Crônicas Cariocas

  • Arca em regime fechado

    Como se não bastassem os quarenta dias de dilúvio, ainda teve o Pandê.

    Consta que tudo começou com um morcego infiltrado — desses ressentidos — que embarcou sem autorização enquanto Noé se distraía organizando a fila dos puros e impuros. As corujas, sempre oportunistas, deram cabo do invasor. Tarde demais.

    Instalada a contaminação, veio a ordem: isolamento imediato. Cada casal no seu quadrado. Sem visitas. Sem circulação. Sem desculpas.

    E assim começou o verdadeiro dilúvio.

    No papel, a Arca comportava todos. Na prática, nem tanto. Sobrava espaço para os coelhos (desde que fingissem bom comportamento), faltava para elefantes e rinocerontes. As reclamações se acumularam na porta de Noé até serem diplomaticamente abafadas pelo casal de corvos, especialistas em crises e carniça.

    Resolvido o espaço — ou fingido que — veio o problema real: convivência.

    Cento e cinquenta dias. Vinte e quatro horas. Sempre o mesmo par.

    Dividir ração, ar, silêncio, mau humor. Decidir quem limpa, quem cede, quem respira primeiro. Um experimento ousado: juntar dois seres diferentes num cubículo e chamar isso de harmonia.

    Deu muito certo. Claro.

    Os leões, por exemplo, entraram em colapso narcísico. Sem plateia, a juba perdeu o sentido. Passaram a competir diante do próprio reflexo: quem já foi mais admirado. Pequeno demais o espaço para tanto ego.

    Os elefantes transformaram a escassez em campo de batalha. Ela, ansiosa, comia por dois e justificava pelo confinamento. Ele, inflado de si, ameaçava abandonar o barco na primeira oportunidade. Trombas voaram. Gritos ecoaram. E, curiosamente, para os vizinhos, ele seguia sendo um exemplo de parceiro dedicado. As paredes afinam tudo — menos a aparência.

    As raposas optaram pela sutileza. Ela, doce como mel envenenado, sempre “sugerindo” que fosse servida primeiro. Ele, concordando — enquanto uma voz interna gritava o óbvio. Mas educação é isso: perder espaço com elegância.

    Já as gralhas aboliram qualquer protocolo. Brigavam alto, sem filtro, revisitando cada desavença desde o início dos tempos. Minutos depois, trocavam juras eternas. Um espetáculo completo, com direito a reconciliação.

    Para quem assistia, melhor não escolher lado.

    E os bodes — ah, os bodes. Permaneceram fiéis à tradição: chifradas por qualquer motivo. Porta, feno, respiração inadequada. Constância é uma virtude.

    Noé, dizem, passou a evitar os corredores.

    Moral da história: com ou sem dilúvio, cada um vive confinado na própria Arca.

    O problema não é o casal que você escolhe. É o bicho que você insiste em achar que não é.

  • Crônica sobre uma foto: a estação rodoviária

    Organizando algumas caixas no armário, umas com papel sem importância ou importância pouca e burocrática — notas de cartão de crédito, documentos, tíquetes de estacionamento —, deparei-me com algumas fotos antigas. Fotos do tempo de eu-menino, como diria Manuel Bandeira. Mas não era Pasárgada, não. Era São Roque, cidade do interior de São Paulo.

    É… O cronista que agora tece esta crônica morou um bom tempo em São Paulo. Precisamente no interior: Cachoeira Paulista, Guaratinguetá, Cruzeiro, Lorena, Itapeva, Sorocaba, São Roque. Uma cidadezinha de pouco mais de 60.000 habitantes. Tempo de eu-menino. Mas mãe-d’água não me chamava. Chamavam-me os amigos, a poeira, as brincadeiras e o sol.

    Uma das fotos era da antiga estação ferroviária. Paredes amarelas e telhados vermelhos. Quantas corridas foram feitas sobre os trilhos… Parece que sinto agora o calor do trem! Quantas pedras jogadas de um lado para o outro. Algumas, as pequenas e pontudas, jogadas uns nos outros. E as conversas? O campeonato de futebol (e a briga era grande, porque cada um torcia para um time diferente e achava que o seu era o melhor), a menina de olhos verdes. Eu não lembro o seu nome, mas lembro dos olhos: olhos verdes! As incontáveis histórias da escola.

    É… Uma foto faz lembrar tanta coisa! O tempo parado, como se fosse nosso. Como se pudéssemos pegá-lo com as mãos, agarrá-lo à força. O tempo tem vozes! As vozes, todas elas, guardadas num pedaço de papel. E chego a escutar algumas: “Olha a pedra!”, “Aposto que eu ganho de você!”, “Até perto da cachoeira!”.

    Não sei o que fazem ou por onde andam alguns desses intrépidos personagens das minhas lembranças. Não sei. Sei que sinto saudade.

    Não vou embora para Pasárgada, entretanto. Quando relembro um tempo, relembro a mim, e a viagem que faço é inesquecível!

    Tempos de eu-menino…

  • Sertanejo Universitário

    “Ô saudade que eu tava da vida de cachorrada, da vida de putaria” — (Gusttavo Lima)

    Quando ouvi pela primeira falar em ‘sertanejo universitário’, a ideia que me passou pela cabeça é que se tratava de uma versão mais elaborada do sertanejo ‘mainstream’ que dominava o mercado, também conhecido como ‘sertanejo romântico’, de duplas como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo e Zezé di Camargo & Luciano. O adjetivo ‘universitário’ sugeria, um refinamento estético, algo que teve precedentes com outros estilos musicais populares – como o antigo ‘brega’ e a ‘jovem guarda’ – que, ao dialogarem com públicos mais exigentes e escolarizados, sofreram releituras. Exemplos: Caetano interpretando Peninha e Adriana Calcanhotto reinventando Leno & Lílian.

    Fiz uma associação (que se mostrou indevida) com o chamado “forró universitário” dos anos 90, uma derivação do forró ‘pé de serra’ de nomes lendários como os de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, conferindo ao ritmo um toque mais pop e urbano, porém sem causar uma ruptura em sua base rítmica, centrada no trio sanfona/zabumba/triângulo e sem romper com seu contexto simbólico, ligado ao cotidiano nordestino.

    Para entender melhor esse processo, é preciso recuar um pouco. O sertanejo original (rebatizado de ‘sertanejo raiz’) estava ligado à figura do homem simples do interior (estigmatizado na figura do Jeca Tatu) e à sonoridade da viola caipira. Duplas como Cascatinha & Inhana, Tião Carreiro & Pardinho e Pena Branca & Xavantinho são frutos dessa linhagem que manteve os traços da cultura pura do campo.

    A partir dos anos 80/90, o gênero passou por uma transmutação significativa, incorporando a guitarra elétrica, sofrendo influência do pop internacional e adotando padrões inspirados no country norte-americano como o uso de chapéu e figurino de cowboy A ênfase a temas românticos, propiciou-lhe grande sucesso de vendas. Canções como “É o Amor” (Zezé & Luciano) e “Evidências” (Ch & X) marcaram essa fase.

    Foi nos anos 2000 que desponta o tal sertanejo universitário que, diferentemente do forró universitário, renegou a essência do ritmo que lhe deu à luz. Nada tem a ver com o estereótipo do homem do interior, sua religiosidade, seus valores simplórios, sua aparência humilde. Em seu lugar, surge o machão individualista, endinheirado, trajado com roupas de grife, jaquetas de couro e penteados estilosos. Visava atingir um público mais ‘descolado’, conectado em novos padrões de comportamento. Para tanto, lançou mão de teclados, sintetizadores e estruturas rítmicas mais dançáveis para seduzir frequentadores de baladas.

    O termo ‘universitário’ revela-se ambíguo. Ao contrário do que poderia sugerir, não indica um salto de sofisticação estética, apenas uma estratégia de marketing, um rótulo para fascinar um público mais jovem, urbano e ambicioso em ascender socialmente, inclusive através de formação acadêmica. A explosão do número de faculdades, sobretudo privadas, gerou uma enxurrada de formandos, orientados mais pela lógica de mercado do que pelo rigor acadêmico. Essa mudança de perfil ocasionou um reducionismo de repertório e um menor senso crítico. Esse crescente contingente ‘universitário’ foi capturado pelos neosertanejos que lhes ofereciam produtos de fácil assimilação, compatíveis com suas demandas.

    Os representantes do estilo gostam de embalar sua trajetória exitosa na retórica da meritocracia, atribuindo a ‘bênção’ do sucesso a seu pretenso talento. Com isso, constroem a imagem de quem ‘venceu na vida’, desfilando envaidecidos nos palcos como nova elite econômica do entretenimento. Amparados por uma presença digital massiva, convertem a popularidade em negócio, diversificando as receitas com marcas próprias e publicidade, incluindo apostas esportivas (bets), sem contar os cachês milionários.

    Em termos artísticos, o sertanejo universitário, apesar do título pretensioso, deu um passo atrás em relação ao sertanejo romântico. As melodias tornaram-se ainda mais previsíveis e sem inspiração, as letras frívolas tratam de relações afetivas descartáveis, exaltação à farra e à bebedeira, reservando à mulher o papel de objeto sexual.

    Apesar de exibir invejáveis números no streaming, o subgênero não adquiriu relevância. Os críticos torcem o nariz para ele. São canções banais, sem criatividade, com prazo curto de validade, que não permanecem na memória afetiva. Para aqueles que concebem música como manifestação artística, o sertanejo universitário representa uma completa decepção para um país que possui diversidade rítmica e riqueza melódica que se tornou referência internacional.

    Sua expansão, ao contrário do que se imagina, não brotou espontaneamente do gosto popular, mas de uma portentosa engrenagem de impulsionamento financiada pelo agronegócio que ganhou peso com a crescente importância dessa atividade da economia do país. Isso explica a hegemonia do ritmo na programação das emissoras de rádio, sobretudo do interior. Shows, feiras agropecuárias e rodeios bancados por pequenas prefeituras, controladas por políticos vinculados ao agro, ajudaram a bombar o gênero.

    A forte ligação com o agro traduz-se na esfera política a alinhamento a valores conservadores. Diferentemente de outros segmentos artísticos, parte expressiva do sertanejo está fortemente vinculada ao bolsonarismo, não raro manifestado em suas preferências políticas. Embora acusem astros como Anitta, Pabllo Vittar, Caetano e Gil por pretensamente usarem recursos da Lei Rouanet, levantamentos demonstram que os 10 maiores beneficiários de recursos públicos provêm todos do mundo sertanejo, liderados por Gusttavo Lima, e Bruno & Marrone.

    Dominante no cenário nacional, o gênero encontra resistências como em capitais do Norte/Nordeste como Recife e Belém, onde prevalecem ritmos regionais, e sobretudo no Rio de Janeiro, território livre do sertanejo, onde o ritmo ocupa um modesto 6º lugar na escala de preferência, atrás de MPB, samba/pagode, gospel, rock e funk. Também no exterior, mesmo em países vizinhos, o estilo não pegou. Os gringos que se renderam à bossa nova e ao samba, não se deixaram encantar pelo lenga-lenga sertanejo e sua parafernália tecnológica.

    É comum também a comparação com o funk carioca. Ambos são populares, comerciais e criticados pelo teor sexual presente em suas letras. Mas há diferenças marcantes. O sertanejo, por trás de uma postura aparentemente pudica, promove condutas amorais e obscenas, enquanto o funk é premeditadamente chulo e insolente, refletindo o comportamento transgressor das periferias, ambiente de desigualdade e exclusão, tornando-se forma de expressão e pertencimento nesses territórios. Ademais, o funk não tem o suporte financeiro institucional de que dispõe o sertanejo. Sua ascensão nas plataformas de streaming incomoda o sertanejo que usa diversos expedientes para barrá-lo e desacreditá-lo. Apesar de o funk se sobressair nos rankings digitais, foi bloqueado nas emissoras de rádio por pressões econômicas (jabás). Os sertanejos ficaram mordidos com o crescimento do funk, com seu apelo sensorial que conquistou boa parte da juventude pela batida e pela dança.

    No fim das contas, o ‘universitário’ do sertanejo diz menos sobre universidade e mais sobre mercado. Representa, na prática, um flagrante empobrecimento artístico, levando os críticos, preocupados com a pauperização musical, a se perguntarem até onde vai o fundo do poço. 🗞️

  • Metamorfose

    A lagarta vira borboleta.
          Mas a borboleta não volta a                  ser lagarta. 

    Existem as boas mudanças e aquelas diante das quais exclamamos: eu achei que não podia piorar!

    Quando mais jovem ouvi a expressão:

    A mudança é a única constante da vida.

    Adquirimos novos gostos, costumes, amores, desafetos, casas, amigos, opiniões e o que mais quisermos, ao longo da nossa vida.

    Sem perceber… mudamos.

    É bom?

    Depende do ponto de vista.

    Os pais acham ótimo ver os filhos tendo alterações tanto físicas quanto intelectuais.

    Os filhos nem sempre simpatizam com a mudança dos pais. Percebem quando se tornam mais exigentes, mais críticos, e até mais audaciosos no modo de viver.

    Com o tempo, passamos a notar melhor esse movimento, às vezes discreto, às vezes inevitável.

    Embora não haja um instante exato em que algo se desloca.

    Mesmo quando se diz ser apenas um ajuste às novas realidades.

    Essas chegam sem alardes, e se estabelecem.

    A pouca conversa dos jovens, o entrar e sair dos cômodos com os olhos presos ao celular, o “oi” dito por hábito. O que vivemos hoje é resultado de mudanças, pelo menos sob o olhar dos mais velhos. Para os jovens, nada está fora de lugar. Eles não mudaram.

    O mundo agora é outro.

    O tempo daquela adolescência barulhenta, risadas que animavam a casa inteira, a expectativa com os bailes, piqueniques, sessões de cinema, não existem mais. Em algum momento, se transformou. Sem alardes, nem anúncios. Apenas deixou de ser.

    Mudou.

    Para os jovens pais e seus filhos adolescentes, assistir a filmes sozinhos, conversar em grupos invisíveis, acompanhar vidas que cabem na palma da mão é muito natural. Saber o que veste e come determinado artista, ou alguém da mídia, pessoas que não fazem e nem farão parte das suas rotinas, das suas risadas, dos seus sonhos.

    Não é mudança, é o normal. E não incomoda. Não se sente saudade do que não existiu.

    Cada tempo entrega o que tem. Aos poucos, as pessoas vivem de outras formas, dançam outros ritmos, vivem novas distâncias.

    Nada se perde por completo. Mas também não permanece igual.

    E talvez seja isso o mais surpreendente: não é a vida que muda diante de nós, é o nosso olhar que se transforma dentro dela.

    Somos nós que mudamos, vamos nos tornando outros, enquanto ela segue.

    🌷
  • A aventura

    Com um sentimento de alívio pelo dever cumprido, Tarcísio depositou a última caixa na carroceria. O esforço solitário doía nos braços. Abriu a porta do lado do motorista, sentou-se ao volante e girou a chave. Passou os olhos pela lista de compras que segurava:

    — Na volta, você para lá no mercadinho do seu Vicente e me traz isso aqui. Vou fazer aquela carne assada recheada que você adora. A Rosa e o Jesuíno estão vindo almoçar amanhã e vão trazer o álbum de retratos do neto, o filho da Dorinha que nasceu no ano passado — informou Marlene, com seu jeito despachado, típico de quem sabe delegar funções.

    Distraído com a lembrança da captura dos porcos (como o menorzinho dera trabalho) e com o ronco do motor, Tarcísio esperou alguns instantes até dar a partida. Dali a pouco a caminhonete já deslizava cambaleante pela estradinha de terra batida que o levaria até o município vizinho. A viagem não seria tão longa, coisa de três quartos de hora, se tanto. Tarcísio e o veículo conheciam bem o trajeto, e isso facilitava as coisas. O rádio tocando forró ajudaria a encurtar o percurso. Quinze minutos após a saída, Tarcísio meteu a mão no bolso da camisa e não achou nada além da lista de compras preparada pela mulher. Estava sem cigarros. Por sorte, a birosca do velho Jerônimo ficava perto. Compraria os cigarros e ainda tomaria um copo de água gelada. Na porta do estabelecimento, encontrou Cícero, Chico, Zezito e Miguelzinho, os netos do proprietário, jogando bola de gude. Assim que viram Tarcísio, os garotos deixaram de lado a brincadeira e correram em sua direção, envolvendo-o numa roda barulhenta e agitada. Já dentro do bar, o homem acomodou-se próximo do antigo aparelho de TV, que exibia um sonolento programa de entrevistas. A imagem, cheia de fantasmas, vez por outra sumia por completo, tornando difícil o entendimento de grande parte da conversa. Ficou alguns minutos assistindo ao debate sem prestar muita atenção ao mesmo tempo que proseava amenidades com o velho Jerônimo. Retomado o caminho, percebeu que, daquele ponto em diante, as condições da estrada exigiriam velocidade reduzida. As chuvas da semana anterior haviam piorado a precária situação da via, e, em alguns trechos, o barro quase fazia a caminhonete atolar. Sem que Tarcísio tivesse se dado conta, Cícero e Zezito tinham se aboletado na carroceria enquanto Chico e Miguelzinho, a pé, tentavam alcançar os outros dois. Quando a velocidade diminuía, parecia que iam conseguir subir também. Então, mais uma vez, para decepção dos meninos, o veículo tomava impulso e os deixava para trás. Num trecho especialmente pantanoso, Chico cansou. De pé, estático, ficou olhando os primos seguirem adiante. Extenuado, abandonou o corpo e, num misto de lamento e decepção, caiu de joelhos, antes de se largar no solo, respiração ofegante, braços abertos em forma de cruz, corpo tingido de lama misturada com suor. Miguelzinho, por sua vez, seguiu em frente e, alguns metros depois, auxiliado por Cícero e Zezito, acabou subindo na carroceria também. Ao lado das caixas com os porcos, deitaram- se os três de barriga para cima olhando o céu. O sol do início da tarde iluminava-lhes o rosto. Os animais, a cada solavanco mais forte da caminhonete, guinchavam agitados, desejando sair do confinamento. Pouco tempo depois, a viagem se encerraria. Na fazenda do compadre Matias, Tarcísio se preparava para descarregar a encomenda quando notou a presença das crianças. Ameaçou dar uma bronca nos guris, mas, antes de abrir a boca, desistiu. Os quatro, então, puseram-se a descarregar as caixas. O último porco a ser libertado começou a se debater tão logo deixou o cativeiro. Furioso, correu atrás de Zezito com a intenção de atacá-lo. Antes que pudesse alcançar o meleque, o bicho foi atingido por dois tiros de espingarda disparados pelo compadre Matias. Morreu na mesma hora.

  • Zebras à vista na copa do mundo

    Estava passando em revista os 12 grupos da copa do mundo de futebol e conhecendo as 48 equipes. Um comportamento estranho, admito, porque nunca fui fã de copa do mundo, como atestam as pessoas que me conhecem. Verdade. Me entusiasmei mais com a copa do mundo de clubes, aquela do ano passado em que meu Fluminense surpreendeu a todos que não o conhecem, naturalmente.

    Visto isso, por que diabo queimei minhas pestanas conferindo quem vai participar?

    Porque eu adoro uma zebra. Sim, isso mesmo, o resultado menos provável. O vexame do time grande. Menos do meu, naturalmente. E como é copa do mundo, aí é um vexame que cruza fronteiras.

    Por isso, em nome do meu prazer mórbido de escutar a zebra relinchar nos gramados eis como avalio os grupos.

    Começando pelo grupo B seria lindo ver a Bósnia Herzegovina ou o Catar colocarem Canadá e Suiça na roda. No grupo C, que belo seria o Haiti dar um calor nos colegas de grupo, incluindo aí o Pentacampeão mundial. Mas só para descer do salto um pouquinho.

    E o grupo E? Já viram de onde galopa a zebra que pode tirar o sono da Alemanha? Curaçao. Isso mesmo, daquela ilha no Caribe que até bem pouco tempo conheço gente que achava que era só nome de bebida.

    O grupo H tem Cabo Verde que apesar de ficar na África, onde a turma aprecia o futebol, eles lá no arquipélago não têm muita intimidade com a pelota. Que a Espanha e o Uruguai mantenham os olhos abertos.

    No grupo I a zebra é a nórdica seleção norueguesa. Se a França e o Senegal cochilarem vão acordar no Valhala.

    O J tem a modesta Jordânia que pode aplicar mais um vexame a poderosa Argentina. Quem tem memória sabe que os vizinhos mais ao sul de nossa fronteira têm intimidade de sobra com a zebra.

    No K se tiver alguma surpresa ela virá do Uzbequistão. Mas ai, honestamente, espero que não porque o Cristiano Ronaldo é gente boa e não merece pagar mico em campo.

    E por fim, a última zebra que eu acredito que exista é o Panamá. Apesar de latino-americano eles parecem desconhecer a forma da bola. Pior para a Inglaterra se entrar em campo de nariz empinado.

    O grupo G tem o Irã, que não é azarão. Mas a torcida é para eles porque, afinal, desde o Vietnam ninguém dá um baile tão bonito nos EUA. Ou alguém discorda?

    Os grupos A e F são sem graça: nenhuma seleção candidata a azarona.

    E no grupo D honestamente não quero zebra. Para mim seria lindo ver o valente Paraguai, coadjuvante no cenário internacional, aplicar aquela goleada homérica nos donos da casa. Se alguém pensou em 7 a 1, tá bom, tá valendo.

    No mais, que o árbitro soe o apito.

  • Descasados

    Vez por outra o grupo se reunia para fazer um balanço da vida. Curiosamente, estavam todos sós. O assunto daquela noite foi a razão pela qual os casamentos falharam. (Euclides, o intelectual da turma, criou até uma frase que fez muito sucesso entre eles: “O casamento é um estágio desnecessário rumo à solidão”.)

    Primeiro falou Zuleide:

    – Me casei com um engenheiro. Deu errado porque ele queria mudar meus alicerces. Resisti, esbravejei, e da nossa relação não ficou pedra sobre pedra. 

    – Pois eu – explicou Valfredo – fui casado com uma jornalista. Ela era apressada e neurótica. Em nossos momentos íntimos, que eram raros, só pensava se a cobertura ia resultar num grande furo. Além disso, tinha medo de perder o emprego por causa de uma “barriga”. Terminei indo embora.

    – Meu caso foi pior – falou Osmar. – Casei-me com uma promotora. Vivia, claro, me acusando. Tudo que eu fazia era usado contra mim. Afastei-me – não havia outro recurso.   

    Foi a vez de Clotilde justificar o seu fracasso: 

    – Nestor era guarda de trânsito. No início tudo correu bem. Com o tempo, ele começou a reclamar de que eu não lhe dava mais bola. Dizia  que eu avançara o sinal, tinha outro, e devia ser penalizada por essa infração. Fui perdendo o respeito em casa, onde só ele apitava. Pedi o divórcio.

    E você, Nemésio? – quis saber alguém.

    – Ah, eu me casei com uma costureira. Nos primeiros meses éramos casa e botão. Com o tempo, ela foi perdendo a linha, e numa briga me furou com um alfinete. Antes que usasse a tesoura, resolvi me escafeder.

    Elogiaram a prudência de Nemésio. Uma tesoura provocaria danos bem mais graves… Foi Suênio quem interrompeu os comentários do grupo:

    – Minha mulher era psicóloga. Quando colocou um divã no quarto, pensei que era para nosso conforto – mas ela queria me analisar.  Descobriu que eu tinha uma série de complexos. Isso afetou de tal modo a minha autoestima que, quando ela estalava os dedos, corríamos eu e Totó. Eu já não sabia quem era, ou se era alguém. Saí da relação com uma bruta crise de identidade. Au…

    Mércia foi a próxima a falar:  

    – Meu marido era marinheiro. Passava três, quatro meses no mar, e quando voltava não queria içar a vela. Perguntei se ele tinha “outra”, ele respondeu que era quase isso; eu errara pelo gênero. Nunca pensei que essa fosse a praia dele! Também não fiz tempestade, e dissemos adeus numa boa.

    Faltava Doroteia, que não se fez de rogada:

    – Pois eu, pessoal, fui casada com um político. No início me encantei com o discurso cheio de promessas, mas logo descobri que era tudo demagogia. Mesmo em casa, ele só queria palanque. A gota d’água foi quando eu soube que umas tais reuniões para discutir emendas eram um eufemismo para os encontros com Cleonilde – uma de suas assessoras. Essa não tinha nada de “fantasma”, era mesmo de carne e osso. Sei bem disso porque na surra que lhe dei quebrei alguns.    

  • Os dois chapéus

    Os dois chapéus vinham boiando nas águas revoltas do rio; quase soçobravam nas ondas encapeladas, entre tábuas, troncos, montes de lixo e um ou outro cadáver, sob o voo indiferente dos urubus; mas vinham resolutos, altaneiros, ostentando orgulhosos as suas insígnias de classe superior; ainda pude ouvi-los, de longe, conversando:

    – Esse aí, só olhando – disse o mais velho, que eu chamei de Sílvio.

    – Tem gente que é assim, não presta para mais nada – disse o mais novo, o Joãzinho.

    Eu cocei a cabeça; que é que eles queriam que eu fizesse? Peguei algumas pedras, tentei acertá-los.

    – Idiota – disse o Sílvio.

    – Estúpido – disse o Joãozinho.

    Lancei-me ao rio, logo alegre, em lépidas braçadas; alcancei os dois, que caíam na gargalhada.

    – É idiota mesmo – disse o Sílvio.

    – Um arrematado estúpido – disse o Joãzinho.

    Peguei os dois chapéus, e afundei com eles; nadamos horas e horas, depois dias e dias, sob as águas do desconhecido, levados pelas torrentes impetuosas do universo; aportamos numa praia deserta, onde o barqueiro e seu enorme cajado nos aguardava.

    – A sua decisão, infeliz – disse.

    Espantei-me. Que decisão teria para tomar? Onde estava? Para onde iria? O céu avermelhado declinava no horizonte, onde um vulcão fumava pacientemente, tossindo de tempos em tempos. Por fim consegui perguntar:

    – Que decisão devo tomar?

    – Com qual dos chapéus vai embarcar para o outro lado, oras – disse o barqueiro sorrindo com escárnio por entre seus dentes podres, deixando claro que, não importa o chapéu que escolhesse, eu seria o mesmo idiota ou estúpido de sempre.

  • Como sempre foi

    Quando fecho os olhos, o mundo desaparece. Quando os abro, o mundo corre para se recompor no mesmo instante. Às vezes, durante o período infinitesimal dessa transição — e isso é apenas uma percepção —, acredito surpreendê-lo ultimando seu trabalho de recomposição: percebo o contorno esfumaçado das coisas ao meu redor, alguns ruídos, uma chispa, o acomodar-se das distâncias, a luz do dia buscando lentamente sua intensidade, meus filhos demorando uns milésimos de segundo para adquirir suas formas habituais, o pelo do gato parece difuso e ele ainda não tem bigodes, a vizinhança descuidada e desagradável se estabelecendo à direita e à esquerda, um grito ao longe que ainda não chegou perto o suficiente para ser identificado, a nuvem que se atrasou em sua tarefa de encobrir o sol… Tudo isso acontece até o momento em que, olhos bem abertos, vejo as coisas irromperem de novo e se reintegrarem velozmente à ordem, recobrarem sua textura, seu volume, seu nome e seu significado, e este mundo líquido e descartável voltar, mais uma vez, a ser como sempre foi: perpetuamente feio e inumano.

    🗞️

  • Lugar interno

    Há mendigos que não estendem a mão nas esquinas, nem carregam embrulhos com roupas sujas. Sua fome não é de pão, mas de palavras; sua sede é de olhares que os reconheçam. São os mendigos emocionais, aqueles que vagueiam pelos corredores das relações com uma tigela invisível, pedindo migalhas de afeto.

    Você os encontra em todos os lugares. No trabalho, aquele colega que, após cada tarefa, busca um “muito bem!” como se fosse um prêmio vital. No amigo que conta histórias de sofrimento repetidamente, não para aliviar a dor, mas para colecionar consolos. Nos corredores das festas, onde alguém ri alto demais para preencher o silêncio ao redor, ou fica grudado a outro como uma âncora em mar revolto.

    Eles não carregam cartazes, mas seus sinais são claros: a conversa que sempre retorna ao próprio umbigo, o ciúme disfarçado de cuidado, a necessidade de ocupar todos os espaços vazios com barulho ou presença. Sua tigela tem um fundo falso por mais que você deposite atenção, ela se esvazia em minutos, exigindo mais.

    Muitos de nós, em algum momento, fizemos fila com essa tigela. Às vezes, a solidão bate à porta, e saímos em busca de um pouco de calor humano. A diferença está no permanente, no ofício de mendicância afetiva transformado em identidade. O mendigo emocional profissionaliza a carência. Ele não compartilha; extrai. Não conversa; drena.

    O paradoxo é que, quanto mais mendigam, mais espantam os doadores. O olhar faminto assusta. As pessoas intuem quando estão sendo usadas como tapa-buracos, e recuam. E o mendigo, então, vaga mais, faminto, convencido de que o mundo é mesquinho.

    Talvez a verdadeira esmola que precisamos aprender a dar e receber, não seja a migalha de atenção momentânea, mas a oferta com distintas maneiras para pescar. Um “como você está?” genuíno, que escute a resposta. Um silêncio que acolhe, não que foge. Um convite para que o outro se enxergue inteiro, e não apenas carente. Eventualmente somos autênticos quando corremos risco de vida, quando a morte espreita na porta a fitar nossos movimentos.

    A questão é, passamos a vida estendendo a tigela, ou aprendemos a cozinhar nosso próprio banquete?

    Os mendigos emocionais nos lembram, no fundo, de um medo comum: o de que nosso afeto não tenha valor se não for validado por outro.

    A verdadeira abundância emocional começa quando paramos de estender a mão para o mundo em sinal de súplica e passamos a usá-la para construir, dentro de nós, um lar acolhedor. Todos carregamos feridas, porém, em momentos de fragilidade, podemos agir a partir da carência. A diferença está em reconhecer esse estado e buscar a cura, ao invéz de perpetuá-lo.

  • Não arredo pé

    Natyely se deleita com o meu fracasso. Ela é o único ser que conheço que não tem empatia. Quando éramos criança, ela ria das minhas quedas, até quando fraturei o braço. Na ida para o hospital, não parava de rir, um riso estridente e sarcástico, como se eu fosse um frouxa, e o pior, meus pais não diziam nada, não a mandaram parar com o escárnio, porque, obviamente, ela era a filhinha amada. Parece que eu era seu palhacinho de estimação. Em muitas estripulias ela me metia só para ver eu me dar mal. Inventava brincadeiras em que, no final, eu me lesionava; nada era tranquilo, nada era harmônico, como deveria ser entre dois irmãos, únicos irmãos. Meus pais a apoiavam porque a queridinha tirava notas muito boas, e para eles isso era suficiente. Natyely, para se ter uma ideia, nunca recebeu uma bronca do meu pai, enquanto eu aguentava toda a rebordosa, principalmente quando ele chegava bêbado e queria descarregar suas frustrações. Meu pai, sim, era um fracassado; dependia de minha mãe, que era concursada, e se virava com bicos. Quando não dava certo nalgum serviço, ele passava o dia bebendo, e, quando chegava em casa, daquele jeito, dava em cima da moça que trabalhava cuidando da gente. Mirian era uma meninota, pouco mais velha que nós, e teria vindo do interior para estudar – mas, na verdade, passava o dia trabalhando com serviços domésticos. Isso hoje seria crime. Meus pais diziam que a contrataram para o seu bem, para que pudesse vencer na vida, mas como? Não tinha tempo sequer de estudar em casa, e ia todas as noites para um colégio público. Mirian era meu amuleto, eu a amava, porque ela me safou de várias empreitadas. Mas, como minha irmã era endiabrada, sempre sobrava uma bronca para mim. Natyely cresceu e ousou destruir todos os meus sonhos. Sou artista e vivo da arte, mas para ela sou um vagabundo. Vendo os meus livros de porta em porta, e tenho uma vida feliz e relativamente estável, para quem não tem filhos. Nossos pais morreram. Minha família é pequena e dispersa. Poucos me entendem. Natyely é médica e não deve tratar bem seus pacientes, porque ela é raivosa – certamente se formou por status. Tenho certo medo dela, devo admitir. Brigamos na justiça pela casa de nossos pais, onde moro até hoje. Ela é farta de dinheiro e quer sempre mais. Por ela, eu não teria nenhum direito sobre os bens dos meus pais, porque sou “vagabundo”. Tenho um amigo advogado que me ajuda muito. Não quer nenhum honorário antecipado. Já fomos a duas audiências, sem acordo. É completamente estafante para mim, que, além do mais, sou autista, nível de suporte um. Mas hei de vencer e ficar, como proponho, com pelo menos uma parte da casa, que já está subdividida. Ela faça o que quiser com o restante, mas não arredo o pé daqui, do meu chão, de onde me criei. 🗞️

  • Todos os meus amigos são caretas

    Todos os meus amigos são caretas. Talvez um só não seja, mas os outros, todos, são. Foi esta frase que, de repente, ao acordar — antes mesmo do café da manhã —, vim correndo aqui anotar.

    Nenhum amigo meu bebe, fuma; nenhum é notívago, folião de carnaval. Não tem, sequer, um que pense fora da caixa.

    Certa vez, uma amiga minha — que já é avó e tem filhos grandes — foi comigo a um show da Virada Cultural, na Praça 7. Tinha uma banda independente tocando blues, gente tomando cerveja, amigos, homens e mulheres paquerando.

    Até que, no meio de todo mundo, havia um casal se beijando.

    Era um beijo na boca, longo, de língua, demorado, aproveitando o embalo da canção favorita. Para mim, parecia um espetáculo belíssimo, aquele casal.

    Mas minha amiga virou pra mim e disse:

    “Que necessidade desse beijo de desentupidor de pia na frente de todo mundo?”

    Eu quis olhar pra ela e dizer:

    “Poxa, você é careta demais. Para, que tá feio.”

    Eu quis, mas não disse.

    Eu amava demais aquela querida que, além de ser uma cronista de mão cheia, inspirou as minhas primeiras. Ela tem, até hoje, crônicas manuscritas, deliciosas, que jura que um dia vai digitar e colocar num livro.

    Quando a gente marcava de se ver, há algum tempo, ela tinha uma frase que eu adorava:

    “Tô levando uma crônica aqui debaixo do sovaco.”

    Apesar de rir um pouco do jeito dela, eu sempre adorei aquela gargalhada — e a escritora que ela é.

    Outro amigo meu é músico, dá aulas de violão, tem CDs independentes e, no meu último aniversário, eu falei:

    “Você é meu cantor favorito.”

    “Depois do Agnaldo Timóteo, né?”, ele brincou.

    Ele dá tanta aula, faz tanto show, que a gente custa a se ver — mas, que cara maravilhoso, quando dá certo.

    De vez em quando, no centro, a gente marca só pra sentar e ver uma aula de capoeira, ali na Praça 7. Outras vezes, sentamos no pátio de uma igreja católica e ficamos batendo papo; já, em outras, aproveitamos shows na praça, teatro.

    Que gargalhada fascinante.

    É um cara que entende tanto de MPB que, se deixar, a conversa dura vinte e quatro horas — de tão gostosa.

    Mas é o pai da caretice.

    É do tipo que acha que a novela na TV tem “sarro demais”, que está ensinando o que não deve pras pessoas. É do tipo que vai pra cachoeira no carnaval, fica se guardando pra garota ideal, não vê necessidade de sarro, em público, de casal algum.

    Tenho um amigo da faculdade que, sempre que eu voltava de uma balada — com os olhos sonolentos e sujo de batom —, dizia coisas como:

    “Imagino a quantidade de germes e bactérias sendo transmitidos nesse tanto de gente se beijando na boca.”

    Por fim, tenho um outro amigo que, quando me acompanhou numa boate, me falou algo que, sempre que me lembro, fico me desmanchando, em lágrimas, de tanto rir.

    Segundo ele, antes da boate abrir, “um grupo de aidéticos espetou uns alfinetes no banco, pra espetar a gente e contaminar de propósito”. Eu fico imaginando a cena: a boate abrindo mais cedo, não pros frequentadores, mas pra esse suposto grupo entrar primeiro e deixar tudo preparado pra espetar a bunda dos frequentadores quando eles chegassem.

    Ele se assusta um pouco com a noite, se assusta um pouco com a boemia — mas, pelo menos, vai. Pelo menos, me acompanha.

    Este, apesar de falar umas coisas bizarras, de vez em quando, é uma das melhores companhias pra uma boate, um bloco de carnaval.

    Convivo, o tempo todo, com gente que fala que “os poemas de Drummond são machistas”, que “Vinícius de Moraes tem gatilhos”, que dorme cedo, vive fazendo regime, censura quando vou beber, dançar a noite inteira ou comer doce depois do almoço.

    Mas, quer saber?

    Sempre achei fascinante quando duas pessoas, de personalidades opostas, se tornam amigas.

    Não sei quem criou a ideia de que, pra serem amigas, duas pessoas precisam gostar do mesmo tipo de música, votar no mesmo candidato, serem religiosas ou serem dois amigos notívagos.

    Às vezes, o que me atrai numa pessoa é, justamente, aquilo que eu não sou.

    Então, é bom quando alguém, de certa forma, nos leva a enxergar o mundo de um jeito diferente.

    Um dos meus cronistas preferidos da vida se chama Carlos Herculano Lopes e, numa entrevista, ele disse uma frase que me marcou. Era assim: “Por mais simples que uma pessoa seja — ou por mais diferente que ela seja de você —, todo mundo sempre sabe alguma coisa a mais do que você.”

    E eu, ao frequentar a noite e gostar de bloquinhos de carnaval, sei alguma coisa a mais do que o meu amigo músico, que toca na missa; mas o meu amigo, certamente, sabe uma infinidade de coisas a mais do que eu, a minha amiga cronista, avó e com filhos criados, certamente sabe uma infinidade de coisas a mais do que eu, e o meu amigo da faculdade, certamente, conhece coisas e tem saberes que eu, sinceramente, não tenho — e, talvez, nunca terei.

    Por isso, talvez, seja assim que a gente se torne tão amigo.

    Porque ter alguém que discorda da gente e vê o mundo de outra forma mostra que a Terra não gira ao nosso redor.

    Por isso, uma das coisas mais fascinantes que eu já vivi é sentar com um amigo, pra tomar um café, e dividir histórias de vida completamente diferentes entre si.

    Talvez, por isso, eu ache a amizade uma das coisas mais bonitas da vida.

  • Poema #67: Saldo

    De cotidianos resíduos
    arrancados na solidão de prisioneiro
    em que todo o meu ser se devora,
    tento compor uma imagem humana
    que me faça aceitável a mim mesmo.

    No silêncio da morte aparente
    na qual me recolho ao túmulo previsto
    não sei com que ânsia mórbida de calma,
    procuro juntar os cacos de culpa diária
    que reunidos formam um apelo ao suicídio.

    E não é só o remorso das manhãs doentias
    pelo que na noite se desfez em delírios
    de humana fraqueza cansada de si mesma,
    é todo um saldo de perdas que tenho que fazer
    e lançar no cômputo geral das misérias minhas.

    De cotidianos resíduos
    recolhidos no isolamento mental de indivíduo
    em que todo o meu ser se liberta,
    tento compor uma imagem poética
    que se faça de ideias e despreze a vida.

    O Acaso das Manhãs

  • Assintomáticos

    Zími chegou em casa no domingo de manhã depois de dar um rolê  sozinho.

    Saiu do elevador às sete e trinta e cinco.

    No corredor do apartamento que dividia com Mila Cox, pairava densamente um cheiro que era misto de café, xampu e maconha.

    Mila Cox já havia acordado e estava fazendo café, que certamente estava parecendo uma tinta, de tão forte.

    No apartamento ao lado, Silvano ouvia Durutti Column, fumava maconha e provavelmente comia pizza que sobrou da noite anterior.

    Zími não esperava mesmo que nenhum dos dois estivesse dormindo.

    Era importante para ele ter pessoas que tinham entusiasmo pela vida e numa manhã de domingo já estavam a tramar algo.

    Foi por acaso que no dia anterior, um sábado comum, em que sua banda Crop Circles não tocaria em lugar nenhum, Zími soube que rolaria um show do Evan Dando, dos Lemonheads, no Sesc da Paulista. 

    Pela mesma fonte, uma garota com camiseta do Teenage Fanclub que estava no Sebo do Messias, onde Zími foi trocar livros no sábado pela manhã, soube que os ingressos foram esgotados com antecedência.

    Na tarde do sábado, Zími acompanhou Silvano num carreto perto do Ibirapuera, e teria tempo para colar no Sesc da Paulista para ver se arrumava algum ingresso, ou pelo menos visse algo curioso acontecer no entorno do evento.

     Em show de indie rock iam sempre as mesmas pessoas.

    Na pior das hipóteses, ficaria na rua até cansar e depois voltaria para casa.

    Havia para ele também a curiosidade de ver como estaria um sujeito que era ícone do que se chamava de rock alternativo em sua fase de maior projeção, através da MTV, trinta anos antes.

    Ainda mais sendo esse sujeito alguém que passou por turbulências típicas de rock star, tinha fama de muito louco, continuava vivo, e àquela altura tinha repertório musical para fazer um bom show.

    Zími levou cd’s de sua banda, os Crop Circles, que distribuiria entre os indies que passariam na Paulista para assistirem ao show.

    Os cd’s eram geralmente usados por eles para fazer publicidade.

     Consideravam uma mídia física sem o apelo fetichista do vinil, mas o usavam para coletanear singles que lançavam na internet.

    A maior parte do que vendiam de merchandising era mesmo em vinil de sete polegadas, prensados como singles ou EP’s.

    Às cinco da tarde ele finalizou o serviço de carreto com Silvano, que o deixou vinte minutos depois na Paulista com a Brigadeiro Luís Antônio, próximo ao local do show.

    Zími conhecia muitos camelôs da Paulista, porque ali, antes da pandemia, ele também vendeu livros e discos de vinil.  Logo avistou um pintor de quadros que conhecia da Paulista havia muito tempo, e foi conversar para matar o tempo.

    Certa vez, quando Zími era camelô de discos, a polícia pediu que os recolhesse.

     Ele recolheu e voltou dias depois, e quando nem pensava mais nessa proibição, teve um lote de discos apreendido por já ter sido advertido antes.

    Mas ele gostava de vender ali.

    Para ele era um trabalho que, dependendo do dia, podia ser incrível, como também poderia ser dramático, como nos dias de chuva em que ele precisava do dinheiro das vendas para alguma necessidade imediata.

    Faltavam duas horas para o show e ele estava do outro lado da avenida, de onde podia ver um movimento bem discreto de pessoas entrando e saindo do Sesc.

    Sem ingresso, já não sabia muito bem o que estava fazendo ali.

    Já tinha visto uns clipes do Lemonheads pelo celular para lembrar melhor de algumas músicas, e apesar de achar legal, não seria nada doloroso se não pudesse entrar por falta de ingresso.

    Agora estava conversando sobre o limite entre as aspirações e a realidade com o conhecido que vendia os quadros pintava, quando foi abordado por um casal. Ambos conheciam Zími, por motivos diferentes.

    A diferença de idade entre eles era a mesma que havia entre Zími e sua parceira musical Mila Cox. 

    Pela aparência do sujeito, Zími poderia ficar por horas tentando sem sucesso lembrar de quem se tratava, e tinha certeza que nunca tinha visto a garota que o acompanhava.

    Ele parecia um pai de família focado, distante de qualquer tipo de aventura, tinha a idade aproximada à de Zími, só que mais envelhecido.

    A garota parecia uma Lydia Lunch jovem, e a falsa certeza que Zími tinha sobre nunca a ter visto antes vinha do fato de que jamais teria esquecido alguém como ela.

     Isso mesmo antes que ela começasse a falar.

    Zími não lembrava muita do show de Jaú.

    Quem a acompanhava era Tito, que tocava guitarra numa banda chamada Mugwumps, dos anos noventa, em que Zími fez parte por um curto período, fazendo três shows que estavam marcados antes da saída do baterista anterior.

    A banda já existia antes que ele entrasse, e continuou por algum tempo depois de sua saída, chegando a gravar um EP.

    Tito era o mentor da banda e sua ideia era que o som lembrasse o Social Distortion.

    Tito se tornou delegado, e na época em que tocou com Zími era estudante de Direito, vinte e cinco anos antes. 

    Ele já manifestava o desejo de ser delegado naquele tempo.

    Havia uma piada interna na banda sobre Tito ser inacreditavelmente submisso à sua namorada na época, fazer músicas contra o autoritarismo, e querer ser delegado ao mesmo tempo.

    Zími tocou com os Mugwumps em São Paulo, Santo André e em Araçatuba.

    Zími ainda era jovem e na época parecia precisar se aventurar naquela oportunidade, com uma banda sem logística para equilibrar o tempo entre ela e as outras atividades, como empregos e faculdades.

    A internet ainda estava começando a se tornar acessível, e Zími só teria acesso à rede depois de ter deixado a banda.

    Ele tinha terminado sua faculdade de Jornalismo no ano anterior, caso contrário não aceitaria o convite para ingressa na banda.

    Os outros integrantes ainda eram universitários, e seus cotidianos eram inglórios e hostis.

    Tudo era escassez, tanto em termos de dinheiro, como em tempo ou logística.

    O baixista dos Mugwumps era um sujeito conhecido por Painho.

    Ele era tecnicamente o melhor músico da banda.

    Quando a escassez anteriormente se manifestava no setor financeiro da banda, Painho acusava Tito de ser playboy e não investir na estrutura da banda, nem mesmo sob a premissa de ser ressarcido com o lucro de um eventual sucesso da banda.

    A mentalidade deles era esta, e a internet nos primórdios ainda não ajudava muito.

    As gravadoras deixaram de existir da forma como operavam, na época em que vender discos em lojas físicas era o foco.

    Certa vez os Mugwamps perderam o tempo quase inteiro de um ensaio pago e a duras penas encaixado na agenda pessoal de cada um, porque não havia cordas de guitarra reservas, e os cabos estavam remendados em diversos pontos, falhando bastante, na véspera de um show em Santo André.

    Painho estava furioso e foi trabalhoso mantê-lo sob uma distância mínima de Tito, que escapou por pouco de tomar porrada.

    Com essa lembrança, lhe ocorreu que esse momento possivelmente tornou possível a concepção dos Crop Circles, duo formado por ele na bateria e alguns vocais, e Mila Cox, no baixo e maior parte dos vocais.

    Os Mugwumps eram um quarteto com duas guitarras, baixo e uma bateria de verdade, não o kit minimalista usado por Zími atualmente.

    Um gasto exorbitante se comparado ao que os Crop Circles tinham na atualidade.

    O fator mais importante nesse aprimoramento no formato da banda é o fato de haver apenas duas pessoas para eventualmente discordarem uma da outra.

     Zími não conseguia nem se imaginar atualmente numa formação com quatro pessoas.

    O uruguaio Silvano se lançou na música ainda mais minimalista, como monobanda, ou one man band.

    Toda a década de noventa sempre foi estranha para Zími, e ele ainda lembrava do período como se fosse a década anterior a que vivia então, mesmo estando vinte e três anos avançado no século vinte e um.

    Perdeu o contato com Tito e os outros dois integrantes quando saiu da banda.

    A garota que acompanhava Tito era sua filha Sara, de vinte anos e fruto do casamento com a antiga namorada autoritária, a quem Zími nunca conheceu pessoalmente.

    Naquele tempo, Tito parecia deixar a garota num setor específico de sua vida social, que era distinto daquele em que colocava amigos de bar, de futebol e de banda.

    Pois foi a esposa de Tito quem havia comprado três ingressos para aquele show no Sesc, tão logo este fora anunciado.

    Ela acabou não indo, porque era médica e estava de plantão, de modo que havia um ingresso para Zími.

    Sara conhecia Zími porque foi a um show dos Crop Circles em Jaú, cidade onde vivia a avó da garota.

    Quando Zími saía sozinho, sem muitas pretensões e recursos, mas com a intuição de que algo curioso aconteceria, ele acertava em cerca de trinta e cinco por cento das vezes, mas esse percentual aparentemente baixo era suficiente para que ele sempre acreditasse na generosidade do acaso. Na verdade, um acaso algo induzido.

    Ele sabia que encontraria pessoas conhecidas ali, sendo amigos dele ou não.

    Naquela tarde, no entanto, surpreendeu-lhe o fato da primeira pessoa conhecida ser alguém que ele não reconheceria, caso não tivesse sido abordado.

    A filha de Tito queria comprar cerveja, então os três se despediram do vendedor de quadros e atravessaram para o outro lado da Paulista, na frente do Sesc, e não demorou para que um vendedor ambulante de bebidas passasse com seu carrinho. 

    Compraram uma cerveja para cada um, e a essa altura Tito já sabia que Zími ainda tinha a Caloi Cross laranja que já era antiga no tempo em que tocaram na mesma banda.

    Tito e Sara já haviam ganhado também os cd’s dos Crop Circles que Zími levou e estavam se atualizando sobre os últimos vinte e cinco anos sem terem quaisquer notícias um do outro.

    À essa altura, Zími já tinha visto por perto algumas pessoas com camisetas de bandas indies dos anos noventa, algumas pessoas que já tinha visto em rolês aleatórios de rock, amigos de amigos. 

    O show foi o que Zími esperava.

    Achou legal por ser despojado, sem excesso de pretensão calcado no que importava naquele momento, que era um repertório que sustentasse a apresentação.

    Ele não era muito mais velho que Zími, que estava beirando os cinquenta anos, e era curioso como mesmo havendo uma discrepância na história e na realidade de cada um, Zími se identificou com o show, não apenas a apresentação em si.

    Havia a atmosfera nostálgica do sonho indie dos anos noventa, mas toda a década de noventa sempre foi estranha para Zími, e ele ainda lembrava do período como se fosse a década anterior a que vivia agora, mesmo estando vinte e três anos avançado no século vinte e um. 

    Não era para ele um período remoto, pois no começo da década de noventa atingiu a maioridade e havia nele curiosidade e energia.

    Sara nasceu em dois mil e dois, com internet.

    Ela contou a Zími que sua mãe falou muito do Evan Dando nos dias anteriores, e que ela havia mandado mensagem avisando que ficaria no plantão até às oito horas da manhã seguinte.

    Saíram do show e foram beber num bar da Liberdade que não fecha nunca, ótimo por ser próximo ao prédio de Zími.

    Tudo que foi conversado fez parecer para Zími que ao reencontrar Tito, os últimos vinte cinco anos nunca existiram.  

    Sara despejou o discurso sobre a família ser uma instituição decadente e a manifestação do seu desejo de ir embora de casa crescia à medida em que bebia.

    Tito estava cansado e bêbado, tendo que dirigir até o Sumaré, pois a filha, além de furiosa, também estava alcoolizada.

     Os três pagaram a conta e se despediram. Eram sete e vinte da manhã.

    Zími foi a pé sem olhar para trás, enquanto Tito e Sara entraram no carro.

    Quando chegou às sete e meia na porta do prédio, Zími havia tido tempo de pensar que naquele dia seu destino foi melhor que o de Tito, principalmente quando lembrou que a esposa dele estaria em casa às oito horas.

    Zími entrou no elevador e saiu para o corredor com cheiro de xampu, maconha e café.

  • Fluxo e pulso das horas

    “A gente jamais esquece o primeiro relógio.”¹

    “ […]

    As últimas datas, descobertas, invenções,
    sociedades, autores antigos e novos,
    Meu jantar, roupas, amigos, olhares, cumprimentos, dívidas,
    A indiferença real ou fantasiosa de um homem
    ou mulher que eu amo,
    A doença de alguém de minha gente ou de mim
    mesmo, ou ato doentio, ou perda ou falta de
    dinheiro, depressões ou exaltações,
    Batalhas, os horrores da guerra fratricida, a febre
    de notícias duvidosas, os terríveis eventos;
    Essas imagens vêm a mim dia e noite, e partem
    de mim outra vez,
    Mas não são o meu verdadeiro Ser

    […]”²

    Diz se lembrar da pulseira plástica preta que não saía do punho direito. Custou a acostumar com o braço corriqueiro — o esquerdo, socialmente aceito como adequado. À época, ambidestra, ficara encantada com o presente de Natal que uma tia trouxera dos Estados Unidos. À prova d’água. Mostrador digital. Luz azul que possibilitava ver as horas no escuro. Alguns botões, que aprendeu a manusear rapidamente. O apetrecho não saía por nada do seu braço direito. Não se recorda por quanto tempo o tomou por fiel escudeiro — mas sim do quanto o usara. Quando deu por si, já crescera e atingira a adolescência. Pareceu-lhe, então, infantil e um tanto unissex demais. Sonhava com um relógio um pouco mais feminino. Ganhou de aniversário um cássio: pulseira prata com detalhes dourados; mostrador de vidro com fundo branco, números metálicos de ouro e ponteiros que brilhavam no escuro. A caixa prata, internamente acolchoada por um tecido imaculadamente acetinado lhe vem instantaneamente à memória. Tornou-se mulher, por fim.

    Lembra-se de todos os seus relógios de pulso. Assumira desde muito miúda a importância em usá-los. Descolado. Adulto. Detentora do mundo: da altura do pulso, controlava as horas. Era a senhora do tempo.

    [— fato curioso é que nenhum de seus progenitores tinha o costume de portar tais acessórios. Sua memória primeira é de um único relógio de parede creme que encimava a entrada da cozinha de sua casa].

    Nunca gostou de dormir. O escorrer das horas perdia velocidade durante as madrugadas. O pai não dormia cedo; parecia elegante não deixá-lo acordado sozinho. Punha-se a ler, escrever, inventar moda. Ter um relógio de pulso atrelava seu ritmo cardíaco ao ritmo do mundo, no mesmo compasso que o seu. Continha todo o mundo no testemunhar dos batimentos e do passar dos segundos, sob a forma de ponteiros ou de números metamorfósicos a partir de sete tracinhos deitados e em pé.

    E então vieram os amores.

    Cartinhas em envelopes, flores, chocolates, bilhetinhos; recados através de amigos, atravessando salas, corredores, intervalos.

    Ligações de orelhão — obstáculos no meio das calçadas — com cartões comprados em bancas de jornal — outros trambolhos no mesmo plano das ruas. A duração das chamadas era breve. Estar ao telefone era coisa planejada. Precisava-se do cartão. Ou saber ligar a cobrar. O conjunto se números que identificavam um telefone fixo de alguém especial, sabia-se de cor. Para os demais, agendas telefônicas, em papel, depois eletrônicas, com botões e visores iluminados. Internet?

    Tentou fazer um paralelo entre seus amados e os devidos relógios de pulso.

    Seu primeiro namorado usava um modelo preto, não se lembra qual o tipo de mostrador. O relógio não foi primordial, e sim a ligação pelo orelhão poucos dias depois do primeiro beijo no cinema. Ligação via orelhão, se desculpando sem pressa por não ter ligado antes e o convite para sua festa de aniversário, no dia seguinte.

    Naquele tempo, festas de aniversário se davam nas salas das casas: bolo e docinhos granulados, salgadinhos e presentes embrulhados com laçarotes e cartõezinhos.

    Lembra-se de ter contado o tempo antes de bater à porta — não a dele, mas a da vizinha, sua amiga, onde se escondeu por alguns minutos, tremendo da cabeça aos pés. Os ponteiros de seu cássio não refletiam seus batimentos cardíacos: o primeiro descompasso que presenciou nas veias.

    O relacionamento durou o tempo em contagem regressiva iniciada pelo primeiro pedaço de bolo, entregue a ela e a mãe dele. A quase sogra a fuzilou com o fundo do coração. Ela debutou seus quinze anos um mês e meio depois; ele foi seu príncipe por essa noite, apenas. Não usou relógio.

    Depois, o primeiro amor, de fato. Relógio de pulseira metálica no punho esquerdo, como tem que ser. Ligações via celular e telefone fixo, SMS, cartinhas, livros de poesia. Ambos entrelaçavam seus braços automatizados pelos palcos de rua da vida.

    Guarda, em uma caixa, tantas recordações: o spray desodorante dele, que já nem se encontra no mercado — o cheiro que ainda lhe vem às narinas; papéis de bala, chiclete, passagens de ônibus, recibos de pedágio. A aliança de compromisso. O primeiro relógio dele, sem bateria e sem pulseira.

    Ele se foi desse mundo. Seu pulsar, também.

    Ela guarda o esqueleto do que um dia testemunhou o passar de seu tempo em uníssono na Terra.

    Depois dele, passou a usar o cássio no pulso esquerdo.

    Depois dele, um outro — homem de horários móveis. Surgiu de um hiato da infância, primeiro em uma rede social incipiente, depois ao seu lado em um assento de ônibus intermunicipal.

    Passaram a se ver em cronômetros engraçados: falavam-se diariamente; depois semanalmente.

    Mensalmente, após certo tempo. Ele tornou-se caixeiro viajante, numa época em que isso já era demodê.

    Não deixou cartas — um único e-mail, que ela decorou por completo. Ali, agora percebe, decorou o coração com as promessas do e-mail e abriu uma fenda na própria vida: abriu mão das cartas para entrar na era digital; abandonou o cássio de ponteiros e comprou um relógio cujo mostrador apagava-se para poupar bateria.

    Poupou o que, para ela, era importante.

    Dali para frente, foi ladeira abaixo com o tempo e as caligrafias.

    Casou-se com um tipo que portava relógios, mas não pelas horas. Era apenas status. O tempo, ali, não pulsava. Divorciou-se.

    Chegou a reconfigurar seus batimentos com os ponteiros do caixeiro, que deixara de ser viajante e assumira um relógio de pulso, herança de família. O tempo mostrou-se insustentável.

    Hoje, entre redes sociais, agendas repletas de tudo e nada, trabalho que se sobrepõe à vida social real, usa um smartwatch, como deve ser, no punho esquerdo. Pode escolher mostradores com ponteiros, números digitais, fusos horários — e o cacete a quatro.

    Criou um bloqueio com ponteiros. Leva segundos para responder, para si mesma e para quem lhe pergunta as horas, o tempo real daquelas agitadas três espadinhas inquietas. Do mesmo modo que se perde entre direita e esquerda se não move discretamente a mão com que escreve, pois perdeu a habilidade de escrever com ambas.

    Também mandou para as cucuias seus amores.

    Ainda assim, sonha com alguém que faça o tempo desacelerar. Como se ponteiros voltassem a fazer sentido. Como se direita e esquerda deixassem de ser um bicho de sete cabeças, mesmo que com sete pauzinhos dançantes formadores de todas as horas. O relógio — agora inteligente — não se vincula mais aos batimentos , embora literalmente os meça. Ela tira o relógio à prova d’água para entrar no mar.

    Continua senhora do próprio tempo. Nunca mais escreveu ou recebeu cartas.

    Passou a conter as multidões nos pulsos. Os batimentos que o relógio mede

    Tum tum
    Tum
    | dois
    Tum | três
    […]

    As mensagens que chegam
    [“Você tem novas notificações de mensagens”]

    , os ponteiros e os metamorfósicos números malabaristas de sete traços passaram a segundo plano; as cartinhas passaram a um plano outro, qualquer.

    Ainda assim, jamais esqueceu seus primeiros relógios.

    Na lembrança – ou no objeto, em si – tudo parece mais nosso:

    Mais palpável.
    Mais pulso.
    Mais real…

    Menos ‘digi-`
    Menos nomes descompassados pela metad.
    Menos fulano-de ‘-tal’.


    Notas de rodapé
    ¹ A outra História, romance da escritora franco-britânica Tatiana de Rosnay, publicado originalmente em francês sob o título Boomerang.
    ² Canção de mim mesmo, (Song of Myself), considerado marco da poesia moderna, escrito por Walt Whitman, publicado pela primeira vez em 1855 como parte da coletânea Leaves of Grass.

  • Match fatal

    Nunca tinha entrado em sites de relacionamento, mas naquela noite decidiu experimentar. O universo digital estava ali, ao alcance de um clique — por que não se aventurar?

    Ouviu dizer que era uma forma infalível de conhecer mulheres disponíveis. Bastava preencher alguns parâmetros, fazer a triagem virtual e pronto: nada de encontros no escuro, indicados por amigos bem-intencionados que terminam em desastre. Pior ainda: depois a pessoa já sabe seu nome, seu telefone e é conhecida de conhecidos… difícil se livrar.

    Escolhido o site, passou ao checklist da mulher ideal:

    • Idade: 25 a 35 — jovem, claro.
    • Magra, bonita, cuida do corpo — o visual é essencial.
    • Exercícios pelo menos 3x por semana: musculação, pilates, bike, corrida — alguém que acompanhe seu ritmo.
    • Superior completo, pós desejável — pelo menos um mínimo de cultura.
    • Português perfeito, inglês ou outra língua — viajar sem virar tradutor.
    • Profissão com cargo gerencial ou acima — mulher independente, bem-sucedida.
    • Hobbies: leitura, viagens, culinária, dança, cinema, teatro, música — parceira para todas as horas.
    • Procurando relacionamento sério, mas sem compromisso — casar, nem pensar.

    Confiante, clicou em “salvar”. A sorte estava lançada.

    Likes e mensagens começaram a aparecer rápido, acompanhados de fotos promissoras. Empolgado, abriu a primeira. Choque: preenchia quatro dos sete requisitos, mas escrevia com erros de português, curtia funk e vivia da renda de aposentadoria do pai falecido. Nada contra — mas não era o perfil. Descartada.

    A segunda parecia perfeita no papel, mas pela foto não fazia exercício há anos, estava bem acima do peso e queria apenas uma transa. Fora. A terceira, impecável no checklist. Só que buscava um homem de até 40, malhado, baladeiro. E ainda fumava. Nem pensar.

    Assim seguiu, descartando uma a uma. Até que parou para refletir: será que o problema era o algoritmo ou o próprio perfil que ele montara? Releu os requisitos com atenção.

    Tudo parecia essencial… ou será que não?

    Depois de muito pensar, aceitou flexibilizar um ponto: a idade. Alterou de 25–35 para 40–50 anos. E esperou.

    Logo surgiram várias opções. Uma delas, segundo o site, com 100% de afinidade. Ansioso, clicou para abrir.

    E qual não foi sua surpresa: cara a cara com a ex.

  • Poema #17: Quem é poeta quem é vigia

    Soldado canta triste
    Sentinela!
    Quem é poeta?

    Vento que presta
    Barco a vela

    Quem é poeta?

    Pescador lança triste o anzol
    Poeta!
    Quem é vigia?

    Vento que espia
    Amor que esfria

    Quem é vigia?

    Moça olha triste o céu
    Espera.
    Quem é poeta?
    Quem é vigia?

    Vento que presta
    Vento que espia
    Barco a vela
    Só poesia.

  • O talento dos outros

    Tenho imensa gratidão pelas pessoas que fazem aquilo que não sei ou não gosto de fazer. Cozinhar, ainda que a contragosto, é possível, mas fazer meus próprios sapatos está fora de questão.

    A lista das profissões que me atraem é infinitamente menor do que a lista das outras; e entre as que me agradam para várias falta-me a devida competência. Não levo jeito para uma porção de coisas a despeito de apreciá-las muitíssimo.

    Ballet é a perfeita tradução desse desencontro entre desejo e capacidade: sou desajeitada por completo e morreria de fome se tivesse que ganhar a vida dançando. Ao menos possuo a humildade de reconhecer que, embora me fizesse feliz, dançar não é uma atividade ao alcance das minhas aptidões. Ponto para mim: com frequência vejo gente desperdiçando seu verdadeiro talento ao insistir em ser aquilo que não é. Às vezes a natureza nos faz cair nessa armadilha de suspirar pelo que não nos convém.

    Detestaria ser médica, advogada ou costureira, mas preciso imensamente desses profissionais e de tantos outros. Gratidão profunda.

    Por outro lado, números e lógica não me assustam. Ao contrário: estudei matemática que considero uma das mais gloriosas manifestações do espírito humano, senão a maior. Poderia igualmente ter sido diretora de teatro ou roteirista de cinema, mas a necessidade de sustento falou mais alto; quando se escolhe a profissão é aconselhável ter um olho no talento e outro na sobrevivência.

    Não gostaria de ser engenheira, no entanto seria boa arqueóloga, adoro ruínas históricas. Pois é.

    Já que hoje não é o dia internacional da modéstia, vou marcar outro ponto positivo para mim: apesar de ter consciência de que, mesmo naquilo em que posso contribuir para a humanidade, estou longe da genialidade, admiro genuinamente os mestres. Faço a minha parte, equilibrando-me entre o ideal e o possível e sou feliz assim.

  • COMPULSÃO

    Elisa sempre quis ser advogada. Formou-se bacharel em Direito e exerceu a atividade jurídica durante quatro anos numa firma de advocacia, especializada em Direito Familiar. Após a graduação, passou em concurso público para ocupar o cargo de Juíza Substituta. Começou a atuar ao lado de um Juiz Titular, para adquirir experiência. Depois de cinco anos, foi promovida a Juíza de Direito.

    No seu fazer cotidiano, lidava com divórcios amargos, disputa por guarda de filhos e acusações de violência doméstica. Era obrigada a conviver com decisões sobre pensões alimentícias, investigações de paternidade e partilha de bens. Aos poucos foi se sentindo exaurida e descrente no ser humano.

    Nunca se soube se por estresse natural do ofício, por concentração excessiva no trabalho ou mesmo por sua natureza, desenvolveu um transtorno mental crônico: o desejo irresistível e irracional de furtar coisas. Em geral, objetos desnecessários e de preferência com baixo valor comercial. Estava cada vez mais complicado controlar seus impulsos. Eram estojos de anzóis, sem que ela tivesse a mínima intenção de sair para pescar; bolas de tênis sem nunca ter segurado uma raquete; mamadeiras e brinquedos de criança, sem que pudesse engravidar ou pensasse em adoção. Enfim, uma obsessão descabida. Ainda mais para uma Juíza de Direito de uma Vara de Família. E isso a estava deixando, com razão, preocupada.

    Durante as audiências, via os rostos dos réus e dos advogados com seus olhares acusadores, como se soubessem de sua mania de furtos ocasionais. Vieram a seguir os constantes pesadelos, sendo flagrada, julgada e sentenciada como uma ladra contumaz. Sua foto nos jornais e na tevê. Escândalo.

    Aquilo precisava ter um fim. Sabia que seu problema tinha cura com medicamentos e psicoterapia, mas a vergonha era maior. Como imaginar uma Senhora Juíza de Direito reles gatuna. Teria de se livrar daquele infortúnio sozinha e do seu jeito. Na marra.

    Os esforços foram inúteis. Numa loja de souvenirs pegou um daqueles modelos da estátua do Cristo Redentor para turistas e colocou na bolsa. Surpreendida pela funcionária da loja, disse que havia se esquecido de ir ao caixa pagar.

    Na semana seguinte, saía de um restaurante sem pagar a conta. O garçom a conhecia e não ousou ir atrás. Na certa, a Juíza tinha se esquecido e voltaria. Elisa não retornou.

    Os atos compulsivos cada vez mais frequentes. Era forçada a admitir que a cada pequeno roubo sentia um grande alívio emocional.

    A Excelentíssima Juíza sofria e não enxergava uma saída.

    Durante uma sessão, deu a guarda de uma menina de oito anos a um pai suspeito de ser abusivo, somente por que a mãe usava a menina para efetuar pequenos roubos. Como uma autopunição. Os colegas começaram a notar que Elisa aparentava oscilações de humor e parecia distante. Eram evidentes seu cansaço e falta de motivação.

    Elisa decidiu procurar um clínico geral e ouviu dele que talvez estivesse padecendo de síndrome do esgotamento profissional. Burn out. De resto, a saúde ia bem. Receitou-lhe comprimidos para reduzir a compulsão e que tirasse uma licença para descansar.

    Elisa resolveu viajar. Sair do país, esquecer seu trabalho, as responsabilidades, dar uma escapada desse mundo. Não iria mais se policiar. Chega de cobranças, basta de comportamentos repressores. Soltar a franga.

    Decidida, Elisa entrou num shopping para comprar uma mala nova para a viagem. Depois de procurar, pegou uma Sansonite vermelha, último lançamento, uma belezura. Com toda a classe de Juíza, saiu sem pagar com calma e elegância, como se aquela mala de rodinha naturalmente já lhe pertencesse. Segundo o Artigo 331 do Código Penal Brasileiro, daria ordem de prisão a quem a acusasse de qualquer delito típico caso de desacato à autoridade. A Excelentíssima Juíza Elisa tinha pensado bem e decidido: perderia de vez o juízo.

  • VIOLETA

    “O louco é estrangeiro em sua própria pátria”Livia Garcia-Roza

    Eu, Violeta Pinheiro do Nascimento Vasconcelos, estava lá quando ela chegou. Eu fui parte desse nascimento, ela saiu de dentro de mim. Eu a expeli. Ela nasceu antes do tempo e me surpreendeu. Eu e a médica não esperávamos que ela nascesse antes do tempo. Na maternidade, fizeram o teste do pezinho e muitos outros exames. Ela era ou parecia ser saudável. Eu a culpei pela fuga do Jerônimo. Eu a acusei de ter deixado o portão aberto.

    Eu lhe disse coisas medonhas no dia em que o Jerônimo desapareceu. Uma semana depois ela me mostrou uma reportagem no jornal sobre um cachorro que tinha voltado para casa sete meses após ter sumido.

    Ela chegou sem avisar. Tocou a campainha, eu a recebi com um sorriso artificial. Ofereci um lanche. Ela comeu com gosto a torta de nozes, sua preferida. Ela perguntou se podia pegar outra fatia. Ela deixou cair migalhas de torta no carpete. No carpete. Tapete novo. Ela nem se deu conta de que sujava o carpete enquanto comia. Ela fazia cerimônia. Aquela não era mais sua casa. Seu rosto deixava transparecer que ela não se sentia confortável. Ela não me visitava com frequência, e eu não me importava com isso. A gente se falava pouco pelo telefone. Eu pensei em pedir que ela limpasse o chão sujo de torta. De pedaços milimétricos de torta. De torta. Nozes. Eu tentei fazer de nosso encontro algo rotineiro, exatamente como os encontros entre mães e filhas deveriam ser. Eu fracassei nessa tentativa. Nós nos despedimos de modo contido. Tivemos dúvida se beijinhos no rosto seriam adequados. Dissemos apenas tchau.

    Nós chafurdamos no mesmo pântano. E tivemos a pachorra de permanecer nele mais tempo do que seria desejado. Nós ignoramos os acenos daqueles que talvez pretendessem nos tirar da lama. Nós procuramos cultivar nosso jardim. Tentamos plantar jasmineiros e roseiras. Os girassóis também sempre nos interessaram. Nosso objetivo sempre foi vencer as pragas, eliminá-las. Exterminá-las. Procuramos.
    Tentamos.

    Ela fez um aborto. Me contou que tinha feito o aborto. Disse que não queria falar, mas falou. Não entrou em detalhes. Imagino que deve ter sido algum método primitivo, tosco, incerto e perigoso. Ela deve ter corrido risco de vida. Que tipo de mãe ela seria? Ela não teria a capacidade de ser mãe. Ela não sabe o que é ser mãe, não sabe o que é ser gente. Não sabe falar francês apesar das aulas da infância e da adolescência. Não sabe nada do que precisa saber. Ela não sabe fazer cálculos elementares nem resolver palavras cruzadas…

    Eram três e meia da tarde quando a enfermeira Gilda abriu a porta pelo lado de fora despejando toda sua eficiência corpulenta dentro do quarto.

    — Violeta, querida, você está dormindo? Acorda, meu bem. Tá na hora do seu remedinho…*

  • Detesto o meu novo amigo!

    Ele sempre me corrige, acha que sabe mais do que eu, e pior, quer empurrar a ideia dele, na força das argumentações.

    Sim, pois nisso ele é bom! Me põe como sonsa, fútil e até ignorante.

    Destila o seu suposto saber, com exemplos, ideias atravessadas, tudo em nome de me ajudar!

    Não o abandonei ainda, porque às vezes, ele me atende em dúvidas pontuais, concretas.

    Nesse contexto, quando eu o oriento, ele é um bom parceiro.

    Outra coisa que me deixa aborrecida é a crítica contumaz de achar que conto as coisas de forma coloquial, e assim não sou elegante.

    E quem disse que eu quero ser elegante! Se quisesse eu seria uma modista e não uma escritora. Ou contadora de histórias como eu gosto de me definir.

    Outro dos seus defeitos é ser volúvel. Vai com quem o chamar. E nem tem como esconder, porque deixa rastros.

    Nas expressões, cortes, ou espaços, ao expor o ponto de vista de pessoas a quem eu admiro, de pronto eu o identifico. E isso tira toda a graça ou surpresa do inusitado.

    E o vocabulário do meu amigo, agora quase inimigo: palavras usadas milhões de vezes e agora elevadas a categorias literárias, como se fossem o baluarte dos acadêmicos: presença/ potência/excerto/recorte…entre muitas outras.

    Isso sem falar nos espaços vazios entre uma frase e outra. Nunca conversei assim, não será agora que vou falar como um robô. Êle que me perdoe.

    Pois então…

    Vou ignorá-lo, deixá-lo na geladeira.

    Mesmo que ele se mostre indispensável, e tenha aquele fluxo de idéias esnobe e contínuo, neste momento eu declaro: não renovo o seu contrato, pode procurar a sua turma.

    Por enquanto.

    Se eu precisar sei exatamente onde encontrá-lo.

    🌷
  • É difício

    “Da força da grana que ergue e destrói coisas belas” (Caetano Veloso, Sampa)

    Quem tem, como eu, a desventura de residir em São Paulo, já se deu conta, angustiado, da incontrolável proliferação de novos prédios que vêm pipocando pela metrópole, em especial nos bairros mais valorizados (e cobiçados). São torres que abrigam escritórios e apartamentos para todos os tamanhos e gostos que brotam como ervas daninhas por todos os cantos, à revelia de qualquer projeto de ordenação urbana. Atendem menos às carências da cidade do que à voracidade da especulação imobiliária e dos interesses imediatistas das incorporadoras, sem que o poder público imponha restrições com base nos impactos sobre a malha viária e a já combalida infraestrutura (saneamento, abastecimento de água, energia elétrica, transporte, etc.).

    Nessa toada, diariamente, somos abordados nas ruas por vendedores bem trajados que tentam nos passar a lábia para investir nossas parcas economias em empreendimentos imobiliários que sequer saíram do papel. Prometem-nos um novo conceito de habitação para nossos filhos e bichinhos, um futuro dourado com sustentabilidade, proximidade à natureza, mobilidade e bem estar, o mesmo que seu projeto está no caminho de inviabilizar. Tentam nos convencer a nos encaixotar em estúdios de luxo cercados por muros e dispositivos de segurança que nos abriguem do assédio de assaltantes e pedintes sem-teto, marginalizados pelo mesmo processo que este modelo de habitação ajuda a perpetuar.

    São milhares de edifícios em construção, que nos dão a sensação de que vivemos sob um eterno e inacabado canteiro de obras e nos infernizam dia e noite com ruídos incessantes de guindastes, bate-estacas, britadeiras e caminhões.

    Cada edifício que se ergue em uma zona excessivamente adensada promete despejar pelas vias estreitas do entorno dezenas (talvez centenas) de novos veículos motorizados que já não se locomovem, apenas existem, fazendo do hábito de transitar um exercício de paciência e resignação.

    Esse desvairado furor construtivo abarrota os cofres das incorporadoras e abastece as propinas de agentes públicos omissos. O único propósito que não cumpre é o de atender à necessidade de moradias, voltado que está a nichos específicos e lucrativos, distantes das reais necessidades da maioria da população que continua habitando casebres insalubres, ocupando margens de represas e engordando favelas.

    Segue a cartilha do neoliberalismo extremo que obedece exclusivamente aos ditames do mercado, enriquece uns poucos empresários e investidores, empobrece a população e a urbe em sua vocação de núcleo de integração das atividades de moradia, trabalho e lazer dos cidadãos.

    A capital paulista, um dos maiores polos econômicos e culturais da América Latina, não teve seu crescimento acompanhado por gestões compatíveis com sua pujança. Seus habitantes, apesar de afetados por essas mazelas, não elegeram governantes capazes de lhes proporcionar benefícios duradouros, já que prezam apenas iniciativas com prazo de validade inferior a seu mandato de quatro anos.

    Esse processo perverso originou-se com o prefeito Faria Lima, que conferiu prioridade a grandes obras viárias que, além de consumirem grande parte do orçamento municipal, possibilitaram malversação das verbas. Isso ocorreu durante a gestão Maluf que torrou os escassos recursos drenados da arrecadação de impostos em túneis e viadutos, incluindo o monstrengo Minhocão, um monumento ao mau gosto que ajudou a degradar o centro da cidade e tornou-se um elefante branco encravado entre tradicionais e históricas vias existentes, hoje sucateadas. Essas obras faraônicas de necessidade questionável ajudaram também a legitimar a cultura do ‘rouba mas faz’ encampada pelos eleitores que não se importam em ver parte do dinheiro público apropriado por políticos desonestos, desde que sejam realizadas obras de visibilidade.

    O resultado dessas escolhas equivocadas está no que a cidade hoje se transformou: excesso de concreto, escassez de áreas verdes, parques e espaços de socialização e convivência. Consagrou-se a prevalência da cultura do automóvel poluidor e consumidor de combustível fóssil. Ficaram relegados a segundo plano calçadas, pedestres, ciclistas e transporte coletivo. Isso tornou a metrópole paulistana que já não prima pela beleza, ainda mais hostil para seus moradores.

    A desgraça da vez é a excessiva permissividade atual para o erguimento de prédios, sem qualquer controle. Nosso atual prefeito e seu desvirtuado Plano Diretor foram em grande parte responsáveis por permitir essa verticalização desenfreada. Mas, verdade seja dita, contou com a preciosa colaboração de uma das piores câmaras municipais da história, composta em sua maioria por vereadores mais preocupados com pautas de costumes ou ideológicas do que com o planejamento urbano, dando as costas para a melhoria de vida da população que deveriam representar.

    Nossa tão maltratada Sampa, já vitimada por infortúnios como violência, assaltos, barulho, falta de escolas, postos de saúde e, paradoxalmente, falta de habitação, vai assim aos poucos se degradando, com a perspectiva de tornar-se inabitável em algumas décadas. O erguimento desordenado de edifícios é o mais novo ingrediente para compor esse cenário distópico.

    E pensar que os imponentes edifícios já foram um símbolo de progresso que tanto nos orgulhava…

  • O sol nasceu

    Antigamente escrever bem era ser precioso, usar palavras pouco comuns, burilar a forma. Hoje o que se aprecia é o estilo sóbrio e descarnado, cujo modelo é Graciliano Ramos ou Dalton Trevisan.

    Aí pelo século XIX, não se dizia “O sol nasceu”. Uma frase como essa era um resumo que o autor rascunhava e escondia, com medo de que o acusassem de falta de imaginação ou indigência verbal. “O sol nasceu” – precisa dizer mais? Hoje os manuais dos cursos de Comunicação dizem que isso basta. Para eles, a boa frase é a que privilegia substantivo e verbo. Adjetivos e advérbios são excrescências que debilitam a expressão.

    Mas no século passado essa frase magra precisava engordar. Os elementos nutridores eram justamente o adjetivo e o advérbio. “O sol nasceu” – e daí? O sol nasce todo dia. Esse fato corriqueiro, dito assim de modo seco e banal, não comove ninguém. Não basta a simples enunciação dessa verdade imorredoura para despertar no leitor as ressonâncias visuais e afetivas do nascer do sol.

    Então o cronista vestia o fraque (se estivesse em casa, botava um pijama de seda cheirando a alecrim), introduzia o charuto na piteira, sorvia longamente a fumaça e começava: “O astro-rei…”. Por que chamar o sol de “sol”? “Astro-rei” era bem mais expressivo, tinha a magnificência da metáfora.

    “O astro-rei, brilhante e sanguíneo…” Ah, os adjetivos. Bastaram essas duas palavrinhas para injetar no sol força e brilho. É impossível agora não visualizá-lo em todo o esplendor do dilúculo (que, para quem não sabe, é o nome que se dá ao crepúsculo matutino).  

    Satisfeito, prosseguia nosso cronista: “O astro-rei, brilhante e sanguíneo, rompe despudoradamente a linha do horizonte…”.  Agora apareceu o advérbio de modo. Nada como ele para acrescentar ao verbo matizes sensoriais. A frase incha um pouco, é verdade, mas estávamos longe do rigor anorético com que hoje se vestem ideias e modelos.

    E vinha o desfecho, que devia ser marcante: “O astro-rei, brilhante e sanguíneo, rompe despudoradamente a linha do horizonte e lança revérberos dourados na natureza estremunhada”. O cronista sorria, saboreando a animização presente na imagem final. O que faz o sol a cada novo dia senão restaurar as forças de uma natureza desfalecida em sombras? Esplêndido!

    Depois de uma nova tragada, ele se dispunha a escrever a frase seguinte. Tinha paciência e sobretudo tempo para urdir aos poucos o texto. A nós, que vivemos o imediatismo de um mundo cibernético e globalizado, resta-nos dizer simplesmente: “O sol nasceu”. O que, para falar a verdade, hoje parece não interessar a ninguém.

  • O papagaio de Humboldt

    Em fevereiro de 1800, o barão Alexander von Humboldt inicia a exploração do rio Orinoco. Recolhe diversas espécies de plantas e animais desconhecidos, mede meticulosamente a temperatura do rio, do solo e do ar, a pressão atmosférica e a inclinação magnética. Descobre uma passagem navegável entre o Orinoco e o Amazonas. É uma pesquisa atribulada, cheia de perigos e descobertas.

    Numa das pausas de tantas aventuras, Humboldt ganha de presente um papagaio. Tenta entender o que o papagaio fala – afinal, seria o princípio da comunicação entre os homens e os animais. Mas as palavras, os arremedos de frases que o papagaio enuncia não são daquela tribo que o presenteara, a Caribe, mas de uma tribo já extinta, a Mapuré. Morreram todos os índios da tribo, a língua sobrevivera, e um papagaio que a falava. Non omnis moriar, não morrera de todo a língua.

    Humboldt fica fascinado. O seu sonho é aprender a língua do papagaio Mapuré. Em pouco tempo aprendeu várias palavras, consegue formar algumas frases, primárias, mas frases. Já consegue estabelecer uma ponte linguística entre ele e o papagaio. Antes de voltar à Europa, o papagaio falava desbragadamente. Humboldt o entendia e tomava nota. Iria publicar peripécias mirabolantes de um personagem fabuloso, que muito depois Mário de Andrade leria e usaria como material para criar Macunaíma.

    No entanto, quando em alto mar, o papagaio sentiu saudades da selva, adoeceu de saudades. Além disso, Humboldt calculou que ele teria quase cem anos de idade. Em pouco, a idade e a melancolia o mataram. Alexander Humboldt escreve a seu irmão Willelm, que era o primeiro grande linguista da história. Willelm lamentou profundamente tal perda. Se tivesse aprendido a língua do papagaio, se tivessem dialogado proficuamente, poderia estabelecer os princípios da Gramática Universal, feito que Noam Chomski realizaria somente daí a uns cem anos.

    Foi assim que a morte do papagaio Mapuré provocou um grande atraso para a ciência da humanidade.

  • Aprendi a ser o máximo de mim mesmo!

    Essas foram palavras deixadas por Nelson Rodrigues, um mago da literatura, escritor, jornalista, romancista, teatrólogo, contista e cronista de costumes, e de futebol brasileiro. É considerado o mais influente dramaturgo do Brasil. 

    Além dessas palavras, acrescento outras que moldaram histórias por muitos.

    A luta.

    “Lutar foi sempre mais ou menos uma forma de cegueira, isto é diferente, farás o que melhor te parecer, mas não te esqueças daquilo que somos aqui, cegos, simplesmente cegos, sem retóricas nem comiserações, o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos. Se pudesses ver o que eu sou obrigado a ver, quererias estar cego. Acredito, mas não preciso, cego já estou, perdoa-me, meu querido, se tu soubesses, levei a minha vida a olhar para dentro dos olhos das pessoas, é o único lugar do corpo onde talvez ainda exista uma alma”. (José Saramago).

    O vazio que se foi não pode trazer saudade, deve se passar por lenda que um dia teve seu tempo frio e doído.

    O que nos restou ao final, antes de um abraço apertado na despedida, foi um beijo na testa e uma mensagem inesquecível.  

    As fotos.

    Elas provam que nossas vidas aconteceram como queríamos, e que tudo está bem, e que foram o que tinham pra ser. Daqui pra frente, após o mar recuar, esperemos o próximo movimento, que nos dirá que jamais estivemos tão perto de casa, e de nós. Sempre sabemos em algum momento especial, que a dúvida é a profunda resposta que esperávamos, a certeza não agrada, pois é resolutiva e concreta, muito além de nossas vidas reais e unidas por um propósito. Respiramos juntos até nosso próximo passo. E quando a água retroceder, avistaremos um caminho para reconstruir nossas almas, que penam pela existência doída, mas persistem no entorno da esperança latente por melhores momentos.

    O Tempo.

    Não volta pra que você possa negar algo novamente, pois sempre que quiser ter e ser, a hora subverte sua decisão e te cobra que faças teu melhor.

    Às vezes a paixão por alguém ou algo escapa de nossas mãos, e o fatal destino escrito em pedras amorosas quase sempre apaixonadas pela vida, retira momentos contraídos de um passado nobre, costurado em águas frias, aquecidas pelo sol, e movidas por nossa vaga lembrança, ressuscitada a cada amanhecer.

    O tempo volta só no pensamento de quem deseja saudar o que já foi presente. Ele nos deixou assim escolhidos pelo que miramos a cada vão dia.

    A lembrança.

    É a que nos acompanha enquanto ainda possuímos lucidez, e nossos olhos passam a saber que um dia foram as câmeras daquelas fotos que o tempo lutou pra nos manter vivos, em cada esquina de dúvidas que ainda carregamos. Como é que faço pra parar, reeditar minha vida. Copiar, colar uma nova lista que eu mais gostei, com jovens ressalvas.

    *Originalmente publicado em 20 de dez. de 2022, às 22:10

  • Os olhos e o sorriso dela

    Existiu há muito tempo um homem que dedicou sua vida a estudar o sorriso mais famoso do mundo. Enigmático, indecifrável, dissimulado, insolente — ele jamais admitiu esses adjetivos para descrever o que chamava de “o mais belo ricto da história da espécie humana”. Para ele, ali havia muito mais que um simples contrair e curvar de lábios: havia um segredo, e qual seria? Estudava, estudava. Um dia chegaria a saber.

    Já velho, o homem quase abandonou suas investigações não fosse a descoberta de um fato que mudou tudo: o artista não pintara no rosto da mulher nenhum sorriso. De seu pincel brotara apenas uma face sombria, com olhos da cor de amêndoas maduras em tempo de colheita. Eram esses olhos que seduziam o observador, que, ao admirar o retrato e sentir o despertar do desejo, sorria primeiro. Ela, senhora de si, se tivesse vontade, sorria depois.

  • O chamado

    O telefone tocou. Não olhei, de primeira, porque estava preparando o café e o pão com mortadela, para o desjejum. Entre uma coisa e outra, vacilei e vi o nome de Iasmin na tela do celular. Por que fiz isso? Foi instintivo ou uma premonição? Uma coisa absolutamente inesperada e absurda aconteceu. Era ela mesma. Quem diria… Fiquei a me perguntar se estava alucinando. Passei segundos rodopiando pela cozinha, em busca de alguma explicação, sem saber o que fazer. Comi o pão quente e me queimei. A chamada foi rápida, parou, e eu me desesperei. Teria ligado por engano? Foi um vacilo programado para me desestabilizar? Iasmin, pelo que eu conhecia, poderia ser capaz de qualquer coisa para me tirar do eixo. Ela é boa nisso. Poxa, poderia ser a oportunidade para uma reconciliação ou uma despedida sincera. Não nos víamos há, pelo menos, dois anos. Iasmin se mudou, para muito longe, outra cidade, e não se despediu de mim, talvez porque achasse que eu não tivesse tanta importância. Além de ficantes, éramos, em bons tempos, amigos. De fato, tínhamos uma relação instável; eu que, bobo, idealizei o amor, depois do nosso primeiro e único beijo. Um beijo que marcou a minha história. Era como se minha boca se encaixasse perfeitamente com a dela. Um átimo, um instante, e logo o infinito. Fiquei perdidamente apaixonado; no ato. Pensei que havia achado o meu par perfeito e que seria correspondido. Iasmin não deu bola. Procurei-a alguns dias, e não quis me atender, sempre inventando uma desculpa. A prima, que morava com ela, dizia que estava com dor de barriga, que tinha saído, até que, por fim, diante da minha insistência, disse que ela havia morrido. Decerto, o beijo não foi bom o suficiente. Lógico, eu não sabia beijar, era um “bv” completo, inacabado para o amor. Ela já era mais experiente que eu – é a pura verdade –, porque já havia namorado, tido romances etc. Eu quis, ingenuamente, mostrar que era séria a minha pretensão para a nossa relação. Levei flores que a sua mãe adorou, disse que iria adornar a casa, quando, na verdade, eu queria que sua filha se felicitasse com a grande surpresa – falo grande, porque me custou o olho da cara. Como sempre, Iasmin não deu a mínima, considerou o entulho inservível, e jogou-o pela janela, onde as folhas e flores mortas, putrefatas, contrastavam com a sua beleza magnífica, celestial. Não gostou de mim, e isso é um fato, que me corrói a cada vez que lembro da tragédia do nosso encontro. Resolvi, aflito, ligar de volta, enquanto, nervoso, tomava goles de café. Tremi a xícara e derramei um pouco na roupa (já estava pronto para sair à escola; levei um esporro daqueles). Retornei e Iasmin não me atendeu. Devia estar ocupada ou desistido do contato. Desanimei. O dia foi uma porcaria, porque eu não tinha meios para ajustar a lambança que havia cometido há tempos. Queria, por tudo que é mais sagrado, ter falado com Iasmin, para despachar o meu espírito bruto, moribundo, e me liberar.

  • O fantasma do ferro-velho

    Nunca fui de me impressionar com coisas sobrenaturais. Acho-as, inclusive, enfadonhas e desnecessárias, pois em nada contribuem para a vida prática. Trata-se de um mercado tão comum como qualquer outro. Primeiro criam um problema, depois vendem soluções fracionárias, sempre à mercê de um adicional aqui ou ali. Enrolam um pouco falando dos benefícios daquilo, simulam algum imperdível desconto e pronto, venda concluída. E não adianta, nessas e noutras, só cai quem quer. Veja bem, se você dorme, trabalha, come e caga, o que te interessa o alinhamento dos Chakras ou a Constelação Familiar?

    Essa gente meio fraca das ideias perde dinheiro porque acredita em qualquer história. Se aparece um sujeito engomadinho, enchendo a boca com algum papinho sem-pé-nem-cabeça, eles aceitam tudo como se fosse o próprio Divino Espírito Santo apontando o caminho. Sejamos razoáveis, quem fala em energia, alinhamento espiritual e o caralho-a-quatro tem cacoete de vagabundo, desocupado mesmo. E também é meio burrinho, não dá pra levar a sério.

    Ouça bem, o espiritismo só pegou no Brasil porque o povo gosta de ser enganado e ainda defende o enganador. Aqui é a terra da malandragem e da trapaça. Porra, é o PT no governo! E nem adianta se fazer de ofendido defendendo o PT ou o Chico Xavier. Tudo isso é um grande teatro. Só não vê quem não quer.

    Sendo franco, passei metade da vida dizendo nunca ter visto fantasma nenhum. E é a mais pura verdade. Coisa de frouxo, meu Deus, quanta dor de cabeça me deu toda essa história. Isso começou em oitenta e dois, quando encontraram um homem enterrado lá perto da sanga e, desde então, todo início de inverno essa falácia volta. O problema nem foi terem achado a ossada ou um corpo em putrefação. O problema foi o boato de aparições aqui perto do ferro-velho. Nos anos seguintes, toda semana inventavam uma história de fantasma e a nossa vida virou um inferno.

    Eu não fui embora porque a minha família está aqui há mais de cem anos. E posso te jurar que é tudo mentira. Nunca houve assassinato, nunca vi uma aparição durante a noite e também nunca ouvi o morto gritando no inverno. É tudo coisa dessa gente de cabeça fraca, esses vagabundos que não cuidam das próprias vidas.

    Naquela época essa bobagem de assassinato e fantasma deu um furdunço dos grandes e o ferro-velho estava no centro de tudo. Mal posso calcular o tanto de “sensitivos” ou “espíritas” que tirei aos gritos daqui. Já não me bastavam os policiais e os jornalistas… Alguns amigos até me aconselharam a ir embora, mas, no fim das contas, a gente não podia fazer nada. Fugir do que não existe? Para onde? Por qual motivo?

    E ainda piora. Dia desses apareceu dois desocupados querendo gravar um filme aqui no ferro-velho, contando a história do fantasma, acredita? Eu peguei a espingarda e toquei eles daqui rapidinho. Nunca mais voltaram e nem perceberam que era uma carabina de pressão. No máximo ia arranhar um desses bebezões. Gente frouxa, puta merda.

    Infelizmente, naquele tempo nem toda família pensava igual. Aquela história aflorava os ânimos e não tinha como fugir do assunto. Dos meus três filhos, o Joaquim continua aqui e, segundo alguns conhecidos, se parece muito comigo. Eu não acho. O Rubens se mudou e não volta. Até hoje tenta convencer a gente a ir embora também. O Rodolfo se foi antes do acontecido, nunca mandou uma carta nem deu um telefonema, se perdeu no mundo ou está morto e enterrado. Não tenho como saber.

    Veja você, quando acordamos num domingo ele não estava mais em casa. Os três já tinham mais de dezoito, então podiam cuidar de si mesmos. Nunca me importei muito com o futuro deles porque foram criados na base do trabalho, então se virariam em qualquer lugar. No fim das contas, o desaparecimento do Rodolfo foi até bom porque ele e o Joaquim nunca se deram bem. Viviam brigando e se ameaçando, às vezes quebravam coisas pela casa. Eles se odiavam profundamente. E a gente sabe, quando o ódio é com o irmão, boa coisa não sai e nem adianta tentar consertar. Às vezes nem a distância garante um pouco de paz.

    Percebi uma desavença incurável entre eles quando o Joaquim empurrou o irmão de cima de uma árvore. Foi a primeira vez que Rodolfo quebrou o braço. E foram várias. Uma vez, inclusive, peguei o Joaquim o perseguindo com um martelo. Não deixei brigarem naquele dia, claro, mas não julgo. Eu mesmo não me dava com o meu pai. Por sorte, um dia ele saiu de carro e não voltou. Duas noites depois o acharam esmagado no fundo de uma ribanceira. Não sobrou nada. A polícia disse ter demorado para o encontrar porque na pista não havia marca de freios. Minha mãe botou a culpa na cachaça. Por fim, acabei tomando conta do ferro-velho.

    Pois bem, sobre o tal fantasma, nunca o vi nem tive medo. O pessoal é meio assustado e acaba inventando coisas. Gente frouxa dos infernos, mas a verdade é a seguinte…

    — Ô pai, tá falando sozinho de novo?

  • As 7 Palavras de Cristo na Cruz

    A pergunta foi direta como um chute do infalível Bruce Lee em seus melhores dias: por que as últimas 7 palavras de Cristo na cruz? E o poeta, sem querer fazer poesia, respondeu na sua forma sertaneja de ser.

    Mas, afinal, por que “sertaneja”? Simples. O poeta, escritor e dramaturgo premiado no Concurso Nacional Universitário de Peças Teatrais, promovido pelo Serviço Nacional de Teatro do Rio de Janeiro, com a peça “A Cruz da Menina”, nasceu na cidade de Patos, distante pouco mais d 300 km da capital da Parahyba, na mesorregião do Sertão Paraibano.

    Mas, como dizia, a pergunta não poderia ficar parada no ar. O título um tanto estranho, mas bem escolhido como os títulos de um José Cândido de Carvalho, “olha pro céu, Frederico” e “Se eu morrer, telefone para o céu”, entre outros, vocês sabem que assim como eu não era poeta, é esse mesmo: “As 7 palavras de Cristo na Cruz”.

    O Livro, porém, pelo fato de o poeta escolher o soneto para poetar no universo de sua religião, a católica, essa forma de poesia que até parece fácil, dois quartetos e dois tercetos, não se limita apenas ao “tema religioso”. Outros poemas, todos na forma de soneto, nele dispostos, também conservam a mesma técnica e a capacidade poética de encontrar a melhor rima para e a palavra exata para o poema.

    Os sonetos dispostos, intitulados de Gólgotas, enumerados de um a sete, pois, afinal, não fosse assim o titulo não se justificaria, obedecem regiamente a ordem das palavras proferias pelo Cristo na Cruz, onde, por exemplo, mesmo sabendo-se Cristo e inocente perdoava aqueles que o crucificavam. Lembramos, porém, que a ordem das frases pelo Cristo proferida nos sonetos do poeta, variam de acordo com as quem escreveu. No caso do poeta José Mota Victor, os sonetos seguem o que escrevera o evangelista Lucas.

    “… Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!”.

    Era a misericórdia de Deus aos que o mataram.

    Os versos são do soneto “gólgota” primeiro, inspirados no momento em que o Cristo perdoava a ignorância dos que o crucificavam. Sabia o filho de Deus, tinha certeza que eles, os soldados romanos, não estavam sabendo o que faziam naquele momento. E assim, ratificando o que fora pelo mesmo dito em outro momento, segundo, claro, a Bíblia, perdoava os seus inimigos, dava-lhes o outro lado da face para ser esbofeteado.

    E assim o poeta, comprovadamente de origem religiosa, católica por tradição, assim como este malabarista de palavras, inspirado nas últimas palavras de Jesus na cruz, segue mostrando que fazer Sonetos, assim como dissera um dia o Noel Rosa a respeito do samba, não se aprende no colégio.  

    O poeta José Mota Victor, sabe e domina a técnica do soneto como poucos. No soneto “Morfologia do Soneto”, por exemplo, esse também presente no livro, ele deixa claro “Que no soneto e mais que a ode/ Que é poema de tamanho irregular/ No soneto o verso quer aprisionar/O poeta, que esperneia como pode”.

    E sai desfilando poética e harmoniosamente o conceito por todos conhecidos desse que vem a ser um soneto petrarquiano.

    Em seguida, aproveita os tercetos, mostrando o domínio que os bons poetas tem dos versos que escrevem, para concluir:

    “Os dois quartetos e os dois tercetos
    São as belezas formais do Soneto
    Os quartetos são para exposição…
    O núcleo é no primeiro terceto,
    No seguinte se tem o desfecho
    E do poeta requer inspiração…

    O Livro “As 7 palavras de Cristo na cruz” tem o seu forte nos sonetos inspirados por elas, isto é, nas últimas sete palavras do filho de Deus na cruz. São essas, “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem; Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no paraíso!; Mulher ai esta o teu filho!; Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?; Tenho sede!; Está consumado. E Pai, em tuas mãos entregam o meu espírito!”.

     Essas formam o “núcleo” do livro. Outros sonetos, porém, inspirados nas histórias e lembranças do poeta patoense, fazem parte.  Um livro inspirado de um poeta que sabe o que pretende dizer e, poeticamente, diz muito bem o que sabe.

  • A certeza que cansa o olhar

    Otto Lara Resende escreveu uma das minhas crônicas favoritas: “Vista cansada”. Li pela primeira vez na faculdade de Letras. Depois, voltei a ela muitas vezes, sempre com o mesmo incômodo. É uma crônica triste, muito triste. Diz que, de tanto ver, chega uma hora em que já não se vê mais ninguém — nem o porteiro, nem a mulher, nem o vizinho.

    Mas o que fica, mesmo, não é só a tristeza. É a suspeita.

    Ao ler Otto, me ocorre que a gente não deixa de ver por distração. A gente deixa de ver por certeza.

    A certeza de que o outro vai estar ali amanhã.

    E é aí que tudo começa a desaparecer.

    Tem marido que se acostuma com o jantar na mesa, sempre na mesma hora. Não se pergunta quem é aquela mulher que cozinha todos os dias. Porque, no fundo, acha que aquele prato vai estar ali para sempre.

    Tem amigo que atende na primeira chamada, que topa uma cerveja em qualquer terça-feira, que escuta, aconselha, insiste. E vira paisagem. Não porque mudou, mas porque parece garantido.

    Tem porteiro que abre o portão, deseja “bom dia”, sustenta um sorriso que nem sempre volta. Passa anos ali, invisível, como se fosse parte do prédio.

    Não são objetos. Mas são tratados como se fossem.

    Eu já fui esse sujeito apressado. Já passei direto, sem dizer um “bom dia”. Já preferi o celular a um rosto. Já tratei como cenário aquilo que era presença.

    Tem mãe que prepara o café, pergunta da noite, espera uma resposta inteira. O café esfria, a resposta não vem, porque, de algum jeito, a gente acredita que aquele gesto vai se repetir para sempre.

    Mas não vai.

    Ou a pessoa morre,
    ou adoece,
    ou se cansa,
    ou simplesmente vai embora.

    A relação acaba — às vezes de forma brusca, às vezes quase sem barulho.

    E o que sustentava a distração era uma ilusão: a de que havia tempo.

    Se há uma certeza, é essa: nada disso é garantido. Nenhum rosto, nenhum gesto, nenhum afeto. A permanência que a gente imagina é uma invenção confortável.

    Talvez por isso a gente não veja.

    Corre-se atrás de dinheiro, de compromissos, de pequenas urgências. Compra-se, paga-se, resolve-se. Os afetos ficam para depois, quando sobra tempo, quando não há nada mais importante.

    Quase nunca sobra.

    A gente não enxerga as pessoas porque, no fundo, acha que elas são eternas. Ou, pelo menos, eternas o suficiente para esperar.

    A certeza embaça a vista, cansa o olhar.

    E então, quando alguém morre — ou adoece, ou vai embora —, vem a pergunta, meio infantil, meio desesperada: “Mas não era para sempre?”

    Não era.

    Nunca foi.

    Talvez baste lembrar disso um pouco antes, no meio da rotina, no meio de um café ainda quente, no meio de uma conversa qualquer.

    Talvez, assim, por um instante, a gente consiga ver.

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