Crônicas Cariocas

  • Em boa hora

    Fui arrebatado por aquele olhar. Nem sabia que sentimento algum podia me pegar. Profetizei, seguro, que não me “juntaria” com alguém até estabilizar a minha vida financeira. Depois que acabei o namoro com Daniela, com quem achava que iria casar (um namoro morno e regular), resolvi me dedicar aos estudos e à profissão. Sou recém-formado em Odontologia (faz três anos que concluí o curso) e estou fazendo das tripas coração para montar um consultório no centro da cidade, pois a movimentação lá é grande. Ainda atendo por consultórios terceirizados, incansavelmente, dia e noite, para juntar a minha grana e montar o citado consultório. É o meu sonho, e é nisso que me fio. Acreditava que não tinha tempo para pensar em coisas diferentes disso. Liana fez com que eu quebrasse a promessa. Ela é inteligente e sensível, duas características que me atraem. Logo senti uma tranquilidade no coração. Já não era movido por tantas obrigações, para um fim que poderia ser incerto. Eu estava apostando todas as fichas no lugar errado, somente na profissão. Liana, então, quieta, chegou aos poucos, sem se afobar. Parece que ela sabia que eu era uma onça cismada. Tomou a iniciativa de falar comigo quando pegamos o elevador no seu sexto andar, no dia 16 de janeiro. Ela, ao contrário, era aberta, expansiva, e não tinha dificuldade de se relacionar; tanto que provou ser uma mulher encantadora. Depois de muita conversa no WhatsApp, combinamos de tomar um vinho no restaurante Santi. Foi uma noite maravilhosa, onde em que pudemos mostrar os nossos defeitos e qualidades, rindo bastante de alguns comportamentos que os dois tinham, algo parecido. Éramos bondosos e prestativos, duas qualidades que distinguimos no ato. Ela cuidava da mãe viúva, e eu, do pai viúvo. Rimos até da possibilidade de apresentá-los um ao outro, para ver se dava rock. A conversa sempre fluía lindamente. Nunca tinha acontecido isso na minha vida: me “juntei” com quatro meses de relacionamento. Não podíamos viver afastados. Diminuí o trabalho para ficar mais um pouco admirando a sua beleza. A mulher tem uma aura inebriante – sou suspeito para falar. Antes, morávamos sós (essa informação privilegiada ela deve ter conseguido com o Jorge, o porteiro bocão). Hoje, moramos juntos, no meu apartamento, já todo montado e estruturado, com cama de casal (sim, o meu subconsciente já previa um relacionamento). O dela está alugado (renda extra para uma jornalista freelancer). Formamos uma linda família, com quatro gatos (juntamos nossos dois pares). Ela espera o nosso neném e está deitada à minha frente, dormindo, sonhando, com leves espasmos; com as pernas estiradas e as mãos postas embaixo da cabeça, deixando-se bela, como um anjo de candura. Nunca esperei um amor assim.

  • As muitas faces de seu Levi

    Poucas ou inexistentes são as pessoas que se destacam apenas por suas qualidades. Como seres falíveis que somos, tanto nossos defeitos como nossas aptidões podem bem ser usadas para descrever nossas personalidades àqueles que não nos conhecem. A depender do relator, se um apologista ou um detrator, nossos feitos serão realçados de uma maneira ou de outra, sem que a validade do informe seja, necessariamente, comprometida.

    São essas coisas que me vêm à cabeça quando vejo o Dr. Levi Damasceno. Estimado por seus pacientes e reverenciado por seus colegas de profissão, esse simpático endocrinologista de meia-idade transmite calma, serenidade e polidez em sua rotina laboral. Os pacientes são, praticamente, unânimes nos elogios e os colegas, coincidentes no enaltecimento. Raríssimos são os casos, se é que existem, em que o médico Levi se indispôs com algum enfermo ou com qualquer associado. Sua fleuma parece inabalável até mesmo diante das piores encrencas que a rotina médica pode apresentar.

    — Vamos, seu corno! Vai ser lerdo assim no inferno! – é o que grita, no entanto, um atrasado e impaciente Dr. Levi.

    Como se vê, o problema é quando está no trânsito. O mesmo Levi Damasceno que muitos veem como um exemplo de tranquilidade e de sensatez é capaz de começar uma guerra civil durante os vinte minutos de deslocamento de sua casa a seu consultório. A leitora poderia achar que o problema é o atraso, mas reitero que tal comportamento independe do relógio. Afinal, o percurso inverso, do trabalho para o lar, conta também ele com as mesmas aventuras de malcriação e de incivilidade. Diferentemente do que se poderia imaginar, o motorista Levi mantém esse padrão de conduta mesmo quando está a passeio, numa tarde ensolarada de um domingo qualquer ou de um feriado em plena segunda-feira.

    Vez ou outra, todo mundo acaba tendo um dia ruim. É quando a paciência se esgota mais facilmente e os nervos estão mais frouxos que gelatina ao sol. Isso é verdade! Mas e o que dizer das constantes rusgas que os filhos Álvaro e Ezequiel mantêm com o seu pai, o mesmo Levi Damasceno? Para os dois, já crescidos e independentes, seu Levi não passa de um turrão. Sempre distante dos filhos, aquele pai de família prioriza, em detrimento de todo o resto, exclusivamente sua vida profissional. A esposa, dona Marta, e os dois filhos vieram como complementos a uma vida dedicada com afinco e com amor à saúde e ao bem-estar não de seus entes mais próximos, mas de seus queridos pacientes.

    — E o senhor emprestou esse dinheiro?! Pode esquecer… Vai colocar tudo fora no bacará e não vai lhe pagar nada.

    E, agora, mais essa! Comentando, despretensiosamente, que havia emprestado uma pequena, mas relevante, soma a seu Levi, fui surpreendido por seu Zeca, o bodegueiro de nossa rua. Entre uma mesa e outra, seu Zeca sempre foi ágil em dialogar com toda a clientela e em especular sobre a vida alheia. Enquanto entrega uma cerveja gelada, aproveita para perguntar da viúva de um antigo freguês, anota mais um pedido feito para a mesa quatro e ainda difama seu Levi não somente a mim como a quem mais quiser ouvir. Segundo esse meu indiscreto informante, seu Levi é um homem correto em seus negócios, mas o descontrolado gosto pela jogatina compromete suas finanças e sua imagem perante seus credores.

    Homem de muitas faces! — exclamarão alguns. Quem será o verdadeiro Levi Damasceno? — perguntarão outros. A bem da verdade, a resposta para essa indagação depende muito de quem a constrói. Como uma síntese de suas contradições e de suas identidades, meu gentil vizinho é tanto um competente e atencioso médico como um compulsivo jogador e um teimoso e displicente pai de família. Seu bom desempenho em tão variados e distintos papéis não faz de sua vida um mero roteiro encenado para ludibriar os mais desavisados. Ele, de fato, é tudo isso e mais um pouco!

    A intimidade só é, pois, construída a partir do acesso nada trivial a variados matizes de uma só pessoa. Quanto mais íntimos somos dela, mais faces de seu caráter são desveladas perante nossos olhos. Assim sendo, o processo de descoberta pode resultar tanto em frustrações como em satisfações. Mas o certo é que essa complexidade humana torna o teatro da vida um imprevisível e inesgotável espetáculo.

  • Os sonhos do Lupércio

    Um deles era ser entrevistado: como os atores, os cantores, os escritores e os jogadores de futebol.

    Imaginou e pôs em prática um plano sui generis: ajudou a atravessar uma velhinha e largou ela no meio da avenida. A velhinha fez um baita dum escândalo, chamaram a polícia, e ele, o Lupércio, foi parar na delegacia. Batata! Como ele queria, foi entrevistado pelo delegado. 

    O delegado disse bom dia, como vai? e ele respondeu que tudo bem.

    — Cafezinho?

    — Obrigado, não. 

    — Seu nome?

    — Lúcio Lupércio.

    — Profissão? 

    — De tudo um pouco.

    — Ovos em várias cestas… muito bem! Formado?

    — Fiz o primeiro ano do colégio e parei.

    — Por quê? 

    — Muito trabalho, dr. Um dia eu completo. 

    — Ótimo. Casado?

    — Com a Lena Lenita, um anjo de mulher. Somos do mesmo signo! 

    — Não diga, eu também! Quer dizer, eu e minha mulher somos Peixes. 

    — Nós somos Sagitário. Março; ela 5, eu 18.

    — Belo signo, vão viver eternamente juntos. 

    — É mesmo?

    — É o que dizem os astrólogos. 

    — Nunca brigamos, fomos feitos um para o outro.

    — Tá vendo? Nós também. Filhos? 

    — Duas. Laura Lúcia e Lídia Lair. A mais nova 5, a mais velha 8.

    — Ah, mocinhas! Moram onde?

    — Comigo.

    — Onde?

    — No Cambuci. Casinha simples, sabe?, herança de papai. Comprou com dificuldade, 30 anos pagando. 

    — Lar doce lar! Tão bom ter uma casa.

    — Tem até jardim. Minha mãe que fez, rosas de todo tipo.

    — Gosta? 

    — Eu que cuido, mamãe aprendia na TV, com a Xênia, lembra da Xênia?, e me ensinava. Faço até enxertos.

    — Que cor prefere?

    — Qualquer uma. Me comove a beleza que traz a primavera com a florada do ipê amarelo.

    — Lindo, né? Também tem o branco.

    — Sim, com aquela atmosfera nórdica.

    — A igualdade é branca!

    — A paz é branca.

    — Algum sonho?

    — Ser entrevistado.

    — Está realizando!

    — Nem acredito. Também queria apresentar um de jornal de TV.

    — Mesmo? Que nem o Tralli? 

    — Que nem o Bonner. Eu e a Lena Lenita apresentando o Jornal Nacional, aquela elegância, aquele jogral, aquele boa noite!…

    — E ela?

    — Quem?

    — A Lena Lenita, também sonha com isso?

    — Não, o dela é ser aeromoça.

    — Ah, as mulheres!, sempre sonhando alto… Bom, acho que nosso tempo acabou.

    — Passou rápido.

    — Volte sempre.

    — E a velhinha?

    — Impertinência de velha. Dá-se um jeito.

    — Obrigado,dr.

    — Ah, só mais uma coisa: o que acha da polícia de São Paulo?

    — Bom…

    Corta! 

    Não foi nada disso. O delegado nem quis saber do Lupércio, mandou ele direto pra cadeia, aos berros. 

    Dois cascudos: “E se fosse sua avó?, e se fosse sua tia?!”. E um pé na orelha: “E se fosse sua mãe?!”.

    Após três dias vendo o sol nascer com quatro lados iguais e paralelos dois a dois, foi solto com a advertência: “Na próxima,  pega um mês na penitenciária e vai apanhar até ficar mais inchado que um bauicú-de-chifre”. 

    Em casa, encontrou a Lena Lenita, bico de garça, comprido e pontiagudo. 

    Pegou um mês dormindo no sofá. Um mês de abstinência.

  • Saudades dos tucanos

    Blackbird singing in the dead of night / Take these broken wings and learn to fly / All your life / You were only waiting for this moment to arise – “Blackbird”, The Beatles

    Fecho os olhos, e tucanos da minha infância planam em meus pensamentos. Há mais animais que desfilam, como cachorros, micos e papagaios. Os tucanos se destacam, porque eles sumiram. Ao contrário dos outros bichos, que, ocasionalmente, encontro na cidade grande. Vê-los significava férias no sítio. E me acostumei até perceber que deixaram de ser uma presença. É intrigante, como se desaparecessem sem querer. Apesar de que talvez não me importasse tanto assim com eles na época. Atiçavam uma curiosidade periódica, nada além. Suponho que essa é impressão da mudança dos tempos: passamos a valorizar o que não temos para suportar o sufoco do presente. A constatação da impermanência é o catalisador da nostalgia.

    Nós apenas os chamávamos de “tucanos”, mas deveriam ser tucanos-de-bico-verde. Deixávamos frutas no mureta do terreno e esperávamos para avistar quem viria. Geralmente os micos eram ligeiros. Algumas vezes, os tucanos chegavam antes, espantando a concorrência. Achava-os educados, pois saltavam de um galho, recolhiam uma fatia e retornavam para a mesma posição para comer. Uma elegância em modos, postura e na estética que contrastava com suas cores berrantes. Eles vinham, comiam, cantavam um som seco e monótono e logo partiam. Mantínhamos a distância num pacto informal com os visitantes. Numa das raras vezes que o rompemos, alguém atirou um pedaço de mamão. Atingiu um tucano guloso na cabeça. Ele reagiu de uma maneira tão desengonçada e dramática que rimos. Não vimos tucanos por bastante tempo. Em outra, amarramos uma banana a um pedaço de barbante. Quando um desceu e abriu o bico para abocanhar, puxamos de supetão. O tucano abriu um berreiro, inconformado e alertando os colegas de nossas brincadeiras sem graça.

    A memória tem esse efeito de fundir eventos, transformando-os em uma massa cujo começo e fim se confundem. A última vez em que vimos um tucano foi um acontecimento comum. Apareceu e saiu sem deixar qualquer anedota ou observação digna. Esse componente emocional das lembranças torna os eventos mais banais um objeto precioso. Nunca sabemos de verdade a duração das coisas. Quando elas se levantam em voo definitivo, nosso apego cresce. Os tucanos eram apenas um elemento dentro vários das férias, como jogos de futebol, pulos na piscina, churrascos e festas. A diferença está no acesso. Ainda podemos fazer essas coisas. Já outras não temos como controlar. Os tucanos voaram, e não há como atraí-los mais somente com nossa disposição.

    Também significa que estou mais velho. Eles pertencem a um tempo em que havia inocência, em que achávamos que a vida seria justa e sempre alegre. À medida que crescemos, descobrimos que não é assim. Não é amargura, mas entender viver é perigoso. Porque tudo se complica quando os riscos são maiores. O fato é que não pagamos boletos ou evitamos problemas de saúde com saudades. Ainda assim, mantenho esperança de que os dias melhores virão. Ou menos preocupantes, o que já é bom o suficiente. Daí, a necessidade de reter alguma inocência infantil. Ela precisa ser cultivada para não enlouquecer sob o peso das exigências. Aquela atitude de criança desafiadora e aventureira que ainda reside em nosso anterior de que podemos encarar tudo como uma brincadeira e terminar com um sorriso no rosto.

    Para onde os tucanos teriam ido? Torço para que não tenham sido devorados pelos carcarás que surgiram há poucos anos. Eles são mais agressivos, entrando na casa sem pedir licença e precisam ser guiados logo para fora. Os tucanos sabiam seu espaço, enquanto os carcarás não se importam. Inicialmente, achei que fossem águias devido a sua plumagem. A invasão deles provocou mudanças. Além de instalarmos telas, paramos de colocar frutas na mureta, numa tentativa de dissuadi-los. Ainda assim, os carcarás pairam por perto. São tempos novos. É nesse momento que o adulto alarmado e o moleque petulante precisam chegar a um acordo. Adaptar às circunstâncias e usar a criatividade para encontrar uma solução. Essa é chave para abrir o desenvolvimento. O papel que as lembranças desempenham não deve ser de colchão, mas de mola. O voo, como o dos tucanos, pode ser algo desastrado no começo para atingir uma tranquilidade de planador ao fim.

  • Poema #90: Alguns homens

    Aqueles que esperam
    que todos durmam
    para então se revelarem
    no escuro do mundo
    agora despovoado
    de leis e de homens
    que foram fatigados
    pela batalha diária
    de se ganhar dinheiro
    e etcetera e coisa.
    Aqueles que se recolhem
    quando todos já acordados
    recomeçam o ciclo da vida
    subitamente interrompido
    para o ensaio da morte
    e que assim em movimento
    não percebem os sonhos
    espalhados na noite
    por gente incógnita
    que digere o mundo
    para o sustento possível
    de uma impossível unidade
    comum a todos os homens.
    Aqueles para quem só é viável
    o diálogo com os mortos
    cuja imobilidade revela a calma
    do que antes fora ânsia
    ou simples impulso de debate
    contra uma série de coisas
    que só se percebe neutras
    depois que se morre.
    Aqueles seres anônimos
    que constroem uma realidade
    paralela à admissível pelo dia
    e que não obstante
    substitui o espaço de tempo
    necessário ao aprimoramento dos homens
    até que se consiga
    a hipotética convergência da raça
    afinal reconciliados em espécie e sub.
    Aqueles que com seus hábitos
    são uma curiosidade para todos do circo
    e um enigma para si mesmos, palhaços
    sem plateia e sem palco nesta vida.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #12: O sabor dos ventos

    nuvens cor de mar
    nelas posso navegar
    sem barco nem remo
    só com as mãos e a coragem

    quem cai, não se afoga
    quem se perde, não teme
    que nas águas desse lugar
    as ondas embalam sem engolir

    longe da praia, longe de lá
    mais perto do céu, onde eu quero estar
    brisa em que o corpo flutua, sem náusea,
    entregue, convicto, ao ritmo do ar

    nuvens cor de mar
    uma só não bastará
    num oceano de sentidos,
    quantos destinos pode
    um marinheiro encontrar?

  • Aos 16!

    Enfrenta seus porquês: quer respostas, quer experimentar… Arrisca-se, arroga-se, ensoberbece! Sabe o que ninguém nunca soube.

    Seu caminho, com certeza, será diferente de todos os outros.

    Empina o nariz, responde com autoridade, briga com o vento.

    Sabe, mas não sabe. Pensa que não, mas precisa…

    O som alto disfarça a ansiedade, os amigos disfarçam a solidão.

    Envolvida numa interna guerra entre ser e querer, todos os caminhos estão diante de si. Todas as possibilidades. Aflige-se. Não quer ouvir; grita!

    Aos dezesseis, não se lembra mais da Alice do livro de capa dura e desenhos coloridos. Talvez agora seja a hora de saber que não afundará nas próprias lágrimas e que a escuridão de agora é apenas passageira. O mundo tem um lugar que lhe pertence, que está lá à espera.

    Menina, sofrer faz parte, mas não vá além do limite! A dor pode acomodar o espírito e aquecer nossa alma.

    Aprisiona.

    Vai, menina, o camundongo só virará rinoceronte se você permitir. Feche esta porta e abra a outra. Só você pode fazê-lo.

  • XÊNIA precisa matar alguém

    Xênia estava a ponto de desistir de tudo. Vinha tendo problemas com o marido e os filhos. Ele, gordo, careca, sempre doente e reclamando da próstata que aumentara, do café frio, da chuva, do custo de vida e do governo. E, principalmente, dela. O filho mais velho, vagabundo, demente e drogado, sonhando ser cantor de rock. E não gostava de banho. A menina, uma amoral rebelde e chata, tinha o corpo coberto de tatuagens e piercings. Havia feito três abortos e agora descobrira ser lésbica.

    Xênia queria mudar tudo, mas não encontrava solução. Em busca de alívio, quando sentia que a cabeça estava a ponto de estourar, ia a um bar perto de casa, pedia uma Malzbier gelada, uma porção de torresmos e deixava-se ficar ali, em pé, encostada no balcão, por horas a fio, a pensar sobre nada. Uma espécie de pausa necessária. O dono do boteco, um português que torcia pelo Fluminense, já havia tentado puxar conversa, mas desistira: a mulher parecia em transe, absorta e presa a seu mundo.

    Um sábado, quando Xênia estava no tal boteco, uma mulher loura, alta e bem vestida se aproximou e puxou assunto com ela. Precisava de um serviço urgente, de preferência naquele final de semana. Xênia era a pessoa mais indicada – ela disse – soube disso no primeiro momento em que pôs os olhos nela. Precisava que ela fosse a um apartamento e matasse quem lá estivesse. Só confiava nela para esse trabalho.

    Por que ela? Xênia pensou no anjo que encomendou um réquiem a Mozart. No fundo não queria matar ninguém. Inusitado e tragicômico ser escolhida para esse tipo de serviço. Imaginou-se como o personagem Barry, o assassino de aluguel da série, que viu seu mundo dar uma reviravolta. A misteriosa mulher insistiu e lhe ofereceu uma quantia irrecusável. Devia ser milionária. A seguir, passou-lhe uma bolsa com a pistola e o silenciador para ela fazer o trabalho. Xênia logo associou aquele convite ao conto “O Cobrador”, de Rubem Fonseca. Talvez por ansiar uma guinada em sua vida, aceitou. Logo ela, pacata dona de casa, sempre comedida, que não matava nem uma formiga. Não estava se reconhecendo. A loura, então, passou-lhe um pacote com a metade da quantia combinada. O restante, depois do serviço.

    De lá, foram para o aeroporto Santos Dumont. A mulher deveria seguir na ponte-aérea para São Paulo, de onde só retornaria na segunda-feira. Uma única recomendação: não poderia causar grande sofrimento às vítimas. Serviço limpo e direto.

    Despediram-se, Xênia chamou um táxi e se dirigiu ao endereço que lhe fora passado. Um condomínio residencial de luxo. Durante o trajeto, sua respiração desacelerou e sentiu sumir o peso do próprio corpo. Era como se flutuasse em um espaço onde o tempo tinha deixado de existir.

    O taxista avisou que haviam chegado. Xênia pagou a corrida e saiu do carro, quase em frente ao condomínio. Na entrada, o porteiro acenou, como se a conhecesse. Isso não era normal. Achou estranho, mas foi em frente. Compenetrada, pegou o elevador, tirou a arma da bolsa e colocou, calmamente, o silenciador. Tocou a campainha. Demorou um instante e a porta foi parcialmente aberta. Xênia perguntou pela dona da casa. Uma moça morena, vestida de branco, possivelmente a diarista, respondeu que a patroa estava viajando e perguntou se era só com ela. Xênia não esperou mais. Forçou a porta entreaberta, empurrou a mulher para dentro e com a pistola engatilhada, atirou duas vezes. Antes de cair, a moça ainda a olhou com incredulidade e assombro.

    Xênia, com o coração acelerado, respirou fundo para não perder o controle, passou por cima do corpo, atravessou a sala e seguiu por um longo corredor que a levaria a outros cômodos. As pernas ainda bambeavam. No primeiro quarto, à direita e com a porta aberta, em frente, sentada e se penteando, uma menina com tatuagens e piercings, só de calcinha, com uma garota a seu lado, despida e também distraída. Sem ser notada, Xênia não esperou sequer que virassem. Fez um furo no meio das costas da moça e, antes que sua acompanhante pudesse esboçar qualquer reação, enfiou-lhe um tiro certeiro, quase à queima-roupa. Aguardou um pouco a fim de se certificar de que ambas estavam mortas. Xênia espantou-se com sua frieza. Ainda que estivesse com taquicardia e as mãos geladas de suor, agia como uma assassina experiente.

    Ainda trêmula, voltou ao corredor e foi ao próximo quarto, à esquerda. Percebeu logo o cheiro de maconha e os sons estridentes de um rock nacional. Quando entrou, o rapaz a olhou, assustado. Xênia chegou bem perto, apontou a arma na sua cara, tirou-lhe o cigarro de maconha da boca e, com o cano dentro, detonou o tiro. Deixou o corpo ali mesmo, no meio do quarto, com o som ainda às alturas. Xênia detestava rock.

    Agora, tinha pressa. A ansiedade a mil. Precisava acabar logo com o serviço e sumir dali. Só restava um último quarto, no fim do corredor. E, antes que pensasse em abrir a porta, um homem o fez por ela. Vestia uma espécie de roupão, era calvo, barrigudo e com cara de idiota. O que mais a impressionou foram seus olhos. Cansados e sem brilho. Olhos de uma idiotice clara e assumida. Convidou-a a entrar no quarto, andou calmamente até a cama e sentou-se. Xênia sentiu um arrepio percorrer seu corpo e, antes que pudesse se arrepender, disparou. Mal o homem tombou sem vida na cama, ela já se encontrava de costas, saindo do quarto.

    Não tinha mais nada a fazer. Surpreendeu-se agora bem disposta e empolgada. Conferiu se não havia ninguém no apartamento e saiu. O porteiro sequer notou a sua passagem. Missão cumprida.

    O português tricolor enfim trouxe a Malzbier e os torresmos. Xênia agradeceu, deu um gole na cerveja e fechou, por um momento, os olhos. A imaginação podia mitigar a realidade. No entanto, se achava longe de conhecer suas verdades e pôr um fim em seus tormentos e inquietações. O filme das execuções ainda passava na sua cabeça. Ao menos, sentia-se, de alguma forma, aliviada. Mastigou com vontade o pedaço de torresmo. Xênia estava morrendo de fome.

  • Quatro patas — dentro e fora de mim

    Chove. Acordo na escuridão com o som de gotas furiosas contra a telha ondulante a minha direita, no vão coberto entre o edifício em que me encontro e o do lado. Ouço o ritmo onírico do meu Zeca roncando. Ele sonha. É lindo. Expressão da mais tenra felicidade em mim, tanto quanto a sensação de ter seu pesinho peludo em meu colo, ou seu pulinho, todo molhado, ao sair do banho e deitar de bruços, confiante, sobre a toalha limpa estendida sobre minhas pernas esticadas.

    Só quem tem a honra de ter um cachorro na vida pode entender corporalmente o que descrevo.

    Chove.

    Zeca silencia, mas ainda consigo ouvir sua respiração heroica. Um único pulmão, sete doenças respiratórias; seus joelhinhos traseiros tão frágeis. Algumas medicações de uso contínuo, bombinha diária, colágeno e acupuntura. Meu spitz alemão não demonstra fraquezas — muito pelo contrário: é o cachorro mais feliz — e mais bagunceiro e inteligente — que conheço, e quanto orgulho há nessa declaração.

    Quanto Zeca me ensina sobre a vida, todos os dias.

    A ausência dos seus roncos na madrugada me coloca em estado de alerta. Ele é meu coração fora de mim e o sorriso estampado no rosto dos costumeiros transeuntes que têm a felicidade de ver o Zeca passar.

    Antes dele — e por um tempo curto demais, contemporaneamente a ele — existiu a Mia. Mia foi meu primeiro amor de quatro patas. A que quebrou todos os meus ‘ainda receios’ de ter um cachorro. Eu (morria) de medo de cachorros.

    Tudo começa com a Lua, o basset fêmea da vovó Trude — minha avó austríaca postiça, vizinha de andar, que fazia doces, tinha uma risada que ainda ressoa na memória daqueles olhos azuis inesquecíveis. Ela nos deixava usar seu telefone fixo, pois nós ainda não tínhamos… Que memória para mostrar o quanto o mundo mudou, de 30 anos para cá… as relações de vizinhança eram familiares de portas abertas; telefone era luxo e não essa extensão de nós mesmos reconfigurada em sua versão “smart” e multifuncional. Hoje sequer sabemos os nomes de nossos vizinhos — ou quando muito, nos limitamos a isso. Voltemos a Lua:

    Eis que minha “tia-basset” me deu uma mordidinha no joelho quando eu era pequenina. Nada grave, só o suficiente para transformar qualquer cachorro solto ou passeando em sua coleira em uma ameaça. Ameaça é pouco; trauma mesmo.

    Passei a atravessar calçadas ao avistar um quatro-patas, sem olhar se vinha carro ou não, para desespero dos meus pais.

    Nesse meio tempo, em Santa Maria Madalena, minha avó Odila — a de sangue que eu conheci — teve vários cachorros… mais de cinquenta, para meu desespero (e ela reconhecia cada um por seu latido particular, vale frisar o feito do amor canino). O primeiro e mais emblemático foi o Rique, um fox paulistinha que todas as manhãs comemorava minha presença com uma euforia que me aterrorizava (Zeca faz o mesmo estardalhaço hoje em dia e me desafia a levantar da cama até que a euforia se dissipe). Era só depois do almoço que a pequena Bia e o intrépido Rique se acostumavam à presença um do outro. À noite, éramos melhores amigos até que, na manhã seguinte, tudo recomeçava.

    Naquela época, vovô ainda era vivo e eles moravam em uma chácara antes dos cartórios, prefeitura e a famosa praça da Dercy. Uma vez deixei a porta do quarto em que dormíamos eu, mamãe, papai e minha irmã aberta. Rique entrou, pulou na cama e comeu a cabeça do meu Ken! Eu amava bonecas. Chorei, me revoltei e passei o resto do dia sem falar com ele.

    Cerca de um ano depois, meus avós já moravam em outra casa, uma cuja fachada desenhada foi campeã de uma competição decorativa de copa do mundo, no caminho para o mausoléu da Dercy Gonçalves — a pirâmide de cristal que ela mandou construir para si antes de morrer. Eu caminhava uma esquina abaixo, à esquerda da Catedral, quando um rottweiler escapou de uma casa na mesma rua. Eu devia ter uns onze anos.

    Lembro de ser encurralada por dentes à mostra, latidos fortes e muita saliva, dos meus punhos cerrados porque minha mãe dizia que assim os cães não sentiam o cheiro do medo, da minha voz ausente, do pânico interno… e do Rique.

    Meu pequeno e bravo amiguinho se meteu entre mim e um cachorro inúmeras vezes maior do que ele.

    A partir dali, todos os cachorros exceto o Rique tinham licença para me causar medo. No meu
    coração, ele passou a ser o meu cachorro. Anos depois, numa quarta-feira de cinzas, chegou a Mia.

    Dois meses, olhos azuis que lembravam os da vovó Trude, pulgas, carrapatos, anemia… mal se mexia, aquele bocadinho de pelo branco acuado. Eu e Bruna, minha caçula, tínhamos arquitetado um plano estrategicamente convincente para nossos pais: eu falaria com a mamãe; ela, com papai.

    — Fala com seu pai — disse minha mãe.

    — Fala com sua mãe — ouvi a resposta paterna da boca da Bruna.

    Meus pais sempre foram muito unidos, mas não esperávamos tanta sintonia. Trouxemos a cachorra.

    Mia veio para este mesmo apartamento em que agora escrevo. Passou sua primeira noite no quarto da minha irmã, onde estamos, eu e Zeca. Ela recebeu vacinas, remédios, amor, e o virar das costas dos meus pais num primeiro momento. Somente por pouquíssimos dias. O pelo branco tornou-se creme, com botinhas claras nas quatro patas e uma manchinha na testa. Os olhos ficaram verdes. Miou antes de latir. Era medrosa, companheiríssima, educadíssima, uma verdadeira lady. Uma vira-lata com ares de pedigree — enquanto Zeca tem pedigree e alma de vira-lata.

    Mia tinha seus hábitos. Dormia com música clássica e pedia para ligar o aparelho de CD se chegava a sua hora. Nas viagens, acordava em todos os pedágios para observar. Na rua, se parávamos com alguém, ela também parava e esperava a prosa terminar. Em restaurantes, só se sentava se colocássemos uma toalhinha no chão. Andava entre um e outro de nós quatro, jamais à frente. Em todos os seus 13 aniversários tinha festa com decoração, banquete canino e vela. Nasceu em vinte e quatro de dezembro.

    Uma vez, apagou a vela com um soprinho. Tínhamos esse momento em vídeo. Ainda deve existir em algum arquivo digital… Foi o elo da nossa família, sem que soubéssemos dessa força.

    Com o tempo, Bruna arranjou a Summer, uma lulu-da-pomerânia quase anã – minha afilhada. Depois, apareceu o Charlie, irmão da Summer.

    Agitado, esbaforido, barulhento, comedor de chinelos, móveis e paredes.

    Zeca é o Charlie que veio morar comigo, amor à primeira vista de nós dois. Seu caráter não combinava com a pompa do nome, por isso, foi preciso rebatizá-lo.

    Mia, que morava com meus pais, uma senhora de classe, não teve paciência para o irmão.

    Pouco depois, ela começou a enfraquecer. Vieram exames. Um baço prestes a explodir, um fim de semana sem disponibilidade veterinária e o baço rompido.

    Câncer.

    Foi operada às pressas. Voltou para casa. Eu e papai fazíamos os curativos.

    Me lembrei de um incidente, anos antes, em que os olhos da Mimi ficaram pretos e ela perdeu os movimentos das pernas. “Cheiro de tinta”, sentenciou a veterinária, vindo da obra de um vizinho. Eu, que então morava no Rio, subi a serra e fiquei fazendo fisioterapia com ela, com o auxílio de uma toalha. Seus movimentos retornaram. O verde da esperança voltou a refletir em seus olhos.

    Eu passei o último dia da vida dela carregando-a no colo. Ela, molinha, outra vez. Levei-a para sentir o vento e o sol na área aberta do apartamento. A mesma na qual ela amava jogar bolinha com o papai. Mantive sua patinha na minha mão. Tentei oferecer comida.

    Mia nunca recusava comida. Naquele dia, entretanto, recusou. Água, apenas via seringa. Zeca circulava ao nosso redor e insistia em convidá-la para brincar. Não entendia nada.

    Bruna, no Rio, precisava chegar. Papai foi buscá- la no fim do dia. Mia esperou o quanto pôde.

    No fim da noite, Zeca tentou novamente se aproximar. Ela reuniu uma força que já não parecia existir e rosnou grosso:

    — Sai pra lá, moleque!

    Ele entendeu. Ficou perto, sem incomodá-la novamente.

    Minutos depois, abraçada por um de meus braços e acariciada pela minha outra mão, Mia olhou lúcida e profundamente nos meus olhos.

    Gritei por minha mãe.
    Mia suspirou forte.
    Eu sabia.
    Minha mãe, idem.
    Mia, mais do que nós.
    Zeca também; chegou a fechar os olhos nesse momento.

    Mia se foi como viveu: em paz e com muita classe. Era 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis.

    Três anos depois, há uma semana, saiu uma reportagem no jornal da minha cidade, A Voz da Serra:

    “Domingo é dia de São Francisco de Assis, o protetor dos animais”

    Na página de folha dupla havia a fotografia da Paróquia da Rua Duque de Caxias e, ao lado, em proporções enormes, um único cachorro nos braços de sua tutora.

    Era Mia.
    E era minha mãe.

    Mamãe, que estava na rua e sem óculos, recebeu uma mensagem com a foto do jornal no WhatsApp, enviada pela dona da banca. Respondeu:

    — Que legal.

    Emiliene percebeu pelo tom sem emoção alguma da escrita que ela não havia entendido. Ligou.

    — Você viu o jornal, Lucia?

    — Vi, dia de São Francisco, vamos levar Zeca para benzer amanhã. Sempre vai ser emblemático para nós. O dia em que a Mia partiu…

    — Lucia, você viu a foto?

    Então ela, desligando, deu o zoom no arquivo de imagem. E viu.mEnviou para mim e minha irmã no nosso grupo “Fofinhas”. Choramos as três. Três exemplares do periódico foram comprados.

    As cinzas da Mia repousam na estante da sala, ao lado das do papai, que partiu oito meses depois dela. Câncer, também; mesmo nível de avanço em ambos, metástase.

    Às 4h da tarde do dia 04 de outubro, eu e mamãe levamos Zeca para a bênção de São Francisco.

    Éramos 4: papai, mamãe, Bruna e eu. Quatro cachorros atravessaram a minha vida: Rique, Mia, Summer e Zeca. Comecei a escrever esta crônica às 4h da manhã.

    O “quatro” ancora ao chão aquilo que não podemos tocar, mas nos toca.

    Os vivos levam consigo os seus mortos. Sou um pouco Makepeace, personagem principal de “A Crônica das Sombras”: os fantasmas se alojam em mim, partilham das minhas forças, participam das minhas decisões e, às vezes, emprestam seus olhos aos meus.

    Eu tenho um cachorro — e uma pequena multidão dentro de mim.

    Naquela tarde, todos nós caminhamos com Zeca pela Rua Duque de Caxias.

  • Árvores Vermelhas (um exercício de escrita)

    Árvores vermelhas, de um vermelho vivo, intenso, de doer os olhos de tão forte. Uma alameda de pedras rosadas e gastas, fileiras de árvores (uma à direita, outra à esquerda). Não sei o porquê me veio à mente a palavra morte. Me Assustei de início. Olhei para um lado e algumas pessoas notaram meu sobressalto. Não dei atenção. A cor vermelha das árvores produzia em mim uma sensação estranha, ora uma calmaria desmedida, ora uma intranquilidade…não sei. Fazia frio e o vento a me bater no rosto como se quisesse me despertar. Não sei. Fazia frio e, ao longe, um barco pesqueiro, um horizonte gigantesco a me engolir. Pensei na morte talvez porque tenha perdido alguém conhecido e não… Talvez pelo modo como as folhas caíam ao chão, ressequidas, enrugadas.

    As árvores vermelhas balançavam como os meus braços ao redor de Ana. O desejo dela era simples: viajar somente. Cabelos curtos, pretos, olhos vivos e um pescoço macio protegido pelo cachecol azul. Ana falava de terras distantes, mais frias que o frio, e, ao me contar as histórias (eu nunca soube contar histórias) a lua parecia espreitar cada movimento, quase a nos cobrir de estrelas. Um riso e um calendário eram o sopro de vida, o que levava na mochila surrada. Não gostava de vermelho (e eu a olhar, a amar e desprezar as árvores vermelhas), adorava o azul. Sempre fechava os olhos por instantes, um período curto, porém intenso e depois admirava o céu e ria para mim. Ana escrevia poemas, lindos poemas. Nunca os li, mas eram belos porque Ana assim também o era.

    O vermelho parecia sangue a denunciar tristeza e melancolia. Sinal aberto e pouca atenção um grito e o desespero e ninguém ouvia ou fazia coisa alguma… Muitos gritos muitos gritos muito sangue e o sol a arder o coração e o cachecol azul vermelho e o sol o gosto ruim amargo na boca. Não sei contar histórias, nunca soube. Adorava ouvi-las da boca de Ana, uma boca enorme como o mundo que sorria no seu sorriso.

    Lembrava do sol pela janela estreita do quarto branco e via um mundo maior, muito maior que todos nós. Nós não víamos.

    Um rapaz passa com uma bicicleta laranja.

    Segundo parágrafo…Ana sorria… Duas mulheres olham confusas o garoto do skate.

    Segundo parágrafo… Ana sorria, tudo escuro e o vermelho das árvores tomava os meus olhos. Tudo era vermelho, solitário, vazio. Um dia resolvi ler um dos poemas escritos pela doce Ana. Palavras confusas como o trânsito da cidade…

    Um horizonte gigantesco a me engolir…
    e não sei contar histórias
    e não sei desenhar nos muros
    muito menos nas janelas.
    Palavras ao vento, jogadas, todas elas
    como um brinquedo de viagem.
    Nunca soube contar histórias
    Porque as histórias sempre contavam a mim…

    Um casal se senta ao meu lado e escuto o balançar dos galhos e o cair das folhas. É outono. É outono a cobrir o caminho de folhas mortas, a desenhar no céu um cinza pesado e a rir de mim como ria Ana. Não sei contar histórias, nunca soube.

    Página nove.

    Uma bola escapa do campo de areia, bate nos meus braços e derruba o livro que lia. Estava no penúltimo capítulo, quase a descobrir o segredo. Pensei comigo: “o que importa?”

    As árvores frescas, robustas na estrada, balançavam com o forte vento. Guardei o livro de capa vermelha como as árvores vermelhas da história quando um cachecol azul-vermelho veio parar aos meus pés. Ria de nervoso. Se soubesse contar uma história.

    “Depois termino.” — Pensei.

  • Vamos Barbarizar!

    Me virei na cama. Entre o sono e o sonho:

    Queria só beber. Girei.

    Bebê que sorria.

    Contei as letras. Nenhuma sobrava. Nenhuma faltava.

    Foi então que percebi: naquela noite, eu era um caleidoscópio.

    Meu poder não era criar palavras, mas embaralhá-las. As letras continuavam todas ali. Só mudavam de lugar. E, com isso, mudava tudo.

    No mundo dos sonhos, fui contratado como revisor de um jornal.

    Entrei na redação disposto a revolucionar o ofício. Adeus, manchetes sensacionalistas! Bastava uma giradinha e uma notícia desalentadora poderia ganhar outro sentido.

    Fui parar na seção de notícias do cotidiano.

    Comecei por uma que havia me feito rir no dia anterior:

    Homem casado é morto por moto de menina Z…, meio vesga, que morou oito meses presa no sótão pelo tio.

    Girei.

    As palavras se embaralharam.

    Preso homem amoroso que é investigado por estelionato e, ao mesmo tempo, namorou dezoito moças…

    Interessante.

    Mas faltava alguma coisa.

    Foi quando surgiu, ao meu lado, um sujeito de chifres vermelhos e espírito de porco.

    — Vamos barbarizar?

    Aceitei a sugestão.

    Girei outra vez.

    Homem que namorou dezoito moças ao mesmo tempo é investigado e preso por estelionato amoroso…

    Estelionato amoroso? Por essa nem eu esperava.

    Eu já estava gargalhando quando acordei.

    Corri para o papel e anotei as duas versões antes que desaparecessem.

    Voltei para a cama.

    E dormi de novo.

  • Outubro

    Mês em que faço aniversário…

    Há o que festejar?

    Sempre há! 

    E, quanto mais escadas eu subo, mais claramente enxergo o que realmente merece uma festa.

    Minha família, minha saúde, meus amigos, meus bichinhos de estimação, minhas plantas e as palavras.

    Ah, as palavras!

    São um presente precioso e merecem ser lembradas em todas as ocasiões.

    Quais palavras?, alguém perguntará.

    As minhas, as suas, as dos outros, as novas, as antigas, as que ainda não foram escritas, as que habitam mentes, corações e silêncios…

    O globo terrestre gira, as marés sobem, os planetas orbitam, os homens se amam e se matam.

    E a palavra? Sobrevive.

    Conta, enumera, empilha, desmancha, descobre, encobre, amansa, tumultua…

    Nada acontece entre o céu e a terra que a dispense.

    Dito isso, encerro com uma máxima frequentemente atribuída a Platão:

    “Os homens sábios falam porque têm algo a dizer; os tolos, porque têm que dizer algo.”

    Não me classifiquem…e também não me julguem.

    Ao contrário, me parabenizem!

    Afinal, é meu aniversário!

  • Carolina

    Eu quero que você saiba que ainda não decidi se vou mesmo fazer. Não sei se quero levar essa coisa adiante, se preciso mesmo. Claro, sou ansiosa, mas acho que todo mundo é um pouco hoje em dia. É, depressão também. Levantar da cama às vezes é tão difícil… Esse mundo tá um caos. Depois que a pandemia acabou, acho que ficou até pior. Sabe, me assusta um pouco a ideia de ter de dividir com alguém meus segredos, meus pensamentos mais íntimos. Eu sou atriz, acho que você não sabia, né? Claro que não sabia. A gente mal se conhece. Bem, tô começando, mas você acredita que meu primeiro trabalho profissional foi numa peça de Nelson Rodrigues? A temporada acabou no domingo passado. Bonitinha mas ordinária. Não, eu não era a protagonista. Era uma das irmãs da Ritinha. A Vera Fischer fez no cinema. A Ritinha, eu quero dizer, ela fez a Ritinha. Acho ele um gênio. Foda mesmo. Manda muito bem. Minha família toda foi assistir. Tios, primos, gente que eu não via já há um bom tempo. Até a Marina, que já trabalha lá em casa há 20 anos, foi com a Betina, a filha dela. Meu pai também foi. Ficou meio chateado porque apareci de peito de fora. Mentalidade atrasada, meu Deus. Aquela cena tava completamente dentro do contexto. Por mim, ele nem teria ido. Não somos próximos, ele nunca se importou muito. Eu tinha certeza que ele ia reagir mal. Enfim. E depois eu não quero que as pessoas pensem que sou uma patricinha que veio fazer terapia porque não tem mais nada pra fazer na vida. Tipo pra passar o tempo, entende? Minha família não é rica. Bem classe média, e esse tratamento é meio caro, né? Acho que isso aqui até pode me ajudar no meu trabalho de atriz. Tudo tem prós e contras, não é mesmo? Eu posso começar. Talvez o ideal seja eu começar sem compromisso. Sei que não sou obrigada a nada. Não precisa você me dizer. Não sou tão tapada assim. Verdade. Sou filha única. Não sou mimada. Quando falo que sou filha única, as pessoas logo pensam isso. Bem ao contrário. Mas não posso negar que durante muito tempo eu desejei muito ter um irmão, uma irmã, um primo adotado que fosse, a casa mais cheia, mais barulho, mais agitação… Acho que você entende o que quero dizer, né?

    — Carolina, minha filha, você ainda não está pronta? O táxi já chegou. Temos hora marcada, menina. Por que você se olha tanto nesse espelho? Ah, depois que você entrou pro teatro, resolveu ensaiar tudo. Até a vida.

  • Ah, o desencanto

    Vinicius de Moraes dizia que a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida. É, tem lá sua razão. Mas eu vou adiante umas casas no tabuleiro e adapto o que ele disse: a vida é a arte do encanto embora haja tanto desencanto pela vida.

    Encantar é uma arte. Exige muita atenção, percepção e disposição. Precisa de muitas doses de criatividade e jogo de cintura. Afinal, encantar alguém é envolver a pessoa em uma dança quase ritual de enlevo e, porque não dizer, acasalamento sim. Encanto é sedução.

    Por seu turno, estar encantado é ser seduzido, é permitir-se receber tanta atenção, é deixar-se levar por esse enlevo. É confiar. É passo a passo mostrar que cada gesto, cada palavra e cada ação da pessoa que decidiu nos encantar está dando resultado. Mexe com o ego porque, afinal, nada como ser o centro das atenções de alguém. Os dias escorrem preguiçosamente.

    Mas…. E se o descompasso toma o lugar do ritmo harmônico? E se os passos erram a direção? E se, mesmo sem querer, o encanto dá lugar ao desencanto?

    Nada é repentino. Começa aos poucos, sutilmente.

    Aqueles gestos e palavras tão carregados de sentido não encontram mais eco. São recebidos com indiferença e, tristeza maior, vistos como rotina. Cada movimento que um dia era original e especial agora são nivelados. Nada que faz é seu, alguém fez antes ou pior: todos fazem, e daí?

    Na sequência os atrasos, esquecimentos, gestos irritados, impaciência, cobranças disfarçadas, má vontade… O que antes era charmoso, se torna piegas. O gesto amoroso se torna possessivo. O interesse genuíno muda para insegurança. A palavra que causava sorriso, agora provoca sarcasmo.

    E os olhares apreensivos tentando entender o que está fora do lugar, onde foi que se tomou o caminho errado.

    O que faltou? Ou foi excesso?

    Será que a palavra dita na hora errada causou isso? Ou foi o silêncio quando era o momento de falar?

    Fui eu? Foi você? Fomos nós? Não foi ninguém?

    As pessoas não são culpadas pelo desencanto umas das outras, mesmo sendo de alguma maneira responsáveis por ele. É uma situação curiosa de responsabilidade sem culpa. Era inevitável, ia acontecer, não é intencional. Mas acontece. Nem sempre, mas acontece.

    No desencanto não há briga. Ninguém diz nada que possa se arrepender.

    Porém, fica tudo em suspenso, um tanto indefinido. E agora?

    Dá para apelar para aquele samba do Caetano Veloso, “Lealdade”: “Se o teu corpo cansar dos meus braços/Se teu ouvido cansar da minha voz/Quando teus olhos cansarem dos meus olhos/Não é preciso haver falsidade entre nós” ?

    A sensação de desencanto é como estar diante de um lindo campo vasto e profundo em um dia morno de sol, a tarde. Espera-se não se sabe bem o quê. Ou se sabe mas se evita.

    Fica-se ali. Diante de um vazio enorme, silencioso e triste.

  • Bravos genes brasileiros!

    Li há algum tempo que o Projeto Genoma conseguiu mapear mais de 98% do código genético humano. Trata-se de um feito semelhante à invenção do telescópio, que permitiu a Galileu perceber que a Terra não é o centro do Universo, e está no mesmo nível da descoberta da evolução (Darwin) ou do inconsciente (Freud).

    Segundo os cientistas que trabalharam no Projeto, sua maior contribuição ocorrerá no âmbito das doenças geneticamente transmissíveis, que poderão ser previamente detectadas e, por assim dizer, antecipadamente curadas. O mapa genético de um indivíduo – que, evidentemente, por muito anos só será feito em países ricos e custará muito dinheiro – vai dizer se ele desenvolverá câncer, diabetes, psicose maníaco-depressiva ou males semelhantes. Feito o diagnóstico precoce da possível enfermidade, esse indivíduo substituirá os genes que o predispõem a tal ou qual mazela, e pronto, estará delas livre para sempre. A tendência no futuro é que todos morram de velhice – se a monotonia decorrente de tanta previsibilidade não os fizer morrer antes.  

    A correção genética para evitar doenças será apenas um dos efeitos do Projeto Genoma. Haverá outros, tanto mais que, sabe-se hoje, a maior parte do nosso comportamento físico e psicológico é condicionada pela hereditariedade. Já se descobriu, por exemplo, o gene que determina a opção político-partidária do indivíduo. Ou seja, nem num domínio de aparente exclusividade ética e social, como o da opção ideológica, escapamos da tirania dos cromossomos.

    O problema é que muitos vão querer explicar o Brasil em função dessa primazia da genética. Se tudo é herdado, não temos culpa pela nossa preguiça nem pela nossa propensão a desrespeitar as leis. Não somos responsáveis pelo nosso caráter (ou pela falta dele). Se Mário de Andrade escrevesse hoje o Macunaíma, certamente não chamaria o seu herói de sem-caráter, mas de geneticamente defeituoso. Haverá quem veja nisso um refresco para a nossa autoestima, tão maltratada em razão do vergonhoso desempenho do País no controle da pandemia.  

    O que mais me anima na hipótese do mapeamento genético é que, se existem genes para todas as mazelas físicas e psicológicas, deve haver um que determine a corrupção. Conclamo os pesquisadores nacionais a pesquisá-lo e, o quanto antes, descobri-lo. Imaginem o que será o Brasil quando pudermos diagnosticar os pré-corruptos e aplicar-lhes uma espécie de punição preventiva. Sem falar do que ganharíamos em divisas isolando-lhes o material cromossômico e fabricando vacinas, que seriam vendidas com abundância e diversidade ao resto do mundo.

  • Lendas

    Pouca coisa é mais estimulante que a alegria de uma criança no início de suas férias. A expectativa desperta a imaginação que permanecia adormecida dentro das paredes da realidade. As coisas se tornam pessoas e objetos que não são tornam-se coisas. Os sonhos tocam a matéria que, por sua vez, devolve em cores e movimentos.

    Mas como a tese não se torna síntese sozinha, ainda há uma antítese (que não torna a experiência menos interessante, pelo contrário). Assim como as dríades, elfos e fadas se despertam, também as bruxas más, os monstros e as bestas afastam-se da hibernação.

    — Vamos, filha. Já está tarde — Grita a mãe.

    — Estou indo, mãe. Estou indo — A criança respondeu enquanto apertava alguns brinquedos na mala estufada.

    A pequena Bartira estava a caminho da casa de sua avó que morava em uma cidadezinha no interior de Goiás chamada São Patrício.

    Ela, o irmão e primos sempre planejavam e imaginavam todas as aventuras que viveriam no sitio.

    Na estrada, Bartira se imaginava pulando pelas árvores que corriam em grande velocidade através da janela do carro. Por fim , adormeceu agarrada a Bilbo, seu coelho de pelúcia marrom.

    Interrompendo seu sono — não muito confortável — escorada junto à janela do carro, Bartira quase caiu quando Rita, não conseguindo conter a ansiedade, abriu a porta do carro sem aviso prévio.

    Ignorando o constrangimento (e os gemidos mal-humorados de Bilbo) ambas saíram saltitando com gritinhos, contemplando todas as possibilidades que viveriam no próximo mês.

    Na primeira semana as cinco crianças ( na realidade, eram seis, mas Ana não era contada por ser muito nova para a aventuras), se mantiveram investigando dentro dos arredores da casa da avó, coisa que era tradição entre os primos. Não encontraram muito mais que alguns parafusos que o avô havia pedido e roupas velhas de gerações que eram guardadas, o que lhes rendeu alguns dias de muita risada e entretenimento.

    No início da terceira semana, durante a noite se ajustaram ao redor de uma fogueira montada no curral do avô para contar seus medos em formato de histórias, era quase como uma competição sobre quem causaria o maior assombro no grupo.

    Bartira foi escolhida para protagonizar a primeira noite, contou-lhes todas as histórias que conhecia sobre o temido curupira.

    Nesta, voltaram em silêncio conferindo os lados da estrada de terra, para prevenir qualquer aparição.

    A segunda noite foi a vez de Tito Tavares tentar a sorte. O rapaz amava os animais, em especial, admirava os equinos. Como uma contradição que carregava, contou a todos a história do personagem que mais temia, e depois daquela noite também temido por todos ali, a mula sem cabeça.

    Na Quarta feira, os gêmeos Andrade dividiram o conto de feitos da caipora, amiga das florestas e inimiga dos caçadores. Ivan detalhou a aparência animalesca e suja da personagem, já que, este morria de medo de tudo que possuía um rosto que não fosse familiar a sua vista. Enquanto Ravi descrevia os assobios que caipora cantarolava ao passo que enrolava a crina dos cavalos desavisados das fazendas, o calor do fogo que carregava aceso em sua tocha e, por fim, os roncos do javali, em que montava. Ravi, que por sua vez, detinha um medo mortal de barulhos sem rostos, concluiu o terror com maestria.

    Na quinta choveu e não houve o encontro, então se contentaram em remarcar para o próximo dia. Todos suspiravam aliviados pela noite sem pesadelos, mas ninguém ousou dizê-lo, pois poderiam ser taxados de covardes pelos primos, que em secreto, também tremiam.

    A noite de sexta foi a pior de todas, a tempestade do dia anterior deixou a aura ainda mais sombria. A lua, por mais cheia que estivesse, era por hora tapada pelas nuvens que passavam e as estrelas piscavam como pequenas bombas prestes a explodir.

    Ventava bastante o que dificultou a montagem da fogueira, mas desta vez não a fizeram no curral, pois o avô naquele dia recebeu gado novo.

    Se a noite pudesse falar, diria a eles para não saírem de casa, quem dera pudessem ter ouvido antes de ser tarde demais.

    Os cinco recorreram ao milharal do tio que ficava a pouca distância da casa. Aquilo mais parecia um labirinto, mas Tito era bom com direções e guiou o grupo até o meio, onde alguns peões descansam em época de colheita. Todos chegaram pingando encharcados pela umidade que as folhas guardaram, a chuva se estendera até a tardinha e havia estiado a pouco.

    Ravi alimentava a fogueira com os galhos mais secos que o irmão havia recolhido, resultado: fogo fraco, amarelo. Todos irritados com o vento frio e a garoa que ainda secava.

    A oportunidade da noite estava com Rita, que preparou seu enredo por dois dias. O monstro escolhido foi o Boitatá, a cobra guardiã dos animais e inimiga de invasores. Durante a história não havia som ambiente, todos os roedores e animais noturnos resolveram se refugiar — a não ser por um.

    A voz da garota de cabelos cacheados se tornou mais séria, em conjunto com a luz fraca do fogo que dançava em suas feições, era impossível taxar todos os acontecimentos narrados como uma invenção.

    Rita se empolgou na descrição das escamas que refletia as fortes chamas que crepitavam em sua cabeça, quando somado a imaginação dos ouvintes, a raiva personificada dos olhos do réptil se tornava palpável.

    Ao decorrer da história, todos abaixo da lua que subia no céu abafado, tremiam, não responsabilizando as rajadas de vento que criavam mais força a cada hora. Em alguns momentos as crianças  pensaram escutar barulhos de passos na estrada ao longe.

    Quando, chegando próximo ao fim da história um ronco se ouviu no meio do milho, Ravi soltou um grito cortado pela mão de Ivan que estava ao lado observando o negro da escuridão junto a Tito.

    Bartira congelou onde estava. Não se atrevendo a mover um músculo sequer.

    — Ele não sabe onde estamos — Cochichou Rita após mais alguns ruídos se afastando.

    — Se mantermos o silêncio, ficamos invisíveis — Concluiu Tito um pouco mais alto que um sussurro.

    Com a ajuda de Ivan, Tito jogou terra úmida na brasa já fria e todos se sentaram quietos. Bartira se agarrou ao braço de Ravi no centro do pequeno círculo, ansiava com todo seu ser estar na casa da avó abraçada a Bilbo.

    Assim que pensaram ter dissipado o-que-quer-que-fosse, uma labareda em movimento se acendeu não muito distante dali, juntamente com um assovio cantado.

    Bartira foi a primeira a notar, e tivera a certeza de ser o moleque de cabeça quente e pés torcidos que falara a dias atrás. Tapou a boca com a mão e se atirou no milharal em desespero.

    Os gêmeos Andrade se entreolharam, seus olhos quase saltando das órbitas, correram juntos na direção oposta a de Bartira. No caminho foram atropelados por um porco gordo que disparava sem direção. O desespero de Ivan foi tanto que vomitou ali mesmo, ambos saíram tagarelando sobre como a caipora os enredou de jeito.

    Rita, ficou algum tempo congelada, apenas o lamento preenchia sua pequena mente de grande imaginação, pensara ter lançado uma maldição sobre todos com seus exageros sobre a pobre cobra. Suada em desespero, seguiu os outros.

    Tito, o mais velho e o único que sabia sair do labirinto, tentou sem sucesso conter a turma antes que se separasse. Ele mesmo chorava, ao notar o fogo da mula sem cabeça perseguindo os vultos que deviam ser os pequenos desesperados. Mergulhado no horror começou a andar em círculos. Ainda tentava chamar para perto os outros com cochichos embargados.

    Aos poucos, cada criança acabou achando a estrada por si mesma, algumas mais rápido que outras, ignorando a dor das pequenas pernas nem sequer olhavam para trás ao rumar a toda velocidade em direção a casa da avó.

    Já era tarde da noite, o satélite noturno já se encontrava em seu ápice e Tito acabou vencendo o medo, não o suficiente para adentrar novamente ao milharal, mas permaneceu a beirada da estrada esperando sua irmã.

    — Bartira, vamos. Está tarde. — Gritava

    Por fim, após alguns minutos — que mais pareceram horas — Bartira respondeu em desespero:

    — Estou indo, Tito, estou indo.

    Assim que sua irmã apontou na estrada, toda suja e molhada, o menino agarrou sua mão e disparou.

    Durante toda a terceira, e última, semana nem a luz do sol pode convencer os miúdos a saírem de casa.

    Um fato engraçado é que no dia anterior aquela sexta-feira, eles não imaginavam — nem sequer poderiam. Durante a tempestade,

    Capitão, o porco de estimação do tio José havia quebrado o chiqueiro e fugido junto com os outros, deixando um rastro de bagunça por todo terreno.

    Quando o José ouviu ruídos tarde da noite no meio do matagal achou ser seus porcos. Agarrou a lamparina e correu para alcançar os fujões. Foi com isso que os pequenos, eufóricos, confundiram com o fogo mítico e o assobio era a forma do tio se comunicar com sua vara.

    A cena era cômica para quem assistia, o tio correndo atrás dos vultos dos leitõezinhos e os pequenos correndo de sua sombra. A noite ia caindo e o fazendeiro finalmente se cansou, oferecendo a trégua que as crianças precisavam para fugir.

    Quando mais velhos, cada um contava a história de sua própria maneira. Sempre que confrontados pelas novas crianças sobre divergências na história diziam ter ocorrido em ocasiões diferentes quando cada divindade apareceu, mas no próprio peito cada qual tinha a certeza do que viu — ou o que achou ver. Todos ainda se lembram até os dias de hoje com a nitidez dos dias de ontem.

  • A vaca atropelada

    O carro do professor foi guinchado até ao Plantão Policial de Franca para registrar um boletim de ocorrência de acidente na estrada. Sobre o porta-malas, com as patas para cima, uma vaca morta. O que é isso, professor? Uma vaca em cima do carro? E com as pernas para cima? Que desconfortável!

    Mas está rindo do quê? Ah, já passou o susto! E que susto, hein?! Ele voltava de Franca para São Joaquim da Barra, quando viu três vacas no meio da estrada. Desviou da primeira, driblou a segunda, mas não conseguiu se safar da terceira. Pegou em cheio a coitada. Nem viu onde foi parar, nem imaginou onde poderia ter ido parar a desgraçada da vaca: em cima do porta-malas do carro.

    Ainda estava viva. Parece que sorria, a imprudente. Achando graça do quê? Já disposto a descarregar toda a sua raiva sobre a danada, viu-a exalar o último suspiro, um suspiro gostoso, bem prolongado. O que fazer agora? Chamou o guincho, e toca para a Delegacia. Verdade que estava ferido só na mão esquerda, mas alguém tinha que pagar pelo carro amassado – e quase me mata, corri perigo de vida!, diz. Fez lavrar o boletim de ocorrência, a Polícia vai ter que se virar e descobrir o dono da vaca.

    Já pensaram? O cara chegar na Delegacia com uma vaca em cima do carro! Isso é que é matar a cobra e mostrar o pau! Mostrou a vaca, o que é bem mais difícil. Não tinha outra alternativa? Poderia levar a vaca para casa, daria um bom churrasco. Chamaria os amigos, e os amigos dos amigos, e os cachorros da vizinhança, os gatos, os mendigos, quem quisesse saborear um delicioso churrasco – teria carne para todos. Sem miséria! Sirvam-se à vontade, meus amigos e meus inimigos. Desse momento em diante, não teria mais nenhum inimigo. Um bom naco de carne compra qualquer amizade.

    Mas o dono não iria reclamar? Se reclamasse, teria antes que pagar o prejuízo. Depois, seria comprado com um belo churrasco. Já disse um sábio (o guru do Meyer, Millôr Fernandes) que todos somos venais, é só questão de combinar o preço. E a um churrasco quem poderia resistir? Seria um preço muito bem pago. O problema foi o transporte: o carro avariado, mais que arrebentado – como transportaria a vaca? Se nem saía do lugar! Pois não teve que chamar o guincho? O quê?! O guincho não poderia levar o carro e a vaca para casa? Tinha que levar para a Delegacia?

    Lembro-me de um conto de Rubem Fonseca. Uma vaca foi atropelada por um trem, ficou lá estirada na linha. O que fez a população? Comeu a bicha. Um prato suculento, os favelados em volta morrendo de fome, não deixaram por menos: retalharam posta por posta de carne, distribuída equitativamente – ou mais para quem pudesse mais. Quem parte, reparte e não fica com a melhor parte ou é burro ou não entende da arte. Gozado que Rubem Fonseca era um escritor sério, que sabe o que faz, não iria fazer um plágio – justo com uma vaca! Sem querer, uma bruta coincidência, mas acontece que Stanislaw Ponte Preta já tinha contado a mesma história. Cruzes! A vaca foi retalhada duas vezes.

    E se fosse uma vaca na Índia? Ou por aqui mesmo, que temos muitos herdeiros do xintoísmo hindu. A vaca é sagrada. É mais do que sagrada. Poderia ser a encarnação da mãe do dono, ou da avó, da bisavó. De alguém da família. De um recém-nascido, que não teve forças para suportar este mundo imundo, foi-se – mas retornou na pele, ou no couro, de uma vaca. Não faça mal à vaca – isto daria um poema, poderia ser um refrão, um mantra, uma jaculatória. Não faça mal à vaca!

    Fez muito mal o professor em levar a vaca à Delegacia. Fez mais mal em não comer a vaca, tão apetitosa. Fez mais mal ainda em não ver o que de sagrado, de poético, de encantatório não havia por trás, por dentro da vaca. Não foi à toa que Jorge de Lima compôs um de seus melhores poemas dedicado à vaca: “A garupa da vaca era palustre e bela”. Por que teria o poeta chamado a garupa da vaca – e não anca, muito menos bunda – de palustre? Os poetas têm iluminações que ninguém entende – por isso são iluminações, por isso são, eles, poetas.

    Ah, o professor não poderia ter levado a vaca à Delegacia – que crime cometeu ela? Nem poderia ter comido a vaca – comem-se vacas anônimas, mas essa já ficou fazendo parte da minha mitologia particular. Muito menos poderia ter matado a vaca – que essa vaca, se não é santa, se não é fada, se não é nenhuma mulher amada, ah, essa vaca entrou no meu sonho e os sonhos não podem ser mortos. Professor, ou pelo menos você, meu improvável leitor, faça uma prece pensando na minha vaca – eu dormirei mais tranquilo sabendo que ela foi pelo menos motivo de uma prece, que é a forma mais poética de sonhar. Amém.

  • A infância bateu na porta

    No domingo de manhã, enquanto eu lia no computador, percebi que a rua onde moro estava mais agitada do que o normal. Parei de escrever e fui ver o que era. Cheguei à rua e fiquei abismado: tanta gente andando de carrinhos de rolimã. A vizinhança toda. A rua, que foi fechada só para isso, ficou cheia de gente com velhos, crianças, marido e mulher, homem quarentão. Todo mundo com seu carrinho. Estava tão bom que resolvi deixar a leitura para outro dia. Quando eu vi uma mulher, de cabelos grisalhos amarrados, descendo naquela algazarra toda — meu Deus!  — nada mais pra mim no mundo importava.

    Quando fui colocar o pé na rua para ver, meu primeiro desejo foi filmar. Peguei o celular, apontei a câmera e, de repente, um homem sorriu ao ver que eu estava gravando. Minha vontade era postar o vídeo e dizer: “Olha que delícia a minha rua!  Ela é tão divertida e alegre!” Eu, que já beiro os meus 42 anos, só me preocupava em gravar, registrar, compartilhar.  Enquanto isso, todo mundo ali só pensava em correr, gritar, sair, voltar. A ladeira, aqui em frente à minha casa, é íngreme. Naquele dia, ônibus só na rua de trás.

    Na minha infância, nada era mais simbólico do que o carrinho de rolimã. Naquela época, como não havia ainda celular, jogos, redes sociais, posso dizer que fui uma criança com o pé no chão.  Os carrinhos faziam a rua parecer uma pista de Fórmula 1.  A molecada corria veloz, gritava, ralava o joelho e, o pior de tudo, é que na minha infância o Mertiolate ardia. Parar? Só quando a mãe chegava à porta para avisar que a janta estava pronta. Mas, antes do jantar, a mãe da gente sentava com as vizinhas na porta de casa para colocar o papo em dia.  Para falar a verdade, nunca tinha andado de carrinho de rolimã até domingo passado.  Como também nunca fui de subir na laje para soltar pipas, cortar a linha dos outros meninos com cerol, a vida toda fui ruim de bola. Mas, na semana passada, já homem, enquanto eu filmava, um rapaz perguntou se eu iria ficar olhando. Quer saber?  Peguei meu carrinho, fui  até  lá  e me juntei a todo mundo.

    Eu olhava para a rua e é como se, pelo menos naquela manhã, ela voltasse a ser o que ela nunca deveria ter deixado de ser.  Aquela alegria barulhenta, com gente conversando na porta de casa, crianças inventando brincadeiras, o tempo passando devagar.

    De uns tempos pra cá, com essa história de todo mundo passar tanto tempo no celular, a rua ficava assim meio quieta demais.  Todo mundo ainda passa, dá bom dia; mas, aquele papo demorado e as horas de domingo na calçada pareciam ter ficado no passado.  Só que, semana passada, com uma tenda montada com água mineral e frutas, a gente foi à forra. Quando eu via aqueles homens feitos, do meu lado, subindo e descendo a rua com o carrinho, eu quis que aquela manhã não acabasse nunca. Era como se, de repente, a meninice de todo mundo fosse uma só. Idosos dos bairros vizinhos, crianças, avós, marido e mulher, todo mundo junto.

    No começo, confesso, pensei em ficar apenas no desejo mesmo. Queria admirar, assistir, até mesmo fazer uma crônica. Mas… a minha vontade de “brincar com os coleguinhas” falou mais alto. Eu subia, descia, ia, voltava mesmo com o sol e aquele calor danado que eu estava sentindo.

    Dali, descobri uma coisa interessante. A criança que a gente foi nunca some de todo.  Precisa só que a gente dê asas à imaginação, aproveite as oportunidades. Certa vez, um amigo que gosto muito, me disse que certas chances na vida da gente não voltam, que é preciso aproveitar. Aí deixei a vergonha de lado e saí para brincar. Eu não sei quando vai acontecer outra vez, mas sempre que acontecer, eu vou.

  • Próprio esquecimento

    Comecei a perceber isso no meio de uma terça-feira qualquer. Eu estava no ponto de ônibus quando vi uma senhora, muito idosa, com um carrinho de feira cheio de sacolas, e de repente minha garganta apertou. O sentimento ficou ali por uns segundos, igual um espirro que não veio. Depois passou. Quanto mais vivo, mais me convenço de que sou um mau conhecedor do meu próprio terreno. Meus sentimentos chegam sem bater, falam uma língua que não aprendi direito, e vão embora deixando o queijo e a faca em cima da mesa. Tem hora que o medo se fantasia de indiferença, e a gente diz “não estou nem aí”, quando no fundo está tremendo. Somos tradutores terríveis de nós mesmos. O texto é original, é claro, mas a gente insiste numa versão malfeita.

    Lembro de uma amiga que perdeu o pai. Na semana seguinte, estava no trabalho, rindo de uma piada. Alguém comentou, em voz baixa: “Olha como ela já superou.” Ela não tinha superado, só estava rindo porque o corpo precisava de ar, e rir é um jeito de respirar sem pedir licença. Com o tempo, descobri que não adianta brigar com esse estrangeiro que mora em mim. Ele vai continuar falando sua língua esquisita e deslocando os móveis de lugar. O truque é aprender algumas palavras de cortesia. “Estou sentindo alguma coisa esquisita.” “Acho que isso não é bem o que parece.” Ser estrangeiro de si mesmo não é defeito, é condição humana. A gente vive nesse vai e vem entre sentir e entender, entre o que explodiu e o que conseguimos traduzir. Hoje mesmo, olhando a janela, senti uma pontada. Não sei se é saudade de alguém, se é medo do amanhã, se é só fome passando disfarçada. Afinal, estrangeiro também se vira. Aponta, faz mímica, sorri sem jeito. E no final, acaba encontrando quem fala a sua língua. Mesmo que seja um vizinho, um cachorro, ou a própria tarde acalmando devagar. No livro “O estrangeiro” de Albert Camus, o personagem Meursault, descrito como um estrangeiro de seus próprios sentimentos, descreve outra interpretação do sentimento desconhecido. Ele é um colono francês, desapegado emocionalmente, sincero ao extremo e alienado das normas sociais, frequentemente usa a frase “tanto faz”. O personagem age friamente em relação a morte de sua mãe, e ao convívio com a mulher que ele passou a se relacionar. Acha belo somente o exterior que o circunda, a luz externa, o brilho fosco do que vê, porém sem afetos. Quase um psicopata, que não tem sentimento com o outro, vive em total falta de empatia, por vezes se colocando como vítima da sociedade e sem solução. É um homem apático e honesto que mata um árabe após uma série de eventos casuais. Indiferente à moral social, ele é julgado mais pela falta de emoção no funeral de sua mãe, do que pelo crime cometido, ilustrando o “absurdo” da existência humana, essa que carrega tantas nuancias, a qual necessitamos uma dedicação atenta, para não cairmos na banalidade do próprio esquecimento.

  • A revolução dos livros

    Os livros começaram a se infiltrar de novo. Fazem isso de madrugada, quando os sonhos se confundem com a realidade. Eram discretos antes, descarados agora. Hoje apareceram três ao lado do espelho do banheiro. Perdi a conta dos que se amontoaram sob a minha cama. Um livro velho sobre cidades fantasmas é particularmente teimoso. Achei que não gostava dos seus vizinhos de estante, então o coloquei sozinho na mesinha de cabeceira. Acordei com ele em cima do meu travesseiro, pedindo para que o abrisse. Fui com ele até a cozinha, com a intenção de procurar um espaço onde ficasse confortável. Ele pareceu se sentir bem dentro do armário, entre o pote de café e o de açúcar.

    Comecei a ter medo de todos eles, principalmente dos que se atiram das estantes como laranjas maduras, implorando por atenção. Os livros já não respeitam o menor espaço de minha casa e está difícil trabalhar sem a intromissão deles. Tentei fugir, mas sempre sabem onde me encontrar. Se as coisas continuarem assim, serei engolido por um deles e acabarei como aquelas flores secas que às vezes encontro entre uma página e outra.

  • Emoção fora de hora

    Nara sacudiu a minha cabeça, de novo. Ela tem o poder de me bagunçar. Sabendo que sou autista e não me dou bem com o imprevisto, deveria me preservar. Na última semana, ela tomou sozinha uma decisão importante: disse que ia comprar um husky siberiano. Moramos num apartamento de aproximadamente 110m². Ela brinca com a minha paciência e com a minha sanidade. Passei noites em claro pensando em como demovê-la de tal decisão. Veja só, já temos três gatos. Para ela, o que importa é que, quando pequena, criou dois huskies siberianos, e tem uma saudade danada daquela época. Só que, convenhamos, ela morava numa casa de, talvez, 300m², que tinha inclusive um canil, pois meu sogro amava os cachorros. Ou seja, morava com gatos, cachorros e passarinhos, sem comprometer o espaço – hoje, sobre pássaro enjaulado, ela tem repugnância. E eu não posso abrir o bico, porque estou “botando catinga” para as coisas de seu interesse; sou uma espécie de mal agouro para os seus arroubos de felicidade. Agora, passa o dia a procurar nos anúncios o bendito cachorro, e vem me mostrar o resultado, toda contente. Minha expressão, no entanto, é de aceitação, sem vibração. E, perceba, essa ideia é antiga, mas voltou com força total depois da morte de sua mãe, dona Aglais; daí o porquê de ser um assunto tão delicado. Enquanto ela efetivamente não compra, penso que isso é somente um sonho. O pior é que não posso abandonar o amor que sinto por ela, jamais. Na verdade, é uma paixão avassaladora que nos une, e quero sempre vê-la feliz – contanto que não me comprometa. Não é por acaso que estamos casados há vinte anos. Optamos por não ter filhos, porque sabemos que ser pai e mãe é uma responsabilidade tremenda. E, também, não temos aptidão para sermos pais, viajamos muito, trabalhamos muito, e tudo isso inviabiliza a criação. Então, hoje somos somente pais de pets. Não sei como vou lidar quando esse cachorro chegar. Nem ela quer saber se o condomínio aceita um animal desse porte – pelo menos, nunca vi um animal aqui maior que o Shin Tzu da minha vizinha Renata, do 601. Mas ela quer, e, quando quer, não há jeito que mude o fato sacramentado. A mulher, além de toda a força que tem, é opiniosa. Ela fala em se candidatar a síndica, possivelmente para viabilizar as suas vontades. Na última briga que tivemos, por causa do cachorro, ela sugeriu que preferia o cachorro a ficar comigo – culpa do Lucky e da Brigitte, seus antigos cachorros, que iluminaram os seus dias, quando criança. Falou isso como se dissesse que os incomodados que se retirem. Fiquei magoado, principalmente por não poder divergir dos assuntos de sua autoridade. Nara promete que vai buscar o cachorro até a próxima semana. Enquanto isso, preparo o coração para mais uma emoção fora de hora.

  • Um pequeno elogio à mentira

    Muitas são as facetas do comportamento humano que atraem os mais bisbilhoteiros como eu. Estudiosos dos mais diversos campos dedicam horas a fio para compreender as incríveis nuances de atitudes consideradas desviantes do padrão moralmente desejável. Seja por uma perspectiva sociológica, seja por uma abordagem psicológica, os desvios comportamentais são sempre vistos como uma transgressão de regras socialmente criadas.

    O que é visto como “normal” não apenas nos compele a agir de certa maneira, como também promove uma certa estabilidade nas relações sociais e uma até saudável previsibilidade do comportamento humano. Entre as diferentes formas que rompem essa segurança e que mais chamam minha atenção está a chamada pseudologia fantástica – termo um tanto empolado para mentira patológica. Aqui, não me refiro às mentirinhas que, de vez em quando, tanto eu como você acabamos contando por aí. Falo do sujeito que mente, compulsivamente, por prazer, sem maiores necessidades práticas. Mais do que isso, do indivíduo que acaba acreditando em suas próprias invencionices e relatando fantasias com total convicção.

    Como leigo que sou, não sei dizer o quão tênue pode ser a linha que demarca, arbitrariamente, a diferença entre o “normal” e o patológico, o saudável e a mitomania. Na verdade, nem tenho a pretensão de discutir a fundo tema tão alheio aos meus mirrados
    conhecimentos. Todavia, o que me instiga a falar sobre a mentira é o lado cômico desse desvio comportamental. São as estórias tão fantásticas e absurdas, que raras são as pessoas que as levam a sério. Algo como aqueles contos relatados por um certo Chicó – imortalizado pelo mestre Ariano Suassuna em sua obra O Auto da Compadecida. Ou ainda aquela falsa gravidez de quadrigêmeas desmascarada por um programa de televisão em Taubaté.

    Creio que poucos tenham tido a oportunidade de conhecer e de interagir com um mitômano. Talvez não existam manuais que ensinem a lidar com situações do tipo, mas a sensatez e a razoabilidade dispõem-se a servir de orientação para esses casos potencialmente tensos e embaraçosos. Claro está que as mentiras podem envolver questões muito mais sérias do que a comicidade que aqui menciono. Mas deixemos seu lado obscuro e antissocial aos psicólogos e aos sociólogos de plantão. Satisfaçamo-nos, pois, com a superficialidade mais profana de um atento e meticuloso ignorante.

    Existem os mentirosos anônimos, que ainda não foram descobertos pela grande imprensa. Esses podem ser vistos em quaisquer cantos, engambelando seus vizinhos, contando vantagens inexistentes, criando um passado que não existiu. A maioria deles é
    inofensiva, salvo quando o assunto envolve pecúnia ou empréstimo de algum objeto. Convém sempre manter uma certa cautela, visto que, se tiverem oportunidade, não hesitarão sequer em ludibriar seus amigos mais próximos. Se o sujeito for parente, abra o olho! Prudência redobrada, como diz o outro! Mas suas fantasias costumam ser tão absurdas que delas até Deus duvida.

    Existem também os mentirosos que viraram celebridades. No começo, todo mundo admira seus supostos feitos, suas pretensas qualidades e suas inexistentes credenciais sociais. Costumam associar a lábia ao charme, a criatividade à trapaça. É daí que surgem vigaristas como Frank Abagnale, Jr, aquele personagem vivido por Leonardo DiCaprio em filme de Steven Spielberg. O problema é que, conforme mostra o enredo de Prenda-me se for capaz, golpistas desse tipo costumam cair em contradições insolúveis. Eis o momento em que o trapaceiro perde o controle sobre sua narrativa e seus ouvintes e passa a responder por estelionato, o famoso artigo 171 de nosso Código Penal.

    Enfim, que fique claro que não incito ninguém a tal tipo de desvio de comportamento! Eu mesmo tento sempre ser verdadeiro em minhas falas e ações. Mas quem nunca foi pego em flagrante com alguma mentira de menor valor? Só sei que, quando confrontado com perguntas que desmoronam meu relato desprovido de base factual, costumo me lembrar da tão utilizada resposta do famoso Chicó: não sei, só sei que foi assim!

  • Deus do Tempo

    Já parou e sentiu a sensação de que o tempo está passando depressa? Acordamos, fazemos nossas tarefas e, logo que nos damos conta, acabou. Parece que o dia não tem mais vinte e quatro horas, a semana, sete dias. Às vezes me pergunto: será que o tempo realmente está passando rápido demais ou eu que estou muito acelerado? Um dia desses chorava para não ficar na escola, ficava irritado com a hipótese de levantar da cama, tomar um banho gelado, colocar o fardamento e ir, só ir. Ficar naquele espaço, entre quatro paredes brancas e rabiscadas, por toda uma manhã, era muito chato, cansativo e irritante, mas meus pais nunca me deixavam seguir a minha própria vontade.

    — “Mãe, posso ficar em casa hoje? Estou com preguiça de ir pra escola…”

    — “De jeito nenhum! Como você vai ser alguém na vida, meu filho?”

    Eu não entendia, pois a birra da fase de criança me cegava, não enxergava as sábias palavras que meus pais proferiam pensando somente, tão somente, no meu bem. Lá vou eu… 1+1, 2+2, vogais, consoantes, verbos, substantivos… Coisas que não serviam de nada naquele momento, pareciam só baboseira, mas… O tempo passa e como passa…. Ele passou… o momento de brincar, pular, fazer birra, reclamar da aula, ficar conversando baixinho com os colegas passou… Lá se foi meu ensino fundamental. Tantas memórias boas, de igual modo, quantos desafios… ficaram na fotografia, na lembrança. O tempo não brinca. Quem diria que um dia, em meio à execução de um trabalho escolar, receberia a foto da minha vó em um pôster de óbito. Ninguém espera ou mesmo consegue prever o minuto futuro. Só sabemos de uma coisa: o tempo passa. E junto com ele são criadas memórias, as quais nunca mais serão revividas, não da mesma forma.

    Tem momentos que me pergunto: Será que se eu voltasse atrás faria algo diferente? Mudaria alguma situação? Se eu pudesse… talvez… A vida, assim como o vento, passa de forma tão leve e sutil que nem percebemos, só sentimos seu frescor. Quando nos damos conta, bum! Passaram-se um ano, dois anos… Não brinque com o tempo, uma vez que pode perder oportunidades significativas. Não encare as dificuldades do caminho, olhe para os detalhes da trajetória: o sol nascendo pela manhã, o cantar dos pássaros, o sorrir de alguém, o abraço que nem sequer foi pedido… São detalhes como esses que fazem a vida ser feliz, ter sentido, nada é por acaso. Ao olhar para trás, hoje, consigo perceber a importância de cada puxão de orelha, cada momento difícil, cada lágrima vertida. Deus é através do tempo, o qual pode até passar; todavia, as palavras daquele que vive eternamente não passarão.

    Atualmente, em pleno exercício do ensino médio, quase na reta final, encaro inseguranças que me trazem à mente uma reflexão: como será o amanhã? Será bom ou ruim? Não sei, mas de uma coisa tenho convicção: Deus tem planos infinitamente maiores para nós, por isso, mesmo que minha alma apresente inquietações, sei que Ele me sustenta e traz, sempre no momento certo, a segurança de que tudo está sob seu controle. A vida passa, o ensino fundamental passa, o ensino médio passa, a família passa, as histórias de vó passam, tudo deste mundo passa, contudo a Palavra do Senhor é através de todas as eras e perpassa os limites da história.

  • A liturgia do indizível

    Há dias em que acordo acreditando que ainda caminho em direção a mim. Em outros, compreendo que não existe caminho algum. Existe apenas o intervalo entre um pensamento e outro, onde a escrita resolve acontecer.

    Não escrevo porque sei.

    Escrevo porque desconheço.

    O cigarro, quase sempre, anuncia esse instante. A fumaça sobe como se soubesse o percurso que eu jamais consegui aprender. Enquanto ela desaparece, alguma palavra decide permanecer.

    Há um ritual nisso tudo.

    O papel nunca me pergunta quem sou. A caneta nunca exige explicações. Ambos apenas aceitam aquilo que consigo suportar dizer.

    Quando a tinta acaba, resta o lápis. Quando o lápis falha, ainda existe alguma margem onde a mão insiste.

    Talvez escrever seja isso.

    Insistir.

    Visto cores diferentes conforme o dia, mas nenhuma delas consegue vestir completamente aquilo que me habita. O branco tenta me pacificar. O cinza aceita minhas dúvidas. O preto conhece meus silêncios. O azul, curiosamente, sempre me devolve uma esperança que nunca faz barulho.

    Tenho vivido mais recolhido.

    Não por medo do mundo.

    Talvez por excesso dele.

    Existe uma solidão que machuca e existe outra que organiza. Ainda não sei em qual delas habito, mas aprendi a não fugir quando ela bate à porta.

    Tenho saudade de mim.

    Não daquele que fui.

    Também não daquele que imagino ser.

    Tenho saudade de alguma parte que ainda não encontrei.

    E isso deixou de me assustar.

    Hoje prefiro a curiosidade à certeza. As certezas costumam envelhecer depressa. As perguntas permanecem respirando dentro da gente.

    Sou feito de muitas versões que dificilmente conversam entre si. Algumas se abraçam. Outras se contradizem.

    Há dias em que uma salva a outra. Há dias em que todas desaparecem ao mesmo tempo.

    Talvez seja isso que chamam de existir.

    Escrevo sem procurar beleza.

    Sem procurar respostas.

    Sem procurar leitores.

    Escrevo porque algumas dores só aceitam existir depois que recebem um nome.

    E, curiosamente, depois de escritas, já não me pertencem da mesma forma.

    Cada palavra leva um pouco de mim.

    Cada texto devolve alguém que ainda não conheço.

    Enquanto isso acontece, continuo vivendo.

    Transformando-me.

    Desfazendo-me.

    Refazendo-me.

    Sobrevivendo.

    Talvez a escrita nunca tenha sido minha salvação.

    Talvez ela seja apenas a ponte que me impede de desaparecer completamente antes de chegar ao outro lado.

    Quando escrever já não é uma escolha

    Quando eu quero escrever, a minha linguagem não permite. Ela se recolhe, fecha as portas, apaga as luzes e permanece em algum lugar onde não consigo alcançá- la. Quando eu não quero escrever, entretanto, ela me empurra para a escrita. Insiste. Persiste. Bate contra alguma coisa dentro de mim até que eu ceda.

    E eu, querendo escrever, não encontro as palavras certas, como se existissem palavras certas para escrever. Como se a linguagem fosse uma espécie de território sagrado onde algumas palavras estivessem destinadas a determinadas coisas e eu precisasse encontrá-las, exatamente aquelas, para finalmente dizer o que ainda não sei dizer.

    Não consigo escrever.

    E é justamente quando digo isso que alguma coisa começa a ressoar.

    Talvez porque, quando eu quero escrever, eu possa encontrar alguma coisa que me mate. Alguma coisa entre o meu eu e aquilo que ainda permanece escondido em algum lugar do meu inconsciente. Não sei. Talvez existam coisas que não querem ser encontradas.

    Há palavras que, quando pronunciadas, não revelam.

    Ferem.

    E talvez seja por isso que a linguagem se recuse quando eu a convoco. Talvez ela saiba que, se vier, trará consigo alguma coisa que eu ainda não estou preparado para reconhecer.

    A única coisa que sei é que agora, sim, eu quis escrever.

    Mas fui empurrado para dentro da escrita no meio do próprio percurso, como se tivesse começado a caminhar em direção a uma porta e, quando percebi, já estivesse do outro lado.

    Eu queria começar a escrever e agora já não quero escrever mais.

    Mas alguma coisa já começou.

    E quando alguma coisa começa dentro da linguagem, talvez não seja mais possível simplesmente voltar.

    Entrei num abismo.

    Não sei se caí ou se fui levado. Não sei se havia alguma coisa me esperando lá embaixo ou se fui eu quem levou tudo comigo.

    Afoguei-me nas minhas próprias lágrimas, sangrei do meu próprio sangue e bebi do meu próprio veneno.

    E talvez seja essa a parte mais terrível da escrita: descobrir que o abismo não estava diante de mim.

    O abismo era a própria linguagem.

    E eu, ao tentar escrever, apenas descobri que já estava dentro dele.

    Tudo Escapa, Inclusive Eu

    Eu desejo o ontem no mesmo lugar do hoje, embora o ontem ainda insista em permanecer. Do amanhã já não sei. Nada me agrada. Nem eu me agrado. O que seria agradar a si mesmo? Não sei. Uma felicidade medida em cinco segundos? O ponteiro do relógio aguardando a hora da bela saída para um show marcado há anos? A euforia de uma noite entre amigos? De que matéria se faz a felicidade? E o que se faz dela depois que passa? Como se escreve quando não se quer escrever? Empurra-se a escrita ou é a escrita que nos empurra para sermos escritos? Minha linguagem é a morada de uma alma que sangra, que se fecha, que se abre por todos os buracos do corpo. Costurei cada rasgo com linha e agulha, mas cansei. Agora deixo tudo aberto. Continuo escrevendo de amanhã, porque daqui a um minuto já será tarde. Posso olhar as horas, mas quando escrevo não vejo o relógio, apenas escrevo. E por que escrevo? Talvez porque exista em mim um enigma que jamais se deixe decifrar. Há uma morada dentro de mim que insiste em escrever, talvez para viver, talvez para sobreviver. O que escrevo pode ser profundo ou apenas superfície. Nunca se sabe o que vai sair daqui.

    Mas tudo escapa.

    Quando escrevo, escapa.

    Quando não escrevo, também escapa.

    Hoje é dia da minha sessão com a analista.

    Não estou a fim de fazer análise.

    Hoje não quero.

    Não quero sair do quarto.

    Também não quero que alguém entre nele.

    Não quero falar com ninguém.

    Não quero que ninguém fale comigo.

    Não quero telefonar para ninguém, nem que alguém me telefone.

    Quero apenas o indispensável.

    Tomar banho.

    Comer e beber.

    Para não agredir tanto o corpo.

    Apesar disso, não comi nada.

    Alimentei-me de palavras escritas.

    De tudo aquilo que me atravessa.

    Uma travessia de mim por mim mesmo, fazendo do próprio corpo uma morada.

    Entre um eu e outro eu, contradigo-me naquilo que me falta e naquilo que desejo.

    Talvez seja justamente dessa contradição que a escrita continue a nascer.

    Solidão e Desejo

    Fico hipnotizado, olhando a parede, até virar o rosto e olhar para a janela. A chuva cai, e por alguns instantes eu fico esperando que, junto dela, caia alguma coisa por aqui. Um amor. Uma resposta. Qualquer coisa que atravesse o vidro e faça companhia.

    Mas não cai amor.

    São só águas.

    Águas que despencam do céu, escorrem pelo vidro e seguem seu caminho, enquanto eu permaneço aqui, acordado, tentando entender o que faço com aquilo que não passa.

    Estou sem sono. Um pouco triste. E talvez a tristeza seja apenas isso: uma coisa que chega sem pedir licença, senta ao nosso lado e fica em silêncio.

    Mas vai passar.

    Eu sei que vai.

    Porque eu também já caí.

    Já me quebrei inteiro, já pensei que não havia mais nada para juntar, e mesmo assim alguma coisa em mim insistiu em nascer de novo.

    Talvez seja por isso que eu ame tanto os pássaros e os bichos. Eles não precisam explicar a liberdade. Eles simplesmente existem. Voam, caminham, partem, retornam. E, de algum modo, me lembram que ainda é possível recomeçar.

    A noite continua.

    A chuva continua.

    E eu continuo também.

    Talvez seja isso que a gente chama de renascer: não voltar a ser quem era, mas descobrir que, mesmo depois de tudo, ainda existe alguma coisa dentro da gente que se recusa a morrer.

    Entre os ventos

    E repousaria entre os ventos, com um cobertor amarelo por cima, para que eu fique rico, mas não de dinheiro, e sim de saúde. Terei o meu sono dos justos. Assim faço da minha casa uma morada, e do meu quarto, cada quadro que existe nele. Cada casa tem seu canto. E cada canto representa alguma coisa, talvez um santo, talvez um pecado.

    Em cima da mesa tem uma maçã. Nunca fui de comer maçã. E agora me pego pensando: será porque dizem que a maçã foi o fruto do pecado? Então eu pequei, porque uma vez dei uma mordida nela. A maçã e eu. Ela fica lá em cima, mas, quando vejo, vai desaparecendo. Alguém come. Eu não sei quem é. Ou talvez saiba e não queira escrever aqui.

    Já a banana, por ser amarela, eu como. Justamente para ficar rico em saúde.

    São meus preparativos para a grande festa espiritual das crianças. Logo, logo chega o dia delas. Que vivam as crianças, que dizem ser o futuro da humanidade. Mas, se as crianças são o futuro da humanidade, um dia eu fui criança. Então, eu sou o futuro de quê?

    Não sei. E, neste momento, também não quero saber. Estou no presente. Não quero saber do futuro e tampouco lembrar o passado. Quanto mais escrevo, mais lembro do passado.

    Uma criança em cima do morro, descendo em uma tábua com rodas e se espatifando lá embaixo, com os joelhos ralados. A mãe passa Merthiolate.

    Ah, como arde!

    A criança reclama. Depois sara.

    Agora, adulto, ah, como arde a mesma angústia do Merthiolate. Só que não existe remédio para esse tipo de coisa. Talvez a vida e o amor sejam assim: escorregar para doer e encontrar, de vez em quando, algum líquido preto que anestesie a ferida.

    Não dá para sofrer sempre, nem sempre viver sofrendo. Também dá para ser feliz.

    Passa rápido. Às vezes devagar. E depois disso, o que se faz?

    Eu não sei o que se faz. Nem sei o que eu faço. Só sei das sensações do momento, que passam desvanecendo meus sentimentos, a falta, a angústia da minha alma, entre o cigarro nos dedos e a fumaça rolando para lá e para cá, enquanto vou me lapidando.

    Dormirei entre os ventos, numa corrente própria, onde, dentro dos sonhos, eu possa ser tudo aquilo que não quero ser.

    Porque tudo aquilo que eu não quero ser é justamente aquilo que quero que eu seja.

    Mas não posso.

    Que a minha solidão não me abandone

    Que a minha solidão não me abandone e me faça companhia nos dias a dias, especialmente, especialmente nos dias em que eu estou triste, como hoje. Que eu saiba diferenciar solidão e solitude a cada virtude que se ganha. Que eu possa me contentar com nada e, mesmo assim, me sentir por inteiro em tudo. Ou pelo menos quase tudo.

    Talvez eu não me compreenda tanto, mas talvez a minha forma de me compreender seja escrever, para eu não me sentir tão sozinho e saber que a escrita me acompanha na solidão que sinto em meu caminho. E que, em cada rua, cada esquina, cada estrada, eu deixe rastros de mim. Que minha linguagem saiba produzir alguma coisa do meu inconsciente e que eu saiba parar e negociar com a escrita quando o meu momento for apenas de ter o meu próprio devaneio e sentir a dor que é preciso sentir. Hoje, escrever foi o meu jeito de ficar comigo quando eu não queria ficar sozinho.

    E que, mesmo nos dias todos, no mais amargo deles, como um café sem açúcar, eu possa reconhecer o amargo sem precisar adoçá-lo. Há dias que simplesmente são difíceis. Há tristezas que não precisam produzir nada, não precisam ensinar nada e muito menos se transformar em alguma coisa bonita. Às vezes, o dia é apenas um café amargo que a gente bebe porque ele está ali, porque aquele é o dia que temos, e porque, de algum modo, precisamos chegar ao outro lado dele. Hoje eu estou triste. Não há uma grande lição escondida nisso. Não quero transformar a minha tristeza em alguma coisa bonita. Quero apenas poder escrevê-la.

    Talvez seja por isso que eu escreva tanto quando não sei o que fazer com aquilo que sinto. A escrita não resolve. Não cura. Não tira de mim aquilo que dói. Mas fica. E, às vezes, isso basta.

    A depressão me pegou. Eu não preciso fazer dela uma virtude, nem encontrar beleza onde hoje só existe cansaço. Hoje eu apenas reconheci o que sinto e deixeialgumas palavras sobre a mesa.

    Talvez eu não tenha encontrado uma resposta.

    Mas encontrei um lugar para colocar o silêncio.

  • Derreta em nome de Deus, infeliz

    Bem que na hora em que abri a boca pra falar, alguma coisa me cutucou por trás, como se dissesse em meus ouvidos: “Não fala nada não, fica calado”. Mas não me contive quando vi o homem gordo vendendo saco de lixo e pano de chão ao meio-dia, o sol de trinta e oito à sombra estalando no crânio do sujeito e sendo rebatido ainda pior do que era pelo asfalto em uma esquina da Edgard Romero, ali naquele ponto de Madureira, onde, dizem, começou o aquecimento global. Minha língua coçou e eu mandei a brincadeira. “Que dia bom para trabalhar debaixo do sol, hein, camarada?”

    Assim que disse, comecei a me arrepender de ter dito e de não ter obedecido minha intuição. O gordinho era daqueles que parece viver permanentemente no púlpito de uma igreja pregando a salvação dos outros, achando que não precisa se salvar, porque já está pra lá de salvo no reino dos céus.

    “Qualquer dia é bom quando se traz a palavra de Deus no coração”. Eu só queria brincar com ele, e desse modo demonstrar minha admiração em vê-lo trabalhar dentro daquela churrasqueira. A última coisa de que eu precisava naquele momento era de pregação, mas ele começou o culto, a missa, sei lá mais o que, não entendo nada de igreja, e a depender daquela situação, eu continuaria sem vontade de entender.

    “Com a graça do senhor, que acolhe o justo e castiga o pecador, estou aqui em meu trabalho digno e honesto”, e, repentinamente empolgado, não reparava o sinal fechado permitindo que ele pudesse correr os carros parados, mostrando a mercadoria. “Aqui não há calor, não há frio que impeça esse coração cristão de cumprir com alegria a vontade de Deus. Enquanto tantos se perdem nos vales escuros dos vícios e nos prazeres enganosos da libertinagem, eu vendo, com a alegria de estar em Jesus, esses sacos de lixo e esses panos de chão para estar em paz com os céus. Na Bíblia, em João capítulo três, versículo dezesseis…”

    Ficando irritado, apressei o passo quando ele meteu a Bíblia naquela doideira de ficar bancando pastor no micro-ondas. Citar a Bíblia sempre torna maior a encheção de saco. Nada mais torturante do que um fanático com a ladainha daqueles versículos na primeira pessoa do plural, sem nos dar qualquer direito de discordar. A gente nem sabe se foi mesmo Jesus quem disse aquilo tudo, ou se quem escreveu colocou ali o que pensava e o que achava da história toda. Fui me afastando, deixando aquele barril em forma de gente conclamando os céus com sua mercadoria nas mãos naquele calor terreno.

    Descobri, debaixo do sol cruel de Madureira, que há algo que pode ser pior do que a tal positividade tóxica. É quando ela surge abraçada ao fundamentalismo, à carolice ou fanatismo. Então não é apenas tóxica, é insuportável, é enraivecedora, e feito assombração pode aparecer, inclusive de dia, já que podemos topá-la numa esquina vendendo saco de lixo e pano de chão sobre o asfalto amolecido.

    O calor do El Niño levou dias para recuar. Em um desses, passei pelo gordinho, mas dessa vez calado e procurando me esquivar para que não me visse. Eu não era um cara bom de se tentar converter, não reagia bem a isso. Ele estava lá, seus panos, seus sacos e sua barriga indecente, fugindo da cintura da calça, imensa e pontuda, como se houvesse engolido uma bigorna. As laterais arredondadas de seu corpo impediam que tocasse os quadris, suas mãos e braços ficavam soltos ao longo do corpo, sem encostá-lo.

    Discreto, passei junto a ele, rumo ao meu destino de todos os dias. Ele suava e uma mancha molhada tomava boa parte do tecido na altura do umbigo. Do rosto, desciam filetes de um suor poroso, como chuva na vidraça. Erguia os produtos na esperança de que alguém dentro de algum carro o chamasse para comprar. Era louvável seu afinco em trabalhar ali, naquela representação do alto-forno da CSN.

    “E aí, abençoado?”, me reconheceu e se dirigiu a mim nesses termos, quando me viu.

    “E aí, gordinho?”, respondi com a cara fechada. Quem chama os outros de abençoado? É católico ou crente? Eu nunca soube, mas já estava com raiva de ser tratado assim.

    “Pronto para ouvir a palavra de Deus? Você quer encontrar Jesus?”. Acho que ele seria capaz de trocar a venda do estoque inteiro de saco de lixo e pano de chão pela conversão de um pecador feito eu.

    “Olha só, gordinho, sabe o que eu quero?”, perguntei imaginando seus olhos se arregalarem de expectativa por trás dos óculos escuros. “O que, abençoado?”. Foi quando eu destravei a língua, agora não haveria intuição que me segurasse. “Eu quero que tu vire torresmo debaixo desse sol, gordo infeliz, e que esse Deus que inventaram para você acreditar derreta essa sua banha toda nesse asfalto como se estivesse numa frigideira”.

    Antes de me virar para seguir meu caminho, consegui ver sua expressão de espanto e indignação. “Que o diabo leve essa alma do mal, seu perdido”, ele gritou.

    “Fique tranquilo, já está sendo providenciado”, respondi, pegando meu rumo e decidido a evitar essa modalidade de pastor que vende saco de lixo e pano de chão debaixo do sol. Aliás, evitar pastores de todas as modalidades.

  • Domingos

    Lembro-me de um tempo em que as pessoas aproveitavam a tarde de domingo para fazer visitas umas às outras. Era comum que minha mãe fizesse um bolo e o deixasse reservado para as tais visitas, que podiam ser de amigos, parentes ou comadres e compadres. Muita conversa e café com bolo.

    A televisão ficava ligada no Silvio Santos, os adultos torcendo pelo número do seu carnê do Baú da Felicidade, enquanto nós, crianças, sonhávamos com os presentes do “Boa Noite, Cinderela!”.

    Tudo acontecia ritualmente. A missa das dez, com a melhor roupa; o almoço com frango assado e Coca-Cola Família. O avô que sempre vinha “porvar” a comida, a Brahma na cabeceira da mesa, o pudim de leite de sobremesa.

    Os visitantes sempre traziam seus filhos. Enquanto conversavam sobre o que não podíamos ouvir, brincávamos no quintal. No domingo seguinte, certamente retribuiríamos a visita ou iríamos à casa de alguém que estivesse acamado.

    A noite levava todos para suas casas e trazia o Fantástico com suas bailarinas pintadas.

    Na segunda, tinha escola e os legumes não vinham envolvidos em maionese. O suco de garrafa ou de pacotinho substituía o refrigerante e a cerveja. À mesa, a saudade do domingo, a rotina e a laranja como sobremesa.

  • Vovô

    Quem não teve um avô ou uma avó não sabe da alegria de conviver com alguém que olha para você com ternura e carinho, de um jeito diferente de pai e mãe.

    Meu avô paterno eu não conheci. Ele havia falecido quando eu tinha pouco mais de um ano de idade. O avô materno se chamava Sabino Muniz Fagundes. Nascido e criado na fronteira entre Brasil e Uruguai, era um sujeito pitoresco. Gostava de chimarrão, churrasco e uma boa leitura.

    Já aposentado, seu passatempo preferido era ficar sentado na cozinha, próximo à mesa, escutando um antigo rádio portátil, sempre acompanhado de um mate amargo.

    Quando não estava ouvindo o rádio, que mais parecia uma colmeia de abelhas zunindo, estava lendo seu jornal predileto, o Correio do Povo.

    A cada notícia que lia, seu rosto mudava: ora franzia a testa, ora fazia uma cara de espanto; às vezes dava um sorriso modesto.

    Passado algum tempo, fazia um comentário sobre alguma notícia que havia lido e, logo em seguida, olhava por cima dos óculos, que ficavam na ponta do seu nariz. E perguntava:

    — Tu entendeu?

    Eu não havia entendido nada. O assunto era sobre política, futebol ou alguma guerra ao redor do mundo, mas, assim mesmo, concordava.

    Posso dizer que praticamente não conhecia aquele velho solitário. Era viúvo há muitos anos. Quando minha avó faleceu, minha mãe ainda era criança.

    Seu Sabino morava em Jaguarão, e nós morávamos em Porto Alegre. Durante as férias escolares de inverno ou verão, era a época de visitar o vovô. Era o momento de diversão e alegria passar parte das férias com ele. Sempre tinha histórias engraçadas para contar e nos dedicava um tempo de atenção que os demais adultos não despendiam.

    Em alguma manhã fria de inverno, eu acordava ouvindo uma voz de trovão que enchia a casa inteira. Era o Vô Sabino, sentado do mesmo jeito que sentava na sua casa, porém na cozinha da minha mãe.

    Dona Alice irradiava felicidade. Parecia que ela retornava à infância. Ficava sentada ao lado do pai, ouvindo suas histórias e anedotas da terra natal. Eram fábulas sobre pescarias, em que os barcos retornavam lotados de peixes, sendo um maior que o outro.

    Esta era a paixão do Vovô. Ele e seus amigos, tanto brasileiros quanto uruguaios, se aventuravam pelas águas dos rios e lagoas da região fronteiriça.

    Verdadeiramente, era uma Odisseia. Eram dias fora de casa.

    Uma característica marcante dos seus hábitos alimentícios era o fato de dizer que não jantava, tomava somente “café”.

    O que o Vô Sabino esquecia de falar é que o café não era solitário.

    A ceia era regada a, pelo menos, uma xícara grande de café com leite, duas fatias bem grossas de pão feito em casa, dois ovos cozidos, fatias de salame, queijo colonial, manteiga, chimia, bolo de milho e alguma outra mistura vinda da padaria mais próxima de casa.

    Eu me sentia em Gramado, com aquele quase café colonial, e ficava intrigado e pensava:

    — Para onde vai toda aquela comida?

    Vovô não era nenhum atleta, mas exibia porte quase atlético. Com mais de um metro e noventa de altura e um peso proporcional ao seu tamanho, sempre havia alguma velhota de olho comprido para ele. Mas bastava ele fazer suas caras e caretas que o romance morria na raiz.

    Me recordo de quando comecei a construir meus primeiros textos na escola, durante as aulas de redação, e recebi uma carta dele.

    Era um envelope branco, com as bordas tracejadas de verde e amarelo, um selo carimbado pelos Correios, algo quase inimaginável nos dias atuais. Dentro do envelope, um papel de carta escrito à mão.

    Uma caligrafia perfeita. Ele escrevia melhor que a minha professora de português, uma verdadeira obra de arte. Para cada letra havia um ornamento diferente e, a cada detalhe dos desenhos, surgiam palavras.

    Corri até a minha mãe para contar a novidade e pedir ajuda para responder à correspondência. Era um ritual. Escrever a carta, comprar envelope e selo e depois levá-la até os Correios.

    Assim se foram os anos. Um dia, somente eu e minha mãe fomos visitá-lo. O Vovô não andava bem de saúde. A idade pesava sobre seus ombros, e o vigor fugia do seu corpo.

    Suas histórias já não tinham o mesmo entusiasmo de antes, e as pescarias não faziam parte do seu repertório.

    Um tempo depois, não recebi mais suas cartas. Não demorou muito para que minha mãe recebesse um telefonema, e seus olhos se enchessem de lágrimas.

    Mesmo sendo criança, havia entendido tudo. Restaram as lembranças e a saudade.

    Hoje eu já sou vovô também e me pergunto:

    — Como os meus netos vão lembrar de mim?

  • Poema #89: Alcunhas

    o poeta dos acasos
    o poeta das manhãs
    o poeta das areias
    o poeta da fragmentação
    o poeta das pedras
    o poeta dos inventários
    o poeta das sombras
    o poeta sentinela
    o poeta em fuga
    o poeta das ausências
    o poeta das escadas
    que deságuam
    dentro de si mesmo
    o poeta dos silêncios
    o poeta dos jardins
    o poeta das simultaneidades
    ele, às vezes, planta árvores.

    O Jardim Simultâneo

  • Por via das dúvidas

    Cândida precisava cortar o cabelo.
    O problema era: quando?
    Lua Crescente, para o cabelo crescer mais rápido.
    Lua Cheia, para ganhar volume.
    Lua Minguante, para cuidar da saúde dos fios.

    Entrou em crise.
    Não podia simplesmente cortar o cabelo. Era preciso escolher a lua certa.

    Foi então que se lembrou de mais uma coisa.
    A tinta.
    Queria mudar a cor.
    Lua Nova.

    Pronto. Agora só faltava descobrir em qual fase da Lua deveria viver.
    Finalmente escolheu o dia e saiu para o salão.

    Abriu a porta de casa e deu de cara com uma escada encostada no poste. Lá em cima, um
    homem mexia na fiação.
    Cândida pulou para o meio-fio.
    Ser atropelada seria menos grave que passar debaixo de uma escada.

    Na pracinha, uma joaninha pousou em sua mão.
    Sorte!

    Continuou seu caminho, feliz da vida, até que uma rajada de vento veio de repente.
    Fez uma careta.
    Ou quase.
    Segurou a expressão no meio.
    Melhor não arriscar ficar daquele jeito para sempre.

    Na esquina, sentiu a orelha esquentar.
    Alguém estava falando dela.
    Só podia ser uma das amigas para quem contara que mudaria o visual.
    Inveja.

    Procurou um banco de madeira debaixo da marquise do ponto de ônibus e bateu três
    vezes.
    Pronto.
    O azar estava avisado.

    Chegou ao salão.
    A porta estava destrancada.

    Entrou?

    Não.
    Tocou a campainha.
    Era importante que a dona do salão abrisse a porta. Só assim garantiria que seria bem-
    vinda na próxima vez.

    Sentou-se na cadeira.

    Antes de começar, fez um pedido à estrela cadente que fotografara na noite anterior.
    Cruzou os dedos das mãos.
    Depois, os dos pés.

    Respirou fundo.
    E entregou suas madeixas aos astros.

    O resultado?
    Está na ilustração.

  • Frango à milanesa

    Assim resumo meu começo torto, na última sexta-feira como cidadã “cachambianse” — e que se retire solenemente quem, dada a época do ano e o gentílico recém-proclamado, aguardar daqui em diante jogos de palavras tendenciosos à política do botão verde de CONFIRMA. Não me demoro nessa competição de temporada que, de tanto disputar digitais alheias, fere o sentido amplo de seu propósito; aqui, a politicagem é outra… distribui santinhos da experiência de pertencer, não papéis que emporcalham a cidade e mal chegam à reciclagem. Aqui, hei de fazer campanha pelas conexões de um povo que, mesmo estando eu de passagem, em apenas 04 meses aprendi a chamar de meu.

    Onde eu estava…? Ah, sim. Eu tinha acordado.

    Às 14h34, no susto. O alarme não tocou. Trôpega, peguei o celular e digitei sem muito cuidado com a caligrafia digital desatenta ao corretor ortográfico — que muito modifica sentidos quando nos pega desprevenidos — mil perdões esbaforidos para dona Rosa, da barraquinha de marmitas em frente ao meu condomínio.

    É a primeira sexta-feira de outubro, chuvosa como foram tantas sextas do mês e setembro. Dona Rosa me aguardava para entregar a marmita — a minha última; ela não sabe. Visto uma blusa e outra coisa que não se encaixa bem nas pernas. Troco, escovo os dentes, prendo os cabelos de um jeito sem estilo. Havaianas nos pés, venço o corredor do meu bloco, atravesso a área comum que me recepciona com gotículas finas e persistentes, libero meu acesso pela facial e ganho a calçada. Dois sorrisos (um sem graça, outro cansado), um abraço, mil outros perdões, vale-alimentação já na maquininha. Ela abre o isopor vermelho e lá está: o pote de isopor com “frango a amilanesa – Bia”. Eu quase choro.

    “Se cuida, menina! Descansa e se alimenta!” Pisquei os olhos.

    Passei boa parte da vida acreditando na precisão das palavras. Ainda acredito — e defendo, com postura de quase candidata a um cargo nas eleições deste domingo, 04 de outubro: corrijo acentos, vírgulas, concordâncias. Aprendi a amar as regras gramaticais quase como quem afia ferramentas: pelo som, pelo peso, pela precisão do corte. Mas quatro meses me ensinaram uma língua sobre a qual nenhuma gramática normativa poderia reivindicar propriedade.

    Quem diria que, ao acrescentarem mais um “a” ao prato do dia, numa alusão já bastante tropical a um suposto preparo italiano, logo eu — devota da palavra correta, amante e fluente na língua e cultura italianas — deveria ter sucumbido ali mesmo à indignação. Morri, sim, ali, na calçada. Mas de ternura; o tiro saíra pela culatra.

    Escrito à caneta na tampa de uma marmita descartável, o duplo “a” equivocado acertou em cheio: disse o que precisava ser dito; com o coração, não com o esnobismo. Era um “a” dobrado de afeto, expresso, tal qual um café, com aroma extra de amor. Na língua do cotidiano, fala-se que o segredo está no tempero. E todo mundo sabe que o caminho mais curto até o coração de um
    homem passa pelo estômago; antes dele, há o prato.

    Uma voz culta, musical e precisa surgira nos meus dias, preenchendo-os de possibilidade. Conhecia, pela tela, minha casa, meus cantos, o lugar onde eu escrevia e lia; falava de energia, de escolhas, interpretava minha exaustão como consequência de eu me dar demais ao que não merecia tanto de mim. Mas não me preparou prato algum e deixou pela metade até a única fatia de pizza que teve diante de si. Tanto discurso, tão pouco apetite pela experiência inteira. Pouco depois, retirou-se numa ausência orquestrada.

    (Curioso: eu, que comecei este texto expulsando a politicagem pela porta da frente me vejo, algumas linhas depois, de cara com a política acomodada à mesa. Não a convidei. Certas presenças têm o hábito inconveniente de sobreviver à própria ausência)

    Mas esta não foi a única voz a opinar sobre meus gastos. Outras, igualmente instruídas, também disseram que eu me despendia demais — e mal. Nenhuma delas soube ler o que tanta gente, sem qualquer pretensão de erudição, leu de primeira: minha energia não estava sendo desperdiçada. Escorria de mim como uma torrente, é verdade, mas encontrava mãos que trabalhavam comigo, cafés passados na hora, hambúrgueres que salvavam madrugadas, abraços, risadas e gente que simplesmente abria espaço para que eu coubesse inteira, só por ser eu. Há muito eu não me via tão feliz sem as malditas expectativas. Continuei me gastando inteira, como sempre. A diferença é que, desta vez, o desgaste me devolvia vida.

    “A a”bracei novamente.
    Ela, dona Rosa, ainda não sabia.

    ***

    Corda ao contrário no relógio.
    São 17h35 de quinta-feira; eu, na fila do Mega Matte.

    No caixa, a proprietária, que me viu algumas vezes. O atendente de sempre não estava por ali.

    “Um açaí fit de…”
    “…500 ml com proteinato!”

    A voz vem do movimento corporal de um atendente que eu nem havia percebido direito nos últimos quatro meses. Ele sorri para mim; sabe meu pedido. Sabe a mesa na qual me sento.

    E isso dói de um jeito bonito.

    Espero baterem meu shake, que substitui o almoço de quem acordou às 16h depois de trabalhar das 21h30 às 10h. Respondo alguns colaboradores, fornecedores, agendo as atividades da noite, peço apoio para compras de última hora.

    Confirmo o Pilates pelo aplicativo de check-in; ainda preciso passar na padaria para comprar salgadinhos e Coca-Cola — sugestão de uma das alunas. Convém apresentá-la antes que chegue atrasada algumas linhas adiante: na semana anterior, ao descobrir que minha condição de nômade incluía também uma despedida iminente, apareceu com um bolo de pamonha tão bonito quanto delicioso. Não sei se existe protocolo para acolher mulheres de passagem; se existe, desconfio que Deus envie anjos a nos entregar milho, açúcar e muita generosidade embrulhada para presente.

    Meu último dia no Pilates. Esta quinta.
    (Eu sei… a crônica está muito culinária e nada fit — nem ao corpo, nem a qualquer figurino político. Tampouco pretende entrar em forma partidária; apolítica, a esta altura, já vimos que também não é.)

    “Exercício e açaí fitness não casam exatamente bem com refrigerante e gordura”, penso diante dos quitutes. Por coerência, pego também uma caixinha de palmiers.

    Subo a Torre Norte até o nono andar, no terceiro elevador.
    Sorrisos.

    Alguns exercícios.

    A aluna do bolo de pamonha — eis que retorna a personagem, desta vez atrasada — chega e me abraça.
    Queridíssima.
    Ninguém está exatamente no clima de alongamentos ou superações musculares.

    Pausamos. Paramos em pé, ao lado externo da porta de entrada.

    “Sábado vamos dar uma volta e tomar um café antes de você ir.”

    Eu sorrio.
    Piscar de olhos.
    E já se foi o sábado. Eu não consegui encontrá-las.

    Tive de trocar o café prometido e a continuação das nossas histórias de vida pela arrumação da casa, 02 malas G de rodinhas, 02 mochilas, umas 07 sacolas retornáveis, alguns mantimentos e Magda Ficus Elastica Tineke Mies.

    Lembram-se dela? A roommate e única sobrevivente de “Esta história não é sobre plantas”, primeira crônica desta temporada inteiramente carioca. Minha bagagem concentradamente nômade revelou-se humanamente apegada: ocupou todo o maleiro de uma van executiva.

    Troquei também o café com minhas novas amigas por refeição alguma. Sobrevivi a uma sobra de queijo, restos de gelatina sabor banana Fini, água e água tônica do mercadinho-contêiner. (Vejam uma crônica tão culinária terminar o sábado em jejum. A coerência também se perdeu numa logística que se recusava a terminar.)

    Enfiei nos últimos microespaços, entre tecidos e objetos, o que não coube em mala alguma: sentimentos, memórias, aprendizados, alguma dor e muita felicidade. Até poucas horas antes, eu ainda imaginava continuar habitando aquela casa…O café ficou para trás; a Bialetti, foi envolta em plástico bolha. Abracei os funcionários do condomínio, tirei algumas fotos, troquei olhares de gratidão e, pela primeira vez, não levantei a planta do apartamento.

    Para uma arquiteta que costuma medir os lugares que habita, foi, no meu doce ver, a maneira menos técnica de manter a porta aberta.

    Deixei tudo sem escala.

    Inclusive a possibilidade de voltar. De acordar outra vez com os ruídos abafados pelo drywall; finalmente cumprir a terceira ida à piscina, desta vez com sol, diante do salva-vidas que muito mais me viu passar prometendo “qualquer dia eu venho” — gerúndios infinitos — do que em trajes de banho. Quem sabe madrugar, enfim, na academia do condomínio ou levar uma outra almofada para um banco lá fora e partilhar da minha solitude com as estrelas, uma vez mais.

    E tomar, como de praxe, meu café no sofá das leituras domingueiras.

    ***

    Os seguranças do shopping sabem meu nome.

    Os responsáveis pela manutenção, idem.

    As docas do Norte Shopping me receberam de braços abertos — em alguns dias, em mais de um idioma.

    Os corredores dos acessos restritos são labirintos familiares.

    O time da loja me cumprimenta e ainda me manda mensagens perguntando onde estou (“tem um vazamento”, “uma tomada pifou!”, “como é que faz isso mesmo?!”, “está a caminho?”). Os seguranças extras que acompanham a continuação dos serviços sorriem.

    O celular toca.

    É a Katia.
    “Chegou encomenda, bebê.”

    Cruzo as partes cobertas e abertas do pátio do centro comercial. Quando noite, chuvosa, percebo o reflexo dos painéis de led nas poças sob os meus pés. Sempre achei incríveis essas escadas rolantes que se deleitam com as chuvas. Atravesso as faixas carroçáveis e recolho mais uma entrega para a obra.

    Meu rosto é reconhecido.

    Abaixo dele, ora aparecem bloco e apartamento; ora, seis números me transformam em Ordem de Serviço.

    “Bom dia”.
    “Boa tarde”.
    “Boa noite”.

    Essa experiência nômade me deu o que anos de retornos e permanências imprevistas à minha cidade natal não conseguiram: conexões profundas.

    E pensar que cheguei aqui com bagagem demais e uma carta escrita vinte anos antes, destinada a ser aberta — embora o remetente esperasse que nunca fosse — num momento de tristeza pontuda; fora escrita exatamente no mesmo dia em que, vinte anos depois, cheguei a este lugar.

    Ah, minhas adoráveis dobras do tempo..!

    Foram tais palavras antigas e tão frescas que me tomaram no colo e atravessaram comigo a porta do apartamento. De algum modo, também moraram aqui.

    Outras presenças chegaram sem atravessar o portão preto.

    Promessas de vinda permaneceram suspensas, alimentadas por chamadas, vídeos, noites e possibilidades. Houve quem conhecesse pela tela minha casa, a disposição dos móveis, meu espaço de escrever e de ler, meus silêncios, meus fins de noite.

    Conheceram, no raso, um lugar em que nunca estiveram.

    Restaram sombras e ausências muito latentes.

    Os olhos marejam.
    Pego novamente a carta.
    Releio.
    A mão esquerda sabe.
    Respiro.

    ***

    Minha mãe e Zeca vieram passar uns dias.

    Choveu e fez frio.

    Eu tive febre. Por 12 dias consecutivos. Não pude utilizar-me de atestados.

    Trabalhei horas e horas e horas.

    Um dos meus melhores amigos fez ponte aérea para passar um dia participando da minha rotina.

    Um colega de ofício, presente da escrita criativa que a vida transformou em amigo veio, de moto Uber, tomar café só para bater papo. Depois me chamou para filar uns comes e bebes na inauguração do novo Manolo do Rio de Janeiro.

    Magda cresceu comigo, perdeu folhas e ganhou novas.

    Eu também.

    Fui duas vezes à piscina.

    Duas.

    Em quatro meses.

    Na última, atravessei os azulejos a nado, ida e volta; me sentei numa espreguiçadeira dentro da prainha, boiando.

    Achei que, finalmente, faria absolutamente nada.

    O celular corporativo tocou.

    Depois tocou de novo.

    E de novo.

    E de novo.

    Foram mais de dez ligações.

    Eu trabalhava de dentro da piscina.

    Ri.

    Parece literatura, e é; a certa altura, até a falta de pausa virou uma das pausas que eu registraria por aqui…

    ***

    Jamais esquecerei a barraquinha de hambúrgueres, que salvou noites intermináveis de trabalho e rapidamente nos promoveu a clientes VIPs: eu, meu par à frente da engenharia da obra, a técnica de segurança e o bombeiro.

    Hambúrgueres em horários em que pessoas normais dormiam. Cafés levados em garrafas térmicas que não chegavam a meia-noite de um turno comum. Depois, os cafés moídos na hora na copa da retaguarda. Muitos. Pizzas. Frutas. Conversas em pé. Conversas sentadas no chão. Retoques. Mais retoques; um checklist que parecia reproduzir seus próprios itens quando ninguém estava olhando.

    A construtora e a gigante multinacional do varejo me deram trabalho. Muito. De noite, de dia, à tarde; jornadas que algumas vezes pareciam não compreender muito bem a existência dos relógios e, ainda assim, se mostraram mestras em me proporcionar VIDA.

    Há uma ironia maravilhosa nisso: em 04 meses de obra, trabalhando em todos os turnos possíveis, o que mais se escreveu na minha vida foram as pausas.

    As pequenas.
    As roubadas.
    As inventadas.

    As que cabiam entre uma ligação e outra, entre uma madrugada e o amanhecer, entre um problema e outro, entre duas pessoas, entre uma equipe que, aos poucos e rapidamente, adquiriu contornos de família.

    Entre a vida que eu trouxe para cá e a que começou a nascer aqui.

    O final não poderia ter sido mais leve: 10 a 14 horas de trabalho noturno, de segunda ao amanhecer de sábado.

    Na terça, entretanto, fomos surpreendidos pela Light, que desligou, para manutenção, a energia de todo o shopping e nos obrigou a correr e interromper a programação. Foi providencial para que meu amigo viesse.

    Nos outros dias, empresas antigas e uma nova bateram ponto com pessoas queridas das equipes dos nossos colaboradores. Gente que já não era apenas profissional trabalhando de madrugada. Gente cujo nome passou a morar comigo, no rol dos rostos cachambianses.

    Na última madrugada, entre um retoque e outro e a espera pelo profissional seguinte, joguei forca, jogo da velha e fiz uma mímica inesquecível de filme com uma segurança que, desde o início, tinha uns ares estranhamente familiares.

    Rimos no meio de uma loja vazia depois de horas e horas acordadas. Tomamos café e água. E ouvi dela que nunca havia sido tão leve virar tantas noites. Que eu ficaria na saudade.

    Ela também. Ela e sua promessa de um calendário personalizado. “Um de 2027, claro”.

    Clareia o dia lá fora, mas aqui o ar condicionado ainda é gélido. Café passado. Mais um ajuste. Mais um item riscado.

    Uma fruta.
    Uma pizza dividida.
    Lactose sem proteção e sem riscos.
    Uma ferramenta que some.
    Uma risada.
    Um “Bia!”.
    Um “bebê”.
    Um “bom dia” dito às cinco da tarde.
    Um “boa noite” às oito da manhã.
    Fecho os olhos.

    ***

    Em quatro meses fui mais arquiteta, escritora, amiga e ser humano do que havia me percebido nos últimos dez anos:

    Aprendi a respirar. Aprendi sobre a minha energia. Me apaixonei.

    Por momentos.
    Por pessoas.
    Por lugares.
    Por plantas.
    Por cervejinhas compradas no mercadinho 24 horas do condomínio e tomadas no amanhecer de um dia comum.
    Por uma promessa.
    Por presenças.
    Por ausências.
    Por uma carta de vinte anos que chegou comigo.
    Por pessoas que sabiam meu pedido antes que eu terminasse a frase.
    Por quem aprendeu meu nome.
    Por quem me chamou de bebê.

    Por quem me abraçou na despedida sem ainda entender direito que era despedida.

    Eternizei meu primeiro eclipse visto a olho nu, deitada no banco deste lugar que se tornou tão profundamente lar.

    Fui feliz. Sou feliz.

    Há dor dentro disso. Muita.

    Há também uma mulher nova refletida no espelho. Uma que pela primeira vez nesta década olha para a própria imagem e reconhece estar viva. Muito viva.

    Hoje reorganizarei a vida dentro de malas de rodinhas 360°. Dona Rosa ainda não sabe que aquele frango à milanesa foi o último. O atendente do Mega Matte talvez ainda espere que eu apareça na segunda-feira pedindo meu açaí de 500ml.

    Meu rosto ainda abre a porta do condomínio. Meu nome ainda está ali. Por mais algumas horas.

    E eu descubro, quase na saída, que uma experiência nômade não me ensinou a não criar raízes, mas que elas podem brotar e frutificar muito depressa.

    Nos outros.
    Nos lugares.
    Em nós.

    E que, quando chega a hora de partir, não há nada a arrancar.

    Pisco.
    Fotografo com o celular, a instax e a retina.

    Pego as bolsas pelas alças, a Magda pelo pratinho e levo tudo junto. 125 dias aqui, entre idas a São Paulo, Jundiaí, Nova Friburgo e Porto Alegre.

    Pisco.
    Persisto.
    Me visto.

    É chegada a hora.

    E, de repente, já é domingo.

    Termino este texto já com o café da manhã esfriando. Preciso do meu título de eleitora. Da minha colinha.

    Após tanta política, tanta comida e tanto afeto, chego à conclusão mais urgente desta crônica:

    quero almoçar um belo frango à (a)milanesa.

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