Crônicas Cariocas

  • Tristeza enrolada em lamento

    A conversa, afinal, foi breve. Ela chegou, falou, escutou, falou de novo, despediu-se e foi embora. Ficou ele ali, diante daquela inútil e maravilhosa paisagem, a belíssima curva da praia de Copacabana. O mar batendo mansamente na areia da praia e nas pedras abaixo dele e mais nada. Em silêncio, ali na mesa, agora sozinho, rememorou a conversa.

    Não havia mesmo mais alternativa para eles. “Nós” acabou. Eles quis ser presença no lugar de lembrança. Mas ela não deixou. Preferiu diferente. Ele escutou calado que sempre estaria em sua memória com muito afeto.

    Doeu. Mas ele manteve-se calmo apesar de tudo. Não se briga com quem pensa em nós com afeto mesmo que isso não nos baste. Procurar motivos para justificar uma ação irada carrega em si o perigo de resvalar em coisas mesquinhas. Maldade com a memória a dois.

    O certo é que ninguém é obrigado a nada além do que possa dar. Nessas horas o querer e o conseguir se submetem ao poder. Não posso mais do que consigo ou quero, foi o que ele entendeu do que ela disse.

    Então era mesmo o fim. Daí em diante, quem sabe? A terra é redonda e as vezes os caminhos se cruzam acidentalmente. Ou não. Quem sabe o que virá?

    Não iria reprimir um sorriso quando a visse. Quem sabe de onde viria esse gesto? Qual impulso fará ele brotar? Qual emoção parada em uma curva da memória? Uma saudade, um momento feliz a dois? Aquela canção sussurrada?

    Mas será só um sorriso, que será difícil de reprimir, e nada além. Sem sonhar, sem imaginar, sem pensar, sem cogitar. Sem nada adiante. Nada mais de expectativas. Nada de “e se…dessa vez…”

    Não. Chega. Basta.

    Mas também sem querer mal. Isso não se faz porque ofende o amor em si. “Sem me vingar que a vingança não tem valor”, ensinam Pixinguinha e Paulo Cesar Pinheiro em “Ingênuo”. No depois, por mais que se faça uma faxina sentimental sempre permanecerá alguma lembrança da pessoa que se foi. Talvez doa, talvez chame um sorriso solitário, até uma lágrima. Quem sabe?

    Não há tempo certo de duração no durante. Para uns se foi no tempo certo, porque nada mais havia a ser dito ou trocado. Para outros caiu cedo demais, porque muito ainda havia a ser vivido a dois, compartilhado e sentido. Para ele quanto tempo terá durado? Não importa porque não há mais, agora é passado.

    Enfim. Se a vontade de um se vai, a determinação do outro fica sem sentido. Perde força. No fim, sempre restará algo. Entre palavras ditas, expressões feitas e memórias vivenciadas, sempre haverá lá no fundo um pouco de tristeza enrolada em lamento.

  • O Bito

    Juca abriu a janela e olhou a noite – o cheiro úmido da noite. Aspirou fundo e sorriu: tinha que ser hoje. Puxou a cadeira, montou a cavalo na janela, num instante estava do lado de fora. Foi tateando a escuridão, até acostumar a vista. Os pés descalços afundavam na terra vermelha – uns poucos passos e estava junto à cerca.

    Deitou-se no chão – cuidado o arame! – e rolou para o pasto das vacas.

    Agora muita atenção, uma chifrada ia estragar tudo.

    Enxergava melhor – a noite até que clara, a lua um balão amarelo, manchas de fumaça, espargindo um halo de claridade, e as estrelas brilhantes, infinitas.

    Devia de haver mil estrelas no céu – Juca não sabia imaginar um número tão grande: um mil, um milhão. Abre a boca pasmado – quantas!

    Nenhuma luzinha na terra – o pai apagara o lampião de querosene, a última lamparina. No céu, uma festa – as estrelas, lamparinas trêmulas de alegria.

    Reconheceu as Três Marias, o Cruzeiro do Sul – Por que esses nomes? Precisava de conhecer mais nomes das estrelas? E das coisas? Não; não fazia falta.

    No pasto escuro, acariciando os nós do coqueiro – nem um tiquinho de medo.

    Tinha as vacas, um perigo a Mimosa, mas estava acostumado. O pai ralhava – inútil, homem não tem medo. Oito anos, calcinha curta, pé no chão – um homem.

    Não distinguia a copa do coqueiro, mancha balouçando lá no alto. Bom de trepar – impossível, as perninhas desajeitadas.

    Um barulho – a respiração das vacas ali perto, bufando, ruminando com prazer a cana da tardezinha.

    Deu uma corrida até a paineira.

    Se o touro Marrão? Fica apartado das vacas, mas – quem sabe? A casca grossa da paineira, o melado do leite dela – uma árvore bonita, florida como um jardim. E os espinhos? Se o Marrão, não dava para se proteger num galho.

    Também, nunca precisou correr de um boi. Estufou o peito e foi andando devagar até um outro coqueiro.

    A aragem fresca da noite, o capim molhado – uma sensação agradável. Afundou o pé num monte de bosta. Não era ruim – afundou o outro também. Diz que estrume de vaca é bom para curar frieira. Juca não tinha frieira, mas era quentinho – ele gostava. Um cheiro verde, forte, saudável.

    Saiu arrastando os pés, esfregando no escuro da grama, sem pressa. Abraçou o coqueiro – mais uma paradinha.

    Escutava o silêncio. Muito longe, um longe muito negro, a água clara – mal se ouve – gorgoleja. Uma rãzinha – serenata, quem sabe? – e um grilo fazendo coro. Podia que a cantiga das estrelinhas.

    As vacas resfolegam. É tudo uma paz, as vozes da noite modulando o silêncio. Por que não uma coruja? As corujas vivem de noite – compenetradas, todo um ar de sabedoria. Nunca uma coruja à noite – Juca viu de dia, num mourão à distância. O bichinho tão sério, dormindo, ou fechado em si, ruminando as imagens do mundo – a aparência de velhice, tão antigo, jeito de quem conhece.

    Medo nenhum. Um saci, gostaria de ver um saci. Não viu nem as tranças que o moleque faz nas éguas. Diz que ele aparece, chamando. Põe a cabeça de um lado e outro do coqueiro, se escondendo, e assobia. Duas, três vezes – saci, nada. Chama: Saci, ciriri… ci, ci!

    Ah, o pito do negrinho soltando estrelinha, no escuro – umas coisas que careciam de ser verdade.

    A mula-sem-cabeça – sem cabeça e abanando as orelhas no vento. O lobisomem – devia de ser bem engraçado. Da varanda se avista o telhado da casa do Tio Luís – a prima Isabel perseguida por um lobisomem, em cima da porteira e o bichão mordendo o vestido. Dia seguinte o noivo Zezão tinha fiapos de pano nos dentes? Ninguém não desconfiou – os dois noivaram demais, pularam cerca, se emaranharam nos espinheiros? Juca aprende com a mãe a duvidar – que as histórias eram bonitas, eram.

    Ufa, que estou perdendo tempo – dá uma corridinha. O Bito me esperando – desabala pasto a fora. Sobe na tábua na porteira, alcança a taramela grandona – mas, e se o pai escuta? Essa porteira velha ringe nos gonzos. Melhor não. Se esgueira pelo viradouro – enfim, no piquete dos bezerros.

    Qual o Bito? Só chamar, ele vem. Baixinho, que o pai – lonjão, mas o pai inventa de escutar até pensamento. Bito! Bito!

    Um vulto se aproxima – é o Bito? Maior, mais magro. Os bezerros, a maioria mansinhos – Juca vai passando a mão, um por um: conhecer pelo tato.

    O Bito é preto – como, no escuro? A estrela branca na testa – mas, e o escuro? O Bito é preto dum preto vivo, um preto que brilha de tão preto – perceberia o brilho?

    Peludão – fácil, com o tato. E eu não ia conhecer o meu Bito? Enfia o pé num buraco de tatu – que susto! Medo de tatu? Franze a testa, empina a cabeça – tenho medo, não.

    Ui! Novo susto – uma lambida na cara: Oi, Bito. Abraça o bicho – Saudade, negão. Nova lambida – Juca, um beijo na orelha, em resposta. E um tapa nas ancas, de amigo.

    Preocupado, Bito – a ameaça de uma lágrima, ele que nunca chorou. As mãos na cabeça do Bito, cabeça contra cabeça se esfregando. Amigão, perder você – não quero, não. Cada ideia – ouvira a mãe, que tinham que mudar para a cidade, não podiam esperar mais. E tudo por culpa dele, o Juca – Está crescendo esse menino, assim no mato, vira bugre.

    O pai ria, não fazendo caso. Mas tinha mais alguma coisa no ar: o sítio não produzia como antes, outra colheita perdida – não iam agüentar.

    O Juca não entendia desses assuntos – e não morar mais ali, ideia tão remota, invencionice, onde se viu?

    Mas porém uma outra preocupação começa a bailar na sua cabecinha: estava crescendo, o

    Bito cresce mais rápido ainda – breve, breve, ia perder o Bito. Breve, breve o Bito ia ser um garrote, um boi, um tourão. Já se viu um touro se chamar Bito? Até o nome – Bito, era uma vez.

    E se matassem, carneassem o Bito? Isso não – ali um tourão, o maioral, capaz de dar conta de todas as vacas do mundo.

    Mas tudo acontece. E ninguém podia impedir o Bito de crescer – cresceu, babau! Adeus, Bito. Nunca mais o seu bezerrinho.

    Por isso que tinha vindo essa noite. Não carecia, as coisas não iam ser assim de uma hora pra outra – mas se viu tão agoniado, um aperto no peito, desinfeliz como a morte.

    Pulou a janela do quarto – esqueceu tudo. Se sentia livre, sozinho dentro da noite, e fazendo coisa proibida, que bom.

    A noite e seus mistérios – Juca nem conhecia a palavra mistério, mas era todo envolvido de seu fascínio, solto na noite. Um molequinho desenxabido, carinha de bobo – que importante, reinando com esse brinquedo encantado, diferente de tudo, a noite.

    E aproveitar! Bito, amigão, você me leva? Só uma voltinha!

    Se gruda no bezerro, joga a perna direita pra cima, uma, duas vezes – de bunda no chão, embaixo do Bito. Que anda, devagar – Espera, Bito, espera. Bicho inteligente! – para junto de um tronco seco. O Juca – upa! – pula na garupa do Bito. Deita pra frente, se ajeitando. Upa, cavalinho. Upa, upa!

    Bito a passos bambos até a porteira – não vão sair? Volta a contragosto, depois de uma carreira – para na beirada do pasto, se encosta no pé-de-goiaba.

    Quietinho, Bito. Quietinho! O Juca – no cai, não-cai – fica em pé, em cima do Bito. Segura no galho da goiabeira, procura, esse escuro – olha que uma taturana!

    O Bito dá uma corcoveadinha, um passo de lado e – ai, o Juca pendurado na goiabeira.

    Tenta firmar o pé no lombo do Bito, que nada – o jeito é descer pelo tronco. Ah, não queria goiaba mesmo!

    O Bito procura os companheiros, o Juca atrás – Aqui, Bito, aqui. Bé – a resposta do Bito.

    Um bé preguiçoso, de sono – espojando-se ao lado dos outros bezerros.

    O Juca ofegando – Faz isso comigo, Bito! Cansado, deita-se também.

    Você sempre será o meu bezerrinho. A lembrança – Não quero que você cresça nunca! Eu não quero crescer nunca! Nem nunca que eu quero ir embora daqui.

    Aconchega-se abraçando o pescoço do bezerro – hum, tão bom!

    Friozinho, o sereno da noite – abraça bem apertadinho o pescoço do Bito. Quentinho!

    As estrelas lá no céu, que mundão de estrelas! Dorme, dorme, Bito.

    Os vagalumes aqui na terra, um mundão de vagalumes. Abre e fecha os olhos, apalpa o capim – uma coceguinha úmida.

    Gozado – como se estivesse no quarto, a janela aberta, os vagalumes sobre a cama, pousando no travesseiro. Corria fechar a janela, acender a lamparina – você aperta a bundinha do vagalume, trec! ele dá um pulo pro ar. Cinco, dez vezes – cuidado não matar o pobrezinho. Guardar numa caixa de fósforos, amanhã você brinca mais.

    Às vezes era daqueles pequenininhos, molinhos, chamado de um nome dos mais feinhos: luz-cu.

    Pirilampo tem-tem! Seu pai tá aqui, sua mãe também! Pirilampo tem-tem! Não, não estava com vontade de brincar. Dorme, dorme, Bito. Só nós dois, sozinhos no mundo. Já pensou – não existisse mais ninguém, só nós dois?

    O Bito olhando com uns olhões deste tamanho – assopra pelas ventas, esfrega a fuça no chão, de cá pra lá, de lá pra cá.

    Os vagalumes, estrelinhas – o Juca nem notara os vagalumes, custou. Foi notar – lembrou de casa. Ah, deixa a casa lá: a mãe está dormindo, o pai está dormindo – Vamos dormir também, Bito! Quentinho, que bom nós dois, a gente juntinho.

    A escuridão, que preto o mundo! Monstros? Assombração? Algum bicho – onça? cobra? O Juca fecha os olhos, aperta bem o Bito, peludão. Não tenho medo, não – um homem.

    Encolhe as perninhas, se aninha bem encostadinho no Bito – Não quero nunca ser um homem grande.

    As estrelinhas, esse pirilampo – sentar na ponta do meu nariz? Juca enterra o nariz nos pelos do Bito – Você é tão mansinho! Você sempre que vai ser o meu bezerrinho! E espera – o sono, o sono que logo, logo vem chegando.

  • Meu amigo Tibúrcio

    Não passa um dia sem que note sua presença silenciosa, o olhar doce acompanhando meus movimentos e o sorriso acolhedor que me dirige quando, sempre aos domingos, me disponho a ficar quieto no meu quarto e conversar sem palavras com ele. Se ando pela rua, cruzo um viaduto ou paro um pouco para respirar com os olhos fechados o cheiro do pão fresco que vem da padaria, sinto de repente que ele se agita no fundo da minha idade. Que, jovem e cheio de vida e de saúde, golpeia com suas mãos pequenas e ternas minhas paredes interiores. Que grita, ri e trata de pular pra fora, a todo custo, desse corpo envelhecido e cansado de tanta dor.

    Meu amigo Tibúrcio nunca me negou companhia nem consolo. Sinto alegria por ouvir, até hoje, quando sofro tanto, sua voz sussurrando vai passar, vai passar.

    Não raras vezes ele me desperta no meio da noite com o desejo de que o tome pela mão e o leve para ver o mar. Só ver, sem entrar na água ou quebrar as ondas. Só ver e não esquecer do quanto somos pequenos. Também me irrita um pouco quando tenta parecer mais inteligente do que eu numa conversa adulta, pondo-me em situação ridícula. Para quieto, eu digo com minha voz interior, mas não há maneira de calar o tagarela. Eu o perdoo mesmo assim.

    Ele me pede, sempre que volto da rua, que traga flores para enfeitar a casa. Intromete-se em meus problemas cotidianos e sempre inventa uma solução mágica. Me convence, enfim, a sair sem agasalho num dia frio e voltar para casa com os lábios roxos e morrendo de rir.

    Em outros dias sou eu quem saio em busca dele, estranhando seu silêncio mais demorado que o habitual. Temo que tenha ido para sempre e deixado um oco escuro em minhas entranhas. Por sorte, sei onde encontrá-lo: toco de leve o meu peito e pergunto ainda está aí?, ao que ele responde como não vou estar se sou um pedaço de você? Então saímos os dois para passear, tomar sorvete ou ler um livro.

    Costumo dizer ao meu amigo que não tenho certeza de nada a não ser do medo de, algum dia, não estar aqui. Ele costuma responder que somos como a cebola, que tem várias capas, e que só se chega ao centro dela depois de derrubadas todas as camadas. Que o mesmo acontece com as pessoas, que vão, voltam, vão e voltam novamente, eliminando suas capas até que seu centro seja revelado e então, como o voo breve de uma borboleta, fecham os olhos e dormem.

    Concordamos que a memória ficará. Um dia eu não serei eu, ele não será ele. Outros ocuparão os lugares que hoje ocupamos e a lembrança de nós ficará grudada no batente das portas, nos azulejos, nos muros, nas canções e no ar. E assim, de acordo, eu e meu amigo Tibúrcio saímos para o sol.

  • Poema #02: Música-Clássico

    a música no rádio
    toca
    um clássico rock anos 80

    — ainda não sei de quem —
    mas sei
    que toda vez
    que essa música-clássico
    toca

    todas as estações do rádio
    sintonizam
    tua imagem-clipe
    dando cores
    a um passado
    que ficou em branco.

    *

  • Esquinas da alma

    A casa não é mais minha, mas a esquina sim. Não a esquina de concreto e calçada, mas aquela feita de tempo e memória, que se ergue no mesmo lugar, invisível a todos, menos a mim.

    Tudo começa no ponto exato onde o poste da luz, um pouco mais inclinado agora, desenha sua sombra alongada ao entardecer. Era ali que minha mãe esperava as tardes, com o cheiro de pão fresco ainda grudado no avental. Sua sombra se fundia com a do poste, e eu, voltando da escola, sabia que casa era onde aquelas duas sombras se encontravam.

    Hoje, um poste mais moderno substituiu o antigo, mas se fecho os olhos, vejo a mancha de ferrugem em forma de flor que marcava sua base: “Vivo na casa da esquina com o poste da flor de ferro”. Ninguém mais via a flor. Só eu.

    Do lado oposto, a mercearia do seu Manuel, não existe mais. Transformou-se em uma loja de celulares com luzes azuis que piscam sem calor. Mas na minha esquina particular, seu Manuel ainda arruma as latas de goiabada na vitrine, e o sino da porta ainda tilinta quando entro para comprar bala de café com um tostão suado na mão.

    Às vezes, paro o carro ali, no ponto proibido agora, e olho. Os tijolos da casa foram pintados de um cinza frio. Mas na minha memória, as parreiras de maracujá ainda se enroscam no muro baixo, e o desenho que fiz com carvão, um sol com olhos de botão, ainda sorri de um tijolo perto da porta.

    O menino que fui não se foi. Ele está congelado naquele espaço-tempo. Está subindo no muro para pegar a bola que caiu no quintal do vizinho. Está sentado na calçada ainda quente, contando as estrelas que surgem timidamente entre os fios dos postes. Está esperando, com o coração batendo no pescoço, a primeira namorada que vinha encontrar com ele “na esquina”, ainda escondida dos pais.

    O passado não vive dentro das paredes que habitamos. Ele fica retido nos espaços de transição, nos limiares. Lugares onde se fica entre o dentro e o fora, entre o partir e o ficar.

    A nova dona da casa deve achar estranho quando, às vezes, vê um homem de quarenta anos parado em frente ao portão, imóvel, olhando para o nada. Não vê que ele está olhando para tudo. Para o fantasma da bicicleta com rodinhas laterais que faz uma curva desengonçada. Para o eco das risadas escondidas noturnas. Minha vida atual acontece em outros lugares, com outros códigos postais. Mas meu passado, teimoso, não quis se mudar. Para lembrar que, antes de ser quem sou, fui aquele menino que acreditava que o mundo começava e terminava no ponto onde a rua fazia curva.

    A cidade muda, as casas mudam de donos, as ruas se modernizam. Mas as esquinas da alma permanecem intocadas.

  • Liberdade última

    Sempre morei numa casinha construída ao lado da casa da minha avó. Foi um presente do meu avô à minha mãe. Ele queria todos os filhos próximos. Deu um duro danado para que isso se concretizasse. A bem da verdade, fui criada por minha avó, porque minha mãe viajava muito a trabalho e, quando estava em casa, nunca tinha tempo para ficar comigo – hoje suspeito que não tinha aptidão para ser mãe, para cuidar de outra pessoa. Sendo uma casa geminada, eu entrava e saía a hora que quisesse para a casa de vovó Cidinha. Uma coisa interessante é que ela não deixava ser chamada de mãe, porque queria preservar uma relação que não existia, entre mim e a minha mãe. Em um dado momento, quando tinha dezessete anos, minha mãe se juntou com um paulista e resolveu morar de vez na capital. Para falar a verdade, não senti muito, porque tinha a minha avó como referência, como sinônimo de amor. Me virei como pude, fui atendente da McDonald’s, por dois anos; depois, quando passei para contabilidade, fui contratada por uma grande empresa de cosméticos, onde fiquei por cinco anos. Tive de entregar os pontos para cuidar de vovó. Ela, aos poucos, mostrava sinais de esquecimento. Não lembrava sequer se tinha tomado os remédios, se tinha ido ao banheiro, essas coisas básicas. Parei tudo para cuidar dela. Fomos a diversas consultas até que a diagnosticaram com Alzheimer precoce. Foi uma dor monstruosa, perdi meu chão, minha referência. Em meses, passei a cuidar de uma criança. Vovô, mais velho que vovó, não tinha condições de cuidar dela. Então assumi toda a responsabilidade. Certo dia, depois de anos, Guiomar, minha mãe, resolveu visitar minha avó. Praticamente foi expulsa de casa. Minha avó não a reconhecia e queria bater nela. “Bote essa bruxa para fora daqui!”. Parece que algo de ruim estava guardado no seu inconsciente. Guiomar chorou pouco e logo pegou suas trouxas para voltar à rodoviária. Meu avô, pasmado, não pôde fazer nada. Realmente não tinha o que fazer ali. Só éramos nós duas. Cidinha me obedecia e me acompanhava para onde quer que eu fosse. Com perguntas infantis – “Por que que o céu é azul?” –, me fazia rir, e implicava com as minhas roupas, curtas demais para ela. Essa manhã vovó perguntou pelos filhos Guiomar e Sebastião. Disse a ela que Guiomar trabalhava fora, por isso não tinha tempo de vir vê-la. Sebastião, ou simplesmente Tião, meu tio, de fato trabalha muito, viajando, é caminhoneiro. Quando retorna de suas andanças, procura a mãe e o pai, para lhes dar um abraço, para lhes demonstrar todo o carinho e respeito. Me deu um dó danado quando soube que minha mãe estava hospitalizada, por conta de uma pneumonia mal curada – ela fumava muito.

    Mas jamais deixaria a minha avó para cuidar de mãe. Rezo para que tenha uma boa recuperação, é o que posso fazer, sinceramente. Mãe Guiomar pecou ao me abandonar. Não a culpo por nada, já a perdoei. Mas numa situação dessa devo privilegiar quem me educou, amou e me acarinhou nos momentos mais difíceis. Meu sonho é voltar a trabalhar, ter a minha independência. Meu avô tem posses, dá uma mesada boa para mim, mas não posso depender disso, não quero. A independência é o meu lema. Espero vó melhorar um pouco para poder trabalhar. Essa é minha liberdade última. Quero me jogar no horizonte de possibilidades, mas só e quando vó melhorar.

  • Gerô

    E foi quase tropeçando em sua própria cabeça que Gerô desceu a Brigadeiro no fim da madrugada. Um ruído insistente ecoando dentro do ouvido, devia ser o tapão do Negrão, a mão aberta e áspera encaixada em todo o lado direito da sua cabeça, o ouvido no meio. Parecia que o cérebro ia voar pelo outro lado.

    Ele sentou na calçada por um instante ali perto da saída pra Radial e olhou de volta para o alto da avenida. Se ainda tivesse pernas ele voltaria lá, com alguma coisa nas mãos pra dar um fim na rapaziada. Mas calculou que o dia ia nascer dali há pouco, já havia até algum movimento de ônibus lá na direção do Largo São Francisco. Parecia conveniente e o sussurro em seu ouvido dizia outro nome, covardia. “O mundo não acaba hoje, amanhã talvez, pra mim e pra eles”, concluiu, apaziguando a consciência.

    Capengou até o beco paralelo à avenida. Silêncio completo nos casarões, sinais de fogueira, restos de lixo, alguns carros velhos enfileirados, um caminhão passou com uma buzinada longa saindo para a 23 de maio, parecia um aviso. Ele desceu para o porão. A porta do banheiro estava fechada, o que não fazia sentido já que metade dela estava arrebentada.

    Ele viu a bunda de Nádia encaixada no vaso sanitário, um cheiro ácido espalhava-se pelo quarto. O fio de fumaça de cigarro saía pelo vão, no alto da porta, ela gemia entre uma tragada e outra.

    Gerô sentou-se no colchão no chão e deixou o corpo cair, o rosto se alinhou com uma poça de água que vinha do canto da parede, o cheiro de bolor e roupas úmidas ia formando uma mistura que aguçava a revolta, havia alguma coisa errada naquilo tudo. Mas a vontade de dormir era maior, então esqueceu.

    Três descargas seguidas e Nádia saiu na porta. Estacada de pé, olhava Gerô querendo fechar os olhos. Estava nua. Puxou um último trago e jogou a bituca já no osso para o alto de um resto de escada, Gerô abriu e fechou pesadamente os olhos. Ela veio e se deitou ao seu lado, em silêncio.

    Chegou o barulho de uma porta de bar erguendo-se. Alguém com um sotaque do norte perguntou alguma coisa do outro lado das folhas de compensado que dividiam o porão. E repetiu em seguida, o mesmo sotaque e a mesma pergunta. Nádia avisou “Gerô dormiu”. Silêncio.

    Um caminhão passou pela rua estreita e chacoalhou a casa. Um pedaço do reboco do teto se soltou e caiu na poça, trazendo ondas até perto da boca de Gerô, que roncava pesado, a orelha do tapão em fogo. Nádia observou tudo por um instante.

    Logo o barulho de uma porta raspando o chão veio do canto da parede de madeira. O homem do sotaque balbuciou alguma coisa e a lâmpada amarelada às suas costas desenhava as dobras nos dois lados do pescoço. Nádia levantou-se. “Aproveita que ele tá dormindo, nem vai sentir”, disse ela, antes de enfiar-se num vestido florido e sair.

  • Turbulência

    Queria escrever um texto calmo que saísse de mim e pousasse languidamente na virtual folha de papel. Não sou assim! Meus textos são ansiosos, temem não alcançar a luz. Temem alcançar a luz. 

    Tenho muita inveja de quem consegue ruminar seus escritos, escolher para eles o melhor tempo e lugar; a melhor palavra. 

    Não sou assim. Meus textos são ansiosos! Vomitam verdades e mentiras com medo do arrependimento. Saem pela fresta da porta espremidos, em fuga, porque não podem mais habitar apenas em mim. Querem vozes outras, olhares díspares para não morrerem sufocados. Saem, porque precisam de ar! 

    Há paz quando na folha de papel. Descanso merecido da turbulência em mim. 

  • Poema #69: Tatuagem

    O corpo utilizado
    para a afirmação
    de uma individualidade,
    de resto inexistente.

    A individualidade,
    como um fantasma abstrato,
    esconde-se por detrás
    da porosa pele.

    A tatuagem utilizada
    para a identificação
    dos corpos, vítimas
    do desastre aéreo.

    Um Andarilho Dentro de Casa

  • A bituca na cerveja

    Zími usava uma camiseta com a caricatura de Donald com um grande alargador na orelha, numa alusão a um dos supostos atentados.

    Mila Cox escrevia uma letra sobre como alguém que supostamente criou o universo precisava de dez por cento do salário de um pobre infeliz de um país periférico. O processo de composição da dupla consistia em criticar o Estado, a Igreja e a família tradicional com letras diretas, em português ou inglês.

    Portanto, nunca sobrou tanto assunto como se tem hoje.

    A parte instrumental vinha depois e às vezes demorava para ser concluída.

    Eles usavam um teclado de brinquedo e ganharam um de verdade. 

    Iriam usá-lo, mas prometeram que caso Zími também ganhasse uma bateria de verdade, o duo Crop Circles se separaria.

    Ele poderia tocá-la depois em outro projeto musical, mas seriam irredutíveis quanto à dissolução.

    Mila Cox dizia que caso  isso acontecesse, faria a banda ser realmente descoberta.

    Vê-la ouvindo deliberadamente o Galaxie 500, dava a Zími uma alegria que depois ficava confusa com a estranheza da aparente obsessão que ela apresentava com os três primeiros discos do Elvis Costello, mesmo que ele também gostasse.

    Ela estava ouvindo também, por vezes seguidas, o Solid Gold, segundo disco do Gang of Four, fazendo parecer que vai roubar alguma coisa dali, enquanto escrevia sobre como a religião só existe para que os pobres não matem os ricos.

    Agora dividiam um apartamento no bairro da Liberdade e ambos estavam mais focados.

    Zími pegou o quarto da empregada e continuou pagando o mesmo valor que gastava em sua morada anterior, que era um quarto de pensão em que viveu por dois anos com o que ganhava como livreiro, depois de sair de um apartamento em que pagou adiantado os três primeiros meses de aluguel, e então não pagou nem mais um centavo, e ficou lá até ser despejado.

    Ela, que deixou a casa da família na Penha, inteirava o aluguel pagando um pouco mais com o que ganhava como copywriter, e ficava no quarto principal.

    A diferença de idade despertava a curiosidade dos outros moradores do prédio.

    Eram vistos como uma espécie de “Carpenters do Mal”, desde que a vizinhança descobriu que eram parceiros musicais.

    Essa alcunha era atribuída a eles pelas pessoas da vizinhança que ouviam gêneros popularescos tocados por semi-celebridades descartáveis que desaparecem rapidamente dos holofotes para logo ressurgirem com escândalos do mais baixo nível.

    Ela gostava tanto de Venom quanto de Hello Kitty. Também de X-Ray Spex e Mafalda.

    Ele lia Mad e Hermann Hesse, e sua vida parecia o resultado dessa fusão.

    Geravam muito mais curiosidade juntos do que individualmente.

    Ela queria entender como ele sobrevivia numa vida tão minimalista quanto relatava, quando se encontravam para ensaiar ou finalizar alguma música.

    Ele sabia que teria mais espaço e conforto do que no quarto da pensão em que vivia. Era quarto e banheiro, e isso bastava. Nunca pensou que deixaria de morar sozinho, pois até então considerava o estilo de vida ideal.

    Ela vivia com o pai e a mãe, onde cresceu alimentando uma ambição precoce pela música, e saiu dali sem brigar.

    A meta agora era de lançar um single a cada duas semanas até que as ideias se esgotassem, e aí sim seriam marcados novos shows.

    Quando tocam no interior, não é raro que durmam no carro de Cox, que tem toca-fitas e muitas fitas no porta-luvas.

     Ao lembrar dessas horas, um frio percorre a espinha de Zimi, que sempre reclama que não tem mais idade para isso, mas sabe que é necessário fazer. E sabe sobretudo que sempre vale a pena.

    Até mesmo as eventuais desventuras reais que vão muito além do Spinal Tap dessa trajetória são lembranças de momentos que não foram desperdiçados na zona de conforto.

    Zími sempre falou que, com quase cinquenta anos, nunca soube o que é realmente uma zona de conforto. A busca por ela passou a ser quase obsessiva, embora ele não saiba nem mesmo se isso de fato existe. Apenas ouvia falar e queria descobrir.

    Já MIla Cox alega que sua saída da casa dos pais vai muito além da necessidade de sair da zona de conforto.

    Agora que moravam juntos, eram vizinhos de andar de Silvano., professor de Geografia, fã de rock alternativo.

    Silvano frequentemente conseguia atestados para não ir trabalhar, particularmente por tendinite, e não raro tinha tempo e disposição para conversar com eles sobre música e assuntos da vizinhança. Era morador antigo do prédio, mas era reservado e pouco conversava com os outros vizinhos, de modo que pouco se sabia sobre ele na vizinhança.

    É mais conhecido como ‘o homem da jaqueta de couro’ pelos vizinhos.

    Mila Cox e Zími já tinham notado que Silvano tinha comportamento e hábitos de alguém que nasceu com dinheiro. Sua coleção de discos, por exemplo, só poderia pertencer a alguém que tem ou já teve dinheiro.

    Ele mostrou seu apartamento, que de tão abarrotado de Lp’s, compactos, cd’s , revistas e livros, permitis que apenas uma pessoa pudesse aproveitar aquele material com conforto.

    A imensa e belíssima poltrona de couro certamente era herdada, e com o banco na frente, ocupava boa parte do espaço que sobrava da sala pequena.

    Ele tinha várias edições antigas da revista Creem e Zími ficou embasbacado ao ver.

    Enlouqueceu ainda mais ao ser presenteado com um agasalho do Fênix, do Uruguai, que era o time de Silvano.

    Silvano contou que era uruguaio, mas antes que entrasse na escola, já vivia em São Paulo com os pais, também uruguaios. Era filho único.

    O pai morreu quando ele tinha dezenove anos e a mãe, quando ele tinha vinte e um.

    Viviam num apartamento caro no centro de São Paulo, que foi vendido quando Silvano ficou sozinho.

    Comprou então um apartamento menor, também no centro, e trabalhava como professor no Estado. Sabia que não havia grandeza onde não houvesse simplicidade. Guardou o que sobrou do dinheiro da venda do apartamento para envelhecer com dignidade.

    Tirou suas coisas dali e fez a mudança. Vendeu o que havia de seus pais no apartamento, exceto a poltrona, que pertencia ao pai.

    Tinha agora quarenta e três anos. Cinco a menos que Zími e vinte a mais que Mila Cox.

    Naquele dia, muito foi falado sobre o quanto o rock sempre foi marginalizado, censurado e boicotado no Brasil, o que impediu que o gênero atingisse mais popularidade.

    Silvano inclusive mencionou sobre a bizarrice da passeata contra a guitarra elétrica.  

    O vexame de ser artista e estar ali era similar ao de ser jogador de futebol e estar jogando na derrota por sete a um, no jogo que deu a maior alegria futebolística da vida de Zími. Ou ao persistente vexame popular de adotar cegamente um político de estimação e defendê-lo até o fim, ignorando os limites do ridículo.

    Mila Cox e Zími contaram a Silvano que se conheceram através de Sara Cox, tia de Mila, que cursou jornalismo com Zími trinta anos antes.

    Sara nunca vive numa residência por muito tempo, e há anos passava a maior parte do tempo no exterior, e comentava os shows que assistia.

    Ela dizia que para alguém poder ser chamado de artista, precisava ser desobediente e buscar o que não deveria ser buscado.  

    Antes de voltarem para casa, Mila Cox e Zími tramaram a publicidade da banda no Uruguai, para tentarem marcar shows e venderem merchandise.  

    Tudo no Chevette Jeans 79 de Mila Cox, mas dormindo em camas de hotel e tocando nos três estados brasileiros do Sul para financiar a viagem.

    Tudo em meio a uma crise energética e humanitária mundial.  

  • Overkill em copacabana

    Sol, pé na areia, água de coco, um domingo ensolarado. Entre o barulho do quebra-mar e a água que cai cantando, à la carioques, do chuveiro de um quiosque na Orla, Ludmila me cutuca do alto da caixa de som: “a vida é louca, mano, a vida é louca. Me perdi pelo caminho…” É fácil perder seu controle diante do mar de Copacabana. É fácil despir-se de roupas e da mente rotineiras, deixar o corpo à mostra, como um da gema — mesmo que o bronze se mostre, no fim do dia, rosé gold.

    Tantas coisas confluem nesta cidade, a começar pelas raças de cachorros: vira-latas com pêlos quase inexistentes e spitz alemães como o meu Zeca, confortavelmente estendidos sobre as cangas de seus tutores, debaixo de toldos na areia. Um boxer de coleira se aconchega nas minhas pernas e me diz:

    — relaxa escritora, tô na área e já rendendo conteúdo.

    (Sempre tem dessas aproximações dos cães. Zeca me faz mais falta ainda.) Crianças com suas bicicletas cor de chiclete, motocicletas estacionadas ao lado do chuveiro, tênis de areia, turistas, cerveja, havaianas — originais e afins —, coca-colas e pepsis — pode ser? —, todas as cores, todas as línguas, abençoadas pelos incansáveis e rijos braços do Redentor, que paira tranquilo acima das nuvens que, por ora, encobrem o grande maciço do Corcovado.

    Domingo é conhecido por ser o dia do descanso, mas acho que Copacabana funciona em uma fissura de tempo em que é sempre domingo na extensão do seu mar. Cessam instantaneamente quaisquer atividades de esforço que não ligadas ao lazer. É pausa líquida-à-milanesa. Ausentam-se as preocupações. Copacabana oferece Iemanjá para que recarreguemos nossas energias — e os ecos da Shakira que agora tomam conta do som ambiente.

    Oh, boy, I can see your body moving (…)
    This is perfection!

    Os orixás são ondas energéticas, independente da orientação religiosa do mar de gente em suas areias.

    Viajar para Copacabana não deveria ter um motivo, qualquer que fosse. É pedido da alma, é necessidade humana. Eu, que já fui cidadã copacabanense, me encontro no limiar entre a felicidade de quem está e a tristeza nostálgica de quem parte. Estou a escrever, separada pela primeira vez da minha amiga desde que chegamos. Viemos para ver uma das bandas mais significativas da minha vida; eu, que não sou dos shows, ela, que topa até os que não curte tanto assim.

    Um show direto da Austrália. Banda repaginada que mantém, desde os anos 80, o vocalista com exatamente o mesmo timbre de voz. De Nova Friburgo para a Austrália existe o Rio de Janeiro: bebidinhas, Bukowski, Clube dos Macacos, Sol, Botafogo, pizza, hambúrguer da madruga, Jardim Botânico, trânsito no alto da floresta, Copacabana, risoto express e o antigo Metropolitan. Um passeio de amigas, uma we-moon, como descobri no caminho, e o show do Men at Work — banda originalmente de men que agora traz mulheres performáticas com a boca no trompete, dessas que literalmente roubam a cena, vestindo camisetas triviais do Brasil compradas no calçadão de Copacabana.

    Um show que me pôs com pé torcido sobre botas over knee de salto agulha. Os mesmos saltos que, acompanhados de saltos quadrados e mais baixos, cruzaram o corredor do shopping com o caminhar de um dos guitarristas da banda. Nós três trocando olhares, descrentes de que era ele mesmo, ali como um cidadão comum — e nós, fãs que não pediram fotos nem autógrafos.

    É indescritível como o show de uma banda especial vibra diferente em nosso coração. A felicidade de juntar a própria voz à multidão 35+ de pé num sábado à noite, erguer celulares em mil registros, sorrir para desconhecidos e pular é quase como caminhar molhando os pés na faixa entre o fim da areia seca e a rebentação do mar. São esses momentos em que temos certeza de que estamos vivos. Em que reconhecemos que estamos presentes. E, como consequência, criamos memórias.

    Minha primeira we-moon está no fim e já se tornou uma dessas memórias eternas. Uma lua de mel entre amigas, nova tendência desse nosso mundo contemporâneo, em que não se espera um casamento para se comemorar a vida com viagens. E como nos esbaldamos! Ela, que é do rock; eu, mais do samba — fomos em ambos. Ela quer dormir; eu prefiro não. Também ficamos equilibradas aqui. Cervejas para mim, drinks para ela, café para as duas. Muita água, mercado, pizza; amigos reencontrados e apresentados. Karaokê com direito a sermos convidadas a tomar o microfone e fechar a noite. A nova amiga que também é fã do Men at Work — e a que procuramos no final do show para um abraço de felicidade. Piscina do hotel, o protetor solar que eu insisti e ela não quis tanto; marquinhas de turista, sorvete do Copacabana Palace, um mate limão do ambulante. Enquanto termino essas linhas, já pensando em uma próxima we-moon, ela encontra uma grande amiga com seu filho recém-nascido. Meu coco está no fim. A Shakira já saiu e toca, pasmem, Overkill pelos amplificadores do quiosque. Vou pedir para cortarem meu coco, comer sua carne, respirar um pouco mais desse ar tão domingo e caminhar pela areia.

    “Alone between the sheets
    Only brings exasperation
    It’s time to walk the streets
    Smell the desperation
    At least there’s pretty lights”

  • Não fale com estranhos

    Natália percebeu a ausência logo ao acordar.
    Não soube dizer exatamente o que faltava — apenas sentiu o vazio.

    O quarto estava igual: a veneziana semicerrada, a luz da rua filtrando pelos galhos da árvore, desenhando sombras no teto, o ventilador rodando preguiçoso.

    Mesmo assim, algo tinha desaparecido.

    Sentou-se na cama, ainda confusa. Durante anos acordara com aquela presença discreta ao lado: um companheiro silencioso que cochichava cautelas, lembrava perigos, puxava-a pelo braço antes de decisões precipitadas.

    Agora o quarto estava vazio.
    — Estranho — murmurou.

    Levantou-se devagar, como quem testa o chão de uma casa onde algo mudou.Ao sair de casa, Natália levou a mão ao bolso para conferir a carteira.

    Parou no meio do gesto. Dessa vez não conferiu.

    Era curioso: sempre conferia duas vezes — às vezes três — como se ouvisse aquela voz, advertindo que ela poderia ter sido roubada entre a porta e o portão.

    Só ouviu o burburinho das pessoas indo em direção ao ponto de ônibus.

    Como sempre, a condução estava lotada.
    Ao seu lado alguém fez um comentário inconveniente.
    Normalmente ela ficaria em silêncio.
    Dessa vez responde.
    E nada acontece.

    O telefone vibra, com a mensagem do chefe – sem aviso prévio, ele tinha mudado seu compromisso da manhã para outro endereço.

    Respondeu de pronto com um emoji de indignação — e nem ouviu aquela voz costumeira: jamais responda ao chefe.

    Cada vez mais intrigada com a ausência de seu companheiro, Natália pediu uma informação na rua, pois não conhecia o caminho para esse novo compromisso.

    Durante anos a voz teria dito:
    não fale com estranhos.

    Mas o homem apenas ajuda.

    Algo simples como:
    — A estação fica duas quadras para lá.
    Nada ameaçador.

    No fim do dia, no caminho de volta para casa, Natália percebeu que estava diante da rua que sempre evitara.

    Durante anos aquela voz repetira a mesma coisa:
    — Não passe por aí.
    — É perigoso.
    Mas a voz continuava em silêncio.

    Então atravessa.
    E encontra apenas:

    – Uma padaria
    – crianças brincando
    – um senhor regando plantas

    Já em casa, sobe as escadas saltando de dois em dois os degraus, como fazia quando criança. O quarto estava igual: a veneziana semicerrada, o ventilador rodando preguiçoso no teto, à sua espera.

    Mas algo havia mudado. Pela veneziana entrava um raio de sol que iluminava o seu lado na cama. No teto, a sombra dos galhos dançava devagar.

    Natália sorriu.

    Algumas sombras existem.
    Outras a gente inventa.

  • Lisboa revisitada

    Em Lisboa aparentemente há mais igrejas do que fiéis porque algumas deixaram de ser usadas para fins religiosos. Não é um fenômeno português, pelo mundo há vários casos de igrejas que se transformaram em museus e casas. Foi assim com a Igreja de São Julião: transformou-se no Museu do Dinheiro.

    Cada vez que vou a Lisboa escolho visitar algum museu menos divulgado no circuito turístico. Há muitos. Alguns são boas surpresas, outros nem tanto, mas é sempre agradável explorar os cantos dessa cidade tão vibrante. O Museu do Dinheiro recomendo. Além do lindo prédio-igreja a coleção é impressionante e exposta de forma primorosa. De brinde, para quem gosta de arqueologia, no subsolo podem ser vistos restos de uma muralha do século XIII.

    O museu está em um local bem central, cheio de atrações e restaurantes. Tanto se pode almoçar no badalado Mercado da Ribeira como seguir na direção oposta e ir para a Praça do Comércio onde, entre inúmeras opções, está o Martinho da Arcada, restaurante de 1782 que diz ser o mais antigo de Portugal.

    Ainda no rol de atrações um pouco menos conhecidas, os admiradores de José Saramago podem ir à Casa dos Bicos, sede da Fundação Saramago. As cinzas do escritor foram depositadas na frente dessa casa, à sombra de uma oliveira centenária trazida de sua terra natal.

    É impossível visitar Portugal e escapar das sardinhas. Você deve ter notado as de cerâmica ornamentadas com os mais diversos motivos. As originais são da fábrica Vista Alegre e a decoração é do Estúdio Bordallo Pinheiro. Esse artista falecido em 1905 é pouco conhecido fora de Portugal e morou uns quatro anos no Brasil. Em Lisboa existe um museu dedicado a ele, coisa pequena, afastada do centro, só para fãs.

    Falamos de sardinhas, vamos falar de bacalhau. Também ele tem direito a um museu em Lisboa, mas é muito fraquinho. Melhor encontrá-lo cozido ou assado no Martinho da Arcada que fica quase ao lado.

  • ISABELLE DE JOUR

    Sou feia. Tenho 1,60 e peso 82 quilos. Um pouco gorda também. Prefiro me considerar robusta. Meu maior complexo, no entanto, são os pés: calço 40. As pessoas zombam de mim e dizem que não ando de sapatos, mas de skate. A altura, resolvo com saltos altos, e os pés enormes escondo no tênis. Se pudesse tomava banho e dormia com eles. A gordura só com regime, que toda vida tento começar e nunca vou adiante. Canetas emagrecedoras estão muito caras.

    Trabalho no caixa do supermercado Mundial – aquele do menor preço total. Nunca entendi esse preço total, haverá subpreços ou preços parciais? Sou muito questionadora.

    Já disse que sou feia, não? Pois é, tenho também espinhas na rosto. Nascem à vontade, sem que eu coma chocolate ou amendoim, que adoro.

    Meus pais são da Paraíba e eu vim para o Rio de Janeiro ainda menina. Tenho cabelos longos e cacheados que disfarçam minha cabeça grande. O nariz é meio adunco e meus olhos não têm nada de especiais. Ao menos não sou míope nem vesga. Só uso óculos escuros. Detesto claridade.

    Meu sonho era ser atriz de novela. Ninguém vai querer uma atriz feia e gorda, mas sou teimosa. Não sei se por obstinação ou masoquismo, à noite faço um curso de teatro. O professor vive me elogiando, que tenho futuro e coisa e tal. Claro, isso me anima e tento melhorar a aparência. As espinhas na cara posso camuflar com creme e uma boa base e evito roupas justas. Tanto quanto navegar, sonhar é preciso.

    Minha colega de caixa no Mundial era a Isabelle. A desgraçada era bonita que nem a peste. Combinava com seu nome, Isabelle, belle. Bem capaz do Alceu Valença ter escrito Belle de Jour, pensando numa Isabelle dessas.

    Não é que tivesse inveja. Na verdade, eu morria de inveja. Aquele rosto limpo, sorriso de dentifrício, olhos claros, Isabelle era um pitéu. Nem sei como foi que ela virou caixa de supermercado, podia ser o que
    quisesse.

    Franzina como uma tripa seca, a maldita ainda tinha peito grande. A boca nem precisava de batom. Uma afronta. Ao lado dela, eu, que já era feia e gorda, conseguia ficar pior.

    Já havia me pegado desejando matá-la. Confesso. No fundo, Isabelle era gente boa, porreta e não tinha culpa de sua beleza. Era até simpática. Se eu tivesse metade da beleza dela, seria um nojo.

    Nosso supervisor, um estrupício, vivia rondando a Isabelle, fazia tudo que ela queria. Se eu fosse homem também faria. Como já falei, nem sei por que ela trabalhava no Mundial.

    Um dia, ela faltou ao serviço. Não era comum. Passou uma semana e nada. Acabei sabendo que ela estava doente. Podia ser algo sério, pois já havia outra funcionária em seu lugar. Feia igual a mim, mas magra e alta.

    Fui informada pelo supervisor que a doença de Isabelle era grave. Câncer no seio. Cinco meses depois, me falaram que ela tinha falecido.

    A natureza pode ser cruel, mas em alguns casos é justa.

  • Desistências e permanências

    A sala de aula, em algum momento, ficará vazia. Quando isso ocorrer, morrerá um país…

    A história do professor no Brasil é feita de desistências e permanências cotidianas.

    Desistências que fazem parte do diário, do quadro e do boletim. Permanências que fazem parte do olhar, do sentir e do fazer…

    Desisto de ser professor toda vez que as planilhas e plataformas me dão mais retrabalho e acúmulo de coisas e mais cobranças, tirando mais o meu tempo e me distanciando do trabalho real.

    Permaneço como professor pela responsabilidade com os meus alunos que ainda querem alguma coisa, por ainda acreditar no impossível e, sim, para pagar as minhas contas.

    Desisto de ser professor toda vez que a frase de Darcy Ribeiro reverbera fazendo um sentido cru e verdadeiro: a crise da educação não é crise, é um projeto… Projeto de politicagens, de pessoas que não têm o menor interesse na educação.

    Permaneço como professor quando é possível ver o brilho nos olhos de alguns estudantes, nas perguntas, nos trabalhos, nos projetos, na curiosidade tão própria de quem é jovem.

    Desisto de ser professor toda vez que metas absurdas são impostas e ignoram a realidade de cada escola. Os tecnocratas sempre se esquecem, propositadamente ou não, do chamado chão da escola, das complexidades e singularidades de cada lugar.

    Permaneço como professor como uma voz no deserto. Ensinando, corrigindo, explicando, ouvindo e fazendo o que precisa ser feito. Alguém tem que fazer.

    Desisto de ser professor quando, a cada ano, as salas ficam mais e mais superlotadas, o salário sempre defasado, as múltiplas e intermináveis tarefas e atividades sem sentido e a inclusão de fachada que só coloca mais trabalho e mais burocracia nos ombros do professor.

    Depois de tantos e tantos anos, enganos e desenganos da profissão, eu desisto pelo prazo de validade inerente ao tempo. Mas não é só a validade! Todos os problemas vão para a escola! A escola se transformou em hospital, delegacia, território inóspito, depósito de gente… A distância entre o mundo virtual e descaracterizado e o mundo real e suas desigualdades é cada vez maior. E essa distância tem afetado a escola de maneira brutal.

    Depois de tantos e tantos anos, projetos e planos, permaneço porque permanecer é resistir e lutar. Resistir contra um sistema que joga contra o tempo inteiro. Lutar porque é da natureza de quem vive.

    Luta-se por amor, por crer, por ser, simplesmente.

    Isso ainda nos faz humanos. E ser humano é fator condicionante na profissão. Quando se perde a humanidade, já não há mais nada a fazer…

    Segundo estudos mais recentes sobre educação, haverá um apagão de professores para as próximas décadas. Desvalorização da carreira, baixos salários, violência e precariedade na infraestrutura criam o cenário do caos.

    Para completar o quadro, o desinteresse pela área aumentou consideravelmente, aliado ao alto índice de afastamentos por razões de saúde mental e o envelhecimento da categoria, ou seja, o que está por vir é catastrófico.

    Isso, por si só, é já uma tragédia, mas as tragédias brasileiras se acumulam com o número assustador de analfabetos funcionais, com a violência de todos os tipos e com os espaços educacionais servindo de para-raios.

    A culpa, de acordo com os entendidos de plantão, é sempre da escola.

    Entre desistências e permanências, o professor brasileiro vai se desfazendo, esvaziando-se de si mesmo pouco a pouco até entrar no modo automático e vislumbrar a aposentadoria…

    Entre desistências e permanências, o professor brasileiro inventa e se reinventa a todo tempo, atravessa rios e pontes, usa um pedaço de madeira como quadro, encoraja meninos e meninas a pensar nos vários cantões do país…

    Até quando?

  • Cuidado, Dotô!

    “É a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar” (Geraldo Vandré)

    Seu dotô, me desculpe invadir assim seu sossego. Não se avexe com meu aspecto franzino e meu jeito simplório, dotô. Não vou assaltar, nem pedir esmola, só levar uma prosinha. O assunto é breve mas muito sério.

    Vejo pela sua roupa e sua aparência que o senhor foi abençoado pelo destino. As coisas com que o senhor gasta num mês eu não tenho condições de comprar em 10 anos ralando duro. Não duvido que sua grana foi ganha honestamente. Mesmo assim, desculpe falar, ela vem da exploração. Pois deveria por justiça estar nas mãos de um número bem maior de pessoas. Ao não fazer nada a respeito dessa má distribuição, o senhor é cúmplice de um crime.

    Não alegue que não é culpa sua, dotô. Todos que vivem nesse país absurdamente desigual e lavam as mãos têm sim culpa no cartório. Mas nos mais ricos a culpa é muito maior. Não se trata de pedir um gesto de misericórdia em benefício dos menos afortunados. Os privilegiados que nem o senhor, dotô, têm OBRIGAÇÃO de fazer algo para mudar esse quadro de crueldade. Mas o que vejo é o oposto. Quanto mais abastado o sujeito se torna, mais pisa nos debaixo. Levar uma vida de ostentação e desperdício não é só uma atitude indecente. É um tapa na cara daqueles que suam para botar umas migalhas na mesa da família.

    Não falo da esmola no farol, da gorjeta pro entregador de pizza ou dos trocados para a instituição de caridade. Isso só serve para aplacar a dor na consciência mas não bota a mão na ferida das injustiças.

    Na boa, dotô: tem gente que ganha muito mais do que seria razoável pra um país miserável como o nosso. É grana demais! Não são só os donos de negócios, não. São aqueles engravatados, bacanas que tiveram uma educação de elite e conseguiram empregos que pagam bem. Também entram nesse saco políticos, juízes e esse punhado de gente que trabalha para o governo ganhando salários escorchantes mais auxílio-isso, auxílio-aquilo. Não aceitam abrir mão de um bocadinho de suas mordomias, mesmo sabendo que essa pequena fração daria para melhorar a vida de muitas famílias. É cada um por si e o resto que se lasque.

    O cara suga todo o sumo que consegue do país que lhe deu condições de prosperar mas não dá uma gotinha em troca. E ainda se recusa a enxergar a escandalosa realidade em volta.  Vive com sua prole em segurança numa ilha da fantasia, um condomínio de luxo protegido por cerca eletrificada, separado por grossos muros do inferno do país real, sem lei, sem emprego, onde as pessoas amedrontadas caminham por vielas imundas e mal iluminadas, sujeitas à ação da bandidagem.

    O senhor vai dizer que o cara trampou pesado pra chegar lá, não roubou e por isso merece o status que tem. Roubou sim! Pode não ter sacado o revólver. Seu crime pode não estar escrito nos códigos dos bambambans. Mas todo cara que goza uma vida de nababo e não mexe uma palha para minorar o sofrimento dos coitados, é um ladrão sacana. Não adianta se esconder por trás da carapuça de ‘homem de bem’.

    E ainda por cima elege os governantes safados que prometem manter tudo como está. Os que podem melhorar as condições, são tachados de ‘comunistas’. Não somos comunistas, dotô. Só queremos que todos tenham um mínimo para que possam levar comida à mesa e deem educação pros guris. O que o senhor chama de comunismo, eu chamo de dignidade.

    Eu não entendo de política, esquerda, direita… Só sei que direita a coisa não tá. E se tiver um Deus lá em cima ele vai estar de acordo comigo. Um Deus justo não vai querer que nenhum filho seu venha ao mundo em situação de desespero.

    Não aceito esse papo que todos têm as mesmas oportunidades e que quem tem talento, sobe na vida. Mentira! Concordo que tem uns poucos pés rapados que se deram bem e mudaram de lado. Tipo Neymar e outros jogadores, artistas populares, ganhadores de mega-sena, pastores pilantras, traficantes, golpistas. Gente que faturou uma grana preta em pouco tempo e agora se acham. Esses são os piores, não têm um pingo de solidariedade com os brothers. Promovem festanças de luxo, exibem carrões e roupas de grife e sentem orgulho em espezinhar os desvalidos que já foram um dia.

    Mas os que conseguiram quebrar a barreira e subir na vida, seja por que método for, são exceção. Um em um milhão. Já os que nasceram em berço de ouro, vão para as melhores escolas, com boas condições de vida e têm muito maior chance de se dar bem sem precisar contar com a sorte.

    Que porcaria de país estamos construindo em que meia dúzia vive em padrão gringo, enquanto os ferrados rastejam catando lixo? Tá tudo errado, dotô.

    Mas nada se faz impunemente. A paciência está se esgotando. Vejo os sinais. Escuto um burburinho crescente de gente reclamando nas periferias. Artistas sensíveis retratam esse inconformismo. Líderes da comunidade passam por cima dos políticos demagogos encorajando o povão a exigir seus direitos e começam a ser ouvidos. Nas escolas, professores esclarecidos ajudam a formar uma geração que entende que as coisas não precisam ser assim.

     Até quando, dotô, vocês acham que poderão impor essa exploração a uma imensa massa excluída, até aqui amansada pelos pastores charlatães, pelas mentiras da internet e pela repressão policial?

    Quem avisa, amigo é. Fique ligado, dotô, que o bicho vai pegar. A brutalidade dos brucutus e dos milicianos que humilham os mais pobres está próxima ao limite e a reação vai vir na mesma proporção.  Não se engane com essa aparente tranquilidade, dotô. Pode ser a calmaria que precede o tsunami. Essa lenda de que o brasileiro é conformado, tudo aceita, está mudando. O ódio nas redes sociais é incorporado pelo pacato cidadão e vai detonar no colo dos canalhas que o disseminam. É a lei do retorno.  Essa situação insustentável de injustiça está tornando esse país um barril de pólvora, prestes a explodir. E aqueles que não quiseram ontem dar os anéis, talvez tenham amanhã que entregar os dedos.

    Por isso, tome muito cuidado, dotô. A conta virá e não será barata.

    Recomendações à patroa.

  • Entre páginas e anos

    Desde pequena, sempre gostei de escrever frases soltas, inspiradas ao olhar uma cena comum do cotidiano ou ideias que surgiam assim, sem aviso. Meus cadernos de escola não tinham páginas vazias. Eu fazia meus diários ou anotações onde houvesse um espacinho limpo.

    Ao final do ano, meu tesouro era guardado. Tudo preenchido com minha letra de menina tímida na vida real, mas confiante nos pensamentos, nas dúvidas e nas certezas com que eu olhava o mundo. O estudo misturado aos devaneios.

    Quando adulta, já trabalhando, ao final de cada ano, os clientes nos presenteavam com agendas, sempre bonitas, variadas. Um presente esperado por mim, não pelo objeto em si, mas pelo uso que eu dava a ele.

    Eu folheava aquelas páginas organizadas, cheias de categorias que nunca foram do meu universo. Condomínio, CNH, passaporte, consórcio. Bastavam-me três ou quatro linhas. O restante ficava em branco, à espera de uma utilidade que não me pertencia.

    E assim, aquelas agendas viravam diários. No ano seguinte, eu começava outra, nova, como o próprio tempo que se abria diante de mim.

    Anos depois, ao folhear uma agenda antiga, às vezes eu não me reconhecia. O tempo e a idade são implacáveis. Aqueles sentimentos, ideias e planos já não tinham o mesmo peso. A vida é dinâmica, ainda mais aos vinte e poucos anos.

    Hoje, faço dessas lembranças um exercício de fim de ano, quase uma autoanálise. Escrevo contos, reminiscências, crônicas, muitas delas saudosistas. Liberei um lado meu que esteve por muito tempo guardado e passei a escrever também sobre o amor, sobre o desejo. E assim vou seguindo.

    Acredito que escrever é uma necessidade que nasce no coração. A mente apenas traduz. E então, escrevemos.

    Depois, lemos. Refletimos. Às vezes nos reconhecemos, às vezes não. Mas, naquele instante, aquilo foi verdadeiro.

    Se um texto desses se transforma em conto, em crônica, se desenha um sorriso ou arranca um suspiro de quem lê, então já cumpriu seu destino.

    E se um dia termina numa fogueira, como eu fazia, ou no descarte silencioso de papéis antigos, é porque cumpriu o seu papel.

    Literalmente.  

    🌷
  • A FUGA E A FESTA

    Pensa bem, Marcelo, você acha que vale a pena? Você pode se arrepender. Acabar com tudo assim, por uma bobagem. Você precisa concordar comigo que se trata de uma bobagem, poderia ter acontecido com qualquer um. Me dá a impressão de que está procurando uma desculpa. Você sente prazer em me ver implorando. Eu não me importo, eu me ajoelho se você quiser. É isso que você quer, Marcelo? Marcelo, olha pra mim, presta atenção, alguém como eu não se encontra em qualquer lugar. Lembra o dia em que a gente se conheceu? Você me pediu um cigarro, hein, você se lembra, Marcelo? Você tinha o que, uns vinte anos? Na época a gente ainda fazia coisas tolas como se envenenar aos poucos e ainda pagar por isso. Você ali sentado, no intervalo da aula de italiano… Você é tão italiano, essa pele branca, leitosa, macia, esses olhos amendoados, esse nariz grande. Não mudou nada, continua o mesmo tipo charmoso de sempre. Não precisa responder, isso, não fala nada, não estou te pressionando. Eu sei que você é bom, no íntimo você é bom. Só está meio perdido, não tá raciocinando direito. Uma pessoa com trinta anos ainda tem esse privilégio. Só que o tempo passa rápido… E o Bob, com quem vai ficar? Vocês são tão apegados. Ele não dorme enquanto você não chega. Ouve um barulhinho na porta, corre pra te receber. Não esquece que a casa é minha, e daqui você não leva ele de jeito nenhum. Pra falar a verdade, nem sei se você gosta dele tanto assim. Às vezes penso que você não tem a capacidade de amar ninguém. Nem o Bob nem a mim. Mas eu… Bob, cala a boca! A gente ainda tem tempo. Bob, merda! Cala a boca! Ainda podemos construir uma família de verdade. E aquelas visitas que a gente fez aos orfanatos? Alguns eram tão distantes, gastamos litros de gasolina. Nem o GPS conhecia aqueles lugares. Foi tudo inútil, perda de tempo? Diversão talvez? Passeio… Estávamos entediados, resolvemos pegar o carro e explorar locais desconhecidos. Foi isso, Marcelo? Aqueles dois irmãos gêmeos, não, não são gêmeos, mas são muito parecidos… Aqueles dois irmãos, nós gostamos tanto deles. O que eu digo pra eles? Chego lá e falo Pedro e João, ah sim, Antônio e Pedro, a família de vocês acabou, o Marcelo decidiu acabar com tudo. De repente, de uma hora pra outra. Puf! Sem explicação nem motivo. Não, Marcelo, aquelas crianças inocentes não merecem isso, você não pode fazer uma trapaça dessas com elas. E a Marlene? Ela já se acostumou com você, tem prazer em satisfazer seus caprichos. Os seus dois ovos de gema mole todo dia no café da manhã, a sua limonada suíça, o seu pudim de nata. A Marlene está na família há quarenta e cinco anos. Hoje posso afirmar: ela gosta mais de você, que ela conheceu outro dia, do que de mim. Acho que você não está preparado pra viver sozinho. Você não sabe se cuidar. As tarefas domésticas: lavar, passar, arrumar a casa, fazer comida… A não ser que… Marcelo, me diz, você já tem outra pessoa? Me fala a verdade, eu aguento, sou forte, mais forte do que você imagina. Não, não acredito nisso. Marlene, agora não, diz que não estou, hoje não tô pra ninguém, compreendeu? Nem pro Papa! Solta essa mala. Não vou deixar você sair. Marcelo, me escuta. Você vai se arrepender. Pensa na sua mãe. É, na sua mãe. Ela nos apoiou desde o início, a Iolanda me adora. A gente se entendeu logo de cara. Tivemos de enfrentar muitos obstáculos, mas sua mãe sempre esteve do nosso lado. Marceeeeelo, fecha essa porta. Marlene, me ajuda aqui, segura o Marcelo, pelo amor de Deus. Marlene, chama o Jair. Manda ele vir aqui. Que limpando piscina, mulher… É urgente! Manda o Jair furar os pneus do carro do Marcelo. Jair, não deixa o Marcelo ir embora! Marlene, o Marcelo tá fugindo… Socorro! Polícia… Alguém me acode! Ai, meu Deus!


    Três meses depois da partida de Marcelo, Renata já estava refeita. Seu aniversário seria dali a duas semanas, e os preparativos para a comemoração seguiam em ritmo veloz. Sim, ela fazia questão de festa. Afinal, não é todo dia que alguém completa 70 anos de idade.

  • O derradeiro encontro

    A manhã começou triste para ele. Era o dia em que finalmente se encontraria com ela. Não seria um compromisso qualquer nem trivial, até porque demorara um pouco para conseguir marcar a data. A moça se mostrara relutante em ceder ao seu pedido até que pela constante insistência dele sua resistência foi vencida.

    Este seria um dia diferente dos outros. Um dia marcante em sua vida porque finalmente teria a conversa pedida por ele há muito tempo e adiada por ela sem qualquer explicação. Ainda deitado em sua cama suspirou olhando o teto ante a perspectiva daquela conversa. Não tinha certeza de como se desenrolaria o encontro mas acreditava que provavelmente selaria a vida dos dois em definitivo. A partir de hoje seguiriam a vida juntos ou se tornariam dois seres espalhados em outras direções.

    Sentou-se na cama. Sentiu um peso enorme no estômago e os olhos quase se encheram de lágrimas. Respirou fundo, fez uma expressão séria para si mesmo e disse: é melhor resolver de uma vez porque a indefinição estraga a vida. Espantou o choro e se concentrou. Hora de levantar e enfrentar a vida e o que tiver de ser, será.

    Há semanas, melhor dizendo, já quase quatro meses, que a eloquente convivência deles se transformara em silêncio. Um silêncio frio que abria em sua imaginação as portas para as piores suposições. Ele sabia que não havia nada mais intenso que o silêncio do desencontro. Não falar era um dos momentos mais mortais em uma relação com problemas. E ai estava o primeiro deles: não fazia ideia porque ela se calara da noite para o dia. Qual seria afinal o problema que motivara ela a privar os seus ouvidos das palavras dela?

    Imaginava qual motivo o havia condenado ao mutismo gélido dela mas não chegava a nenhuma conclusão. Qual gesto? Qual palavra? O que provocara o silêncio dela? Ele pedira mais de uma vez para escutar dela palavras que fizessem sentido e que o ajudassem a entender a situação. Mas elas não vieram. Nem ela nem suas palavras. Até o dia de hoje, quando finalmente ela falaria com ele.

    Saiu da cama e foi ao banheiro. Sua cabeça não parava de pensar em sua situação. Todo desconforto, aflição e tristeza que passara nos últimos meses por conta desse misterioso silêncio dela. Tentara levar a vida normalmente mas foi impossível. Pensava nela em um dia e no outro também. Conseguia disfarçar bem perante os amigos e no trabalho mas por dentro se remoía.

    Ninguém fica imune a essa eloquência silenciosa e logo a ansiedade nascida da distância imposta por ela se transformou em angústia. Reuniu forças não sabia de onde e ao invés de transbordar em perguntas preferiu ser cauteloso. Ao longo desse tempo gelado questionou somente duas vezes a atitude dela. Usou palavras cuidadosamente escolhidas para não piorar a situação. Formulou perguntas envoltas na mais fina cortesia, temperadas por afeto mas que traziam em si toda sua ansiedade nascida da incerteza do tratamento que estava recebendo dela.

    As vezes se perguntava, por que logo ela o tratava daquela forma? Por que tanto descaso com ele? Onde se metera toda paixão que ela disse ter por ele? Era seu amor mais profundo e sincero e sempre deixara claro isso. Até antes do dia fatídico, um domingo para sempre nublado em sua lembrança, tudo entre eles eram amores. Mas sem excessos. Sabiam como temperar o amor, evitando as melosidades. Fantasiavam juntos, conviviam, chegavam ao ponto de por pura diversão compor prosa poética no ar: cada um dizia uma frase que completasse a do outro. Todo dia trocavam algo bonito e amoroso, falavam dos respectivos cotidianos e se apoiavam mutuamente.

    Por isso o choque com a atitude repentina dela. Sem aviso, sem alguma briga ou desentendimento preliminar. No sábado, era amorzinho. No domingo, nada. Difícil de acreditar mas era o que ela tinha feito com ele.

    Uns poucos dias depois ele decidiu tocar no assunto dizendo que ela havia se afastado dele. Impressionantemente ela negou o óbvio, falando coisas vagas e sem sentido ou conexão com o que ele questionara. Ele ficou perplexo e sem reação. Era algo inédito, estranho à proximidade e intimidade deles não admitir algo tão cristalino. A conversa não evoluiu, trocaram poucas palavras uns tons pouco acima do vazio do silêncio. Ficou sem chão e sem coragem para questiona-la. E fim.

    Dali em diante sua vida nunca mais foi a mesma. A poesia que eles tinham em comum mudou-se para bem longe e cedeu lugar a aridez das frases rasas, comuns e distantes. Clichês em cima de clichês na tentativa de manter alguma proximidade e preencher o vazio do silêncio. Esforço inútil. Aos poucos até o repertório de superficialidades foi se esgotando. Em pouco mais de duas semanas cessaram as mensagens de parte a parte. E nasceu a agonia nele.

    No meio do caminho, uma data de comemoração íntima, a memória de uma viagem juntos, a primeira deles. Achou que poderia ser o momento de uma retomada no tom amoroso das conversas. Quem sabe esse mutismo, essa frieza, não teria sido um período curto de reflexão dela? Não queria ser invasivo e se manteve respeitador, apesar da ansiedade enorme que corroía seus pensamentos.

    Ledo engano. A data amorosa veio e foi embora sem nada mudar. Ouviu dela somente frases-feitas, bobagens açucaradas e superficiais e se despediram no mesmo tom e forma que fazem os amigos e pronto. Tudo permaneceu frio para quem esteve acostumado ao calor daquele coração bem conhecido e amoroso.

    Suspirou sozinho em casa rememorando sua triste trajetória de afastamento. A lembrança veio forte e aproveitou que estava longe das vistas dela e chorou baixinho de profunda tristeza.

  • A metafísica do corpo

    Não tenho papas na língua, falo palavras gordas de ouro ou bosta. Não quero brumas, essência incognoscível. Qual é a verdade? Quem sou eu? Que Deus, que sonho me move? Falo do que posso, a minha história é clara e suja como os olhos do homem. Vi claramente o mundo dos mortos. Voltei molhado do limo primitivo, trouxe a baba da inocência nos dentes. Derramei o meu sangue sujo no mundo dos mortos.

    Não tenho papas na língua, falo do sol e da noite como quem sabe e não sabe. Como quem não deve, falo da morte com as palavras que conheço. Como explicar o não dito? Como dizer o sempre visto no mito? Ah, é preciso arrancar a língua da boca velha. Furei os meus olhos para ver de novo. Para a tropa do trapo vazo a tripa, dizia Gregório de Matos e eu digo estou me cagando para essa merda toda.

    Isto é a metafísica da palavra. Uma cachopa de marimbondos no saco me fez homem aos sete anos de idade. Volto a ser esse homem: estar vivo é ser filho da vida natural. Isto é a metafísica do corpo. Arranquei a minha língua, arranquei os meus olhos, arranquei os meus colhões, sou o homem que volta a ser homem. Toda a metafísica está no veneno do escorpião. Tudo mais são imagens, quando o ser não é senão sob a máscara.

    A linguagem é pura e suja como a gordura de um porco frigindo. A palavra que não frege é morta. Eu vim dos campos da morte, eu posso me dizer da palavra morta. Como um sapo morto que faz chover. Eu sou o morto, eu estou chovendo. Eu tenho todo o sol do mundo no meu corpo e estou chovendo.

    Não tenho papas na língua, falo palavras espumando veneno verde. As panelas na cozinha, as verrugas da vizinha, os colhões verdes do escorpião, tudo fervendo no corpo. O corpo é a metafísica do corpo.

  • Sem caminho

    Num dos seus poemas, Manuel Bandeira fala dos suicidas que se matam sem explicação. Esses são os que mais impressionam. Esconder o motivo pelo qual se chega ao “gesto extremo” aumenta-lhe o enigma e a dramaticidade. Talvez seja a atitude mais coerente, pois não há por que justificar um ato que se explica por si mesmo. Além disso, como acreditar nas razões dos suicidas? Até que ponto eles são capazes de avaliar com lucidez o seu ato? 

    Alguns deixam bilhetes ou cartas se desculpando (o que é curioso, pois se o suicida deve pedir desculpas a alguém é a ele próprio). Esses textos são no fundo um tardio pedido de ajuda ou uma forma de incriminação.

    Há os que se matam para ficar “mais vivos”. Foi o caso de Getúlio Vargas, que antes de atirar no coração deixou uma carta com a frase célebre: “Saio da vida para entrar na História”. Ele tinha consciência de como o seu papel na vida pública foi aos poucos se denegrindo. O único jeito de restabelecer a imagem era com um gesto que representasse um sacrifício extremo. E qual soaria melhor do que tirar a própria vida?

    O bilhete deixado por Flávio Migliaccio, que há alguns anos tirou a própria vida, não continha um pedido de desculpas. Tampouco valia como uma incriminação, pois ele se referia ao caos político do País e não acusava especificamente ninguém. Sua acusação se direcionava à humanidade, que “não tinha dado certo”.

    O curioso é que, quando alguém diz que não aguenta mais a humanidade, raramente está disposto a se subtrair ao convívio com os outros (o que seria a consequência lógica). Está na verdade clamando, ainda que inconscientemente, para ser resgatado pela humanidade que diz desprezar. Muitas vezes se usa o “desencanto com a humanidade” como um escudo, uma camada intelectual ou cínica que protege o sujeito da angústia mais crua e intransferível, que é o confronto com o próprio vazio. É muito mais fácil alguém dizer “o mundo é um lugar terrível” do que admitir que não encontra um sentido em si mesmo. Criticar a sociedade, a política ou a moralidade alheia é, muitas vezes, uma forma de evitar olhar para dentro de si.

    Albert Camus, em O Mito de Sísifo, coloca o suicídio como a única questão filosófica verdadeiramente séria. Para ele, o absurdo nasce do confronto entre o desejo humano de sentido e o silêncio irracional do mundo. A superação, segundo Camus, estaria não em fugir, mas em aceitar o absurdo e continuar “empurrando a pedra”.

    Concordo com que a humanidade “não vem se acertando” (e nada garante que ela um dia se acerte), mas não sei se há quem se mate por estar desencantado com ela. O desencanto – por decepção, dor ou cansaço – é sobretudo consigo mesmo. Dostoiévski, em “Crime e castigo”, escreve que para viver o homem precisa sentir que vai a algum lugar. O suicida é alguém que chega à dolorosa constatação de que não tem mais para onde ir. Ou porque não há mais caminho, ou porque, havendo, ele já não tem saúde ou disposição para percorrê-lo.

  • Poema #01: Espetáculo

    na calçada dos meus olhos
    você passa

    um palavrão alto
    sai
    na boca do beco
    da minha mente

    a ponta-metal do teu salto
    arrebenta
    o meu tímpano-peito
    num som estridente

    e no meio do palco
    perco todo o sentido
    feito fã cego idolatrando artista
    em seu show ao vivo

  • A vida dos outros

    Quando Januária, a empregada, entrou na sala e anunciou que a comida estava na mesa, ele, o vizinho do prédio em frente ao nosso, continuava na mesma posição e nada tinha mudado desde a manhã: só de cueca, sentado numa cadeira frente a um grande espelho, a arma apontada para o lado direito da cabeça. Não se decidia. Às vezes depositava a arma sobre a escrivaninha e dava passos nervosos na sala, a cabeça entre as mãos. Em seguida sentava-se novamente, olhava-se no espelho e apontava a arma mais uma vez para a têmpora direita. Passou assim a tarde toda, foi o que disseram meu pai e minha mãe quando voltei do trabalho e os guardei espiando a vida alheia.

    Atrás da cortina semicerrada da sala de jantar, meu pai disputava com minha mãe o melhor ângulo para observar a cena. Ela dizia que sim, que era uma questão de minutos e logo se ouviria o disparo e a polícia não tardaria a chegar. Ele apostava que não, aquele homem não teria coragem para ir até o fim.

    Depois de muitas horas de espera e, vendo que o vizinho não dava sinais de que iria resolver a questão de uma vez por todas, fecharam a cortina e foram jantar. Venha, Aparício, enquanto a comida está quente. Comida fria é um horror, disse minha mãe. Eu já tinha jantado e, à falta de algo mais interessante para fazer, liguei a televisão para ver a telenovela.

  • Duas eternidades de escuridão

    O mais belo dos arcanjos mostrou o risco da valorização da beleza, ao se tornar um ser que insistiu com a ideia do eu, em detrimento de nós, desenvolvendo a vaidade pela primeira vez. O nome dele é Lúcifer. Ao se olhar no espelho, se achou bonito, e como portador da Luz, se achou mais bonito que os outros. Sentindo-se individuado chegando ao ponto de dizer eu, quebrou o ritmo da criação, que havia sido concebida como nós. Porque todos seres criados eram nós, e esse demônio se achou melhor que os outros, e se tornou tão pesado, que caiu, segundo uma tradição, no golfo de Nápoles. Ele entrou em combate com dois terços dos anjos restantes, liderados pelo anjo Miguel, que vem do ebraico Micha’el, que significa, “aquele que é similar a Deus”. E o demônio caiu no inferno, vencido por Miguel, e de lá disse ao seu auxiliar:

    — Prefiro ser Senhor do Inferno a ser escravo do céu.

    A partir desse pecado de Lúcifer, surge a vaidade universal. E essa mudança de pensamento lembra aquele soldado Russo artilheiro, que retornou da guerra do Afeganistão nos anos 1980, cuja narrativa está escrita no livro “Os meninos de Zinco” de Svetlana Aleksiévitch: 

    — Aquela pessoa que você amava, se foi. Sou outro. Eu sou outro. Mesmo assim, eu gosto daquele homem de antes… Sinto saudade dele… Lembro dele…. Mas agora sou outro. 

    É claro que esse guerreiro mudou sua mente por causa de sua imensa ruína interior vivida no pós guerra, muito diferente da batalha vaidosa de Lúcifer.

    Olhar o sofrimento do outro é imaginar essa dor segundo nossos valores e referenciais. Enfrentar uma limitação quando somos adultos, é olhar a ameaça de não poder mais experimentar todos os prazeres vividos até então. Seria possível viver privado dos prazeres alimentados pela vaidade? Não seria melhor morrer? 

    O escritor japonês, Kenzaburo Oe pensou nisso, quando teve um filho que nasceu com má formação cerebral. Quis rejeitá-lo, mas após muitas cirurgias o menino Hikari, que significa “Luz”, passou a sofrer de epilepsia e vive num mundo silencioso. Durante anos ouvindo música clássica, Hikari aprendeu tocar piano sozinho, tornando-se rapidamente em best-seller da música.

    Nesse limiar do fio de nylon, afiado e transparente está nossa jornada desde a infância, por vezes acolhida e recebida à uma linda caminhada. Como escreveu Vladimir Nabokov, “Nossa existência não é mais do que um curto-circuito de luz entre duas eternidades de escuridão”.

    Alguns desabrocham talentosos tardiamente, e acabam por sofrer a falta de uma ajuda peculiar, que poderia ter servido de berço, a esse indivíduo esperançoso. Você não quer estar sozinho nesse meio, por isso avance em suas proposições e viagens emocionantes, outros aguardam por indivíduos inspiradores e que façam brilhar suas próprias caminhadas lentas e sem sentido. Andar em círculos atrás de sua própria sombra, não dá eco, se o resultado de seus esforços não aparecer a seus olhos, deixe ir, leve para além de você o que não vingou, assim não corre o risco de sentir saudades.

  • Mabel

    Tenho certeza de que Mabel se esqueceu de mim. Já são muitos anos sem a ver, pelo menos. Fizeram com que se esquecesse, decerto. Eu fui bem quisto na sua família, mas depois passei a ser persona non grata – e o verdadeiro motivo não sei. O momento da ruptura foi abrupto, desproporcional. Meu pai havia falecido há dois meses. Isso foi em meados de 2011. E a namorada não teve a hombridade de estar comigo. Foi um deus nos acuda, com brigas e confusões – para quem gosta de paz, é o inferno. Enfim, isso não vem ao caso. Foi um mal-estar que passou, rasante, na minha vida – arrancando pedaços, é certo –, como tantos com que tive de me virar após a morte de meu pai, meu guerreiro, meu melhor amigo. Deixa eu recontar essa história, porque me vem em momentos de grande saudade: Mabel era apenas uma menina de quase dois anos quando a conheci, por intermédio do namoro que tive com sua mãe. Também fui amigo de seu pai biológico, que me contou quando a então namorada estava grávida, ambos com dezesseis anos, por aí. A pequena nasceu, e a vi, linda e sorridente. Com a aproximação, houve a paquera e o namoro com a sua mãe, que, logicamente, estava livre e desimpedida. Com o tempo, o amor por Mabel foi crescendo, a amizade recíproca e todo o carinho que uma criança merece ter. Me doei. Depois, me doeu por muitos anos a distância. Isso já faz uns bons quinze anos, depois do término do namoro de dez anos que tive com a sua mãe. Rafael, nosso amigo em comum, relata que ela está uma moça linda, talentosa, na área do marketing, e que pretende em breve se casar. Tomei um susto quando soube que já queria se casar. Hoje ela está com vinte e um anos. Acho novinha ainda, tem muito para viver, mas entrego a Deus, que a guarde com um marido bom, porque ela é uma menina boa, merece todo o amor do mundo. Naquela época, ela me chamava de papai dois, porque tinha o avô como pai – este, superpresente. Eu a tratava como filha. Com a separação, me mantive distante, quieto, não quis interferir na sua vida. A família podia não gostar. De fato, não tinha nada a ver, porque não era o seu pai. O pai biológico havia se mudado cedo para a Austrália, logo quando a menina tinha uns dois anos, e de lá não se tinha notícia. Parece que hoje mora no Brasil, mas em outro Estado. Sobre isso, porém, não vale a pena falar. São os estorvos que nos atravessaram. O que é que se pode fazer?! O que queria dizer era que tenho uma saudade danada da pequena Mabel, do tempo em que fomos crianças. Brincávamos juntos, de boneca, de parquinho. Ela que ditava a regra. E hoje não vejo a hora de a reconhecer, abraçá-la e dizer que tudo passou e que podemos recomeçar, se não como pai e filha, mas como grandes amigos.

  • A bolita, o conflito e o mundial vendido pelo Guarany de Bagé

    Fora da província, poucos conhecem a história. Nos jornais soltam abobrinhas, cogitam motivações econômicas e até levantam causos das antigas sociedades secretas que, segundo eles, ainda dominam o mundo. Na verdade, não é bem assim. As coisas são mais simples do que parecem. Os noticiários inventam essas bobagens para atiçar a curiosidade do povo, para vender assinaturas e para cobrar cada vez mais caro pelos espaços reservados aos anunciantes. No fim das contas, não deixa de ser uma questão de dinheiro, com pouca ou nenhuma relação com os fatos e com a verdade.

    Aqui, no entanto, essa história de conflito entre Estados Unidos e Rússia não pega ninguém desprevenido. Para alguns, pode ser novidade, mas é preciso esclarecer: a verdadeira nacionalidade de Donald Trump é argentina. O seu pai vinha pescar no rio Uruguai, era um açougueiro conhecido e, por aqui, chamado de velho Trapo. Ninguém entendia bem aquele sobrenome, estavam mais acostumados com os López, os González e os Fernández.

    Vez ou outra, o velho Trump vinha com um amigo, um tal de Milei, avô do atual presidente. Esse sim, um baita encrenqueiro. Quando Milei aparecia, era difícil retornarem à Argentina sem um quebra-pau ou um tiroteio. Pegou mal também para Trump, claro. Naquela época, até o açougue começou a definhar. De fato, maus ventos vêm com maus amigos. O problema só terminou quando o próprio Erico Veríssimo interviu. Todo diplomata, chamou o velho Trapo para uma conversa e explicou a situação: — Pois então, nada contra você, sabe como é, mas o seu amigo ali é meio difícil, daqui a pouco vai acontecer uma tragédia, somos um povo pacífico… —. Isso foi em fevereiro de 62, pouco antes do velho Trump vender o açougue em Tapebicuá e partir de mala e cuia, sem contar nada a ninguém.

    O ano de 1962, aliás, foi mágico para o esporte gaúcho. Poucos comentam, é verdade, mas o antigo continental teve nas semifinais: Ypiranga de Erechim contra o Club Atlético Peñarol, e Guarany de Bagé contra o Racing Club. Dos quatro jogos, contando ida e volta, foram registradas apenas oito confusões, duas brigas de faca e um morto por bala perdida. Era um torcedor do Internacional. A final foi entre Ypiranga e Guarany, em jogo único, marcado em campo neutro, no estádio do Esporte Clube 24 de Maio, em Itaqui.

    A mobilização foi enorme. Veio gente da Argentina, do Uruguai e do Rio Grande todo. Conta-se, inclusive, que uma caravana partiu diretamente de Assunção, no Paraguai, mas foi interceptada pela polícia e não concluiu o trajeto porque no ônibus havia mais peso em cocaína do que em seres humanos. O Guarany de Bagé tinha contratado um famoso ponta-direita uruguaio e por isso, muitos dos seus conterrâneos apareceram, inclusive o olheiro da seleção, Armândio Putin.

    Foi lá, durante a final do continental, num terreno baldio, ao lado do bar, que o filho de Putin ganhou do filho de Trump num jogo de bolita. Trump-filho, uma criança mimada e problemática, não aceitou a derrota. Putin-filho zombou fervorosamente do adversário. E o Guarany de Bagé se sagrou campeão com um gol do uruguaio Ghiggia. Quem capturou a história foi Paulo Santana, um jovem estagiário do Jornal Zero Hora, que bebia um refrigerante no bar enquanto as crianças brincavam. Dois dias depois, publicou um pequeno texto sobre o jogo, enaltecendo o Guarany e lembrando da breve e engraçada confusão gerada por uma partida de bolita. A reportagem teve o título: “Entre bolas e bolitas: Guarany de Bagé é campeão do continental”.

    Logo depois, Ghiggia se tornou um astro do futebol uruguaio, o olheiro Putin foi recrutado pela seleção da União Soviética, o açougueiro Trump se mudou para a América e o Guarany de Bagé, como é sabido por essas bandas, vendeu o título mundial para o Real Madrid. O resto é história.

  • A grama do vizinho é artificial

    Donald está falando de Ovnis na mídia mainstream para desviar a atenção para coisas muito mais loucas. Quando Zími era criança, seu pai lhe mostrava um grupo de moradores de rua e dizia:

    “Você vai se juntar aos dingos se for irresponsável. Não estarei aqui para sempre, portanto, estude e trabalhe.”

    Mas Zími sabia que no apego de um homem por sua vida, há alguma coisa mais forte do que todas as misérias do mundo.

    Seu pai o estimava como aquele tipo que é jogado em lugares cercados por muros e cujo objetivo não é a cura e nem a recuperação, apenas o controle.

    Para Zími, quem precisava de cura era o rumo que a humanidade seguia, o qual não queria ser cúmplice, e isso foi mais do que provado sem que o pai tivesse clareza e longevidade para constatar, pois morreu sem se desfazer de suas convicções obtusas.

    Agora, à beira dos cinquenta anos e olhando em retrospecto, sem motivo para nostalgia ou arrependimentos, Zimi sentia um pouco de alegria quando cada dia terminava sem chateações importantes, insuficientes para estragar o momento noturno em que novamente avaliava a situação do mundo através das notícias fornecidas por fontes de geopolítica confiáveis.

    Havia para ele um certo prazer em comparar sua trajetória de até então com a média do resto das pessoas e saber que até ali havia dignidade em sua existência.

    Não era um prazer tão intenso, pois sabia que um dia morreria, e se não deixasse algum trabalho artístico autoral de qualidade, seria esquecido com facilidade rapidamente, como a esmagadora maioria das pessoas.

    Isso também pouco importava, desde que antes de morrer alcançasse sua paz individual.

    De qualquer forma, o problema está na possível agonia que antecede a morte, como alguma doença dolorosa, e não a morte em si.  

    Ela, em si, certamente traz algum tipo de descanso, independente do que aconteça depois.

    Muito se especula sobre o que vem depois, mas ninguém volta para contar.

    Sabendo que suas opiniões e sua ideologia não deveriam prevalecer sobre a face da Terra, a busca por essa paz se tornava uma prioridade de vida.

    Por muitos anos da sua juventude, dizia à sua mãe que jamais chegaria aos trinta anos.  

    Era um tempo em que tomava cuidado para não fazer ranger a tábua do corredor da casa durante a madrugada, para evitar que alguém acordasse para gralhar sobre o dever de estar dormindo naquele momento, como todos na casa, enquanto um tempo precioso da vida era desperdiçado.

    Quando era criança, nos anos setenta, suas professoras na escola estavam na faixa etária dos trinta anos e pareciam senhoras de meia idade, mas agora era possível ter cinquenta e ter alguma jovialidade sem parecer ridículo.

    Muito antes de ter contato com qualquer teoria ideológica mais definida, já tinha o desejo por um tipo de liberdade individual que não era possível no modo de vida regido pelo senso comum, e questionava o porquê de as pessoas gostarem de viver sob um patrulhamento coletivo que só as levava à uma vida castrada de sonhos e boas perspectivas.

    Havia inúmeras piadas internas entre os amigos sobre o verdadeiro nome de Zimi ser Chistopher McCohen Oliveira.

    As pesquisas na internet sobre seus homônimos geravam ainda mais piadas, a cada vez que eram feitas.

    Apesar de alguns amigos considerarem um nome expressivo foneticamente, a bebida às vezes tomava o lugar da consciência, e a zoeira virava quase um bullying, e a vingança de Zimi consistia geralmente em arrumar um jeito de lembrar que Deus não existe toda vez que os pais desses caras estivessem por perto, causando polêmicas entre aquelas famílias cristãs, mesmo que seus amigos também fossem ateus.

    Não havia qualquer parentesco de Zimi com qualquer pessoa famosa com o mesmo sobrenome.  

    Herdou do pai, um escocês pobre, apenas o sobrenome.  

    Zimi arriscou numa carreira musical tardiamente sabendo que provavelmente nunca ganharia dinheiro com ela, até porque seu desprezo pelo mainstream era visceral e ele acreditava que a arte era mais genuína se o artista tivesse que se manter com outros trabalhos.  

    Ele se imaginava artista solo, antes de entrar para a banda Crop Circles como baterista e cantando algumas das músicas, pois sabia que seria difícil encontrar alguém que compartilhasse de suas ideias de concepção musical.

    Preza poder fazer algumas viagens pelo interior para shows em praças e bares, e agora sente o peso de viajar na Belina 82 da contrabaixista Mila Cox, dormindo em sacos de dormir antes de pegar a estrada novamente, de volta para casa ou a caminho de algum outro show, feito muitas vezes apenas em troca de gasolina e cerveja.

    Dinheiro mesmo, só conseguiam com a venda de camisetas e cd’s.

    Gostavam de não serem classificados em nenhum gênero específico do rock .

    Mila Cox, quando questionada sobre o som, o descreve como ‘lúdico e psicodélico’.

    Ela era uma das poucas pessoas nascidas depois do ano 2000 com quem Zími conseguia lidar bem.

    Geralmente, por motivos diversos, a reprodução das músicas ao vivo não correspondia fielmente ao que apresentam nas gravações feitas em seu estúdio caseiro, que conta com poucos recursos além de um computador.

    Gostam de ressaltar que os Beatles em sua época tinham à disposição uma tecnologia bem inferior, mesmo sendo a melhor possível para o período.

    Ela, muito mais jovem, gostava de tocar com ele por causa de seu gosto musical irrepreensível e porque via em sua personalidade algo entre o orgulho e a sinceridade.  

    Quando não estavam fazendo música, ele não a procurava nem mesmo se estivesse desesperado, por qualquer que fosse o motivo.

    Desde criança, Zimi gostava de artistas estranhos que não apareciam na televisão ou não tocavam no rádio, e ficava intrigado sobre como essas pessoas viviam, sendo que para todos existem contas a pagar e compromissos sociais que são impossíveis de escapar.  

    Daí vinha a óbvia conclusão de que precisavam de outro trabalho para terem o que comer e onde morar, o que para ele, enobrecia o trabalho artístico.

    Apenas em segundo lugar vinha a admiração pela bizarrice de suas expressões artísticas.

    A primeira vez em que ficou chocado com uma apresentação de música ao vivo foi no meio dos anos oitenta, quando viu no Madame Satã, em meio a várias outras atrações, um sujeito de meia idade pelado que em lamúrias cantava impropérios pagãos e queimava uma bíblia, acompanhado de uma banda minimalista em que o baterista tocava de pé como Slim Jim Phantom e uma garota tocava teclado, e não havia baixista nem guitarrista.

    Alguns tabus de uma sociedade oprimida (artisticamente e também em setores fora da arte) caíram diante dele naquele momento, através de um tipo de expressão que até então ele só ouvira falar, e ainda assim, repudiada pelo ponto de vista do opressor, horrorizado com a existência desse tipo de manifestação imprópria ao horário comercial.

    Qualquer artista internacional que pudesse servir de referência naquele tempo, precisava de pelo menos uma mínima escalada no mainstream para que chegasse ao seu alcance no Brasil naquele tempo através de fitas cassete e não eram tão obscuros no cenário internacional quanto pareciam ser aqui.

    A verdade nunca é contada no horário comercial e o opressor, na melhor das hipóteses, é fã de velhos crooners canastrões de boates de cassino.

    Para esse tipo de situação, o rolo compressor da opinião pública se mantém inoperante.

    Falando em termos comportamentais, o espaço de tempo para que atitudes consideradas normais na época de sua adolescência (inclusive formas de racismo televisivo inimagináveis para os dias de hoje) se transformassem nas bizarrices que se tornaram para os dias atuais foi relativamente curto.  

    Nesse período, a qualidade humana, de um modo geral, não melhorou, mas as patrulhas ideológicas e comportamentais tomaram conta da existência social numa proporção inimaginável para tempos anteriores à internet.  

    Muitas dessas patrulhas agem a serviço do nada, capitaneadas por mentes doentias na frente de um computador e que desconhecem até mesmo uma razão decente para estar vivo.

    A limitação imposta pela ignorância os faz ter convicções rígidas.

    Ao mesmo tempo, olhar para o passado era para Zimi um exercício que passava longe de ser prazeroso.

    As patrulhas malignas já atuavam com os recursos que tinham antes, sem a mesma rapidez e propagação.

    Conseguiam roubar a brisa com muita eficiência.

    Toda a falta de planejamento para o futuro de que Zimi era acusado na juventude se justificam agora, com a possibilidade iminente de algum velho que não teve seus desejos políticos correspondidos apertar um botão e liquidar o planeta, o que desestimula qualquer sonho a longo prazo e salienta a necessidade de viver o agora, e caso haja algum futuro para a humanidade, ter algo digno para lembrar ao olhar para o passado. 

  • Poema #68: Sobrevivência no quarto

    I
    Tenho comigo
    milhões de cadáveres
    que apodrecem seus ossos
    já destituídos do ímpeto
    que movimenta os homens vivos
    para a conquista de algo.

    II
    Tenho comigo
    a inércia do corpo
    que aniquila o meu sonho
    já despojado da vida
    que antes impedia o plano
    de me alimentar desses ossos.

    III
    O que sou hoje é esta certeza
    de não ser senão em mim.
    O que sou hoje é este impulso
    em preservar o que já está desfeito.
    O que sou hoje é esta incapacidade
    de desempenhar papel no mundo.
    O que sou hoje é esta vontade
    de antecipar meu próprio fim.

    IV
    Trago comigo
    as sombras e o peso dos erros
    acumulados nos anos de solidão
    em que tentei construir algo
    que estava fora de meu alcance precário
    e mesmo que se acaso construído em silêncio
    não teria nenhum valor para os homens.

    V
    Trago comigo
    a síntese de um desprezo lógico
    por essa espécie miserável de animais
    que se arrasta numa fixidez sem sentido
    pensando que com suas obras erigidas no espaço
    poderão significar alguma coisa humana no tempo.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #01: Incondicional

    Entre tantas vozes
    Tantos abraços
    Entre tantos conselhos
    Em meio ao cansaço

    Quando sorrio
    Ou quando choro
    Se me surpreendo
    Ou me apavoro

    Se a alegria é tanta
    Ou a decepção é muita,
    Importa ter o teu colo, Mãe,
    Pra valer a pena continuar.

  • Inopinadamente, flores

    — para minha mãe, Lucia.

    Terra fria e emudecida. Inopinadamente, fibras rompem o ventre silencioso, como unhas recém-nascidas. Entre o solo e a grama, um ponto vibrante.

    De um botão, eclode uma cor; formas e aromas a batizam ‘flor’. Surgem os rótulos, retalhos únicos entre tantos iguais, infinitas espécies distintas. Todas, entretanto, flores. Do inesperado, brotam. Despontam singulares. Soam vida. Encantam.

    Por um breve, quase memorável período, flores são flores pré queda:

    — murcham.

    E assim abubam solos com próximas florações. Semeiam, na compacta existência, motivos para seguirmos, talos tensos, pétalas abertas em busca constante do sol.

    Botões como ovários: dilatam-se até romperem em humanidade.

    Das entranhas de todo data-base concebido, da terra revirada do jardim do vizinho, misturam-se memórias, adubo, formas e cores. Vidas.

    Da paciência surge a atenção,
    Da atenção brota o entusiasmo
    Deste, o encantamento

    Aplausos na praia do Arpoador; reverência.

    Ecoa a obra maior da natureza divina:

    MÃES

    Feliz dia a todas as cores que moldam e perfumam todas as existências.

    Bom domingo a todas vocês!

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