Crônicas Cariocas

  • Orgulho ferido

    Ivana conheceu seu grande amor na faculdade, em uma roda de samba. Adorava o seu humor com piadas rápidas e admirava seu modo simples de se vestir a agir. Também chamou a atenção dela a ousadia e o destemor de falar com desenvoltura sobre política, música e sexo. Foi paixão instantânea o que Ivana sentiu, a expectativa de uma arrebatadora paixão à primeira vista.

    Ivana era sonhadora, com a crença em almas gêmeas e com olhos que brilhavam ao imaginar sonhos impossíveis. Também não duvidava da existência de duendes. Acreditou piamente que havia encontrado a sua cara metade. Casaram-se depois de seis meses, alugaram um apartamento minúsculo em Botafogo e juraram amor para sempre.

    O tempo, como uma maré insistente, foi erodindo tudo e deixou à mostra algumas verdades. Começou com pequenas bobagens. Ivana odiava aquele jeito de deixar as toalhas úmidas no banheiro e não admitia quando o seu amor chegava tarde do trabalho, cheirando a cerveja. O pior eram as desculpas: mais uma reunião com amigos, hora extra no trabalho, uma parada no bar para fugir do trânsito… O bate-boca virou rotina. Discussões constantes e brigas por tudo e por nada.

    O apartamento que já era apertado ficou ainda menor, opressivo. Ivana passou a conviver e a se incomodar com a solidão. Mesmo com alguém dormindo a seu lado, era como se estivesse sozinha.

    As horas pesavam, os instantes de prazer ainda mais raros. Ivana mergulhava no celular, rolando feeds infinitos para fugir daquela inércia regada a desprezo e apatia.

    Uma noite, após uma briga sobre contas não pagas, Ivana estourou. “eu não aguento mais você!”. O primeiro tapa veio rápido e estalado. Ainda com a face ardendo, Ivana não acreditava. O chute na barriga, a seguir, deixou-a quase sem ar. Agachada, protegendo a cabeça, Ivana ainda ouviu ameaças: “aqui não se fala mais em separação, se não quiser tomar outra surra!”.

    Ivana pensou seriamente em terminar tudo, fugir, mas não teve coragem. O amor de sua vida não era daquele jeito. Resolveu esquecer o episódio, mas prometeu para si mesma que não haveria uma segunda vez.

    O pior era a sensação de impotência e vergonha.

    No dia seguinte, Ivana nem soube o motivo pelo qual tinha tomado aquele empurrão. Ameaçou reclamar e tomou um soco na cara. Olho direito. Ao cair, bateu com a cabeça na cadeira. Sentiu-se tonta e custou a se levantar. Mesmo com compressas de gelo, o olho logo inchou. Estava na cara, literalmente, a marca da violência. Não dava mais para ficar ali. Acabaria sendo morta.

    Decidiu nada falar, nem pedir ajuda. Foi para o quarto, pegou uma mala, algumas roupas no armário, livros, objetos pessoais e se preparou para fugir. Sairia do apartamento como uma estranha, sem um adeus, nem um olhar sequer.

    De quem seria a culpa por aquele amor ter acabado daquela maneira. Sentia-se apequenada, reduzida a um traste. Às vezes não se gostar é o primeiro passo para se achar insignificante, sem reação. Gostaria que aquilo tudo fosse um pesadelo e ela fosse despertar.

    Ivana ouviu ruídos de alguém se aproximando por trás: “onde você pensa que vai?”. Ivana tinha um canivete guardado na bolsa. Naquele instante concluiu que não tinha mais nada a perder. A única coisa que Ivana queria era se ver livre daquela prisão. E sair viva. Ivana encarou a amante, de canivete na mão. As duas se encararam. “Ivana larga isso, você não vai ter mesmo coragem de usar”. Ivana parecia decidida. Era tudo ou nada. Alguns segundos de hesitação e o golpe desferido com força e precisão inesperadas. Ivana, agora, olhava a amante, que, sem acreditar, apertava com as mãos o ferimento na altura do umbigo: “mulher maluca, o que você fez?”. Ivana guardou o canivete ainda sujo de sangue, pegou sua mala, pediu licença e saiu.

    Encontre ajuda: ligue 180.

  • Catarina

    Catarina espiava pelas frestas e agia nas sombras. Silenciosa como um peixe, furtava, dissimulava, enganava, chantageava. Ouvia atrás das portas. Envenenava animais de estimação. Matou pelo menos meia dúzia de periquitos com as próprias mãos. Algumas vezes se deitava com os donos das casas. Fez três abortos. Num deles, quase morreu. Em duas oportunidades, esteve a ponto de cometer um homicídio. Destruiu casamentos e arruinou famílias. Jamais foi punida por seus atos.

    *****

    Na sala de estar, Francisco, Teresa e Max comemoravam. O filhote de dálmata não se desgrudava da dona. A casa de classe média havia sido quitada fazia pouco tempo. Moravam perto da Praia das Pitombeiras e do Parque dos Girassóis, que o cachorro adorava frequentar. Vinte anos de casados. Apaixonados ainda. Vanessa, a filha mais velha, estava de partida para a Alemanha. Havia conseguido uma bolsa para estudar teatro com um diretor franco-argelino. Vicente, o filho mais novo, tinha acabado de ser aprovado em segundo lugar para Engenharia no vestibular mais concorrido do país. A agência de viagens administrada por Francisco começava a dar lucro após longo período de crise. Nos últimos meses, Teresa viu a microempresa de chocolates artesanais aberta com a cunhada no ano retrasado aumentar o faturamento de modo significativo.

    Na cozinha, Catarina terminava de lavar a louça do jantar enquanto assistia ao último capítulo da novela. Finalmente, Juçara Penido, a vilã, maquiavélica e pérfida como nenhuma outra, seria desmascarada.

    Agora no quarto, o casal continuava a comemorar.

    — Max, desce da cama! — Francisco ordenou.

    — Não fala assim com ele, meu bem. Não vê que ele se sente tão feliz quanto nós? E é tão limpinho…

    Os filhos não estavam em casa. Teresa e Francisco trocavam carícias quase adolescentes, bebiam um vinho chileno e falavam alto. Ao som de Laura Pausini dançavam E vorrei fuggire via E nascondermi da tutto questo Ma resto immobile qui…

    Perto das onze, Vanessa e Vicente chegaram da rua quase ao mesmo tempo. Os cinco, agora reunidos na sala, continuaram a celebração.

    Uma e meia da manhã, cama do casal.

    — Francisco, que dia é hoje?

    — Sexta-feira… Aliás, já estamos no sábado.

    — Você conferiu o resultado do jogo?

    — Jogo? Hoje não tem jogo, minha pombinha. É no domingo que vou ao estádio com o Rodolfo.

    — O jogo, homem! Da loteria. A gente não ganha nunca. Mas dessa vez eu sonhei. Vamos conhecer a Itália. Sonhei com Florença, gôndolas…

    — Gôndolas são de Veneza, esqueceu?

    — No meu sonho, havia gôndolas em Florença. Navegando pelo Arno… Vai lá na sala, anda, pega o bilhete!

    — Ah, depois, deixa eu dormir…

    Pela manhã, Teresa, logo após acordar, dirige-se à sala. Estranha o silêncio na casa. Àquela hora, Catarina já deveria estar preparando o café na cozinha. Abre uma das gavetas da estante. No local onde os bilhetes e comprovantes da loteria eram guardados, apenas um pedaço de papel amassado e sujo. Nele, com uma caligrafia firme, estava escrito: Caros patrões, a última faxina é sempre a melhor…

  • O Circo

    Vinha de vez em quando. Talvez uma ou duas vezes ao ano. Mas mudava os ares da cidade toda. Meu irmão que andava lá para o centro da cidade chegava gritando:

    — Anita, Anita! Você não acredita o que eu vi?

    — O que você viu, guri? Conta logo!

    — Eu vi uns três ou quatro caminhão chegando e entrando lá onde ficava o circo!

    — Verdade?

    — Eu juro, ele falava beijando os dedos em cruz.

    Pronto! Era verdade sim!

    Criava um frenesi. Tudo começava com o carro de som. Nesse belo dia, passava em frente de casa a charanga com alto-falantes gritando a novidade. E todos corriam para a frente de casa a fim de ver e ouvir aquele que anunciaria a chegada da magia e da alegria, para toda a cidade!

    — Breve nesta cidade, o Gran Circo das Américas! Malabaristas, palhaços, globo da morte, e o inconfundível homem-faca.

    — Venham todos, teremos várias atrações: a mulher barbada, macacos, elefantes, tigres, girafas e os pequenos macaquinhos jogadores de futebol! Teremos também os desfiles dos pôneis e dos cavalos dançantes! Venham! Venham todos!

    A expectativa era criada na cidade, os ares mudavam, pelo menos para nós que queríamos ir ao espetáculo, mesmo sabendo que não tínhamos dinheiro!

    Meus irmãos, assim como outros garotos, caprichavam nas engraxadas de sapatos. Iam para a frente dos hotéis, lojas de fazendeiros e faziam seu merchandising.

    Homens com botas brilhantes e sapatos limpos e cuidados voltavam a ser vistos circulando pelas calçadas, porque todos estavam no clima bom do circo! Nossa mãe fazia seus milagres também, porque as meninas tinham que ver as bailarinas, os palhaços, os trapezistas, e ela iria junto, claro!

    O circo da minha infância se instalava num terreno pertencente à Companhia de Rodagem CER-3. Então, esse lado da cidade, onde se concentrava a praça, o coreto, a Prefeitura, o Clube Municipal, a Igreja Matriz, o Cinema, o Ginásio e a sede da Companhia, era o lugar mais cheio dessa época.

    Nós chegávamos para a sessão da tarde do circo. As bandeirolas coloridas enfeitavam o pátio. Carrinhos de pipocas, vendedores de balões, aviõezinhos feitos de latinhas brilhosas, pirulitos puxa-puxa, algodão-doce, sonhos; se o circo fosse dos completos, teria atrações pelo lado de fora, como pescarias, tiro ao alvo, trens fantasmas. Em filas, com uma alegria só, íamos adentrando e nos posicionando, mas sem deixar de cutucar uns aos outros com nossos saquinhos de balas ou pipocas. Os mais abastados sentavam-se em semicírculos de cadeiras, os ingressos populares iam para arquibancadas de madeira chamadas de “poleiros”.

    Mas o que interessava era que estávamos lá. Dentro do circo! A música? Constante! Alegre! Apropriada! O frenesi? Aumentando! E o palhaço? Andando pelo meio do público, fazendo suas graças, se tornando criança de novo. As bailarinas lindíssimas testando as cordas de malabarismos, e lá ao fundo o globo da morte só esperando para ser trazido ao centro do palco. Acima de nossas cabeças, os cabos dos trapézios com a corda bem esticada e a rede embaixo. Eram tantos e tão variados os mistérios coloridos de um circo, que quando tocava a terceira sirene, as luzes diminuíam, e retumbava a voz:

    “RESPEITÁVEL PÚBLICO, BOA TARDE! EIS AQUI O GRAN CIRCO DAS AMÉRICAS”, o povo explodia em gritos e palmas! Pronto: estava criada a MAGIA DO CIRCO! A magia que me acompanha por toda a minha vida!

  • Líbano libre

    Sou descendente de libaneses. Com muito orgulho! Todos os meus quatro avós provieram daquele exótico e restrito pedaço de terra, cujo tamanho não chega à metade do menor estado brasileiro, Sergipe.

    Mesmo sendo um país tão pequetito, enviou para o Brasil, ao longo do século XX, tanta gente que hoje há mais descendentes libaneses no Brasil do que no próprio Líbano! Um em cada 20 brasileiros. São por volta de 10 milhões de ‘turcos’, como erroneamente costumavam ser chamados no tempo em que eu era criança. Certamente, a maior comunidade libanesa do mundo.

    A oportunidade de desenvolver seus pequenos negócios foi um atrativo para os libaneses se aventurarem para essas distantes terras tropicais. E, diferentemente dos italianos, portugueses e japoneses, espalharam-se demográfica e democraticamente por todos os estados de Norte a Sul. E deram-se muito bem em todos. Começaram cuidando de “lojínias” e se expandiram para outras áreas de atuação.

    No campo da política, os ‘patrícios’ tiveram uma participação notável. Encontramos exemplares em todos campos do espectro ideológico, da direita à extrema esquerda. Nomes de relevo como: Paulo Maluf, Paulo Skaf, Anthony Garotinho, Espiridião Amin, ACM Neto, Gabriel Chalita, Adib Jatene, Guilherme Afif, Michel Temer, Gilberto Kassab, Tasso Jeraissati, Beto Richa, Pedro Simon, Omar Aziz, Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Patrus Ananias, Fernando Haddad, Guilherme Boulos, Jandira Feghali.

    Musicalmente, os ‘brimos’ se destacaram, especialmente na MPB e no pop nacional: Ivon Cury, Tito Madi, Pedrinho Mattar, João Bosco, Fagner, Almir Sater, Egberto Gismonti, Duo Assad, Badi Assad, Mariana Aydar, Bruna Karam, Nonato Buzar, Tunai, André Abujamra, Evandro Mesquita, Frejat, Chorão, Fauzi Beydoum, Wanderléa, Alok e por aí vai. Parece que só não entraram na seara do sertanejo, do gospel e do pagode romântico. Que bom!

    Em outras áreas da cultura, corre o sangue libanês em gente como Beto Carrero, Luciana Gimenez, Sabrina Sato, Sônia Abrão, Leda Nagle, William Bonner, Roberto Duailibi, Antônio Abujamra, Monark,  Amyr Klink, Juca Kfouri, Jamil Chade, Davi Nasser, Ibraim Sued, Ivaldo Bertazzo, Fauzi Arap, Betty Milan, José Simão, Janete Clair, Malu Mader, Maurício Mattar, Armando Bogus, Felipe Carone, Arnaldo Jabor, Walter Hugo Khouri, Fernando Gabeira, Andréia Sadi, Guga Chacra, Júlia Duailibi, Marina Person, Emerson Kapaz, Luís Nassif, Tárik de Souza, Almir Chediak, Aziz Ab’Saber, Emir Sader, Edmar Bacha, Pérsio Arida, Antônio Houaiss, Mário Chamie, Milton Hatoum dentre tantos.

    A culinária é capítulo à parte. Provindos de um país onde alimentar-se é parte de um cerimonial de cordialidade e compartilhamento, os caprichados quitutes árabes caíram no gosto do brasileiro: esfiha, kibe, homus…

    Embora tenha-me convertido ao vegetarianismo, abro exceções para ingresso em meu restritivo cardápio verde do quibe cru, do charutinho de uva e da kousa (abobrinha), recheados com carne bovina, concessão que faço em nome da relevância afetivo-cultural. Mas o tabule, compatível com meus recentes hábitos alimentares, ainda reina como manjar dos deuses. Não o bastardo, empapado com trigo como servido em restaurantes de quilo, mas o autêntico com pouco trigo, bastante salsinha, hortelã e um leve toque de pimenta síria. Hummm!

    Antigo lar dos fenícios (desenvolvida civilização que, dentre outros legados, criou um sistema de sinais que deu origem ao nosso alfabeto), o Líbano é um país singularíssimo. Embora faça parte do mundo árabe, distingue-se por gozar de uma situação única, onde muçulmanos xiitas e sunitas, cristãos maronitas, melquitas, armênios, ortodoxos, drusos etc. convivem pacificamente.

    É o único país do mundo, que eu saiba, administrado por um arranjo institucional com participação das principais religiões, garantindo tolerância no exercício dos diferentes credos. Bem diferente de outros da região.

    A capital Beirute, a “Paris do Oriente Médio”, é uma metrópole com vida cultural pulsante, com relevantes traços arquitetônicos e históricos, onde o moderno coexiste com a tradição.

    Estrategicamente localizado, às margens do Mediterrâneo, ladeado pelo gigantismo da Síria e pelo expansionismo de Israel, o espremido Líbano acabou tendo o setor Sul de seu território ocupado pelas milícias do Hezbollah, que lá se instalaram como resistência à ocupação israelense de 1982 e se tornaram mais poderosas que o próprio exército oficial.

    Com o pretexto de combatê-las, as forças de Israel apoiadas pelos EUA têm promovido ataques impiedosos e indiscriminados, massacrando a população civil de índole pacífica, sem envolvimento com atividades belicosas, que apenas deseja continuar tocando seu inofensivo dia a dia.

    Como consequência, esse pacífico país, exemplo para o mundo de convivência entre diversas culturas e religiões vem sendo dizimado, sob o olhar conivente do mundo, inclusive da numerosa, mas alienada colônia libanesa no Brasil, que de tal modo se acomodou por aqui que parece ter-se desconectado de suas origens.

    Minha maior frustação é não ter podido conhecer pessoalmente, em seus áureos tempos, a sagrada terra dos meus antepassados, usufruindo in loco a célebre hospitalidade de seu povo e ter ouvido da boca dos meus conterrâneos um afetuoso “ahlan wa sahlan” (seja bem-vindo!)

    Textos assinados não representam necessariamente a opinião do Crônicas Cariocas.

  • A outra

    Há muito Zuleide desconfiava de que Osvaldo tinha uma amante. Só faltava saber quem era. Um dia o mistério acabou graças a uma denúncia anônima: ela se chamava Ernestina e trabalhava com ele na repartição.

    Zuleide pensou em tirar satisfação. Explicaria que era a mulher de Osvaldo e lhe daria um ultimato: ou ia embora da vida dele, ou alguma coisa de muito grave poderia lhe acontecer. Chegou a pegar o telefone e ligar. Depois de ouvir um “alô” do outro lado, tentou ser direta:

    – Aqui é a esposa de Osvaldo!

    – Pois não.

    A voz tranquila, quase glacial, tirou-lhe a vontade de dizer qualquer coisa. Chegou a sentir remorsos por ter se rebaixado tanto. A outra dissera “pois não” como quem perdoa um incômodo ou se dispõe a fazer um favor.

    Zuleide passou a ter Ernestina como uma obsessão. De noite, ao se deitar, só pensava nela. E quando dormia, era o fantasma da outra que vinha perturbar seu sono. Ao acordar (sempre muito cedo…) e ver o marido placidamente ressonando, imaginava que aquela placidez se devia aos bons momentos que ele passara com a amante.

    Despeito, raiva, vontade de matar Ernestina –- a vida de Zuleide agora girava em torno disso. Já não tinha disposição para trabalhar, nem ânimo para se divertir. Gerente numa loja de brinquedos, vez por outra suspendia o serviço para ir ao banheiro chorar. Na volta, percebia que as colegas faziam comentários sobre seus olhos vermelhos.

    Noutros tempos, quando estava de folga, gostava de ir à tarde ao cinema; era fã de desenhos animados americanos. Agora, quando fazia isso, ficava pensando que naquele momento Osvaldo poderia estar trocando olhares com a outra, fazendo planos para se encontrarem mais tarde. Se ele vinha de noite com aquela história de “hora extra”, ela já sabia de que se tratava.

    Um dia tomou coragem e foi ao prédio onde a mulher morava. Tocou o interfone e pediu para subir.

    – Pode deixar que eu desço – respondeu a outra. Zuleide não esperou.

    Contava intimidar a rival, acossá-la, dar-lhe um ultimato. Em vez disso, era Ernestina que se dispunha a falar com ela. Sem nenhum escrúpulo ou hesitação. Quem afinal estava errada? Quem tomava um marido? Quem desrespeitava um contrato? Remoía-se por dentro ao pensar nessas contradições.

    Como a obsessão se tornara insuportável, resolveu tomar uma atitude. Não podia continuar pensando na outra daquela forma. Queria viver, respirar, sair daquele circulo de ferro… Círculo de ferro! Essa imagem a fez, quase inadvertidamente, olhar para a aliança no anular esquerdo. O círculo. O ferro. A dor.

    Então era isso! Num rompante, tirou a aliança e jogou-a contra a parede. Vendo que errara a pontaria, apanhou o pequeno objeto e o arremessou pela janela. Agora pronto: não havia mais Osvaldo, nem rival, nem traição. Sentiu-se aliviada e triunfante. Quando o marido chegou, minutos depois, comunicou tranquilamente a ele a decisão de ir embora.

  • Cinema com meus olhos

    Ver filme é um prazer solitário, mesmo em grupo. Porque não se vê o filme pelos olhos dos outros. Você compartilha a experiência do momento e, não raro, as sensações que cada um teve na exibição.

    Mas o entendimento e os sentimentos que nascem a partir dessa reflexão são únicos. Não há como transferi-los ou recebê-los.

    Nunca li resenha de filme antes de assisti-lo. No máximo, uma sinopse bem curtinha para saber se é faroeste ou argentino. Nada além disso.

    Não sou contra as resenhas, há vários bons profissionais que escrevem textos sobre cinema maravilhosamente bem. Mas me reservo o direito de só conhecer a visão deles da obra depois que eu tiver a minha.

    Não quero ler nada que possa influenciar, de alguma forma, minha capacidade de perceber o que será projetado na tela, do cinema ou da televisão. Amo a sensação de ver o filme como se tivesse, dentro da cabeça, uma tela nunca antes usada.

    As impressões que as cenas vistas me causarão vão cobrir o espaço em branco dessa tela. Ao final, a obra pictórica mental marcará meu conjunto de sensações e lembranças da obra. Cinema é bom demais.

    Diferenças de opiniões sobre filmes são bem-vindas e saudáveis. Vou ao cinema desde, sei lá, quando minha mãe pode me levar. Mas nunca encontrei ninguém com as mesmas percepções que as minhas e, consequentemente, com os mesmos sentimentos surgidos após cada projeção. Logo, quase nunca com as mesmas opiniões.

    Na adolescência, me lembro dos debates acalorados com meus amigos nerds — naquele tempo, isso era xingamento — depois de assistirmos, juntos, “Star Wars – V: O Império Contra-Ataca”. Vimos o mesmo filme, mas cada um enxergou algo diferente.

    E o que dizer do meu adorado “Dersu Uzala”? Até hoje não encontrei ninguém, além de mim, que tenha chorado depois de assisti-lo.

    No fim, a gente enxerga o que quer. Ou não. Porque não tem nada mais gostoso que ser atropelado por uma revelação.

    A revelação é uma onda que nos atinge e nos atravessa sem pedir licença. A experimentação fora da regra, fora da linha-guia.

    Porque, no fim, quem gosta de ser conduzido é gado.

  • Os anos de chumbo

    Fui adolescente nos anos de chumbo. Eu não sabia do que acontecia no Brasil, tudo era escondido como se fosse vergonhoso. Nosso comportamento também era controlado, tudo em nome da moral e dos bons costumes.

    Fui expulso do seminário, perdi a fé, depois descobri que meus novos amigos também não tinham fé. Mas a minha falta de fé não era pacífica.

    Por algum tempo, muito pouco, dormi num pequeno quarto, quase uma despensa. Eu rolava, rolava sem parar, estatelava-me no chão e, exausto, fungava, fungava. Os olhos nas paredes, armários, no teto, sobretudo no teto, suas frases escritas a giz.

    “É proibido proibir.”

    “Apareça lá em casa, viu?!”

    “Pois é, falaram tanto.”

    “Make warm not love.”

    “Dê um chute no patrão.”

    “Adivinha quem vem para o jantar!”

    Algumas frases com a indicação da autoria:

    “E vendo o barco se afastar de Amaralina desesperadamente linda e soluçando lentamente.” (Caetano Veloso).

    “O amor move o sol e as estrelas.” (Dante)

    “É preciso respeitar o homem… não ter piedade dele.” (Gorki)

    “Pierrot le fou… lindo!”

    “Estavas tão linda assim no dia dos quarenta e três pores-do-sol!

    “Vivemos na melhor cidade da América do Sul.”

    “Vamos passear na floresta escondida, meu amor.” “É superbacana.” “São Paulo mon amour.”

    “Yes, nós temos” e o desenho de duas bananas.

    E tudo isso eram coisas. Faltaria uma frase de Gorki? “Ninguém deve ser condenado por coisa alguma porque somos todos iguais: bichos.” Bichos? Então não éramos coisas? E um bicho é algo mais? Em alguma parte do mundo, uma criança, em alguma parte do meu coração, chorando. Silêncio em mim. Quem seria eu? Ninguém?

    Urra! Abre os olhos, abre os olhos, bicho! Oscilações, confiança, extremos. Sangue, dor, angústia. A criança chorando, em alguma parte, sem o pequeníssimo barulho enorme da gota de remédio caindo da invisível colher. Cusparada na face do destino.

    Mas o destino tem face? Mas existe destino?

    “…estendes os braços perfumados de giestas pedindo tempo quando não há tempo.” (Dalton Trevisan)

    Meus amigos, não há amigos. Eu sentia a precisão de uma companheira.

    Silêncio. Mas o que era o amor? Talvez uma neurose. “Se queres aprender a amar, esquece a tua alma.” (Manuel Bandeira)

    Eu teria deixado muitas almas por aí, ah, as almas histericamente berrando canções de afugentar as almas.

    “Os corpos se entendem, as almas não.” (ainda Manuel Bandeira.)

    E meu corpo estava vazio. Se eu cria em Deus, qual então a causa da minha angústia? Viver é um paradoxo. Eu estava ali numa cadeira, numa mesa, num quarto/despensa escrevendo não sabia o quê como se isso resultasse alguma coisa.

    Então a mocinha dizia ao pai consternado: “Minha vocação é pra prostituta.”

    O mundo seria salvo, talvez, pelos insubmissos. Mas o que quer que eu fizesse seria uma submissão – ou ao corpo ou ao espírito. Seria preciso muita virtude para se conseguir um estado de completo, perfeito, sumo ateísmo ou teísmo.

    “Deus é virtude.” (Quem teria dito?)

    “Pensarei provisoriamente que a virtude é o que o indivíduo possa obter de melhor de si.” (Gide)

    A criação artística é um ato de embriaguez. Eu procurava a fé, um cristianismo de vida. Problema da fé sustentada no amor? Crer mais importante que ser? Amor, comunhão, conciliação com Deus e os homens? Destino humano, desejo de permanência – a salvação do homem? Quando a volta do homem desiludido? Deus não existia para mim se eu não o aceitasse e não podia aceitá-lo enquanto não emergisse do mal. Haveria salvação para mim?

    Eu continuaria fazendo o meu caminho nem que fosse por falta de alternativa.

    Depois parece que me esqueci de tudo isso, continuei caminhando sem esperar por respostas. Deveria ser o início da maturidade.

  • Um tom diferente na tinta da retina!

    No Renascimento foi inventada a sopa fortificante e restauradora, feita de carne de boi, carneiro e legumes, servida como refeição no século XVIII aos viajantes ou indivíduos extenuados, após um longo dia de trabalho. 

    Era servida nas estalagens, tabernas e hospedarias, e devido aos seus efeitos benéficos, ganhou o nome de restaurant.

    Esses lugares não entregavam refeições para quem batesse em suas portas, e não seguiam o conceito de apresentar um cardápio onde o cliente pudesse escolher o prato que desejasse, tinham apenas a sopa restauradora.

    O Sr. Boulanger (em francês, padeiro), ganhava a vida como vendedor destes caldos, e colocou uma placa com dizeres em latim em seu estabelecimento (Rue des Poulies, em Paris), que dizia o seguinte: 

    — “Vinde a mim, vocês que têm o estômago em penúria, e eu os restaurarei”. 

    Ele foi o primeiro a anunciar a venda destes caldos fortificantes, que recompunham a saúde de quem tinha problemas de digestão, e assim se deu a origem da palavra restaurante. 

    Este estabelecimento se firmou na França após a Revolução destituir a aristocracia, e deixar sem emprego um contingente de serviçais hábeis no trato com os alimentos. 

    Com a chegada de muitos provincianos à cidade, e ninguém para cozinhar para eles, surgiu a oportunidade da criação do hábito de fazer refeições fora de casa, dando início ao surgimento do restaurante. 

    Foi o La Grande Taverne de Londres, fundada em 1782, de propriedade do senhor Antoine Beauvilliers, onde foi criado o padrão do restaurante moderno, ao combinar 4 pré-requisitos essenciais: um salão elegante, garçons bem treinados, uma adega bem escolhida e uma cozinha requintada. 

    Uma evolução maravilhosa que veio ao encontro do prazer em reunir pessoas e celebrar a vida.

    Cardápios orientais, a comida do Mediterrâneo, os festivais gastronômicos pelo mundo, as sobremesas e os banquetes, tudo envolto ao prazer em desfrutar momentos da Dolce Vita. 

    Da necessidade à formação profissional, surgiram mestres da culinária que desenharam um novo rumo a uma especialidade repleta de particularidades, que agregam um pouco da cultura de cada povo onde nasceram.

    A rua dá um tom diferente na tinta da retina, que não encontramos em casa, e a necessária convivência com o mundo nos faz gente para podermos saber o que somos, e o que podemos ser para o outro.

  • O instante

    No balcão do bar, à minha direita, com trinta e oito anos, um metro e oitenta de altura e aproximadamente noventa quilos, Júlio Andrade, engenheiro, toma um café com leite. Está sozinho. Foi um pai exemplar até às oito horas e vinte e três minutos da manhã de ontem, quando sua única filha, Marita, de doze anos, foi atropelada por um caminhão quando atravessava a avenida a caminho da escola. Ele acabou de enterrar sua menina e agora não tem mais filha. Não é mais pai de ninguém.

    À minha esquerda, com cinquenta e quatro anos, um metro e setenta de altura e sessenta e oito quilos aproximadamente, Cirilo dos Santos, servente de pedreiro desempregado, bebe em silêncio um copo de cerveja. Está sozinho. Ainda guarda no bolso traseiro da calça o bilhete de loteria premiado, cujo resultado ele conferiu na manhã de ontem pela televisão, às oito horas e vinte e três minutos. Está fazendo hora até o banco abrir, quando resgatará o prêmio e colocará fim à vida de privações que ele e sua família levavam até esse momento. Está milionário.

    Um deles pensa naquele instante de ontem como o pior de sua vida; o outro, como o maravilhoso início de uma nova existência. Eu sou aquele instante. Às oito horas e vinte e três minutos da manhã de ontem eu fui amaldiçoado e enaltecido ao mesmo tempo.

    Um instante é uma viagem sem roteiro e planejamento, cujo destino final será um simulacro, uma faísca de vida e suas consequências. Faça-se uma fotografia de Júlio e Cirilo no instante compartido no balcão do bar: um deles mal contém a tristeza, o outro, mal disfarça a sensação de pisar em nuvens. O retrato mostrará o que passa em cada cabeça?

    Júlio e Cirilo são a prova de que pode haver horror e alegria num só instante. No mesmo instante. A vida é cheia deles. A vida é cheia de mim.

  • Pais de filhos mortos

    Não sei o porquê de tanta encrenca na vida. Aliás, é muito mais que encrenca, é uma calamidade familiar. Onde foi que eu errei? Dei um duro danado para educar os meus filhos, e de retorno só recebo ingratidão. Morro de desgosto, e, inclusive, minha saúde tem se debilitado progressivamente. Malu não sabe também o que fazer. Será que demos amor demais? Ou será que não foi suficiente? Paulinho, nosso primogênito, cedo caiu nas drogas, por influência dos colegas. Ele foi, quando menor, muito dado, alegre e educado. Foi catapultado para a vida marginal. “Por que, meu Deus? Por que?”. Logo passou a fazer pequenos roubos, porque não admitíamos a sua condição, degradante. Pensávamos que dar dinheiro facilitava a vida dele para buscar os seus abusos. Mas, ainda assim, o fiz incontáveis vezes – por pena, por dor. Ele parou de estudar logo em seguida, e isso foi uma punhalada no meu coração – eu que tanto estudei, fiz duas faculdades, para dar uma vida melhor para meus filhos, levei uma rasteira, mais uma vez, da vida. O guri dizia que escola era coisa para trouxa. Mandei que trabalhasse, então, de qualquer coisa. Ele me mandou à merda. “Vai trabalhar tu, velho lazarento! Não pedi para nascer, e tu é obrigado a me sustentar!”. Quando me lembro dos momentos felizes de sua infância, que ele era grudado comigo, choro de emoção. Paulinho, como disse, foi um menino meigo e superinteligente; brincávamos muito, íamos aos jogos do Internacional, tínhamos uma vida “normal”. Tudo mudou para pior – bem pior. Agora está amasiado com uma qualquer, que sequer sabemos quem é. Malu não concebe não conhecer a própria nora. Já chegou a brigar com o Paulinho, quando ele, pontualmente, apareceu em casa – para pedir dinheiro. Soubemos, por acaso, que está esperando o nosso primeiro neto. Paulinho, talvez por isso, é entregador. Diminuiu as farras. Quiçá melhorou – não para os pais; ele ignora a nossa existência. Não sei como uma pessoa assim não pode ter sentimentos. Será que ele não tem lembranças boas de mim? Choro de saudade do que vivi e do que não vivi. Não dá atenção aos pais. Somos meras fontes de dinheiro. Vivo esperando o dia em que ele vai voltar, como homem, me abraçar como homem, e se mostrar uma pessoa digna… Flavinha, nossa menina rebelde, não partiu para o mesmo caminho, mas, vendo a influência do irmão, resolveu parar de estudar – não tive pulso para segurá-la na escola. Uma psicóloga amiga sugeriu que ela poderia ser psicopata, pelo seu estilo atrevido e por não demonstrar nenhum tipo de emoção. É uma menina bonita, então, absurdamente, inventou de abrir uma conta no OnlyFans, e ganha o seu dinheirinho. A princípio, relutei – sentia uma vergonha monstra. Mas, depois, vi que o corpo é dela, e, já adulta, pode fazer o que quiser. Malu suspeita que faça programa, porque às vezes sai muito arrumada, cheirosa, e não diz pra onde vai – sim, ela e ele não nos dão nenhuma satisfação. E Flavinha sempre está bem financeiramente, sem “trabalhar”. A verdade é que, com relação ao dinheiro, já me arrastaram tudo. Vivo da minha aposentadoria mirrada, de funcionário público estadual. O dinheiro que juntei por uma vida serviu para comprar um carro para o Paulinho e outro para a Flavinha. Carros do ano. Dei de coração, para começarem a vida. Queria que, com isso, nossa relação mudasse, mas vejo, hoje, que é praticamente impossível, que foi a pior coisa que fiz – bem, para Deus nada é impossível. Malu quase morre de um princípio de infarto, de tanto problema que carrega. Eu sou diabético e hipertenso, tenho que regular a alimentação à risca. Somos dois velhos pais de filhos mortos. E isso não convém a uma boa velhice. Somos mais velhos do que queríamos.

  • Como era gostoso o meu Pasquim!

    Quando o primeiro Pasquim chegou às bancas de jornal e revistas, como o sol de uma canção daquele compositor baiano, era 26 de junho de 1969. A memória, ainda sem os muitos livros, discos e filmes que hoje ocupam suas prateleiras, lembra daquela boa notícia que me foi trazida por Flávio, sujeito mais velho, experiente e o mais letrado entre os colegas que conheci no bairro da Torre, e que gostava de ler e colecionar Tex Willer.

    Eu, que nunca tive tendência ao babonato, à babação ou coisa parecida, sem qualquer vocação para ser um ex-croto, quando vi a capa que o Ziraldo — um craque nessa área, o nosso camisa 10 — fez em homenagem ao JK, que acabara de ser convidado para ouvir e cantar o seu Peixe Vivo em outra cidade, confesso: vivi e me vi babando. Nada mais bonito e poético do que um JK subindo ao céu, com as demais letras presas ao corpo gráfico.

    Se, aos sábados, costumava dar uma voltinha no Ponto de Cem Réis — o “escritório” que um dia foi do meu injustiçado amigo Livardo Alves* — para verificar in loco como ele está ficando de cara nova, moderna, numa morosidade de matar Salvador Dalí — e o daqui — de tédio, naqueles outros sábados, tomado por uma fome de leitura de anteontem, corria à banca mais próxima para pegar o meu Pasquim.

    A fome pasquinesca era tamanha que “comia” a capa e, mesmo que os olhos gritassem de fome de ver/comer, guardava o resto — Fausto Wolff, Sérgio Augusto, Henfil, Paulo Francis, estes, particularmente — para depois da ressaca das muitas cervejas que Bil (The Kid) nos servia no Blitz; e Dantas, o careca, com Pilsen supergelada, acabava de nos matar na Flor da Parahyba.

    Acho que foi o primeiro hebdomadário, o nome feio (botem feio nisso), com que eles, uns gozadores, chamavam esse tabloide que furou, de verdade, o cerco da sisudez de um regime sem graça e autoritário.

    Tempos bons. O Pif-Paf, à época quase um desconhecido para este escriba, editado por Millôr e recentemente (re) apresentado, em seus únicos oito números, pelo intelectual, bom caráter e ótimo sujeito Márcio Roberto, muito antes de Drummond vaticinar, era apenas um quadro na parede da minha memória de papel.

    O Pif-Paf fez 60 anos há dois anos — insuportável essa história de “há dois anos atrás”, que nossos cultos e incultos políticos, repórteres e entrevistados costumam usar para aumentar e ratificar uma distância que o “atrás” dispensa. O Pasquim, um pouquinho mais novo, no ano da graça de 2026, completa 57 anos. Lembro que a primeira capa trazia a cara de Ibrahim Sued, então o mais famoso colunista social da imprensa brasileira.

    Se não bastasse um tabloide que, em apenas dez semanas — um pequeno pulo para uma turma genial, mas um gigantesco salto para a história da nossa, de novo, verde e amarela imprensa brasileira —, saltou de 28 mil exemplares para 200 mil, além desse gigante do qual falei no começo do parágrafo, trazia um furo tão grande que dava para ver, a olho nu, o que acontecia na terra de Akira Kurosawa.

    Enquanto a grande imprensa disputava, discutia e gritava em letras maiúsculas, tentando descobrir quem seria o sucessor de Costa e Silva, o Pasquim anunciava que o próximo presidente seria Emílio Garrastazu Médici (o mesmo Garrastazu que Tim Maia batizou como nome de seu esconderijo secreto, onde se trancava, sozinho, bem ou mal acompanhado, para fumar maconha e cheirar cocaína), a mais perfeita caricatura de ditador que ainda trago na memória.

    Mas, com todas as devidas vênias do mundo, achei a capa do Ibrahim Sued tão comum quanto — força de expressão — o sabão que minha mãe usava para lavar as caçarolas enegrecidas pela fumaça do carvão do seu fogão a lenha. Porém, capa mesmo, Márcio, inesquecível, foi aquela do JK subindo para o céu.

    Bons – bons?! – tempos aqueles, hein?

    Livardo Alves nasceu em João Pessoa, no dia 21 de setembro de 1936, e faleceu no dia 16 de fevereiro de 2002, em João Pessoa*.

  • Livros Restantes

    “Livros Restantes” é um filme nacional dirigido por Márcia Paraíso e lançado em 2025. Conta com as atuações de Denise Fraga, Augusto Madeira, Manuela Campagna, entre outros nomes do elenco.

    A história narra um momento específico da vida da protagonista Ana, quando ela se muda do lugar onde viveu toda a vida para Portugal.

    Desse fato, a história gira em torno de recordações e lembranças vividas por ela ao longo da vida no lugar onde nasceu e foi criada.

    Toda a história acontece tendo como pano de fundo um elemento muito importante na vida da personagem: seus livros. Como professora e apaixonada por literatura, Ana passou por um processo de doação de grande parte de seus livros em razão da mudança. No entanto, uma ínfima parcela, mais precisamente cinco livros, permanece em sua estante, permitindo que ela reviva momentos de seu passado.

    Dessa forma, ela decide devolver os livros com dedicatórias que recebeu de pessoas que passaram por sua vida em diferentes momentos. Tudo acontece sob uma grande carga de volta ao passado, seja para relembrar momentos bons, seja para recordar aqueles que são ruins.

    O filme se desenvolve com forte carga emocional, cercada por tudo o que perpassa a vida da protagonista. Desde sua intensa ligação com a família até o vínculo com o lugar onde nasceu e foi criada. É bonito ver a forma como o filme desenvolve as vivências dos personagens. Vale também destacar o modo como dá visibilidade a temas que ainda aparecem como tabus em uma sociedade extremamente conservadora como é a que vivemos. Entre eles, destacam-se a homossexualidade, o veganismo e a pedofilia.

    Por tudo o que foi exposto, sem deixar de destacar a impressionante atuação de Denise Fraga, uma gigante em cena, “Livros Restantes” se revela um filme leve, sem abrir mão da importância de abordar temas que precisam ser colocados em discussão. Vale a pena assisti-lo.

  • Dias melhores

    Você já imaginou se a vida te convidar para uma experiência incrível num dia que, para você, não seria dos melhores?

    Ocorre-me que pode nos acontecer algo extraordinário, justamente quando a gente não está no melhor dia. Você não está com a melhor roupa — estava com pressa, pegou a que tinha e saiu. Uma chuva te pega no meio do caminho, um carro passa em alta velocidade e ensopa a sua roupa inteira. Ou então você pisa numa poça d’água e o seu sapato fica no pior estado. O botão da sua calça — ou o zíper, um dos dois — arrebenta. Ou, se for num dia de calor, você está com aquela pizza debaixo do braço. Aquele dia em que a barba do homem está malfeita, em que a mulher não conseguiu horário na manicure. Aquele dia em que a gente prefere não ser visto, prefere não ser lembrado, prefere circular por aí, anônimo ou anônima.

    Você já parou para pensar que, justamente nesse dia, pode acontecer algo? Que a vida pode te fazer um convite?

    Pensei nisso outro dia, quando soube que um ator de novelas, de quem eu sou muito fã, estaria no shopping da minha cidade. Eu soube tão de repente, que não deu tempo de pensar no restaurante em que eu almoçaria. Eu também não tinha marcado hora com o barbeiro. A barba estava por fazer — estava horrível, vamos dizer assim.

    Mas o que fazer? Ele estava ali, no shopping, promovendo a novela que seria reprisada na televisão. E, mais do que isso, promovendo um concurso de embaixadinhas, para quem estivesse passando — algum rapaz, alguma moça, que gostasse de futebol.

    Eu simplesmente adorava aquele cara. Tinha visto novelas, entrevistas, teatro. Para mim, é um dos melhores atores. E ele estava ali, em plena terça-feira, num shopping, ao meio-dia, fazendo um evento.

    Eu, sinceramente, estava num dos meus piores dias: a barba por fazer, faminto — porque o encontro era no horário de almoço. Mas, mesmo assim, eu fui. Dei um abraço, olhei nos olhos dele e falei:

    — Por favor, continue nos presenteando com o seu talento, e com a sua arte.

    Ele sorriu, e disse:

    — Muito obrigado.

    Foram só essas palavras, mas eu acho que ele, como ator, entendia a intensidade do que eu estava sentindo — e retribuía, lá, da maneira dele.

    Quando acabou tudo, eu fiquei olhando ele andando pelo shopping, perto daquela cafeteria onde eu sento, tantas vezes, para comer uma torta ou tomar um cafezinho fumegante. E, naquele momento, eu achei a vida tão doce.

    Quando eu olhasse para aquele lugar, eu diria: “Puxa vida, o meu ator favorito passou por aqui.” Eu acho que a torta ficaria mais saborosa, o cafezinho ficaria mais gostoso, o lugar ficaria mais bonito.

    Aí eu pensei: o que nos leva, na vida, a esperar pelo melhor momento?

    Coisas extraordinárias podem acontecer com a gente quando o botão da camisa arrebenta, quando a gente esquece o guarda-chuva e toma um banho de um carro que passa em alta velocidade, quando a barba do homem está por fazer, quando a mulher não conseguiu ir à manicure, naquele dia em que a gente está com uma camisa de que não gosta tanto, ou em que o perfume favorito acabou.

    Aí a gente se pergunta: “E se eu deixasse para um outro dia?”

    E então você se dá conta de que não existe um outro dia. Talvez não haja um outro dia.

    Vai ter que ser naquele dia mesmo.

    Tem dias em que a gente sente vontade de passar pelo outro, e deixar de cumprimentar. Baixar a cabeça, baixar os olhos. Tem dia que dá aquela vontade — aquela vontade de ser monossilábico, diante de um cumprimento, de recusar um abraço, de recusar tudo.

    Mas, naquele dia, eu não recusei. Fui, dei um abraço naquele ator de quem eu gostava tanto — e gosto. Tirei as fotos, e postei, mesmo não estando no meu melhor dia.

    Quando saí dali, enquanto caminhava até o meu restaurante favorito, caiu, simplesmente, uma chuva muito forte. E eu cheguei lá, ensopado.

    Puxa vida… tanta coisa dando tão errado, e tão certo, ao mesmo tempo, no mesmo dia, e na mesma hora.

    Mas eu sempre penso: a gente nunca deve esperar estar no melhor dia, para viver a vida. Porque esse próximo dia, esse “melhor dia”, pode, simplesmente, não chegar.

    Fui para casa com a certeza de que tinha construído boas memórias.

    E já aconteceu de eu me arrumar todinho, passar perfume, escolher a melhor roupa, sair de casa com o dinheiro contado — e, simplesmente, as coisas não acontecerem como eu queria.

    Por isso, da próxima vez que eu tiver que viver alguma coisa, que aproveitar a vida, eu vou aproveitar. Mesmo se o botão da minha camisa estiver arrebentado. Mesmo se eu estiver molhado de chuva.

    Porque é assim que a vida tem graça.

  • A cana na moenda

    Os caixas do supermercado entraram em colapso, e eram sete horas da noite de um sábado em São Paulo.

    A escala seis por um a devorar a sanidade dos funcionários. Filas com famílias inteiras com carrinhos cheios de caixas de leite e cerveja, misturadas a pessoas que queriam pagar apenas por um ou dois produtos e desaparecer dali o mais rápido possível.

    Crianças gritando porque pediam aos pais pelos produtos açucarados estrategicamente colocados próximos aos caixas, superexpostos ali exatamente para momentos como aquele.

    Essas crianças certamente já ouviam a palavra ‘crise’, pelo menos em algumas de suas modalidades, mas ainda não tinham consciência do desfalque monetário que aquelas caixas de leite e sacos de feijão fariam no orçamento de seus pais., impossibilitando gastos com excessos nada saudáveis.

    Um casal que olhava para aquele pandemônio à espera de pagar por frutas e pacotes de aveia, começou a conversar sobre o tempo de vida perdido nessas ocasiões.

    Torciam com pouca esperança para que  aquelas crianças não crescessem acreditando que todos os caminhos para a felicidade fossem através de compras.

    Ele falou: “Agora com a guerra torando, tudo vai ficar ainda mais tosco.”

    Ela respondeu: “Pelo menos, não estamos na pele laranja de Donald.”

    E olharam novamente ao redor, a cena geral horrenda, em que o protagonista é o lugar, e não alguma pessoa em especial.

    Onde o dinheiro e a falta dele faz um grande salão hospedar o pior do ser humano.

    E ela com uma camiseta do Yo La Tengo e ele com uma do The Saints.

    Pessoas ao redor, também esperando na fila, às vezes faziam menção de entrar na conversa, mas se continham quando percebiam que o teor do que era dito por eles podia ser direcionado a elas próprias e aos constrangimentos por elas causados.

    A conversa evoluiu da chateação de uma fila de supermercado para problemas sociais crônicos.

    Eles partiam do princípio de que se a pessoa dependesse de um emprego formal, em que dorme pouco, sai pela manhã mal alimentado, sempre correndo e atrasado, sempre com problemas no transporte público, ou mesmo num carro confortável, porém preso por horas no trânsito, só para chegar ao local de trabalho, então a pessoa não apenas está absurdamente longe de pertencer a qualquer tipo de elite, como deveria reclamar dessa péssima qualidade de vida.

    Uma minoria consciente de fato reclama, enquanto a absoluta maioria agradece, alguns inclusive tentando ostentar o que nunca teve, tem ou terá.

    Foi mencionado no início apenas o começo do dia desse cidadão médio, que tem emprego e casa.

    Ele terá ainda que lidar com a falta de dinheiro para contas básicas, tendo que reinventar o conceito de lazer, uma vez que esse setor é automaticamente eliminado de sua existência por falta de tempo, energia e dinheiro.

    Possivelmente não teria nem mesmo vontade, pois teria desenvolvido depressão, no caso de realmente pensar sobre o tempo de vida perdido a caminho do trabalho, e depois executando o trabalho que geralmente enriquece mais alguém que já é rico, doando seu tempo e energia.

    O tempo que sobra para os que tem família é curto e imerso em tensão, devido a problemas financeiros e de estresse pelo cotidiano penoso.

    Um cotidiano tão cruel que condiciona a massa a pensar que essa vida padrão é plenamente natural, de tanto que o povo está acostumado a sofrer.

    Ali havia tempo para que o desespero social pela precária situação econômica do país se manifestasse.

    Pais de família abordando clientes na fila, com uma cesta pronta, com produtos alimentícios básicos, pedindo a eles que façam o pagamento.

    Era algo sobre fome, apelidada de ‘insegurança alimentar’.

    Havia o tiozão do churrasco, com camiseta da CBF, comprando cerveja e carne congelada, pais com carrinhos com dezenas de litros de leite, morador de rua comprando corrosivos corotes coloridos e o sistema ineficaz de estrutura da bilionária rede de supermercados para aglomerar toda aquela gente ali.

    Isso fazia o casal falar ainda mais, pois tinham ideia do que significava aquele desespero.

    Tinham o dinheiro para a sua compra contados em moedas pequenas.

    Algumas das pessoas na frente e atrás deles na fila levavam carrinhos repletos de mantimentos diversos, a um custo fora de qualquer possibilidade para os dois.

    Era um casal para o qual o depois de amanhã já era uma perspectiva de longo prazo, mas acima de tudo, uma perspectiva otimista, de que o depois de amanhã chegará com a humanidade ainda sobre a crosta terrestre.

    Naquele momento em que todos ali eram iguais, presos numa capsula de desolação e ansiedade, o casal podia jurar que aproveitaria cada segundo da vida de uma maneira mais cuidadosa, a partir do instante em que deixassem aquele lugar.

    E nem estavam exatamente mal-humorados. O que havia era um tipo de perplexidade que se dá justamente quando a cena é repetida.

    O homem que alegava ser pai de família e pedia pelo pagamento de seu cesto de compras se aproximou do casal e ficou constrangido de pedir algo a eles, depois de uma recusa fria do tio do churrasco.

    Não apenas por ter visto o modesto conteúdo vegano do cesto do casal, mas também por ter ouvido parte da conversa durante suas tentativas de pedir ajuda.

    Já sabia até mesmo que os dois iriam vender canetas no dia seguinte, nas proximidades de um local que aplicaria a prova do ENEM.

    Já haviam feito isso várias vezes. Ajudaria na receita doméstica e renderia um rolê no domingo.

    Tanto o cara com camiseta do The Saints como a garota com camiseta do Yo La Tengo eram graduados.

     Eles olhariam para aqueles estudantes cheios de medo, ansiedade e majoritariamente sob a mais profunda falta de preparo.  

    Sentiriam mais uma vez todo o desprezo por políticos que deixaram de herança essa situação vergonhosa.

    Sentiriam também alívio por estarem ali sem serem um daqueles estudantes, mas sabendo exatamente o perrengue que aquilo representa.

    Os portões se fechariam, eles olhariam o desespero dos que ficaram de fora e depois se deitariam na grama, já com dinheiro para ir novamente ao mercado, à noite. I

    Para aquele domingo, estaria ótimo.

    A soma da renda de ambos, os classificava como classe média. Antifascistas desde antes de nascerem, de acordo com eles.  

    Diziam sofrer de vergonha alheia a cada vez que se agrupavam por motivo alheio à vontade.

    Mas ainda era sábado, e com a classe média ali misturada aos mais pobres e geralmente sem qualquer empatia com eles.

    A classe média que está tão longe de ser rica, parece ainda mais desolada e vulnerável.

    O medo de empobrecer mais é perene, e atinge o ápice naquela hora da verdade capitalista.

    O pavor de atingir um nível de dificuldade financeira que já é tão concebível nos pesadelos que preenchem as poucas horas de sono semanais castiga milhares de pessoas ainda associados a esta camada social.

    A parcela consciente desse grupo, naturalmente em número muito menor, tem vergonha e constrangimento, desesperando-se diante do fato de o rebanho ser completamente cego.

    Quando finalmente chegou a hora de pagar e sair, a garota do caixa, enquanto passava os produtos, perguntou a eles o que eram um do outro. 

  • Jogo das palavras

    O homem não é o que fala; na maioria das vezes, é o que sente, e o que ele sente, ele não fala; por isso, muitas vezes, no silêncio, engana. E então, o homem não é homem, é puro sentimento?

    Estranhos são os jogos das palavras; confundem e nem sempre se entende o que se quer dizer. O tempo nos faz endurecer, segurar as lágrimas, e entramos no jogo da vida sarando as nossas feridas. E então, deixa-me falar, deixa-me dizer aquilo que não queres ouvir.

    O erro da escolha aberta e cruel nos levou ao caos. Nossa liberdade, tolhida pelo medo e pela insegurança, tira das nossas mãos uma democracia plena para nos tornarmos reféns de um incapaz que usa o poder para si próprio — uma indecência.

    Lutar? Como? Atados a pacotes infelizes, mergulhamos, sem respiradores, num mar de lama e vamos perdendo, aos poucos, o ar, pois aquele que nos ajudava a relaxar torna-se tóxico, e ficamos à deriva…

    Estranho são os jogos das palavras…

  • Poema #63: Reivindicações

    Eu sei que eu mereço
    (embora talvez eu não venha a
    ter) o meu nome num nome de rua.

    Eu sei que eu mereço
    uma estátua de bronze
    na praça de Ervália.

    Eu sei que eu mereço
    denominar a Casa da
    Cultura como o poeta que sou.

    Eu sei que eu mereço
    casar com uma mulher
    negra, que é o meu sonho
    de consumo.

    Eu sei que eu mereço
    ter um aumento de salário
    para poder sobreviver.

    Eu sei que eu mereço
    ganhar um prêmio literário
    para pagar as dívidas.

    Eu sei que eu mereço
    pescar um peixe grande
    nas águas do tanque.

    Eu sei que eu mereço
    nadar como quem voa
    pelos céus de outro país.

    Eu sei que eu mereço
    cavalgar uma égua
    enfiando o dedo no seu cu,
    para ela andar depressa.

    Eu sei que eu mereço
    empinar uma pipa gigante
    que nunca será alcançada.

    Eu sei que eu mereço
    formar uma banda de rock
    e fazer muito sucesso.

    Eu sei que eu mereço
    ser aclamado e lido como
    nunca antes na história
    deste país.

    Eu sei que eu mereço
    receber uma homenagem
    de adeus e logo ser esquecido.

    Eu sei que eu mereço
    uma catacumba digna
    para descansar os meus ossos.

    Eu sei que eu mereço
    tudo isso, mas desconfio
    que não terei nada.

    O Jardim Simultâneo

  • A era do instantâneo

    Tirar uma foto, fazer uma selfie, mostrar-se e mostrar os outros o tempo inteiro, todo o tempo.

    Caras e bocas e frases de efeito, curtidas e vídeos, imagens para todos os lados!

    O que estamos fazendo com o nosso tempo?

    Nem mesmo Narciso seria tão cruel consigo mesmo!

    O século XXI tem promovido, além da revolução digital e do avanço vertiginoso da inteligência artificial, contraditoriamente, a involução das coisas e, pior, das pessoas.

    Nunca, em tão pouco espaço de tempo, vimos um crescimento tão grande e significativo da informação. Há muita coisa sobre tudo, em qualquer lugar da chamada internet.

    No entanto, pobres mortais, somos sugados para a pequena tela e achamos feio o que não é espelho! Vidrados que estamos em olhar através do visor do celular, esquecemos o amor, esquecemos o céu, esquecemos o andar e o falar, esquecemos o outro e, aos poucos, esquecemos de nós mesmos!

    E tudo, ilusoriamente, parece mais prático, mais rápido, mais dinâmico, mais isso e mais aquilo.

    Com a era digital, surgiram problemas que, simplesmente, não existiam. Estamos nos robotizando? Deixamos de ser humanos para nos satisfazermos com o colorido e frenético mundo virtual!

    Para tudo, uma foto. Um evento comum tornou-se cena de filme: cabelo arrumado, roupa arrumada, discurso ensaiado. Registro de um almoço, de um jantar, de um encontro com amigos! Amigos? Cada qual com o seu telefone!

    Para tudo, um comentário! Da mais besta situação ao mais ridículo dos espetáculos, uma frase, uma curtida, uma reclamação!

    Nem o vírus escapa de tamanha comédia pastelão! Quando as coisas fazem sucesso, “viralizam”.

    Pensando bem, a imagem do vírus é até que bem apropriada: multiplica-se rapidamente e vai enfraquecendo a defesa (o raciocínio, a criticidade e o bom senso) até tomar o corpo (a vida, os sonhos e os relacionamentos).

    Temos pressa de tudo! Minutos são como a eternidade!

    Se a página não abrir, se o download falhar, se a foto não aparecer, esbravejamos, choramos, clamamos e teclamos!

    E assim, entre fotos no Instagram, vídeos no TikTok, palavras no X, mexericos no Facebook, conversas no WhatsApp e outros inúmeros aplicativos, passamos o tempo sem darmos conta do nosso próprio tempo!

    Outra vez, me recordo de Umberto Eco quando sinalizava uma época de imbecilidade!

    É claro que há coisa que merece ser vista, ouvida e comentada. É claro que há vida inteligente nos campos virtuais. É claro que há criatividade, sim!

    Mas, somando tudo bem somado, pensando tudo bem pensado e pesando tudo bem pesado, temos muita incoerência, muita fofoca, muito julgamento precipitado, muito preconceito, porrada para todo lado. Temos violência, aberração, pedofilia, anúncios, moda e enganação!

    Temos ainda nazifascismo, vício e adulação!

    Mas, peraí!
    Isso tudo não é a própria sociedade?
    Revista, ampliada e viralizada!

    Tudo o que fazemos de pior, na internet, ganha dimensão, tem volume e mais proporção! Tudo o que fazemos de execrável ganha o mundo, faz o mundo, globalização!

    Em um mundo invertido e confuso como o nosso, a imbecilidade toma contorno de salvação! Parece que tudo é explicado e explicável através do Google!

    Não há amadurecimento, não há ponderação. Tá lá, tá certo! Sem complicação!

    E, nesse mesmo mundo globalizado e antenado, exigem de nós imensa flexibilidade, fazermos várias coisas ao mesmo tempo, explicando que agora é assim, que somos multitarefas — ou devemos ser —, mas esquecem que cada vez trabalhamos mais com menos tempo!

    Otimização!

    Sei que, nessa era tecnológica (e admiro e sei da sua importância), estamos destruindo nossas florestas, acabando com a nossa água, intoxicando nossos alimentos, escurecendo nosso ar, matando os animais e desumanizando a nós mesmos!

    Era melhor ficar nas cavernas e continuar a fazer desenhos…

  • Reintegração das águas em si: páscoa

    — Onde estamos?
    — Não muito longe do seu destino.
    — Parece faltar muito… Essa viagem é infinita,mamãe…
    — Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta.
    — Você é muito filosófica, mãe.
    — Eu não inventei isso. Foi o Einstein. Albert Einstein.
    — Ele é bom de…
    — Bond. James Bond.

    Dez a doze músculos da face contraíam-se antes de terminar a frase. Sempre antes. O puxar dos cantos da boca que seguem as contrações ao redor dos olhos. Como se soubesse o fim e ainda assim quisesse brincar de caminho. Os sorrisos iam dos olhos à boca, atravessando os rostos, por inteiro. Como a chuva fazia no vidro do automóvel em movimento.


    As chuvas a atravessam sem pedir licença. Transportam-na — não de todo, nunca de todo — para cenas de sua infância: viagens de carro, a voz da mãe inventando mundos no meio da estrada, pequenos jogos de linguagem que não tinham regra fixa, só as duas e seus sorrisos desanuviados. A aurora de dias que não mais retornam, mas teimosos, não se vão completamente.

    A chuva não passa impune em sua vida. Nunca passou.

    A coisa mais impressionante sobre as gotas d’água é que elas sempre buscam o caminho mais facil.

    ” — Nós, seres humanos, não”.

    De quando em quando, nada melhor do que degustar uma chuva – se houver possibilidade de ser por uma varanda, melhor ainda. As gotas parecem maiores quando mudamos a perspectiva e olhamos por baixo delas.

    Caem com força nos olhos.
    nos cabelos
    na pele

    escorrem…

    Sentimos o impacto. Fechamos
    instantaneamente os olhos.

    respingam os pingos que batem no parapeito de
    pedra e ricocheteiam em nós

    Marise, debruçada em sua varanda no sétimo andar, vê o correr das pessoas para debaixo das marquises, ou armadas com seus guarda-chuvas apontados para o céu e… pump! Mais uma mancha arredondada escondendo pessoas, sacolas, crianças, pets e quaisquer tipos de sortilégios… Guardam-se, todos, da chuva. Não guardam a preciosidade do momento.

    As folhas das árvores balançam com o gotejar celeste. Marise ouve, talvez não se atentem os passantes, sequer os que se abrigam, os pássaros cantando, bem perto de todos. No topo das copas mais altas que o seu prédio, vislumbra espécimes solitários tentando proteger as penas sob diminutas aglomerações de folhagens esparsas. Cantam para avisar aos outros da revoada que ali ainda não é abrigo. Um repete o
    canto, em outra copa. E outro. E outro…

    As gotas caem.

    Sempre caem pelo caminho mais fácil.
    Se deixam abraçar pelas forças gravitacionais.
    Não hesitam: nada há de complexo nas chuvas.

    Talvez por ser da serra, e por faltar o mar e a vista do mar, Marise cultive um fascínio imenso pelas tormentas. Deixa-se molhar pelas tempestades; é seu ritual de fora para dentro. Respira ouvindo apenas o rumor alto tecido por gotas tão pequenas.

    Paz.

    É, para ela, quase a exata sensação de mergulhar no mar. A diferença é que é um movimento mais seu estancar-se à chuva, braços e coluna relaxados, rosto virado para o céu. Mais familiar. Menos salgado.

    Combina com as lágrimas que jorram de quando em quando. Quando chove, Marise não chora. Poupa suas águas, que já sabem o menor caminho dentro de si.

    Deixa-se banhar, um pouco mais, pelas lágrimas dos deuses…

    Há um certo privilégio em tomar um banho de chuva num pequeno pedaço de seu próprio abrigo.

  • AUGÚRIO

    Durante grande parte de sua vida, Suely dava expediente lendo as linhas das mãos, jogando búzios e ainda posando como astróloga. Madame Suely. Sua especialidade era o tarô. Manejava as cartas e seus arcanos por instinto e fazia suas reflexões livremente, orientando seus clientes sobre situações de vida, amor e trabalho. Na maioria das vezes dava certo e Suely persistia.

    Madame Suely interpretava alguns acontecimentos, pressentia sinais de problemas futuros, sabia olhar nas pessoas e adivinhar-lhes as aflições e sonhos. Seu carisma era natural, da mesma forma que sua crença espontânea em si mesma. Rara autocrítica e coragem de sobra. Além de alguma sorte, é claro.

    Como futuróloga respeitada, Madame Suely ganhou o suficiente para criar as duas filhas. Seu marido, no começo avesso a essas coisas místicas, via com simpatia a grana que ajudava nas despesas.

    As filhas mal conseguiam disfarçar a vergonha da função da mãe, mas sempre deram valor ao dinheiro que lhes possibilitou estudo e a formação universitária. A mais velha formou-se em Comunicação, e a caçula, em Odontologia, fato aliás previsto por Suely nas cartas, embora as filhas nunca tenham acreditado.

    Verdade que suas previsões não se concretizavam sempre. Humanamente não era infalível. Quando ocorriam presságios ruins, jogava de novo as cartas até que o oráculo mudasse. Aos consulentes evitava as profecias trágicas e somente repassava aquelas que pudessem trazer algum alento ou consolo. No fundo, Suely era uma otimista.

    Com a morte do marido (que não foi previsto por ela), Suely decidiu parar com suas consultas. O tarô, agora, só em ocasiões emergenciais.

    Mesmo que procurasse evitar, tinha ainda suas premonições. Esforçava-se para que elas não se realizassem. Ao menos, completamente.

    Com o tempo foi aprendendo a se desligar desse mundo de vaticínios cheio de mistérios e falcatruas. Jogou no lixo seu baralho de tarô e aposentou-se, merecidamente.

    As filhas celebraram. Há muito aguardavam por isso. Sentiram-se aliviadas.

    Libertação e descanso era também o que Suely sentia no íntimo. Alguns poucos clientes que ainda insistiam em procurá-la, Madame Suely explicava que dali para a frente ela só poderia conviver com o presente e antever passados.

  • Poema #04: Flor no Asfalto

    Chamam de resiliência
    essa palavra polida,
    de palco e de LinkedIn,
    que ensina a atravessar ruínas
    com a coluna ereta.

    Resiliência:
    dizem ser força,
    dizem ser método,
    dizem ser quase virtude corporativa.

    Mas outro dia
    ela me apareceu diferente —
    não em gráficos,
    nem em discursos bem ensaiados,

    mas numa fresta de asfalto:

    uma flor.

    Pequena, improvável,
    sem plateia, sem legenda,
    rompendo o cinza
    com a delicadeza de quem não pede licença.

    Ali estava tudo.

    Porque a terra sabe:
    depois da seca,
    depois do frio,
    depois daquilo que parece fim,

    há sempre um retorno
    silencioso.

    Um recomeço que não se anuncia,
    apenas acontece.

    E então pensei
    nos nossos desertos particulares —
    esses dias antes do aniversário,
    quando o mundo pesa mais do que devia,
    quando o acaso tropeça na gente
    vez após vez,

    e por dentro
    a paisagem racha.

    Mesmo ali,
    no chão duro do cansaço,
    algo insiste.

    Uma espera sem nome,
    quase teimosa,
    como quem já sabe
    que a chuva vem.

    Lembro, então, de Sérgio Britto,
    na voz dos Titãs,
    em Enquanto Houver Sol —

    quando tudo parece gasto,
    quando até a ilusão se recolhe,

    ainda assim,
    em algum lugar mínimo,
    sobrevive

    uma infância.

    Talvez seja isso.

    Resiliência não é pedra.
    Não é rigidez.

    É chama.
    É o quase nada que permanece
    aceso o suficiente
    para, um dia,

    florir —

    mesmo
    sobre o asfalto.

  • Digníssimo canalha

    Pelo presente instrumento, venho desrespeitosamente dirigir-me a vossa excelência, em minúsculas, na dimensão da pequenez moral que encarnas. Refiro-me a ti, nobre calhorda, investido que estás da augusta prerrogativa, intransferível e vitalícia, de decidir o destino dos que habitam o mundo dos vivos, já que o dos mortos foge à tua jurisdição, embora almejes equiparar-te ao Ser Supremo que, inobstante os acórdãos do teu STF, exerce deliberações irrevogáveis no reino celestial.

    A ti, que acolhes a reverência do povo que, passivo, aguarda tuas soberanas e irretocáveis decisões peremptórias. A ti, que te vales das prerrogativas que te elevam acima dos simples mortais, relegados à sua insignificância, quando de tua boca ouvem o famigerado “sabe com quem estás falando?”. A ti, ente indigno que, indignado, bradas por direitos inalienáveis enquanto vives na intimidade inescrutável da tua vida privada de práticas inconfessáveis. A ti, que por exercer o ofício de julgar os outros, julgas-te acima dos outros.

    Venho oficiar-te, honorável patife, que encontro maior retidão e honra na palavra sincera que brota do coração de um pobre inculto do que nos alfarrábios que sustêm tuas áridas sentenças intermináveis. As mesmas que ambicionas inscrever nos anais da imortalidade, onde ostentas para as gerações futuras tua soberba grandiloquência farisaica e tua rocambolesca sapiência estéril.

    Os recursos do erário público que faltam no amparo aos desprovidos, amealhas sem cerimônia ou parcimônia para manter intacto esse intrincado e indecifrável sistema, tão inócuo quanto iníquo, que cinicamente intitulas como ‘Justiça’. Revestes com aura de magnificência e infalibilidade essa espetaculosa pantomima patética e embusteira sob a qual se vergam as vidas dos que se submetem ao jugo do teu julgar.

    Esgueiras-te por esse emaranhado de leis, decretos, normas, códigos, regimentos, resoluções, regulamentos que se presta como barreira ao acesso dos neófitos, vedando-lhe o acesso ao teu território demarcado. Atribuis a ti mesmo o monopólio do saber e das práticas legitimadas ‘por lei’. Para que, na mesma medida em que expandes a doutrina do DIREITO, reduzes o primado da JUSTIÇA.

    A chave de tua inoperância tem nome: PRAZO. Permites que os julgamentos se arrastem indefinidamente, sob a cínica presunção de que a justiça necessita de décadas para abarcar os infinitos meandros legais. E assim vais multiplicando as instâncias para alargar tanto os períodos de apreciação quanto o tamanho do teu patrimônio pessoal.

     Adias, protelas, procrastinas, prorrogas, retardas, demoras, diferes, pospões, alongas, espichas, espacejas, alastras, dilatas, encompridas, acresces, expandes, empurras com a barriga até ver coroada a prescrição do crime. Conside­raste, eminente pulha, que, após décadas de espera, a sentença já foi proferida, independentemente do trânsito em julgado? Devo informar-te, distinto safardana, que quem aguarda por anos, seja amargando a privação de um direito ou usufruindo do gáudio de uma pena descumprida, já é repositório do veredito, seja o que venha constar no papel. Todo esse ritual inesgotável serve apenas para tornar a justiça uma peça utópica, inatingível para quem dela necessita.  

    Sai da tocaia, egrégio velhaco. Desce do palácio de capítulos, parágrafos, alíneas, incisos, caputs e cláusulas em que te enclausuras. Cumpre salientar, excelentíssimo pústula, que as ruas, distantes dos terraços dos palácios erguidos para te apartares da realidade de fato (e de direito), já não pertencem àqueles que nelas deveriam transitar, dominadas pelos malfeitores que libertaste das masmorras por artifícios legais e expedientes processuais, devolvidos à liberdade para continuar delinquindo, convictos de que os braços da lei jamais os alcançarão. Facínoras de toda espécie a quem remiste de pena, zombam daqueles que se pautam por princípios e honradez, sem armas, armações ou respaldo advocatício.

    Pessoas corretas vivem ao arrepio das formalidades legais que utilizas para agrilhoar os cidadãos, emparelhados pelo mesmo nível de calhordice que estabeleces tendo por referência teu espúrio padrão de valores. Com o intuito de que venham necessitar de tua mediação remunerada segundo a tabela do OAB.

    Sob o manto de teu propalado ‘estado de direito’, corruptos e ladrões escapam ilesos de suas falcatruas. Contam não apenas com tua plácida condescendência, mas com tua cruel cumplicidade. São para esses que aplicas a máxima leniência, amparando-os com a força irrefutável das brechas da lei, concedendo-lhes draconiana indulgência. Cobrindo com o verniz legalista da imunidade a irrestrita impunidade. “Por falta de provas”, provas.

    Quando se erguem vozes contra tua ineficácia, a estratégia de defesa já está traçada: eximir-te de responsabilidade. Culpas os legisladores, a polícia, a escassez de juízes, seus salários insuficientes e o excesso de carga horária, a inexistência de vagas no sistema prisional, a carência de investimentos, os problemas sociais, a ausência de políticas públicas, a colonização portuguesa. Assim, absolves-te ‘in totum’.

    Todo teu empenho converge para um único objetivo: não punir. Inocentes ou culpados, pouco importa, prevalece sempre o princípio ‘in dubio pro reo’. Desde que teus honorários sejam quitados com precisão, integralidade e… justiça.

    Quando um crime hediondo mobiliza a opinião pública, tens à mão um arsenal para abrandar o rigor da pena: tornozeleira eletrônica, prisão domiciliar, bom comportamento, atenuantes, progressão do regime, indulto, ‘saidinha’ de Natal, superlotação carcerária, penas alternativas, remissão, sursis, audiências de custódia. Tudo preparado para abrandar ou extinguir a punição. E criar novas possibilidades de utilizar teus serviços e criar vagas para a leva de recém-formados pelas faculdades de direito que abrem em cada esquina.

    Por todos os pretextos, vais libertando das grades os poderosos e seu séquito de advogados, reservando os horrores dos calabouços aos despossuídos das posses que bancariam teus emolumentos. Os que não colaboram com o pecúlio que sustenta a devassidão moral que apadrinhas e consagra esse país como o paraíso da impunidade.

    Deixa de hipocrisia. A quem pretendes enganar ao afirmar que personificas a Justiça? Teu ofício é apenas advogar em prol de vermes, retribuindo-lhes com pérfidos serviços o dinheiro que garante o suntuoso padrão de vida que ostentas. Incluindo os penduricalhos incorporados a teu holerite, como ‘direito adquirido’.

    Quem te sustenta, respeitável biltre, são os safados. Crápulas que, desprovidos de considerações éticas, estudam teus intrincados preceitos e se formam doutores para assimilar os meios legais, penais, constitucionais e amorais de permanecer impunes, qualificando-se a ingressar em tuas ro­dinhas infames. Partilharem do cafezinho do fórum, onde, por trás de indevassáveis paredes, ro­lam torpezas inimagináveis. Tornam-se teus colegas e cupinchas, uma associação fechada de rábulas parasitas.

    A verdadeira justiça é o oposto de ti. Consiste em tornar o mundo digno, prescindindo de teus sórdidos préstimos. Os princípios de retidão e civilidade, carregamo-los em nós. Num mundo de justos, tua ‘justiça’ não se ajusta. Que papel teriam juristas numa sociedade sem delitos? Os íntegros coexistem com harmonia, dispensando tua protocolar intermediação. Quem carece de lei são aqueles que dela vivem à margem.

    Data vênia, ilustríssimo, vai à p* que te pariu.

    (Adaptação de texto originalmente publicado em 2013 no livro O QUE DE MIM SOU EU)

  • Simulações

    Ninguém sabe de quem foi a ideia, que ganhou força quando chegou aos ouvidos do meu avô Nélson. Ele logo organizou as coisas e dividiu as tarefas. Os responsáveis pela criação do primeiro episódio seriam meu pai e meu tio Mário. Estavam todos lá na segunda reunião, realizada no casarão do Cosme Velho, que, ao longo das últimas oito décadas, assistiu a incontáveis momentos importantes na vida dos Bandeira de Assis. Abertos os trabalhos, meu pai fez uso da palavra. Explicou que havia pensado em algo impactante. Uma moça, por volta dos 20 anos, andando sozinha na praia do Flamengo seria assaltada e em seguida estuprada por dois marginais. Alta madrugada, iluminação deficiente e local deserto ajudariam a compor a cena. Minha tia Clarice adorou a ideia e sugeriu um tom explícito. Completou que as imagens nada deveriam ficar devendo à realidade. Minha prima Cecília acrescentou que, já no final da ação, a polícia deveria chegar sem nada conseguir resolver. Aliás, seria ótimo se os policiais terminassem mortos pelos bandidos, opinou ela, levantando da cadeira e agitando os braços finos com entusiasmo. Meu tio Mário, calado até aquele instante, foi enfático: Muito sangue! É preciso que haja muito sangue! Os presentes agitaram-se, um burburinho tomou conta da sala. A reunião seguia, o contentamento era geral, e uma excitação perversa contaminava o ambiente. Meu avô ia aprovando tudo com discretos acenos de cabeça. Na sequência, pediu que meu primo João e minha irmã Lígia falassem a respeito do segundo episódio. Pelo que pude perceber, a ideia partiu dela. Algo bem semelhante havia acontecido com a bisavó de uma amiga sua. Uma senhora nonagenária saindo de uma agência bancária. O cenário era o Méier, tradicional subúrbio carioca, habitado por uma classe média falida. Dia claro e ensolarado, uma gangue de pivetes surgiria de repente, derrubaria a velhinha no chão e roubaria todos os seus pertences. Ela gritaria desesperada, sua voz fraca e rouca, quase inaudível, não lhe seria de muita serventia. A fim de tornar tudo mais dramático, seria importante que a protagonista acabasse morta. Mais uma vez, alguém — acho que meu primo Murilo — propôs que a polícia se mostrasse inepta, incapaz e inábil. A essa altura, todos estavam ansiosos para ouvir a terceira sugestão, esta a cargo de minha avó Raquel e do meu primo Carlos. Linchamento! Linchamento! Foi assim, gritando juntos, que os dois começaram a expor a proposta. Mercadinho de bairro em Bangu, na zona oeste. Jovem maltrapilho, um típico morador de rua, seria a figura central nesse caso. Faminto, o adolescente roubaria dois pacotes de biscoito. O segurança da casa comercial, atento, se apressaria em cumprir sua função. O meliante sairia correndo. No entorno da loja, transeuntes começariam a gritar Ladrão! Pega ladrão! Meu tio Rubem se preparava para fazer comentários quando tiros foram ouvidos em frente à nossa casa. De forma instintiva, muitos dos presentes se levantaram, atravessaram correndo o jardim e alcançaram o portão. Estendidos na rua, emoldurados por poças de sangue, os corpos de quatro homens. A polícia apareceu alguns minutos depois.

  • Oração pelos peixes

    Sempre me intrigou que na Semana Santa não se pudesse comer carne mas se pudesse comer peixe. A carne dos peixes se exclui dessa restrição, embora nossos irmãos do mar sejam tão animais quanto a vaca ou o carneiro. É uma carne mais saudável do que as outras quanto à qualidade da gordura, mas certamente não foi por isso que a Igreja liberou seu consumo em ocasiões como agora. Naquele tempo ninguém tinha ideia do que era colesterol.

    Como faz bem tanto ao corpo quanto ao espírito, o peixe é comido sem remorso ao longo de todo o ano. Dos animais não nocivos ao homem, ele é certamente aquele para o qual menos se dirige a nossa piedade. Vejo e ouço protestos contra a morte violenta de bois, carneiros, raposas, ursos, mas raramente escuto uma voz contra a matança dos peixes.

    E olhem que a morte deles é uma das mais dolorosas. Ao contrário dos bois ou dos carneiros, que morrem de uma cutelada fulminante e indolor, os peixes se finam aos poucos, em tremores de agonia devido à falta de oxigênio. Matamo-los por necessidade e por lazer – para satisfazer nossas necessidades proteicas e para aliviar as tensões em longas e solitárias pescarias.

    Sabe-se que a ligação do cristianismo com esse animal tem razões históricas e também linguísticas. No tempo em que eram perseguidos, os cristãos usavam para se identificar a frase grega “Iesus Christus Theou Yicus Soter”, que em português significa “Jesus Cristo, de Deus o Filho Salvador”. Algumas letras dessa palavra formam a palavra “ichthyus”, que em grego significa “peixe”. Daí o vínculo com a figura do Redentor.

    O peixe servia mesmo como elemento de identificação entre os que se incluíam na cristandade. Quando dois cristãos se encontravam, um deles desenhava um arco no chão; se o outro fizesse o mesmo formava-se a imagem do animal marinho, e ambos se reconheciam como “irmãos na fé”. O resultado é que ele se tornou o mais importante alimento consumido na Sexta-Feira Santa, dia em que se recorda a morte de Jesus.

    Por ser a única comida animal permitida nesta época, o peixe ocupa um lugar de destaque no bestiário cristão. Seu sacrifício é um pouco como o de Cristo, que morreu para nos servir de alimento espiritual. Curiosamente, nem sempre foi assim. 

    No “Sermão de Santo Antônio ou aos Peixes”, Vieira afirma querer aliviar os peixes “de um desconsolo muito antigo”: o de não estarem, segundo a Lei Eclesiástica, entre os animais que Deus escolheu para serem a ele sacrificados. O motivo dessa exclusão, segundo o jesuíta, é que os peixes só podiam ir ao sacrifício mortos, “…e coisa morta não quer Deus que se lhe ofereça, nem chegue aos seus altares”.

    É claro que há nessa passagem, como em todo o sermão, um sentido alegórico (a alegoria, “representação de uma coisa por outra”, normalmente comporta um valor moral). Vieira finge se referir aos peixes mas na verdade se refere aos homens, pois a “coisa morta” significa o ser humano como pecador.

    Quanto à recusa em levá-los ao altar por irem ao sacrifício mortos, há nisso uma ironia histórica: em respeito às leis da Igreja, hoje só eles se sacrificam. Ou não será sacrifício servir de repasto único, nestes dias, para matar a fome de toda a cristandade?

    O que não deixa de ser curioso é que a imagem do peixe sem vida, em vez de suscitar piedade, sirva para simbolizar o indivíduo sem fé. É uma “injustiça” com o animal que, de início, aparecia como um signo da autêntica vivência cristã.  

    Deixo aos doutos a tarefa de elucidar essa aparente contradição. Por enquanto, limito-me a pedir mais respeito com os peixes. Certamente ficamos indiferentes ao seu sofrimento porque, ao contrário dos outros bichos, eles ao serem mortos não gemem, não berram nem clamam com o olhar. Mas isso não significa que sofram menos.

    Enfim, já que o momento é de piedade cristã, façamos por eles uma prece silenciosa. Nem que seja para agradecer a boa digestão.

  • O aniversário

    Cinquenta anos de idade. Meu presente mais-que-perfeito. O presente que estou me dando. Meio século de vida. Por que comemorar meu aniversário? Estou um século mais velho. O que é que eu tenho para comemorar? Cinquenta anos ou apenas um ano? Faz menos de um ano que eu nasci. Faz mesmo?

    Crescem as dores nas juntas, as rugas, os cabelos brancos. Os dentes apodrecem, o espírito apodrece. A idade pesa nos ombros, a idade tem o peso de um túmulo. Que quero eu da vida? Nada. Dizem que nasci ontem. Mas nasci velho. De repente me descobri velho.

    Quando eu era mais jovem, um homem de cinquenta anos era um velho. Quando cheguei aos quarenta, me senti jovem: a vida começava aos quarenta. Envelheci de repente. Envelheci, sem mais nem menos.

    Nasci ontem? Renasci, depois de um acidente besta. Voltei velho. Voltei estranho. Sou um estranho no ninho. Vegeto ou pouco mais que isso. Me importa o prazer. Boa mesa, boa cama. Sem grandes sonhos. Sem sonhos, existo. Não tenho planos. Quero existir enquanto existo. Não temo o futuro. O futuro não existe. Quero o aqui e o agora. Sem muita determinação.

    Ficam abolidas todas as frustrações. Ser e não ser se dão as mãos. Quais os problemas a resolver? Nenhuns. La nave va. Não tenho problemas. Não vou a lugar nenhum. Não conheço a verdade. Não estou interessado em verdade nenhuma. Quem é o dono da verdade? Matem-no. Ou não o matem. Dá na mesma.

    Olho no espelho e não me encontro. Quebro o espelho. Pelo prazer de não me encontrar em caco de vidro nenhum. Talvez as estrelas se reflitam nos cacos de vidro. Os homens quando morrem, morrem. Tanta gente morta, tantas cruzes à beira do caminho, cruzes anônimas. Tantos amigos, conhecidos, parentes: esquecidos. Vira a página e esquece. A vida é isto: esquecimento. Nenhum dia a mais senão o olvido. Põe uma pedra sobre tudo que passou. Se passou, já não é. Escreve na areia as ofensas, as dores, os prazeres da vida. Tudo passa. Scripta manent: não escreva nada. Por que escrevo? Tantos despropósitos na vida. Quero viver este momento inútil. Escrevo por desfaçatez. Talvez eu deva isso a alguém. Mas não quero pagar dívida nenhuma. Escrevo por escrever.

    Quero viver todos os momentos inúteis que me forem dados. Morrer quando me for dado morrer e desta vez que seja para sempre. Não sou melhor nem pior por isso. O mundo não é nem melhor nem pior por isso. Não sou mais feliz ou infeliz. Ou talvez seja. Talvez eu procure alguma coisa, talvez eu tenha encontrado. O vento me dá na cara neste momento e eu sinto prazer. Os valores estão mudados: sinto prazer. Sinto prazeres mínimos e enormes e me sinto bem.

    Talvez seja necessário dizer isso, para mim mesmo. O resto do mundo? Que se dane. Não posso salvar a humanidade. Não sei se a humanidade quer ser salva. Não sei o que é salvar a humanidade. Existo, mais nada. As dores do mundo? Não posso mais sofrer. Todas as dores humanas, toda a grandeza e miséria humana já não me pertencem. Peço desculpas. Ou não peço, saio de fininho como quem já morreu. Talvez eu já tenha morrido.

  • Trama subjetiva nas mentes!

    O poder político mantém certas ideias para gerir uma nação, desenha caminhos fartos de opções no cotidiano do povo, que está à espera de sua colaboração e sustento. 

    O poder da biologia carrega em suas raízes a capacidade de escrever a data de seu velório. 

    O poder espiritual, sustenta a igreja com certas regras e posturas limitadas pela fé, diferenciado substancialmente com espírito e alma aos pés de sua prole. 

    Carrega a eternidade como salvação das almas e mantém o religioso atento às esperanças de paz no céu após sua partida. 

    Como entender o predomínio de um poder que tal data manda, tal povo, tal decisão e aspirações, se os propósitos parecem distintos e as forças diferenciadas? 

    No tempo de Milcíades, um jovem General Helenico que comandou a vitória sobre os Persas no mundo mediterrâneo, ignorava-se a existência do mundo extremo-oriental, e o poder exercido em tal época não tomava conhecimento de absolutamente nada mais, além da poderosa Atenas, maior potência da antiga Grécia. 

    Esse isolamento vaidoso, transformou esse general soberbo em um derrotado, e preso, ao final malogrado. 

    De maneira similar faziam os guerreiros de Atenas, para suas mulheres. 

    Elas Teceram para seus homens, soldados, ausentes além da morte, dedicadas aos filhos e sustento da família. Subservientes a supremacia masculina, talentosas, entregaram suas vidas e desejos ao se dedicarem exclusivamente as lides domésticas, a servidão sexual, a procriação, para alimentar a guerra, e por isso sofreram suas perdas.

    A Grécia Antiga não era uma nação, mas sim um conjunto de cidades-estados cujos povos possuíam algumas características em comum, como a semelhança linguística, por isso foram chamados genericamente de gregos. 

    Porém, ninguém jamais exerceu tanto poder na terra quanto a soberania da opinião pública, que é a força radical, e que produz, nas sociedades, o fenômeno de mandar e descobrir o que é verdadeiro.

    A verdade é algo instável, resultado de uma negociação, porque a história é contada com a versão de cada narrador, e o poder é a questão central de nossa existência, é a maneira como estamos dispostos a aceitar o valor de certos discursos contra outros. 

    E isso depende de quem está falando, se é poderoso, homem ou mulher, branco ou negro, sempre irá exercer uma trama subjetiva nas mentes do povo, que se mantém na expectativa do próximo passo, que o leve a redenção. 

    Além da morte, não sabemos ao certo o que é verdade, apenas até o seu momento.

  • A alternativa

    É uma cena que há tempos se repete, desde o dia em que meu pai anunciou que tinha perdido o emprego e minha mãe o abraçou dizendo: “Nós havemos de encontrar uma alternativa”  toda sexta-feira, no meio da tarde, o homem de chapéu, terno e gravata toca a campainha e eu abro a porta. Ele sorri, passa a mão no meu cabelo e me entrega o chapéu, que coloco no cabideiro com cuidado. Nas primeiras vezes minha mãe fazia um sinal com a cabeça e eu saía da sala. Agora, com o hábito, não preciso mais do sinal. Vou para meu quarto sozinho e fico lá em silêncio. Faço os deveres da escola, brinco no videogame e coloco peças novas no quebra-cabeça. Duas horas depois, escuto quando o homem se despede e em seguida o barulho da porta da frente se fechando. É quando saio do meu quarto e vejo minha mãe indo para o banheiro tirar o batom e lavar o rosto com sabonete. Ela passa por mim e diz que vai fazer meu lanche.

    Na cozinha, minha mãe canta uma música junto com o rádio enquanto prepara meu chocolate quente e me pergunta se fiz a lição. Vejo que ela esconde o dinheiro no meio do livro de receitas. Logo depois chega meu pai, cansado de andar o dia todo à procura de emprego. Ele me dá um beijo e pergunta se já terminei os deveres. Também beija a minha mãe no rosto e ela avisa que o jantar ficará pronto em dez minutos. E em dez minutos a família está reunida em volta da mesa. Conversamos sobre qualquer coisa, sobre coisa nenhuma, sobre o tempo, sobre como está gostosa a comida, sobre a nota que tirei em matemática, sobre os preços que não param de subir, sobre o desemprego que a cada dia aumenta mais, sobre a necessidade de se arranjar alternativa para ganhar dinheiro nesse tempo de crise.

    Amanhã é sábado e meu pai vai ficar em casa o dia todo. Talvez ele me ajude a terminar o quebra-cabeça. E sei que minha mãe vai continuar tricotando o meu pulôver novo de lã, porque o inverno está chegando e o único agasalho que tenho já está esgarçado.

  • A fuga

    Um caminhão passou por cima de mim, depois da notícia dada por Flávia, minha filha. Ela veio bem cedo à minha casa, enquanto preparava o café, e disse que Murilinho tinha desaparecido. Minhas pernas tremeram, mal pude ficar em pé – fui colocada na cadeira, segura pelos braços, como uma velha coroca. Sentei-me por alguns segundos, recobrei as energias e corremos para sua casa, logo acima da minha. Como Murilinho poderia escapar, de uma residência toda gradeada e telada? Alguém teria feito essa maldade? Saímos pelas ruas gritando. Seu Nonato, nosso vizinho, que estava na porta varrendo, perguntou que alvoroço era esse: “não estou entendendo nada”. Logo ele também se pôs a buscar o Murilinho como podia, com as suas avarias nas costas. Na verdade alardeava mais do que buscava o menino, com o seu jeito expansivo, ou mesmo amalucado. Certo é que não ajudou em coisíssima nenhuma. Murilinho, preciso dizer, é muito querido por todos, por ser educado e comunicativo; um menino de ouro. Flávia já estava exausta de subir e descer as ruas. Eu não tinha o seu pique, e fiquei caminhando pelas ruas laterais. Dona Enedina disse que viu um menino brincando com um gato. Ora, Murilinho é apaixonado por bichos, só podia ser ele. Dona Enedina disse não ter vislumbrado muito bem se era Murilinho, mas sabia que não era menino de rua. Murilinho fora educado para ficar nas quatro linhas da casa. Nunca saiu sozinho, com seus seis anos de idade. Vale dizer que Murilinho era um menino que vivia de casa para a escola, e em poucos momentos curtia a rua, sempre ligado à mãe ou à avó. Por isso todos estavam apavorados. Seu Francis, o dono do bar, homem de poucas palavras, disse que tinha visto um menino correndo atrás de um gato ou um cachorro. As informações se encontravam, e davam conta de que Murilinho não estava muito longe. Talvez alguém tenha tentado chamar a sua atenção, mas o menino, portador de autismo nível um de suporte, não dava muita bola às pessoas desconhecidas. O certo é que Flávia e outros moradores chamaram os bombeiros. O risco é de que o menino tivesse se embrenhado numa mata que fica perto de onde moramos. Os bombeiros foram muito diligentes. Primeiro perguntaram como eram as características do menino – que mal Flávia conseguia responder, chorando; então tive de intervir –; se ele era acostumado com o local; se brincava sempre ali; se tinha amigos etc. Os bombeiros fizeram a ronda, durante seis horas, entrando na mata densa. Depois de um longo período, voltaram com um menino no colo. Era Murilinho, chorando muito! Ele trazia um gatinho nas mãos. Não tivemos coragem de jogá-lo fora, já que o bichano parecia muito afeiçoado ao menino. Hoje criamos o bichano fujão, mas ficamos alertas quanto aos passos de Murilinho, que, pelo visto, tem medo de sair de casa – a experiência não foi muito boa.

  • Afinal, quem serve quem?

    Ninguém está aqui para nos servir. As empresas de ônibus, os garçons de restaurantes, o moço do guichê do metrô, o barman — todos parecem estampar nos olhos a mensagem: “você trabalha para mim”.

    Por esses dias, um grande amigo veio a BH passar uns dias. Depois dos compromissos que tinha por essas plagas mineiras, fomos a um shopping tomar um café. Meu amigo, assim como eu, não se furta ao prazer de, junto de um cafezinho quente e fumegante, comer uma saborosíssima torta alemã — ou holandesa — com direito aos biscoitinhos, que geralmente vêm de brinde.

    Fomos ao primeiro piso, onde há uma famosa loja de chocolates, ambiente convidativo, mesas e — claro — o mais importante: a torta. Foi quando, ao chegarmos lá, vimos uma variedade imensa de tortas, cujo preço não era nada em conta. Mas, ao perceber que precisava fazer o pedido naquelas máquinas de autoatendimento, meu amigo perdeu a calma:

    “Ah, agora sou eu que trabalho pra eles.”

    E fomos embora.

    Alguns dias, penso que o mundo ficou mais fácil em muita coisa. Ninguém passa, hoje, pelo perrengue de chegar ao restaurante e a garçonete não ter troco — ou, em alguns casos, ter que tirar do próprio bolso o dinheiro que um freguês levou a mais. O Pix, o cartão de crédito ou débito resolvem tudo. Agora, uma verdade preciso reconhecer: ninguém mais quer servir ninguém.

    Você vai até o balcão, faz seu pedido, o pager vibra, você retira o pedido. Em alguns casos, depois de comer, um garçom recolhe a bandeja, os pratos, a xícara; em outros, você mesmo faz isso. Em situações assim, o bandejão e a cafeteria se igualam — com a diferença de que, na cafeteria, você paga o triplo do preço, trabalha pra eles e ainda sai se sentindo chique.

    Ao que me parece, comer fora de casa perdeu um pouco do prazer, do gosto.

    Certo dia, ali na região da Savassi, fui a uma loja de cookies — desses que, dizem, a gente come rezando. A empresária era jovem, uns trinta anos, mais ou menos, fazia cookies de todos os sabores. Ao perguntar se ela entregava em casa, respondeu:

    “Entregar a gente não entrega, sabe? Mas deixa disponível, caso o cliente queira contratar um motoboy.”

    Ou seja, o freguês ainda tem que contratar um motoboy.

    Sim, eles querem que a gente trabalhe pra eles. E, em alguns casos, a gente aceita.

    Ao sair de casa, tudo o que quero é o prazer de comer em boa companhia, dar boas risadas, ter uma conversa sem me preocupar com pager vibrando, buscar bandeja, recolher louça.

    Sem contar que idosos e gente simples nem sempre se viram bem com máquinas de autoatendimento. Dá vontade de gritar:

    “Tirem esses monstrengos do caminho. Minha vida precisa de mais sabor.”

    O sabor de uma boa companhia, de um papo olho no olho. Afinal, se a pessoa quisesse se autoatender, comeria em casa: fritaria biscoitos, faria uma broa, passaria um café quentinho.

    Mas, naquele dia, a gente não quis. Saiu pra bater perna, subiu para o piso seguinte e — adivinhem — encontrou um quiosque, uma cafeteria com garçons e garçonetes servindo todo mundo, com um sorriso e muita gentileza.

    Peguei uma torta holandesa, ele pegou outra. Pedimos uns cafezinhos quentes. E os biscoitinhos de brinde, claro.

    Aí, finalmente, pudemos colocar a conversa em dia, matar a saudade — tudo o que dois amigos querem.

    Quando a gente vence a preguiça, anda mais um pouco e encontra um lugar melhor, descobre que ainda é possível desfrutar a vida com muito mais prazer.

  • Crop Circles

    Tinham show às dezessete horas em Hortolândia.

     Chegaram cedo na cidade, apesar do trânsito caótico dentro do Complexo Metropolitano expandido.  

    Era uma festa particular, uma espécie de quermesse organizada por jovens locais, amigos de Mila Cox.

    O local era uma casa com pouca área construída em um terreno bem grande em meio a um grande descampado.  

    A proprietária era uma agitadora cultural de Sumaré, que usava aquele imóvel para promover festas com apresentações musicais.

    Era o primeiro show dos Crop Circles que o novo amigo Silvano acompanharia de perto. Ele nunca tinha visto ao vivo uma banda sem guitarrista.

    Abririam para a banda Random Clowns, que iria estrear o novo baterista.  

    Eram amigos de MIla Cox e Zími, e faziam em seu trabalho uma poderosa sátira social, retratando a sociedade como um circo mambembe de horrores. O som era um hardcore que não fugia do comum, mas eram bons ao vivo.

    Muita coisa aconteceu naquela tarde para Silvano, antes que Mila Cox, ao subir ao pequeno palco e depois de avistar alguns curiós com camiseta da CBF na plateia, estimada em cento e vinte pessoas, abrisse o show avisando que ele e Zími não tocariam “Simple Man” e nem “Hotel California”.  

    A figura daquela garota que parecia ainda mais jovem por empunhar um imponente Fender Jazz Bass azul, parecia impressionar boa parte do público.  

    Dali em diante, pelo menos para Silvano, começava o segundo tempo do rolê.

    Durante uma hora e dez minutos de show, os dois pareciam ser outras pessoas que não aquelas que o uruguaio Silvano conheceu como vizinhos de prédio no centro de São Paulo.

     Uma hora de um esporro sonoro tão estridente, que era difícil acreditar que era produzido por um tiozinho de meia idade tocando um kit minimalista homenageando Slim Jim Phantom e uma jovem de dezenove anos tocando baixo e um teclado de churrascaria e um monte de pedais.. E sem guitarra.  

    Era um alívio para eles quando o show terminava e ainda havia outra banda para tocar.

    O momento em que se juntavam ao público depois de tocarem, podendo assistir à outra banda, fumando e bebendo, proporcionava um sentimento difícil de explicar, algo que envolvia sensação de missão cumprida e de fazer parte de uma iniciativa que mobiliza jovens para ficar, pelo menos por algumas horas, longe do popularesco acintosamente imposto a todos eles.

    Os episódios bizarros envolvendo gente deselegante eram um risco tão iminente quanto um pneu furado ao longo do rolê.

    Depois de um show em Americana, no fim de semana anterior, um sujeito com chapéu e camiseta da CBF, bêbado, perguntou a Mila Cox se o sintetizador que ela usava tinha vindo gratuitamente com a compra de um pirulito.

    Ela logo descobriu que ele era conhecido no lugar, porque era um playboy local, que tomava muito bullying porque na infância teve babá e motorista.

    Dessa vez, Silvano podia ver da lateral do palco que Zími havia superado o pavor diante da possibilidade de dormir a próxima madrugada no carro, no caso de agendarem ali mesmo, após o show, uma nova apresentação para o dia seguinte, em outra cidade nos arredores.

    O dia seguinte era domingo, e quando havia show, era marcado para a tarde, então havia pouco tempo para repetir o esporro estridente.

    Zími explicava para Mila Cox que ele aguenta o rolê da mesma maneira que ela, mas que por ter trinta anos a mais, a recuperação é mais lenta. Ele jamais a decepcionaria nesse ponto.

    Àquela altura da vida, ele procurava ficar longe de drogas e álcool sempre que possível, mas ele bebia muito nessas gigs.  

    Pouco antes de chegarem a Hortolândia naquele dia, passaram num alambique local, descoberto por Silvano, na internet, na noite anterior.

    Então lá estavam às oito da manhã. Havia cachaças de muitas cores, e determinado a experimentar todas, Zími começou a tomar amostras oferecidas pelo proprietário, feliz pela satisfação do cliente, mas espantado com o fato de Zími ter um show naquele dia.

    À essa altura, Silvano só faltou chorar para que ele parasse de beber. Zími tomou onze copos de pinga, uma de cada cor, e apenas dormiu no carro por duas horas, levantando a seguir e tomando uma lata de cerveja comprada numa padaria de Hortolândia.

    O preço era atrativo, e compraram seis garrafas de aguardente, de cores diferentes.

    Pelo menos, o fato de serem um duo ajudava na logística desses rolês em que há pouco a perder. Sabiam que não haveria grandeza onde não houvesse simplicidade.

    Costumavam viajar no Chevette Jeans 79 de Mila Cox, mas dessa vez foram na Kombi de Silvano, com ele dirigindo. Ele tinha uma Kombi porque fazia carretos para complementar sua renda de investidor.

    No percurso, muitas piadas sobre a banda estar se estruturando, sendo que Zími perpetua um sentimento especial pelo amadorismo. Para ele, aquilo era uma forma de estar vivo e distinto de seus amigos que beiram ou que chegaram aos cinquenta anos e que, por múltiplas razões, não podem mais se lançar nesse tipo de atividade.

    Para Mila Cox, de dezenove anos, um show marcado no fim de semana era uma necessidade vital urgente. Planejava entrar na faculdade apenas depois de começar a consolidar seu projeto musical, no sentido de trazer ao seu som uma identidade que ela vê em artistas como Jane’s Addiction e Peter Gabriel, em seus três primeiros álbuns solo.

    Haveria inúmeros outros artistas que poderiam ser citados por ela, por conseguiram, da forma que ela deseja, imprimir identidade própria à música, mas esses mencionados foram mais ouvidos na semana que antecedeu o show de Hortolândia.

    Ela também era muito adepta do ‘faça você mesmo’, e contava com o vigor da juventude para tomar iniciativas que Zími deixaria de lado facilmente, como conversar em redes sociais para divulgar a banda e ir atrás de lugares em que pudessem tocar.  

    Eram tão fascinados pela loucura um do outro que o surgimento de Silvano parecia dar equilíbrio, ao admirá-los sem necessariamente entendê-los o tempo todo.

    A ideia primordial era que mesmo com os gastos com gasolina e comida, eles tivessem algum retorno financeiro, para que ao menos não tivessem que pagar para tocar.

    Naquele dia em Hortolândia, Silvano era responsável pela venda do merchandise, que daquela vez se tratava de um pacote com vinte e cinco cd’s que compilavam todos os singles que eles lançaram na internet até então.

    Conseguiu vender todos, e segundo ele, sem tanta demora. Teriam dinheiro pra comer e encher o tanque para voltar a São Paulo.

    Mas Silvano estava tão bêbado logo após o show dos Ramdom Clowns, que Mila Cox sabia que teriam que encontrar um posto de gasolina para estacionarem e dormirem.

    Depois de seu show, ela tomou dois copos de uma cachaça de abacaxi que compraram no alambique e aquilo foi o bastante para embriagar seus cinquenta quilos de corpo e então não tinha qualquer condição de dirigir na estrada, principalmente num carro que não era o dela. E ainda mais sendo uma Kombi.

    Quando metade das pessoas já tinha ido embora, ela viu Zími Sentado na caçamba de uma caminhonete, conversando com Jarbas, o vocalista dos Ramdom Clowns.

    Cada um segurava uma garrafa de cachaça colorida que compraram no alambique na manhã daquele dia. A garrafa de Zími era uma cachaça com menta e a de Jarbas era de coco queimado.

    Estavam apostando quem aguentava beber mais. A caminhonete estava a duzentos metros de Mila Cox quando ela os avistou. Até que se aproximasse, Jarbas já estava em péssimo estado, entregue, encostado na lateral do veículo.  

    Zími parecia bem, considerando o dia que ele teve.

    Falava que Vargas Llosa era gênio das letras, mas que fracassou miseravelmente como revolucionário.  

    Estavam na rua em frente à casa da festa, e ali pairava a certeza de que nada, exceto a falta de um banheiro, atrapalharia uma noite de sono na Kombi de Silvano, que estava a cinquenta metros de distância deles

    Apesar da festa estar no fim, ainda havia cerca de quarenta pessoas na casa, e um estoque de cerveja sem fim.

     Mila Cox ficou amiga de uma garota que havia levado sanduíches naturais para vender, o que sanou o problema da alimentação.

    Dormiram na Kombi, mas dessa vez acordaram sem ter show marcado para aquele dia. 

     Foram até uma pequena padaria, especialmente por causa do banheiro limpo que havia ali, e beberam muito café com bolo de fubá até onze da manhã.

    Silvano parecia recomposto para dirigir de volta para casa, mas teve que ouvir uma breve e seca repreensão de Mila Cox por causa do jeito que olhou para a garrafa de cachaça de amora que Zími tinha na mão, mas ainda não havia aberto.  

    Entraram na Kombi e partiram de volta a São Paulo.

    Silvano foi dirigindo e estava sozinho na frente, fumando maconha e falando sem parar.

    A Kombi tinha toca fitas e ele colocou uma fita dos Los Shakers, que tocou até que chegassem na garagem do prédio.

    Zimi bebia a cachaça de amora e Mila Cox olhava pela janela.

    Os deuses em que acreditavam eram suas próprias consciências, e nada era pior do que ser tarde demais.

  • Poema #62: Pra encerrar e recomeçando

    mandei uma mensagem
    acabando com tudo
    que não havia. tranquei
    o portão de entrada para
    que nada entrasse além da
    minha covardia. joguei
    a toalha como quem se
    despede da vida e talvez
    não devesse ainda: era cedo e
    tarde demais ao mesmo tempo.
    fiquei com o meu corpo deitado
    no chão da cozinha doendo sem
    alma e sendo apenas, nada mais
    e nada menos, que um obstáculo
    ao percurso das formigas.

    O Jardim Simultâneo

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