo de meu vizinho Paulão: com tantos vis progenitores por aí, não poderia deixar de mencionar sua história. Pelo menos desde que o conheço, trabalha na construção civil. Mesmo nas auroras mais frias deste inclemente inverno, nosso valoroso pedreiro fecha a porta de sua casa e sai em busca do sustento de sua família. Viúvo e pai de duas filhas adolescentes, esse orgulhoso piauiense não se deixa esmorecer facilmente. Sem muito tempo disponível para o lazer, sua vida resume-se, basicamente, ao trabalho. Mas seus olhos brilham, seu sorriso contagia e suas gargalhadas animam o ambiente em que se encontra.

    Perguntava-me, com ingênua e honesta curiosidade, o que faz Paulão levantar cedo todas as manhãs, pegar dois ônibus para o trabalho, levar seu corpo à exaustão em troca de um salário, voltar a sua casa num ônibus abarrotado de gente, dormir algumas horas e começar tudo de novo na manhã seguinte. Como é possível seguir em frente com tanta dificuldade? O que estaria por trás dessa aparente alienação? Com um misto de admiração e de incompreensão, via aquele pobre homem envelhecer precocemente numa rotina estafante e embrutecedora. Muitos foram os anos de minha ignorância até que conseguisse compreender a sua verdadeira razão de vida.

    Meu sonho é formar minhas duas meninas, seu Veloso. Não quero que elas tenham uma vida tão dura como a minha – confessou-me Paulão num raro dia de descanso.

    Outro exemplo é o de Maroca, aquela senhora que trabalha há muitos anos na casa da família Gouveia. Devota de São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis, essa cozinheira de mão cheia veio de muito longe. Carregando um pequeno rebento em seus braços, a jovem mulher veio atrás do marido e de uma vida melhor. Mas seus sonhos logo depararam-se com a dura realidade de uma mulher que se casou com um homem violento e alcoólatra. Teve mais dois filhos com ele, aguentou poucas e boas, criou sua prole sozinha, viuvou. E continua trabalhando como se tivesse apenas vinte e tantos anos de idade. Muitos devem ter sido os momentos de tristeza e de solidão, mas a aguerrida mulher ainda teima em persistir.

    Não há de ser nada, seu Veloso! Deus não dá a cruz mais pesada do que podemos carregar – aconselhava-me uma solícita Maroca, ao me ver manquitolando por causa de uma lombalgia.

    Se a criação das filhas constitui a seiva que dá vida a Paulão, Maroca respalda suas mais profundas esperanças na crença de que Deus está com ela. Ambos acreditam em dias melhores, cumprem suas tarefas cotidianas, enfrentam os inúmeros percalços que surgem em suas tortuosas caminhadas. Vidas de intensa provação, mas repletas de dignidade e de humanidade. Não faço aqui um elogio à pobreza, mas o que me fascina é a altiva e rebelde resiliência que identifico nos dois casos. Poderíamos cair no pretensioso julgamento segundo o qual a ignorância em que vivem torna a brevidade e as agruras da vida mais aceitáveis. Mas quem somos nós para inferirmos tal coisa? Alguns livros lidos e rabiscados não nos tornam imunes ao sofrimento humano. O que nos dá vida nem sempre pode ser facilmente alcançado pela razão humana. No fim das contas, todos nós somos mais ou menos ignorantes.

    Mesmo tendo vivido algumas décadas, ainda me pergunto, de vez em quando, qual seria o grande estímulo de minha vida. Um livro a ser escrito, uma viagem a ser feita, um conhecimento a ser atingido? Apesar da vida remediada, pareço desconhecer o que realmente dá sentido a minha vida. A busca permanente por algo que me complete tem sido uma fonte de indagação e até de aflição. Mas, ultimamente, tenho considerado a possibilidade de que nada disso exista. Quanto mais cabelos brancos temos nós, mais tendemos a menosprezar o excessivo romantismo. Talvez essa procura por um Santo Graal desconhecido e inalcançável é que constitua, em si, a grande força que mobiliza as minhas energias.

    Divagações de um velho professor aposentado. Apenas isso! Espero não ter te aborrecido com esses devaneios. A juventude que ainda corre pelas tuas veias prescinde de considerações superficialmente filosóficas como essas. Enquanto não descubro minha grande força motriz, preciso dedicar-me a uma função, digamos, bem mais trivial: comprar pães para o lanche da tarde. Até logo, amigo!

  • Vasco x Fluminense

    Junto à porta entreaberta, olhou para o fundo da sala. No Sofá, o pai aguardava o início da transmissão pelo Première. Vestia a tradicional camisa verde, branca e grená. Atrás, o número dez e o nome eterno: Rivelino. Não quis colocar o próprio nome, como faziam por aí. Era o de Rivelino, e não o dele, que vararia os tempos.

    O rapaz fitava o pai, antes de afinal sair. “Boa sorte pra vocês”, e acenou para o velho, que retribuiu a nobreza do gesto. Eram adversários, mas eram pai e filho.

    O jovem ganhou o corredor do prédio e no espelho do elevador conferiu a cruz de malta vermelha enfeitando a faixa branca que cruzava o tecido preto. Atrás, também o número dez e também outro nome a ser abrigado pela eternidade: Roberto Dinamite.

    Por que não tinha um pai vascaíno? Perguntou-se na infância. Adulto, essa pergunta perdeu o objeto, e ganharam peso e sentido certas comparações: o pai do fulano espanca a mãe dele; o do beltrano se envolveu em roubalheira na secretaria de Educação. Pareciam até flamenguistas, mas torciam pelo Vasco.

    Quando o filho bateu a porta, o pai ficou olhando, sem ver, o início da transmissão. O já não tão mais garoto estava agora num bar de uma das esquinas da Dias da Cruz com seus pares de torcida. Há mais de trinta anos não assistiam juntos àquele clássico que os opunha, desde quando o garoto escolheu que camisa vestiria, e não era a que vestiram Edinho, Pintinho, Rubens Galaxye, Branco, Romerito, Assis e Washington, além de Rivelino. A mãe, torcedora do Botafogo, não tinha poder de influência clubística sobre o menino. Mas disse ao marido, a título de compensação: “Dos males o menor. Imagina se vira Flamengo?”. O marido até concordou, mas durante algum tempo remoeu aquela escolha. “Um garoto bacana, bem-criado, por que não torce pro Fluminense?”. Ao longo dos anos, a vida lhe ofereceu reflexões. O filho do fulano, drogado de precisar de clínica; o outro, do sicrano, deu desfalque monstro na firma em que trabalhava. Eram tricolores, “mas parecem até flamenguistas”, ele se divertia consigo mesmo, não obstante os colegas conviverem com o desgosto de pai.

    Quando a bola rolasse, aquele clássico teria uma peculiaridade. A mãe botafoguense não estaria mais ali, como sempre esteve, para equilibrar a torcida, conseguindo a estranha proeza de torcer pelos dois times, ou melhor, pelo filho e pelo marido. Agora, para cada um deles, uma vitória dentro das quatro linhas seria um bálsamo menor do que um grito de gol, mas já seria um consolo.

    No primeiro gol, o rapaz gritou forte, com vontade, erguendo os punhos; era uma quebrada na tensão, já que o empate dava vantagem ao outro lado na classificação. Só que menos de dez minutos depois, um chute de longe, o goleiro atrasado, a triscada na trave. E tudo igual de novo. Pensou no velho, no velho se consolando da ausência instransponível da mãe. Dez minutos antes, fora o pai quem pensara o mesmo, em relação ao filho tendo uma alegria espontânea, que de tão grande e verdadeira alegria parecia eterna.

    Ficaram assim no primeiro tempo, tudo igual. Na volta, cinco minutos depois de a bola ter rolado, o bar veio abaixo. “Vaaaaaaascooooo!!!!”. Pularam sobre ele, é sempre bom dividir com um abraço amigo a glória que nos concede um gol do nosso time. Ele comemorou, mas não sabia explicar, sem a mesma vibração do primeiro.

    Passou o resto do jogo com a angústia comum a todo torcedor. O ataque do Fluminense em dia de massacre; a defesa do Vasco, em dia de milagre. Estava angustiado por causa da pressão adversária, com o 2 X 2 iminente; mas também estava angustiado porque eles não empatavam. Era estranho, estranho e louco.

    Até que aos quarenta e quatro, uma bola espirrada armou o contra-ataque, o Fluminense todo lá na frente; a defesa aberta virou uma avenida e recebeu o golpe de misericórdia. O bar tornou a explodir em gritaria. Novamente os amigos o envolveram num abraço coletivo, dessa vez mais eufórico, no êxtase que era o da consagração. Fatura liquidada, classificação garantida e vaga na final assegurada. “E-li-mi-na-do!” e, em coro, as mesas cantavam. Ele ensaiou repetir, mas não evoluiu no canto, se aquietou. Tomou mais dois chopes, praticamente calado, e desse jeito voltou andando para casa. Abriu a porta da sala e deu com o pai, sisudo e acabrunhado, sentado no mesmo lugar, assistindo ao noticiário da noite. Não tirou a camisa tricolor. Ocasião houve de ter dormido com ela.

    O velho fez menção em dar os parabéns quando o filho se aproximou, mas reparou no cenho pesado do rapaz. “O que é menino? Que cara é essa?”. “Eu tô triste, pai…”. “Por que, cara?”. “Pra mim não teve muita graça”, e fez uma expressão cujo significado era tão claro, mas tão óbvio que dispensava a mínima frase que fosse.

    Uma luz da TV escorreu azulada pelo rosto do pai. Levantou-se do sofá, foi em direção ao rapaz, dizendo “Pois eu estou muito contente, muito contente mesmo”, e os dois, agora sorrindo, abraçaram-se com os olhos marejados.

  • Poema #83: A Queda

    Não digo que estou
    no fundo do poço
    porque este não é mensurável
    e sempre se pode cair mais ainda.
    Mas estou numa queda livre
    e vertiginosa.
    A roupa do passado não me serve,
    o presente é roto
    e estou sem vestes para o futuro.
    E numa queda os laços vão-se rompendo,
    se dissolvendo,
    desagregando-se.
    Nenhum laço segura um homem
    que cai por muito tempo.
    A dignidade é uma palavra para pessoas de pé.
    Na horizontal os conceitos são outros.

    A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

  • Percepção

    Ela enxerga poesia, vê histórias em todos os lugares. Se viaja, escreve mentalmente histórias que jamais tomarão forma na tela ou no papel. Quanto mais longa a viagem, mais tempo em silêncio com seus pensamentos. Entretanto, nunca precisou de uma viagem física para sair do lugar, percorrer mundos, encontrar pessoas e ouvir e falar palavras que apenas ela conhecia, que apenas a ela eram ditas.

    Este é o ar que ela respira: há poesia no contraste de cores inesperado, na casa à beira da estrada, na flor que enfeita o jardim, na aventureira bicicleta que desafia o perigo, na placa informando que saíram de Oizeiro e entraram em Tororomba.

    Há história na venda com balança verde e uma variedade de cachaça sem fim. Há história no homem mestiço de boné que se encosta preguiçosamente na manhã abafada de sábado. Há rima nas casas caprichosamente pintadas e iguais.

    Onde a estrada vai dar?

    Já existem o tempo, o espaço, a gente.

    A história se escreve no caminho.

  • Por que os ataques de cães estão cada vez mais mortais?

    A morte recente de uma veterinária, causada pelo ataque de um pastor-belga-malinois da Polícia do Senado, reacendeu o debate sobre prevenção. O que está por trás de tantas mortes? Descuido, excesso de confiança, irresponsabilidade ou falta de conhecimento? Provavelmente, uma combinação de todos esses fatores.

    Os dados são alarmantes. A forma como a sociedade passou a se relacionar com os cães tem contribuído para essas tragédias. Há um exagero em nome de uma convivência excessivamente humanizada. E não falo de coisas banais, como vestir os cães com roupinhas, deixá-los dormir na cama dos donos ou permitir que subam no sofá. Falo de ignorar as necessidades, os limites e as características próprias da espécie.

    Os cães seguem uma lógica própria. Mesmo inseridos em nossas famílias, conservam traços ancestrais. Negar isso não os torna mais humanos nem mais adaptados. Apenas aumenta a distância entre o que eles são e o que esperamos que sejam.

    Nas minhas aulas e mentorias, falo sobre a importância de respeitar cada fase da vida do cão. Desde filhote, quando, não raro, ele é impedido de experimentar plenamente o mundo, muitas vezes em razão do ciclo vacinal — e aqui não faço juízo de valor sobre a importância das vacinas. É preciso, porém, ponderar e buscar equilíbrio durante essa fase.

    O cão não é um ser totalmente imprevisível: ele pode começar a apresentar sinais de alterações comportamentais desde cedo. Quando ignoramos esses sinais, corremos riscos reais e, em algumas situações, isso pode ser fatal.

    Existem também outros aspectos. Não é difícil encontrar pessoas que acreditam piamente que podem mudar o comportamento de um cão apenas oferecendo mais amor. O cuidado sem conhecimento pode produzir conflitos e tornar o animal confuso. Além disso, a hierarquia não deve ser demonizada em nome desse amor.

    Enquanto isso, políticas públicas continuam sendo criadas sob pressão, após tragédias e especulações midiáticas. Em vez de investir em educação, fiscalização, criação responsável, formação técnica e prevenção, escolhe-se o caminho mais fácil: culpar o animal, proibir raças e esperar que nenhuma morte volte a acontecer.

  • Era só uma bicicleta

    Era só uma bicicleta!

    E Cláudio Rafael não havia roubado nada! Apenas saiu com a bicicleta de sua irmã!

    Ainda que tivesse acontecido um roubo, nada justifica a cena de selvageria que ocorreu em Copacabana.

    Pior, a cena de espancamento e linchamento de Cláudio Rafael escancara o quão estamos doentes! Que sociedade é essa que mata?

    Que sociedade é esta que banaliza a morte?

    Na fúria do dia a dia, vamos perdendo um pouco de nós mesmos.

    Na fúria do dia a dia, vamos nos afastando daquilo a que ainda chamamos humanidade!

    Na fúria do dia a dia, banalizamos a própria vida…

    A sociedade do espetáculo entrega a todo momento cenas grotescas de descomposturas gratuitas, violência verbal, agressão física, feminicídio… um sem-fim de comportamentos gravados e visualizados por milhões.

    Um dos agressores de Cláudio fez questão de filmar a horrenda ação, como se fosse paladino da justiça resolvendo as misérias históricas do país.

    Era só uma bicicleta!

    E uma vida foi tirada pela ignorância, pela barbárie, pela total falta de noção!

    Cláudio Rafael saiu com a bicicleta da irmã. Sentiria o vento na orla da praia? Não se sabe… Olharia para as ruas e cenários aos quais estava acostumado e seguiria para um encontro, uma conversa?

    Não se sabe… Olharia para as singularidades de Copacabana mais uma vez e teria um bom pensamento? Não se sabe…

    O que se sabe é que a brutalidade, mais uma vez, prevaleceu sobre o bom senso.

    A bicicleta?

    O Objeto da discussão e da morte de um inocente ficou jogada na calçada, alheia à fúria dos homens…

  • Bolero de Tecalitlán

    Bolero de Tecalitlán, ao pé do ouvido em pleno 2026, soa como uma serenata de amor cantada à janela de uma casa que já não existe. Ou existe? existe: passou apenas a caber na tela de um smartphone. Informes contemporâneos.

    A linguagem sempre como logradouro de encontros.

    Disseram-nos que:

    • …a globalização tornaria o mundo uniforme;
    • …a tecnologia achataria os afetos;
    • …algoritmos substituiriam as coincidências.
    (…)

    Descubro, porém, precisamente o oposto.

    Recebo um link do Spotify como quem recebe um embrulho de papel pardo amarrado com barbante. Abro-o devagar. Em minhas mãos, deixa de ser um pacote eletrônico e transforma-se num vinil antigo. Antiquíssimo, desses que nos deixam com a respiração em sobressalto, de tão delicados. Assopro a poeira:

    — Fuuuuuuuuuuuh… — ergo, assim, o véu fino que o tempo depositou em partículas. Desnudo a capa de papelão, que reaparece inteira, intacta, intensa, como se houvesse esperado décadas por aquele exato gesto meu.

    O disco começa a girar, sem agulha alguma.

    Enquanto Mariachi Vargas de Tecalitlán invade madrugadas, planilhas, quantitativos e e-mails que insistem em não terminar, descubro o LP virtual realizando o que minhas melhores canzoni italiane não conseguiram: devolve-me um tempo que nunca deixou de existir, esquecido sob camadas e camadas de urgência.

    Não é nostalgia.

    É outra coisa.

    É leveza. (Fuuuuuuuuuuuuuuh)

    Há dias em que me sento para tomar um café com personagens capazes de encontrar delicadezas onde o resto do mundo enxerga apenas rotina. Faço isso com plantas, veja só – são excelentes ouvintes, e ainda nos dão ‘bom dia’ com o perfume de flores coloridas, não só na primavera. Acredito piamente numa arqueologia dos sentimentos, não para reanimar o passado — dar-lhe novamente anima, alma —, mas para perceber que uma ou outra beleza jamais fenece. Permanece de outra forma: silenciosa, aguardando quem a escute.

    Já com o disco agarrando, de tanto tocar boleros, baladas y bachatas, um amigo interrompe meu devaneio para perguntar se conheço determinado perfil no Instagram.

    Paro tudo.

    ***

    Abro a página.

    O retrato em miniatura que acompanha o @não me diz absolutamente nada.

    Depois de alguns segundos, recordo-me de tê-lo visto uma única vez, de passagem, num evento qualquer. Não trocamos palavras, acho que sequer olhares. Restou apenas a matemática contemporânea: seguimos um ao outro. Ou, dizendo de forma mais honesta, aumentamos mutuamente nossos seguidores (intuito subliminar de qualquer evento hoje em dia).

    Contei isso ao meu amigo.

    Ele sorriu e perguntou:

    — Então não passo apenas de mais um número?

    A pergunta me atravessou como poucas.

    Dias antes, folheando as aventuras de Arsène Lupin, me pego filosofando sobre a diferença brutal entre o mundo de ontem e o de hoje. Durante muito tempo e nem faz tanto tempo assim , apresentávamos desconhecidos por palavras.

    “É gentil.”

    “Tem os olhos curiosos.”

    “Ri com o corpo inteiro.”

    “Escreve cartas.”

    “Não sabemos de quem se trata porque não se pode ler nos documentos ausentes das vestimentas, o desmaiado infeliz”

    Hoje, apresentamo-nos por fotografias. Ou, pior, por avatares, essas ficções que criamos com filtros sobre nossos próprios reflexos. Superamos, em engenhosidade, os casamentos arranjados das aristocracias clássicas, cujos noivos tomavam por esposas pinturas guardadas em relicários.

    Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras… não consigo acreditar nisso, nem tendo escolhido, como ofício primeiro, a arquitetura (idioma gráfico em que tantas perguntas se respondem com um simples “quer que eu desenhe?”). Não; sou das letras, por meritocracia já se vão quase vinte anos só desta coluna.

    Uma fotografia congela; mil palavras ou trilhões delas continuam a respirar, a sorrir.

    — a sorrir eu pretendo levar, a vida…

    Não me lembro do aroma das coisas e gestos antigos com essas notas contemporâneas de superficialidade. Vivemos a era narcísica por excelência: basta nos depararmos com uma poça d’água para que contemplemos nossos próprios reflexos e, no mesmo instante, eternizemos nossos rostos desfigurados nos feeds de vidas cada vez menos privadas. A superfície nunca soube apresentar ninguém…

    Acredito que seja isso que falta à contemporaneidade:

    Descrições.

    letrinhas.

    As pequenas apresentações escritas que, durante séculos, antecederam qualquer encontro. Cartas manuscritas. Os artesanatos feitos à mão, com assinaturas.

    Somos a geração que mais produz imagens e em altíssima resolução, diga-se de passagem …, mas desaprendemos a apresentar e a ler pessoas.

    Eu sou das pessoas. Sou dos encontros sem pressa. Sou das cartas. Das serenatas. Dos recadinhos à mão. Dos cafés. Dos vinhos.

    Me toca profundamente quando alguém escolhe uma playlist em vez de um emoji. Mais profundo ainda quando se envia um disco inteiro, e não apenas uma música. Dou por mim pesquisando vinis pelos eBays da vida, lembrando meu pai sentado na sala, ouvindo os dele.

    Há uma delicadeza quase revolucionária nisso. Em resistir a ser humano na era em que tudo é automatizado.

    Enquanto escrevo, testemunho um caso de affair improvável: a bandeira italiana mistura-se, verde no branco, branco no vermelho e vermelho no verde mexicanos. Sem conflitos, só a pura e velha simbiose. Um bolero que atravessa oceanos, barreiras culturais e temporais, atraca no Rio de Janeiro através de um aplicativo sueco e, sem pedir licença, sela um encontro entre escritores ítalo-brasileiros que perseveram na crença de que as melhores coisas ainda são feitas com o coração.

    Quem sabe a verdadeira globalização não tenha sido a uniformização do mundo, mas a possibilidade de um gesto intimamente humano atravessar continentes sem perder sua brandura.

    No fim, seguimos buscando o que desejavam os que vieram antes (de nós):

    • os tons das animadas canções mexicanas
    • o ar blasé repleto de delicadezas dos escritores franceses
    • o conciso poético de arquitetos alemães
    • a sabedoria de vida dos artistas italianos
    • a paixão traduzida pelo olhar atento dos/das cronistas brasileiros/as e todos os apaixonados que vieram antes de nós

    Ansiando por uma coisa, apenas:

    Porque as palavras continuam sendo o lugar mais generoso onde um ser humano pode apresentar um outro ao mundo.

  • REINO ANIMAL

    A primeira vez que Joana trouxe um sapo para casa foi um alvoroço. A família não sabia como agir, a menina tinha só cinco anos e uma afinidade especial com os bichos. Até quis levar o sapo para dormir com ela. A muito custo, conseguiram convencê-la de que o sapo precisava voltar para casa dele a fim de se despedir dos amigos.

    Depois do sapo, foi um pintinho da feira, que acabou virando frango e morreu de estresse. Um jabuti habitou a banheira da casa apenas uma semana, provavelmente morto por engasgo com um pedaço de couve. Até uns micos que passaram a frequentar a janela da casa, atraídos pelas bananas que Joana ofertava, ela quis domesticar. Terminou ganhando uma Yorkshire, toda branquinha, que levava escondida para a escola na mochila. Recebeu o nome de Algodão e viveu quase dez anos, falecendo de problemas respiratórios.

    Adulta, morando sozinha, desenvolveu uma fobia de convívio social. A humanidade para ela não tinha o menor sentido. A natureza e os bichos eram seu derradeiro conforto, focada no resgate, reabilitação e adoção de animais. Joana não podia ver nenhum animal abandonado, que cismava de adotar. Para amenizar a saudade da Algodão, pegou um vira-lata, misturado com poodle, com pelos na região do focinho. Deu-lhe o nome de Jânio.

    O primeiro gato adotado foi o Cazuza, um siamês magrelo, quase esquelético, mas uma simpatia. Festivo até demais para um felino. Sempre carinhoso, a não ser quando tinha acessos de tosse. Logo a seguir, veio a Alcione, gata de pelagem marrom, sem pedigree, traumatizada e arredia. Desconfiada com estranhos e de hábitos noturnos, interagia pouco, sempre escondida pelos cantos da casa. Devia ter sofrido maus tratos antes de ser resgatada por Joana. Alcione vivia às turras com Cazuza, mas não se separavam. Adoravam ficar se implicando. Alcione, mais encorpada, levava vantagem.

    Jânio não se misturava. Sua missão era vigiar a porta, atento a quem entrava e saía. Não era de latir. Um cão silencioso e observador, talvez por isso se desse tão bem com os gatos.

    A chegada de Agnaldo causou uma certa surpresa. Um periquito-australiano que aparecera do nada na janela. No início, temeroso, foi aos poucos se enturmando e virando hóspede. Atrevido, não deixava em paz os gatos e dava voos rasantes pela casa. Joana era contra gaiolas, achava que todas as aves deviam voar livres. Agnaldo tinha a sua gaiola com a lateral totalmente aberta. Na verdade, só entrava para se alimentar e matar a sede. Tinha o estranho hábito de dormir com Jânio.

    O desafio maior foi com Eurico, o hamster abandonado. Quando o achou escondido num bueiro, largado à própria sorte, Joana não pôde resistir e o levou para casa. Todos os moradores o receberam com afeto e curiosidade. Cazuza cuidou de sua higiene e Alcione, com seu instinto materno, adotou o pequeno roedor. Jânio apenas observava e Agnaldo nunca chegava perto. Talvez estivesse prevendo o que viria a seguir.

    Eurico foi crescendo e se transformou. Endiabrado, corria atrás dos gatos e do Jânio para morder. Nem o Agnaldo escapava. Sonso, toda vez que Joana chegava em casa, o danado fingia se comportar.

    Ainda assim, aquele lugar era bom de se viver. Joana e seus amigos bichos, família reunida e feliz. Ela não mostrava nenhuma surpresa, já que todos ali, diferente dos seres humanos, comportavam-se como animais. Cada um tinha a sua história de abandono, mas nos olhos de Joana encontravam um porto seguro. Ela costumava dizer que humanos perdiam tempo tentando ensinar os animais, quando deveriam sentar e aprender com eles.

    Até que Joana perdeu o controle. A coisa toda tomou ares de minizoológico: pelo apartamento agora circulavam mais oito gatos,
    iguanas, um casal de furões, uma chinchila sem rabo, dez cágados e uma cacatua com o bico quebrado.

    Ninguém mais se entendia. Um dos gatos, recém-chegado, comeu o hamster. Eurico saiu pela janela e nunca mais voltou. O casal de furões cismou com Jânio. A chinchila não parava de dar guinchos agudos de meia em meia hora. Podia marcar no relógio. Talvez estivesse sentindo dores ou por implicância mesmo. Chinchilas são assim, meio conflituosas. Joana não tinha mais sossego. A cacatua, com seu bico partido, definhava por não ter como se alimentar. Os cágados a tudo assistiam passivamente, como todo bom cágado. Com aquela confusão, Jânio passou a latir para todos que passavam pelo andar. O síndico foi chamado. Os vizinhos reclamavam do barulho e do mau cheiro.

    O siamês Cazuza, angustiado, tentou saltar da janela e ficou preso o parapeito. Alcione miava em desespero. O Corpo de Bombeiros foi acionado e Joana se juntou a eles, se apresentando como ativista dos direitos dos animais. Os moradores ensaiaram uma vaia e o síndico ameaçou denunciá-la. Acuada, Joana tentou se justificar: até Noé tivera problemas com o excesso de bichos na arca.

    Estava cansada. Chegou à conclusão de que, tanto quanto a humanidade, o reino animal ia pelo mesmo caminho. Más influências, não havia dúvida.

  • Token inválido

    O infarto foi fulminante.

    Quatro tentativas de reanimação.

    Nada.

    Resistiu bravamente até a última atualização.

    Merecia um fim digno.

    Logo ao chegar à recepção, um rapaz o atendeu, solícito.

    — Fique tranquilo: aqui, tudo tem solução.

    — O senhor deseja fazer a migração completa?

    Severo aceitou o pacote funerário.

    Os universitários iniciaram o ritual de reencarnação.

    Transplantada a memória.

    O outro, novo, reluzente, exibiu seu sorriso de maçã.

    Faltou a identidade.

    — Agora é só atualizar o login dos bancos.

    — Só?

    Severo entrou no aplicativo.

    Negado: Valide o token pelo Internet banking.

    Perfeito! Tentou acessar o site.

    Negado: Para iniciar o acesso valide pelo token no celular.

    Arrepiou…

    Tentou o atendimento no chat.

    Uma voz metálica de boas-vindas:

    — Estamos com muito tráfego no momento, o Sr. é o 12º na lista de espera, favor aguardar que logo mais vamos atendê-lo.

    O som aumenta para as promoções de intervalo, até que outra voz entra na linha.

    — Sou Larissa e vou prosseguir com seu atendimento. Conte em poucas palavras como podemos ajudá-lo.

    Voltou ao ponto de partida.

    — Troquei de celular. Preciso validar o token no site.

    Mas o site pede o token do celular.

    — Não entendi: Reformule sua pergunta.

    — Validar o token.

    Três pontinhos ondulantes, lá vem a resposta:

    — Para validar o token, é preciso fazer uma transferência inicial no app.

    — Obrigada pelo contato. Avalie sua satisfação com meu atendimento.

    Severo, resiliente, volta ao app.

    Acesso negado — token inválido. Necessário validar pelo Internet banking.

    Uma lágrima surgiu.

    O falecido nunca tinha duvidado que eu era eu.

  • Manifesto

    Confesso: eu era indiferente.

    Simplesmente não os notava. Não detestava, nem amava. Eles eram transparentes para mim. Daqueles de quem se diz: nem cheiram, nem fedem.

    Foi assim por dois terços dos meus dias. E nem queiram saber quantos foram. Centenas.

    Não procurei terapia, nem explicações.

    Até que aconteceu.

    Assim, sem me preparar, pensar ou conjecturar, um belo dia eu me apaixonei!

    Paixão de deixar boba. Olhar nos olhos, admirar as nuances, o chamego, o jeitinho, a esperteza. 

    E, como toda paixão, essa também me trouxe dores. Sobressaltos, temores e uma saudade preocupada sempre que precisamos nos separar por algum motivo.

    Agora, quando meus dias estão cada vez mais acumulados, eu não merecia passar por tamanho desassossego: o medo de que ela incomode, a preocupação com reclamações e essa incômoda sensação de impotência diante das regras do mundo.

    Só me resta rezar.

    Recorrer aos santos protetores da boa convivência, da tolerância e da paciência entre vizinhos.

    E pedir a Nossa Senhora dos Gatinhos que proteja a minha querida.

    Nem eu, nem ela merecemos tanta ojeriza. Beira a desprezo mesmo. 

    Deixem que ela contemple o condomínio de vez em quando, sob meus olhos atentos. Não lhe tirem a ilusão de que algum dia ainda será uma grande caçadora, embora os pardais, até hoje, continuem levando larga vantagem.

    As mordidinhas na grama são digestivas e sequer fazem diferença no desenho do jardim.

    Ela já é uma senhora. Tem suas manias, seus hábitos e uma dignidade felina que não admite discussão.

    Não a olhem como uma ameaça.

    Não transformem cada passeio numa operação de guerra.

    Tenham um pouquinho de paciência conosco.

    Eu, que passei tantos anos sem compreender o fascínio que esses bichos exercem sobre as pessoas, hoje me vejo aqui, completamente rendida.

    Portanto, faço este apelo público, sentimental e talvez um pouco exagerado:

    Por favor, amem a minha gata Felícia! 

    🌷

  • Uma história de gatos e ratos

    — Verônica! Finalmente resolveu aparecer depois de tanto tempo. Ainda se lembra do caminho de casa? Bem, acho que essa não é mais sua casa.

    — Quarenta e sete dias.

    —Você não atendia meus telefonemas…

    — Não quero falar sobre isso agora. Passei aqui porque preciso pegar umas coisas. Rafael, você tá molhado, pingando. Sai, tenho uma reunião de trabalho daqui a pouco.

    — Fiquei o dia todo na piscina. A água me faz bem, me purifica.

    Como estamos longe do mar, tenho de me virar com a piscina mesmo. Ah, eles começaram a reprisar aquela novela que você fez… Queda livre, certo?

    — Pois é, eu saio logo. Morro afogada por volta do capítulo 50. Foi horrível gravar aquela cena.

    Ao contrário de você, não tenho essa paixão toda por água. E o Tarantino tá por aí? Saudade dele…

    — Sei lá. Esse gato anda tão esquisito. Passa o dia todo enfurnado em algum buraco. E deu pra sair por aí. Às vezes, fica dias fora de casa. Comportamento estranho. Será que tá sentindo sua falta? Mas pega logo o que quer e se manda.

    — Rafael, você voltou a beber?

    — Voltei, deu pra perceber? Na verdade, nunca parei, minha querida.

    — A gente devia pensar em vender essa casa. Tem um amigo da minha mãe que é corretor…

    — Aqui é tão isolado, não é o que você vivia dizendo? O lugar não é valorizado, é tudo longe. Até pra comprar pão é preciso pegar o carro. E o que mais tem por aqui é imóvel vazio. Vamos ser realistas, Verônica.

    — Sem contrato na TV, sem trabalho no teatro. Tô filmando um curta. O fato é que preciso de grana. Minhas economias vão acabar…

    E você já arranjou alguma coisa?

    — Isso não é da sua conta.

    — Tá namorando? Arrumou alguém? Será que alguma mulher vai entrar por aquela porta a qualquer momento?

    — Isso também não é da sua conta.

    — Mas então, a gente precisa vender essa casa. Cada um pega a sua parte, vamos resolver logo essa situação.

    — Você já viu o sol que está lá fora? Não quero falar de negócios num dia como hoje.

    — Olha, Rafael, eu…

    Verônica se preparava para ir embora quando Tarantino surgiu na janela da sala. Agora tingidos de vermelho, os pelos brancos ao redor da boca do felino conferiam-lhe um aspecto soturno.

    Eriçando o corpo esguio e produzindo ruídos esganiçados, o bicho aproximou-se de Verônica e atirou aos pés dela o rato morto que trazia na boca.

  • Seria a eternidade um mineral?

    Quem sabe a imortalidade seja um mineral formado por átomos de carbono puro dispostos em uma estrutura cristalina cúbica.

    Nosso inconsciente não acredita na própria morte pois não possui nenhum registro psíquico ou representação para ela, e se comporta como se fosse imortal. Não queremos papo com a finitude, ponto e basta! É ao testemunhar a morte de alguém querido que somos forçados a confrontar a realidade da perda. Mas nem isto abala a invulnerabilidade do nosso desconhecido e destemido inconsciente.

    O pobre ego deve morrer de inveja deste ‘sujeito’ empoderado e persistente que aparece nos nossos sonhos e fantasias, nos lapsos de linguagem, nos chistes e sintomas, manifestando de forma disfarçada nossos desejos e memórias reprimidas, sendo o grande reservatório das pulsões e conflitos psíquicos que nos moldam.

    Me debruçando sobre Eros, a vida, ao invés de Tânatos, a morte, leio as manchetes virtuais. Uma notícia cativou meu interesse. Rumino entre cinzas e diamantes. Regurgito e novamente mastigo. Cogito intimamente: Será o ato de mineralizar-se (mesmo que o desejo nem seja do próprio) uma possibilidade lustrosa de eternizar-se?

    De onde virá esse desejo posto ou póstumo, de transformar-se em diamante? Esse desejo de perpetuar-se como substância sólida, apto de ser objeto de toque e posse, perfilado como adorno sobre uma bonita prateleira, trancafiado numa gaveta para não ser furtado ou até mesmo pendurado no pescoço ou enfiado nos dedos. Melhor não seria expandir-se como matéria gasosa em constante movimento aleatório, sem forma nem volume definidos? No fim das contas, já não estaria sua alma como Éter elevada a um elemento puro do céu e muito bem guardada dentro do peito?

    Não importa. Afinal desejo é de cada um. Mesmo um diamante, a substância mais dura conhecida na face da terra, possui seus pontos fracos. Sua imagem reluzente pode sofrer arranhões e uma pancada certeira te fratura em cheio. Caso tenha a rara oportunidade de tê-los em mãos, muito cuidado ao manuseá-los!

    Diamantes são formados a partir de calor e pressão e podem ser produzidos artificialmente a partir de cinzas humanas, num processo complexo e caríssimo. Para poucos! Do carbono contido nas cinzas, cria-se um simulacro de uma joia que será ofertada como um presente precioso.

    Os diamantes dobram os raios de luz que entram na pedra, refletem suas facetas internas e retornam à superfície saindo como brilho intenso, para tanto, o corte é essencial. Um diamante bruto quase não brilha, a lapidação que o transforma.

    Debruçar sobre cinzas e diamantes me fez recordar de amor e transferência, do agalma fálico (este adorno raro e precioso) que se supõe escondido dentro de uma pessoa, tornando-a desejável, que aponta para a fantasia de completude e a busca por um objeto que garanta poder e valor.

    Ao invés de diamantes poderíamos desejar nos transformar em talco, o mais macio dos minerais, num abundante quartzo ou no simples feldspato… Não importa. O que insiste é o apego humano de ‘re’ existir a qualquer preço!

    E para a nano parte da população que ri dos pobres mortais, diamantes são singelos demais, o capricho desejado será pela extravagância de tornar-se uma Jade Imperial, de mil vezes maior valor ou melhor ainda, perpetuar-se como numa gigante safira “Estrela da Terra Pura” . Alhures, estará sempre lá idealizado, o impagável, o “Diamante da Esperança”.

    Para nosso alento e para os milhões de humanos que vivem ainda abaixo da linha abissal sempre restará a alegria de ser lembrado pelas estrelinhas no céu.

  • Sexo e futebol

    Segundo pesquisa feita na Inglaterra, os homens preferem o futebol ao sexo. Entre pernas cabeludas correndo num campo e pernas depiladas movendo-se sobre um colchão, eles preferem as primeiras.

    Isso deixa intrigados sexólogos, antropólogos, terapeutas comportamentais, que não conseguem entender como se pode trocar, por exemplo, um orgasmo por um grito de gol. Ou os pequenos carinhos que antecedem o ato sexual, pelos gritos obscenos com que se xinga o juiz.

    Alguém com veia poética poderá dizer que o grito de gol é um orgasmo da alma. Ou que a ofensa à mãe do juiz expressa o impulso edipiano de valorizar, por antítese, a própria mãe. Há muitos caminhos que aproximam, pelo menos no reino da metáfora, sexo e futebol. Talvez por isso mesmo seja intrigante valorizar-se um em detrimento do outro.

    A explicação certamente se deve ao que chamam de “mística”. Algumas correntes tântricas, pelo que sei, consideram o ato sexual uma experiência transcendente. Mas isso não se compara ao fervor religioso com que o torcedor cultua a camisa do seu clube.

    Flamengo, Botafogo, Corinthians e tantos outros não são apenas ajuntamentos de homens jogando bola. São credos em função dos quais pequenas multidões se unificam e por eles gritam, sonham, choram, chegando ao limite de matar ou morrer. Não é à toa que o futebol toma emprestadas às guerras algumas de suas imagens, como a de “dar a vida” por um clube.

    O clube é a única coisa que não existe, e talvez por isso exista demais. Tudo nele é efêmero – os jogadores, a presidência e a própria sede. Um time pode, de um ano para o outro, mudar todo o seu plantel – mas nem por isso perderá sua essência.

    Tem até os que modificam o padrão da camisa, ou seja, abdicam do elemento simbólico que por excelência incita a paixão do torcedor. Mesmo de camisa nova, continuam sendo Santos, Palmeiras, Fluminense.

    A palavra “mística” remete a um além de fantasia e mistério. Desse vazio, em função do qual de alguma forma nos ultrapassamos, nasce a força de crer. Em religiões ou em times de futebol. E não adianta investir contra ele nossos míopes óculos intelectuais.

    Não é de estranhar que hoje a mulher, cada vez mais despida de transcendência, perca prestígio e apelo quando confrontada com o futebol. Foi-se o tempo em que seu corpo era um sacrário; seu colo, um lírio; seus olhos, janelas misteriosos para o infinito.

    Hoje ela é mais concreta, corpórea, real, e por vezes diz pornografia. Está muito distante daquele metafísico mistério que faz com que uma bola, depois de quicar numa direção, tome de repente outra e entre na trave adversária.

  • Vida nova mas o mesmo eu, ou não?

    Vida nova para mim mesmo teve início nesse mês de agosto. Do casulo do home office para o palco do magistério. Direto , sem escalas e muito desejado.

    O silêncio perdeu seu espaço privilegiado em minha rotina. Antes, era soberano, só cedia seu lugar sagrado para as eventuais intervenções de minhas filhas. Agora precisa se contentar com as horas que sobra, como as horas mortas de Garcia Marques.

    Ruim? Nem tanto. A tudo, ou quase, se acostuma. Em lugar do silêncio, meus ouvidos agora captam novas vozes, todas antes desconhecidas para mim e muito, mas muito mais jovens do que eu. É a vida.

    No palco do magistério não atuam mímicos. Gestos sem palavras nada significam. É preciso representar por inteiro, corpo e voz conectados para o desempenho cênico perfeito.

    É necessário criar uma imagem que atraia a atenção, modulando-a a cada apresentação, sem superar o seu discurso. Porque o roteiro do espetáculo muda e com ele a expectativa da audiência. Levo, dou, troco, misturo, gero. Malabarista sem rede de proteção ou cordas de segurança, voando no espaço aos olhos do público. Me reconhecerei após experiência tão intensa? Provavelmente, sim. Não sou mutante de hoje. Ninguém é.

    Durante a encenação, as palavras ganharão mais força à medida que escorrerem da língua formando ideias, propondo desafios, inserindo dúvidas, desatando nós, sugerindo caminhos. Porque não há quarta parede, ator e público se mesclam, trocando de papéis momentaneamente à conveniência do espetáculo.

    Ao final, as cortinas se fecharão e todos irão embora.

    Mas muito longe de continuarem sendo os mesmos. Serão todos outros. Seremos todos outros. Seres metamorfoseados, refletindo o embate entre as opiniões e argumentos proferidos ao longo do espetáculo.

    Híbridos, por fim. A cada subida ao palco, a cada cerrar de cortinas.

    Subo híbrido, desço híbrido. Por isso vivo.

  • O pião

    Quando o tio Luís encontrava alguns meninos brincando com pião, logo se oferecia para demonstrar a sua habilidade. Escolhia o pião mais gordinho, que era o de que mais gostava, e mais liso, de tanto uso. Enrolava a fieira no pião com um capricho minucioso de filósofo. Escolhia a área de terra mais limpa, que não tivesse nenhum empecilho para quando o pião girasse sobre si mesmo. E então o lançava, não para a terra, como seria de se esperar, mas para a frente; dava depois, ou melhor, concomitantemente, um jogo com a mão e o trazia de volta, para que viesse girar na sua mão grossa de homem da roça.

    Em seguida repetia a operação. Enrolava novamente a fieira no pião com o seu capricho minucioso de filósofo. Todos os mesmos passos anteriores; mesmo a escolha do pião: examinava um a um os piões dos meninos, para enfim se decidir pelo mesmo pião. Quando o lançava, com a ponta da língua de fora, para maior exatidão na pontaria, e o trazia de volta, não o pegava mais na palma da mão, mas na unha. Na unha!, exclamavam interiormente todos os meninos. E todos, os meninos e o tio Luís, se punham a observar em êxtase o universo na forma de um pião encantado a girar, primeiro na mão calejada, depois na unha disforme de um homem rude, para por fim cair exausto, vencido.

    Todos, os meninos e o tio Luís, mal podiam resistir à tentação de aplaudir o desempenho exímio do universo, que girava como um simples pião nesses calos grosseiros ou nessa unha feia, estragada.

  • OS CADERNOS

    “Sempre diremos tudo um ao outro, inclusive o que não for bom. Mesmo o que for desagradável deverá ser dito. Porque calar é perigoso. Não nos separe o silêncio, nunca.”

    Assim foi o pacto que fizeram Carlos e Isabel, tão logo se descobriram apaixonados e dispostos a viver juntos vida afora. “Tem a minha palavra”, disse Carlos. “Tem a minha palavra”, respondeu Isabel. Casaram-se poucos dias depois. Ao cabo de dez anos, com a paixão um tanto esgarçada e frouxa, ainda mantinham o acordo dos primeiros anos.

    Carlos:

    — Sabe, querida, o que seria bom? Que você aprendesse a cozinhar direito de uma vez por todas. As pessoas costumam seguir algum livro de receitas para preparar comida decente, caso não tenham aprendido com a mãe. É fácil, basta saber ler. Outra coisa: seria muito bom também que você perdesse uns quilos. Sua saúde e sua autoestima agradeceriam. Depilar as pernas com mais frequência também é uma ótima ideia. O que você acha?

    Isabel:

    — Eu acho que não vou fazer nada disso, querido. Se fosse para mudar alguma coisa, melhor seria que você tomasse a iniciativa. Sua voz é irritante, parece um pato engasgado. Quando você ri, tenho vontade de enfiar uma faca em sua boca. Falta-lhe inteligência. Essa sua barriga peluda me causa náuseas. Não fosse a minha estranha fixação pelo casamento, já o teria abandonado há muito tempo. Estou bem assim, com esses quilos a mais.

    Os dois logo compreenderam que seu relacionamento estava naufragando e buscaram ajuda. Uma amiga recomendou um terapeuta especialista em casais em crise. Foram vê-lo.

    Terapeuta:

    — A relação de vocês está indo mal pelo excesso de sinceridade. Eu sugiro um remédio simples: o silêncio. Parem de dizer tudo o que pensam um do outro. Acostumem-se a falar pouco e a trocar somente frases cordiais. Habituem-se a escrever o que realmente desejariam falar. Façam isso em segredo, nenhum dos dois precisa saber o que o outro escreveu. Aqui estão dois cadernos, em que anotarão as coisas ruins que deixarão de falar. Desejo sorte ao casal. Sejam felizes.

    Carlos e Isabel saíram do consultório carregando cada um o seu caderno. Durante meses seguiram rigorosamente a orientação do terapeuta. A comunicação entre os dois tornou-se mais afável, embora curta. Os diálogos se reduziram à troca de algumas frases na frente da televisão. No restante do tempo, dedicavam-se a registrar no caderno o que não diziam um ao outro. Quando um volume ficava cheio de anotações, compravam outro. Os cadernos foram se multiplicando com assustadora rapidez e logo a casa começou a ficar cheia deles. Estavam empilhados em todos os cômodos, até no banheiro e embaixo da escada. Cadernos, muitos, uma imensidão deles. Tantos, que Carlos e Isabel tiveram que abandonar a casa e procurar outra moradia. Os cadernos, cheios de frases não ditas, não deixaram espaço para os antigos moradores.

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