Crônicas Cariocas

  • Rebuliço no Cãodomínio

    Lugar de peripécias acaloradas é condomínio. Histórias inimagináveis. Não importa o número de apartamentos. Condomínio surpreende até aos Anjos da Guarda preparados para os fortuitos. Edifício de 11 apartamentos. Alguns adultos, muitos idosos, cinco jovens, um bebê e nove cães. Mesmo comedido, valem contos prazerosos.

    Convivência pacífica, polida e amigável entre alguns condôminos. O rol está sempre bem decorado pela moradora-design. A síndica é pulso firme e às vezes vira ursa na resolução de conflitos, defendendo o prédio com zelo e meticulosidade. O zelador parece um polvo-faz-tudo. Sabe tudo, vê tudo, ouve tudo. Tem a senhorinha educadíssima, o homem quase não visto, os casais de jovens adultos bonitos, as jovens que sempre passeiam com os cães, a neném recém-nascida que é uma fofura, o casal intelectual e nós.

    Aqui estamos há mais de uma década e o edifício nunca foi abundante em crianças. Talvez seja reflexo dos novos tempos ou por não termos área de lazer ou os dois. Não sei. A verdade é que não há crianças pelos corredores.

    Morar aqui é silencioso, fresquinho e ensolarado. Corredores cheirosos e portas branquinhas com maçanetas variadas, das que fazem reconhecimento facial às antigas, que engolem as chaves, emperram e não querem devolvê-las.

    Mas a pouco tempo tivemos uma moradora subversiva expulsa do apartamento. Um Oficial de Justiça apreendeu o carro alugado que ela também não pagava. Aliás, acho que esse apartamento precisa de exorcismo. Até hoje, nele só vieram morar transgressores, desobedientes, esquisitos, baderneiros. Uma moradora logo que chegou, montou um brechó na recepção. Foi um auê…

    Por isso, sempre que alguém se muda, proclamo o ditado japonês: Boa sorte e tenha bons vizinhos. Afinal, vizinho está do seu ladinho.

    Mas, dia desse, já noite, ouvimos latidos, gritos. Mafalda e o Capitão começaram a rosnar na fresta, embaixo da porta. Deitada, iniciando a leitura do ritual do sono, meu telefone toca, a síndica: Vocês estão com outro cachorro, um preto? Respondi negativamente. Tem um cachorro preto solto nos corredores. Minha filha não consegue sair com nossos cães para passear. Percebi temor na voz. Acordei meu marido que foi ver o furdunço no prédio. Caos generalizado em plena quarta-feira.

    Ele saiu com uma vassoura e enorme bacia de plástico, daquelas que se põe roupas brancas de molho no bicarbonato. Portas entreabertas com olhinhos nas frestas espiando o fuzuê. Espada-vassoura e escudo-bacia em punho lá foi ele. Eram três cães pelos corredores. O Guerreiro e os três dragões. Pessoas gritavam nos apartamentos: Chame os bombeiros. Liguem para polícia. São brabos! Cuidado! Joga spray de pimenta!

    Os três cachorros corriam, subiam, e desciam as escadas do prédio assustados, eufóricos, desnorteados. Pelo olho-mágico, os vi saracoteando e pareciam adorar a liberdade. Sabíamos que só um vizinho tinha três cães. Os pais da bebê. Munido da armadura improvisada, o Cavaleiro foi até o apartamento do casal. Porta escancarada. A chave permanecia na fechadura por dentro. Um dos cães entrou no elevador, subiu, ganiu, desceu enlouquecido.

    O Destemido usou a espada-vassoura e enxotou o maior para dentro do apartamento. Fechou a porta. Os outros dois, mais serelepes, subiam e desciam as escadas felizes, latindo em brincadeira. Encurralou o menorzinho entre a parede e o escudo-bacia e o arrastou, preso, até a porta e adentrou-o.

    O terceiro, mais levado, o driblava. O Valente Guerreiro levou uma canseira. Esbaforido, subia e descia as escadas atrás do fujão. Os joelhos reclamaram. Parou. Sentou no degrau. O cão o olhou ressabiado. Distante, aguardava seu perseguidor retomar a empreitada. Mal sabia o foragido que o Guerreiro sessentão estava exausto. Rendido, largou a espada-vassoura, o escudo-bacia e argumentou: Você venceu. Desisto. Não dá para mim. O cão virou a cabeça de lado e percebeu o cansaço do homem à sua frente. Pode ficar zanzando pelo prédio. Não vou te pegar. E foi acalmando a respiração. Ciente da desistência e de ter sido proclamado vencedor, o fugitivo, calmamente se aproximou e roçou o focinho na mão do perseguidor. Meu marido acarinhou a cabeça do cachorro e mansamente pegou a coleira e o levou até o apartamento. O fujão entrou sem retrucar.

    Horas depois, o morador do apartamento chegou. Atualizado dos fatos e tendo a chave pelo lado de fora da porta, trancada, veio agradecer e pediu inúmeras desculpas.

    Tenho certeza que os cães foram dormir extasiados de felicidade na brincadeira da liberdade.

  • A Vida Privada e o Transporte Público

    Há bastante tempo, penso em falar sobre um hábito que se tem mostrado cada vez mais comum entre nós, brasileiros. Minhas numerosas procrastinações e desistências ocorreram menos por causa da complexidade do costume do que pela virtual controvérsia que ele carrega em si. Haja vista o uso generalizado de tal prática, suponho que poderei ferir certos egos e criar algumas animosidades. Mas assumo que quem vive de dar pitacos pretensamente sociológicos deve encarar os riscos e as consequências de ter uma bocarra descomedida.

    Como eventual usuário do transporte público de nossa cidade, tenho notado em mim uma crescente curiosidade pela vida alheia. Não creio que isso seja efeito da velhice ou do ócio. Por razões pouco pertinentes a este desabafo, assumo que minha idade não seja tão avantajada e que minha rotina não seja tão monótona. Mas o certo é que esse interesse surge, repentina e incontrolavelmente, quando estou dentro de um ônibus urbano. Você já deve ter passado por alguma situação parecida, e, por isso, saberá do que estou falando. Os diálogos que os usuários do transporte coletivo estabelecem aos seus celulares parecem cada vez mais frequentes e instigantes. Na maioria das vezes, o que antigamente costumava ser dito em ligações telefônicas é retratado, hoje em dia, por meio do envio de sucessivos e frenéticos áudios. Minha experiência permite afirmar que, quanto mais cheio estiver o ônibus, mais altas e indiscretas soarão essas conversas!

    Carolina, não adianta insistir! Já saí do trabalho, e não tenho dinheiro!

    Confesso que tive vontade de perguntar o motivo do aborrecimento. Mas, aparentemente, minha cara de pau estava de recesso. O calor extenuante do começo de verão e a superlotação do ônibus impediram-me de satisfazer minha curiosidade. A bem da verdade, acho que a fadiga foi amiga do bom-senso. Geralmente, as pessoas não gostam de bisbilhoteiros. “A curiosidade matou o gato!”, diria meu finado avô. Mas o volume daquela conversa era bastante elevado para alguém preocupado com sua privacidade. Suponho eu que uma filha adolescente exigia daquela mulher que ela passasse no mercado para comprar alguma guloseima. O mercadinho ficava logo ali, entre o trabalho e o ponto de ônibus. Pobre mulher! Após um dia inteiro de trabalho, não via a hora de chegar a sua casa. Já estava no ônibus, ora! Por que não pediu antes?! E dizer que também já fomos adolescentes intransigentes…

    Estou sem internet há quase dois dias! E vocês continuam só enrolando!

    Convenhamos! Ninguém merece ficar sem internet por tanto tempo! Atualmente, tal infortúnio equivale a condenar o desaventurado sujeito a uma espécie de solitária, sem contato com o mundo exterior. O caso daquele rapaz parecia distante de uma resolução satisfatória. A julgar por sua indignação, nem mesmo um atendimento feito por uma pessoa de carne e osso seus protestos mereceram receber. A tranquilidade com que o atendente virtual fazia-lhe perguntas já respondidas em ligação precedente aumentava a sua impaciência e, por consequência, a irritação de meus ouvidos. Apesar de toda aquela ruidosa reclamação, consegui sustentar minha mais íntima solidariedade a ele. Torci por aquele infeliz, mas suspeito que minha honesta simpatia não foi suficiente para acabar com seu calvário.

    — Amiga! Eu tenho que te contar! A Mari terminou o namoro!

    Isso foi demais! Como se não bastassem uma mãe sendo importunada pela filha adolescente e um cidadão enclausurado digitalmente por seu provedor de internet, agora eu acompanhava o triste fim de um romance. Não pude evitar que lembranças tão longínquas e supostamente superadas voltassem à tona. Mas o que dizer à minha psicóloga?! Tive uma recaída por causa de uma conversa que escutei no ônibus. Enxerido! Cuide de sua vida! Mas a pobre menina está sofrendo! Isso não é de sua conta! Felizmente, a notícia completa foi guardada para um posterior encontro entre as duas amigas. Os áudios enviados foram apenas o famoso lide, aquela síntese feita para capturar a nossa atenção. Por pouco não cometi a indiscrição de perguntar como estava o antigo casal. Afinal, um término tão inesperado como esse é capaz de abalar ambas as partes. Minha sorte foi que a jornalista de plantão chegou ao seu destino antes de mim.

    Entre dívidas cobradas, fofocas contadas e términos relatados, noto que meus deslocamentos pela cidade tornaram-se, aparentemente, mais rápidos. O problema é que, como tenho prestado atenção a vidas alheias em demasia, sinto-me sobrecarregado com tantos assuntos curiosos e pertinentes. Obviamente, não seria de bom tom pedir a tanta gente que falasse mais baixo. Sem poder me retirar do agradável convívio social que somente um coletivo é capaz de proporcionar, restam-me desabafar com você e dar o troco na mesma moeda a tantos falantes anônimos. Aguarde, pois, minha próxima ligação!

  • Sala de estar

    A sala de estar da casa da minha avó era o ponto de encontro da família aos sábados. Chegávamos cedo, no começo da tarde, e saímos de madrugada. Era uma festança danada. Os mais velhos sentavam-se e contavam piadas e lorotas, enquanto jogavam cartas e tomavam cerveja, fumando – de quebra, também, inundando a sala de fumaça (naquela época era assim; até cheguei a tomar uns goles de cerveja, dados por meu pai, sem cerimônia). Esporadicamente, a reunião se estendia pela cozinha ou varanda – somente quando vovó estava cozinhando, e pegávamos pequenas sobras de rabanada e de bolo, por exemplo. A bendita sala de estar tinha um querer de abençoada, por Nossa Senhora das Graças, de devoção de vovô e de vovó. A imagem ficava bem no centro da sala; era grande, para que pudéssemos controlar as nossas maluquices, talvez. Partilhávamos a aura leve e envolvente, e, não raro, nós, os netos, preparávamos peças teatrais, para que tios, pais e avós pudessem se divertir. Prestavam atenção com uma curiosidade estranha, já que tio Neto e tio Fagner queriam participar, com falas enviesadas, que nos atrapalhavam (era o sinal de que a bebida já havia tomado de conta de suas mentes sãs – ou nem tanto assim). Claro, não havia bom repertório, mas conseguíamos arrancar boas risadas das tias orgulhosas. Logo que vovó adoeceu, as reuniões ficaram esparsas, íamos mais para vê-la do que para nos divertirmos. Se vovó estava doente, era motivo para a minha mãe, sua filha, dar uns beliscões em mim ou no meu irmão, se saíssemos da linha. Eu não sabia, mas a doença de vovó era fatal; ela estava em fase terminal, com câncer. Após seis meses, entre idas e vindas ao hospital, vovó faleceu e deixou um rastro de dor. Vovô não tinha mais ânimo para nada. Eram muito apegados. As reuniões aos sábados se transformaram num purgatório, pois não podíamos brincar (para mamãe, era uma grande falta de respeito com meu avô, que convalescia com a dor da perda da mulher mui amada). Conto essa história toda para dizer que amei muito a minha vozinha, que fazia de tudo para ter a família unida, fortalecida. Nas voltas que o mundo dá, depois de engenharia, terminei a faculdade que fora “proibido” de fazer, a de teatro. As atuações na casa de vovó, levadas a cabo por mim, invariavelmente como diretor, ficaram marcadas numa memória pura e saudosa. Ainda hoje, quando apresento uma peça, rezo a minha vozinha e a Nossa Senhora das Graças, para que me ilumine, para que a performance seja agradável e catártica. Do meu palco me lembro da sala de estar, e o aconchego me inunda. Talvez eu possa ser, para sempre, um ator das pequenas coisas, da formosura, da vontade de viver expressa em meu rosto úmido. Sou desses que amam sem saber o porquê. Amor à vida e gratidão.

  • O último ônibus para o Rio

    Encostado ao trailer, pedi a última cerveja. Proença disse que para ele estava bom. Pagou sua parte. “O ônibus é às nove. Tu tá ligado, né?”, me lembrou, já saindo e me dando as costas, percebendo que eu ficaria por ali ainda um pouco mais. Fiz que sim com um gesto rápido de cabeça para o lembrete do horário do ônibus. Passavam das sete da noite. Ainda havia um resquício violeta de luz do dia no horizonte, sumindo no mar naquele anoitecer de domingo de quase inverno. Eu voltaria com Proença e o resto do pessoal para o Rio, ao menos era esse o combinado. Eles estavam em casa, certamente se aprontando. A hora passava e eu teria que andar até lá, dali uns quinhentos metros, guardar tudo na mochila e tomar um banho para viajar. Só que mesmo antes do Proença sair fora, eu já havia decidido ficar, porque eu estava desconfiado, ou quase certo, do que aconteceria. E já com o Proença longe, ela deslizou os dedos pelo meu antebraço, olhou-me e disse que estava ventando frio. Para completar, passou a língua nos lábios. Concordei, “Sim, tá ventando frio”, só de camiseta regata, sunga e chinelo. “Entra, bebe aqui dentro”. Eu aceitei imediatamente. Quando entrei, ela fechou o trailer. “Está mesmo na hora de fechar”, soltou com malicia, acrescentando que àquela altura e com aquele vento não havia mais ninguém na praia.

    No meio do primeiro beijo, sua minissaia foi ao chão e, logo em seguida, o biquini lilás, o que fazia girar pescoços quando ela dava um tempo do batente e passava pela areia a caminho de um mergulho. “Para me revigorar com os fluidos de Iemanjá”, explicava, com um riso que fingia ser puro, mas que não me convencia. Aliás, acho que a ninguém. Ela ria do jeito que os demônios devem ensinar as mulheres a rir. Os olhos de todos, os meus incluídos, a devoravam por trás dos óculos escuros. Não era bonita. Para dizer a verdade, passava longe disso. Alguns de nós diziam que ela tinha cara de boneco de ventríloquo. Mas seus peitos, suas pernas e, principalmente, sua bunda, a cada vez mais que vínhamos do Rio para os fins de semana e feriados, mais punha ao chão o queixo de todos. Naquele dia, em um desses mergulhos, cruzou comigo, que voltava do mar. Me olhou de cima a baixo, como jamais havia feito. “Aparece aqui no trailer, lá pelas seis”, ela pediu pouco depois, quando eu estava indo embora, perto do almoço. Na hora combinada, apareci, cheguei com o pretexto de acertar as três cervejas que eu havia levado para a areia de manhã. É que Proença estava por lá e eu não queria que ele desconfiasse das minhas intenções. Bebeu a tarde toda, mas agora fazia cara decidida de quem já estava mesmo indo, o que fez em menos de dez minutos. Sozinhos, ela me chamou para dentro, trancou o trailer, nos beijamos e ela mandou ao chão a minissaia e o biquini. Feito isso, se sentou no freezer, daqueles horizontais, usados no comércio. Abriu as pernas. Seu cheiro engoliu o de cerveja passada misturado ao de fritura de peixe, aroma natural dos trailers de praia. Era mais forte, intenso e, claro, delicioso. Naquele momento, tive certeza de que nunca mais na vida o esqueceria. Definitivamente, eu não voltaria para o Rio no ônibus das nove da noite. De repente, me veio um estalo de preocupação, e não era com a volta. “E teu marido?”, me dei conta. Ela dividia com ele a administração do lugar. “Tá em Macaé, foi tentar fechar a venda de uns terrenos por lá. Volta na terça”. Quando acabamos, eu, em êxtase por ter sido o escolhido entre os outros nove que dividiam comigo o aluguel da casa de veraneio, queria mais; aquela ali, meio apressada, no desconforto do lugar, não seria o suficiente, uma oportunidade de ouro como aquela não poderia se resumir a uma única trepada. A ocasião merecia cama, conforto, e mais do que fizemos até ali. Pedi que fosse comigo para a casa. Subindo o biquini, aceitou na hora, como se já estivesse pensando na possibilidade. Disse apenas que eu fosse na frente, que tinha que fechar o caixa, tomar outras providências, e que lá pelas nove apareceria. Fui embora radiante. Repetiríamos noite adentro tudo que aconteceu no trailer. Aquela cavala dos sonhos de toda a casa só para mim.

    “Porra, vamos perder o ônibus por tua causa”, um dos caras reclamou assim que entrei. Comuniquei que ficaria, que só voltaria na segunda, de manhã cedo. Todos fizeram cara de “Então, foda-se. Vam’bora!”. Todos, menos Proença, que muitas vezes funcionava como meu irmão mais velho. “Tem certeza de que não vai?”, e me olhou com olhos de radiografia, de quem havia percebido o que, lá no trailer, estava suspenso no ar. Sim, eu tinha certeza, confirmei, firme. Saíram feito uma tropa, deixando a sala em silêncio e tomada por minha ansiedade pela noite.

    Ela chegou meia hora depois. Estava com maquiagem leve e batom, os cabelos ajeitados pela umidade do banho. Não estava feia ali. Até pensei se ela era realmente feia como dizíamos, ou se nos preocupávamos apenas se ela era gostosa. Usava uma blusa colorida casada com uma bermuda de tecido fino, um pouco transparente, através da qual dava para ver a marca da calcinha, ainda menor do que o biquíni que provocava o êxtase coletivo.

    A noite se desenhava memorável, daquelas de contar para os melhores amigos no bar. Mas não fomos longe e tudo se tornaria sim memorável, só que por outros motivos. A cama incendiava quando percebemos um vulto encostar junto à janela do quarto que dava para a pequena garagem, que por sua vez começava no portão de entrada da casa. Os caras saíram, não trancaram o portão. Apesar da vidraça espraiada, que distorcia as imagens vistas através dela, ele, o dono do vulto, pode perceber nossos movimentos e ter a certeza do que fazíamos. Algum filho da puta, escondido na praia deserta, deu o serviço, e o corno, nome real do vulto, veio em tempo recorde de Macaé.

    Do lado de fora, ele chamou nossos nomes e pediu que abríssemos a porta. Saí de cima dela, me vesti e fui abrir. Seria patético tentar negar. Nos passos que dei entre o quarto e a porta da sala, a principal da casa, me senti em uma reportagem dos antigos jornais populares, aquelas que não acabam bem. Eu só tinha 22 anos, pensei nisso antes de girar a fechadura, já arrependido para o resto da vida de não ter voltado com os caras. Quando abri a porta, o sujeito entrou olhando-me nos olhos, mas em silêncio, para a minha surpresa, que esperava, no mínimo, uma porrada no meio dos cornos. Parado no meio da sala, disse o nome da mulher e perguntou se era eu quem estava no quarto. “Não, era o presidente dos Estados Unidos”, ela respondeu. Meu silêncio tenso abafou minha risada.

    Quando apareceu na sala, já estava vestida, para dar à situação ao menos um pouco de decência. Começaram uma discussão típica dessas horas. Gritos, acusações de ambos os lados, a merda de uma vida conjugal se revelando, vindo à tona em golfadas de raiva e mágoa, como se fosse vômito. Eu tinha a ver com o que havia acontecido do trailer até ali. O que veio antes não era minha culpa.

    Ele ia dos gritos ao choro, retornava do choro aos gritos. “Eu te dei tudo quando você tava fodida, sem ter onde cair morta, quase passando fome, morando de favor. Mais um pouco e ia pra zona”. “E eu que me mato de trabalhar naquela porra, vendendo cerveja e fritando peixe, enquanto você some dizendo que vai vender terreno e nunca que aparece com a porra do dinheiro”. Foi aí que ele se abaixou em pegou uma garrafa de cerveja, encostada no canto da sala. Havia outras por ali. Os putos se mandaram e nem se deram ao trabalho de recolher a porra das garrafas. O movimento dele em pegar a garrafa, apenas este, foi o suficiente para que eu projetasse um enorme caco rasgando minha jugular. Eu só tinha 22 anos, pensei novamente.

    Levou alguns minutos discutindo com a mulher, segurando a garrafa. Em alguns momentos chegou mesmo a sacudi-la no ar. Mas ao contrário do que insinuava, deixou, propositalmente, a garrafa cair da altura dos joelhos. Ela bateu no chão, rodopiou, caiu deitada e não quebrou. Vidro forte, pensei pateticamente e, principalmente, aliviado. Virou-se para mim. Seu choro tornou-se seco e seus olhos, vazios. “E eu te considerava como um irmão”, e falando mais baixo, jogou na minha cara o modo como me tratava. Irmão era exagero, mas ele era realmente camarada de todos nós, dez rapazes entre vinte e vinte e cinco anos que rachavam o aluguel da casa, dormiam empilhados em dois quartos pequenos e uma sala de tamanho médio e se derretiam de tesão pela sua mulher. Se ele percebia isso, não deixava transparecer. Deu as costas e foi embora, sem dizer mais nada. Ela saiu em seguida; não se despediu, não olhou na minha cara.

    Vi as horas. Eram dez e vinte e cinco. De modo algum eu poderia dormir ali naquela noite. Aliás, em nenhuma outra noite mais. O sentimento de vingança poderia vir com a madrugada, nas semanas e meses seguintes, em algum momento até o fim da vida daquele sujeito. Embolei toda minha roupa, enfiei na mochila, apaguei as luzes, tranquei tudo. Agora faltavam quinze para as onze. Até a rodoviária, que não passava de um recuo à margem da rodovia, dava cerca de meia hora andando rápido. Seria o tempo exato de pegar o ônibus, o último da noite.

    A passos largos, quase correndo, ganhei a rua escura, de terra, assustado por qualquer movimento que eu percebesse atrás de árvores e em becos entre as casas. Na beira da rodovia me senti menos inseguro e apertei o passo, confiante de que chegaria a tempo. Mas foi quando de uma rua transversal saiu um carro, arrancando; mesmo no escuro deu para ver que era um Voyage. Com a arrancada, os pneus deslizaram na terra batida, e cantaram quando alcançaram o asfalto. Ao se aproximar de mim, um sujeito colocou metade do corpo para fora da janela do carona, pôs uma das mãos na cintura e fez o movimento de que dali tirava uma arma. Gritou “Vai morrer, filho da puta!”, e apontou para mim. Havia um objeto escuro, pontudo, preso entre o polegar e o indicador de sua mão direita, mas com a iluminação fraca, não era possível saber do que se tratava. O tempo em que o carro levou passando por mim ficou congelado em algum lugar do espaço sideral. Congelados também ficaram minha respiração e meus batimentos. Eu tinha 22 anos. Não imaginei que nessa vida se pudesse morrer na beira de um estrada, longe de casa, num fim de noite de domingo, tão rápido e por um motivo tão idiota: uma buceta misturada a cheiro de peixe e cerveja choca. Finalmente reagi, e intentei me jogar no matagal a minha esquerda, mas antes que eu fizesse isso, o desgraçado recolheu as mãos para dentro do carro, e ainda com a cara do lado de fora, me olhando feito um palhaço no picadeiro, deu uma risada escandalosa, que ecoou na noite e foi sumindo a medida em que carro ganhava velocidade com o arranque e desparecia na escuridão da estrada. Agora com o coração aos pulos e quase sem ar, não sei quantos segundos levei para realmente entender o que havia acontecido. Quando confirmei que estava vivo, voltei a apressar o passo, pensando que aquele imbecil jamais irá supor que não havia pior hora e pessoa mais errada para ele fazer uma brincadeira tão estúpida.

    Olhei o relógio. Onze e dez. Faltava cerca de meio quilômetro para o arranjo de rodoviária. Apressei o passo; agora, praticamente correndo, estava chegando. Foi quando vi, ainda a certa distância, o letreiro luminoso: Macaé – Rio, 23h15. A porta aberta, dois ou três embarcavam. Juntei todas as forças que tinha numa corrida desabalada, mas a porta fechou e o motorista deu seta para a esquerda, anunciando que pegaria de volta a pista. Perder aquele ônibus poderia significar a diferença entre morrer e continuar vivo. Então, tirei ar de não sei onde e gritei que nem um desesperado, acenando que me esperasse. Quase me joguei na frente, como se achasse melhor morrer com a logomarca da Mercedez Benz na cara do que com possíveis requintes de crueldade de um marido traído.

    Para meu alívio, o maior que senti na vida até então, escutei o barulho de ar comprimido do freio do monstro de lata. Em seguida, a porta se abriu, subi e quase sem respirar, sem conseguir falar, tremendo, tirei o dinheiro da carteira e comprei a passagem direto com o motorista. Ele me vendeu uma poltrona da última fileira. Se fosse pendurado no teto, já estaria ótimo.

    Como não havia ninguém ao lado, abri a janela, para que o vento frio da noite, acelerado pela estrada, secasse o suor da minha cara e da minha camiseta. Quando secou, fechei a janela e deitei um pouco o encosto. Lá fora, mesmo fracas as luzes da saída da cidade clareavam a espuma das ondas e o deserto da praia. Repassei tudo o que acontecera naquela noite, lembrei-me dela, de pernas abertas em cima do freezer, no trailer, mas na memória do olfato não me veio seu cheiro, aquele que eu tive certeza de que lembraria para o resto da vida. Naquela lembrança tão recente, estava apenas e tão somente a mistura enjoativa de cerveja passada e fritura velha de peixe.

  • A quem você deve seu mérito

    No Brasil, o discurso da meritocracia ainda encontra solo fértil. Acredita-se, com quase cega devoção, que o topo da montanha foi conquistado a passos individuais – fruto exclusivo do talento, da disciplina e das noites mal dormidas. O discurso é sedutor, embora ignore uma pergunta que possa soar incômoda: quando você chegou lá, quem segurava a escada?

    ​Por trás de cada trajetória de sucesso, há uma estrutura invisível operando nos bastidores. Independentemente dos marcadores sociais ou da classe econômica, ninguém avança em absoluto isolamento. Há sempre alguém abrindo espaço, viabilizando o tempo e absorvendo os impactos diários para que outro possa brilhar. E é justamente esse ecossistema de suporte que uma parcela significativa dos “vencedores” se recusa a reconhecer.

    ​Vamos olhar para as estruturas corporativas, a ascensão meteórica de um homem de negócios frequentemente repousa sobre a anulação do tempo de uma mulher. Enquanto ele acumula horas extras e networking, há quem garanta a roupa passada, a refeição pronta e a casa funcional. O topo da carreira é financiado pela renúncia alheia.

    ​O mesmo fenômeno se repete no universo feminino. Para que uma mulher não racializada, de classe média ou alta conquiste espaço no mercado corporativo ou na academia, provavelmente precisa de outra mulher – frequentemente negra, periférica ou da própria rede familiar, como mães e avós – precisa assumir a retaguarda do cuidado. A emancipação de uma costuma ser pavimentada pela sobrecarga de outra.

    ​Medir a vida do outro pela própria régua é um exercício de miopia social. Dizer “se eu consegui, qualquer um consegue” desconsidera que nem todos navegam com os mesmos mapas ou sob as mesmas condições climáticas. Há quem enfrente a tempestade a bordo de um navio estruturado; outros estão sozinhos, em uma canoa rachada no meio do oceano, tentando tirar a água com as mãos antes que a estrutura afunde de vez.

    ​Pois deve ser fácil e delicioso bradar ao mundo que o sol nasce para todos quando o seu tempo, o seu estudo ou trabalho e a sua estabilidade foram construídos a partir do esforço e da exploração silenciosa de outros corpos – quase sempre, femininos. O mérito que ignora os bastidores não é conquista; é apenas privilégio desmemoriado.

  • Caixinha de música

    — O que você faz aí?

    — Não está vendo?

    — Estou, mas por que aí?

    — Você não sabe?

    — Não!

    — O meu criador disse: “Vá e enfeite o mundo!”

    — Então você é um enfeite.

    — Sim.

    — Pra quem?

    — Pra todo mundo.

    — Mas não os vejo.

    — Quem?

    — Todo mundo.

    — Porque você me trouxe pra cá.

    — Então agora você é meu enfeite?

    — Sim.

    — Desça daí.

    — Para quê?

    — Vou mostrá-la a todo mundo.

    — Não entendi. Você não me trouxe pra você?

    — Eu te trouxe para ser.

    — Ser o quê?

    — O que você quiser.

    — Sozinha?

    — Inteira.

    — E você?

    — Se você deixar, serei inteiramente seu.

    — Eu desço?

    — Eu posso subir.

    — …

    — Onde estivermos, seremos.

    — Movimento e dança.

    — Ritmo e poesia.

    — Vento e voo.

    — Sintonia e sinfonia.

    — Vamos?

    — Começou.

  • Poema #81: A lua escura

    “se soletra L-U-A”

    sabe,
    há um momento
    em que a lua
    fica escura.

    é quando,
    a escuridão maior
    vinda dos montes
    cobre a Rua Fácil.

    e tudo,
    vira um só quadro
    negro, uma lousa
    fria que antecede
    a morte.

    Da Essencialidade da Água

  • Poema #10: Liturgia do instante

    Lento, tudo está lento…
    Vejo meus passos firmes, passos soltos
    E já não sei mais o que solto, pelo que passo
    Se quando firmo, não me atento.

    Doce, tudo está salvo.
    Tampouco o hoje é, sorte.
    Se é veneno um tanto, e quanto ao não que houve?
    E quando o há? Sabemos?

    Se o quanto ouço, ou vejo
    Fizer mera semelhança ao sentido…
    Se por falar em sentir, se exaltar-lhe o tato
    For, ainda assim, coisa-fato… não me remeto ao senso de ser simples isto.

    Existo. Voo.
    Plaino sobre a superfície d’areia
    Que me recolhe toda a intuição da corrente
    Vou contra, sou filho. Soo, assopro, conduzente que não leva, mas vai.

    Ah, eu deixo isso de saber muito
    Para quem não me entende.
    Segredo maior não há – no uno verso
    Que não lhe enfrente. Talvez, por isso, seguro seja seguir.

    Saúde!
    Um gole lento na palavra
    ausente.

  • Em Bocas de MATILDE

    Quando pequena, Matilde surpreendia a todos com sua estranha mania de engolir objetos. Chupetas, partes de brinquedos de borracha, bicos de mamadeira. Na escola impressionava colegas, engolindo canetas e lapiseiras. Era um dom. Todos diziam que no futuro ela trabalharia no circo como engolidora de espadas.

    A mãe culpava o pai por ter levado a menina no circo. Agora, essa novidade, engolidora de espadas…

    Matilde não vinha de uma família circense e nunca teve transmissão de saber artístico. Engolia e pronto. Aos poucos foi aprendendo a dominar as ânsias de vômito e os engasgos. A arte de engolir exigia treinamento para controlar músculos e reflexos do corpo. Sem dúvida, uma prática arriscada, se não houvesse preparação adequada. Para piorar, era autodidata e destemida.

    Com a mania de Matilde vieram também as dores de garganta, as inflamações. Examinada, teve suspeita de ulceração no esôfago. Mas nada nem ninguém conseguia afastá-la da tentação de engolir objetos.

    Sua mãe trancou todas as gavetas da cozinha que continham facas e garfos, como se isso fosse intimidar a filha. O desafio de encontrar outros artefatos cortantes a estimulava ainda mais.

    Na verdade, Matilde não aspirava tornar-se uma engolidora de espadas num circo. Apenas uma forma de se exibir e chamar a atenção.

    Na adolescência, com os namorados, ganhou fama no sexo oral e despertou a inveja e os ciúmes das colegas.

    Coincidência ou não, acabou solteira. Nenhum namoro foi adiante, apesar da reputação favorável do seu fetiche.

    Com o tempo, Matilde conseguiu o domínio de engolir cada vez mais fundo as coisas, com a inserção progressiva de objetos lisos, tubos e bastões de metal, alongando a língua, relaxando a garganta e controlando a respiração. Nessa época, também retirou as amigdalas.

    Por mais bizarro que possa parecer, tinha dificuldade em tomar comprimidos. Preferia esmagá-los com uma colher. Outra excentricidade era o cacoete de produzir um ruído constante, emitindo sons guturais com a garganta.

    Hospitalizada repetidamente para tratamento de feridas na faringe e inchaços na língua, finalizou seus dias solitária num instituto psiquiátrico. Impressionava a todos sua curiosa habilidade em engolir sapos.

  • Quantos anos cabem no breve espaço das 03h17 de um amanhecer de sexta-feira?

    Quantos anos cabem no breve espaço das 03h17 de um amanhecer de sexta-feira? Há passos no eco, pisos empoeirados da semana passada, taciturnos. Há o Cachambi, que dorme, às três e dezessete da manhã, já dezoito. Há o streaming para quem, como eu, de tão cansada, não dorme. Há um filme pandêmico, dor humana, tristeza, perda do olfato. Num streaming — todo o meu amor aos streamings que nos fazem companhia junto a uma Hocus Pocus de 500ml, 8.5% de teor alcoólico, promoção no Carrefour. Há a camisa verde oliva com cheiro do improvável. Lençóis limpos, travesseiros e a camisa verde que não reflete a cor dos olhos, mas do destino. Nada além, a pele é o único resquício, entre tecidos, aromas e memória.

    — Toc-toc

    — Quem bate?

    — Sou eu

    — É Tarde, entra

  • Essa vai para a coleção

    Meu armário abriga uma coleção curiosa: caixas vazias, sacolas elegantes e potes de vidro sem função definida.

    Em comum, todos carregam a mesma etiqueta imaginária: “Pode ser útil um dia.”

    Tenho uma verdadeira compulsão por colecionar inutilidades que considero superimportante guardar.

    Vai que surge um presente de última hora.

    Vai que resolvo organizar a papelada.

    Vai que abro uma loja de embalagens recicladas.

    Vai que descubro um talento oculto para Personal Organizer e transformo meu armário num caso de sucesso.

    Tenho potes suficientes para iniciar uma pequena fábrica de conservas.

    O detalhe é que não faço conservas.

    Nem pretendo.

    Guardo porque vai que preciso.

    Mas, vejam bem – isso não quer dizer que sou aquele tipo de pessoa que não desapega.

    Sou perfeitamente capaz de descartar um tênis velho, uma roupa que não serve mais, um saco Zip-Loc usado uma única vez…

    Humm… ato falho.

    O Zip-Loc não.

    É só lavar e reutilizar.

    A verdade é que não guardamos caixas, potes ou sacolas.

    Guardamos futuros imaginários.

    Meu armário já não fecha direito, mas sigo firme.

    Afinal, quando chegar o grande dia em que eu precisar de uma caixa dourada, três potes decorados e seis sacolas de papel reforçado ao mesmo tempo, estarei pronta.

  • Poema #18: O menino e o pássaro

    O pequeno menino olha demoradamente o céu.
    O voo de um pássaro branco…excitado,
    leve, branco, branco e leve: um estalo.
    Alvas penas de um delírio todo seu.

    Corpo sem brilho é beijo de encontro à terra,
    um desespero brusco de última chance.
    Molhado pelo sangue o passeio se encerra…
    dentre tantos pássaros, quem quer, que cante.

    Asas se abrem e contorcem no mesmo instante.
    Tudo é ferida, escuridão, lágrimas e repete
    o menino a dor do pássaro agonizante…

    Chora compulsivamente pelo gesto estúpido
    Quando num triste movimento padece
    O pássaro branco, vermelho e mudo.

  • Dia dos Pais

    Um dia em que se homenageiam os meninos que se tornam homens e, um belo dia, se descobrem pais.

    Descobrem-se pais e não há nenhuma alteração fisiológica!

    Não sentem o seio intumescer segundos antes de o bebê chorar. Não têm um corpo que lhes avise, de maneira tão evidente, que chegou a hora de alimentar a cria. Não amamentam, não experimentam as mesmas transformações físicas da gestação e do nascimento.

    As mães contam com uma espécie de alarde da natureza.

    O corpo muda, os hormônios se alteram, o leite chega, o bebê chora e alguma coisa responde.

    E eles? Nove meses de espera sem que se altere em seu corpo nem um fio de cabelo?

    Os pais que lutem!

    Mas será mesmo?

    Pode ser que haja escondido em algum recanto da fisiologia masculina, um mecanismo que desperte o homem para a paternidade?

    Algo que desperte o instinto paterno?

    Ou pai é coisa que se aprende?

    Talvez alguns amanheçam pais.

    Outros entardeçam.

    Alguns, quem sabe, só escureçam pais.

    E há aqueles que vão se tornando pais devagarinho.

    No primeiro colo meio desajeitado. Na primeira fralda colocada ao contrário. Na madrugada em que caminham pela casa com um bebê que não para de chorar. Na febre que assusta. Na mão pequena que procura a sua para atravessar a rua.

    Ahhh… A natureza não lhes deu o leite, mas deu-lhes braços, inteligência, senso familiar, de proteção, de valor e de clã.

    E, depois, cabe a cada um decidir o que fará com tudo isso. Que pai será…

    Pode ser que a paternidade esteja justamente aí: menos no que desperta espontaneamente no corpo e mais no que um homem escolhe construir todos os dias.

    Sou afortunada.

    Tive um bom pai.

    O pai dos meus filhos foi um bom pai.

    Meus netos têm bons pais.

    Talvez por isso, depois de começar esta crônica desconfiando um pouco da natureza e bastante dos homens, eu chegue ao fim quase boazinha.

    Quase.

    Porque pai também não precisa de santificação. Precisa ser! 

    O olhar, a escuta, a atenção e a presença serão, com certeza, aquilo que seus filhos guardarão de você. E, um dia, talvez contem aos próprios filhos, que contarão aos seus…

    E, na beleza deste domingo de sol, 9 de agosto de 2026, quero, desejo e proclamo ao mundo:

    Feliz Dia dos Pais!

  • Dois projéteis e um amor feito em pedaços

    (Domingo de manhã, quarto de Sofia)

    O rádio havia ficado ligado a noite toda. Naquele momento, ia ao ar um debate sobre a epidemia letal que tinha começado havia mais de um ano. Infelizmente, diziam os cientistas, o fim do tormento não era esperado para breve. Uma nova variante do vírus, muito mais transmissível, havia surgido no Marrocos, perto da fronteira com a Espanha. Sofia escancarou a janela e deu de cara com uma nuvem acinzentada e espessa. Aquele borrão ostensivo ousava cobrir quase todo o céu e incomodava pela capacidade de ofuscar a bela paisagem natural da zona sul do Rio de Janeiro, cidade que essa paulista de Ribeirão Preto havia escolhido para viver dez anos atrás. Na noite anterior, havia ido dormir ouvindo gargalhadas inoportunas provenientes do apartamento vizinho. O som, mais alto do que de costume, parecia indicar uma festa. A impressão que se tinha era que os donos da casa e seus convidados não comiam, não bebiam, não dançavam, não conversavam, não se beijavam, não se drogavam, não trepavam. Enfim, não faziam nada do que se costuma fazer numa situação do gênero. Apenas gargalhavam de modo histérico e inconveniente. E ouviam música, claro. Uma salada impensável, de gosto duvidoso, cantores de que Sofia já nem se lembrava. Vários simplesmente desconhecia. Algumas poucas canções daquele eclético repertório a fizeram recordar momentos importantes de sua vida. De sua vida com Olavo inclusive, uma das coisas boas que o Rio havia lhe proporcionado. Sim, é verdade, um dia tinham sido felizes juntos. Pouco mais de meia hora tinha se passado. O panorama havia se modificado um pouco. Agora, um solzinho pálido e preguiçoso tinha conseguido furar o bloqueio da nuvem escura e invadia parcialmente o quarto. Ainda deitada na cama, Sofia ligou para Olavo. O barulho das risadas e das músicas ainda reverberava em seus ouvidos. O que tinha a lhe dizer não seria fácil, mas estava decidida a resolver a situação o mais rapidamente possível. Por ela, liquidaria a questão com apenas uma frase, de preferência algo bem curto como acabou, fim, chega, basta, já deu. Mas uma relação, mesmo uma fracassada como a que mantinha com seu colega de firma, não se termina assim, de forma tão econômica. Não é essa a praxe. Olavo mostrou-se surpreso. Pediu e até implorou nova chance. Não gostava de ser contrariado e tinha por hábito dar sempre a última palavra. Nas semanas seguintes, continuou a procurar Sofia e a tentar uma reaproximação. Ela seguia irredutível. Raramente voltava atrás quando tomava uma decisão. Era patético ver um sujeito de mais de 40 anos apresentando um comportamento tão infantil. O que estaria acontecendo com os homens, se perguntava. Por que todos pareciam sofrer de imaturidade crônica? Cerca de quatro meses depois, Olavo sumiu de repente. Na empresa, diziam que havia sido transferido para Salvador. Sofia passou a sentir falta dos telefonemas diários, das cartas melosas, dos bilhetinhos furtivos, dos e-mails caprichados e dos torpedos insistentes do ex. E do sexo também. Como era bom de cama o danado, tinha de admitir. Ficou saudosa do passado nem ela conseguia explicar bem por quê. Somos todos nós, seres humanos, um poço de contradições, havia ouvido num filme alemão na semana passada. Só pode ser isso. Queremos o que não temos e desprezamos o que conquistamos. Um dia, quando já haviam se passado mais de dois anos desde o último contato, Olavo voltou. Reassumiu seu posto e passou a encontrar a ex-namorada com frequência no ambiente de trabalho. A retomada do romance estava destinada a se tornar realidade. Foi assim que, num barzinho da Lapa, ao som de um chorinho bem tocado, selaram o acordo. Estavam namorando de novo.

    ***

    (Sábado à noite, apartamento de Sofia)

    Depois do sexo, Sofia foi até o banheiro enquanto o homem, olhar meio perdido, continuava deitado na cama. Olavo apresentava uma expressão transtornada, o corpo envolvido por uma nuvem negra de ressentimento e amargura. Assim que a mulher voltou ao quarto, ele disse com voz trêmula:

    – Você não devia ter feito o que fez. Quem vai terminar com você sou eu, sua ordinária. Olha bem… Eu tenho uma surpresa, falava, tal qual um personagem de telenovela mexicana, ao mesmo tempo que exibia uma pistola.

    Foram dois tiros no peito antes de a mulher cair diante do armário. Já não respirava. Olavo ainda continuava sendo alguém que não admitia ser contrariado e que mantinha o hábito de sempre dar a última palavra. Sofia nunca poderia imaginar que sua vida chegaria a termo assim, de forma tão cafonamente melodramática.

  • A Papiloscopista

    Papilo o quê? Expectorei na tosse esta pergunta para minha filha Violeta, liberando as vias áreas de um agente irritante. Nunca entendi o seu sonho de ser uma papiloscopista. Quando meninas sonhavam em ser princesas, a minha desejava ser papiloscopista. Hoje fico aliviada dela não ter brincado de cadáveres ao invés de bonecas. Quando ela me falou pela primeira vez da profissão tão sonhada, confesso que não entendi. Naquela manhã ensolarada, ela desembuchou na lata, com voz grave e semblante decidido: “Mãe, quando crescer eu quero ser papiloscopista”.

    Será que seria uma criança de aura índigo? ou eu estaria confundindo a palavra papiloscopia com parapsicologia? Violeta me desorientava com seu ar fatídico, parece ter nascido de fora para dentro.

    Quando menina, ela passava horas a fio trancada no quarto desenhando papiros. O talo do papiro chega a medir seis metros de comprimento, a flor da planta lembra os raios de sol, uma planta sagrada para os povos antigos. Assim divaguei pelos papiros:

    — Será que a profissão de papiloscopista poderia ter a ver com aqueles vibrantes papiros? Ou seriam pupilas? Afinal, ela era a minha menina dos olhos. A pupila fica no centro da íris, também pode ser um botãozinho ou um mamilo. Violeta era minha pupila, que também apreciava os fósseis. Seria então paleontologia a tal da profissão? Quem sabe minha pupila seria uma cientista que estudaria as formas de vida existentes no passado. Ao menos, para uma mãe, parecia mais palatar esta opção.

    Ela adorava carimbar. Carimbava as mãos, dedos e pés , com tinta ou carvão. Carimbava até o rosto na areia da praia. As visitas na nossa casa já sabiam do passe de entrada: seriam carimbadas por Violeta, que construía um cadastro de gente de forma obsessiva. Até que ela começou a desenhar papilas dérmicas, desenhava com perfeição as digitais, que além de exclusivas, nos fazem companhia até a morte.

    A ameaça desta bizarra profissão me eriçava os pelos dos braços, provocando-me um estranho acovardamento. Hoje acordei desassombrada e decidi perguntar direto a Violeta, mas vacilei e desisti, porque sei que me responderia curta e grossa, com língua
    afiada de pirarucu, com sua lixa que esfola. Digitei mais de vezes para perguntar a IA, e dei de cara com a morte. Não tinha como fugir. É verdade, nós somos todos mortais. Adeus à doce ilusão de eternidade. Isso sim deve ser o nosso fantasma.

    Duro mesmo era saber que minha flor Violeta tinha o desejo de convívio intenso com defuntos. Ela labutaria com corpos mortos, para na superfície de suas peles descobrir a profundidade da sua alma, revelada nas suas identidades fragmentadas, matadas,
    acidentadas, afogadas, carbonizadas. A descoberta me causou horror, o de quem tenta encobrir com o véu do silêncio a palavra morta, como se ela, a morte, fosse um destino inevitável apenas para o outro. Melhor restar-me como espectadora, enquanto violeta testemunharia o nirvana, esse estado inorgânico de seres humanos destituídos ou libertados de qualquer tensão ou pressão de vida.

    — Mãe! O que queres aí?

    Assim atirada, interrompeu a minha pesquisa. Entravei, mas já acalmada por destramar a possível causa do seu desejo papiloscópico! Matei a charada: ela foi atiçada pela síndrome de Nagali. Eis aí a resposta deflagrada. Os portadores da síndrome de Nagali não tem nenhuma impressão digital, um defeito genético raríssimo que impede a formação das digitais no feto. Violeta foi um destes bebês. Antes tivesse perdido suas digitais por acidente. Sem cristas na epiderme das mãos e dos pés, a menina das pontas dos dedos lisas, seria um dia identificada por suas pétalas de margarida.

    Agarrada ao edital do concurso para a função de papiloscopista da polícia federal, Violeta se trancou no seu casulo onde chocava seu desejo fálico. Que insígnia portaria ali no seu distintivo? Talvez conseguisse enfim abrir sua guarda e sairia cheia de marras e nóias à caça dos pobres mortais. Mas não foi fácil como pensava. Tirou de letra as matérias teóricas, aprofundada no direito criminal como se fosse o próprio algoz. Mas como uma mula empacou num pulo.

    A pedra no caminho era um salto para frente, um teste de impulsão horizontal. Se sustentava em barras, mas não conseguia pular com impulso para frente. Eu assistia comovida ao esforço de minha filha, que pulava sem parar. Ficava com dores nos joelhos e articulações, mas não abdicou. Às vezes ela mesma caia de risada, quando nem conseguia sair do lugar. Seria mais uma vez avacalhada! Saltar para frente com propulsão e coragem devem ser um privilégio de poucos, por isso estancamos diante das pedras, olhando desesperados para trás. Mas naquele ano ela pulou, cravando a distância máxima para as mulheres e aterrou na areia do estádio do Maracanã, sob os aplausos da plateia de avaliadores. Desta vez não foi vencida pelo teste de aptidão física, que elimina de cara quase metade dos candidatos. Violeta começou aos 25 anos e só teve êxito aos 33 anos. A mais velha papiloscopista daquele ano, uma façanha só possível pelo impulso louco do desejo. A sua obstinação era rastilho de pólvora.

  • Um gato chamado Bartolomeu

    Não, eu não vou arrumar um gato. Nem em sonho. Mas uma das minhas filhas sim. Quer dizer, essa é a intenção dela.

    Essa semana ela me procurou com essa conversa. Veio com aquele papinho sinuoso, típico de adolescente que quer algo. Se seria possível, quando ela se tornasse mais responsável, ter um gato.

    Ela tem 14 anos e tem um quarto só dela onde deixa uma bagunça razoavelmente organizada. Com as coisas da escola é bem responsável, não deixa nenhuma tarefa por fazer e muito menos de estudar quando é necessário.

    Cuida do seu bilhete único, sabe onde está sua carteira de identificação nacional e é incapaz de voltar da escola tendo deixado algum rastro, como livro, caderno ou casaco.

    Enfim, para uma garota de 14 anos ela é até responsável. Não disse isso a ela, claro. Se admitir ela vai querer o gato ontem e não em três anos.

    Sim, o prazo que ela considera que estará mais responsável e capaz de ter um bicho só dela é aos 17 anos. Perguntei porque e ela me disse que já terá votado pela primeira vez e estará às portas da universidade.

    Ponderei que justamente por isso que deveria não pensar em ter o gato ainda. Ela me questionou: se posso votar para prefeito posso ter um gato. E eu repliquei que a questão não tem a ver eleição mas sim com a preparação dela para entrar na universidade. Aos 17 anos ela estará no terceiro ano do médio. Ou, como diziam os antigos, na marca do pênalti.

    Ai comecei aquela ladainha paterna. Que não vai ser uma época fácil, que vai precisar estar muito concentrada, que terá que estudar, que isso e que aquilo. Ela me escutou calada. Terminei e olhei para ela que me disse devagar: mas o Bartolomeu vai me fazer companhia.

    Suspirei e me calei pensativo. Daqui a três anos não vai ser fácil…

  • Traídos

    Chamava-se Marisa, era casada e não desgostava dessa condição. O que lhe era mais caro na vida, porém, era o seu sentimento de liberdade. Costumava comentar com Nébia, a amiga íntima: “Sempre fiz tudo, ou quase tudo, que quis”. A amiga contestava: “Tudo, não. Ninguém pode fazer tudo. E você é uma mulher casada”. Marisa reconhecia: “Claro, claro, sempre respeitei Eustáquio”. A outra: “E não está fazendo nenhum favor. Eustáquio é um homem corretíssimo. Além do mais, adora você”.

    De fato, o marido a amava e de uma maneira que se podia chamar servil. A rigor, endeusava-a, e tal idolatria chateava um pouco Marisa. Mas ela tinha a impressão de que, casada com qualquer outro, sentiria o mesmo rancor aborrecido que só tinha uma razão: o marido era o obstáculo ao que sempre lhe fora mais caro – a decantada liberdade. Então Marisa foi, aos poucos, alimentando a certeza de que não seria errado trair Eustáquio – pelo menos uma vez. Uma vezinha só, para provar a si mesma que podia, e depois voltava a ser-lhe fiel. Tinha a íntima convicção de que o marido, se por acaso viesse a saber, sofreria mas acabava perdoando-a. Não podia viver sem ela.

    Deu-se que um grupo de colegas de trabalho convidou Marisa para uma excursão. Iriam passar duas, três semanas na Europa. Entre eles estava Haroldo, que desde sempre lançara para Marisa uns olhos cobiçosos. A mulher sabia que ele a desejava, e fazia um jogo sutil de negaças; ria e logo ficava séria, para mais o confundir. Aproveitaria a viagem para em definitivo dar sinal verde a Haroldo. Nada mais poético, e nada mais prático, do que trair Eustáquio no Velho Mundo (decidiu que seria em Paris; a Cidade Luz sempre lhe parecera, nem sabia direito por quê, o ninho ideal para o adultério). Trairia em Paris, sim. O marido estaria longe de saber e a mulher deixaria o temor, talvez o remorso, do outro lado do Atlântico.

    Ocorreu a viagem e Marisa regressou um mês depois. Trouxe para Eustáquio um belíssimo cortador de grama (ele tinha obsessão pelo jardim de casa), comprado numa loja bem próxima do motel onde se encontrara, mais de uma vez, com Haroldo. Por sinal, depois da viagem Marisa não quis mais conversa com o colega. Insatisfeito e despeitado, Haroldo contou a aventura a um amigo, pedindo-lhe sigilo. O mesmo fez esse amigo com relação a outro – e assim, no final das contas, todos na repartição sabiam sigilosamente da aventura de Marisa.

    Foi quando um dos amigos do casal apiedou-se de Eustáquio e resolveu contar-lhe tudo. Numa noite redigiu a carta, em letra de forma, e enviou-a no dia seguinte.

    Na tarde desse dia, Marisa voltava satisfeita das compras. Vivia uma espécie de absoluto espiritual, pois tinha do casamento o conforto, o serviço, a companhia – mas não tinha o dever nem a prisão. Pouco depois, entrando em casa, viu Eustáquio sentado na mesa da sala, cabisbaixo e chorando. Ao lado, um papel de carta. Perguntou de que se tratava. “Leia”, disse o marido. Antes que ela terminasse a leitura, perguntou cheio de esperança: “É mentira, não é? Diga que é mentira”. Marisa respondeu com tranquila dureza: “Não. Foi verdade”.

    Eustáquio então pediu-lhe a carta, rasgou-a em vários pedaços. E de repente, como se acordasse de um pesadelo ruim, exclamou: “A grama! Esta semana ainda não aparei”. Foi à despensa e tirou o cortador importado. Pouco depois, com uma aplicação de funcionário, debruçava-se sobre o jardim.

    Marisa então percebeu que o que fizera fora inútil. Não rompera padrões, não desafiara ninguém – não havia, de fato, a quem desafiar. Olhou o marido operando o cortador e teve a impressão de era a sua liberdade que ali, a poucos metros, rastejava na grama. E sem mais orgulho ou maldade, antes com uma pena que se estendia a si mesma, deu-se conta de quanto os dois se mereciam.

  • No dia seguinte

    O Zé balançou a cabeça, recostou-se no sofá, acariciando os cabelos, a cara, as orelhas, o nariz. Quando chegou no nariz, ele acordou. Olhou a Cida do lado, sardentinha, de olhos claros.

    Eram mais de três horas da tarde, e ele dormindo. Um gosto de cabo de guarda-chuva na boca! A Cida falava que tudo bem, ele ficou meio alegre ontem à noite, mas quem é que não ficou?

    Todo mundo achou o Zé engraçado, só o Boi que ficou meio contrariado. O Boi é assim, é só alguém chegar muito perto da Zefa. E a Zefa até que estava gostando da conversa, só ficou chateada quando o Zé derramou molho de macarrão nas costas dela.

    Todo mundo adorou o Zé no jantar. O dono do restaurante é que ficou preocupado, mas bem que ele estava gostando. O Zé cantava bonito, o dono do restaurante só tinha medo de que os vizinhos chamassem a polícia com tanto barulho.

    O Zé cantou sem parar, por mais de uma hora. Quando cantou aquela dos políticos fazendo strip-tease no bordel, todos exigiram silêncio, aos gritos. Ninguém queria perder nada. Quando os protestos acabavam, o Zé recomeçava.

    A Cida insistia para o Zé jantar, mas quem diz dele comer alguma coisa! Quando o garçom se aproximava, o Zé repetia e repetia que era irmão dele, que a mãe tinha separado os dois porque eram muito feios. O garçom ficou puto da vida.

    Mais puto ficou o cara no fundo do salão, aquele da gravata vermelha e amarela que o Zé queria arrumar, e quase enforcou o homem! Ainda bem que a Cida conseguiu levar o Zé embora, trançando as pernas e tudo. O Zé dava dois passos e caía, e queria
    cumprimentar cada poste, cada árvore do caminho.

    Pior quando o Zé ergueu a perna, querendo mijar, como um cachorrinho num poste.

    Depois abraçou uma árvore, disse que a copa, os galhos, as folhas brilhavam ao luar.

    Disse que a árvore tinha uma aura, que ele podia ver a alma da árvore.

    A Cida acabou ficando encantada com o Zé. Achava que aquela noite tinha sido a mais importante da vida deles. Agora à tarde ela acariciava o Zé com uma ternura imensa.

    Até lhe serviu mais um gole de conhaque, para rebater.

    O Zé bebeu e ficou olhando a Cida, com um olhar alheado – quem era a Cida?

  • DEIXA ESTAR

    — Por que você apareceu aqui no meu sonho, se o que eu quero agora é sonhar com minha mãe? — perguntei, achando graça na presença dele no meu sonho.

    — É impossível escolher com o que sonhar — respondeu Paul, sentando-se na beirada da cama.

    — Bom, imagino que seja porque ontem eu passei o dia lendo um livro que conta a história de sua mãe e daquela música. Então este sonho de agora é um reflexo do que vivi durante o dia. De acordo?

    Paul fez um movimento com a boca que não consegui decifrar. Olhei para seus olhos amendoados e tristes. Alonguei a conversa: “Você se lembra dela com frequência?” Ele fixou os olhos num ponto qualquer do quarto e contou:

    — Antes de ser internada no Hospital Municipal, em Liverpool, quando ela própria já sabia que nada mais poderia ser feito para salvá-la da doença, deixou as roupas passadas e arrumadas no armário e abasteceu a geladeira com frutas e legumes. Meu irmão menor e eu estávamos no acampamento de verão e só ficamos sabendo de tudo na volta. Papai nos deu a notícia.

    — Não houve despedida? — perguntei.

    Paul caminhou devagar até o piano no outro lado do quarto. “Não, não houve despedida”, ele suspirou. Ajustou a altura do banquinho, sentou-se e ergueu a tampa do instrumento. Começou a cantar. Seu rosto tinha agora uma expressão suavizada. Tentei falar que eu queria mesmo era continuar sonhando com minha mãe, mas, em vez disso, cantei. Cantei junto com Paul.

    When I find myself in times of trouble,
    Mother Mary comes to me
    Speaking words of wisdom, let it be
    And in my hour of darkness she is standing right in front of me
    Speaking words of wisdom, let it be
    Let it be, let it be, let it be, let it be

    — O que significa wisdom, Paul?

    — Sabedoria.

    Fiz silêncio por alguns segundos, o eco da canção, da minha voz e da dele, ainda em meus ouvidos. Olhei para ele sentado ao piano, tão sozinho e tão triste. Falei sem pensar muito, talvez querendo lhe dar algum consolo imediato:

    — Uma das últimas conversas que tive com minha mãe foi muito estranha. Ela, que nunca deixava a cama desarrumada ou a pia com louça por lavar, disse que não adiantava se preocupar mais do que o necessário com essas coisas sem muita importância. Que nesta vida tudo acontecia rápido demais, que o tempo era precioso e precisava ser gasto com o que valia a pena de verdade.

    Paul virou-se para mim com surpresa: “Essa conversa foi um sonho com sua mãe ou aconteceu mesmo?”

    — Não sei dizer ao certo — respondi. — Se foi sonho ou não, tem tudo a ver com sua música, não acha?

    — Acho. Tanto faz mesmo. Como eu disse antes, a gente não pode escolher com o que sonhar.

    — É, eu sei. Eu te contei essa história para inventar uma despedida, Paul. Let it be…

  • Preservação da dignidade

    Em 20 de dezembro de 1943, o bombardeiro americano B-17 “Ye Olde Pub”, severamente danificado, pilotado por Charlie Brown, de apenas 21 anos, retornava de uma missão sobre a cidade de Bremen, na Alemanha. A aeronave tinha dois motores destruídos, sistemas avariados, vários tripulantes feridos e um artilheiro morto. Voando como um “straggler” (retardatário), isolado de sua formação, o bombardeiro era um alvo fácil. Em um determinado momento, o piloto alemão Franz Stigler, um veterano de 28 anos com 27 vitórias aéreas, decolou em seu Messerschmitt Bf 109 para o que seria mais um abate. Ao se aproximar do bombardeiro americano, Stigler viu através dos buracos na fuselagem, um tripulação ferida e indefesa, e ao invés de atirar, Stigler tomou uma decisão surpreendente. Ele emparelhou seu caça com o bombardeiro, gesticulou para que Brown pousasse e se rendesse e, diante da incompreensão dos americanos, assumiu um risco imenso: escoltou o inimigo para fora do território alemão, voando em formação cerrada para que a artilharia antiaérea não atacasse o B-17, confundindo como uma escolta alemã. Ao chegar ao mar do Norte, Stigler saudou Brown e retornou à base. Os dois pilotos só se reencontraram quase 50 anos depois, em 1990, quando Brown, após décadas de busca, publicou um anúncio em uma revista de aviadores. Tornaram-se grandes amigos e morreram com poucos meses de diferença, em 2008.

    Para Stiegler, a dignidade não é um dado, mas um processo de elevação através da sublimação das pulsões. Stigler não viu apenas um alvo, mas seres humanos feridos e agonizantes. Ele os equiparou a pilotos em paraquedas, indefesos, e merecedores de clemência sob o código de honra que escolheu seguir. Stiegler, ao invés de ser um mero instrumento da máquina de guerra nazista, afirmou sua autonomia ética. Transformou o encontro com o inimigo abatido em uma oportunidade para agir conforme seus próprios valores, mesmo correndo o risco de ser fuzilado por traição. O reencontro dos pilotos décadas depois e a amizade que formaram, simbolizam a recuperação da dignidade coletiva. A história de Stigler e Brown é a encarnação histórica do conflito entre a pulsão de rebaixamento e a capacidade de elevação do ser. É a prova de que, mesmo sob o jugo de uma máquina ideológica e militar, o ser humano pode resistir à racionalidade e preservar um núcleo de dignidade. Esse ato de misericórdia do piloto alemão, nos céus da Segunda Guerra Mundial, pode ser interpretado como uma manifestação prática da “elevação” ética humana. No próximo domingo, comemoramos a ressurreição de Cristo, após sua morte na cruz, simbolizando a vitória da vida sobre a morte. Nessa Páscoa, procure encontrar a quem voce possa salvar, como fez o sr Browm, mesmo que seja somente ouvir as lágrimas de sofrimento do outro.

    Feliz Páscoa

  • As meias rotas do Presidente

    Não raramente, atribuímos a personagens importantes da história oficial qualidades inigualáveis e sobre-humanas. Altas autoridades, políticos de grande projeção, empresários bem-sucedidos, artistas de renome, todos eles adquirem um status que os coloca vários degraus acima da grande massa dos mais vis mortais. A fama, a riqueza e/ou o poder de que desfrutam obrigam-nos a projetar em suas figuras as características necessárias para que a atração e o frenesi que costumam provocar sejam, devidamente, justificados e legitimados.

    Ainda no começo de minha carreira profissional quando já não estava mais tão deslumbrado com o jornalismo, mas também não me indispunha com facilidade para aventuras investigativas -, fui designado por minha chefa para cobrir a visita de nosso então Presidente da República a um país árabe. Quando fui comunicado de tal missão, devo admitir que um misto de receio com satisfação tomou conta de mim. Afinal, para alguém acostumado a trabalhar como setorista em Brasília, mais afeito a questões de política doméstica do que de política exterior, o desafio da empreitada não poderia passar despercebido. A viagem do Presidente poderia, todavia, significar meu primeiro passo numa tão sonhada carreira como correspondente internacional.

    Como nunca fui uma exceção às regras que melhor caracterizam nossa sociedade, em geral, e nossa psique, em particular, posso dizer que eu também sofria daquela idealização pueril e ingênua que nos acomete com certa frequência. Aquele personagem, em especial, por ocupar o mais alto cargo representativo de nossa República, não poderia incitar no ainda inexperiente profissional nada menos do que temor e deferência. O problema é que, enquanto o respeito abria portas, o receio criava uma barreira instransponível entre nós dois. Não ousava fazer a ele perguntas um pouco mais incômodas não por falta de oportunidade ou por parca relevância. Estou certo de que as questões que me vinham à mente eram pertinentes e condiziam com o que meu público buscava saber. O que me imobilizava, porém, era imaginar aquele ser humano sobre um pedestal supremo e inatingível.

    Aos trancos e barrancos, tentei lidar com essas limitações da melhor forma possível. No fundo, estava ciente de que as perspectivas de curto prazo não eram nada animadoras. Até que, durante nossa estadia no exterior, o Presidente foi convidado a visitar uma mesquita na capital daquele belíssimo país. A princípio, apenas mais um compromisso protocolar na atribulada agenda de um chefe de Estado. Apesar do laicismo do país visitado, tal gesto poderia, de alguma forma, consolidar a almejada aproximação dos nossos potenciais clientes árabes. No entanto, o detalhe que nosso governante desconhecia é que, ao entrar na mesquita, pediriam a ele que retirasse seus sapatos. Assim, o que seria um pormenor transformou-se, rapidamente, numa fonte de embaraço e de comicidade.

    Talvez por desmazelo, talvez por descuido… Não importa! As meias do Senhor Presidente da República estavam rasgadas! Não posso cometer a difamação de dizer que estavam sujas! Isso, não! Por uma questão de ética, não costumo aumentar o teor das fofocas. Digo, das notícias! A cena foi, levemente, constrangedora, mas não chegou a gerar um incidente diplomático. A verdade é que aquelas meias estavam muito esburacadas, especialmente a que tentava, em vão, cobrir o pé direito! E para deleite de todos os fotógrafos presentes, os dedos daqueles pés quase desnudos pareciam encolher-se de vergonha, como se aquela mínima contração pudesse mitigar o efeito visual da insólita cena.

    — Por que não me avisaram que eu teria de ficar descalço?! perguntou a seus assessores um furibundo e envergonhado, mas ainda educado, chefe de Estado.

    Após o primeiro impacto, o experiente e matreiro político teve a habilidade suficiente para fazer daquele imprevisto mais uma oportunidade de aproximação de seus interlocutores árabes. Como um verdadeiro sem-vergonha, quebrou o protocolo com risadas e piadas, dando àquela situação um elevado grau de informalidade e de descontração. Mas, para mim, aquele acidente de percurso do homem mais poderoso de nossa República foi um autêntico divisor de águas. Reveladoras da simplicidade mais humana e comezinha, aquelas meias rotas e escangalhadas esfacelaram o muro que se erguia entre mim e o Presidente. E se, em minha mente, aquele poderoso homem caía, fragorosamente, de sua base celestial, quem mais poderia incutir medo e timidez neste não mais jovem correspondente internacional?

    Hoje em dia, não sei se o agora ex-Presidente continua descuidado com suas meias. Mas o que ele me ensinou, ainda que involuntariamente, segue guardado como um antídoto contra esses medos que habitam em nosso inconsciente. Vez ou outra, devo lembrar essa peculiar história a fim de superar meus bloqueios internos. No fim das contas, somos todos feitos da mesma matéria! Mas, então, onde estaria nosso diferencial? Creio, pois, que ele deve estar apenas na espirituosidade com que revelamos nossa face mais humana diante de terceiros, sendo eles estranhos ou não.

  • Djamila me ensinou a ter fé. Sempre fui avesso ou displicente com a religiosidade. Nem ao menos procurei entendê-la. Meu pai dizia que eu era ateu e que isso era um grande mal para mim, mas me percebi, por muito tempo, agnóstico, porque precisava de prova para acreditar. Muitas vezes me peguei cutucando os meus demônios, para que algo acontecesse. Saudava aos deuses, quando passava em frente à igreja ou a algum lugar de culto, meramente por respeito. Então, Djamila aportou, como um grande navio, na minha vida simplória. No primeiro contato, jamais saberia dimensionar a nossa conexão. Não poderia esperar nada de uma pessoa raquítica e calada. Tive-a, num primeiro momento, como pau-mandado. Ela simplesmente fazia o que lhe dizia, para atender ao meu pai enfermo. Mas, com o tempo, Djamila, com sua doença e sua beleza rara, me fez repensar sobre o sentido da vida. Nunca foi intensa ou ostensiva, me pegou pelo cansaço e pelo amor, notadamente. Ela veio trabalhar como cuidadora do meu pai, quando ele estava com câncer terminal. Era lindo de ver a sua insistência no amor, até o fim. Tornou-se, além de cuidadora, uma amiga de meu pai, que lhe confiava até o cartão de crédito para fazer as compras de casa, ou dos remédios; do que fosse preciso. Para um homem extremamente desconfiado, isso é demais para minha cabecinha entender. Nem mesmo a mim, seu único filho, dava tanta liberdade. Djamila falava de irmã Dulce como uma santa dos pobres e enfermos. Ela não impunha; tratava com palavras doces e humanas. Passei a assumir essa crença, já que papai não tinha perspectiva alguma de melhora. Num primeiro momento, foi como um resgate, me senti abraçado, e chorei aos pés de meu pai. Apeguei-me, à espera de um milagre, conscientemente. (Cabe dizer que sequer cogitava qualquer milagre; achava tudo uma tremenda balela, para enganar os incautos). Depois de um ano de luta intensa, papai faleceu, não exatamente do câncer, mas de complicações associadas. Foi um dia terrível, a sua ida numa ambulância ao hospital, com sepse. Não houve jeito. Mas Djamila, forte e ama, nunca perdeu a fé, me sustentou tantas vezes, me recolocou no sentido da vitória, sempre crente, sempre paciente. Hoje, ela precisa de mim, minha amiga. Doente do coração, não tem forças para se movimentar. Está na fila de transplante e seu caso é grave. Não há vaga, não há espaço no sistema público de saúde. E ela agoniza aos meus pés, momento em que, entendendo a sua dor, faço de tudo para amenizar o sofrimento. Djamila é forte, mas a luta é desigual. Gastei já meus trocados, para o seu conforto. Djamila, minha amiga, ainda há de vencer. Prometi-lhe uma viagem (afinal, adora bater perna por aí) para quando melhorar, e assim ela se sente mais viva. Está por chegar esse dia!

  • Poema #80: A ilha

    A ilha com seu silêncio
    me comunica a morte
    dos seres espectrais
    que nela vivem ou já viveram.

    A ilha cercada por mangues
    é um poço de lama e óleo.

    Os pescadores da ilha
    me comunicam o fim
    dos pescadores da ilha.

    Os pescadores da ilha
    me apresentam a pesca de um dia,
    nada.

    A ilha com sua morte
    me comunica o silêncio
    dos seres superiores
    que a mataram e matam.

    A ilha abandonada pelos banhistas
    é um deserto de espuma e água.

    Os frequentadores da ilha
    me comunicam o desastre
    das praias da ilha.

    Os frequentadores da ilha
    me apresentam o bronzeado de um dia,
    petróleo.

    A ilha com sua sorte
    me comunica o crime
    dos seres continentais
    que seguem impunes.

    Os pescadores da ilha
    me comunicam o fim dos peixes
    e voltam tarde para casa.

    O Acaso das Manhãs

  • Sobre voar

    — Desaprendeu?

    — desaprendi.

    — mas você era tão…

    — Era! Muito tempo atrás. Não sou mais.

    — Tem certeza? Isso a gente nunca esquece. Basta uma vez pra nunca mais esquecer.

    — Não foi só uma vez…

    — Não?! Bem, comigo… Pensei que tivesse sido apenas comigo…

    — A primeira sim, mas houve outras. Tantas… Tão boas, tão lindas… O que foi?

    — Nada! Quer dizer… nada! Nada não.

    — Ficou com ciúmes?

    — Sim.

    — Não fique. A primeira nunca esquecemos.

    — Não?! Então por que desaprendeu?

    — Porque…

    — Por quê…?

    — Sei lá! Fui crescendo. Ficando mais pesada. Deixando de lado.

    — Por quê?

    — Você nunca parou?

    — Não. Por que pararia?

    — Mas você também cresceu. Também ficou mais pesado…

    — Cresci.

    — Então?

    — O quê?

    — Não ficou mais difícil?

    — Não.

    — …

    — Não havia como.

    — …

    — É o meu sentido. É para o que existo.

    — Como sabe?

    — É lógico!

    — Não entendi.

    — É lógico!

    — Tá! Agora me explica.

    — Temos asas.

    — E daí?

    — Como e daí? Temos a-sas!

    — Aff!

    — Qual o motivo de termos asas se não for pra voar?

    — … Você acha?

    — Meu Deus! Tenho certeza.

    — Mas também temos pés. Podemos andar.

    — E a-sas!

    — …

    — Cadê as suas? Elas eram tão bonitas! Tão lindas, cheias de plumas…

    — Não são mais as mesmas. Mas as suas estão mais bonitas, mais definidas.

    — Eu voo.

    — Eu cresci.

    — Você cresceu e desaprendeu.

    — Cresci e desaprendi a voar…

    — Não! Cresceu e desaprendeu a ser.

    — A ser?

    — Sim.

    — A ser o quê?

    — Feliz.

    — …

  • Se eu me perder

    O silêncio cresceu com a sombra mais densa. Então, os fones acenderam as lâmpadas incandescentes da plataforma, que pousava, num instante eterno, sobre a água. Era um simples trajeto de retorno à casa: sobre rodas que não tinha controle, observava o horizonte em que nada tinha fim, tampouco início. De repente, uma centelha flutuou acima, no compasso de seu coração. 

    Itália.

    Fevereiro.

    Março.

    Aquele abraço…

    Um simples caso de sorte genuína“, alguém disse.

    Sorte como híbrido entre sortilégio e providência; qual linguagem explica o que está diante dos olhos? O veículo estremece. Qualquer um percebe.

    O passar balança o assento; fora, o ritmo é outro. E então o tempo aniquila-se e desrelativiza anos em décadas, gerações em séculos. “Faça um pedido e levante os pés ao passar sobre trilhos de trem“, ouviu dizer.  Atenção ao trecho da rodovia que marca o passado na alma das cargas cheias de fumaça em sintonia constante às despedidas. Despir-se em idas. Voltar, outro.

    Faça um pedido“. Hoje. De novo. O mesmo pedido. Sempre.

    Predestinação como resposta a um chamado interno, lançado através das partículas desprendidas da luz de estrelas silenciadas.

    Um brilho cego. Partes que não são os pedaços de um todo, mas o próprio todo. Trechos intermináveis reconhecendo-se pelo caminhar. A boa e desejada sina, lapidada através dos sussurros internos. Nenhum sussurro passa incólume pelo universo.

    Ali, à sorte das rodas que a levavam de volta para casa, estava o que já havia chegado:

    duas pequenas marcas, dois pólos de uma só coisa, duas pintas. Marcas de nascença, tomadas de dois pinos espalhadas em corpos-

    espelho. Baco e Eros na certa apostaram alguma deliciosa ousadia, arremessando as marcas ao tabuleiro da Terra:

    Ache-o-par“, decretou Baco, erguendo mais uma taça de vinho tinto. 

    Mas o sabor era de um negroni sbagliato.

    As pintas reconheceram-se primeiro: eram dois pontos. No achar, perder-se . . Não mover-se: ninguém se move de si. 

    Escreveu-me, nesta manhã, o vidente e anti-cético Instagram:

    If I get lost, return me to Italy.”

  • SOLIDÃO

    Do nada, ela resolveu se isolar do mundo. Sumir do mapa. Escafeder-se. Largar tudo de vez. Pensou numa viagem solitária de barco pelos oceanos. Mas Yolanda nem sabia nadar. Aposentada pelo INSS, seu último emprego foi como caixa do Banco do Brasil. Lidou com o público e com a absoluta contrariedade de fazer isso. Tinha dias que parecia explodir. Controlou-se à base de comprimidos e orações.

    Não tinha mais ninguém, nem amigos nem família. Sua única filha, formada em Economia, tinha casado e se mudado para Boston, onde o marido trabalhava. Yolanda, ainda uma mulher atraente, havia se separado e não considerava, por ora, novos relacionamentos. Fechada para balanço, costumava dizer.

    A ideia era mesmo desaparecer. Alugou seu apartamento no Grajaú e mudou-se para Macuco, município de Cordeiro, na região serrana. Um pequeno sítio no meio do nada, cercado de jequitibás-rosa e muito mato. Um refúgio sonhado, longe da maçante humanidade.

    Yolanda sabia que o passar dos anos cobrava seu preço. As pessoas comentavam que envelhecer com alguém era mais divertido. Você podia compartilhar dores, aflições, limites e remédios. Na solidão da roça, não teria com quem conversar ou se aborrecer. Mas isso não a preocupava.

    Ainda não tinha vivenciado, na plenitude, a reclusão irrestrita. Uma coisa era não se ter vida social, fugir das aglomerações, da vizinhança impertinente, dos grupos de whatsapp, outra era o mergulho no abandono e no isolamento completo.

    A favor de sua ida para o sítio, havia a afinidade com a natureza. Yolanda adorava plantas. Em sua antiga casa, no Grajaú, colecionou vasos com orquídeas, samambaias e suculentas. Um problema a ser enfrentado seriam os mosquitos. Em especial, pernilongos. Na verdade, qualquer tipo de inseto. Nem precisava ser barata voadora, uma mariposa já causava pânico.

    Para se viver na solidão seria preciso aceitar a própria companhia. Yolanda achava que gostava à beça de si mesma. Não havia necessidade de estar convivendo com alguém. Sem contar o lado econômico: as principais despesas resumiam-se a alimentação e livros. Ela adorava ler e era boa cozinheira.

    Outra delícia era não haver televisão, sinal para a Internet e o celular ficar desligado. Bênçãos. Teria, enfim, seus ansiados momentos de autoconhecimento, foco e bem-vindo descanso.

    Com duas semanas no sítio, Yolanda pirou. Ouvia vozes, deu para gritar do nada e ter dificuldade para dormir com o silêncio opressivo. Também não havia supermercado perto e faltavam itens básicos, como sorvete de creme com nozes, iogurte grego e castanhas do Pará. Os malditos cachorros do sítio ao lado, volta e meia, invadiam seu quintal. Yolanda sempre teve medo de cachorro.

    Os dias se arrastavam. Quando chovia ficava tudo enlameado e se necessitasse de atendimento médico, o hospital ficava a quilômetros. Ela pensava seriamente em retornar à agitação urbana, ao progresso massacrante e à chatice das relações interpessoais. O sítio era bucólico, a natureza convidativa, a solidão plena, mas havia também um enorme vazio que ela não conseguia entender. Era como se tivesse o homem mais bonito do mundo, mas não houvesse ninguém para contar.

    Atualmente, Yolanda reside no Grajaú e divide o apartamento com uma ex-colega dos tempos do Banco do Brasil. De vez em quando, gosta de ficar isolada.

  • Amém

    Por debaixo da porta, a convocação. Primeira chamada às 19h.

    Salão lotado, ordem do dia sobre as cadeiras.

    Quando viu “3º item — sorteio das vagas”, Severo percebeu que cometera um erro grave: não tinha jantado.

    Leitura da ata.
    — Amém.
    Leitura do orçamento.
    — Amém.
    Leitura da troca do capacho.
    — Amém.

    Sorteio das vagas. Aí o inferno começa.

    — Alguém tem algo a colocar antes do sorteio?

    A senhora do 1º andar logo se manifesta: — Temos que estabelecer as prioridades. Tenho um problema crônico de coluna.

    Severo arregalou: — e o Hip-Hop?

    — O senhor do 18º: esse motivo não justifica. Eu, por exemplo, tenho dificuldade para enxergar.

    Severo ri: — Hoje está enxergando bem…

    A moradora do 2º andar se levantou, exaltada: — Nada disso! Tenho três crianças pequenas que chegam cansadas.

    Severo ia contestar.
    Suspirou fundo.

    Severo olha o relógio.

    Pensa no sanduíche.

    Sente cheiro imaginário de pizza.

    O estômago votou a favor do sorteio.

    — Amigos, sorteio é sorteio e vale para todos.

    Aos gritos pula a encrenqueira de plantão: — Você diz isso porque aluga a sua vaga, assim é fácil!

    Motim a bordo.

    Síndico e administradora se entreolharam.
    — Batem na mesa.

    — Está decidido – usaremos um software de sorteio aleatório dos apartamentos e de suas vagas.

    O grupinho do fundo, deu um pulo: — Somos totalmente contra!

    — Não é confiável.

    Recomeça a discussão.

    Severo pega o celular: — Jantar já era. Melhor pedir um delivery.

    Demora só 40’…

    Finalmente, silêncio.

    O software sorteia.

    Prenderam a respiração.

    O síndico anuncia: — Parabéns.

    Nada mudou. As vagas permaneceram exatamente as mesmas.

    Amém!

    Cadê o entregador de pizza?

  • POLICARPO

    É Policarpo, seu país não veio, não vingou…

    A bandeira que tremula na haste não conta mais as glórias do passado (se é que um dia já contou) e tampouco vislumbra as glórias do presente…

    Sua pátria, escondida entre farrapos, negociações e falsas intenções, desmorona todo dia. Todos os dias!

    No trabalhador que sua e sangra e não descansa!

    Na esquina em que se perde uma outra infância!

    Nas escolas abandonadas e no futuro dos jovens.

    Na promessa quebrada em que não há mais lembrança!

    É Policarpo… Você sonhou um país que nunca existiu!

    Aqui, o que plantam é mamata, rachadinhas, picuinhas, um arremedo de Brasil.

    Um país que maltrata professores e livros!

    Um país que não guarda a sua própria memória e vive errando a sua história.

    Um país que idolatra políticos e influenciadores e desvaloriza conteúdos e autores.

    É Policarpo… o avanço não veio. Não veio a utopia! E você não tem um cavalo que fuja a galope!

    Tudo acabou! Tudo fugiu! Tudo mudou! E seu nome não é José!

    Se você refizesse, se você reclamasse, se você mudasse, se você esquecesse… Mas você não está no poema de Drummond!

    Você acredita em um país que jamais existiu!

    Aqui, os piores são o exemplo. Os canalhas, os burocratas, os pilantras e sanguessugas ditam a moral! E, contra esse mal, parece que não há muito o que fazer! Desfazer?

    Aqui, quem tem padrinho tem sucesso e “reconhecimento”!

    Quem trabalha de verdade precisa trabalhar até a exaustão para se iludir com o crescimento!

    É Policarpo… O melhor mesmo é sonhar. No sonho, o que nos resta, é possível ver e viver um outro país. É possível criar Pasárgada!

    No sonho, é possível escrever uma nova história e, nesta história criada, pintar rostos diversos e sorrisos singulares que vão palmilhar muitos caminhos.

    Nestes caminhos, a palavra Brasil terá, enfim, o significado de futuro…

  • A loja do Joca

    — Oi! Vó do Digo, Vó do Digo! Eu tenho uma loja. Você quer comprar o que eu vendo?

    — Mas onde fica essa loja? Eu pergunto, com a maior naturalidade.

    — Peraí. Vou lá buscar.

    E saiu saltitando, feliz da vida com a possibilidade de fazer mais uma venda.

    Essa é a segunda empreitada comercial do Joca.

    Antes disso, foi caubói. Tinha cavalo, chapéu preto e colete de franjas.

    Depois virou dono de um caminhão de gado.

    Também foi tratorista.

    Mais tarde resolveu abandonar, por algum tempo, as atividades ligadas ao campo e entrou para a área da tecnologia.

    Nessa época quase desapareceu. Já não era visto com a mesma frequência de sempre.

    Acho que descobriu rapidamente que telas não conversam.

    E o Joca gosta é de gente.

    Gosta de contar novidades, perguntar da vida dos outros, dar notícias, ouvir histórias.

    Logo abandonou a carreira tecnológica e voltou ao convívio humano.

    Mas, se depender da herança, tanto da genética quanto da financeira, ainda acredito que acabará no setor rural.

    Foi então que ouvi:

    — Mãe, o que você está fazendo aí? Venha. Nós já vamos almoçar.

    — Já vou. Estou esperando o Joca.

    Lá vinha ele, carregando sua loja.

    — Tia, você também quer comprar?

    — Quero. O que você vende?

    Ele respondeu com toda a naturalidade do mundo:

    — Eu vendo lápis… ou melhorias.

    Eu esperava qualquer coisa. Mas desta vez, confesso que fugiu ao meu alcance! O que ele queria dizer com “lápis e melhorias”?

    Abriu uma caixa de papelão, colocou-a sobre a cadeira e levantou a tampa.

    Lá dentro havia três ou quatro lápis.

    Olhei para a caixa e perguntei:

    — E as melhorias? O que são?

    Sem dizer uma palavra, pegou um apontador.

    Ergueu-o diante de mim, como quem apresenta uma grande invenção.

    — Se você já tiver um lápis, eu vendo só a melhoria.

    Fez uma pequena pausa.

    — Mas, se você não tiver, eu vendo o lápis… e dou a melhoria de graça.

    Na lógica dos adultos, aquilo talvez nem fizesse sentido.

    Na lógica do Joca, fazia todo.

    Porque, para ele, um lápis nunca é apenas um lápis.

    Sempre pode melhorar.

    E talvez seja justamente isso que a infância saiba fazer como ninguém: enxergar melhorias onde nós só vemos um apontador.

  • O dia do aniversário

    Doze horas em ponto, os sinos da igreja de Santo Antônio de Pádua anunciavam. No dia em que completava 50 anos, Joel saiu apressado do escritório do advogado e, ainda dentro do elevador, passou a organizar mentalmente as tarefas da tarde. Memória privilegiada, sua melhor agenda sempre foi a própria cabeça. Era quinta-feira, e apenas no sábado uma celebração ocorreria. Reunião modesta, só para os mais íntimos, como se costuma dizer. Afinal, nunca gostou mesmo de comemorar aniversários. Ficar mais velho não é fato que mereça ser festejado, caramba. Mas a filha insistiu: data redonda, meio século, não se pode ignorar uma ocasião como essa. Em frente ao prédio do advogado, uma rua de grande movimento. Teria de atravessá-la antes de alcançar o metrô. Um pouco mais adiante, uma passarela de pedestres. Consultou o relógio e decidiu que não valia a pena utilizá-la. Perderia tempo e, além disso, jamais se sentiu confortável caminhando em cima delas. Os carros passando em alta velocidade lá embaixo causavam-lhe certa aflição, além de taquicardia, pernas bambas e suor nas mãos. Um automóvel vermelho vindo ao seu encontro é a última imagem de que se recorda. Veículo grande, desses projetados para uso em terrenos acidentados. Estendido ali, no meio da pista, julgou que talvez tivesse sido atropelado. Em torno de si, ouvia vozes, muitas; porém, não conseguia entender o que estavam dizendo. Homens e mulheres falando alto, mas era como se aqueles indivíduos se comunicassem numa língua estrangeira e pouco familiar, algo assim como basco, japonês ou turco. Pensou então na filha única e na festa que não aconteceria. Pensou também na pilha de livros a sua espera na estante do escritório, livros que não leria nunca. Pensou na esposa e se deu conta de que ela ficaria viúva. Bem, ao menos não seria mais necessário levar adiante toda aquela burocracia do divórcio. Pensou nos poucos amigos que tinha. Sempre fora um homem introvertido, reservado. Um ou outro talvez sentisse sua falta. Pensou na chefe. Pensou, sem conseguir evitar uma ponta de orgulho, que seria difícil para ela encontrar alguém capaz de substituí-lo com a mesma eficiência. Pensou nas fantasias sexuais que não teria chance de realizar. Sempre fora tão travado… Logo agora que se sentia mais solto, pronto para experimentar novas sensações… Paciência! Pensou nos pais velhinhos, companheiros de uma vida inteira, morando sozinhos no casarão de Vila Esperança. O casarão que se recusavam a abandonar, onde ele e a irmã Jane passaram a infância e a adolescência, local de descobertas e brincadeiras em companhia de primos e vizinhos, de uma vida ao ar livre que já não existe. Pensou nas galinhas, criadas com esmero e dedicação pela mãe no quintal. Nos ovos saborosos de gema escura e nos pintinhos que elas produziam. Nas brigas com a irmã pelo direito de nomeá-los. Nos castelos imponentes, construídos no jardim com terra, água, pazinhas de plástico e competência. Sua vocação para a arquitetura havia nascido ali, não tinha dúvida. Pensou ainda nas flores cultivadas pelo pai. Viçosas e coloridas, faziam os passantes pararem diante dos canteiros a fim de admirá-las. Nos pássaros de vários tipos que, sem pedir autorização, faziam morada nas árvores da propriedade. Pensou na horta atrás da casa, onde Rosalina ia buscar a salada do almoço. Por fim, pensou em Rex, bolinha de pelos preta e saltitante, companheiro fiel e amoroso. Todo esse esforço de recordação o exauriu. Por que todas essas imagens se faziam presentes justo naquele momento? Eram muitas as lembranças a tumultuar-lhe o cérebro. Elas chegavam sem que ele pudesse evitar. Simplesmente brotavam, como a água limpa brota às vezes das pedras. Tentou esvaziar a mente, não pensar em mais nada. Sim, essa era a coisa certa a fazer. Será que depois de velho estava ficando piegas? De onde todo esse sentimentalismo havia surgido? Com a morte dos pais, a casa provavelmente seria vendida pela irmã. Seu maior desejo se tornaria realidade. Não teria dificuldades em convencer a sobrinha. Obstinada, Jane sempre acabava conseguindo tudo o que queria. No local, é possível que um edifício de 49 andares, batizado com algum nome estrangeiro, despontasse. Quem sabe um prédio comercial, com lojas e escritórios… Junto com a casa, toda a história da família iria ao chão. Em torno de si, Joel continuava a ouvir vozes e barulhos diversos. Pessoas de branco pareciam tentar socorrê-lo. Ele louvava o empenho delas, embora tivesse quase certeza de que este resultaria inútil. Inútil seria também a tentativa de impedir a irmã de vender o casarão. Talvez ela nem sequer esperasse a morte dos pais. Talvez os pusesse num asilo — ou casa de repouso, lar geriátrico, pousada ou recanto para idosos, eufemismos que designam tão somente o local onde filhos desalmados abandonam os pais. Nossa, que exagero, agora estava sendo cruel demais com a única irmã. Ela não era nenhuma bruxa, ora bolas, com toda a certeza amava os pais. Só era da opinião de que eles deveriam deixar a casa, isso sempre achou mesmo e nunca escondeu de ninguém. Era tudo muito amplo, argumentava. Nada justificava que continuasse a viver ali um casal de idosos dependentes e de saúde frágil. Sentia-se cada vez mais fraco e experimentava dores terríveis pelo corpo inteiro. Com as últimas forças que lhe restavam pensou finalmente que deveria ter utilizado a passarela, que teria sido muito bom poder reunir aqueles que o amavam em sua festa de aniversário e que uma decisão irresponsável pode transformar uma existência de forma definitiva.

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