Crônicas Cariocas

  • O quase facínora

    O problema da indisciplina na escola estava sério, por isso o diretor convocou uma reunião dos professores com os pais dos alunos. Ultimamente houvera episódios graves – um deles envolvendo o professor Astrogildo (por sinal, um dos mais detestados da escola). Ele se dirigira a uma aluna e, diante da turma, dissera que ela não tinha futuro; era bagunceira demais para esperar coisa boa da vida. A menina saiu da classe chorando e foi para casa mais cedo.

    O pai dela agora estava ali, na primeira fila, encarando o professor com um ar bem pouco amigável.

    O diretor começou:

    — Bem senhores, há muitas coisas a discutir. Como sabem, a bagunça dos alunos chegou a um nível insuportável. Isso tem levado alguns professores a atitudes extremas… Vamos começar pelo caso de Beatriz (era esse o nome da garota).

    Astrogildo se sentiu intimado a começar. Com a calma que lhe era própria, explicou que a aluna estava muito rebelde naquele dia. Ria e incomodava as colegas. E o pior: ficava o tempo todo olhando o celular, embora…

    Sem esperar que ele terminasse, o pai de Beatriz tomou a palavra e desabafou:

    — Quando minha filha chegou em casa ainda com lágrimas nos olhos, não suportei o seu ar de humilhação. Ela tinha sido vítima de bullying (não havia outro nome) praticado pelo próprio professor!

    Fez uma breve pausa, olhando as pessoas em volta:

    — Vou dizer uma coisa que não pretendia confessar a ninguém.

    Naquele momento, pensei em matar o responsável pela agressão. Pensei, não.

    Decidi. Ia tirar a vida dele e me suicidar. Cheguei a ir à escola com uma faca embaixo da camisa e ficar de tocaia esperando que ele saísse.

    A sala o contemplava estarrecida. Astrogildo, entre sério e intrigado, acompanhava o desenrolar da história. Leopoldo continuou:

    — Fiquei escondido num arbusto até que vi ele se aproximar. Apertei o cabo da faca, mas no momento em que ele passou rente a mim mudei de ideia.

    Vi que aquilo não era o melhor a fazer. Guardei a arma no bolso e voltei para casa.

    A assembleia olhava-o com um ar de recriminação. Parecia que estavam diante de um ser desprezível. Astrogildo aproveitou a oportunidade para contra-atacar:

    — Vejam vocês! O pai da garota que eu tentei corrigir vem a este recinto e se revela um potencial facínora. Eu agora podia estar morto.

    — Eu também! — lembrou o pai de Beatriz, ainda constrangido com a reação da plateia. O professor voltou à carga:

    — Esse homem confessa que tentou me matar e guarda a arma em casa.

    Enquanto essa faca não for apreendida, não vou conseguir dormir. Exijo que se comunique imediatamente o caso à polícia.

    Leopoldo voltou a se sentar, em meio ao burburinho dos outros pais e professores. Uma mãe que estava junto dele resolveu, prudentemente, se sentar umas duas filas atrás. Não sabia o que era “potencial facínora”, mas sentiu que não se podia facilitar com gente desse tipo.

    Vendo que a reunião precisava de um rumo, do contrário não se decidiria coisa alguma, o diretor resolveu falar.

    — Senhores, calma.

    — Como manter a calma? — protestou Astrogildo. — Ele confessou que ia me matar! Pode muito bem vir a fazer isso. Não se deve subestimar as ameaças de uma pessoa desequilibrada.

    — Professor Astrogildo — continuou o diretor —, vamos avaliar racionalmente os fatos. Leopoldo teve um impulso provocado pela humilhação que o senhor fez a filha dele passar, mas não foi além disso. Na hora h, cedeu ao bom-senso. Ficou tão próximo do senhor, era fácil desferir o golpe — mas retrocedeu por um apelo da consciência. Que potencial criminoso agiria assim?

    A plateia ficara em silêncio. Parecia refletir sobre as palavras do diretor, que calmamente continuou sua fala:

    — Impulso todos temos. Ter moral não significa ser destituído de impulsos, mas resistir a eles. Quem já não pensou em bater, ferir ou mesmo matar alguém? Os que cedem a esse tipo de apelo se curvam à besta que têm dentro de si. Os que não cedem, e suplantam o instinto, demonstram respeito pelo ser humano.

    — Balela! — protestou Astrogildo. — Ele ia me matar. E também se matar para não ter que enfrentar a Justiça.

    — Não seria um preço muito alto, professor? Desde quando alguém troca alguns anos de cadeia pela própria vida?

    Depois dessas palavras, o ritmo da reunião ficou menos tenso. O diretor sugeriu que se mudasse de assunto, pois havia outros casos de indisciplina a comentar.

    Leopoldo se levantou em silêncio e foi embora. Chegando em casa, abraçou a filha e pediu que ela se comportasse melhor na escola. Era um dever. Além disso, não devia dar pretexto a que pessoas como Astrogildo manifestassem sua arrogância.

    — Vá por mim, filha. Ouça seu pai, que tem bom-senso e respeito pelo ser humano… Acabei de ouvir isso, entende? Eu podia estar agora humilhado, respondendo a um interrogatório.

    — De que é que o senhor está falando, pai?

    — Nada não. Vá fazer as lições de amanhã.

  • O nome dele é Cookie

    O nome dele é Cookie. Abri a porta e ele entrou puxando uma das minhas filhas. É um cachorro vira-lata. Mas com todas as vacinas, banho tomado e bem cheiroso, assim me asseguraram. Pus meu nariz longe do seu pêlo curto sem qualquer vontade de tirar a prova se ele é mesmo esse modelo de asseio.

    Sou alérgico a pelo de cachorro, gato, cavalo, anta, leão, vaca e por aí afora. Meu nariz entope, tusso como se fosse cuspir os pulmões, o ar me foge e meus olhos lacrimejam. Em resumo, fico de um jeito em que deplorável é elogio.

    Por isso a visão dele entrando pela sala cheirando tudo a torto e a direito me irritou.

    De personalidade, meu temperamento vai mais com o gato. Silencioso e tranquilo, apesar do pêlo. A movimentação frenética dos cães somado ao latido deles definitivamente não me agradam. Sem espaço para correr livres eles precisam dos donos para atender suas necessidades diárias de exercícios. Algumas raças, não sei dizer quais e nem sem os sem-raça estão incluídos, tem uma atração especial por roer tênis, sandálias e sapatos. E nem vou mencionar os óbvios xixi e cocô diários. Só de imaginar suspiro aborrecido.

    Mas Cookie tem seus encantos.

    É bonitinho e alegre como todo cachorrinho novo. Esperto e simpático como cabe a um vira-lata que se preze. Se fosse de raça podia se dar ao luxo de ser esnobe. Sem raça definida o imperativo da sobrevivência grita mais alto. Ser gentil, comunicativo e afável são suas armas para conquistar o mundo. Somada a pouca idade do filhote, ele tem tudo para ir bem na vida.

    Me juraram que não terei de participar da vida de Cookie a saber limpar as sujeiras diárias, passear, dar banho e ir ao veterinário.

    Não vai crescer muito porque foi castrado já. Estava aos cuidados de uma ONG de bom coração que acolhe os animaizinhos. Muito fofo.

    Cuidar já tenho duas filhas para cuidar e me bastam. E elas, agora tem Cookie.

  • Um corpo que cai

    A Cida foi encontrada boiando no rio Pardo, a cabeça cortada, mal grudada no corpo.

    Tinha exigido do namorado Zé que largasse a mulher e fosse morar com ela. O danado só mandava esperar, mas ela estava cansada de ser enrolada. Ou deixasse a mulher duma vez, e os dois filhos, ou não ia mais querer saber dele. Pior, e tinha mostrado os braços fortes, de melhor cortadeira de cana da cidade.

    O Zé não era de ter medo, mas estava com o facão de cortar cana na mão, e perdeu a cabeça. Que ele se cuidasse, a Maria se cuidasse, as crianças? A Cida exagerou. Não precisava ameaçar. Ele gostava da Cida, mas ela exagerou. E o que as coitadas das crianças tinham com isso? A Cida deu burrada, e perdeu a cabeça.

    O Zé segurava a cabeça pelos cabelos:

    – Conheceu, papuda!

    Mas logo se arrependeu: – Eu não queria.

    Como não tinha mais jeito, botou em cima da mula e tocou para o rio. Foi deixando um rastro de sangue, da casa da Cida até o rio.

    Era ao pôr do sol, o céu azul pintado de vermelho como se estivesse em chamas. Como uma coivara, os tocos chamuscados ainda
    queimando. Até as águas no rio estavam se queimando.

    O Zé admirava, implicado com o sangue pingando nas calças e na camisa:

    – Esse trambolho!

    O Manuel da Venda e o João Venâncio estavam pescando. Nem viram o corpo ali perto deles.

    – A gente estava entretido, Doutor.

    O corpo enroscado nuns galhos, a água fazendo gluglu no buraco da garganta. Foi jogado de um barranco a dois passos dali, um baque na água.

    – A gente não ouviu barulho nenhum. Não é, Venâncio?

    – Dava para ver o vestido vermelho, boiando na água – disse o Venâncio, – mas nós não vimos nada.

    – Não era vermelho nada – disse o Manuel, – era sujeira de terra, de lama.

    – Por isso que não dava peixe, Manuel.

    – Que nada, aqui nunca deu peixe, Venâncio.

    – Por que é que a gente pesca, então?

    – Porque a gente é burro.

  • Horas depois

    Todo dia, que já é diferente dos demais, pego meu caderno de rascunhos, uma caneta que não arranha o papel, e desço para escrever no banco da praça. Como faziam os poetas antigos, aqueles que tinham o privilégio do tédio e da contemplação, com bem mais competência que eu. Perco mais tempo para escolher a camisa e a calça para sair do que para escrever. Porque quando estamos em frente ao espelho, inicia um embate na busca do contentamento. É a falta de paz frequente que nos assola.

    Quando finalmente chego na praça, o sol já está alto, desses de meio-dia de janeiro que fazem a gente entender por que existe a palavra “canícula”. A praça estava quase vazia, somente um senhor no banco da frente, distribuindo migalhas de pão dormido para os pombos, e uma menina, dessas que ainda usam lacinhos no cabelo, correndo atrás de uma bola de plástico colorida.

    A página em branco do meu caderno de anotações, me olha com cara de desafio. Passei os olhos ao redor, buscando uma faísca de inspiração. Foi então que vi, ao lado do banco uma flor amarela que parecia ter engolido um pedaço do sol. Era uma daquelas flores de jardim que a gente compra no vaso, mas ali, estava solitária, brotada não se sabe de onde. Uma semente levada pelo vento, talvez, ou um descuido de algum jardineiro.

    Fiquei olhando para a sua coragem desmedida de florir no meio do cimento, parecida com a força de um germinar de óvulo a espera de seu parceiro para gerar um novo ser. Pensei em fotografar, pensei em escrever um poema, pensei em arrancá-la para levar para casa e colocá-la num copo d’água, como quem tenta aprisionar a beleza.

    Nesse meio tempo, a menina do lacinho passou correndo atrás da bola, parou, voltou. Ajoelhou-se no chão com a graça desengonçada que só as crianças têm. Estendeu a mão, e com a mesma naturalidade com que segundos antes corria atrás da bola, colheu a flor.

    Levantou-se, cheirou a flor, e saiu correndo, a flor amarela dançando em sua mão como uma pequena bandeira.

    Fiquei ali, com o caderno aberto, a caneta na mão, e uma súbita e absurda sensação de perda. Quis rir da minha própria tolice. Que direito eu tinha sobre aquela flor? Não era minha, não era de ninguém. Era da vida, apenas isso. E a vida, na sua sabedoria silenciosa, a entregou a quem soube o que fazer com ela no momento exato. A menina não pensou no amanhã. Não cogitou fotografá-la para o Instagram. Não fez planos de pressioná-la num livro. Simplesmente sentiu a urgência daquela beleza, atendeu ao chamado, e a tornou parte da sua brincadeira. Fechei o caderno, guardei a caneta, escrevi agora, horas depois, não sobre a flor, mas sobre o vazio que ela deixou, e sobre como a vida precisa ser colhida no instante exato em que floresce. As coisas duram o tempo que devem durar. O segredo não é tentar segurá-las, mas saber reconhecê-las quando elas, por um breve e luminoso instante, resolvem brotar no meio do cimento.

  • Bloqueio criativo

    O escritor senta na frente do computador disposto a renovar o romance como gênero literário. Quer fazer algo inovador, ainda não identificado, de difícil classificação. A tela pisca. O escritor pensa em estratégias variadas e fuma um cigarro enquanto pensa em qual delas adotar.

    Contar a história ao contrário, como já fizeram no cinema, quando todo mundo saiu da sala com cara de paisagem. Ou utilizar vozes narrativas alternadas: a primeira pessoa em alguns parágrafos, em outros a terceira, em outros ainda a segunda. Fazer o leitor pensar, preencher as lacunas da história — lacunas propositais, bem entendido. O presente e o passado em harmonia. Quebrar a estrutura narrativa linear, usar fragmentos de história, fluxos de consciência. Misturar a linguagem literária com a jornalística. Fundir estilos. Ficção e realidade de documentário. Metaficção. Personagens reais e personagens inventados, em intensa conexão. Biografia e ficção. Mistura de gêneros. Western e ficção científica, com algumas gotas de horror gótico. Robôs que sangram. Narrador onisciente e monólogo interior.

    O escritor se desespera, levanta-se da cadeira e anda pela sala. Não sabe por qual caminho seguir. Tudo o que lhe vem à mente parece já ter sido feito antes. Maldito Cortázar! Maldito Trevisan! “Vamos, experimente uma nova linguagem, invente palavras, termine parágrafos com ‘apesar de’, assim mesmo, sem ponto final”, ele confabula consigo, “seja moderno, use o formato das mensagens eletrônicas e conte uma história de amor que tem início numa conversa de Whatsapp e acaba em violência doméstica, com direito a poças de sangue no chão da cozinha.”

    Em agonia explícita, o escritor bate a mão na mesa e grita: “Já sei!”. Estica os dedos sobre o teclado e escreve: “Era uma vez…”

  • A sorte está lançada

    Em tempos de inteligência artificial, nada mais parece escapar dos famigerados algoritmos. Se curto um post aleatório ou compro um hambúrguer, se sofro de enxaqueca ou pego um empréstimo… Pouco importa! Meus dados estão aí, prontos para serem coletados, armazenados e monetizados. Se eles retratam nossos comportamentos, que tal surrupiar nossas identidades e torná-las rentáveis?

    Fico horas a fio navegando pelas redes sociais. São tantos os meus perfis, que já nem sei mais as minhas senhas. Postar vídeos curtos, contactar amigos e conhecidos, exibir minha rotina, sobrevalorizar meu currículo, expor meus pensamentos, compartilhar minhas fotos. O importante é fazer parte dessa grande comunidade virtual. Ser seguido e seguir quem está no hype. Quantas visualizações? Quantas curtidas? Será que vai viralizar? Quantos seguidores já tenho? Criar conteúdo! Mas que tipo de conteúdo? Engajamento! Mas engajar para quê? Sei lá! Não há tempo a perder. O feed é infinito e quem desaparece pode ser, totalmente, esquecido. Não quero ter minha existência negada. Precisamos de reconhecimento. Afinal, vivemos em sociedade.

    Quanta alegria, quanta saúde, quanta riqueza! Seria eu um pobre desafortunado diante de tão bem-aventurados seres? Aqui não há sermão, pois não há montanha à vista. Quando a ansiedade aperta, recorro ao fast food – algo bem mais mundano. Pouco romântico, mas visceralmente prazeroso. O cardápio de opções é tão grande, é tanta coisa saborosa! Batata frita, hambúrguer, cachorro-quente, pizza, refrigerante… Minha nossa, não sei o que escolher! Paga-se com o cartão de crédito. Que delícia! Mas foi tão rápido! Fugaz como um cometa que desaparece diante de nossos olhos. Ainda preciso de um doce! Passa-se o cartão, novamente! Depois a gente vê como pagar a maldita fatura.

    O colesterol está alto. O bom ou o ruim? Não sei, acho que o tal de LDL. A glicose também não está muito boa. Ah, a culpa é daquele docinho! Digo, daqueles docinhos, no plural. Tudo bem, tem um remedinho bom que você pode achar na farmácia mais próxima. Só precisa de prescrição médica. Fácil conseguir! E tem outro também para a sua insônia! Já aproveita para pegar aquele que lhe sugeri para a sua lombalgia. E a enxaqueca? Olha que ela pode voltar, hein! Melhor prevenir do que remediar. E haja organismo para tanto medicamento! Da farmácia para casa, de casa para um médico. Acho que exagerei na automedicação.

    O dinheiro está curto? Melhor recorrer a um empréstimo consignado. Os juros não são tão baixos, mas é o melhor que se consegue. O cartão de crédito estourou o limite, e do cheque especial nem se fala. Como vou pagar tanta dívida? O déficit é fiscal, mas a aflição é física. O drama é coletivo, mas o sofrimento é individual. O salário não chega sequer à terceira semana do mês. A culpa é sua, pois não sabe administrar o dinheiro. Mas está tudo tão caro! Calma, eu sei. Tenho um amigo que consegue esse dinheiro. Agiota? Não diria isso. Prefere penhorar suas joias? Todos estamos no mesmo barco. Sei não… Está vendo aquele transatlântico ali?

    Big Tech, Big Food, Big Pharma, Big Money. Perdoem-me pelo anglicismo, mas dizem que a globalização derruba fronteiras. Nossa amada Flor do Lácio pode ficar enciumada. São tantos os termos criados pelo Tio Sam que já não dou mais conta de levianas traduções. Conseguiremos fugir de tamanha distopia? Pode apostar que sim! Sonhar é necessário e a sorte está lançada. Aliás, já tentou alguma bet?

  • Bobeiras

    Faz tempo que falo com Renata sobre a situação do Marcelo. O menino está impossível. Não cumpre regras. Não respeita as professoras. Renata me diz que ele é somente um menino “normal”, saudável e brincalhão. “São coisas da idade, meu bem, não há nada de errado”. Como não? Na semana passada, no dia de banho de piscina na escola, o Marcelo, por puro impulso, furou a piscina inflável. O diretor veio falar comigo, que ele simplesmente, do nada, sem confusão alguma, pegou um pedaço de madeira e enfiou no plástico da borda. Acabou o dia de muitas crianças. Perguntei ao Marcelo se tinha ficado feliz, ele disse que não, mas com um ar de satisfação. Será que meu filho tem desvio de personalidade? A cabeça não para de rodar. Agora, todos os dias sou chamado pela coordenação. Já pensei em tirar o Marcelo do colégio, porque poderia haver algo de errado com a relação escola e criança hiperativa. A professora dele veio me contar que ele estava tirando o lanche das outras crianças, porque, segundo ela, “era mais gostoso que o dele”. Eu, por acaso, vou mandar bagulho para o meu filho merendar na escola? Mando sanduíche, suco e biscoito, às vezes. Ele tem de se acostumar a ter uma alimentação saudável. Converso muito com ele, brigo, mas não bato; quero que ele entenda da maneira certa, sem grandes embates. Felizmente, Renata concordou em levá-lo a uma psicóloga. Vai ter sessões normais e depois fazer um teste para saber se tem TDAH ou outro transtorno. Fico preocupado, sem saber como lidar, em muitas situações. E ele está crescendo, mais rápido do que o esperado, é verdade. Tenho feito o máximo que um pai médio pode fazer. Mas minha cabeça entra em parafuso quando a tia do colégio vem dizer que ele está espiando as meninas indo ao banheiro. Isso não é idade para uma criança se interessar por questões sexuais. Freud pode me contradizer. Não sei bem o que fazer. Converso, mas parece que entra por um ouvido e sai pelo outro, sem que provoque uma mudança razoável. Renata pede para eu me acalmar, que tudo está se resolvendo. Ela tem conversado com a professora dele e, animada, diz que estão colocando as coisas no lugar. Faz duas semanas que não recebo reclamações suas. Marcelo mesmo, quando vou buscá-lo no colégio, diz que não fez nenhuma bobeira. Já é uma evolução. Ainda que recente, talvez a psicóloga tenha conversado com ele de uma forma técnica que o pai não saiba resolver. Estudei um pouco de Melanie Klein, a grande psicanalista das crianças, mas não o suficiente para poder mudar o fado. A questão é que talvez eu não tenha pulso suficiente. A questão é que eu posso ser a raiz do problema, por não saber direcioná-lo. Tenho de levar mais as minhas inquietações ao meu analista, para que possa elaborá-las, pensando no bem do meu filho. Talvez eu tenha que me preocupar de menos e deixar as coisas andarem como tem de ser. O mundo ensina e muito.

  • O Filósofo da Vila Kennedy

    Duas moças vestidas de recepcionista chegam e pegam a mesa que fica bem na porta do bar do Taiguara. Sentando-se ali, talvez queiram, não posso dizer, conferir quem entra e quem sai. Pedem uma cerveja e dois copos. É fim de tarde de uma sexta-feira, é fim de expediente, todo mundo ali precisa despressurizar. Trocam meia dúzia de palavras, se tanto, e antes que o garçom traga o pedido, mergulham no mundo paralelo dos celulares. Com os olhos agarrados às telas, é como se estivessem sozinhas. No planeta em que estão neste momento, não há a presença da outra no lado oposto da mesa, muito menos quem passa pela porta a caminho da rua, ou quem vem da rua rumo ao fundo do bar.

    “Para que saem juntas? Para ficar isoladas com companhia? Um pouco difícil de compreender, ao menos para mim”.

    Sentado comigo à mesa, está Helinho Bagulhinho, o filósofo da Vila Kennedy, em Bangu, Rio de Janeiro, onde moramos, onde fomos criados.

    “Se é para ficarem no celular, sem olharem na cara da amiga, para que vieram juntas?”, e minha insistência na pergunta é muito mais uma crítica retórica do que propriamente um questionamento.

    Helinho Bagulhinho pigarreia, prepara-se para falar com autoridade. Ele sempre faz questão de mostrar autoridade em tudo.

    “Solidão a dois, meu caro, não é invenção, descoberta da modernidade. Tenho dito que o homem é um ser social, mas pode ser insocial dentro do convívio. Gerações inteiras de famílias se arrastaram trocando apenas as palavras estritamente necessárias, e quando precisavam falar mais do que costumavam, geralmente havia confusão. Meus avós eram assim. Eram quase um desconhecido do outro. Falavam tão pouco entre eles, que não me espantaria se tiverem morrido esquecidos de como o outro se chamava. Qual a diferença dessa para a solidão a dois moderna, seja marido e mulher, irmãos, colegas? É que agora taca-se um aparelho na frente, enfia-se a cara na tela e fica mais fácil se manter no isolamento presencial. A solidão a dois dos meus avós era analógica. A dessas duas – e apontou a moças – é digital, hightech”.

    Entenderam por que o chamavam de filósofo?

    Era um homem de dissertação fácil, fácil e de amplo leque, sobre todos os assuntos, fosse o combustível usado pela Nasa, fosse o ponto do lagarto redondo na panela. Era autor de frases de efeito, quase ditos populares, embora em alguns casos sua autoria fosse discutível. ‘Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas’ era um exemplo clássico. Ele garantia que era dele, mas eu escutava aquilo dos meus pais desde moleque. Éramos da mesma idade. Eu deixava pra lá, era divertido e não fazia mal a ninguém que ele inventasse.

    Helinho Bagulhinho tinha um primo, o Ademilson, que se arvorava em frequentar as boates de Ipanema e Leblon. Dizia que Bangu só tinha inferninho que até o diabo pensava se entraria ou não. Então, se enfiava no ônibus, descia a Avenida Brasil, chegava à Central e de lá encarava outra Mercedez Benz coletiva até a zona sul. Um dia, apareceu dizendo que descolara um convite “pra festa do ano no Rio”. Seria numa mansão no Alto Gávea. Ninguém sabia explicar como ele descolara o convite pro rega-bofe, mas no dia ele estava lá, descendo a rua a caminho do ponto, porque táxi não se aventurava por ali com o dia escurecendo. “Tira pelo menos a etiqueta da C&A da gola da camisa”, e Bagulhinho deu-lhe uma trava quando o primo saía de casa.

    Ademilson disse com o ar de uma expectativa deslumbrada que a festança iria até seis da manhã. Estava em casa bem antes disso, pouco depois de uma da madrugada, e só não chegou antes porque àquela hora ônibus para Bangu “tem menos do que filé mignon na minha casa” (by Helinho Bagulinho). Deve ter levado mais tempo na viagem do que na festa. No domingo, no boteco do Taiguara, nossa igreja, ele confessou que “fiquei com medo de perder o último ônibus da Central pra cá”. “Mas e aí? Qual foi a dessa festa? Você conseguiu mesmo entrar?”, Bagulinho quis saber, eu do lado, só ouvindo. Ademilson disse que conseguiu entrar, os seguranças olharam assim meio torto, mas liberaram. Pegou uma taça de espumante, porque não tinha cerveja. “Aquele povo é de outro planeta”, considerou, chegando à conclusão de que até para respirar os bacanudos fazem diferente. Bagulhinho olhava com um sorriso de quem queria rir, mas que ainda não era a hora. Ademilson contou que ficou longe do movimento, quase escondido “naquela sala maior que as casas de nós três juntas”. “Ficou mais de canto do que bandeira de escanteio”, e Bagulhinho mandou a pérola, e um riso cínico tornava ainda mais engraçado o que dizia. Eu ri. Ademilson não riu nem reclamou; cabisbaixo, ainda alegou “Eu tentei tirar uma onda”. “Tentou ser um cara lascado que mora no fim do mundo enfronhado no Grand monde”, Bagulhinho sintetizou, e ainda arrematou a conversa, naquela tarde em que estava inspirado: “Peixe de rio não entra no mar”, e fez pro primo uma cara de “vê se aprende, mané”.

    Por que seu apelido era bagulhinho? Os outros perguntavam. Eu, que o conhecia há anos, sabia a explicação de trás para frente. “É por que eu tenho uma relação de encontro íntimo comigo a partir da fumaça”, respondia, sonso. “Mas é qualquer fumaça?”, às vezes perguntavam para lhe darem uma espetada. Claro que não era, “de caminhão, por exemplo, é que não é”, e sorria um sorriso calmo e mole, quase cínico, deixando o motivo do apelido subentendido no ar.

    Eu havia ficado desempregado pela quarta vez. Estava no Taiguara às custas da minha mulher. Me deu dinheiro para três cervejas, tudo para se livrar de mim por algumas horas e descansar de me ouvir reclamando da vida. Ao passo que eu colecionava pé na bunda nos empregos, Helinho Bagulinho jamais ficara desempregado, simplesmente porque nunca trabalhara. Enquanto ansioso eu contava tempo para me aposentar, ele estava aposentado desde a idade em que um sujeito começa a procurar emprego. Não contava tempo de aposentadoria. Sua aposentadoria permanente é que contava seu tempo de desocupado. Enquanto o país fervia discutindo escala de serviço e de folga, para Bagulinho tanto fazia a escala 6 X 1 ou a 5 X 2. A sua escala sempre fora a 0 X 7. “Que diabos tu faz da vida, bagulho?”, um dia não resisti e perguntei, noite alta, quinze cervejas ou mais na mesa, o Taiguara querendo fechar. Ele sorriu o mesmo sorriso calmo e mole, agora ainda mais, por causa daquele dedo de bebedeira. Eu sabia de quatro ou cinco lojas em Parada de Lucas, herança da madrinha. Ele nem aparecia por lá, mas a renda certamente era o que sustentava a fumaça. Então contou ser fiscal da natureza e observador da mecânica da relação dos seres humanos entre eles e com o ambiente.

    Só fui entender o que isso significava quando em uma tarde de sábado, no Taiguara, obviamente, encostou uma Mercedez Benz de verdade, um modelo que fazia jus à marca. Dela desceu um casal que parecia casal milionário de novela das oito. Talvez se um disco voador pousasse ali, não teria causado tanto impacto. Arrancaram todos os olhares do bar e arredores. Passaram pelo Taiguara e se dirigiram a uma portinhola uns dez metros depois. “É a casa da Zefa”, Bagulinho explicou. Eu Sabia. Zefa era costureira antiga por ali. A madame pegou um embrulho e agradeceu, enquanto o marido abria a carteira, de uma marca que certamente era a Mercedez das carteiras, e entregava na mão de dona Zefa um punhado de notas, notas altas, sem dúvida. Eu levaria dez anos juntando dinheiro, e não teria uma carteira recheada daquele jeito.

    Voltaram, passaram por nós novamente, e agora nos cumprimentaram com sorrisos largos, abertos, e que até lhes fizeram simpáticos. Entraram na nave espacial e zarparam. Bagulinho deu um gole na cerveja, limpou os lábios e sentenciou: “Rir com dente é mole; eu quero ver é rir sem dente”.

    Ele estava certo, era isso mesmo.

  • Poema #87: Acrobata

    um pessegueiro roxo
    braços em formas de garras
    dedos intumescidos
    pernas retesadas.

    quando estamos dormindo
    tudo parece fácil:
    pé fora da cama
    e acrobacia de quedas.

    Da Essencialidade da Água

  • F5

    — E se o sapatinho não couber?

    — Como assim? Não é seu?

    — É.

    — Então?

    — O meu pé mudou.

    — Mudou?

    — Não sou mais a mesma.

    — Hã.

    — Meus pés às vezes incham.

    — rsrs

    — E o vestido? Você pode usar o vestido!

    — Será?1q

    — Claro!

    — ihh! Engordei…

    — A tiara! Use a tiara!

    — Tem um problema. De lá pra cá, meus cabelos diminuíram… Não vai ficar legal.

    — Caramba!

    — O que eu faço?

    — Não sei. Não tem mais nada igual?

    — Igual?

    — Igual ao que você era naquele tempo.

    — Tem!

    — O quê?

    — A vontade de ser feliz permanece.

    — Só isso?

    — A crença no amor também.

    — E?

    — O sonho continua aqui. Só.

    — Só?!

    — A vida! A vida continua.

    — Com os pés inchados é possível?

    — É possível.

    — Sei onde tem sapatinhos ortopédicos de cristal.

    — E o vestido?

    — Plus size.

    — E os cabelos?

    — Lace!

    — E o príncipe?

    — Tinder.

    — Match?

    — Match!

    — Vamos ao baile?

    — Vou pedir o Uber confort.

  • A Bergamoteira

    Era a estação do frio, do vento e das chuvas no ano de 2024. Dona Clair já morava havia algum tempo num residencial para idosos na cidade de Tramandaí.

    Ela era uma senhora jovial, na casa dos oitenta anos e gozava de uma saúde invejável para sua idade. Uma mulher muito disposta, sempre pronta para auxiliar os amigos nas mais diversas tarefas, das mais simples até as mais complexas.

    Por sua excelente capacidade física, tinha como costume trabalhar no jardim do residencial. Adorava cuidar das roseiras. Nas manhãs frias de inverno, adorava também sentar ao sol, quando não estava escasso, e saborear inúmeras bergamotas.

    Fazia algum tempo que a idosa andava inquieta e falava muito em retornar para sua casa. Estava com saudade das suas coisas e do que havia deixado para trás.

    Às vezes, seu olhar se perdia para além dos muros do residencial. Ninguém sabia ao certo onde seus pensamentos andavam, mas pareciam sempre seguir o mesmo caminho: a casa que deixara para trás.

    A octogenária gozava de um enorme respeito por todas as pessoas da clínica, fossem funcionários, fossem colegas de morada.

    Nunca foi desrespeitosa com ninguém e sempre agiu de maneira muito cortês com todos.

    Ainda levada pelos pensamentos de retornar para sua casa, viu uma grande oportunidade quando um dos entregadores de mercadorias deixou o portão aberto do residencial. Não deu outra: a moradora ganhou o mundo novamente, saiu tão depressa
    por aquele portão que ninguém notou sua fuga.

    Mas não demorou muito para que percebessem sua falta. Foi aquele alvoroço: cuidadoras, enfermeiras e proprietários procurando a jovem senhora. Revistaram os quartos, os banheiros, o alpendre, a cozinha, a sala de estar, a lavanderia, o depósito e o jardim, e nada.

    Passaram a procurar na vizinhança, mercados, farmácias, lojas, paradas de ônibus, e nada da dona Clair. Nem uma notícia sequer.

    O desespero estava quase se alastrando quando uma das enfermeiras resolveu procurar no posto de saúde. Lá estava a velhota, com um sorriso estampado no rosto e um galo na cabeça.

    A atendente do posto disse que um rapaz havia levado a senhora até ali fazia pouco tempo e que, naquele momento, ela estava sendo medicada, passaria por um período de observação e logo seria liberada.

    Ninguém imaginava que aquela doce senhora cometeria aquele disparate de fugir, colocando em risco sua própria vida.

    Já de volta ao residencial, ainda não se sabia como ela havia adquirido aquele amigo galináceo, ora alojado em sua testa, nem quem era o tal jovem que a teria levado para o posto de saúde.

    Somente no final da tarde surgiu um homem de média estatura, cabelos ruivos e olhos amendoados, dizendo que havia socorrido dona Clair.

    Ele então relatou que a senhora arteira havia saído da clínica e avistado uma bergamoteira no auge de sua produção frutífera. De pronto, ela deu início a uma escalada em busca da fruta que tanto adorava.

    A alegria e a euforia, somadas ao peso da idade, foram aliadas à força da gravidade, e a fugitiva estatelou-se no chão tão rápido quanto a sua fuga do residencial.

    Ainda hoje, quando as amigas se reúnem, esse assunto vem à baila, e a mocinha peralta sempre fala:

    — A paixão pelas bergamotas me impediu de voltar para casa.

  • Com qual “provante” ficar?

    Eu me apaixonei por um sapato. Na verdade, por dois; ainda não sei com qual deles ficar.

    De um lado, um exemplar — par só depois de escolhido; antes disso, convenhamos, é pretendente. Honestamente, nem isso; ficante tampouco: apenas um provante — atrevidamente decidido: em pelo preto, bolinhas brancas disformes, salto alto e grosso, ponta quadrada vermelha. Vermelha mesmo. A irregularidade do branco ainda ensaia alguma compostura, categoricamente desmentida pela desfaçatez de quem, no limite do primeiro passo, resolveu acrescentar alguma coisa que a mãe certamente desaprovaria. Parece ter alguma vantagem nessa cor brilhante e atrevida, justamente da cor que anda me faltando.

    Do outro lado, o oponente de couro amarelo-limão-siciliano — minha cor preferida, o que já configura certa vantagem indevida — apresenta-se com menos altura. Tamanho nunca foi documento; e, se fosse, não caberia a uma mulher apaixonada conferi-lo: córneas flechadas não são instrumentos confiáveis de medição. Quanto ao juízo, este parece ter ainda menos: salto baixo e fino, bico comprido, quase um papagaio, e uma pequena confusão de amarelo, azul-marinho e prata no calcanhar, onde uma almofadinha parece ter sido posta para protegê-lo das consequências das próprias escolhas. Parece livre. Libertino, não direi; esta crônica ainda mal começou e não convém difamar um provante antes do primeiro passo em falso.

    Aquele pisa firme. Este parece prestes a levantar voo.

    Bisbilhoto um, namoro o outro. Volto ao primeiro às escondidas, como se o segundo pudesse descobrir. Faço contas, entro no site de uma loja, retorno ao da outra — ainda bem que a internet mantém vitrines abertas ad aeternum. Salvo fotografias, amplio detalhes, ensaio no ChatGPT versões de mim mesma calçando um e outro. Não sei se procuro sapatos ou se os sapatos, a esta altura, é que já estão procurando por mim — que delícia ser disputada, ao menos em pensamento!

    As imagens têm meu rosto, meu corpo, meus cabelos; ainda assim, há nelas alguma presença que não sei nomear. E minhas últimas setenta e quatro páginas de leitura de umas crônicas sombrias me aconselharam prudência com presenças sem nome. Soa estranho, quase calvo, reconhecer-me num espectro de mulher renderizada que ainda não existe. Mais estranha é a suspeita de que exista e esteja apenas de butuca, esperando alguma coisa para aparecer.

    Tudo isso para escolher um sapato, você pensa. Pense. Também eu acreditava nisso. Até perceber que vinha conduzindo o assunto pelo avesso: não imaginava os sapatos em mim. Imaginava quem eu seria dentro deles.

    É uma diferença pequena, dessas que cabem entre o pé e o couro. Você aí, não a despreze… Há quem aperte a vida alheia por muito menos; não lhe investiguemos os motivos, que esta é uma crônica de sapatos e temos assunto suficiente.

    Mentira.

    Pensando em sapatos, fui parar na filosofia oriental — o que não chega a ser o destino mais provável de um sapato. Mas já que demos o salto, foi mais alto do que baixo, eu diria (ponto para o exemplar preto?). Em Ausência, Byung-Chul Han escreve que esquecemos os pés quando usamos os sapatos certos. Fiquei presa à frase, maneira bastante ocidental de ler sobre desapego, apegando-me de antemão. A mão é força de expressão; esta crônica, até segunda ordem, continua à altura dos pés. E um pé bem calçado simplesmente anda. Se estiver estiloso, anda de cabeça erguida.

    É, até que faz sentido eu me apaixonar por um (ou dois) sapato(s).

    Diria que soa mais prudente do que se apaixonar por uma (ou até mais de uma) pessoa. Sapatos não prometem que vêm depois, não desaparecem no meio de uma conversa nem dizem uma coisa na terça e outra completamente diferente na sexta. Não deixam de pagar a conta; simplesmente não o fazem. No máximo, apertam. E, quando apertam, têm a decência de informar onde.

    Não são grudentos, jamais ciumentos: tirá-los por algum tempo costuma ajudar. É até bom não usar o mesmo sapato todo santo dia; o pé respira, a bolha cicatriza e ninguém pede explicações. Alguns cedem com uma vela, outros com tempo e alguns passos pela casa. Amolecer para continuar. Continuar para esquecer.

    Esquecer, aliás, não é necessariamente perder. Aprendo com Han que pode ser simplesmente parar de segurar. E aí a água me parece uma professora mais eficiente que a filosofia: envolve o corpo inteiro, mas escapa quando fechamos a mão. Algumas paixões têm a mesma falta de educação. Passam pelos dedos sem pedir licença. A água vai embora; a mão fica molhada. Água e memória; algo permanece, mesmo depois que seca?

    Sapatos, felizmente, têm maior vocação para a permanência. Passam por cima de tudo. Depois é só limpar ou engraxar e ficam prontos para outra.

    Eu ainda não comprei nenhum dos dois. Nem sei se vou… será? Posso continuar meu flerte entre janelas. E, se não escolher nenhum, ainda posso andar de cabeça erguida. Na ponta dos pés, calçando sandálias havaianas, se preciso. Uma pincelada de esmalte resolveria a falta de cor — e custaria menos que certas paixões, sobretudo quando já se anteveem os juros do parcelamento do provante. Esta semana comprei três potinhos de esmalte: Intuição, que já está cintilando em meus vinte dedos; Novos Ares, que fica para a próxima semana; e uma outra cor da qual já não me lembro o nome — e nem vem ao caso, estamos perdendo o foco.

    Comprar ou não comprar, eis a questão? Decidir pode ser também deixar alguma coisa onde estava. Apaixonar-se, de soslaio, inclui uma possibilidade que as vitrines, por compreensíveis razões comerciais, não anunciam: perder. Eu ainda posso perder os sapatos por esgotamento de estoque.

    Sei que ver o número 37 inatingível ao clique, em qualquer um dos provantes, vai me preencher de ausência. Uma ausência tamanho 37, precisamente. E ausências, ao contrário do que anuncia o nome, ocupam espaço. Meus pés, menos dados à metafísica, acabarão calçando o que restar por W.O.

    Moral da história: apaixonar-se é um perigo, seja qual for a espécie do ser amado.

  • O menino que escrevia versos

    O menino e a palavra eram amigos desde sempre.

    Inseparáveis como as horas e o tempo.

    Sensação, coração e pensamento.

    A palavra era a bola, a rasteira, a corrida, as travessuras…

    A palavra era o rosto, as descobertas, as noites escuras.

    O menino escrevia a vida e as suas cores em palavras pequenas, palavras grandes, palavras muitas ou palavras poucas. Cidades e
    ruas.

    A palavra se fazia chuva, sol, mar e vento, beijo e estrada, sonho, abraço, sentido, tudo e nada!

    O menino era poeta! Dizia com assombro a mãe!

    O menino era poeta! Falava paralisado o pai!

    O menino se metia com os versos? Indagava um e outro familiar.

    Não havia ser vivente que não questionasse o porquê dos versos.

    A verdade é que o menino abria os olhos e, para enxergar o mundo, escrevia. Escrevia suas histórias, registrava suas memórias e
    juntava lugares e nomes e sentimentos.

    Misturava o que ouvia, inventava o que não existia e simplesmente escrevia…

    Depois de algum tempo, já sabedores da situação, ninguém mais perguntava a razão.

    O menino é assim mesmo!

    Bola, papel, pião. Catavento, sopro, dragão.

    Laço, entrelaço, uma mão.

    Caminho, descaminho, construção.

  • Sugando Ana Paula

    Ana Paula nunca teve sorte no amor. Abusada na infância diversas vezes por um primo, calou-se sobre o ocorrido. Seu primeiro namorado era gay e ela demorou a descobrir. Achou que o problema era dela. Depois ficou noiva de um piloto de helicóptero que viajava muito e quase não ficava com ela. O noivado se arrastou com promessas de casamento. Um dia recebeu do noivo uma carta terminando tudo. Custou a se recuperar.

    Na faculdade conheceu um professor e se apaixonou. Não demorou e descobriu que ele era casado e tinha duas filhas. A caçula quase da idade dela.

    As sucessivas desilusões deixaram marcas e Ana Paula resolveu ficar um tempo sem se relacionar. Tentava disfarçar sua tristeza e seguia levando a vida. Procurou ajuda com terapia. Algumas sessões e a conclusão: sua infelicidade tinha origem na anulação dos próprios desejos.

    Ana Paula tentou se soltar e exigir menos. Não teve tantas oportunidades, apenas alguns namoros frustrantes. Parecia que tinha o dom de escolher parceiros ruins.

    Ainda assim, manteve a esperança de encontrar alguém. O homem escolhido deveria ter maturidade emocional, não precisava ser milionário nem bonito. Ela até simpatizava com calvos.

    Formou-se em Arquitetura e abriu um escritório em sociedade com uma colega da faculdade. Ana Paula descobriu que sua sócia era homossexual e apaixonada por ela. Mais para tentar manter o negócio do que por real interesse, cedeu e tentou a relação. Não deu certo. Terminaram a sociedade.

    A seguir, conheceu um engenheiro industrial numa festa de fim de ano. Atração imediata e recíproca. Ela custou a acreditar. Ele era um encanto, carinhoso, quase sem vícios, bem apessoado, enfim, de acordo com suas exigências. O namoro prosperava e Ana Paula não cabia em si de felicidade.

    Mas seu engenheiro, numa viagem a trabalho, sofreu um acidente de carro numa estrada, foi hospitalizado e entrou em coma durante quatro dias, até ser declarada sua morte cerebral.

    Durante esses quatro dias, ela ficou a seu lado no hospital, rezando e pedindo a Deus que ele sobrevivesse. Deus não poderia fazer isso com ela. Ana Paula, a partir do dia da morte do namorado, tornou-se uma descrente incondicional.

    Desanimada, sem estímulos, convenceu-se de que seu destino era ficar sozinha. Uma sina. De agora em diante, só casos passageiros, uma trepada aqui e ali e nada de expectativas.

    Era ainda uma mulher bonita, tinha um belo corpo e se comunicava bem. O sexo, no entanto, raramente a satisfazia. Convivia com ejaculações precoces e impotências alheias. Os orgasmos eram raríssimos. Assim, passou a cogitar seriamente a abstinência sexual.

    Até que uma amiga lhe falou a respeito de um sugador de clitóris em formato de porquinho – a escolha perfeita para quem buscava autoprazer aliado à fofura.

    Ana Paula visitou uma sex shop e se impressionou com a quantidade de brinquedos eróticos:  anéis penianos, massageadores, plugs anais… O tal “sugador de clitóris porquinho”, sugerido pela amiga, tinha dez modos de variações, era à prova d’água, não necessitava de pilhas e vinha com carregamento USB. Um pouco caro, mas ela considerou o custo-benefício, já imaginando os benefícios futuros.

    Na primeira noite quase desfaleceu de tanto gozar. Perdeu a conta. Imediatamente apaixonou-se. De agora em diante, não faria mais sentido buscar um homem que se encaixasse nos seus sonhos, melhor usufruir do seu fiel e incansável sugador.

    Num sábado chuvoso, sentindo-se romântica, resolveu fazer em casa uma harmonização de queijos e vinhos. Cortou pão francês emrodelas, queijos brie e camembert, além de um parmesão italiano. Abriu um cabernet chileno, separou duas taças (uma para ela e outra para o porquinho) e serviu o vinho. Depois de brindar, selecionou uma playlist de músicas calmas, apagou a luz e acendeu as velas. À mesa, arrumada com capricho, Ana Paula olhava, arrebatada, para seu parceiro sugador. Ele só faltava falar…

  • PVD

    Sonhei com um caderninho brochura.
    Capa marrom.
    Letras pretas em relevo na capa.
    P V D.
    Logo me vi de uniforme escolar, mordendo um pouco o lábio inferior.
    Estava perdida. Melhor nem ir ao catecismo.

    Se era PVD por que não decorei?
    Era essa a pergunta que a Madre superiora iria me fazer.

    Acordei rindo, apesar das gotinhas que brotaram na minha testa.
    Aí me veio a ideia: e se existisse um PVD para a vida adulta?

    Tipo:
    ✔ PVD. Se você emprestar um livro de que gosta muito: anote para quem..
    ✔ Não vá ao supermercado com fome.
    ✔ “Vou só dar uma olhadinha no celular” não leva cinco minutos.
    ✔ Se o sapato machucou na loja, não ficará confortável na festa.
    ✔ “Vamos marcar” não é um convite.
    ✔ Não responda e-mail com raiva. Muito menos WhatsApp.
    ✔ Quando alguém disser “é só atualizar”, faça backup.
    ✔ Se você guardou uma coisa “para uma ocasião especial”, talvez a ocasião especial seja hoje.
    ✔ Não deixe para dizer depois aquilo que importa.
    ✔ Não espere que o outro adivinhe.
    ✔ Algumas pessoas não vão mudar só porque você explicou melhor.
    ✔ Nem toda discussão precisa de vencedor. Algumas precisam apenas terminar.
    ✔ O tempo que você está esperando “sobrar” não sobra.
    ✔ Você não precisa ter a última palavra.
    ✔ E nunca diga: “Comigo isso não acontece”. PVD

    Fechei mentalmente meu novo caderninho.
    Capa marrom.
    Letras pretas em relevo.

    P V D.
    Para Você Decorar.

    Sorri.
    Setenta anos depois, finalmente entendi o problema.

    Eu sempre decorei.
    Só nunca obedeci.
  • O dia em que as tatuagens saíram de moda

    Foi numa sexta-feira nublada de setembro que o mundo estremeceu. Nada de tornados, terremotos ou tsunamis. Tampouco o lançamento massivo de mísseis balísticos ou ameaças de guerra nuclear iminente. Algo mais bombástico: uma postagem de um influencer de moda decretou as seguintes palavras a seus milhões de fiéis seguidores: “A tendência para a próxima estação será exibir a pele nua e crua em seu esplendor natural. Tatuagem? Sai fora dessa brega intervenção artificial, aberração invasiva utilizada pelas gerações anteriores para difundir seus ultrapassados valores.”

    Foi a senha para disparar o quiproquó. Em questão de horas, o mundo civilizado entrou em colapso estético. Na segunda-feira, as clínicas de remoção a laser exibiam filas que dobravam quarteirões e faziam dobrar os atendentes. Na terça, faltou horário. Na quarta, faltou equipamento. Na quinta, faltou esperança. E sobrou desespero.

    A queixa generalizada nos consultórios de psicologia passou a ser: “Doutor, como conviver com o trauma de ter profanado minha cútis num momento de fraqueza?”

    Criou-se até uma literatura crítica revisionista com conceitos pejorativos como ‘pele psíquica’, explicando que o que não pode ser elaborado por meio da palavra, acaba sendo externalizado no corpo. A tatuagem foi reduzida a uma tentativa de dominar por meio da agulha o complexo emocional de um passado sufocante. As figuras funcionariam como uma armadura, uma epiderme secundária, o território do ego em que o indivíduo expressa seu narcisismo e a imagem que nutre de si mesmo.

    De repente, os prosaicos véus que cobrem o corpo (e as tatuagens) ganharam status fashion com força total. As burcas das mulheres islâmicas, antes execradas, passaram a ganhar respeito e devoção, sugerindo até a possibilidade de conversão religiosa e uma mudança comportamental frente à materialidade existencial do Ocidente.   

    Assim nasceu o dilema daqueles que fizeram um pacto eterno de fidelidade com as agulhas segundo o qual o corpo foi vilipendiado e cedido aos arroubos de um impulso juvenil.

    As cabeças carecas, antes transformadas em tela foram substituídas por implantes capilares. Pior foi a amargura dos entusiastas que levaram o procedimento para zonas inimagináveis como a tatuagem no globo ocular (eyeball tattoo), interior da boca, língua, áreas genitais. Ou daqueles que não preservaram o rosto e demais partes expostas pelas vestes casuais. O que fazer agora com esse trambolho estilístico?

    A discreta borboletinha no tornozelo, na qualidade de singelo adorno, foi poupada, passando incólume ao turbilhão higienista dos novos tempos, não chegando a comprometer seu usuário. Já os imensos dragões orientais e as frases motivacionais em sânscrito tornaram-se um estorvo megalítico a seus portadores.

    Diante da nova tendência, os mais suscetíveis que haviam cravado um detalhado mosaico da cultura pop nos exíguos espaços disponíveis do corpo ficaram sem saber como agir. Enquanto não decidiam, passaram a vestir grossos sobretudos para ocultar seus exóticos rabiscos.

    Lembrei-me do filme “A Outra História Americana”, em que o protagonista interpretado por Edward Norton, ao revisar seus valores ideológicos, já não se reconhecia no espelho, confrontado pela enorme suástica que carregava no peito. ‘O que faço com ela?’

    A tatuagem parte do pressuposto de que somos seres imutáveis e as decisões tomadas são definitivas. Aqueles que a ela se submeteram acham que suas mentes jamais se modificarão e transferem o peso dessa imutabilidade para a própria pele. O problema surge quando a cabeça se submete a uma lavagem cerebral mas o resto da massa corpórea não é capaz de acompanhar a mudança.

    O sábio Raul Seixas já havia antevisto o dilema ao manifestar preferência em ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião estampada sobre tudo.

    Os usuários acreditavam, em sua santa ingenuidade, que a moda duraria até o fim de suas vidas úteis. O curioso é que a tatuagem costuma ser apresentada como uma afirmação de individualidade. “Quero ser único”, diz alguém… enquanto entra numa fila de outros cinquenta querendo exatamente o mesmo ornamento polinésio, a mesma rosa cor -de-rosa, o mesmo astrolábio, o mesmo leão de olhar filosófico e a inevitável frase em celta cujo significado permanece indecifrável.

    As tatuagens pareciam ter desvendado o segredo da imortalidade. Afinal, não bastava vestir a moda; era preciso costurá-la na própria pele. É um compromisso que nem casamento exige.

    Há também a criatividade inesgotável dos apaixonados. Juram amor eterno, tatuam o nome da pessoa amada e, seis meses depois, descobrem que o amor era eterno até o próximo fim de semana. A pele, nossa fiel companheira de jornada, infelizmente, parece não acompanhar as desventuras fugazes do coração.

    Naturalmente, a indústria de cosméticos aproveitou-se da situação para faturar alto, criando os ‘corretivos de pele’, uma base tão grossa que parecia massa corrida. Logo apareceram os alarmistas alertando sobre os perigos que tais métodos provocam ao sufocar o tecido cutâneo e provocar tumores malignos. E as fake news ajudaram a propagar pelas redes o pânico geral.

    E, quando as tatuagens previsivelmente saíram de moda — porque tudo, absolutamente tudo, um dia sai — aconteceu o inimaginável: a ousadia passou a ser desfilar com a pele completamente lisa, como quando veio ao mundo.

    Enquanto a mudança de paradigma ainda não se efetivara, eu observava curioso o hábito da humanidade de transformar o próprio corpo numa espécie de caderno de anotações. Uns escreviam poemas, outros desenhavam tigres, alguns registravam datas memoráveis. A pele virou agenda, álbum de lembranças e mural de recados.

    Instalada a nova ordem, os conformistas se resignaram, alimentando a esperança de que, como sempre acontece, os ciclos façam que na próxima geração ou talvez daqui a 50 anos, quem sabe, a tatuagem volte à moda.

  • Fogos de artifício

    Era uma casa no subúrbio, e Maria acabava de preparar o jantar. Mexia as panelas e pensava que o início da reforma no telhado teria de esperar mais um pouco. Tomara que não chova forte, torcia. Naquele sábado de inverno brando, o clima no país era de tristeza e perplexidade. A eliminação do Brasil na Copa do Mundo era a responsável por essa depressão coletiva. A mulher ganhava a vida como diarista e tinha 66 anos. Aparentava mais. Vivia se queixando de dores pelo corpo e de problemas de saúde. Já não apresentava o mesmo vigor para as tarefas domésticas, mas não podia parar de trabalhar. Nunca soube o significado da expressão carteira assinada e morava sozinha, sem ter quem a sustentasse. Nas redondezas, alguns de seus filhos e netos. De vez em quando, eles se lembravam dela e a visitavam – Natal, aniversário, Dia das Mães, as datas obrigatórias. Ajudavam conforme podiam, eram quase tão necessitados quanto ela. Do ex-marido não queria nem ouvir falar. Tinha um ódio insuportável do único homem que conheceu durante toda a sua existência. Sentia-se aliviada desde que conseguiu se separar cinco anos atrás. A mágoa pelo velho Paulo não era compartilhada pelo resto da família. Ninguém jamais conseguiu compreender o motivo de tanto
    ressentimento.

    Maria não era ligada em futebol, mas, em época de campeonato mundial, tornava-se torcedora entusiasmada. Naquele dia, decidiu assistir ao jogo sozinha. Ficava nervosa e se sentia melhor sem ninguém por perto. Era também uma ótima chance de usar o bem mais precioso que mantinha em casa, agora praticamente inútil desde que se cansou de ver novelas e programas de auditório: um aparelho de TV de segunda mão ganho de uma de suas patroas. Preparava-se para botar a comida no prato quando Marilene, sua filha mais velha, chegou abatida.

    — Mas o que é isso, minha filha? Essa tristeza toda só por causa de um jogo de futebol? Onde é que nós estamos? Levanta essa cabeça, mulher!

    — Pois é, ninguém esperava, né? — disse a moça, constrangida.

    — Senta aí, come comigo, anda! Sei que você adora macarrão. Tá quentinho.

    Apesar de chateada com a derrota do Brasil, Marilene tinha um motivo muito mais grave para estar amuada. Precisava conversar com a mãe, não sabia por onde começar. Suas mãos tremiam, ela suava. Ficou calada por alguns instantes antes de revelar o motivo da visita.

    — Sabe o que é? É que… O pai acabou de morrer.

    — Como é que é? O traste empacotou? Foi isso que você disse?

    — Sim, foi agora, de repente. Coração… Depois do jogo.

    Por um segundo, Marilene achou que os olhos da mãe apresentaram um brilho cintilante demais para alguém que acabara de receber uma notícia tão grave. Notou ainda um tom de contentamento em sua voz, desses que brotam na boca de alguém que descobre ser o ganhador de um prêmio gordo na loteria, por exemplo. É claro, estava a par do que ela sentia pelo ex-marido, mas alegrar-se com o falecimento dele era demais. Maria começou então a andar agitada pela exígua cozinha. Seus movimentos descompassados lembravam alguma exótica dança tribal. Talvez significassem apenas alegria. A reação da mãe desconcertou Marilene, e ela resolveu ir embora. Não saberia o que dizer à mulher saltitante e eufórica que via diante de si.

    Novamente sozinha, Maria continuava a celebrar. Recordou-se dos fogos de artifício que havia comprado. Quando o Brasil ganhava uma partida, a vizinhança se punha à espera dos rojões e dos morteiros lançados no ar pela velha Maria. Dirigiu-se ao quintal e logo encontrou o que desejava. Em frente de casa, iniciou uma comemoração solitária e entusiasmada. Atraídos pelo barulho e pelo brilho, os vizinhos nada entendiam. Com a morte de Paulo, Maria tinha acabado de receber da vida um ansiado troféu. Seu contentamento era imenso. Sua Copa do Mundo estava ganha.

  • Quem ou o quê?

    Nem só de pão vive o homem…

    Vive atrás do salário, da prestação da casa própria, do preço da gasolina, da promoção que não veio, da aposentadoria que talvez venha, da dieta que começa na segunda-feira e do boleto que, pontualíssimo, nunca se esquece dele.

    Ah, e também de notícias.

    Escândalos financeiros, guerras, feminicídios, golpes, corrupção, propaganda eleitoral. Mudam os candidatos, às vezes os partidos, raramente o modelo. Entre uma tragédia e outra, um anúncio oferece um colchão ortopédico em doze parcelas sem juros.

    O ser humano é realmente uma criatura admirável.

    Acorda, olha o celular e, antes mesmo do café, já sabe o que o aguarda. Ainda assim, escova os dentes e vai trabalhar.

    No caminho, reclama do trânsito, no trabalho do salário, no almoço do preço da comida.

    Não pensem que estou falando apenas dos pobres, dos fracos, dos desafortunados ou dos “menos favorecidos”.

    Não.

    O rico também sofre. Naturalmente, sofre com algum conforto, o que não deixa de ser uma vantagem considerável.

    Mas sofre.

    Talvez esteja aí uma das coisas mais estranhas sobre a humanidade.

    Somos capazes de assistir a uma guerra durante o jantar e, logo depois, discutir porque alguém deixou a manteiga fora da geladeira.

    Choramos por desconhecidos.

    Brigamos com quem amamos.

    Economizamos para o futuro e compramos por impulso.

    Queremos viver muito, mas passamos boa parte da vida com pressa.

    Inventamos máquinas para poupar tempo e imediatamente encontramos novas maneiras de não ter tempo algum.

    Construímos cidades, escrevemos poemas, fazemos transplantes de coração, mandamos sondas para outros planetas.

    E ainda não aprendemos a conviver direito com o vizinho.

    Quem somos afinal? 

    Porque somos?

    Não sei.

    Faço parte da espécie, o que certamente prejudica a imparcialidade da minha pergunta. 

    Só sei que, apesar de tudo, amanhã alguém vai plantar uma árvore, outra pessoa vai preparar o café para quem ama, uma criança vai aprender uma palavra nova, haverá quem estenda a mão para um desconhecido e quem ria até perder o fôlego por uma bobagem qualquer.

    Talvez seja por isso que continuamos.

    Eu, pelo menos, decidi uma coisa: não vou mais questionar

    Não por enquanto.

  • Lua no mapa astral

    Uma prima travou uma conversa bem humorada comigo quando soube que não acredito em horóscopo. Ela me lembrou que existem essas forças do universo, superiores a todos nós e que para os astrólogos de alguma maneira exercem alguma influência sobre nossas vidas.

    Minha prima não passa nem perto de acreditar nisso mas não é mulher de perder a piada. De qualquer maneira a conversa acendeu em mim a questão a respeito do mapa astral. Calma, não mudei de ideia sobre minha descrença no tema. Ao contrário, minha reflexão é mais lenha na fogueira a favor do ceticismo.

    Se não, vejamos.

    O mapa astral é esse registro do posicionamento das estrelas, planetas e da Lua no momento do seu nascimento. Em resumo é mais ou menos isso. De saída me pergunto: e quando a humanidade estiver em Marte, como é que vai ser?

    Sim porque existem planos de colonização do nosso vizinho vermelho e o mapa astral é gerado a partir de um ponto de observação. Olhar o céu da Terra é uma coisa, levantar os olhos para o firmamento a partir de Marte é outra conversa.

    Como serão as constelações que serão vistas? Quais nomes terão? Além disso, é bom lembrar que o ano em Marte tem 687 dias. Pois é, quase o dobro da Terra.

    Portanto, crentes no zodíaco preparem-se que teremos a chegada de novos signos e constelações.

    Imaginem o diálogo no futuro. Um casal se conhece e ela pergunta a ele: qual seu signo? E ele responde sou Baleia com a Terra em Pavão. E ela responde: sou Virgem com a Lua em Leão, será que somos compatíveis?

    E por falar em Lua já surge outra complicação. Marte tem duas. Na hora de fazer o mapa astral precisa localiza-las.

    E os raciocínios que virão por conta dos nomes delas? Para quem não tem intimidade com astronomia – não confundir com astrologia – as luas de Marte se chamam Fobos e Deimos.

    Traduzindo: Medo e Pânico. Pensa nos significados interpretativos que elas possibilitarão.

    Mas podia ser pior. Imagina que se ao invés de Marte o homem se estabelecesse em Júpiter.

    Ok, não há essa possibilidade porque o maioral do sistema Solar é gasoso. Mas se fosse possível seria o pesadelo da astrologia.

    Por que? Ora, Júpiter tem 79 luas. Imagina por isso tudo no mapa astral?

  • Famosos

    Morar no Rio de Janeiro exige algum preparo. Por exemplo, é preciso dominar os delicados protocolos de etiqueta envolvidos no avistamento de famosos. Do contrário, não é pequeno o risco de passar vergonha. Tipo:

    “Só tinha latão. Bora dividir?”

    “Bora!”

    “Você viu aquele famosão passando aqui?”

    “Hein?”

    “Aquele cara super famoso! Acabou de passar aqui, você não viu? Aquele que fez aquele filme, que fez par romântico com aquela famosona na novela. Maior sucesso.”

    “Desconheço… não passou no meu radar.”

    “Como assim, não passou no seu radar? O cara é ultra famoso. Famosíssimo. O suprassumo da celebridade internacional. Está direto no TV Fama. Outro dia estava dançando na Dança dos Famosos. É a fama em pessoa.”

    “Hmmm… você viu que interessante aquele reboco na parede? Parece um trabalho profissional. Esse material é gesso?”

    “Que papo é esse? Claro que você conhece o famosão. A gente viu outro dia um filme com ele. Fez aquele personagem… aquele… qual era? Só me fugiu o nome. Mas o cara é um colosso da indústria do entretenimento. Um titã do audiovisual. Faz filme, série, novela, o escambau. Acabou de passar exatamente aqui e você vem com esse papo de gesso e reboco? Fala sério.”

    “O acabamento parece muito bem-feito.”

    “Esquece a parede! Estou falando que o famosão acabou de passar aqui. O cara tem prestígio interplanetário. Se pousar uma nave extraterrestre agora no Aterro do Flamengo e descer um marciano, é capaz de pedir uma selfie com ele.”

    “E o editorial da Folha, você leu? Como avalia a crise no Supremo?”

    “Que mané Supremo! Esse cara sim é o Supremo Famoso! Galgou todos os degraus da fama, escalou a cordilheira da notoriedade, chegou aos píncaros da celebridade. Está no cume, no zênite, na estratosfera do estrelato.”

    “Ei… prestenção. Contato visual. Olha aqui. Agora acompanha o meu olhar.

    Devagar. Não vira a cabeça de uma vez, pelo amor de Deus. Olha por cima do meu ombro esquerdo. Tá vendo?”

    “O quê? Onde?”

    “Atrás de mim, à esquerda. A meio metro. É ele. Viu?”

    “Ahnnnn…”

    “Reconheceu?”

    “Ahnnnn…”

    “Então… disfarça…”

    “Que coisa!”

    “Sim, que coisa.”

    “Esse lugar encheu rápido, né?”

    “Encheu!”

  • O menino que se apagou num sopro

    Eram três meninos vendo os pais derrubar uma árvore. Quando a peroba foi derrubada, um dos meninos se apagou no sopro – o enorme deslocamento de ar que ela provocou. Parecia que tinha morrido, era o que os outros dois pensavam.

    Na cidade, o médico disse que estava em coma. Não tinha nenhum tratamento, o jeito era esperar.

    Ficou em coma por um tempo imenso. Os outros dois morriam de preocupação, esperando que ele acordasse.

    Passavam os dias, passavam as noites, e o menino durinho na cama.

    Como se estivesse morto, todo mundo pensava.

    Quando acordou, disse:

    – Preferia não ter acordado – ninguém entendeu por quê.

  • A moda do “f*da-se”

    O verbo foder entrou na moda, impulsionado pelo best-seller de Mark Manson. O sucesso de “A arte de ligar o foda-se” (o segundo “F*deu geral” também é muito bom) desencadeou uma série de imitações, geralmente de títulos ligados à autoajuda, à arte de viver melhor, às estratégias de como gerenciar nossas vidas. Nunca temas como esses sensibilizaram o público como hoje. De tanto ser usado, o verbo começou a ser escrito sem nenhum pudor gráfico; suprimiram-lhe mesmo o asterisco, que aparecia como um resquício de decoro. Hoje se estampa o “foda-se” em capas de livros como antes se rabiscava a palavra em paredes de latrinas.

    O que esse verbo quer dizer? O seu sentido nessas obras não é o de fornicar, praticar o ato sexual, mas sim o de mandar os outros àquele canto (espero que, com o tempo, não se acabe nomeando o canto). O “foda-se” indica desprezo pelo que as pessoas possam pensar ou dizer de nós. É um grito de repúdio à bisbilhotice alheia e, ao mesmo tempo, uma afirmação de liberdade individual. Não surpreende que tenha ganhado popularidade num tempo em que se exalta a persecução de metas que, para ser atingidas, exigem obstinação e sobretudo foco (outra palavrinha da moda). Enfraquecemos nosso propósito de obter sucesso caso prestemos muita atenção à opinião dos outros. Nunca se convidaram tanto os membros da caravana a ignorar os cães.

    A ênfase nesse verbo confirma que nada é tão molesto ao homem quanto o próprio homem. Vivemos em tensão com os outros (que são o inferno, segundo a famosa frase de Sarrte). Para escapar à vigilância alheia, que pode obstacular nossos passos e reduzir nossa autoestima, só mesmo destinando-lhes um repúdio que só o termo chulo é capaz de dimensionar.

    O curioso é que esse verbo esteja na moda, e faça cada vez mais vender livros, num tempo em que também se reforça a necessidade de cooperação entre as pessoas. Yuval Noah Harari, uma das melhores cabeças da atualidade, considera que chegamos a um limite e precisamos da colaboração de todos se queremos a preservação da humanidade. Caso as pessoas não cooperem, viremos num período não muito longínquo a sucumbir (certamente numa nova e derradeira guerra mundial). Por sinal, já há milionários que não duvidam de que isso seja possível e estão patrocinando pesquisas para excursões a Marte. Nosso dilema no futuro parece que vai ser: “A Marte, ou à morte”.

    Há então dois lados: um que manda os outros se f*derem e outro que faz um convite à tolerância e à colaboração. Por enquanto a coexistência desses lados tem promovido um equilíbrio que, embora precário, garante nossa sobrevivência. O medo é que prevaleça quem tende a rejeitar apelos como o de Harari e, de olho unicamente nas metas pessoais, destine à coletividade o seu desprezo. Nesse caso vai mesmo f*oder geral, e teremos razões para temer o pior.

  • Fazer tudo

    Eram catorze itens, dos quais eu já estava atrasado em três deles na minha lista, mesmo antes de escovar os dentes. Foi então que me lembrei de Sêneca, o velho romano que, há dois mil anos, já sabia que a nossa maior ilusão é achar que vamos viver para sempre. Sêneca não tinha WhatsApp, não precisava acumular pontos em programa de milhagem, não sofreu de ansiedade para escolher um filme no streaming. Mas, curiosamente, sabia tudo sobre a agitação inútil que nos consome. E deixou algumas regras básicas que o fez sobreviver com excelência aos dias que deus lhe prometeu.

    Em primeiro lugar nos disse que o tempo não é dinheiro, porque esse se recupera, mas o tempo não. Sêneca ria com aquela tristeza de quem via senadores correndo atrás de status, dos que chamavam a si mesmos de “ocupados”. “Nada é tão pobre quanto uma vida repleta de afazeres”, escreveu. Pobre não é adjetivo financeiro, é existencial. Em segundo escreveu que você deseje o que você já tem. Parece coach de Instagram, mas é mais radical. Sêneca sugeria fazer um inventário diário das coisas que vão bem. Não para celebrar com champanhe, mas para perceber que a maioria das nossas angústias vem de querer o que o vizinho tem. O vizinho romano queria uma vila em Nápoles e o vizinho de hoje quer um carro elétrico. O mecanismo é o mesmo. Em terceiro lugar ensaie a pobreza. De vez em quando, vista a roupa mais simples, coma o prato mais básico, durma no chão. Não por masoquismo, mas por liberdade. Quem sobreviveu a uma noite no chão não entra em pânico se perder a bagagem no aeroporto. Sêneca, que foi rico, sabia que o problema da riqueza é nos convencer de que precisamos dela, mas não precisamos. Em quarto lugar adie a raiva. O estoico recomendava um truque ridiculamente eficaz, antes de responder uma ofensa, espere um pouco. Quinze segundos, um minuto. A raiva é como vinho barato: no primeiro gole parece terrível, mas se você espera, passa. Se não passar, pelo menos você responde com mais criatividade.

    Quinto, lembre-se da morte todos os dias. “Não é que tenhamos pouco tempo”, diz ele, “é que perdemos muito.” Pensar na morte não é morbidez. É o único antídoto contra a vida protelada, contra o “um dia eu faço”, contra o “quando eu me aposentar”. Sêneca escreveu isso enquanto era tutor de Nero, sabendo que poderia ser executado a qualquer momento. Escreveu na corda bamba. E foi executado. Viver é como atuar, construir uma escultura, ou, em outras palavras, é o que você remove de si, para revelar. A verdade do que está fazendo é sua performance em exposição. E nada mais do que fazemos, é sermos um ator de nossas vidas que nos custam nosso mais precioso valor, o tempo. Um bom desempenho quando merece ser considerado grande ou importante, é sempre inteiramente composto pelo próprio ator. Sigo olhando minha lista de catorze itens. Ainda estou atrasado em três. Mas talvez, como dizia o velho romano, o que realmente importa não está na lista. Está neste instante entre uma tarefa e outra. Na pausa. Na respiração. Na desistência tranquila de fazer tudo.

  • A falta do vovô

    Acho que o vovô estava triste. Ele pôs as duas mãos no peito e fechou os olhos, parecia que falava com alguém que só ele sabia quem era. Chamaram uma ambulância e ele foi com minha mãe e meu pai para o hospital. Os tios que ficaram em casa conversavam em voz baixa e bebiam cafezinho da garrafa térmica. Me mandaram brincar com o Chino. O Chino é mais crescido do que eu e é meu amigo. Somos colegas na escola. Ele sempre me defende quando o Orelha ameaça me bater. Minha mãe e meu pai voltaram sozinhos do hospital e me disseram que o vovô morreu. Não sei o que significa morrer. Mas lembro que o vovô começou a ficar triste quando tiraram ele da casa onde vivia e ele veio morar com a gente. Eu sou um menino, mas percebo tudo.

    Na casa onde o vovô morava antes, tinha três galinhas no quintal, uma horta com tomates, alface e couve, uma bicicleta velha e um cachorro chamado Duque. Nós comemos as galinhas no dia do aniversário dele, quando a família estava reunida (o vovô não, ele não comeu). Foi nesse dia que levaram a bicicleta embora, porque a tia Juliana disse que o vovô estava velho demais para essa bobagem de andar sobre duas rodas (desde esse dia eu não amo mais a tia Juliana). O Duque foi levado para um lugar onde cuidavam de cachorros, porque minha mãe não queria bichos em casa (acho que o Duque nem ia gostar mesmo). O Duque era tão grande quanto um cavalo (mas um pequeno, como um pônei). Foi nesse dia que levaram o vovô para morar na minha casa. Acho que é por isso que ele começou a ficar triste.

    Perguntei para o Chino o que significa estar morto (porque ele é mais velho do que eu e sabe de tudo). Ele pensou, mas não disse muita coisa. Disse que o pai dele também morreu e agora não tinha mais pai. Falou que estar morto é quando a gente sente a falta da pessoa. Eu vou sentir a falta do meu avô.

    Ontem à noite minha mãe me mandou dormir na casa do Chino, porque hoje ela tinha que levantar muito cedo para cuidar do velório do vovô e não queria ninguém atrapalhando. Quando ela veio me buscar, seus olhos estavam vermelhos. Ela me disse que eu não precisava ficar triste porque o vovô foi se encontrar com a vovó. Então estar morto não pode ser tão ruim. Não sei.

  • Os pragmáticos

    Os pragmáticos saíram às ruas proclamando seus interesses. Eles não acreditavam no amor e diziam, gritavam a nós, que amar era um pecado capital. E aqueles que formassem resistência seriam punidos com a mais severa das penas: padeceriam de amor pelo resto da vida. Viveriam com suas mentes doentes, pois de amor não se morre, mas se chega quase lá.

    Eu não pude deixar de me tornar resistência. Todos os dias, eles chegavam em nossas ruas, despertavam-nos dos mais belos sonhos, e nós íamos para a rua, num combate poético, onde proclamávamos os poemas mais lindos de toda a humanidade. Queríamos convencê-los de que amar jamais seria um pecado.

    Durante a resistência, conheci um dos pragmáticos. Comigo não seria diferente: me apaixonei por ele, um dos líderes. Eu percebia seu olhar indo ao encontro do meu. E eu jurava que ele sentia o mesmo. Uma noite, ele me capturou e, por seguidas vezes, nos amamos escondidos na calada da noite, onde só o silêncio testemunhava nosso sentimento. Passamos anos fingindo que aquilo não acontecia. Durante o dia, eu era resistência; ele, apesar de amar, tomava seu posto de líder e continuava a punir aqueles a padecer de amor.

    Depois de alguns anos, eu implorei que ele saísse das forças e vivesse comigo o bel-prazer do amor. Ele se negava. Jamais permitiria perder seu posto. Ele não sabia viver de outro jeito. Lamentei o quanto pude, pois era essa a vida que eu não queria, mas que desejava que um dia se tornasse realidade.

    Chegou, em uma quinta-feira, a notícia de que ele seria comandante das forças em outro lugar. Eu me desesperei. Eu sabia que era o começo do fim. Ele escolheu ir.

    Nos permitimos, por alguns meses, amarmos ainda na calada da noite. Mas era impossível viver com essa distância e com o medo de sermos descobertos. Ele, talvez, nunca tenha se entregado por inteiro.

    Um dia, cheguei para um de nossos encontros e lá eu estava, com minhas malas ainda na porta, quando ele disse: “nós acabamos por aqui”. Eu não precisei de condenação das forças. A dor de perdê-lo era maior do que tudo. Eu conhecia perfeitamente o processo de amar, mas o desamar era dilacerante. Não só padeci, como vivi por anos esperando-o. Quando saía alguma notícia sua, eu era a primeira a correr e comprar os jornais. Ele, como sempre, estava com aquela postura de líder sem arrependimentos. Eu olhava, olhava e olhava e nem por um segundo conseguia me ressentir; só sentia aquele amor, ainda latente em meu peito, querendo-o mais.

    No fim, os pragmáticos ganharam a guerra. Eu já era incapaz de amar um outro alguém. E, desde então, segui contando as noites com a esperança de que um dia ele voltasse. No fim, percebi que era possível morrer de amor sem que o coração parasse de bater. E foi aí que eu descobri: eu me suicidei da maneira mais bela, me apaixonei por alguém que não podia ter.

  • Os famosos doces de Pelotas

    Dizem os entendidos no assunto que não conseguimos recordar lembranças de nossa primeira infância por conta de uma tal amnésia infantil. Por razões que escapam de minha leiga compreensão, nossas recordações mais antigas não passam, muitas vezes, de fragmentos dispersos entre sensações, odores, sons e gostos desconexos.

    Mas daqueles doces eu me lembro muito bem… Talvez por eu ter, àquela época, cerca de 11 anos e estar, portanto, numa idade um pouquinho mais madura. Talvez por aqueles quitutes serem tão deliciosos e inesquecivelmente apetitosos. O fato é que aquelas guloseimas faziam a alegria não apenas minha, como de toda a criançada do bairro. Sabíamos todos nós que, a cada primeira semana de mês, a ruidosa e empoeirada caminhonete do vendedor de doces de Pelotas despontava na esquina da João Manoel com a Pinheiro Machado. Era o momento em que nossas famílias aproveitavam para abastecer suas despensas com um pouco daquelas delícias feitas em tão longínquos endereços.

    Se não me engano, Jorge era seu nome. Digo isso com pouca certeza, pois obviamente o foco de minha atenção não era o vendedor em si, tampouco o desenrolar da negociação pecuniária entre ele e minha mãe. Aquelas caixinhas retangulares recheadas de doces hipnotizavam minha mente, despertavam meu olfato, avivavam meu olhar e excitavam meu paladar. Quindins, pasteis de Santa Clara, camafeus, papos de anjo, olhos de sogra, queijadinhas. E, para os menos tradicionais, um pouco avessos à herança culinária lusitana, havia aqueles deleitosos bombons de morango. Todos eles cuidadosamente dispostos dentro de duas grandes sacolas escuras de viagem.

    — Que pena! Desta vez, ficaremos sem quindim — comentava, tristemente, minha mãe.

    — Tenho mais na caminhonete! Vou lá buscar para a senhora — retrucava o diligente vendedor.

    E como se não bastasse a fartura de guloseimas já expostas em nossa sala, Jorge voltava com mais caixinhas de quindim e com alguma novidade para nós. Como todos seus fregueses, tínhamos nossas preferências que não podiam faltar, mas, evidentemente, estávamos sempre abertos a experimentações degustativas. Jorge sabia o poder que detinha sobre seus clientes com aqueles manjares. A maestria com que os manejava perante nossos olhos fundia a delicadeza dos movimentos de uma bailarina com a precisão dos de um marceneiro. Para mim, a magia daquele cenário era feita, inicialmente, das cores vivas daquelas iguarias com o complemento posterior do sabor de cada uma delas.

    Feitas as escolhas, minha função naquele ato estava cumprida. Começavam, então, as negociações entre Jorge e minha mãe. Como num ritual minuciosamente encenado e repetido uma vez por mês, Jorge alisava seu bigode e retirava de uma das sacolas uma calculadora e um bloco de notas. Pelo que podia entender, ali estavam contabilizadas as suas vendas da semana ou do mês. Impossível relembrar os detalhes das tratativas, pois naquele momento eu já me deliciava com algum dos doces recém comprados. O almoço acabara de ser digerido, e Jorge sabia que aquela era a melhor hora para tentar a gula de seus fregueses.

    Eu não sei dizer por quanto tempo tivemos aqueles doces de Pelotas mensalmente dispostos em nossa cozinha. A percepção sobre o tempo muda conforme a fase da vida. Com 11 anos, minha impressão era de que o tempo custava muito para passar. Tantas eram as novidades a serem descobertas com aquela idade, que um ano só comportava uma miríade de acontecimentos. Vai ver aqueles doces surgiram em minha infância para que eu dispusesse de tempo suficiente para bem apreciá-los. Se fosse mais velho, a rotina de horários e de compromissos reduziria a relevância daqueles doces em minha vida.

    Quanto a Jorge, o vendedor de doces de Pelotas, o certo é que um dia ele não veio mais a nossa casa. Não sei se minha mãe resolveu parar de comprar seus doces, se Jorge nos trocou por fregueses mais endinheirados ou se ele simplesmente mudou de ramo. Só sei que um dia o presente virou passado e aqueles doces transformaram-se em lembrança. Uma feliz e tão saborosa lembrança.

  • Para a minha análise

    Olho à frente. Como um marinheiro cheio de expectativas de aportar. Às vezes a visão me sabota. Quero ir com muita sede ao pote e me deparo com um paredão. E volto ao estado inicial, de principiante; um novo aprendiz de mim. Pequeno, desprotegido, parto para um possível recomeço. Tenho de olhar em volta e buscar um remanso; a vida está muito dura. Logicamente, emaranhei-me em tentativas de felicidades; ou o que julgava ser felicidade. Quantas vezes me arrisquei e me frustrei. O que sei de mim é que estou, quase sempre, inspirado ou de corpo aberto para ser provocado. Quero perceber sensações novas. Quero uma vida abundante, notadamente de saúde, que, no meu caso, não anda tão boa assim. Não posso culpar ninguém, eu mesmo entrei nesse redemoinho, e deverei sair vitorioso, quiçá. Se tiver forças, farei isso, para o meu orgulho próprio de ter conseguido alcançar meus objetivos. Não, isso não é uma carta de desaforos. É somente um bocado de palavras, sentimentos, que estavam, a priori, guardados em mim. Eu as encontro em pensamentos esparsos, que vagam por esse corpo sensível e ridiculamente acostumado a psicotrópicos. Veja bem, não estou pedindo socorro, é só um modo de pensar e de me esvaziar. Estou cheio e farto, e ainda tenho de aguentar o período eleitoral. Hoje, dia 7 de setembro de 2026, a dor de cabeça me abateu, profundamente, pensei que ia morrer, com tanta maluquice que vejo nos noticiários. Brasileiro com bandeira de americano, com Trump como orgulho nacional (de que nação, cara-pálida?!)… Se você se julga meu amigo, me diga coisas boas, para ver se retomo os trilhos, mesmo diante de tantas provocações. É preciso viver; estou certo disso, mas não sei como. Desviei-me, talvez, do caminho correto da bondade, do olhar casto (que tinha quando menino), de o bem praticar, a quem precisar, indistintamente (reclamo agora porque já fui assim). Ajudar as pessoas me dá um prazer enorme, mas, infelizmente, me afastei disso, pela crueza da vida, que tanto relato. Não sei se tenho forças para mudar esse fado. Mas vou tentar me reinventar, como sempre o faço, para crer na boa nova, para crer que tudo pode mudar, para melhor, como já me aconteceu. Estou somente, momentaneamente, desnorteado, bagunçado. Preciso que me deixem pensar. Preciso parar e pensar, organizar os meus conflitos. Insisto em escrever no meu diário, porque, só assim, sei do sentimento que percorre o meu corpo a cada dia. Faz, talvez, dez dias que não o atualizo. Pois agora pretendo deixá-lo em dia, para que eu possa conversar com o meu analista e pegar a onda da vitória. Nada a ver com competição. A vitória que digo é saber lidar bem com as minhas inúmeras e desorganizadas emoções. Paro por aqui, pois penso que escrever demais leva à confusão.

  • Ninguém dirige melhor que o Carlito

    O Carlito é motorista de tudo, tem CNH categoria C, coisa de que muito se orgulha, e que o permite dirigir qualquer veículo: até colhedeira de soja, até empilhadeira de aeroporto, ele diz.    

    No primeiro emprego dirigia um treminhão, que jurava chamar-se assim porque era esse o preço do veículo: treminhão de real! Acreditava ainda que se o patrão tinha esse dinheiro pra pagar pelo caminhão era porque era mais que rico, havia de ser miliardário. E dessa premissa chegava à correta mas arriscada conclusão: se o patrão tem tanto, não tá certo pagar pra mim a merreca esturricada, mais seca que bucha do mato, que ele chama de salário.  

     A lamúria pegou a rádio peão e não demorou um dia pra que chegasse aos ouvidos do patrão. E demorou menos ainda pra que fosse o Carlito demitido pelo próprio, por atrevimento, por insolência e por pregar ideias transgressivas no recinto da empresa. Mais a mais, também salientou o empresário, não sou miliardário, sou só um pouco rico. E se fosse, que que tem?, méritos meus; aliás, do meu pai, aliás do meu avô, aliás méritos da estirpe enfim.    

    O segundo emprego, este como motorista de ambulância, era um emprego público, pagava bem menos que o último, mas o Carlito gostava. Gostava porque não tinha que viajar e porque achava divertido apertar aquele botãozinho vermelho ali e ouvir a sirene gritando uóóóóóó! Quando ela falha, dizia ele, ponho a cabeça pra fora e faço eu mesmo as vezes de sirene: uóóóóóóó´! uóóóóóóó!   

      A ambulância, essa que ele dirigia, ouviu dizer, fora conquista do vereador Capitão Trancoso, homem sobretudo generoso, sobretudo de virtudes civis e militares irreprocháveis, desses pra quem bandido e presunto deveriam ser a mesma coisa. “Hôme assim queu admiro!”, dizia o motorista.  

      Ambulância, segundo outra premissa do Carlito, leva pessoas doente acidentada pro hospital; ambulância pode salvar vida, muitas vida. E concluía: sou eu quem transporta, logo, sou eu, vamos dizer assim, quem salva essas vida!   

     Só tinha vantagens, esse emprego.  

    Marcava numa cadernetinha a quantidade de pessoas, almas, como ele chamava, que teria salvo nos 3 meses de nova profissão: 243 almas!, até aqui.  E se perguntava: será que eu num serei anjo?   

      Dirigia imaginando quanto custaria uma ambulância, $200, $300 mil? Vai ver, mas o valor da vida é que conta, e não tem preço. Quanto custa uma vida?  Uns treminhão? …. que nada, muito mais que treminhão!    

    Ah, eu sô mesmo um anjo!, exclamava de si para si.

       Mas um dia, voltando de devolver um paciente, quando saía do elevado João Goulart e fazia a curva pra subir a Consolação, foi colhido por uma picape Ranger 3.0, 250 cv , tração 4×4.    

    Nem ouviu a cacetada.  

     Bateu a cabeça no vidro e desmaiou.

      Foi atendido por outra ambulância e colocado numa maca.    

    Acordou no hospital. Olhou pro enfermeiro e desatou duas perguntas: Quem que me trouxe aqui, o Adelino? Chama ele.  

      Veio o Adelino, ele fez um gesto pedindo que abaixasse e sussurrou: Adelino, você que é um anjo!    

    A outra: Quanto custa uma ambulância nova?  

     Acho que uns $500 mil, chutou o enfermeiro.     

    Tô ferrado, disse o Carlito, e desmaiou de novo.  

     Convalesceu por uma noite, teve alta pela manhã.  

      Convocado no RH, foi demitido outra vez.  

     Pelo laudo conclusivo da diretoria do hospital, era ele o culpado pela batida.  

     Segundo testemunhas, na hora do acidente o Carlito estava com a cabeça pra fora da ambulância. E fazia assim: uóóóóóó! uóóóóóó!  

     P.S. Hoje o Carlito pejotizou-se, dirige um Peugeot de aplicativo. Pode fazer a trapalhada que for, “agora sou patrão de mim, ninguém me pode demitir, a não ser se for eu mesmo”.

  • O agridoce amanhã

    I’ve been livin’ for the moment /But I just can’t have my way / And I’m afraid to go to sleep / ‘Cause tomorrow is today – “Tomorrow is today”, Billy Joel

    Há um livro e um filme chamados “O doce amanhã”. Escrito por Russell Banks, trata-se de uma cidade que lida com o luto após todas as crianças serem mortas devido a um acidente de ônibus.

    Vale a recomendação. Eu me recordei disso enquanto escrevo essa crônica inspirada por um poema de Eleazar Carrias. Com a autorização do autor, transcrevo abaixo o texto:

    Não na Palestina

    Acordo
    com o cheiro do café,
    me arrasto até a cozinha,
    mas, no centro da mesa,
    é uma esfera dourada
    refletindo a luz da manhã
    que desperta o meu desejo.

    Bom dia, meu amor,
    e pego a faca
    entre o pão caseiro
    e uma caneca fumegante.
    Parece que vai ser
    um dia bom.

    Corto a laranja ao meio,
    no exato momento
    em que uma criança
    tem um braço decepado
    e o olho direito
    de uma senhora, viúva,
    é estourado
    por um estilhaço de metal.

    Mas eu não sei disso.

    O sangue doce da fruta
    na minha boca
    e a visão do marido
    bebendo o café
    quase sem pressa
    confirmam:
    o dia vai ser bom.

    Por que o dia vai ser bom? Porque será um dia como qualquer outro. Com sorte, sem alguma surpresa desagradável pessoal. É um poema forte e sucinto, como um soco na cara, que confirma que para a vida seguir, precisamos aceitar que para muitos não será assim. Não é necessariamente sobre ser egoísta, mas desenvolver capacidades para lidar com a dor.

    No mesmo dia em que li o poema, também me deparei com uma crônica publicada pelo autor Alexandre Brandão em seu blogue “No osso”. Nela, ele discorre sobre a banalidade da violência em referência ao assassinato de um homem que foi linchado por ser confundido com um ladrão. A vítima, Cláudio Rafael Landeiro, costumava pegar a bicicleta emprestada da irmã para passear. Até o encontro fatídico, provavelmente era mais um dia em que, para se distrair, circularia pelas ruas.

    Convivemos com a morte diariamente como chupamos uma laranja, tomamos café e pedalamos. Nós nos importunamos dentro do que é sociável, mas evitamos que esses pensamentos criem raízes. Porque encarar nossa impotência diante da injustiça, pior, da morte, é terrível. Como os mortos pelo genocídio em Gaza ou o ciclista, não temos controle sobre como terminaremos. O máximo que conseguimos é contar os momentos agradáveis e usufruí-los, pois não sabemos o que virá depois. Ainda assim, criamos expectativas, como que implorando para que nada de ruim nos ocorra. “O dia vai ser bom”, encerra o poema. Se não será sua vez, é a de outro. Para alguém, nesse momento, o dia é inevitável e terrível.

    A vida é curta e preciosa. Para lidar com o agridoce amanhã, é necessário reconhecer o prazer e a beleza dos instantes. Por esse motivo, a indignação quando alguém tem retirada a habilidade de sorver as sensações por aqueles que deveriam saber a importância que é estar aqui. Uma pessoa que não aprecia a vida deve ser considerada um ser humano? É tentador taxá-la de “monstro”, mas é uma falsidade e uma forma de mascarar que a multiplicidade da humanidade envolve maldade e crueldade. Assim como nos emocionamos diante uma caneca quente de café, também somos alertados por aquilo que não se encaixa em nossos critérios. Isso pode ser propulsor para injustiça. E ainda há a convicção dos linchadores, que agiram em nome de uma moral. Não há diferença nos que condenam violência com violência daqueles que a praticaram. São os dois lados do vampiro que mostra seus caninos.

    A empatia e a calma, como a que exercemos enquanto cortamos uma laranja, são a única maneira de sobrevivermos. Eu não tenho medo de IA, temo os vizinhos. Se seguirmos nossos impulsos sem freios, não cortaremos a laranja, mas nossos próprios dedos. Ser humano é sobre sentir e pensar. Ambas precisam estar combinadas, caso contrário desperdiçamos o dom que é aproveitar a vida, em seu paradoxo de tempo infinito e limitado.

  • A inveja de cada dia nos dai hoje

    Herdeiros. Gente que tem casa própria. Gente com família presente e, sobretudo, acolhedora e que sempre a respeitaram. Gente que se formou antes dos 25. Gente que come de tudo e não engorda. Gente que pode viajar, mesmo que seja uma vez ao ano. Gente que tem carreira acadêmica, doutorado aos 30. Gente que sabe falar outros idiomas bem e não tem medo ou vergonha de errar.

    Veja bem: inveja não é ódio. É aquilo que eu gostaria de ter e não tenho; é algo para o qual posso, eventualmente, correr atrás. A inveja é só um sentimento, e a gente pode refletir sobre ele e tentar fazer acontecer. Não é esse monstro moral que todo mundo pinta. É super comum, todo ser humano sente. A gente sempre acha que a grama do vizinho é mais verde – e, cá entre nós, isso tem muito mais a ver com o jeito que o capitalismo organiza a nossa sociedade do que com algum defeito de caráter meu ou seu.

    A sociologia traduz isso bem: o que descrevo não é falha de caráter de ninguém, mas a frustração que surge quando a vida bate de frente com a tal da meritocracia. O sistema vende todos os dias, a ideia de que basta suar a camisa que a gente chega lá. Mas, quando o ponto de partida é a escassez pura – tipo contar moedas no fim do mês para não passar fome –, a distância até a casa própria, o diploma aos 25, o doutorado ou a viagem de férias deixa de ser questão de esforço e passa a ser o que é: puro privilégio de berço (este que vem do esforço de muitas pessoas).

    Quando olho para essa lista e sinto inveja, falo de coisas que sempre quis e sobre as quais, muitas vezes, não faço a menor ideia de por onde começar e nem sei se um dia terei. A inveja, como qualquer outro afeto, vem de fábrica no brinquedo que é o Homo sapiens. Na psicologia, mais voltado para a psicanálise, explica que a inveja (quando a gente não deixa ela nos paralisar) funciona como uma bússola. Ela mostra o que a gente quer e que o outro tem, transformando a dor em vontade de ir atrás. O problema é que a nossa cultura moralista adora mandar a gente varrer isso para debaixo do tapete, transformando a dor da desigualdade em culpa pessoal (“nossa, que feio eu sentir isso” ou “eu não deveria sentir isso”).

    Aliás, escrevendo isso, me pego pensando: será que gente rica sente inveja? Do que eles teriam falta se já têm o mundo material nas mãos? Casa, carro, grana sobrando, família estruturada, estudo garantido, empresas e investimentos, viagem o tempo todo, o luxo de sentar num restaurante bom enquanto tem muita gente sem ter o que comer. Enfim, acho que só saberei se algum rico me contar, porque não ando com nenhum. E, quer saber? É irrelevante para minha caminhada, isso não vai pagar os meus boletos no fim do dia.

    Existe um esforço enorme da sociedade para fazer a gente ter vergonha desse sentimento. “Como assim você vai admitir que tem inveja?” Parece que quem sente inveja carrega uma praga na ponta dos dedos. Olha, até deve ter quem jogue praga, mas a maioria de nós não. A maioria só quer olhar bem de perto para ter essa fome de ter o que o outro tem e tentar dar isso para si mesma. Mesmo que demore uma vida inteira. Mesmo que o mundo tente nos convencer do contrário. Mesmo que a gente precise lutar e virar o jogo só para ter o direito ao básico.

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