Crônicas Cariocas

  • Trilhas da Minha Vida – parte 1/5

    Um grande filme deve vir acompanhado de uma trilha sonora à altura. A música tem o poder de potencializar as sensações a nós repassadas pelas cenas assistidas. Em alguns casos, fica tão intimamente vinculada às imagens que delas se torna indissociável. Muitas obras cinematográficas devem seu sucesso à trilha sonora, havendo casos em que esta chega a ofuscar o próprio filme. Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida.

    1) BLADE RUNNER (Ridley Scott), 1982

    Ridley, responsável por filmes icônicos como ALIEN O OITAVO PASSAGEIRO, GLADIADOR e THELMA & LOUISE, atingiu seu ápice com o ficção científica BLADE RUNNER, um dos maiores filmes de todos os tempos, em que Harrison Ford encarna um caçador de androides. Recebeu uma trilha sonora compatível com sua excelência, assinada por Vangelis Papathanassiou. O músico grego começou sua carreira no grupo pop Aphrodite’s Child e acabou enveredando pelo caminho da música orquestral eletrônica batizada inapropriadamente de “new age”. Mas o auge veio com as trilhas sonoras como as de 1492 A CONQUISTA DO PARAÍSO, ANTARCTICA e a vencedora de Oscar CARRUAGENS DE FOGO (CHARIOTS OF FIRE). Em BLADE RUNNER, Vangelis acertou a mão no acompanhamento da ambientação futurista criada pelo diretor. E ainda esnobou fazendo uma das canções românticas mais calientes da história, LOVE THEME, mesclando sax com sintetizador.

    2) NOVIÇA REBELDE (Robert Wise), 1965

    Clássico dos clássicos, esse musical continua fascinando gerações com melodias compostas pela dupla Rodgers/Hammerstein que já emplacara vários sucessos na Broadway. A música está estampada até no título original, THE SOUND OF MUSIC. A saga da família Von Trapp comandada militarmente por Christopher Plummer e a irrequieta freirinha a ela agregada (Julie Andrews) é contada através de melodias que parecem não envelhecer como a que acompanha grandiosa abertura (num verdíssimo gramado tendo os Alpes austríacos ao fundo) ou a singela DO RE MI. Wise dirigiu outro famosíssimo musical, WEST SIDE STORY, com temas compostos pelo maestro Leonard Bernstein. Aventurou-se também pela ficção científica dirigindo O DIA EM QUE A TERRA PAROU e posteriormente, STAR TREK com uma grandiosa trilha orquestral conduzida por Jerry Goldsmith.

    3) AMARCORD (Federico Fellini), 1973

    O compositor italiano Nino Rota fez trilhas antológicas para o cinema como as d’O PODEROSO CHEFÃO de Coppola, ROMEU E JULIETA e A MEGERA DOMADA de Zefirelli, MORTE SOBRE O NILO de Guillermin e O LEOPARDO de Visconti. Mas seu colaborador mais fiel foi Federico Fellini com quem trabalhou em praticamente toda sua vasta filmografia: OS BOAS-VIDAS, 8 ½ , SATYRICON, AS NOITES DE CABÍRIA, BOCCACCIO 70, CASANOVA, JULIETA DOS ESPÍRITOS, LA DOLCE VITA etc. A nostálgica e comovente trilha de AMARCORD certamente é seu mais belo trabalho. O filme autobiográfico que retrata a infância do diretor num pequeno vilarejo italiano é considerado uma das maiores obras do cinema. Impossível não a associá-la à belíssima música tema.

    4) MÁGICO DE OZ (Victor Fleming), 1939

    OVER THE RAINBOW tornou-se uma das canções mais adoradas de todos os tempos com centenas de gravações por artistas dos mais variados gêneros, de Frank Sinatra a Eric Clapton, de Ella Fitzgerald a Mariah Carey, de Nara Leão a Paula Fernandes. A gravação original foi composta nos anos 30 pela dupla Arlen/Harburg, integrando a trilha do filme THE WIZARD OF OZ especialmente para a interpretação de Judy Garland, então com 16 anos. Naturalmente faturou o Oscar (a trilha e a canção original). No mesmo ano, Fleming viria a dirigir outro clássico, E O VENTO LEVOU, com trilha de Max Steiner (com o famosíssimo TARA’S THEME). Max é outro campeão de trilhas com 24 indicações ao Oscar. São dele as trilhas de CASABLANCA e do primeiro KING KONG (1933).

    5) LARANJA MECÂNICA (Stanley Kubrick), 1971

    Stanley Kubrick foi um dos maiores diretores de todas as épocas, senão o maior. Era aficionado por música clássica. Quem não se lembra de ALSO SPRACH ZARATHUSTRA e da valsa DANÚBIO AZUL de Strauss em 2001 UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO? E também Schubert (BARRY LYNDON), Chopin (LOLITA), Bartok (O ILUMINADO). Em sua última produção, DE OLHOS BEM FECHADOS, flerta com arrojadas composições do húngaro György Ligeti com fragmentos de uma liturgia ortodoxa cantada em romeno. Mas a trilha mais cativante permanece sendo a de LARANJA MECÂNICA (CLOCKWORK ORANGE) em que funde peças tradicionais de Beethoven com música eletrônica. A cena de abertura em que o personagem central vivido por Malcolm McDowell se delicia com sua gangue de arruaceiros na leiteria Korova ao som da peça composta por Wendy Carlos é de arrepiar.

    6) OS INTOCÁVEIS (Brian de Palma), 1987

    Ao lado de John Williams, Ennio Morricone é o mais importante ‘trilheiro’ do cinema contemporâneo. Dentre as memoráveis, CINEMA PARADISO (Tornatore), ERA UMA VEZ NA AMÉRICA (Sergio Leone) e A MISSÃO (Joffé), obras dos Irmãos Taviani, Pasolini, Almodóvar além, é claro, dos famosos temas para os ‘western spaghetti’ como POR UM PUNHADO DE DÓLARES, O BOM O MAU E O FEIO e QUANDO EXPLODE A VINGANÇA. E filmes com conteúdo político como SACCO E VANZETTI, INVESTIGAÇÃO SOBRE UM CIDADÃO…, 1900, BATALHA DE ARGEL e QUEIMADA. Trabalhou até com Tarantino em OS OITO ODIADOS (que lhe rendeu o único Oscar, reparador, já que é uma trilha “menor”). A comovente trilha de THE UNTOUCHABLES nos conduz ao enfrentamento do quarteto liderado por Kevin Costner e Sean Connery contra o poderoso Al Capone (Robert de Niro). Palma tem uma respeitável filmografia, destacando-se sua colaboração com Pino Donaggio em CARRIE A ESTRANHA, VESTIDA PARA MATAR e DUBLÊ DE CORPO.

    7) TUBARÃO (Steven Spielberg), 1975

    O maestro John Williams é o compositor mais requisitado de Hollywood.  O único concorrente que lhe fez frente em número de indicações ao Oscar é Alfred Newman. Entre suas famosas trilhas orquestrais épicas, as sagas de HARRY POTTER e STAR WARS. Spielberg é seu amigo particular e o mais assíduo colaborador. Grande parte de seus filmes, inclusive ET, JURASSIC PARK, A LISTA DE SCHINDLER, CONTATOS IMEDIATOS e a série completa INDIANA JONES é dele. TUBARÃO (JAWS) foi uma das primeiras colaborações entre os dois (e possivelmente a mais bem sucedida). A sequência mais marcante é a que precede as investidas mortais do sinistro esqualo, criando uma tensão no espectador que, ao escutá-la, prepara seus nervos para o impiedoso ataque.

    8) PANTERA COR-DE-ROSA (Blake Edwards), 1963

    Henry Mancini é um nome que não poderia deixar de figurar em primeiro plano. Os temas cômicos para duas trilhas tornaram-se famosíssimos. A PANTERA COR-DE-ROSA e HATARI (com a famosa DANÇA DO ELEFANTINHO). Compôs ainda as trilhas dos clássicos CHARADA (Stanley Donen) com Cary Grant e Audrey Hepburn, VICTOR OU VICTÓRIA com Julie Andrews e BONEQUINHA DE LUXO com Hepburn (ambos de Blake Edwards), incluindo MOON RIVER, uma das mais belas melodias de todos os tempos. Não bastasse tudo isso, é dele também o famosíssimo tema de abertura da série televisiva Peter Gunn.

    9) VERÃO DE 42 (Robert Mulligan), 1971

    O pianista, maestro, compositor e arranjador francês Michel Legrand foi um dos mais respeitados músicos do século XX, responsável por mais de 200 trilhas, como as de O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, THOMAS CROWN AFFAIR e YENTL de Barbra Streisand, com destaque para 2 clássicos da nouvelle vague de Jacques Demy, OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR e AS JOVENS DE ROCHEFORT, além de trabalhar com diretores cultuadíssimos como Orson Welles, Malle, Godard e Wajda. Fez ele uma ponte entre a chanson francesa e os musicais de Hollywood. A trilha de SUMMER OF 42, película que retrata a paixão proibida de um adolescente por uma mulher mais velha, cujo marido estava afastado, rendeu-lhe um Oscar, com destaque para o belíssimo tema THE SUMMER KNOWS. O diretor Mulligan é o mesmo de O SOL É PARA TODOS com Gregory Peck (trilha de Bernstein)

    10) EM ALGUM LUGAR DO PASSADO (Jeannot Szwarc), 1980

    John Barry é outro nome imprescindível quando se trata de música para o cinema. Dentre suas trilhas, DANÇA COM LOBOS, ENTRE DOIS AMORES (OUT OF AFRICA), CHAPLIN e KING KONG (versão de 1976). Mas duas são absolutamente magistrais: PERDIDOS NA NOITE (MIDNIGHT COWBOY), incluindo o melancólico tema executado com gaita (a trilha traz também a famosíssima EVERYBODY’S TALKING interpretada por Harry Nilsson); e SOMEWHERE IN TIME, cuja música tema é indissociável do drama do sonho desfeito vivido pelo personagem de Christopher Reeve.  Além disso, Barry assinou temas para os primeiros filmes de 007, tendo inclusive elaborado os arranjos do famosíssimo tema original de James Bond. O diretor Szwarc é o mesmo de TUBARÃO 2.

    11) BUTCH CASSIDY AND SUNDANCE KID (George Roy Hill), 1969

    Burt Bacharach é um celebrado compositor, com pérolas do cancioneiro norte-americano, reconhecido sobretudo nas vozes de Dionne Warwick, Aretha Franklin e os Carpenters. Quem ousa dizer que não gosta de I’LL NEVER FALL IN LOVE AGAIN, THE LOOK OF LOVE, I SAY A LITTLE PRAYER, CLOSE TO YOU? E naturalmente RAINDROPS KEEP FALLING ON MY HEAD que integra a trilha desse filme estrelado por Paul Newman e Robert Redford (a mesma dupla protagoniza outro sucesso do diretor, GOLPE DE MESTRE, que também possui uma trilha genial com base no ragtime de Scott Joplin). Bacharach compôs mais duas trilhas memoráveis, HORIZONTE PERDIDO e CASSINO ROYALE (não confundir com o filme de 007 de 2006).

    12) PSICOSE (Alfred Hitchcock), 1960

    A obra máxima de suspense de Hitchcock, à época causou furor e pânico nas salas de projeção, especialmente a tétrica cena do assassinato a facadas no chuveiro, um dos takes de maior tensão da história do cinema. O grau máximo de apreensão ocorre em função do famosíssimo acompanhamento de violinos estridentes criado por Bernard Herrmann. O maestro nova-iorquino tem um precioso currículo tendo composto trilhas de obras primas do cinema como CIDADÃO KANE de Orson Welles, FAHRENHEIT 451 de François Truffaut, TAXI DRIVER de Martin Scorsese e TRÁGICA OBSESSÃO de Brian de Palma. Mas o maior destaque refere-se à filmografia de Hitchcock que inclui dentre outros VERTIGO e O HOMEM QUE SABIA DEMAIS.

    13) LAWRENCE DA ARÁBIA (David Lean), 1962

    Maurice Jarre é outro colecionador de indicações ao Oscar. Venceu em DOUTOR JIVAGO, PASSAGEM PARA A ÍNDIA e LAWRENCE DA ARÁBIA, três clássicos do diretor David Lean. Esse último é considerado uma das mais ambiciosas obras da história do cinema e ganhou de Jarre uma trilha com a grandiosidade compatível com o esplendor das imagens. Jarre inovou agregando instrumentos étnicos e eletrônicos em seus arranjos, constituindo-se um dos precursores da world music da qual seu filho Jean Michel tornou-se celebridade. Maurice assinou também as trilhas de A TESTEMUNHA, SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS e GHOST (embora a canção que identifique o filme seja UNCHAINED MELODY com a dupla Righteous Brothers). Quanto a Lean, deve-se citar também A PONTE DO RIO KWAI que revelou a memorável marcha COLONEL BOGEY.

    14) A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (Mike Nichols), 1967

    Mike Nichols estreou na direção com o icônico QUEM TEM MEDO DE VIRGÍNIA WOOLF? com intensas atuações de Elizabeth Taylor e Richard Burton. Mas sua trilha mais famosa é a de THE GRADUATE, filme onde o jovem Dustin Hoffman mantém uma relação complicada com a sedutora Sra. Robinson, vivida por Anne Bancroft. As desventuras do personagem são acompanhadas por canções de Simon & Garfunkel que se tornaram verdadeiros hinos pop dos anos 60, como SOUNDS OF SILENCE, MRS. ROBINSON e SCARBOROUGH FAIR. A dupla norte-americana não tem tradição de compor para o cinema. Nem precisa, já que vendeu dezenas de milhões de discos.

    15) AMÉLIE POULAIN (Jean-Pierre Jeunet), 2001

    Os trabalhos do multi-instrumentista francês Yann Tiersen receberam influência do compositor clássico Erik Satie e dos minimalistas, sobretudo Michael Nyman (que também se tornou conhecido pelas trilhas que compôs). Tiersen ganhou repentina projeção mundial justamente pela belíssima trilha de AMÉLIE POULAIN. A composição para piano, violino e harmônica consegue transportar para a música com perfeição o pequeno, porém fascinante mundo, vivido pela personagem representada por Audrey Tautou e suas peraltices pelas coloridas ruas de Montmartre. Tiersen não é um grande habitué de trilhas. Além dessa, destaca-se apenas a trilha de outro grande filme, o alemão ADEUS LÊNIN que guarda semelhanças com a de AMÉLIE.

    16) CABARET (Bob Fosse), 1972

    Musical de Bob Fosse (que também é coreógrafo e dançarino) estrelado por Liza Minelli que retrata com maestria e fidelidade o ambiente vaudeville de um cabaré de Paris durante o período de ascensão do nazismo. Só não ganhou o Oscar porque o concorrente era nada menos do que O PODEROSO CHEFÃO de Coppola. As canções de John Kander e Fred Ebb (que também compuseram para NEW YORK NEW YORK, FUNNY LADY e CHICAGO), boa parte executada no palco da casa de espetáculos, ao lado do mestre de cerimônia representado pelo impagável Joel Grey, são inesquecíveis. Bob ainda dirigiria outro grande musical, ALL THAT JAZZ (Palma de Ouro em Cannes) com outra bela trilha sonora (assim como CABARET, supervisionada por Ralph Burns) com destaque para ON BROADWAY com George Benson.

    17) PINÓQUIO (Walt Disney), 1940

    O compositor Alan Menken é o preferido dos estúdios Disney para trabalhar trilhas de êxito como A PEQUENA SEREIA e A BELA E A FERA. A ele minhas desculpas, mas a melhor trilha Disney continua sendo a do clássico PINOCCHIO de 1940 de criação coletiva, que traz a maravilhosa canção WHEN YOU WISH UPON A STAR (Jiminy Cricket), ganhadora do Oscar. Segunda superprodução dos Estúdio Disney (a primeira foi BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES que também possui uma trilha excepcional que inclui HEIGH OH: “Eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou”), o longa de animação marca o auge da perfeição técnica do desenho animado.

    18) WOODSTOCK (Michael Wadleigh), 1970

    Aqui a trilha é o próprio filme. Oscar de documentário, a película registra o mais importante festival de música de todos os tempos, ocorrido em 1970 na fazenda de Woodstock, Califórnia. Na pauta, o surgimento do movimento hippie, amor livre, consumo de drogas e protestos contra a guerra do Vietnã. No cardápio, canções memoráveis, sobretudo rock, que fizeram a cabeça da geração ‘flower power’, executadas por nomes como Jimi Hendrix, Santana, The Who, Ten Years After, Jefferson Airplane e Joe Cocker. Mas havia também o funk de Sly and Family Stone, o blues de Canned Heat e o folk de Crosby, Stills Nash &  Young, Joan Baez e John Sebastian. As canções foram reunidas num álbum triplo. Posteriormente, saiu um volume 2, duplo com canções relegadas no primeiro registro.

    19) KOYAANISQATSI (Godfrey Reggio), 1982

    Esse é um dos exemplos em que a trilha, assinada pelo compositor erudito Philip Glass, tornou-se tão celebrada e impactante que praticamente empanou o brilho do filme. Trata-se de um documentário, se é que podemos assim o definir, “narrado” através de um painel de imagens que mostra o alvoroço da vida “moderna” (refere-se ao ano de 1982, quando a produção foi rodada). A música desempenha presença crucial na retratação da paranoia. Aliás, no filme não há diálogos, apenas uma sequência frenética de cenas desconcertantes. As peças minimalistas executadas por um mestre do gênero casaram perfeitamente com as imagens. O filme foi o primeiro da trilogia “qatsi” que inclui POWAQQATSI e NAQOYQATSI do mesmo diretor, também “trilhadas” por Glass. Após a bem sucedida empreitada, Glass tornou-se bastante requisitado, assinando trilhas de filmes importantes, como AS HORAS, MISHIMA, KUNDUN e TRUMAN O SHOW DA VIDA.

    20) PARIS TEXAS (Wim Wenders), 1984

    Além do icônico ASAS DO DESEJO, o diretor alemão Wim Wenders realizou obras-primas como BUENA VISTA SOCIAL CLUB, documentário que resgatou uma geração esquecida de artistas cubanos. O produtor musical foi o guitarrista californiano Ry Cooder, com quem Wenders já havia trabalhado em PARIS TEXAS, Palma de Ouro em Cannes. Aqui, os cortantes solos de guitarra de Cooder fornecem o clima melancólico e agreste dos rincões desérticos do Texas onde se desenrola a trama. Outro documentário a destacar de WW é O SAL DA TERRA sobre a obra do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado.

  • A visita

    É domingo e ele vai à casa de um tio. Não gosta de visitas familiares, mas nem sempre é possível evitar. Para aumentar o desconforto, o fato de desprezar tais encontros já é motivo de culposos sentimentos – e o menino sofre duas vezes. Primeiro consigo mesmo, devido a essa intolerância aparentemente inexplicável e injusta – sobretudo injusta; depois pela ocasião mesma do encontro, confusão de afagos e venenosas ironias. E sempre o mau jeito, ou o pejo, de revelar ao menos por indícios o amor.

    Talvez a prévia decepção é que se converta em hostilidade, de que ele no fundo queria desarmar-se para se abrir à necessária ternura. Necessária, possível. Por que era sempre mais fácil com os estranhos?

    É domingo e o menino vai. Entufado, mais menino do que nunca, engolfado em mágoas que não consegue explicar (nem direito sentir!), vai ao dever social como para um sacrifício. Vai compor as aparências mas, por que negar?, vai também pela curiosidade de se ver pelos olhos e gestos e tiques dos que lhe são carne e sangue. Acaso ele era melhor? Vai como quem tenta, mais uma vez, descobrir o caminho que leva à aceitação, para umidificar o deserto interior em que há muito vinha se crestando.

    E vai até como quem se arrepende de ter criado o drama – ele, o imaginoso e difícil –, os fios e nós cegos que acabaram enredando-o numa teia de incompreensão e espanto. Queria desatar-se, respirar.

    No caminho se conversa risonhamente sobre tudo, a euforia dominical tornando os parentes camaradas. Faz sol, venta um pouco, e todos (o menino também) parecem transfigurados pela força dessa manhã. Agora não é ocasião de mágoa ou medo; agora é para esquecer o ranço dos anos, a indelével inscrição na carne, na alma. Agora é como um entreato que faz parte da encenação mas desobriga as pessoas do papel – isso que foi se convencionando devagar, e com força, ao longo do tempo. Agora parece um instante gratuito, autônomo, do qual emerge um estranho desejo de absolvição.

    Quando chegam à casa do tio, ainda estão inebriados. Vem o parente que se tornou distante e manda todos entrarem. Nem precisava. Respondendo e perguntando, era mui cordato o dono da casa; ficava-se bem à vontade. Ele estava entre os humildes da família e vivia essa condição com uma alegria que poupava aos outros o remorso. Sua casa devia ser lugar de concórdia. O menino se penitencia por não ter lembrado isso, confundindo um manso, uma ovelha boa, com alguns os parentes maus.

    Sentam-se todos e se põem a conversar. Lembranças vêm à tona, e o domingo retrocede a outros cenários; a família curte uma espécie de saudade jovial. Tudo leve, sem sombras. Mas não por muito tempo. De repente salta o comentário suspicaz e malévolo de alguém vigilante:

    — A mulher dele, cadê? (A mulher desse tio, realmente, ainda não dera as caras.) Será que não quer ver a gente?

    A insinuação fica no ar como um pássaro tentador que logo os parentes, vorazes, se apressam em segurar.

  • Receita para se aburguesar

    Como perspicaz observador do seu tempo, Gregório de Matos soube compreender bem o papel da aparência naquela sociedade, o que o levou a compor um soneto intitulado “Remédios para enfidalgar”. Os tempos são outros, a sociedade é outra e os estratos sociais são outros. É verdade. Porém, embora com lugar diferente e mais distante do “ser”, o “aparecer” continua presente. Tem, inclusive, efeito curioso em determinados sujeitos inconscientes de sua classe.

    Assim, gostaria, agora, de propor uma receita para se aburguesar (na aparência).

    Ostente algum sobrenome. Se soar minimamente gringo, melhor. Caso tenha nascido no período de decadência da família e aquele penduricalho em seu nome nada mais possa significar, não há problema, continue a se gabar dele.

    Há parentesco com certa personalidade conhecida? É forçoso falar: “sou parente de fulano de tal”, mesmo que o tal fulano nem saiba quem é você. Os familiares defuntos são mais úteis para isso, pois já não podem dizer “Meu parente? Conheço não”. Lembremos, aqui, do nosso boca do inferno: “saiba a todo o cavalo a parentela, o criador, o dono e o defeito.”

    É necessário se endividar, não sendo a dívida a da necessidade. Quando não tem, mas precisa mostrar, o caminho é um só, o encalacramento. Apesar de seu salário não comportar os costumes frívolos dos sujeitos de pompas nobres, é inescusável não procurar os reproduzir. Acima de tudo, nunca aperte os cintos, você tem uma imagem a zelar. O bom remediado que se acredita burguês sempre tem um débito a saldar e a esconder.

    Nos tipos que observei, é muito comum o tal “ser chique”. Admito ao leitor, não consegui compreender bem o que seria isso. Todavia, alcançar esse ideal não parece difícil, tirar foto com uma taça de vinho é o suficiente.

    Despreze tudo que seja nacional, principalmente se for popular, e glorifique o que é de fora. Dizer que vai à roda de samba não pega bem. “Madame não gosta que ninguém sambe”, como o objetivo é se assemelhar a madame, adote a mesma opinião.

    Além de tudo, finja intimidade com outros países. Sem esquecer de os enaltecer, fale da Itália ou dos Estados Unidos no almoço como se lá ocorresse o seu passeio dos finais de semana. Comparações são sempre bem-vindas, até quando não possuem qualquer sentido de existir e a valorização do estrangeiro menos ainda.

    Esses são só alguns exemplos, vejamos o fundamento: a mimese. Pelo menos, a sua tentativa. É imprescindível a pose, saber fingir ser. “Faça mesuras de A. com pé direito.” Claro, faltará o essencial, o que faz o burguês ser burguês. Tudo bem, macaqueie; no fundo, é disso que se trata.

    Não se importe com os verdadeiros lordaços, que lhe olham com o ar de desdém que lançam a todos os trabalhadores (como você), mas com o acréscimo do ridículo imputado às suas práticas. Não ligue para isso. Afinal, tu crês que é um deles, então, seja firme, siga seu devaneio.

    Acreditando corresponder ao que não é, repugne os seus, como o burguês autêntico lhe repugna. Procure se aproximar desses e se distanciar daqueles; quando, na verdade, está colado com os que trata como outros e apartado dos que você vê como seus irmãos. Nisso, pode até tentar criar (na sua mente) uma nova classe, uma suposta média.

    Não dê atenção ao que os outros irão pensar; ademais, haverá sempre “quatro asnotes de bom ouvir e crer”, que irão se juntar a você, a fim de completar a manada. Porém, se sonha com os ricos, vive entre os pobres e compartilha com eles os mesmos pesadelos.

  • Bethoven nos salvará

    Nos enredos de futuro catastrófico um dos temas mais recorrentes é a invasão da Terra por alguma raça alienígena ultra avançada. Os aliens chegam enfurecidos e destroem a humanidade e o que chamamos de civilização. Nem sempre por completo porque sobram alguns homo sapiens que se organizam e por fim derrotam o invasor mega tecnologicamente avançado.

    Bom, eu penso eventualmente nessa ideia. Não a extinção da raça humana mas a ameaça vinda de algum ponto do espaço. No livro “3001: A última odisséia”, do Arthur C. Clarke, ele trata dessa ideia usando personagens que conhecemos desde “2001: uma odisséia no espaço”. A saber, os astronautas, HAL 9000 e o monolito.

    O motivo dos extraterrestres no livro do Clarke para nos exterminar é bem conhecido de todos nós: nossa selvageria e capacidade crescente de eliminarmos uns aos outros. Não vou contar de quem parte a iniciativa de nos varrer do universo nem como termina tudo. Vai lá e lê o livro.

    Mas me pego pensando o seguinte: e se um dia nos depararmos com essa situação? Ali, diante da encruzilhada entre a vida e a extinção, o que ou quem nos salvará? Para mim a resposta é simples: Bethoven.

    O gênio alemão nos tirará do patíbulo, livrando nossos pescoços selvagens do cutelo alienígena.

    Por que? Basta que a missão punitiva extraterrestre escute “Ode a alegria”. Ela é o quarto movimento da Nona Sinfonia e tem um coro que entoa os versos de outro alemão, Friederich Schiler. O poema apela à fraternidade e busca o melhor lado do ser humano.

    Dito assim eu não disse nada a respeito dela. Porque ela é indescritivelmente bela. Confesso, diante da meia dúzia de leitores que gentilmente passeiam seus olhos por minhas crônicas, que eu choro quando escuto “Ode a alegria”.

    E minhas lágrimas se reuniriam as dos aliens que enxugando os olhos – ou algo de mesma função – diriam entre eles: são selvagens mas se fizeram música assim merecem uma segunda chance.

    Não a desperdicemos.

  • Quando o nosso nome estiver gravado na pedra

    Até os dez anos me chamei Donato, embora meus pais nunca tivessem gostado desse nome. Por que me batizaram assim é um mistério. “Não está com o rosto definidoainda”, diziam. “Quando for adulto e sua cara indicar que nome deve ter, mudaremos.” E assim foi. Aos doze, com a mudança de voz, decidiram que Donato já não combinava comigo, e que o melhor nome para meu rosto recém-estreado na adolescência seria Adalberto — Beto para os amigos. Esse nome durou até a noite de núpcias, quando, no momento crucial, minha mulher me chamou de César. “Céeeesar!”, gritou ela, antes de largar o corpo na cama, suado e satisfeito. Ela casou com o Beto e tirou a virgindade do César, meus amigos faziam sempre a mesma piada.

    Desde então mudei de nome em outras três ocasiões: no escritório em que fui trabalhar eu me sentia Oswaldo, e assim me apresentava a todos; na faculdade, Péricles; na mesa de jogo, antes de bater o punho e gritar ‘Truco!”, Evanildo.

    Meus amigos se confundiam. Para facilitar a vida deles, aceitei que colocassem no meu pescoço uma tabuleta com o nome vigente e, mesmo assim, ficavam pouco à vontade quando tinham de me chamar. Achavam essa mudança de nome uma bobagem. “A gente nasce, ganha um nome e fica com ele até o fim, até morrer, não é esse o normal?”, perguntavam sempre. Eu respondia que eles tiveram sorte, que o rosto deles se moldou ao nome que ganharam no batismo e não havia necessidade de mudar. Não era o meu caso, meu rosto não era sempre o mesmo e, por isso, o meu nome precisava se adequar. Para tranquilizá-los, eu acrescentava que, um dia, seríamos todos iguais, teríamos o mesmo rosto e o mesmo nome gravado na pedra.

  • Alguns convencidos que tudo sabem!

    Um grupo de cientistas japoneses criaram o sistema ferroviário que uniu Tóquio a 36 cidades vizinhas. 

    Eles tiveram a colaboração de Blob, um sincício multinucleado macroscópico, amarelo brilhante, que também propôs resultados semelhantes nas redes rodoviárias no Reino Unido e na península ibérica. 

    Seu nome científico é Physarum polycephalum, e já vivia na Terra há 500 milhões de anos antes dos seres humanos. 

    Esse é um exemplo de como a sabedoria do idoso jamais deve ser ignorada. 

    Ele não possui cérebro, mas sua habilidade em encontrar caminhos mais curtos, sem conhecer o destino, é impressionante.

    Sua locomoção é lenta porém precisa, e se dá a uma velocidade de 1cm/minuto, permitindo-lhe avaliar cuidadosamente seu trajeto.

    Seu apelido vem do filme clássico The Blob (A Bolha Assassina) de 1988, que narra a história de uma estranha substância gelatinosa que dissolve a carne humana. 

    No entando, o Blob, especialista em meios de transporte, não come gente, tem apenas uma semelhança em termos de forma com a Bolha. 

    Um artigo de 2010 descreveu que flocos de aveia foram dispersos em uma representação de Tóquio e das cidades, e Blob criou uma rede semelhante ao sistema ferroviário de forma eficiente e tolerante a falhas.

    Como é possível essa forma de mofo nos ensinar diversas alternativas para solucionar problemas práticos em nossos árduos dias e mostrar o valor da adversidade e multiplicação de seres, sem um cérebro?

    Sua reprodução se dá mediante a produção e liberação de esporos, que se tornam novos “Blobs”. Eles possuem 720 sexos diferentes, sendo assim um ser com orientação sexual ilimitada e centenas de identidades de gênero.

    Como na maioria das espécies, a sobrevivência é impulsionada pela diversidade genética, que no caso do “Blob” acontece quando dois organismos geneticamente diferentes se encontram e se fundem em um novo “Blob”. 

    Será que no futuro muito distante, nos transformaremos em uma ameba sábia sem a necessidade de um cérebro no crânio?

    Se não vingarmos nos próximos milênios o cofre do apocalipse, que preserva culturas a fim de proteger a segurança alimentar global, garantirá nosso DNA pastoso.

    Por vezes o menos é mais, e surge como o aspecto mais relevante em um ser simples e despretensioso, muito a frente de alguns convencidos que tudo sabem.

  • Atriz dentro da parede

    Era setembro. Estava ela diante do espelho a mirar-se. Já estava bem habituada a ouvir elogios mencionando a sua beleza, mas não era certo em suas formulações o que isso significava exatamente. De pé, frente ao espelho. Olhos grandes e bem abertos a olhar no vidro vivo e desafiador um rosto dotado de beleza semi-exótica – porém inquestionável – quase que como procurando pelo alheio. Estava séria e não caberiam sorrisos naquele momento. Na verdade, ninguém em seu estado normal ri diante do espelho. E ela era quase-normal. Quase.

    Ela dançava, lecionava, contava histórias e atuava. Mas sentia-se mais como atriz do que como qualquer outra coisa – ah, a legião de artistas que se alimentam dos seus míseros salários de funcionários públicos que parecem ter saído do poema “Não há vagas” de Ferreira Gular. E como atriz era uma excelente filósofa. Dessas que buscam o tempo todo o “algo além” perdido nas entrelinhas da vida. Seu corpo grande e intranqüilo buscava na dança acalmar-se. Sua voz macia buscava expressar-se – a si e a voz em si – para dar sua contribuição ao mundo em forma de som verdadeiro. Ela pretendia que tudo o que viesse a dizer fosse verdadeiro, mesmo que as palavras não fossem suas ou não pertencessem ao grupo das verdades absolutas. Ela autorizava palavras de outros, mas era criteriosa para essa autorização. As histórias que contava eram histórias para um mundo melhor. E atuar.

    Atuar completava sua paleta de busca por auto-conhecimento. Sua última peça, contudo, não havia tomado a direção do verdadeiro prático, ficando sua atuação presa no nível de intenção. E como quando sentimos que a nossa verdade não atingiu muitos metros além do nosso corpo – não porque não tenhamos sido verdadeiros, mas pelo fato triste de que interlocuções podem ser mais cabos de guerra ou muros, mais isso do que estradas retas.

    Dar um tempo com teatro seria necessário. Chegando em casa depois da última apresentação, olhou desconfiada para o velho companheiro de vidro reflexivo e tomou a decisão: “Preciso mudar um pouco”.

    Novo corte de cabelo. Nova cor. Feito. Olhos nos olhos no espelho mais uma vez – e isso era sempre meio constrangedor, pois não se confia em espelho. Os olhos do espelho pareciam-lhe mortos, como olhos de tubarão. Quase pediu conselho ao espelho, até lembrar que não se pode confiar neles – em nenhum deles. Abaixou a cabeça e virou-se, andando noutra direção, para poder assim melhor pensar. Pensou em viajar. Sair da cidade por uns dois dias. Talvez três. Talvez um primeiro passo para uma temporada bem maior que o imaginável. Fazer mala. Embrulhar-se para viagem. Mala feita. Ser físico devidamente embrulhado. Mulher devidamente embrulhada e estômago também. A essa altura já hesitava em dar uma última olhada no companheiro de vidro vivo. Medo dele. Saiu sem se conferir a beleza. Pés no corredor do prédio, trancou a porta. Elevador ou escada? Escada.

    Desceu. A descida foi longa, mais do que seria uma subida. Pensou dezenas de pensamentos por degrau, como uma metralhadora giratória cega. Chegando lá fora – no ante-começo de lá fora – perturbou-se com a monstruosa luz cinza da tempestade que se anunciava com suas músicas de vento. Parou. Pensou: “Esqueci algo. Não posso sair assim”. Voltava. Subiu com a mente menos cheia e menos giratória. Desta vez de elevador.

    Fechadura. Tapete. Portal a ser atravessado rumo ao espelho. Espelho triste pela ausência de sua dona. É isso. Ela era, sem que percebesse ou lembrasse, dona do espelho. Passou um batom vermelho. “Espelho. Meu espelho” – o chamou finalmente de seu. O vermelho do batom lhe trouxe uma súbita alegria. Quase sorria para o rosto que ficava mergulhado na parede, como mágica.

    Antropologicamente, entendeu porque os índios do século XVI foram vencidos pelos espelhos. Espelhos de mão nos aprisionam dentro do nada.

    Espelhos de parede aprisionam nossos dobros dentro da parede. Só bebês e animais sabem que quem vemos dentro da parede através do espelho não somos nós. Terminou então de passar seu batom vermelho e fez seu movimento louco: sorriu finalmente para o espelho, com os olhos felizes direcionados aos da outra na parede – a mulher bonita que mora dentro da parede.

    Alívio. Enxergou a beleza da mulher-gênio dentro da parede, e das belezas dentro de si como mulher pensante de carne, osso e desejo. Fome. Geladeira. Televisão. “Amanhã viajo”, pensou, desta vez alegre e em paz. Na última caverna da alma o doce som dos aplausos. O que houvera antes esquecido era a mulher que morava dentro da parede. Era setembro.

  • Fixação

    Daniele sabe me intimidar. É uma mulher sem par. Ela tem um quê de melindrosa, sarcástica, que eu adoro. O timbre de sua voz flutua até os meus ouvidos, é algo divino como uma canção de Debussy, e eu me sinto inebriado e confuso. Toda vez que a vejo é um desconcerto total, fico abestalhado, sem reação. Talvez seja porque ela não dá a menor bola pra mim. Não sou estragado, me considero mediano, “bem parecido”. Tenho me esforçado bastante para ter uma vida, até certo ponto, segura. (Ouvi de meu pai que mulher gosta de segurança e fiquei com essa frase cravada na cabeça). Ela já está estabilizada, “com a vida ganha”; é servidora pública federal, passou nova, ou seja, cedo sabia o que queria e correu atrás. A sua garra me dá ânimo para continuar na trilha do sucesso. Filha de dona Fátima, grande amiga de mamãe, frequentou muito a minha casa quando menina. Tivemos um namorico, coisa de adolescente, mas ela me dispensou, ou me trocou por um famosinho do bairro. Foi uma dor torturante. Chorava ouvindo as nossas músicas prediletas da banda The Cranberries. Era o auge do CD que tinha a música Animal Instinct. Ainda hoje me emociono ao escutá-la… Em sua defesa, digo que mudou muito de gosto: é refinada e exuberante em seus trajes minimalistas, e namorou homens maduros e educados. Conheci à distância um a um. Não a mereciam, fato! Eram miúdos para a sua bendita inteligência. Inclusive sei que Daniele Belfort é sapiossexual. Não há chance para quem não tenha o mínimo de intelectualidade. É por isso que me aperfeiçoo. Há dois anos está solteira, por vontade própria, porque, como disse, é extremamente bem resolvida, linda e inteligente. Interessante é que teve um rápido caso com Anna, sua colega de trabalho, mas viu que não era a sua praia. Ainda chegaram a se juntar, por dois meses, o que me atormentou profundamente, porque, assim, as minhas chances eram pouquíssimas. Acho, agora, que o que me desfavorece são a idade e as conquistas tardias. Em termos de estudo, ando bem, concluindo o doutorado em Psicologia e termino, neste semestre, meu curso de Psicanálise. Vou convidá-la para a minha formatura, se é que me dará ouvidos – certo, você já percebeu que sou inseguro, e isso me atrapalha muito. Ainda sonho com o dia em que ela irá olhar para mim de um jeito diferente. Vivo por isso. Sonho com isso a todo instante. Daniele é minha obsessão. Sei de todos os seus passos. Acompanho de longe. Não pretende ter filhos (eu também não). E, como disse, é bem resolvida financeiramente. Tem um apartamento lindo, em que nunca entrei montado; conheci, com o corretor de imóveis, antes de ela morar. Essa próxima semana será triste, porque ela viajará para Buenos Aires com as amigas. Estará longe de mim, mas nunca dos meus pensamentos.

  • Quase Real

    A internet é a cama desarrumada do mundo. Ou melhor: o quarto desarrumado do mundo. Dá na mesma, mas eu precisava começar minha crônica de hoje com alguma bobagem. Sinceramente, abrir um site hoje é como entrar na casa de um adolescente: panela suja, meia em cima do roteador e um cheiro indefinido de pizza com desespero. Cada link é uma gaveta aberta; cada anúncio, uma roupa esquecida da ex. E o pior: a gente fica à vontade nesse caos, como se fosse nosso.

    Recentemente, precisei do endereço de um médico antigo, que já tinha saído da clínica onde me consultava, mas, quando percebi, estava navegando por outros mundos: quatro lançamentos de livros que não pretendo ver — porque, se eu for comprar tudo que lançam, e meu Deus, como lançam, num país em que quase ninguém lê, meu orçamento não aguenta. Fora isso, a quantidade de coaches disso ou daquilo é insuportável. Cada página é uma palestra ambulante. Eu só queria um endereço e ganhei uma maratona de autoajuda e promoções que nem pedi.

    Navegar na internet é, muitas vezes, como ir ao supermercado e, no meio das compras, esquecer o item mais importante. É como sair com o guarda-chuva, passar no banco, engatar uma conversa com um estranho e, quando percebe, o guarda-chuva ficou lá, abandonado. Aí você sai molhado. Só que, na internet, o guarda-chuva perdido é a informação que você realmente queria, e a chuva é uma enxurrada de links inúteis, anúncios e distrações.

    Outro dia, abri meu direct do Instagram para ver uma mensagem de um amigo, alguém de quem estava com muita saudade, e me surge uma sugestão de “quem você talvez conheça”: uma ex-namorada. Eu ali, lembrando daquele pé na bunda horrível, dos pitis, dos bate-bocas, relembrando cada detalhe como se fosse replay de novela ruim. Fiquei um tempo atolado na memória até que, gato escaldado, removi a notificação. E pronto: paz de espírito instantânea — pelo menos até o próximo algoritmo me sacanear de novo.

    E quando, no meio de uma crônica, o teclado decide que sabe mais de gramática do que eu e escreve a palavra que eu mais queria errada? Eu reescrevo, ele muda de novo. Tento outra vez; ele insiste. Parece até que o teclado tem personalidade própria — e um prazer especial em me irritar.

    E quando eu vejo, já é de manhã; quando vejo, já é hora de almoçar; quando vejo, anoiteceu. Passou uma semana, duas, um mês, um ano. E eu ali, navegando, como se estivesse dentro de um looping infinito de distrações, com o mundo girando lá fora e eu preso na bagunça do meu próprio quarto virtual.

    Eu me lembro de que, antes da internet, o mundo era pequeno. Tão pequeno que cabia em dois amigos — três, se muito — que ligavam no fim de semana, chamando para um chope. Na falta de um celular na mão, sobrava tempo para bater papo com a moça do bandejão, o passageiro do banco ao lado no ônibus, o sujeito da fila do banco. A gente socializava mais. Afinal, conversas reais alimentavam mais que Wi-Fi.

    Sei que o que eu mais queria mesmo era que alguém desinventasse a internet, que as pessoas voltassem a ter mais conexões entre si do que esse monte de notificações que não servem para nada. Mas não vai dar. O jeito é cada um de nós — eu e você — decidir o papel que a vida real vai ocupar na nossa vida. E, principalmente, aprender a hora certa de silenciar as notificações.

  • O maestro Edino Krieger passou por aqui

    Ele nasceu em Brusque (Santa Catarina), no dia 17 de março de 1928. Estão fazendo as contas? Pois é. Edino Krieger, esse mesmo que pede que “por favor” não o chame de “Édino”, com esse “E” maiúsculo acentuado, um dos maiores compositores do mundo. Pois é. O Maestro passou por aqui.1 Por acaso — o convite veio em forma de Rosa — também fui convidado para o mesmo aniversário em que o Maestro convidado também fora. Um encontro festivo e familiar. Ou vice e versos. Nesse dia, muito bem acompanhado, recebi do Maestro Edino uma alegre e divertida aula sobre a vida e a música. Tudo sem esquecer a minha bela e gostosa música nordestina, essa que para o Maestro é uma das mais ricas do mundo.

    — Ah, 1berto! Eu gosto muito da música de vocês! Admiro muito o Repente. As Emboladas e Cantadores de viola. Maravilhosos! As imagens poéticas que eles conseguem criar são maravilhosas! Tem mais: métricas perfeitas e versos redondos!

    O Maestro ainda contou boas histórias sobre os nossos Eleazar de Carvalho (Iguatu – CE) e José Siqueira (Conceição-PB). Sobre o primeiro, lembrou as “peças” pregadas por alunos e regidos. “Eleazar tinha uma memória fenomenal! Bastava uma leitura da peça e… estava tudo na cabeça!”. José Siqueira? “Ah, esse teve uma importância histórica na valorização do músico brasileiro! Não era muito de composição. Mas, nesse campo, – valorização – os músicos devem muito a ele”.   

    O papo com Edino, aos 89 anos ou quase isso, considerando que na próxima semana a essa idade chegará, graças a Deus, mesmo com toda a erudição musical que o mundo conhece, respeita e admira não tem nada de professoral. É todo sorriso a flor da pele. E se não bastasse, livre gargalhada espalhada entre uma história e outra.

    E a do filho Edu, versado nos “mistérios existenciais” ou coisa parecida, que lhe perguntou no dia em que fazia 68 anos, sabendo que nessa idade ele perdera o pai, se não entrava em crise pelo fato de estar fazendo exatamente a idade em que o seu “mestre da banda” trocou de roupa e se mudou para outra cidade?

    — Não tenho a idade do meu pai, seu avô, como parâmetro. Mas a da minha mãe, sua avó, que viveu por aqui quase 100 anos!

    Edino é assim. Nada de professoral nas conversas. Sempre o mesmo. Estando em festa de aniversário ou depois de uma de suas muitas apresentações por aqui e alhures. Nunca destoa. Assim, por mais que insistam em dizer que de perto ninguém é normal, o maestro Edino Krieger é normalíssimo. Não existe entre ele e o mais leigo dos fãs aquele que se sinta constrangido numa aproximação.

    Se essa sua rara qualidade por si não bastasse, simplicidade a toda prova, coisa mesmo de gênio, pessoa capaz de contar uma piada e sorrir com a piada contada como se estivesse contando a referida pela primeira vez, tem ao seu lado a companheira de mais de 40 anos, Neném, por todos assim chamada carinhosamente, que é somente sorriso e alegria. Um fato, esse perceptivo por todos, que a torna dezenas de anos mais jovem.

    Mas nada melhor que ouvir esse mestre sem nenhuma pretensão de ser engraçado. Edino não precisa.  O seu humor é tão natural quanto o seu “Canticum naturale” (1972), composto em “parceria” com os pássaros, esse fazendo coro, e os sussurros da Amazônia.  

    Sem aquele chato ar a professoral, repito, o maestro discorreu sobre a sua terra e família, e contou histórias que mereciam ser encerradas em um “capa dura”. Um homem de mil histórias vividas. E todas merecedoras de um livro somente para elas.  

    Ali, nesse dia, sábado passado, num papo entre sorrisos e suaves doses de uísque, não se encontrava o crítico de música e colunista do Jornal do Brasil (caderno B) e Tribuna da Imprensa. Mas o menino que contava – sem mesmo que fosse perguntando — sobre o porquê do seu “estranho nome”. “O Edino foi uma homenagem do meu pai a um colega de farda”.

    Em Brusque, cidade natal, não havia o que chamamos por aqui de Quartel ou departamento outro parecido. Era “Tiro de Guerra”. Instituição militar do Exército Brasileiro encarregada de formar atiradores e ou cabos de segunda categoria (reservistas) para o exército, Voces sabem. Assim, o seu pai, Aldo Krieger, foi enviado para servir (de verdade) em outra cidade. E saiu dela já como “maestro” de banda de música da cidade.

    Assim, por lá, graças a um superior hierárquico, o musico foi descoberto enquanto executava serviços gerais no quartel onde servia. Resultado: em pouco tempo era quase o “dono” da banda. Pois bem. Foi lá que conheceu o “Edino”, nome esse que mais tarde, em homenagem ao mesmo, batizou o seu musical filho.

    O papo com Edino não tem nada daquele ar professoral nem clima de erudição, Ele não posa de “professor”. Mestre? Nem pensar. Nenhuma importância se não encontra no meio um ouvinte no mesmo nível do papeador. Suas histórias são todas contadas com o humor típico de quem estar s de bem com a vida.  Sempre. Todas assimiladas por todos. Em atos rápidos e engraçados.

    Nessas historias são muitos os personagens famosos que merecíamos conhecer. Não digo gozar da amizade que esses tinham – muitos tem ainda – com o maestro. São muitos. Paulo Moura, para quem escreveu/transcreveu obras para o seu sax alto, (brasiliana?) e ele gostou tanto que “fugiu” com a partitura. Vinicius de Moraes, o poetinha de quem ainda guarda boas histórias, parceirinho seu na instigante “Fuga e antifuga, quarto lugar no Festival Internacional da Canção, do ano de 1967. Maestro Hans-Joachim Koellreutter, Claudio Santoro, Guerra-Peixe e Eunice Catunda, esse que formavam o Grupo Música Viva… Mas falar sobre o compositor, o crítico musical e o produtor cultural é correr risco de ficar pelo caminho sem mostrar toda a “genialidade” do virtuose menino que iniciou estudos de violino aos sete anos com seu pai, realizando recitais no Estado dos nove aos 14 anos.

    Depois do papo com esse “jovem” de 89 anos, isso mesmo, lucidez em cada frase e marcando essa com um humor típico de quem estar sempre de bem com a vida, não se leva a impressão de que ali estava um dos mais importantes compositores eruditos do mundo em atividade. Mas aquele colega que acabou de contar mais piada sobre o amigo Vinicius de Moraes. Esse mesmo que lamentava o fato de ser grande poeta, mas pequeno no essencial que tanto desejava: “Se houver reencarnação, acreditem, desejaria voltar como Vinicius mesmo. Só uma coisa: quero voltar com o pau um pouquinho maior”. E encerra a história numa gargalhada incontida.

    Esse sem dúvida é o maestro Edino Krieger, um exemplo acabado da simplicidade que faz dos mestres e/ou gênios merecedor de todo o nosso respeito e admiração. Edino é esse exemplo acabado.

    A minha benção, maestro!

    1. O maestro e compositor Edino Krieger morreu na noite de terça-feira, aos 94 anos, em decorrência de complicações respiratórias e renais. Ele morreu no Centro de Terapia Intensiva da Casa de Saúde São José, no Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro. ↩︎

    *Texto publicado originalmente em 17 março de 2017, no portal Crônicas Cariocas.

  • No limbo

    Zími entregou a Mila Cox uma sacola para discos com um LP dentro.

    Ele não a havia presenteado em seu aniversário, dois dias antes.  

    Conhecem-se desde o nascimento de Mila Cox, e trocavam presentes eventualmente, mas sempre com alguma zoeira sutil envolvida.

    O LP era uma edição nacional e comum de uma coletânea da Siouxsie and the Banshees, em bom estado de conservação.

    A contracapa, no entanto, trazia uma dedicatória escrita com esferográfica, que deixava claro que alguém ganhou o disco de presente e passou adiante sem remorsos.

    A dedicatória tomava quase a metade da contracapa, e Zími havia comprado por dois reais, por conta de depreciação.

    Zími havia esquecido a sacola na Kombi de Silvano no dia anterior, e a encontrou naquele momento, num compartimento oculto que há no banco traseiro.

    Zími falou: “Não é um disco raro, mas essa edição vem com um texto na contracapa.”

    Mila Cox: “Nossa! Dedicatória de 1985! Amei! Valeu!”

    Eram onze horas da noite do sábado, fazia frio e o camarim e ponto comercial dos Crop Circles era a kombi do camarada Silvano, uruguaio que morava no mesmo prédio que Mila Cox e Zími.  

    Mila Cox e Zími eram os Crop Circles.  Um duo, com baixo, sintetizador e bateria.

    Silvano definia o som deles como uma mistura de Violeta de Outono com X-Ray Spex.

    Ele era músico também e atuava como uma monobanda.  

    Tocava sentado, usando violão microfonado ou guitarra, e fazia a bateria com os pés, uma gambiarra com caixa, bumbo, chimbal e muita silver tape.

    Zími também usava um kit minimalista de bateria e tocava de pé. Era apenas caixa, prato e chimbal.

    Silvano falava português sem sotaque porque vivia em São Paulo desde os quatro anos de idade.

    Para pagarem suas contas, Mila Cox era copywriter, assim como Zími.  

    Silvano fazia carretos e entregas com sua kombi.

    Ambas as atrações se apresentaram numa festa junina nessa noite de sábado.  

    Silvano tocou antes. Os Crop Circles haviam encerrado seu show às dez horas. Ambos os shows agradaram o público.

    Esses shows aconteceram na casa de Miro, um agitador cultural do bairro da Casa Verde, que já teve uma banda de Hard Core chamada ‘Colaterais’, e queria fazer uma festa junina com rock alternativo.  

    Era uma casa grande, a última de uma rua curta e sem saída. Os demais moradores da rua endossaram a ideia e tudo correu dentro do previsto.

    Conheceram-se num show dos Crop Circles ocorrido meses antes, em Santo André.

    Tinham outro show marcado para o fim da tarde do domingo, em São Caetano.

    Era como se estivessem no intervalo entre o primeiro e o segundo tempo de um jogo de futebol.  

    Mila Cox tinha vinte anos e sabia que a vitória só se consolidaria ao término do show do dia seguinte, caso tudo fosse mantido sob controle.

    Zími e Silvano tinham quase cinquenta.  

    Os dois sabiam que muitos artistas com a idade deles, nos dias de hoje, começam a se preocupar com excessos, especialmente naquele momento em que uma agenda estivesse apenas parcialmente cumprida.

    Quando bebiam, sempre repetiam um ao outro, em meio a gargalhadas, que só não eram completamente inúteis para o sistema, porque ainda faziam mercado e pagavam por gasolina.  

    Com medo de que os dois ficassem muito loucos e dessem milho no show de domingo, Mila Cox buzinava na kombi parada a cada vez que um deles cochilava de bêbado, enquanto ficavam vendendo camisetas dos Crop Circles por mais um tempo depois do show.

    Quando ela buzinava, o som era tão estrondoso dentro e próximo ao veículo, que os dois pulavam de susto e ela ria.  

    Zími e Silvano estavam felizes porque estavam com gasolina paga e alguma bonança financeira com o show de sábado. Tomavam Domecq, cada um com sua garrafa, bebendo no gargalo.  

    Era o dia de aniversário de Gene Vicent, e naquele dia Silvano tocou clássicos desse mestre e de alguns de seus contemporâneos, em versões mais aceleradas, para complementar seu repertório de músicas próprias.  

    Silvano falou para Mila Cox: “Você deveria ter paciência conosco, e entender que sair pra tocar num sábado sem ter prejuízo financeiro como muitos artistas que pagam pra tocar, e ainda lucrar com camisetas e discos, e além de tudo ter um show no dia seguinte, num ambiente completamente diferente, com o tanque da kombi cheio! Amanhã não tem cachê. Terá o pagamento do valor de um tanque de kombi cheio de gasolina, mesma coisa que foi hoje. Amanhã quando voltar pra São Paulo e estacionar na garagem do prédio, teremos lucrado com essa logística bem elementar. Eu e o Zími somos coroas, mas você sabe que mesmo que um de nós morrer hoje, vai levantar e fazer o show assim mesmo, zumbi. Então fique sossegada. A gente já vai voltar pra casa, quando miar o movimento aqui.”

    Zími falou: “Eu adoro a ideia de ter show amanhã. Eu descanso na segunda. Estou vivendo um momento sublime. Na segunda dormirei, enquanto algum escravo assalariado contemplará o próprio retrato na parede de alguma firma por ter sido eleito o funcionário do mês, enquanto seus verdadeiros superiores hierárquicos estarão em orgias, em plena manhã de segunda. E em seguida um gerente patético o chamará de mocorongo e o fará voltar ao trabalho. E nós poderemos lamentar essa condição social mórbida criando mais uma música.”

    Mila Cox: “Eu tenho paciência suficiente. Sei que a Carole King não gravou o ‘Tapestry’ do nada. Foi preciso passar por muita coisa antes de entrar definitivamente pra história. Está tudo bem, agora nós temos uma kombi. Antes de mudarmos pro apartamento e conhecermos o Silvano, foram dois anos com um Chevette 79, e naquele tempo o Zími tinha pavor de fazer shows em dias seguidos. Vocês já estão cozidos por essa bebida e nem sentem o frio que está fazendo. Mas eu não reclamo. Fazer merda virar adubo tem que ser um lema quando ainda se está construindo uma reputação.”

    Zími: “Alcançamos alguma prosperidade sem sucumbir a ideias megalomaníacas de estrelato. Seguirei com essa postura em tudo que eu fizer. Lembre-se sempre que se nós tivéssemos nos transformado naquilo que nossos pais sonharam pra gente, teríamos um destino tão diferente que nem é bom tentar imaginar. Então estar aqui é uma glória. Expectativas exageradas sobre o futuro diminuem a importância do nosso presente vitorioso. Além do mais, São Caetano é perto.”

    Mila Cox: “Você pelo menos fez faculdade. Pelo menos um de nós. Eu ainda sofro com esse tipo de pressão. A vida acadêmica me tomaria um tempo precioso.”

    Zími: “Fiz a faculdade de jornalismo apenas pra me livrar dessa pressão. Não reclamo daquele tempo. Hoje eu vejo no que meus colegas se transformaram e agradeço ainda mais pela minha sorte. Com diploma, ainda que inútil pra minha vida prática, sem filhos, com uma banda, e tentando prolongar a juventude sem fazer um papel ridículo.”

    Ao redor da kombi, estacionada na frente da casa de Miro, adultos conversavam e bebiam, crianças brincavam, cachorros passavam farejando alimentos que caíam no chão, e uma trilha sonora mais tradicional em festas juninas era o que se ouvia naquele momento.

    Pessoas que sabiam que a segunda feira chegaria rápida e impiedosamente, dançavam bêbadas sabendo com o sossego de estarem próximas de suas casas.  

    Eram cerca de duzentas pessoas.

    Silvano pensava secretamente se realmente valeria a pena voltarem para casa, ou se seria vantajoso dormir na kombi com os equipamentos, e na tarde seguinte seguir para São Caetano e fazer o show.

    Dessa vez, mais duas bandas tocariam: Silvícolas e Secreção.

    Zími falou: “Amanhã será outro dia de glória. Vamos tocar antes das duas bandas. É um jogo ganho. Há um sabor especial em fazer a nossa parte e ter mais dois shows pra assistir. Gosto de tocar domingo. A atmosfera não é carregada daquela urgência em se divertir a qualquer custo. Os Silvícolas são ‘posers’, certamente vai ser engraçado de assistir. Ouvi umas músicas na internet e não consegui entender se eles fazem sátira com o ‘hair metal’ ou se realmente se levam a sério. Espero que seja sátira. O Secreção tem umas músicas boas, mas vamos ver se ao vivo chamam a atenção. Mas gosto da forma como eles desprezam o sistema e todo tipo de estrelismo no comportamento de quem se torna afetado por ter uma banda e consegue agendar um show. Musicalmente são de uma linhagem derivada do Minor Threat.

    Eu não sei se a pessoa que chamou essas bandas tão diferentes fez de propósito ou se faltou critério. O antagonismo entre eles é brutal. Mas é bom misturar. Não é possível que vá rolar alguma treta. Mas se rolar, o Silvano vai filmar pra colocarmos num documentário futuro.”

    Silvano: “Ainda existe treta desse tipo? São moleques criados pela avó, não vai ter nada disso. Além do mais, será outra festa junina!”

    Mila Cox: “Existe gente cretina o suficiente pra tudo que se imaginar, mas eu conversei com eles pela internet, vai ser sossegado. O público que eles vão levar será as namoradas e meia dúzia de amigos também criados pela avó.”

    Zími: “Sim, são moleques da sua idade. Vão ficar com vergonha de fazer qualquer merda juvenil depois que o Silvano e nós tocarmos. Provavelmente eles têm grandes expectativas sobre o futuro, e como quase ninguém os conhece, não vão querer queimar o filme.”

    Por volta da meia noite, as pessoas começaram a se despedir e ir embora.

    Mila Cox falou: “Vamos embora, temos que atravessar o rio Tietê pra chegar no centro. É um rolê. Antes que fiquem ainda mais bêbados.”

    Ao ver abortada sua ideia secreta de estacionar perto de alguma loja de conveniência e dormir na kombi, Silvano se ajeitou ao volante resmungando sutilmente.

    Foram embora dormir em casa.

  • Poema #41: Disritmia

    acredito que haja
    dentro em mim
    uma separação entre
    corpo e espírito,
    espírito e mente.
    a cabeça pensa de uma forma
    e o corpo age de maneira diversa,
    nunca se coadunam em alma de ser.
    sou o intervalo exato, inexpressivo,
    entre o talvez e o se e o quando será
    sendo que sou este ser, de si ausente,
    defeituoso e desengonçado.

    Da Essencialidade da Água

  • Poema #06: De tudo o que não sei dizer

    Se te olhasse de novo, te perceberia
    Se eu soubesse enxergar, ah, se soubesse…
    Quão terrivelmente felizes
    Seriam meus dias

    Temo não saber o depois.
    Pois quem nunca se perguntou…
    “E agora, o que vem”?

    Deixo vir.
    Mas temo…
    Não saber receber.

    Temo a teima de não saber
    Ser para saber.
    Temo ter de temer, e temer…
    E não viver outra coisa,
    Não ver a beleza,
    Fazer do outro jeito,
    Viver ao contrário,

    Não acertar nunca,
    Estar sempre ocupado
    De erros e não saber fazer
    Outra coisa senão ser.

    Mas se eu soubesse te ver
    Bastaria um olhar.

    Atravessado por um longo suspiro
    Ver-te-ia.
    Como se fosse a mais bela
    Maneira de errar.

    E desejaria que em todos os meus confusos desejos
    Não sobrassem acertos.
    Te teria em meus segredos
    E através de tais erros
    Não haveria mais medo, nem dúvida
    Coisa alguma que não fosse
    Sem jeito,
    sem tropeço

    Sem ter onde cair e me levantar.
    Desejaria esta vida
    E não outra.

    E por desejar esta,
    E não aquela,
    Não teria de ver assim, pelos olhos
    De quem sabe tudo
    A miséria,
    A quem errar lhe pareça tamanho absurdo
    Que se atam os olhos
    Para nunca ver transbordar a vida
    No olhar.

    Pois é assim que vivo:
    Ao meu ver,
    Sem saber e sem querer.
    Quando queres, aprisiona-te.
    Pois precisas ver.
    Quando enxergas, então sabes como amar.

    E por viver assim,
    Quiçá fosse o fim
    E tu, serias o começo.
    E pelos meus primeiros erros
    Saberia, enfim, a quem olhar.

    E por te olhar assim não sobraria a pressa.
    A vista seria o preço.
    E a ti, infinda razão de meus erros,
    Achegar-me-ia
    Para onde te pudesse enxergar.

    E por tua chegada
    Contar-te-ia tudo o que, por acaso,
    Me fizeste ver.
    Não restaria outra coisa.
    Quando chegaste, me fizeste aprender a amar.

    E por ver o amor, voaria
    E passaria os meus dias
    A amar tudo o que, pela falta de ti,
    Não via;

    E na evidência de tamanhos erros
    Não restaria outra coisa a se ver.

    Se por amar-te estivesse, assim, errando,
    Escolheria errar todos os dias,
    E em todos eles,
    Errar te amando,
    E te amar.

    Quando amo, entregam-me os olhos.
    Já não detém-me o discurso e
    Não prefiro mais a palavra.
    Basta-se a ponta do sorriso,
    Basta-se a força da risada.

    E desse modo, percebendo-te, vi
    Que tudo o que mais temia
    Era ver o que não sabia como.
    Mas tu, só tu
    Sempre me alcançavas.

    Não importa se demoras…
    Cada hora sempre atinge seu lugar.

    Quanto a mim,
    Agora que a vejo, já não mais me enganam os
    lábios:
    Só aprendendo a ver, com você,
    Tive onde o amor
    Encontrar.

  • um outro sentido humano, não apenas sentimento

    O vazio é um lugar insuportável: fede à ausência.

    O vazio, cujo endereço é nômade (na pressa), é também essência humana — carrega-se como um caramujo.

    O vazio como morada, cuja forma é o fazer nada.

    O desespero da entrega que não afeta a vida do consumidor final.

    Tanto se fazer por nada.

    O suor total por um gesto que o mundo faz corriqueiramente: levar à boca e engolir, sem mastigar.

    O vazio é o que se encontra quando já se leu demais.

    Já fez demais.

    Já deu demais.

    E mesmo, ainda, depois de tanto, insiste.

    O vazio é o resultado de sustentar uma imagem de força, quando se pede, aos 

    mais próximos, por favor, um pouco de ajuda.

    É o troféu dos fortes: ninguém leva a sério a fraca franqueza de quem é visto como forte, porque o vazio é um canto de sereia rouca — estabilidade em vertigem.

    O vazio é ensurdecedor.

    O vazio é pesado, é surdo, é cheio, é muito, é tanto.

    É estática.

    E dói — dói ancestral. Dói além. Dói de dói pungentemente, palavra retrógrada, não é mesmo?

    Qual o problema em usá-la, se um dia fez sentido? Bonita, intensa, fora de moda. 

    À palavra cabe o espaço em que repousam as outrora vitórias, agora normal[t]izadas como excesso — o mesmo espaço dos erros ortográficos: lápides em um cemitério de condecorações.

    O vazio é um conjunto de excessos que ninguém quer mais.

    O vazio é o lixo — todo o lixo — o fundo fétido do lixo.

    O vazio é o que se encontra quando, após mil diferentes formas de se fazer estar presente — com amigos, familiares, relacionamentos profissionais —, se olha no espelho e se enxerga apenas as olheiras, a palidez, o opaco dos olhos, o silêncio.

    O vazio sangra.

    É onde estou agora.

    Os dias amanhecem lindos, indecentes de tão lindos.

    Permanecem lindos. Intocáveis, para mim.

    Música alguma é capaz de alterar a dinâmica.

    Todo e qualquer outro esforço, aqui, é dor e mais falta.

    O alcance do vazio é uma frequência do 

    tudo.

    Sintonizá-la não é tarefa simplória.

    No vazio não há oxigênio.

    Atmosfera rarefeita, há luz demais quando se quer dormir.

    A cabeça jamais pausa: desgasta o pouco de vida que resta tentando se calar.

    Vida como incontinência urinária: constante e desagradável, dominadora e… desfeita.

  • Pergunte ao Jacobina

    O reflexo da imagem sempre despertou curiosidade e encantou o ser humano. Ele é a metáfora perfeita para dizer a forma como nos vemos, qual a nossa autoimagem.

    Estima-se que ele tenha surgido, ainda que de forma rudimentar, há cerca de cinco mil anos, na antiga Suméria. De lá para cá, vem assombrando principalmente as mulheres, inconformadas com seu reflexo no Espelho de Cleópatra, símbolo da beleza e dos cuidados femininos, desde a antiguidade.

    Em O Espelho, um dos mais brilhantes contos de Machado de Assis, Jacobina lança uma tese de que as pessoas não teriam apenas uma alma, e sim duas: “Uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro”.

    Sem entrar em uma discussão filosófica sobre a tese do autor,  talvez seja esse o motivo pelo qual a relação das pessoas com o espelho seja de amor e ódio.

    Vivemos cercados por esse olhar invertido. Não bastasse os exemplares que temos em casa, os espelhos proliferam também nos ambientes externos, expondo nossa imagem sem autorização, com a maior desfaçatez. Lojas, shopping centers, restaurantes, elevadores, a cada passo nos deparamos com um exemplar, normalmente gigantesco, a nos desnudar.

    Amamos quando eles nos favorecem, odiamos quando o que reproduzem está muito longe de nossa autoimagem. E, aí, não  podemos deixar de concordar com Jacobina que estamos frente ao embate entre duas almas: a de quem somos realmente, e a da aparência que pretendemos passar ao mundo.

    Raramente estamos satisfeitos com a versão que o espelho retrata. Por isso mesmo, os designers e arquitetos têm toda uma estratégia para tentar acariciar nossa autoestima. Tudo é estudado no momento de escolher um exemplar para colocar na parede, no teto, ou atrás daquela porta do armário que nos diz se devemos ou não sair com o visual escolhido. Uma inclinação de poucos milímetros pode ser suficiente para dar um comprimento extra para as pernas; vidros com corte côncavo afinam a imagem, luzes pelo lado de trás realçam o  brilho da pele. 

    Os subterfúgios são inúmeros, mas a realidade é que nunca estamos totalmente em paz com aquele que escancara o que nos esforçamos por disfarçar. Em casos extremos, a vontade é de, simplemente, quebrar o espelho para eliminar totalmente o algoz.

    Mas… todo o cuidado é pouco! A superstição popular, oriunda de uma crença dos gregos antigos, adverte que quebrar um espelho é destruir uma parte da própria alma, o que pode indicar mau agouro, ou mesmo a morte. Morte de qual de nossas duas almas? Só perguntando ao Jacobina.

  • Poema #13: As Naus e o Sonho

    Entre as naus e os sonhos de antes
    Anterior à memória, objeto estranho…
    o mar era só… sem os seus navegantes.
    Calmo, vário e tamanho,

    As águas, um mistério, um senão
    porém, quando teima a criatura humana
    o desejo insistente instiga a mão
    a alcançar tudo, com toda a gana…

    brota na alma um querer
    mais que tudo e muito mais!
    Indo sem ir e vendo sem ver
    do precipício à beira do cais.

    Da imagem fez-se o nobre canto
    do canto nobre fez-se a triste sina
    da sina triste revelou-se, no entanto,
    o mundo de todos, de todos a cisma

    de içar ao alto a mais alta vela,
    cortar as ondas e caminhos abrir
    aos gritos triunfantes da sentinela,
    vendo sem ver, indo sem ir…

    Vendo sem ver, indo sem ir
    A história do tempo mostrou
    Lágrimas, morte, um pesado porvir
    O que figura humana jamais imaginou…

  • Todo mundo conhece uma Odete

    Na última aula de Pilates, o assunto que movimentou os ânimos foi: quem matou Odete Roitman?

    Quando Beth trouxe a questão à baila, imediatamente, Tatiana revirou os olhos, fechou o sorriso e lançou:

    — Acho essa novela um lixo. Nem de longe se parece com a original. Não assisto. Me recuso.

    O clima pesou mais do que os halteres. Deu para perceber o mal-estar de Beth ao se dar conta de que puxou uma conversa que não despertou interesse, ou pior, causou nítido desagrado.

    Sabe aquele gosto amargoso da rejeição? Pela carinha dela, ela sentiu.

    Nilce, mais simpática e mais compreensiva com os pecados do cotidiano, amenizou o clima:

    — Também prefiro a novela original, mas tô gostando de Vale Tudo. Pra mim, quem matou foi a Celina. Ela sempre invejou a Odete.

    Beth, aliviada por encontrar eco para o seu interesse, mas ainda receosa de tomar outro golpe, disse quase sussurrando:

    — Eu desconfio da Maria de Fátima. Aquela é má de verdade.

    Tatiana, decidida a inundar o ambiente com seu mau humor ou apenas se aproveitando do disfarce da sinceridade para trucidar a colega do Pilates, soltou:

    — Essa novela é tão ruim que eu acho que a Odete se suicidou. — Um risinho debochado acompanhou a afirmativa.

    Eu, que até ali estava calada, resolvi me meter. Aquela gosma de superioridade já estava me incomodando. Mandei na lata:

    — Com um marido maravilhoso daquele, acho difícil ser suicídio.

    — Nunca achei o Cauã bonito.

    — Ah, Tatiana, aí já é um problema de mau gosto seu.

    A gargalhada da amiguinha oprimida rasgou a atmosfera da sala.

    Continuei:

    — Concordo com você, Tatiana, que a novela é fraca mesmo, mas adoro. Não perco um capítulo. A vida é assim, tem coisas que não prestam, mas a gente gosta.

    — O corpo dele é bonito, mas a cara é feia — confessou Tatiana, de forma menos árida.

    — Então, deixa ele para mim.

    Rimos todas juntas.

    Moral da história:

    1. A amargura tem poder de contágio, mas o humor é um antídoto potente.

    2. Algumas pessoas saem de casa dispostas a nublar o tempo de quem encontrar. Sejamos solares!

    3. Gente que gosta de se gabar do que é, ou tem, ou se acha dona da verdade, é desagradável, desinteressante e solitária. Se tiver que conviver, emane energia positiva, humor e criatividade. O bem precisa vencer.

    4. Convivência é lugar de troca, não de exibição. Podemos discordar, não se identificar, se opor, mas com responsabilidade emocional e respeito. Para palavras-espinhos, revide com palavras-pétalas.

    Só há treva se não houver luz.

  • Terapias

    Ele andava triste, sem ânimo, às vezes com vontade de morrer. Os amigos notaram o seu estado e o aconselharam a procurar um médico. Recusou com veemência, pois não acreditava em medicina para a alma. 

    Mas uma noite teve um sonho esquisito. Sonhou que era um macaco pequeno, o único macaco entre seus irmãos. A mãe o olhava com indisfarçável repugnância e hesitava entre alimentá-lo ou deixá-lo morrer de fome. Ele então chorava, gritando e agitando uma campainha. Isso provocava a raiva do pai, que abraçava a mulher e o ameaçava com um facão. Enciumado, ele procurava um canivete para matar o pai mas era impedido pelos irmãos, que resolviam levá-lo para um zoológico. Lá o enfiaram numa cela, onde ficou se debatendo até que um funcionário chegou junto dele e perguntou: “O que é que está havendo? Fale! Fale!”. Não conseguia dizer nada.  

    Ficou tão intrigado com o sonho, que decidiu vencer o preconceito e consultar um psicólogo. Mas quem? E, sobretudo, de que linha? Resolveu divulgar o sonho na internet e aguardar sugestões. Eis alguns e-mails que recebeu:

    1) Seu sonho reflete um complexo de Édipo mal resolvido. Você e o seu pai disputam o amor da sua mãe, daí o ódio que sente por ele e o desejo de matá-lo. A oposição entre o facão e o canivete é uma representação metafórica da inveja do pênis associada ao temor da castração. Sua terapia deve ser psicanalítica, e de base freudiana.

    2) Impressionou-me, no seu sonho, a repugnância da mãe ao constatar o aspecto simiesco do filho. A dúvida entre alimentá-lo ou não é uma clara metonímia do conflito entre o seio bom e o seio mau. Você ainda hoje não sabe se ela o ama ou o odeia, e precisa resolver esse conflito. Do contrário, a sensação de desmamado o acompanhará pelo resto da vida. Sugiro-lhe uma psicoterapia kleiniana.

    3) Seu sonho é carregado de significantes — a referência ao som da campainha, por exemplo. Uma das onomatopeias para esse objeto é “ding”, que remete à Coisa (Das Ding), ou seja, ao Objeto Perdido. Sintomaticamente, você não fala. Se não fala, não tem o falo, o que não é nenhuma falácia (talvez uma faloácia). A ausência da fala/falo o deixa fulo e mostra que você se encontra numa posição infantil diante do Nome do Pai. É preciso trabalhar isso. Procure já um terapeuta lacaniano.

    4) O sonho é claríssimo, ora. O macaco representa a porção animal que você se recusa a inibir diante do pai opressor. É preciso dar vazão a essa torrente de instinto por meio de uma terapia regressiva, que o reconduza à liberdade da horda primeva. É preciso soltar o grito primal.

    5) Esqueça qualquer tipo de simbolismo para esse sonho. O motivo do seu sofrimento são pensamentos errados. Posso acompanhá-lo a um zoológico, em cinco sessões, para mostrar que você não é macaco coisa nenhuma. Compararemos seu comportamento com o dos símios, e você se convencerá de que gosta de mais coisas além de banana e não consegue andar com tanta destreza sobre o tronco das árvores. Recomendo-lhe (e me apresento) um terapeuta cognitivo-comportamental.

  • Um dia na vida

    Era quinta-feira e Mila Cox marcou dois shows para os Crop Circles no fim de semana.  

    Duas festas juninas, uma delas raiz, na periferia de São Paulo, e a outra era mais gourmetizada.  

    Sexta na Casa Verde e sábado em São Caetano.  

    Na sexta seria sossegado, show deles com abertura do uruguaio Silvano.  

    No sábado foram quatro shows.

    Dessa vez deram sorte, porque a organização do evento os colocou para fazer o segundo show, logo depois que Silvano tocasse.

    Depois deles, mais duas bandas tocaram, os Silvícolas e o Secreção.  

    Nenhum dos dois tinha ouvido falar dessas bandas, mas prontamente pesquisaram ao verem o flayer do evento.  

    Zími falou: “O Secreção é banda punk com caras jovens e os Silvícolas são Glam, tem vocalista de penhasco e são espalhafatosos. Na pesquisa constatei relatos sugerindo que eles usam as cuecas uns dos outros sem problemas. Não vai haver nada de novo ali. Acho incrível que algumas bandas gostem de tocar por último. Espero que seja sempre assim, até mesmo se a nossa popularidade crescer com o tempo. Assistir ao último show com a sensação de missão cumprida e com um grande drink na mão é um momento glorioso. Não importa nem mesmo qual seja o último show.”

    Para eles, haveria mais necessidade de conhecer as bandas se o show dos Crop Circles fosse o último da noite.  

    Gostavam de tocar em festas juninas. Elas eram diferentes entre si, e eles quebravam por pouco mais de uma hora os protocolos desse tipo de evento.

    Então, Zími entrou no apartamento que dividia com Mila Cox, e ela estava na sala tratando dos detalhes desses shows, pelo computador.

    Ele fechou a porta e falou: “Devemos fazer uma música sobre o coach. Ele me abordou no elevador, e todas as suposições que tínhamos sobre o charlatanismo dele se confirmaram.”

    O ‘coach’ era um vizinho do prédio que treinava as pessoas para serem felizes.

    A cara que ela fez quando foi interrompida, lembrou a Zími a cara que a gata de sua avó fazia quando era tirada de cima de um travesseiro enquanto dormia.  

    Ela usava uma camiseta com a cara do Jello Biafra fazendo uma careta.

    Ela falou: “De qualquer maneira essa música só ficaria pronta na semana que vem. Não estamos atrasados em termos de lançamentos. Lançamos um single há dez dias.”

    Zími: “Então o tema já fica estabelecido pra próxima faixa. Ele me falou sobre como seus clientes tiveram resultados incríveis e agradecem a ele diariamente. Ele nunca teve banda, nunca jogou bola, talvez nunca tenha tido namorada. Ele gosta de Coldpay e Silverchair.”

    Mila Cox: “Que show de horror! É muita loucura que ele tenha te abordado tão rápido. Falamos dele ontem.”

    Zími: “Eu estava entrando no elevador, enquanto ele entrava no prédio. Eu fingi que não vi, e não esperei. Mas ele chegou a tempo e abriu a porta antes que o elevador subisse. Extraí o máximo de informação que pude, mas ele viu que viraria zoeira e deu fuga antes de responder mais perguntas.”

    Mila Cox: “Zoar o coach numa música pode gerar uma crise com a classe dos coachs, caso sejamos mal interpretados.”.

    Zími: “Se a música atingir essa repercussão, então será um single de sucesso. Mas não acho que seremos mal interpretados. Esse vizinho é o único coach para ensinar as pessoas a serem felizes que conhecemos com essa proximidade. Ele me abordou questionando minha insatisfação com o mundo sem nunca ter conversado comigo antes. Mas ele já me viu antes tomando cerveja na padaria, de manhã, no meio da semana, e ficou bege. Se a música estourar, as pessoas saberão que estamos falando do indivíduo e não necessariamente da classe. Quando eu perguntei do que ele gostava de música, ele se engasgou, respondendo sem saber se a resposta merecia ou não o constrangimento de ambos. Mas foi quando perguntei sobre a concepção que ele tem de felicidade, e qual era a felicidade que seus clientes atingiam, que ele se esquivou alegando pressa, desceu no quarto andar, e eu vim pra casa.”

    Mila Cox: “Essa gig de sábado em São Caetano vai ser louca, ainda estaremos na força do show de sexta.”

    Zími: “Eu tenho o dobro da sua idade e acho meio cansativo, mas são coisas da vida. Não é uma questão de resistência física. Eu tenho prática e sei que o artista tem que melhorar com o tempo, e não piorar. Mas o que eu não tenho mais é a urgência juvenil, de se jogar como se fosse a última chance sempre. E também fui ter internet pela primeira vez na minha casa quando eu já era mais velho do que você é hoje. A gente era obrigado a estar mais nas ruas por mais tempo, para tomar conhecimento de qualquer coisa que estivesse acontecendo. A telefonia naquele período anterior à internet era completamente precária não apenas pela falta de portabilidade dos telefones, mas pelos intermediários que atravessavam as chamadas, que muitas vezes eram atendidas por alguém que não era a pessoa com quem se desejava falar. A impressão que eu tenho é que apesar dessa tosquidão, havia a necessidade de mais compromisso com o que era combinado, especialmente se você tivesse uma banda. Mas esse rolê de São Caetano vai ser bom mesmo. Temos kombi pra levar e servir de acampamento. É uma vitória.”

    Então Silvano bateu à porta, foi chamado para entrar em coro por Mila Cox e Zími.

    Ele anunciou que vai comprar um gerador de gasolina para poder ligar amplificadores em lugares descampados e ermos. Seria bom para shows, ensaios e atividades experimentais.

    Disse também que a ideia do gerador já era antiga para outros fins.  Mas durante o ensaio para os dois shows do fim de semana, ocorreu-lhe que agora precisava do gerador também para ligar o amplificador da guitarra, já que se consolidava como artista monobanda que dá ênfase a esse instrumento.

    Oitenta por cento de sua prática é num violão uruguaio que comprou usado e que ficou encostado por anos, mas pelo qual tinha grande estima. Os outros vinte por cento era com uma Guibson ligada ao pequeno amplificador que usa em casa, para avacalhar um pouco menos com as regras do condomínio. Tinha um maior que leva a shows onde não há qualquer equipamento.Também falou que tem uma música nova pronta.

    Então Zími falou: “A gente lançou single há dez dias, mas já definimos o tema da próxima música.”

    Silvano: “Qual é o tema?”

    Zími: “É o coach, aquele vizinho que treina as pessoas para serem felizes.”

    Silvano: “Aquele sujeito do quarto andar? Aquele é um picareta de marca maior! Eu apenas tento me esquivar das abordagens. Já me fiz de louco pra escapar algumas vezes.”

    Zìmi: “Eu tentei escapar. O cara correu e abriu o elevador antes que ele subisse.”

    Silvano: “Aí você vai usar o estereótipo desse cretino pra dizer que quanto mais ignorante alguém seja, mais obediente esse alguém é. depositando a maior e mais absoluta confiança em quem o dirige. Pode ser um político de estimação, um pastor que vende terrenos no céu ou esse cretino que treina as pessoas pra que elas se tornem felizes.”

    Zími: “Isso mesmo! E a sonoridade vai soar como uma mistura de Ministry e B52’s!”.

    Mila Cox: “No lado B vai entrar uma música sobre ser livre na medida do possível. Sobre o transtorno de saber que não nascemos livres. E que a luta é por uma liberdade pelo menos parcial, já que a liberdade total é um conceito complexo que existe mais para que seja buscado, do que realmente alcançado. O rebanho não é livre, nem quer ser livre, porque nem sabe que não é livre. O rebanho é rancoroso, poque a única alegria que tem é quando o lobo come a ovelha ao lado. Essa faixa vai sair só no compacto em vinil de sete polegadas. E depois de anos será relançada numa caixa que lançaremos com tudo que gravamos.”

    Silvano: “E com e gerador, ao longo desses anos a gente vai poder fazer muito mais coisa, tocando até de graça em certos lugares. Levamos tudo na kombi, montamos nos lugares remotos e tocamos. Logicamente isso não é algo pioneiro, mas é tão viável que é exatamente o que faremos.”

    Do forno de padaria na cozinha de Mila Cox e de Zími saíram quatro pizzas naquela véspera de show. Zími guardava as bordas para comer com requeijão na manhã seguinte.

    Na televisão colocaram um show do Fugazi, que terminava e começava de novo, servindo como inspiração.

  • Um trupicão blindado, é pênalti?

    No fim do ano passado eu havia decidido parar de palpitar sobre política. Não faltam assuntos mais aconchegantes, como o bafo dos Dragões de Komodo após o lanchinho da tarde. Aviso de antemão, não quero usar da ironia nem do sarcasmo, ainda que um comentário ou outro possa ser interpretado dessa forma. E, digo logo, se isso acontecer, a culpa é sua, leitor, não minha.

    Então, a verdade é que fiquei desanimado ao ver os nossos nobres vereadores correrem para aumentar os próprios salários antes das férias coletivas. Alguns dizem que nunca trabalharam com tanta voracidade. Outros dizem que só trabalham em causa própria. Eu discordo, claro. O fato é que o Natal teve gosto de imposto e não foi só no recheio.

    Não que eu acredite na honestidade deles, mas também não desacredito. Para mim, a honestidade política está no mesmo patamar dos Alienígenas. Não acredito nem desacredito; porém, precisamos considerar o seguinte: se aparecer um Disco Voador por aqui, você sabe, fica difícil desacreditar. Aí o problema é outro: convencer as pessoas sem parecer alienado.

    Eu também estava cansado daquela velha salada de frases feitas e discussões direita-esquerda, verdade-mentira, santo-criminoso, doce-salgado, vestido-pelado, dinheiro-cueca ou qualquer outra concepção maniqueísta que inflou a sociedade nos últimos anos. Convenhamos, em maior ou menor grau, falar de política havia se tornado algo como reafirmar a própria beleza para o espelho. Pois é. E nem sou tão bonito assim.

    Tenho de admitir que vez ou outra ainda me surpreendo, mesmo com expectativas negativas. A tão falada PEC da blindagem é um exemplo. Um texto inusual e magnífico. Ponto para nossos tão excelentíssimos representantes. Longe dos debates de menor valor, como a inflação, o saneamento básico e a emergência climática, a PEC da blindagem deu sinais de um respiro aliviado à política brasileira. Finalmente, ela poderia voltar para uma rota firme, bem encabeçada e sem devaneios. Sejamos sinceros, em pleno 2025, é de políticos assim que precisamos, só não vê quem não quer. Afinal, todos sabemos que um grande país é construído por homens e livros, mesmo que um tanto mambembe (mais pra lá do que pra cá). Só não vê quem não quer, repito.

    Indiferente à política, hoje não ponho o dedo na ferida nem questiono verdades absolutas. Figuro mais como um hamster domesticado do que como um comentador anônimo insatisfeito (vulgo sujeito-que-merece-uma-coça). Mas, considerando a bela proposta da PEC da blindagem, comecei a divagar sobre como aplicá-la em outras áreas. Resumindo, a PEC da blindagem pode até não ser a melhor proposição política do ano (está mais para um trupicão* bem dado, daqueles em que a cara alcança o chão bem antes do resto do corpo), mas baseará a minha sugestão de emenda.

    Alô CBF. Gostaria que os caríssimos dirigentes do esporte de preferência nacional levassem em consideração o meu projeto. Serei breve, não quero tomar o atribulado tempo de tão importantes autoridades. Então, sem mais delongas, com base na supracitada, proponho a criação da PEC do Cartão Vermelho. Explico: sempre que ocorrerem faltas violentas ou sequência de cartões amarelos, o VAR será chamado e os jogadores deverão votar pela expulsão ou pela anulação dos cartões do companheiro. Por obviedade, cada voto será individual e secreto. Só então o árbitro tomará as devidas providências, evidentemente, sem poder de veto. Aproveito para propor uma segunda emenda, como defluência da primeira: a Pequinha do Pênalti, seguindo os mesmos democráticos modelos da anterior. Chega das decisões autoritárias e imperativas do juiz.

    Preciso frisar, entretanto, que a proposta não nasceu da minha revolta com as expulsões indevidas sofridas pelo Grêmio no Campeonato Brasileiro. Os três pênaltis do último Grenal também não influenciaram, juro. Trata-se de uma sugestão de melhoria para todos (inclusive para o lado vermelho do Rio Grande do Sul**). Eu jamais usaria de tal subterfúgio para benefício próprio. Sou partidário da mais pura e transparente idoneidade.

    Estou certo de que teríamos grandes avanços e elevaríamos o futebol brasileiro a um nível mais equânime, responsável e organizado; porém, como toda boa ideia neste país, vai acabar esquecida e, mesmo na área, derrubada, sem pênalti. Entendo que o meu histórico como comentador insatisfeito e como integrante de torcida organizada também não contribua muito. Mas, com a proposta em mãos, pelo bem de todos e felicidade futebolística da nação, o que posso fazer***?

    *Sim, caros colegas, como vocês viram também no título, por vezes utilizo o linguajar erudito da política nacional, com a devida vênia.

    ** Aqui (só aqui), talvez, um pouco de ironia?

    *** Touché! Não falei de política.

  • Tem gente que é poeta e não sabe

    Estou no ônibus, indo para o centro, um compromisso banal que não vem ao caso agora. O ônibus está vazio. Não é horário de pico. Homens e mulheres, cada um no seu banco.

    Tarde tranquila.

    O ônibus cheira a café velho e plástico. Bancos azuis, gastos, alguns pichados. Todo mundo, de certa forma, parece querer escrever uma frase no ônibus, quer ser lido pelo próximo passageiro.

    Tem gente que cola chiclete no banco.

    Aí vejo duas meninas, bem no banco da frente. Elas conversam e eu presto atenção em cada gesto, em cada risada. De repente, uma delas solta uma frase mais ou menos assim:

    — Sabe o meu namorado? Quando ele começou a namorar comigo, ele não era bonito. Depois, fui conversando com ele e hoje ele é bonito.

    Amigos, tem frases que me pegam de jeito. Ele não era bonito. Era comum, ordinário, anônimo.

    Hoje, depois dela, ele é bonito.

    Ele não era bonito, mas depois de amar e ser amado, ficou. Ela não buscou um homem bonito o bastante para fazer inveja às amigas. Ela gostou de um, namorou com ele e o fez ficar bonito. Abri minha mochila. Peguei a caderneta. Peguei a caneta Bic.

    Anotei: “Tem gente que é poeta e nem sabe disso.”

    Fiquei pensando em quantas sacadas geniais a gente ouve que não têm nada a ver com livros. Gente que nunca pisou em museu, que não lê literatura, que não vai ao cinema, que não é leitora. Então quer dizer que a poesia está fora dos livros?

    Não perguntei o nome da menina, nem o da amiga dela. Mas, de certa forma, jamais a esqueceria. A frase pulsa dentro de mim até hoje. Acho-a excelente, muito bonita.

    Precisava escrevê-la para que não se perdesse por aí.

  • Poema #01: Chiclete com Banana

    Eu só boto bip-bop

    no meu samba quando o tio Sam pegar o tamborim

    Somos povo
    Somos pluralidade
    Somos originais
    Somos natureza
    Somos beleza
    Somos muito
    Colônia, de novo?
    Nunca!
    Sobre tudo
    Somos… tudo
    Somos … CUL-TU-RA!
    Por isso
    Eu só boto o bip-bop
    No meu samba
    Quando o tio Sam
    Pegar no tamborim!

  • Poema #40: Interstícios da Vida

    Deixar de ser cúmplice da vida
    de outros que em mim personificam
    a parcela da culpa que subtraio
    do erro coletivo e meu, individualizado.

    Obscurecer o reflexo do sofrimento
    de homens que não vejo em presença,
    mas que em espécie me julgam digno
    de vê-los (como testemunha da morte
    sem remissão de si) em que se abrigam.

    A desvisão do homem como forma de se
    desviar do mundo, numa covardia anônima
    de se cegar para o que há de recíproco
    no duplo ato de existir e ser responsável
    por esta morte latente, usada como escudo.

    Mantendo a essência que não explico
    mas sei que existe onde deixo
    de existir para ser parceiro da vida,
    criação simbólica do gesto de um deus
    não conclusivo, que se deu por satisfeito
    em seu cansaço.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Por que os bons morrem cedo?

    Não sei por onde começar. Dói muito falar, lembrar de tudo isso. Gislane me contou de supetão, mulher sem coração: “Vá visitar logo, antes que ele morra!”. Disse assim, na bucha, que Renato estava doente, em fase terminal, nível quatro de cancro no cérebro. Renato é meu amigo de infância, estudamos juntos no Vinícius de Moraes. Um cara de coração imenso, me abrigou, com a sua humildade família, quando tive de sair de casa por conta das bebedeiras do meu pai. E não foi uma só vez. Ele me acudiu nos momentos mais difíceis, inclusive quando perdi minha mãe atropelada. Minha mãezinha morreu e nos deixou com o nosso pai, um homem desregrado, que só sabia de si. Fomos criados, na verdade, pelo meu irmão mais velho, o Valdemar, que já trabalhava e tinha o seu dinheirinho. Renato não media esforços para ficar ao meu lado, mesmo eu estando em crise, com depressão. Já adultos, tivemos um pequeno hiato; namoricos e turmas novas nos separaram. Soube que passou por uma trágica aventura em Portugal. Recebeu uma tentadora promessa de emprego de mecânico de automóveis. Trabalhou pesado, como um touro que era, mas muito acima de suas condições – Gislane me relatou, com lágrimas nos olhos. Não era bem como pensava. Foi explorado e voltou, depois de dois anos. Logo, por questões que desconheço, permanecemos afastados. Foi o destino cruel que nos puniu, pelo desleixo? Mas a verdade é que sempre pensava e desejava que estivesse bem. Acabei me casando e indo morar numa cidade da região metropolitana. A família de minha esposa é toda de Caucaia, e pudemos nos arranjar na casa de seus pais, onde construímos o nosso lar. Ele, ao contrário, procurou refúgio na serra; decerto queria uma vida mais tranquila. Gislane, que foi sua namorada – e sempre estava na expectativa de sê-lo outra vez –, falou que subitamente ele deixou de falar e de andar. Souberam por acaso, através dos vizinhos. Levaram-no ao hospital, e, de pronto, foi detectada a doença. Fui visitá-lo ontem. Não queira imaginar o aperto no coração que sinto até agora. Ele que era corpulento, um verdadeiro brutamontes, e estava cadavérico, na UTI, com a pele muito fina e o corpo encolhido, como uma criança desprotegida. Era mesmo um fiapo de gente. Chorei por meu irmão. Jamais imaginei vê-lo assim. É questão de dias ou horas para que decretem a sua morte. Amanhã retornarei para uma visita, se ele resistir. Tenho hora no emprego e não posso me ausentar por muito tempo, senão estaria ao seu lado, dia e noite. Pensei na fragilidade humana e na ousadia de tantos que se acham grande coisa. Renato é simples, um cara do bem. E a pergunta que fica é: por que os bons morrem cedo? Já não é o primeiro na minha lista de amados que se foram, sem dar o último adeus.

  • Dias quase perfeitos

    Recentemente assisti Perfect Days, uma coprodução entre Japão e Alemanha lançada em 2023. O filme é estrelado por Kōji Yakusho, no papel de um limpador de banheiros.

    Confesso que, no início, precisei de algum esforço para entrar no ritmo. A narrativa é lenta. O dia a dia do personagem, Hirayama, se repete quase como um ritual. Mas, aos poucos, essa repetição revela algo essencial: a beleza da simplicidade. Uma vida aparentemente pequena, quase claustrofóbica, que ao mesmo tempo transmite uma paz reconfortante.

    Hirayama encontra prazer em gestos banais. Escovar os dentes. Escolher uma música para ouvir no carro. Cumprir bem a tarefa de deixar os banheiros públicos impecáveis. Para ele, isso basta. Sua gentileza com os outros é sua forma de contribuir para o mundo.

    Esse olhar me tocou de maneira especial. Vivo, hoje, uma transição. De uma vida profissional acelerada para um momento mais introspectivo, mais contemplativo. Uma rotina menos marcada por obrigações. Mais aberta a atividades simples, corriqueiras, que se tornam fonte de prazer.

    Mas há um ponto que me inquieta. Para viver seus Perfect Days, Hirayama abandona quase tudo da vida anterior. Relações familiares, laços afetivos, responsabilidades. É como se tivesse optado por um isolamento absoluto. Isso levanta uma questão: até que ponto essa proposta não é uma utopia?

    Afinal, muitos não podem simplesmente abrir mão dos “dias úteis”. Da pressão do trabalho. Dos horários, das contas, das cobranças.

    Penso nas pessoas que encontro ao anoitecer, correndo para pegar um ônibus lotado depois de um dia exaustivo. Gente que, muitas vezes, nem sabe como vai pagar as contas do dia seguinte. E que, ainda assim, encontra espaço para sorrir e me oferecer um simples “boa noite”.

    Talvez esteja aí a maior lição. Não é preciso renunciar a tudo para viver dias perfeitos. Mesmo no meio das obrigações, é possível transformar os dias úteis em dias quase perfeitos.

  • Incomodada ficava a sua avó

    Há pouco tempo assisti a uma entrevista do ator Wagner Moura onde ele dizia que vivemos uma crise da verdade. Não há mais certeza ou garantia de que aquilo que se vê, lê, ouve ou se experiencia é real. Tudo pode não ser o que parece ou se afirma. Até o que constatamos com os nossos próprios olhos pode ser falso. A inteligência artificial, com sua produção de imagens e realidades, ao gosto do freguês, atende prontamente à nossa ânsia de completude e tamponamento dos buracos existenciais. Não existe mais falta! Tudo se remenda, disfarça, customiza. Viver, agora, é a arte de forjar. Em segundos, podemos colocar um ente querido, já falecido, na nossa foto de aniversário, formatura, batizado do filho. A morte não é mais definitiva. Também é possível postar foto abraçada com o ídolo (in)acessível, compartilhar os segredos mais íntimos, ou, até mesmo, se apaixonar pelo robô vestido de pessoa. “Nem dá pra notar diferença”, dizem por aí os mais experientes… De cá, me pergunto se o amor sempre foi tão artefato assim e só eu me enganei o achando artesanato.

    É assustador pensar que o príncipe encantado/inventado nos meus delírios adolescentes, hoje, teria rosto, olhar sedutor, nome próprio e ainda me faria juras de amor com o timbre que eu escolhesse.  Subiu um calafrio de horror.

    Nada mais tem garantia ou nos pertence, nem a nossa própria imagem e voz. Não é loucura pensar que com a IA, qualquer dia, posso estar na rede falando e defendendo ideias que nunca pensei ou refuto completamente. A crise da verdade é tão bizarra que li, recentemente, e chequei a veracidade da informação (ação indispensável atualmente), que a Dinamarca avalia conceder aos cidadãos direitos sobre sua imagem e voz para combater as deepfakes.

    Isso tudo me assombra tanto que até agora não consegui nem brincar com os famosos filtros na internet ou considerei entrar na moda e fazer harmonização facial. Tenho medo de quem posso me tornar. Sim, porque passando a ser aquela que sonhei ser, mesmo que às custas de ser totalmente outra de mim, o que se construiu por dentro não vai servir de jeito nenhum. Tenho certeza de que, se eu fizer harmonização facial, preenchimento, bariátrica, abdominoplastia e uso de lente verde vou precisar de harmonização emocional e espiritual. Sim, porque para ser outra não poderei ser essa que me tornei. Ah, sei não, talvez perfeita eu me torne insuportável. Melhor deixar como está. Verdade seja dita, eu sou muito apegada a essa que eu reconheço quando me olho no espelho.

    Também não vejo jeito de namorar robô. A temperatura do corpo, os pequenos equívocos do cotidiano me conquistam demais.

    Vou ficando por aqui. Sei que verdade absoluta não existe, mas ilusão tecnológica não me convence. Deve ser porque não acredito em perfeição ou porque, quando a esmola é demais, eu me belisco.

  • Festa ao Entardecer

    Daqui a poucos dias faço aniversário… O que vou pedir de presente? Alguma lembrancinha, mais para atender aos filhos e netos que me olham atentamente, tentando adivinhar meus sentimentos, ou meu estado de espírito, nesse dia que me leva cada vez mais ao entardecer da vida.

    Eu os conheço bem: cada um, à sua maneira, vai me sondar, tentar “me ler” nas entrelinhas.

    Não os condeno, pois por longos anos também passei pelo estranho papel de me sentir mãe, em vez de filha.

    Sendo assim, sei bem dos subterfúgios, das desculpas e disfarces para não preocupar os nossos.

    Minha mãe, aos 93 anos, ainda pedia vestido novo para ir às consultas médicas.

    Não saía sem passar o seu batonzinho rosa e não perdia nenhum evento familiar: aniversários, batizados, colações de grau. 

    Tanto podia ser do jardim de infância ou de graduação das suas três dezenas de netos. Ah, festejou também nascimentos e batizados de bisnetos e até uma tataraneta! 

    Eu penso que ela de fato tinha o espírito festeiro do povo latino. 

    Tenho a descendência e as lembranças do convívio  e costumes da minha grande família de origem. Festas, rezas, procissões… sentimentos externados… eu diria até exagerados. Bonitos e barulhentos, que acalentam as minhas memórias afetivas.

    O problema está nessa minha predileção em conversar com os meus pensamentos.

    Sinto que, nesta fase da vida, a calmaria tomou o trono, a paciência encontrou o seu espaço, os hormônios impetuosos se aplacaram, e tudo o que antes demandava tempo e urgência passou a ter a placidez que pode ser resumida com apenas uma expressão: E daí?

    E daí?

    Daí que, apesar de gostar da minha solitude, vou passar o meu aniversário com filhos e netos, sorrindo feliz com as demonstrações de carinho, festejando a vida.

    Tenho a convicção de que fui e sou importante na dinâmica familiar. Meus filhos e netos me reverenciam e agem de forma a me fazer crer na grandeza dos inúmeros papéis que desempenhei, mesmo quando eu mesma ainda estava perdida na ignorância e falta de prática. 

    Sendo assim, pegando carona no amor e carinho amealhado em meus anos de vida, vou me alegrar com a alegria deles.

    Afinal, viver é uma dádiva, em todas as fases, em várias nuances. Buscar e distribuir sorrisos, amar e ser amado, ser a presença amiga na caminhada e no repouso. 

    Aqui onde minha alma encontrou abrigo e serenidade, vou festejar com alegria e emoção dizendo: 

    Feliz aniversário para mim!

  • Ultimo café

    Contemplou em silêncio o burburinho alegre à sua frente. Da mesa de canto no terraço onde estava sentado espiava as demais espalhadas.

    A maioria com casais, fora uma grande com seis pessoas. Na sua, permanecia só.

    O sol da tarde era ameno e com luz leve. Escondido atrás do telhado da cafeteria, fazia sombra em sua mesa. Enquanto todos tricotavam alegremente sob o sol gentil, ele permanecia silencioso na penumbra.

    Uma variedade de sucos, doces, chás e cafés ocupavam os tampos espalhados pelos terraços e eram consumidos distraidamente pelas pessoas. Na sua mesa, seu café duplo demorou a chegar. Veio acompanhado de um biscoitinho de sabor neutro e sem entusiasmo. Melhor se estivesse só, como ele.

    Não esperava ninguém, para ser honesto. Estava sozinho, bebendo devagar o café para não queimar a língua.

    Estava ali porque se convencera a conhecer o lugarzinho charmoso que abrira há pouco numa rua transversal à sua, ou melhor, aonde ele mora porque não era dono de rua alguma.

    Usou a desculpa de conhecer a cafeteria para sair de casa porque decidira que precisava ver a vida em movimento.

    E estava vendo. Espectador da alegria alheia, ouvinte de pedaços de conversas que nada lhe diziam. Flashes da vida mundana. Nada além.

    Por um momento imaginou que poderia ter alguma companhia para esse café à tarde.

    Mas a mínima hipótese de pensar em chamar alguém o fazia mudar de ideia. Suas amizades eram poucas, a despeito de conhecer bastante gente. Conhecimentos que não iam além do mais profundo “alô”.

    Suspirou, a tarde terminou de escoar, as mesas próximas ficaram vazias.

    A sua, em breve, seria a próxima porque iria embora. Não estava frustrado porque ninguém lhe fizera companhia. Não tinha de se queixar porque ela se atrasou ou não apareceu. Simplesmente, porque não chamara ninguém.

    Pensou, mas desistiu. Não queria ninguém para um alô. Nem para um último café.

  • História arcaica

    Essa história aconteceu no tempo do ronca, quando o recato das moçoilas era-lhes o maior trunfo para os casórios. Quanto mais pudibundas, mais candidatas à celebração nupcial. Daí que se esmeravam em ostentar um ilibado comportamento em sociedade; quando iam às tertúlias, era na companhia das genitoras ou de alguém a quem incumbia vigiá-las.      

    Conta-se que um mancebo sem eira nem beira intentava namorar uma dessas donzelas de truz. Para isso usava toda a sua léria, mas o pai da moça se opunha por achar que ele era um mandrião. Não se ocupava em nada que lhe trouxesse algum tipo de estipêndio.  O moço pretendia convolar de estado civil – mas como, se mais parecia um mequetrefe?

    O pai então lançou-lhe um repto: ele casaria com a sua filha se jungisse a tal desiderato a demonstração de que não era um soez.

    – E o que devo fazer? – quis saber o rapaz. 

    – Deves dar-me a prova de que tens futuro. 

    Em meio a tão escorchante desafio, o moço foi aos poucos sentindo gorarem-se-lhe as pretensões. Não era nenhum abilolado e percebeu que o queriam apartar da contenda.  Caminhou a esmo na noite até que, esfalfado, resolveu tomar um pifão. Quando a ebriedade lhe turvou o bestunto, dirigiu-se à casa da moça.   

    Postado em frente à alcova onde ela dormia, encetou uma elocução:

    – Não tenho prebenda, mas não sou nenhum sorrelfa. Juntos viveríamos com parcimônia, mas não à míngua. Juro-to.

    A moça, já adormecida, despertou num sobressalto. Colocou furibunda o corselete, que preferia ao califom, e foi até a janela:

    – Arreda-te, doidivanas. Não vês que nada ganhas com tais ululações? Além disso, tiraste-me dos braços de Morfeu.

    – Morfeu?! Então tens outro… Por que não me falaste? – gorgolejou o rapaz, já pensando em cascar a marreta. Mas logo tirou da cabeça essa ideia, pois no fundo era um poltrão.   

    – Se não sabes quem é Morfeu, com isso apenas provas a tua estultice. E dás razão a meu pai… – continuou a moça. Dito isso, fechou com estrépito a janela.

    O rapaz foi embora achando-se um alarve. Ainda pensou em ir até uma botica comprar um sanativo que lhe diminuísse a coita. Ao mesmo tempo, contudo, sentia-se ditoso por haver descoberto a traição. Melhor saber-se guampudo agora do que depois.

  • Febre de sentir!

    Algumas pessoas têm habilidade em se doar, sentir que em sua condição humana há mais espaço para atender aos interesses dos outros ao invés de suas próprias dores cotidianas.

    São indivíduos que emocionam em manter uma relação mais frequente com o outro trocando ideias, pensamentos, conversas, sem pedras nos bolsos, que são raras e caras para muitos.

    Já, as pessoas pesadas, pessimistas e invejosas, tornam as relações diárias um prato azedo e temperado com sintomas doentios, sem regras saudáveis e com grande efeito dolorido após um encontro, que mais parece um embate competitivo.

    Os invejosos, que são os que tem satisfação com o fracasso alheio, guardam em si o prazer secreto em oferecer um alívio para sua responsabilidade em buscar o melhor de si. 

    Mas que, na verdade, seus medos, os mantém distantes de qualquer crescimento que perceba facilmente ao seu redor.

    Para quem sofre esse ataque emocional, por vezes não permite ter o ato de exteriorizar o que machuca ou incomoda, de transformar experiências difíceis – físicas, mentais ou emocionais – em palavras, ou linguagem escrita, sem receios ou filtros, o que poderia trazer alívio, clareza e serenidade.

    Uma oportunidade singular de colocar pensamentos, medos, angústias e anseios em perspectiva, é transformar experiências em palavras escritas, dando um passo adiante no reconhecimento de problemas e na busca pelo melhor modo de lidar com eles.

    Segundo a psicanalista Daisy Dalmáz, a escrita por si só é um sinal de evolução. “Sabemos que o mundo das ideias pode tudo, mas quando colocamos todo nesse universo interno na escrita, ocorre um salto de qualidade, pois, ele precisa ser organizado, precisa adquirir sentido, expressando um encadeamento de ideias e sentimentos”.

    O processo precisa ser direcionado para um conteúdo que expresse SENTIMENTOS, e não SITUAÇÕES (por exemplo: “senti raiva” ao invés de “gritei muito” ou “senti tristeza” ao invés de “chorei”).

    Aos poucos, as pessoas que seguem com a prática vão se familiarizando com a elaboração dos textos, além de aguçar a criatividade e a percepção de suas emoções mais profundas, num belo processo de autoconhecimento e fortalecimento interno.

    Como escreveu Fernando Pessoa “Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir”.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar