Crônicas Cariocas

  • A alegria das pequenezas

    — Olha o que eu achei!

    — O que é isso?

    — Um mixer, menina! Um mini mixer! E ainda funciona à pilha. Já pensou? Posso levar para qualquer lugar.

    — Levar? Para onde?

    — Para onde eu quiser!

    — Você só pode estar doida. Tanta alegria por causa de um mini mixer?

    — Ah, e você? Ficou quase uma semana comemorando a caça aos caramujinhos do jardim.

    — Como assim? — perguntou Ana. — Que duelo de esquisitices é esse?

    — Foi a Márcia quem começou — disse Tânia. — Veio com uma conversa de “alegria das pequenezas”.

    — Não foi bem assim! Eu só perguntei se você já tinha reparado na quantidade de coisas pequenas que conseguem deixar a gente feliz.

    — E eu respondi que não fazia a menor ideia do que você estava falando.

    — Pois eu expliquei.

    — Explicou demais.

    As três riram.

    — Ana, eu resolvi prestar mais atenção nessas pequenas alegrias. Não casa, carro, viagem ou joias. Estou falando de um cheiro, um objeto, um hábito, uma coincidência qualquer. Dessas coisas miúdas que aparecem no meio do dia e passam despercebidas.

    — E o mini mixer entrou nessa lista?

    — Entrou! Como não entraria? Pequenininho, leve, à pilha… achei uma graça.

    — Aí ela começou a rir de mim — disse Márcia. — Só que eu lembrei dos caramujos.

    — Ah, não…

    — Ah, sim! Você me telefonava toda contente: “Hoje encontrei trinta!” No outro dia eram vinte. Depois dezesseis. Parecia que estava vencendo uma batalha histórica.

    — Está bem… admito.

    Ana balançou a cabeça.

    — O que a falta de boleto, marido, filhos e preocupação faz com uma pessoa…

    — Ah, faça-me o favor! — respondeu Márcia. — E o seu pijama de bolinhas?

    Ana começou a rir.

    — Não vale.

    — Vale, sim. Você entrou aqui em casa dizendo: “É de plush! É de plush!”, como se tivesse ganhado um prêmio.

    — Eu amei aquele pijama.

    — Está vendo?

    Ana ficou alguns segundos pensando.

    — Quer saber? Acho que vocês têm razão.

    — Sabia! — comemorou Márcia.

    — Espera. Também tenho minhas pequenezas.

    — Agora ficou interessante — disse Tânia.

    — Arroz-doce.

    — Não vale! — protestou Tânia. — Tem que ser uma coisa que surpreenda. Tipo gostar de cheiro de querosene.

    — Você é impossível. Então vamos lá: lençol de quatrocentos fios; controle remoto com pilha nova; aproveitar os restinhos de batom e fazer um blush exclusivo; olhar a pracinha bem cedo, antes da algazarra das crianças; maçã gelada; ônibus chegando na hora; e, claro, meu pijama de bolinhas.

    — Gostei do blush — disse Márcia.

    — Agora é a sua vez, Tânia.

    — Eu?

    — Sim. Quero ver.

    Tânia pensou um pouco.

    — Gosto de entrar no carro e perceber que tem gasolina suficiente. Gosto do cheiro da chuva. Gosto quando minha secretária chega pontualmente.

    Fez uma pequena pausa.

    — E gosto muito de recolher roupa do varal.

    As duas olharam para ela.

    — Não riam. Acho aquilo quase filosófico. Tiro um pregador de um lado, depois do outro, dobro a roupa, coloco no cesto… não sei explicar. Aquilo me dá uma paz enorme.

    Márcia sorriu.

    — Logo você, que fez pouco caso do meu mini mixer…

    — Está bem, está bem. Já entendi.

    — Entendeu mesmo? — perguntou Márcia.

    — Entendi. A partir de hoje vocês não me pegam mais.

    — Quero só ver.

    Dois dias depois, o celular de Márcia apitou.

    Era uma mensagem de Ana:

    “Meninas… descobri um sabonete que tem cheiro de infância.” 

    🌷

  • Qual seu sonho hoje?

    Talvez a melhor maneira de realizar sonhos seja reparti-los em porções diárias. Se sonhar é a realização de desejos, como disse Freud, o pai da psicanálise, até mesmo os que se disfarçam de pesadelos tentam construir novos significados para abrir nossos caminhos.

    O sonho sempre está noutro lugar, ali onde não estou. Ele está no outro lado da montanha, na caída do sol, no ano seguinte, no tardar da maturidade, no horizonte do ideal e assim nosso imaginário viaja para longe do real.

    O encontro marcado com o sonho já produz, por si, prazer.

    O entusiasmo que nos proporciona sonhar nos inebria feito realizar, então, guardamos sonhos sempre as mãos, para que não nos escapem. Quando se realizam, se acabam, como a lua cheia que míngua tão logo atinja sua plenitude.

    Assim como o desejo só se interessa por desejar, o sonho só quer sonhar. Quando mais jovens, aprendemos que adultos precisam ter a sabedoria de adiar as gratificações e a satisfação imediata, que devem plantar com esforço e esperar com paciência para colher. Difícil mesmo é suportar o angustiante tempo da espera, não é à toa que dela, da espera, nasceu a esperança e nos agarramos a ela, na aposta de um ‘Royal street flush’ e lançamos nossa bola para os céus na tentativa de um ´strike´.

    Mas se para viver é preciso plantar e colher todos os dias, não deixe que a fantasia da grande safra do porvir atrapalhe seus planos. Quando “+ adultos” somos, sabedoria é perceber que nunca deixamos de ser crianças, que de maduros só temos a casca e que de imortal só mesmo o inconsciente.

    A vida é uma atleta de alta performance. Corre rápido demais.

  • Vinte Meia Um

    O ano é 2061, não se esqueça disso. Foram essas as últimas palavras do meu chefe depois de ele ter me explicado todo o projeto. Parece que a solicitação tinha partido lá de cima (ele reforçou a informação com o dedo indicador da mão direita apontado para o alto quando me passou a tarefa). O novo dono da revista cismou que queria uma matéria sobre como estaria o mundo daqui a 35 anos. Bem, eu sou o mais novo da redação (em tempo de casa) e não podia recusar um pedido do chefe. Na verdade, acho que foi mais uma ordem. Transmitida com educação, mas uma ordem. Seja como for, nunca foi do meu feitio desrespeitar algo chamado hierarquia. Mais tarde, refletindo melhor, acabei me sentindo orgulhoso de ter sido o escolhido. Afinal, se o doutor Santiago julgava aquilo tão fundamental… De qualquer forma, foi até engraçado essa incumbência ter surgido justamente nessa época. Um dia antes de receber a solicitação, eu havia lido no jornal alguma coisa a respeito de como tinham sido furadas as previsões de um filme lançado em 1991 sobre o ano de 2026. Nesse caso, o futuro já tinha se tornado presente e não era lá muito semelhante àquilo mostrado três décadas e meia antes. Quer saber? Apesar de mais conformado, continuava a achar a coisa toda meio sem graça e sem sentido, inútil até. Especialmente para o big boss, o maior interessado na brincadeirinha. Todo mundo na revista sabia muito bem que ele já tinha 75 anos (embora aparentasse menos). Nesse estágio da vida, já vai ser muita sorte se ele conseguir saber como será o mundo daqui a uma década, essa é que é a realidade. Não é só uma questão de estar vivo. É preciso também estar com saúde, enfim, no gozo de suas faculdades mentais, pra usar uma expressão cortês e um tanto clichê. Enfim… Não tinha mais tempo a desperdiçar com especulações vazias então li alguns livros, conversei com especialistas, entrei em páginas sugeridas pelo Google e fiz anotações. Nutri-me de uma dose substantiva de otimismo e decidi que o mundo futurístico seria um lugar bom pra se viver. Assistindo a todas as besteiras que o homem tem feito ultimamente, não é tão fácil ter essa esperança, mas vá lá, a imaginação (pelo menos ela) (ainda) é livre. Assim, doenças graves não seriam incuráveis em 2061. Transplantes, vacinas, tratamentos, remédios, a medicina continuaria a evoluir cada vez mais, elevando a expectativa de vida humana às alturas. Seria bastante razoável supor que alguém de 75 tivesse a chance real de conseguir mesmo saber como estaria o mundo 35 anos mais tarde. Além disso, a automação e o avanço tecnológico seguiriam seu curso em marcha acelerada, o mesmo acontecendo com a tão falada Inteligência Artificial. Também não dá pra projetar o futuro sem imaginar algo parecido com o que nos é apresentado pelo cinema de ficção científica: naves espaciais, velocidade de informação, robôs inteligentes, aparatos tecnológicos incríveis, computadores falantes, câmeras onipresentes e oniscientes. O texto tomava corpo, e eu me sentia entusiasmado. Perto do fim, um pensamento infeliz me perturbou: já estava com 58 anos e talvez não vivesse pra conferir os acertos de minhas elucubrações. Foi quando reparei no Renato, meu neto de 6 anos. Sentado no chão, ele mexia concentrado em seu tablet. Voltei os olhos à tela do notebook mais uma vez e retomei o trabalho, o prazo dado por meu chefe estava se esgotando.

  • Repensando os provérbios

    Camões diz num soneto que o mundo é feito de mudanças. Isso contraria o Eclesiastes, para o qual não há nada de novo sob o sol. O mais prudente é chegar a um equilíbrio e reconhecer que as coisas mudam para permanecer iguais. Ou se tornam iguais a cada vez que mudam.

    Se as coisas se transformam – mesmo mantendo sua essência –, transforma-se também a linguagem. Os provérbios, por exemplo. Eles são generalizações, e como tais expressam verdades aparentemente imutáveis. Mas será que não têm de se adaptar à evolução dos tempos? Sempre é possível, nem que seja por um artifício poético ou irônico, vê-los com nova roupagem.

    Diz-se (ou melhor, Hobbes disse) que o homem é o lobo do homem. Ora, hoje ele é muito mais logro do que lobo. Nosso propósito é antes enganar do que devorar o semelhante. Passamos-lhe a perna nos negócios, nos concursos, nas relações sentimentais. E queremos que ele se mantenha vivo para presenciar nossa vitória – o que seria impossível caso o triturássemos entre caninos esfaimados. Retifiquemos, então: “O homem é o logro do homem.”

    Vivemos tempos pragmáticos e pouco dados a especulações filosóficas. A especulação que nos interessa hoje é a financeira, por isso proponho esta atualização para o axioma de Descartes: “Penso, logo invisto.” Trocar “existir” por “investir” ajusta-se melhor a uma época na qual se cultiva pouco o ser e se mede o valor das pessoas pelos valores que elas têm no banco.  

    “O que os olhos não veem o coração não sente” é outra sentença que não bate muito com a realidade – mesmo porque pode ser facilmente contestada. Suponhamos que nossos olhos não vejam um buraco à nossa frente. Fatalmente cairemos nele, e duvido que em tal circunstância o coração não sinta e não responda com uma galopante taquicardia. Mudemos, pois, esse brocardo para alguma coisa como: “O que os olhos não veem pode nos fazer tropeçar.” Simples, prático, irrefutável.

    “O futuro a Deus pertence” também deve ser visto com reservas, pois não expressa uma verdade universal. Um político nepotista, por exemplo, dirá com bem mais exatidão: “O futuro aos meus pertence.” E quem pode dizer que ele está errado?

    A atual onda ecológica torna suspeita a afirmação segundo a qual “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”. Ter um pássaro na mão sugere a atitude politicamente incorreta de comê-lo ou engaiolá-lo, enquanto que deixar os dois a voar concorre para a preservação da espécie. É um gesto de respeito à vida, que os ecologistas e os poetas agradecem. Proponho, então, uma variante menos ofensiva à Natureza (se algum grupo preservacionista quiser aproveitá-la, fique à vontade): “Um pássaro na mão não vale a sua extinção”. Para terminar, sugiro que se substitua o ingênuo “Quem sai aos seus não degenera” por algo mais condizente com a natureza humana. Levando em conta a força da genética, troquemos o verbo e passemos a dizer: “Quem sais aos seus não se regenera.” O povo há muito reconhece essa verdade, traduzida no conhecido provérbio: “Pau que nasce torto, morre torto.”

  • Zé das Estrelas

    E o Zé deu de olhar as estrelas. Foi subir no telhado uma vez, e não acabou mais. Tinha descoberto a América. O Zé ficou encantado com as estrelas que ele viu no céu. Como se nunca tivesse visto. E olha que eu vivo com o Zé há quase cinqüenta anos. Ele sempre foi uma pessoa normal. Até que deu de olhar as estrelas.

    Não dorme mais na cama, o esquisito. “Faz tempo que eu quase não dormia, Cida”, ele diz. E é verdade: ele só dormia de dia. De noite ficava futricando, não tinha sossego na cama. Ainda bem que o Zé deu de olhar as estrelas. Fica lá em cima do telhado, de boca aberta, como se quisesse comer todas as estrelas do mundo.

    Hoje eu não agüentei, peguei e fui lá com ele. A nossa casa não é muito alta, é só um chalezinho de madeira; o telhado é que é inclinado demais, mas não é difícil subir. O Zé segurou a escada, eu subi devagar, segurando bem. Fiquei toda tremendo lá em cima, enquanto o Zé subia; depois me arrastei pela beirada, até a cumeeira. Fiquei lá em cima abraçadinha com o Zé, a noite inteira, olhando as estrelas.

    Sabe, eu posso cair do telhado. O Zé pode cair do telhado. Mas vai ser uma morte feliz, se a gente morrer. O Zé aponta uma estrela, só com os olhos, impossível não seguir os olhos dele. É como se o Zé fosse um santo fazendo um milagre. Eu só não estou seguindo os olhos do Zé, quando estou mergulhada neles. Tantas estrelas lá dentro. Não é à toa que o Zé ficou maravilhado.

  • Um trabalho de verão

    Ele tinha um trabalho a ser feito pelo seu primeiro ano de faculdade de jornalismo. Aliás, o segundo em sua segunda semana de aula. O assunto era: escrever uma história curta sobre algum acontecimento marcante de sua vida, em terceira pessoa. Mal sabia por onde começar, coitado. Viveu tantas coisas em seus 34 anos, mas há muito tempo, apenas lutava pela sua sobrevivência, feito um leão na selva cercado por uma alcateia de hienas. Pensou em escrever sobre um de seus primeiros sonhos que teve quando criança, que era ser jogador de futebol, porém os carrinhos e os empurrões prepotentes que sofreu de alguns adultos ao curto tempo de sua infância, fizeram com que as pernas de seus sonhos bambeassem e a arbitragem da vida o colocasse para fora dos gramados verdes. Pensou em escrever sobre o seu primeiro beijo, ou sobre amores platônicos que teve em salas de aula em sua adolescência, porém como era o mais velho da sala, não quis arriscar em ser interpretado como um demodê piegas e ser motivo de chacota e bullying nos próximos quatro anos. Martelou em escrever sobre as tardes de domingo que sempre passa com sua mãe, (o único dia da semana que consegue visitá-la) aliás, por ele, visitaria sua amadíssima com mais frequência. Porém a urgência de seus dias o impede de sentar calmamente à mesa da cozinha em que lhe espera sempre com um bolo de fubá quente e o café preto 3 corações em seu acolhedor apê. Pensou em escrever sobre a viagem que fez recentemente a São Thomé das Letras/MG, porém teve receio de querer se mudar para lá em definitivo e viver como um hippie, comercializando artesanatos e suas poesias, sob efeitos de cogumelos azuis, ocasionando assim o trancamento de seu curso. Melhor não. Pensou em escrever sobre como foi o seu dia anterior. Por mais que ele saiba que todos os dias são especiais e que devemos viver intensamente cada dia como se fosse o último, nada de tão especial ocorreu naquele dia. Talvez ter pago seus boletos antes do vencimento e poder ter uma boa noite de sono sem dever nada a ninguém, tenha sido um ato heroico e vitorioso desse cidadão do proletariado que tanto apanha todos os dias desse pugilista chamado Capitalismo. Ele pôde então naquela noite sonhar mais uma vez. Ele pensou. Pensou. Pensou. Pesou tanto a memória de arquivos do notebook de sua cabeça, que resolveu então fechar a tela do que foi passado, jogou uma água fresca em seu rosto já bem oleoso de tanta transpiração por falta de inspiração, vestiu sua camiseta preta desbotada do Pink Floyd e partiu rua afora, sob uma tarde ensolarada e quente de sábado, para enfim na noite de sua apresentação, ler para todos que aquele dia foi tão marcante quanto as marcas de verão que nos deixam em algum momento na epiderme de nossas vidas.

  • O segredo da boa colheita

    Ao entardecer, quando o estranho passou, meu irmão e eu abrimos-lhe o crânio com o grosso ramo de videira que usamos para ocasiões semelhantes. Um único golpe, preciso e sem fúria, nada mais. O chapéu que o estranho usava empoleirado na cabeça rolou alguns metros adiante. Meu irmão o apanhou do barro vermelho e o pôs na sua própria cabeça. Será um ano bom, produtivo e faremos um bom dinheiro — isso foi o que concluímos, meu irmão e eu, apenas com uma troca de olhares.

    Arrastamos o estranho até o paiol e acendemos a lamparina de óleo. A luz embaçada fez brilharem as pás dos ventiladores de teto, espantando os morcegos. Arregaçamos as mangas e estudamos por alguns minutos o corpo inerte do estranho. Era um homem de quarenta e poucos anos, forte e parrudo, farto de carnes, gordura e músculos. Um perfeito fertilizante natural. Abrimos uma vala funda ao pé de uma videira e lá o enterramos com cuidado, como manda a tradição nas vésperas da colheita. Assim, o sangue drenado do corpo sem vida do estranho manchará as uvas, suas carnes nutrirão as raízes e fortalecerão as gavinhas e seus ossos darão vigor novo a esta terra queimada pela névoa e pela geada. A vinha crescerá até que o suco flua, nobre, único, virtuoso de sua fermentação secreta.

  • Regulação emocional

    Há um aquário dentro do meu peito. É uma caixa de vidro invisível onde as emoções nadam como peixes de cores e tamanhos diversos. Alguns pequenos e ágeis, prateados como a alegria de uma manhã de sol depois da chuva. Outros são lentos, escuros, quase como enguias que se escondem nas pedras, como a mágoa que insiste em não desgrudar do fundo.

    Hoje pela manhã, acordei com um peixe-elétrico no aquário. Era a ansiedade, nadando em círculos rápidos, fazendo as plantas do equilíbrio balançarem como se um tremor as atingisse. No café, quase derrubei a xícara. As mãos pareciam pertencer a outra pessoa. O peixe-elétrico soltava descargas: “Você esqueceu de responder aquele e-mail importante”, “E se a reunião das dez der errado?”, “O mundo é um lugar perigoso e você não está preparado”.

    Antigamente, eu teria jogado mais comida no aquário. Comida envenenada: rodadas de pensamentos catastróficos e repetições mentais, como uma tempestade que turva a água completamente. Ou então, tentaria pescar o peixe-elétrico à força, com as mãos nuas, só para levar um choque mais forte e assustar todos os outros peixes.

    Mas o tempo me ensinou a respirar antes de agir. Parei diante da janela e observei o vaso de espada-de-são-jorge sobre a mesa. Inspirei fundo, como se pudesse oxigenar a água do aquário por dentro. Nosso centro emocional não se trata de matar o peixe-elétrico, mas sim me alertar e manter vivo.

    Essa “Regulação emocional” não é uma guerra, é jardinagem subaquática. É cuidar para que o peixe da raiva não cresça tanto que engula o peixinho da serenidade. É não alimentar em excesso o dragão-marinho da autocrítica, que adora devorar os coloridos cardumes da autoestima.

    Ao longo do dia, usei as ferramentas simples do regente de aquários:A rede da pausa: O filtro da perspectiva, e as pedras do ritual.

    Não somos donos das emoções que nascem em nós. Elas surgem como peixes num viveiro. Somos responsáveis pela qualidade da água, pelo equilíbrio do ecossistema interior. Às vezes, um peixe triste precisa nadar até o fim. Ao final do dia, o aquário não está cristalino, porque a vida não é assim. Mas a água está mais translúcida e por isso consigo ver o fundo, minhas convicções e meus valores. O peixe-elétrico ainda está lá, mas agora ele nada mais devagar, sem descargas. Ao lado dele dança o peixe-dourado da gratidão, e assim aprendemos que a regulação emocional não é sobre controle rígido. É sobre criar um habitat onde todos os peixes, até os mais escuros e pontiagudos, possam coexistir sem envenenar a água. É a arte sutil de ser, ao mesmo tempo, o aquário, o peixe e o cuidador. E seguir nadando, mesmo quando a água parece escura, basta respirar, esperar e cuidar.

  • O entregador

    O café esfriava enquanto eu assistia à saga do entregador, em frente à portaria, tentando descarregar do furgãozinho um pacote grande e pesado. A situação era cômica: ele andava de um lado para o outro, movia a encomenda pra lá e pra cá, e terminava sempre com a mão no queixo, pensativo. Por certo, não tinha carrinho de transporte nem experiência.

    O porteiro não deixou a guarita e certamente nem pensou em ajudar. Aliás, complicaria um pouco a vida do coitado, pedindo todas as referências possíveis para atrasar ainda mais o recebimento da encomenda, com cara de quem comeu e não gostou. Ele é bastante conhecido no condomínio, faz o tipo que reclama de tudo. Arrisco a dizer que se ganhasse na Mega-Sena, reclamaria três dias seguidos por ser obrigado a se apresentar no Banco para receber o dinheiro. Depois, reclamaria dos familiares e amigos, eternos pedintes. Depois, é óbvio, arrumaria outra e mais outra e mais outra coisa para reclamar. Um reclamante assíduo, crônico. Confesso, às vezes me pareço com ele.

    O velho do 101 apareceu, retornava do passeio matinal com o seu companheiro canino. Pois bem, vendo a situação do entregador, se ofereceu para ajudar, mas o cachorro pulou para dentro do furgão e causou um baita alvoroço. Imagino que quase nada lá dentro se manteve no lugar, o próprio furgão chegou a balançar com o cão pulando entre as encomendas. Os dois demoraram um bocado para capturá-lo e, logo depois, o entregador agradeceu e dispensou a ajuda com um sorriso amarelo. É claro, não consegui ouvir palavra alguma, mas me era tudo tão nítido que eu poderia narrar a situação como se estivesse sentado o tempo todo no banco do carona.

    Quando lembrei do café já era tarde. Pois é, talvez eu tenha perdido a hora bisbilhotando a vida alheia. Nem sequer olhei para o relógio, peguei rápido a mochila e fui para o trabalho. Como de praxe, o porteiro não respondeu ao meu bom-dia. Quando passei pelo furgão, ainda estacionado na frente do prédio, percebi o entregador empilhando caixas lá ao fundo e, estampado com letras garrafais, na incômoda e pesada encomenda, o meu nome.

  • Serena

    Serena entrou no meu mundo por acaso – se é que posso acreditar em acaso; não estou tão seguro assim. Eu não pretendia adotar, essa era uma máxima que construía na minha cabeça pelo fato de ter um primo adotado que sofreu com vários transtornos por não o aceitar. Wilson, o nome dele, tentou se matar umas duas vezes, mesmo recebendo o apoio dos meus tios para tudo. Ele era depressivo em grau máximo e bipolar. Mas isso agora não vem ao caso… Voltemos: desde muito cedo, queria ter a minha família, com filhos biológicos. Mas Nazaré apareceu. Ela veio trabalhar em casa, recém-chegada do interior, e nós não sabíamos que ela estava grávida. Ela escondeu até onde pôde, mas logo começaram os enjoos, e Nazaré, revoltada com o pai da criança que esperava, dizia que iria abortar. Flávia e eu não deixamos. Foi um deus nos acuda, porque Nazaré falava que não queria ser mãe aos dezessete anos; que sabia da vida difícil que levara, com oito irmãos, no interior; que mulher parida é desprestigiada pela sociedade, como sendo mulher da vida ou algo do tipo. Ficávamos no seu pé todos os dias, convencendo-a de que uma criança é uma dádiva, uma bênção, com todos os argumentos que tínhamos. Foi difícil, quase impossível de segurar a revolta da mãe. Então, me prontifiquei a ficar com Serena – o nome que escolhemos; já um prognóstico para serenar as nossas vidas, tão agitadas –, disse a ela que a menina seria muito bem-criada, teria, certamente, uma vida bem diferente da que Nazaré teve. Nazaré aceitou a proposta, sempre reclamando por estar grávida, pelo peso e tudo o mais para fazer as tarefas de casa, das quais a dispensamos. Veio a sua irmã Lucila para ajudar nos afazeres domésticos. Serena nasceu, e, como esperado, foi enjeitada pela mãe; sequer recebeu a primeira amamentação. Logo, Flávia e eu a pegamos para criar, nos idos de 80, e registramos como nossa filha, com o inteiro consentimento da mãe – o que se chama de adoção à brasileira. Não havia essa burocracia que há hoje. Serena caiu perfeitamente em nossos braços, arrebatados que estávamos por sermos pais. Depois de Serena, felizmente Flávia engravidou duas vezes, e tivemos Serginho e Paulo Filho. A família estava completa. Nazaré continuou conosco e passou a ter uma relação melhor com a filha biológica, ainda que não quisesse ter as responsabilidades de mãe. Nazaré marcava uma diferença grande na relação com a pequena, que a amava. Serena hoje só nos dá orgulho: é formada em engenharia pelo ITA e trabalha num centro de tecnologia em Orlando. De seis em seis meses, ou ela vem nos visitar, ou vamos vê-la. O amor é infinito; não cabe no peito e no pensamento. Ela é minha princesa e meu encantamento. Nasceu justamente para ser a nossa filha amada.

  • Adalberto, O Invejoso

    Dizem por aí que o Sr. Adalberto de Castro venceu na vida. Conforme seu obituário, esse dedicado empresário do setor têxtil aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho. Ainda menino, começou a trabalhar como engraxate. Sem muito tempo para frivolidades, abandonou os estudos e foi tentar a sorte na cidade grande. Apesar dos inúmeros percalços, tornou-se um reverenciado empresário, dono de várias indústrias espalhadas pelo País. Para a opinião pública civilizada, um visionário empreendedor. Para seus bárbaros detratores, um capitalista sem escrúpulos.

    Não se sabe, exatamente, o que levou Adalberto a tal precoce desfecho. Dizem que trabalhava muito. Era deveras devotado à administração de suas empresas. Sentia prazer em dar ordens a seus subordinados. Mas, nos últimos anos, os negócios já não iam mais de vento em popa. Por certo, tudo piorou desde que o atual governo tomou posse! Afinal, suas qualidades como gestor e administrador eram irrefutáveis. Com o tempo, as duplicatas acumulavam-se, os fornecedores exigiam a quitação de suas dívidas, os gerentes de banco, antigamente tão solícitos e atenciosos, já não o tratavam com a mesma deferência. Ainda assim, continuava a ser um distinto cidadão, pois aos aduladores de sempre interessavam menos os balanços patrimoniais de suas empresas do que o status de sua persona.

    O que poucos sabiam, no entanto, é que Adalberto era um homem invejoso. Não tinha inveja de seus concorrentes, visto que nenhum deles dispunha do mesmo tino comercial que a sua intuição foi capaz de agraciar-lhe. Para surpresa até mesmo dos mais íntimos, o que seus penetrantes olhos escuros não revelavam era o ciúme que nutria das pequenas conquistas de seu primo Felisberto Leão. Homem simples, de temperamento tranquilo, com aquele olhar irritante de um bovino em engorda, Felisberto representava tudo o que era, simplesmente, inatingível para Adalberto. Tinham quase a mesma idade, costumavam brincar juntos quando crianças. Felisberto era daqueles medíocres que tão comumente conhecemos aqui e alhures. Não era bom nos esportes, não tocava nenhum instrumento musical, não sabia dançar. Mas teimava em ser feliz! E o pior: gostava de viver naquele fim de mundo! Não tinha grandes pretensões, não pensava no amanhã, não planejava seu futuro.

    Esse comodismo indolente de Felisberto irritava, profundamente, Adalberto – pessoa inquieta, insatisfeita e gananciosa. Após a mudança deste para a capital, os dois parentes afrouxaram o laço de sua antiga amizade. Raramente se viam, mas o bem-sucedido empresário recebia, com certa frequência, notícias de seu primo por meio de sua irmã mais velha. Nada o deixava mais amuado do que um compromisso indelegável em sua cidade natal. Mas as suas origens teimavam em se revelar na curiosidade com que perguntava de seus antigos conhecidos. Como quem tentasse manter velhos sentimentos enterrados sob a fleuma de um rico homem de negócios, Adalberto lutava para manter uma certa distância de seu passado pobre e interiorano.

    Tudo isso fora, enfim, desfeito quando a notícia da morte de Adalberto de Castro difundiu-se por aquelas duas cidades. Passado e presente convergiram para as exéquias daquele nobre senhor. Entre lamentos e lamúrias, suas qualidades eram ressaltadas e seus defeitos, ignorados. Todos queriam valorizar o tipo de relação que haviam tido com o falecido – não sendo Felisberto Leão uma exceção entre eles. Para o saudoso primo, Adalbertinho sempre havia sido seu melhor amigo. Esteio moral e financeiro da família Castro, a irmã e seu marido esforçavam-se, também, para mostrar aos alcoviteiros de plantão o quão irreparável seria aquela prematura partida. Mas, como tudo na vida, aquele espetáculo fúnebre chegava ao seu fim. As máscaras eram retiradas, o figurino era guardado, o cenário era desfeito – e o morto era enterrado.

    De volta a sua pequena cidade, Felisberto se dirigiu, como de costume, ao boteco do Seu Manuel. Não querendo mais rememorar lembranças do querido amigo, já que as almas também devem descansar, resolveu abrir o jornal local para inteirar-se a respeito das novidades municipais. Para seu desgosto, o diário havia feito um grande especial sobre aquele filho ilustre. Que piegas, meu Deus! Sua impressão era de que o mundo havia parado para lamentar a morte de Adalberto! Mas já não era mais possível suportar tamanho luto! Basta! A vida exigia resignação e perseverança dos que ficavam! Sendo assim, após revisitar os tantos feitos empresariais do finado, atirou o jornaleco sobre uma das mesas e, entre dois goles de uma caninha, exclamou resoluto:

    — E, além de tudo, aquele filho da puta era feliz! Também pudera! Com todo aquele dinheiro! – Era o desabafo de quem havia vivido sempre à sombra do primo famoso. A partir de então, liberto dos grilhões que o finado havia lhe imposto, nunca mais falou de Adalberto. Leve como uma pluma, sua mente e seu coração foram purgados da inveja que sempre sentiu do endinheirado parente.

  • Desertos

    Os dois esqueletos de um condomínio em construção, voltados para o oeste, acolhem o vento de inverno que rasga as redes de proteção, agora de um laranja desbotado que denuncia o esgotamento de todos os prazos. Assovia por suas entranhas de tijolos cinzentos, cor de sem vida, e ecoa pelos corredores e escadarias e as futuras dependências de 5000 m2 e 800 quartos, o básico de que precisam para viver os que chegarão flutuando sobre tudo e todos, qualquer dia destes. Com suas ideias equivocadas sobre humanidade, graus e degraus.

    De alto a baixo, outra rede de malha fina, como um véu esbranquiçado e vazado de poeira, protege os passantes dos estilhaços de argamassa e blocos, enquanto balança como se fosse um fotograma daquele velho filme sobre prédios que navegam o mundo da contabilidade, do Monty Phyton. A manta que torna invisíveis os corpos que despencam dos andaimes e desaparecem no disco colorido das estatísticas.

    Cá embaixo, neste universo ordinário em que as vidas comuns se colidem, o funcionário baixinho com a aba do seu boné voltada para trás orienta a entrada e saída dos carros no estacionamento junto do metrô. Nos intervalos, dá uma leve polida na sua Mercedes, um Monza Hatch azulado em tons diversos por retoques de spray, e ajusta com chaves de fenda duas caixas de som enormes no espaço do bagageiro. Fala ao celular com sua mulher sobre a feijoada que ela irá deixar no forno, antes de sair para o turno de sábado num hospital na Freguesia, do outro lado da cidade. Coça o rosto cavoucado da idade, passa a flanela para tirar um cisco do teto amassado do carro. Olha para chão junto ao muro e sorri satisfeito. Um sabiá come a quirera espalhada sob uma minúscula edícula que ele tinha arranjado com pedaços de tijolos e uma cobertura de plástico. Um trem emerge por sobre o pontilhão e para na estação do outro lado da avenida. O sabiá estaca por um segundo, um grão suspenso no bico. Não porque o estrondo metálico das rodas sobre os trilhos o incomodasse, mas porque ele percebeu que aquele trem hoje chegara com um minuto de atraso. Em seguida continuou com suas coisas de sabiá.

    O mato cresce sob alguns automóveis abandonados nos fundos do estacionamento, esse deserto, como são desertos as rodoviárias, como é deserto a paisagem daquele velho que fuma, debruçado meio corpo na janela do sobrado espremido entre dois edifícios, do outro lado da rua. Uma senhora desce vagarosamente a rampa do mercado, a bengala na mão esquerda, enquanto com a direita tenta conter o carrinho abarrotado de compras. Elegante, usa sapatinhos cor de rosa e um conjunto de calça e blusa na cor azul turquesa. Colar e brincos de pérolas e anéis prateados nas duas mãos. Uma mulher de cabelos encaracolados vem em seu socorro até que ela consiga sentar-se em um dos bancos perfilados junto a porta de saída. Recupera o fôlego, ergue a cabeça e me olha desolada, como se ponderasse sobre a minha inutilidade de observador. Eu penso em lhe dizer que naquele momento eu rascunhava uma história que iria abalar os alicerces da literatura universal, mas reconsidero. Não é aconselhável dividir segredos com estranhos.

  • Poema #74: ( )

    Suspenso na tarde
    como uma lâmpada queimada
    num porão deserto,
    figura o lado esquerdo
    de um parêntesis aberto.

    Seu estado resulta
    do itinerário de sombras
    em que um homem se perde
    na solidão de seus próprios passos,
    esquecidos sequer sem deixar uma marca.

    Sua abertura demonstra
    a imperiosidade do erro
    que determina sempre
    que as flores se abram para cumprir
    seu papel de beleza e de decomposição.

    O parêntesis aberto no escuro
    não é senão a necessidade
    de se sair do estágio de clausura,
    quando se esgota (ou assim se imagina)
    a fonte de oxigênio íntimo do ser.

    Mesmo quando já se sabe
    que na asfixia de ele estar fechado
    sobrevive pelo menos a sua integridade,
    e abri-lo significa a dispersão da energia
    que ele guarda de si para si como um transistor.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #03: Magia

    O outono deixa cair seu manto branco sobre as montanhas
    Nada mais é nítido, nada mais é real.
    Tudo vira sonho .
    Há magia sob o tecido d’água que misteriosamente pede aconchego.
    Todos são um. Confundidos, ofuscados.

    O outono salpica a noite com estrelas tantas
    O olhar se perde, tudo parece sonho.
    Há magia sob o céu bordado, que misteriosamente provoca suspiros.
    Todos são encantados. Confundidos, ofuscados

    O outono desenha montanhas azul-marinho guardando a cidade
    Nada mais é nítido, nada mais é real.
    O olhar é impedido, tudo parece sonho.
    Há magia nos limites, que misteriosamente convidam à introspecção.
    Todos são iludidos. Confundidos, ofuscados.

    O outono exibe luares que emudecem
    Tudo é nítido, tudo parece sonho.
    Há magia sob a luz delicada, que misteriosamente desperta amantes.
    Todos são tocados. Confundidos, ofuscados.

    O outono azula o dia, clareia até a cegueira
    Tudo é perturbadoramente nítido, tudo é real.
    O olhar é indiscreto, nada é segredo.
    Há magia sob a luz, que misteriosamente revela.
    Todos são desprotegidos, todos são desvendados.

  • Atonais

    Um frango feliz, estampado numa caixa de nuggets.

    Era o que Zími pensava sobre quase todas as pessoas que conhecia.

    E essa imagem bizarra virou uma camiseta usada por sua parceira musical Mila Cox.

    A sensação de certa segurança e conforto que vivia nesse ano ainda não era familiar o suficiente, A sua paranóia consistia no medo que tinha de voltar às condições precárias em que vivia até o ano anterior.

    Zími beirava os cinquenta anos, e entendia que atualmente sua faixa etária poderia significar o fim da linha, ou alguém que resistia a um declínio mais triste.

    A qualidade de vida dependia mais do que nunca de uma segurança financeira insustentável para a maioria.

    Essa maioria se recusava a pensar.

    Eram os frangos felizes na caixa de nuggets.

    Então ele entrou no apartamento que eles dividiam na Rua da Glória, e a viu com a camiseta.

    Estava sentada no sofá assistindo youtube na TV.

    Mila Cox tem vinte e três anos.

    A vizinhança especula muito, mas ninguém sabia nada sobre eles.

    Zími achou a camiseta dela legal, mas nem sabia que Cox havia se inspirado em algo que ele havia comentado usando o frango para ilustrar a cena descrita.

    Zími sempre voltava da rua com o saco cheio. Vestia uma camiseta gasta do Husker Dü, e falou: “O inferno é acordar e perceber que o mundo ainda é o mesmo.”

    Ela respondeu: “Mas pelo menos algumas coisas loucas aconteceram num período curto de tempo. Temos uma banda chamada Crop Circles, e quando escolhemos esse nome, era impensável que Donald postasse aquela foto dele com o ET.”

    Zími entrou no banheiro, e olhou no espelho enquanto mijava.

    Ele sabe que a grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana.

    Sabia também que uma tumba mais fria e úmida que os quartos de pensão em que viveu até o ano anterior era o destino inevitável de todos.

    Mila Cox agora fazia café e Zími captou o aroma enquanto lavava  as mãos.

    Ambos desconfiavam que os dois são autistas, mas nunca falam do assunto.

    Preferem saborear silenciosamente a delícia de não serem o frango na caixa de nuggets.

  • A Copa das geladeiras

    Existem fenômenos que a ciência ainda não conseguiu explicar.

    As pirâmides do Egito.

    A matéria escura.

    O motivo pelo qual abrimos a geladeira durante os jogos da Copa do Mundo.

    O melhor é que todo mundo faz isso. Se você está assistindo a Copa do Mundo com um grupo em sua casa, veja bem se não é assim mesmo.

    O jogo está empatado, faltam três minutos para acabar, o atacante avança pela direita, o estádio inteiro prende a respiração… e quem está no meio do sofá empurra os outros e se levanta para verificar se, por acaso, surgiu um pedaço novo de queijo desde a última inspeção realizada há exatos quatro minutos.

    Outro, torcedor fanático, rói as unhas.

    A amiga, que não entende nada de futebol, caminha pela sala torcendo as mãos.

    Independentemente do método escolhido para lidar com a tensão, mais cedo ou mais tarde todos acabam diante da geladeira.

    Lógico que são pessoas íntimas, mas, em circunstâncias normais, nenhum deles mantém uma relação tão próxima com a minha Samsung Duplex.

    Quanto mais decisivo o jogo, mais frequentes as visitas.

    E tem inserções específicas por perfil:

    – O fiscal de refrigerante, que conta quantas latinhas ainda sobraram;

    – o explorador de potes, que abre recipientes à procura de algo que não sabe nem dizer o que;

    – o supersticioso, que procura por um raminho de quatro folhas na gaveta de hortaliças;

    – e o peregrino da luz branca, que apenas contempla o interior da geladeira em silêncio, como quem procura respostas existenciais entre a margarina e o pote de azeitonas.

    Na final da Copa, a porta da geladeira passa mais tempo aberta do que fechada.

    Talvez a Copa não revele apenas como torcemos.

    Revele como esperamos.

    Porque diante da ansiedade, da incerteza e dos noventa minutos que parecem eternos, fazemos o que os seres humanos sempre fizeram: procuramos conforto.

    Alguns encontram na fé. Outros na estatística.

    Nós, brasileiros, procuramos na geladeira.

    E, quase sempre, encontramos apenas a mesma garrafa de água que já estava lá no primeiro tempo.

    Mas voltamos.

    Porque a esperança, assim como a Copa, é uma coisa que se alimenta sozinha.

  • Voos mais altos que nós mesmos

    O piso são nuvens; entre o céu e a terra, tal qual um dito rodapé, eis o cinturão cintilante que traz a cor das bagagens, no compartimento acima da cabeça e no nível do pé: laranja e amarela. Sigo fotografando estrelas sobre o oceano, a 12km de altitude, alaranjando a escuridão que me faz perceber Avior brilhando perto da ponta da asa metálica que me atravessa a madrugada e tantos tempos.

    Após turbulências tantas em terra, céu de brigadeiro, enfim.

    Enquanto isso, sem porto, me aproximo do lugar que meu pai me guarda. Trago a alma leve; no clarear do dia, Romeu e Julieta, versão Los Hermanos, chega-me ao coração pelos ouvidos.

    Tudo se ajeita depois das tempestades. A vida é a urgência das coisas extraordinariamente simples do dia-a-dia.

  • Comédia romântica

    Quando dois olhos se olham de uma maneira inesperada e se encontram e se sabem tão íntimos e tão inteiros, sente-se o fogo que arde sem se ver. Quando dois seres se veem próximos o bastante para dizer e celebrar o momento, vive-se o não contentar-se de contente. Quando duas bocas esperam, ansiosas, o suave toque ou o roçar de leve, percebe-se a dor que desatina sem doer.

    Quando duas almas dançam a canção imaginária dos amantes e ninguém os vê, e ninguém os interrompe porque há um tempo só deles, entende-se o solitário andar por entre as gentes.

    Quando duas histórias se entrelaçam e se fazem uma. Risos, brincadeiras, beijos e abraços, contemplação. O céu não é céu. As estrelas não são estrelas. Tudo é invenção. E inventam-se horas e coisas. Inventa-se a sensação. Quando duas mãos se aproximam e se querem. Quando dois sonhos se cruzam. Não importa o real.

    Importa a imaginação.

    Quando tudo isso acontece, a gente chama ou acha ou pensa ou diz que é amor. E vemos e vivemos intensamente o mundo inteiro. Os filmes, as músicas, os poemas, os comerciais, os bilhetes e o cartaz. As flores e a cena congelada do beijo entre a mocinha e o rapaz, Tudo é nada e nada é tudo ou tanto faz. Há muitos riscos, há muitos medos, mas queremos mais.

    E quando, enfim, acaba o quase infinito sentimento, o coração está ao chão, despedaçado. Mas não há motivos para o eterno sofrimento. Novos capítulos são escritos e novos personagens se inserem à trama. Suor, olhos arregalados e calafrio. Calor, contentamento e desafio. O amor?

    Mais uma crônica, mais um poema e mais uma canção…

  • VÂNIA está nua

    Vânia sempre sonhou morar em Santa Teresa. Tinha um monte de amigos por lá. Frequentava os bares da moda, andava de bonde e se admirava com a quantidade de centros culturais e casarões históricos, subindo e descendo pelas ladeiras de paralelepípedos e trilhos.

    Todos tinham cara de artistas ou se vestiam como artistas. O bairro respirava boemia e contracultura e isso a fascinava. Pontos de artesanato e ateliês em cada esquina.

    Conseguiu alugar um apartamento no Largo dos Guimarães, lugar icônico do bairro. Vânia teve sorte. Uma amiga voltou para sua cidade natal e passou o aluguel para ela. Não era amplo, mas charmoso e bem decorado. Na cozinha, mal cabia a geladeira. Secar a roupa era uma complicação, o sol da tarde não ajudava. O cafofo era descolado, embora úmido no inverno. O maior atrativo era a vista. Da sua janela via um casarão antigo e, mais ao lado, o ponto de parada do bondinho. Bem perto, lojas de artesanato e um mercadinho de secos e molhados.

    Vânia se sentia no paraíso.

    Na janela do casarão que dava para seu quarto, Vânia começou a notar a presença de um rapaz de cabelos longos, barba e óculos escuros, que ficava olhando fixamente para dentro do apartamento dela. A antiga moradora não havia colocado cortinas, para a claridade entrar e ela acordar cedo. Dizia ser saudável despertar com a luz do sol. Vânia reparou que o tal rapaz não era feio. Quando ela o encarava, ele olhava para o céu. E assim ficava por um bom tempo. Esquisito.

    Ela se sentia invadida, vigiada. Total desconforto com aquele homem da janela do casarão. Não podia nem andar de calcinha e sutiã. Quando saía do banho, tinha que passar enrolada com a tolha no corpo. Todo o tempo, ele lá, firme, como uma sentinela em seu posto de observação.

    Resolveu enfrentá-lo, foi até a janela e mostrou o dedo do meio. Ele pareceu não se intimidar. Permaneceu olhando o céu, com o semblante mais deslavado do mundo. Até aparentava sorrir. Além de voyeur, um debochado.

    De um amigo a quem contou o que acontecia, ouviu a dica direta: “Fica logo pelada, amiga, que ele vai terminar cansando. Tipos assim gostam do suspense, da surpresa, têm o prazer de observar as pessoas na intimidade, mas não curtem a nudez escancarada”.

    Vânia simpatizou com a ideia, ainda mais que, sem querer admitir abertamente, estava começando a se interessar pelo vizinho estranho. Quem sabe, ele se animava e fazia contato, em vez de ficar só espiando com cara de pateta.

    No início, ela ficou inibida de passar nua pela janela. Como tivesse um corpo bonito e desejo de ser notada por isso, não demorou a, não só se despir, como também ensaiar poses eróticas. Passava a mão pelos seios, virava de costas e se abaixava, jogava os cabelos para trás e repetia caras e bocas. Colocou até música e experimentou um strip-tease amador.

    E o bonitão de óculos escuros lá, impassível. Olhando tudo para depois esquecer do mundo, enebriado com o céu. Coisa mais sem sentido. O que será que esse idiota vê lá em cima? Eu aqui, nuazinha em pelo e ele com essa pose de filósofo grego. Que se foda…

    Vânia resolveu esquecer o voyeur da janela e tratou de seguir a vida. Já se acostumara com a presença dele por ali, uma costumeira
    rotina.

    Em uma festa com amigos, ela soube que aquele seu vizinho era deficiente visual. Bastante conhecido no lugar, figura querida, sempre de bom humor e falante com as pessoas. Tinha a mania de repetir que era cego, mas conseguia ver as estrelas.

  • Na fila

    – (Leitor 1) Tá grande essa fila, hein.

    – (Leitor 2) Mas vale o sacrifício. Esse tipo de fila eu enfrento com prazer. Não seria muito pior se fosse uma fila de hospital? Ou pra comprar comida racionada? Minha mãe sempre falava que no tempo da guerra…

    – (Leitor 3, para leitor 2) Você é fã dele há muito tempo?

    – (Leitor 2) Muito… Eu sempre gostei do pai dele. Quando ele começou a escrever também, resolvi conferir. Foi paixão à primeira vista. E digo mais: ele é bem melhor do que o pai.

    – (Leitora loura) Há tempos ele não fazia uma noite de autógrafos…

    – (Leitor 2) Treze anos. A última vez foi daquele livro, aquele que ganhou um prêmio… Periquitos na janela, lembrei.

    – (Leitor 1) Ele é tão bom como dizem? Eu não ligo muito pra esses troços de leitura. Tô levando o livro pra minha mulher, ela que gosta. Vou fazer uma surpresa.

    – (Leitora loura) Ele é muito bom mesmo. Os fãs dele são de todas as idades. Ele consegue renovar o seu público. Olha aí na fila, tem desde o adolescente de quatorze anos até senhores de mais de oitenta.

    – (Leitor 2, para Leitor 1) Presta atenção nesse trecho aqui, abre aí na página 25. Eu adorei essa parte: “E então ela olhou para o homem com aquela cara-de-quem-tinha-muito-amor-pra-dar…”

    – (Leitor 1, interrompendo a leitura) Mas pode isso?

    – (Leitor 2) Isso o quê?

    – (Leitor 1) Escrever essas palavras todas juntas, com esses tracinhos separando. Não é esquisito?

    – (Leitor 3) Esquisito nada, isso é moderno. É coisa de quem sabe escrever.

    – (Leitora loura, mudando o rumo da conversa) Vocês estão vendo aquela senhora gordinha de pé ao lado dele?

    – (Leitor 3) Aquela de óculos?

    – (Leitor 1) Quem é?

    – (Leitor 2) Isso, a de óculos. É a mulher dele. Tá sempre junto. Não desgruda nunca. Casamento de uma vida inteira. Tem gente até que apelidou ela de papagaio de pirata.

    – (Leitor 3) Olha ali, pegando o autógrafo agora, não é aquela atriz da novela das nove, aquela que vive aprontando barraco, como é mesmo o nome dela?

    – (Leitor 1) E a abusada ainda furou a fila.

    – (Leitora loura) É a Marivalda Silva. Ela é VIP, meu filho. Por isso, pode furar fila. Você acha que artista de televisão enfrenta fila?

    – (Leitor 1) E a gente aqui em pé há mais de uma hora…

    – (Leitora loura) Então, tenho ouvido dizer que ultimamente ele anda muito preguiçoso. Não escreve uma dedicatória caprichada, pessoal, vai botando “um abraço do…” em tudo. Isso é charme dele. Artista de verdade tem dessas coisas. Eu acho que ele guarda toda a energia criativa pra usar nas obras.

    – (Leitor 1) Olha lá, a caneta tá falhando. Por isso é que demora tanto.

    – (Leitor 2) Eu tenho dezoito livros dele autografados. Ele sempre escreveu dedicatórias muito originais. A que eu mais gostei foi “Quem escreve um poema, um conto ou um romance salva um moribundo. Que você nunca se esqueça dessas palavras e”…

    – (Leitora loura, interrompendo Leitor 2) Pior que salva mesmo, mas só se for bom. Essa questão de dedicatória é uma grande bobagem. Só estar aqui, poder vê-lo de perto, falar com ele, mesmo que rapidinho, isso pra mim já vale. Ele me passa uma energia ótima. Tem um astral maravilhoso, apesar de ser um pouco tímido.

    – (Leitor 1) Finalmente trouxeram outra caneta.

    – (Leitor 2, para leitora loura) Você sabia que agora ele anda pintando também? Acho até que deve fazer uma exposição no início do ano que vem.

    – (Leitora loura) Claro que sabia, eu sei tudo da vida dele. Já tô até juntando dinheiro. Quero um quadro dele pra decorar a minha sala. E além disso ainda toca saxofone o danado. Esse é um artista completo mesmo.

    – (Leitor 3) Gente, aquele cara de terno que tá pegando o autógrafo agora não é o… Aquele político, como é mesmo o nome dele?

    – (Leitora loura) É o ex-prefeito.

    – (Leitor 1) E furou fila também.

    – (Leitor 3) Que nada, esse pelo menos deixou o assessor guardando lugar pra ele.

    – (Leitor 2) Estranho ele ter vindo. Todo mundo sabe que o livro anterior dele, Falcatruas de um prefeito corrupto, foi baseado na vida desse político. Esse prefeito aí botou processo em cima dele e tudo.

    – (Leitora loura) Mas agora é época de eleição. Aparecer aqui no lançamento dá o maior ibope. Vocês não estão vendo a quantidade de repórteres que vieram cobrir o evento?

    – (Leitor 1) É mesmo. Será que a gente vai aparecer na televisão? Tomara que o meu cunhado Geraldo me veja. Ele vive me chamando de toupeira, dizendo que não me atualizo, que não consumo cultura. (Erguendo o livro acima da cabeça, como se fosse um troféu) Olha aqui, Geraldo, tô comprando o livro do escritor famoso.

    – (Leitor 2) Já tá quase chegando a nossa vez.

    – (Leitora loura) Que emoção! Meu coração tá até acelerado.

    – (Leitor 2) O que ele escreveu pra vocês? Pra mim foi “um abraço do…”

    – (Leitor 3) O mesmo pra mim. Nem colocou meu nome. E olha que eu pedi.

    – (Leitora loura) A letra dele tá meio ilegível, mas acho que tá igual ao de vocês.

    – (Leitor 1) Pelo menos no meu ele pôs o nome da minha mulher. “À querida Tereza, um abraço do…”. Xiiii, escreveu Teresa com “z”. Minha mulher detesta quando escrevem o nome dela errado.

  • Amor

    Movimento I – Primeiros passos.

    Uma noite, à beira mar em um bar numa cidade no vasto litoral brasileiro…

    Ele disse: um centavo por seus pensamentos.

    Ela disse: valem menos do que isso.

    Ele disse: um verso por seus pensamentos.

    Ela disse: de quem?

    Ele disse: meu.

    Ela disse rindo: passo.

    Ele disse sorrindo: de um poeta maior.

    Ela disse: mais alto que você?

    Ele disse: em estatura poética, um gigante.

    Ela disse: e quem é esse que você vai em busca?

    Ele disse: um que nunca me faltou.

    Ela disse: nunca te faltou nas suas cantadas por ai?

    Ele disse: nunca me faltou quando a poesia se faz necessária.

    Ela disse: agora por exemplo?

    Ele disse: precisamente.

    Ela disse: e por que a poesia se faz necessária?

    Ele disse: para traduzir o sentimento.

    Ela sorriu e disse: e quem é o seu salvador?

    Ele disse: Tom Jobim.

    Ela disse: ah sim…

    Ele disse: me permite?

    Ela ameaçou rindo: se vier com Desafinado eu desapareço.

    Ele disse: fujo do óbvio.

    Ela disse: será que o óbvio foge de você?

    Ele disse: ele não sabe onde eu ando.

    Ela disse: mas o óbvio é ardiloso, engana os jovens aspirantes a poetas.

    Ele disse: mas não sou aspirante a poeta.

    Ela disse: além dos declamadores profissionais.

    Ele disse: declamo porque gosto não para viver.

    Ela disse: ao menos é habilidoso na retórica.

    Ele disse: ao contrário do óbvio, ela é minha amiga faz tempo.

    Ela disse: convencido.

    Ele disse: sincero.

    Ela disse: me diga então o que tem em sua manga poética?

    Ele disse: ah, minha bela…

    Ela disse: estou escutando meu belo…

    Ele disse cantarolando: eu você, nós dois, aqui nesse terraço à beira mar.

    Ela disse admirada: mas não é que o moço não é óbvio.

    Ele sorriu vitorioso e disse: sozinhos neste bar à meia-luz.

    E uma grande lua saiu do mar.

    Ela ronronou sorrindo: huuumm.

    Ele continuou contente: Parece que este bar, Já vai fechar, E há sempre uma canção para contar.

    Ela olhou em volta sorrindo e voltou a mira-lo em silêncio.

    Ele prosseguiu confiante: Aquela velha história de um desejo, Que todas as canções têm pra contar.

    Ela olhou firme nos olhos dele.

    Ele se aproximou e completou sussurrando: E veio aquele beijo.

    E se beijaram muitas vezes naquela noite.

    Movimento II – Descompasso virtual.

    Há quilômetros e meses de distância…

    Ele escreveu: tudo bem?

    Ela escreveu: sim mas quem é você?

    Ele escreveu: esqueceu de mim?

    Ela escreveu: seu número não está salvo no meu telefone.

    Ele escreveu: então não é sua memória?

    Ela escreveu: não é a do aparelho.

    Ele escreveu: vou dar uma dica.

    Ela escreveu: por favor.

    Ele escreveu: Tom Jobim.

    Ela escreveu: o que tem ele?

    Ele escreveu: ué, em nosso encontro citei Tom Jobim.

    Ela escreveu: sem ofensa mas sabe quantas vezes eu ouço alguém soprar no meu ouvido letra do Tom achando que é original?

    Ele escreveu: são tantos assim?

    Ela escreveu: mais do que minha paciência suporta.

    Ele escreveu: não sabia que era assim tão requisitada.

    Ela escreveu: pois é né?

    Ele escreveu: ah tá, então pelo visto não causei impressão alguma.

    Ela escreveu: seu bobo, sempre causa.

    Ele escreveu: todos causam.

    Ela escreveu: todos não, só os mais sutis.

    Ele escreveu: mas se tem tanta gente citando Tom Jobim para você, seus ouvidos nem dão mais atenção.

    Ela escreveu: ah mas aí é que você se engana sobre um aspecto.

    Ele escreveu: e posso saber qual?

    Ela escreveu: nem só com ouvidos se escuta Tom Jobim.

    Ele escreveu: e com o que mais se escuta?

    Ela escreveu: ah..deixa ver..com o coração.

    Ele escreveu: ah..sim com o coração..entendo.

    Ela escreveu: então se meu coração tiver percebido você, mesmo que tenha soprado algum Tom Jobim bem manjado, você acaba se sobressaindo.

    Ele escreveu: mas o que seria um Tom bem manjado?

    Ela escreveu:  algo fora do compasso.

    Ele escreveu: ou desafinado você quer dizer?

    Ela escreveu: por aí mesmo.

    Ele escreveu: ah então ponto para mim.

    Ela escreveu: posso saber por que, mocinho?

    Ele escreveu: porque não cometi o pecado da obviedade e não citei Desafinado.

    Ela escreveu: salvou-se uma alma no purgatório.

    Ele escreveu: também não é para tanto.

    Ela escreveu: mas quase.

    Ele escreveu: então pelo visto o que te disse deve ter sido escutado pelo seu coração.

    Ela escreveu: pode ser que sim.

    Ele escreveu: claro, naturalmente, entre tantos.

    Ela escreveu: entretanto só poucos fizeram meu coração palpitar.

    Ele escreveu: e o seu palpitou?

    Ela escreveu: não.

    Ele escreveu: descompassou?

    Ela escreveu: é, dá para dizer que o ritmo ficou comprometido.

    Ele escreveu: bom saber.

    Ela escreveu: por que?

    Ele escreveu: e diria que ele, o seu coração, nesse movimento sutil de alteração de ritmo poderia ter entrado em outra sintonia?

    Ela escreveu: possivelmente.

    Ele escreveu: e poderia ter sintonizado no meu?

    Ela escreveu: dependendo do que ele tiver escutado, quem sabe.

    Ele escreveu: mas quanta incerteza.

    Ela escreveu: mas meu lindo, o amor é incerto.

    Ele escreveu: é estou vendo mesmo.

    Ela escreveu: vendo o que?

    Ele escreveu: como o amor é incerto.

    Ela escreveu: não exagere.

    Ele escreveu: sem exagero, é só simples constatação.

    Ela escreveu: mas o que mais..me diga…

    Ele escreveu: mais nada porque ao que parece minhas intenções românticas se perderam entre outras de outros.

    Ela escreveu: não diga isso.

    Ele escreveu: é a pura verdade.

    Ela escreveu: não peraí, calma.

    Ele escreveu: fique bem.

    Ela escreveu: não faz assim, fala comigo.

    Ele – :

    Ela escreveu: eu estava brincando.

    Ele -:

    Ela escreveu: puxa…

    Movimento III – Dança romanceada.

    Um tempo incerto depois…

    Ela disse: onde estava esse tempo todo?

    Ele disse: longe de você.

    Ela disse: por vontade própria?

    Ele disse: por escolha infeliz.

    Ela disse: sua ou minha?

    Ele disse: de ambos.

    Ela disse: sentiu minha falta?

    Ele disse: o tempo todo.

    Ela disse: por que não me procurou?

    Ele disse: porque te perdi profundamente.

    Ela disse: como decidiu me achar?

    Ele disse: no dia em que respirei fundo e subi à superfície.

    Ela disse: e foi difícil saber para onde ir?

    Ele disse: encontrei seu rastro em toda parte.

    Ela disse: era forte assim?

    Ele disse: ao contrário, muito sutil.

    Ela disse: então foi difícil me distinguir entre outras?

    Ele disse: não foi difícil, mas exigiu atenção e dedicação.

    Ela disse: e onde me encontrou?

    Ele disse: curiosamente não tão distante quanto eu achava.

    Ela disse: lembro de ver você ao longe.

    Ele disse: te contemplava.

    Ela disse: teve medo de se aproximar?

    Ele disse: medo de me atrapalhar.

    Ela disse: bastava vir em linha reta.

    Ele disse:  prefiro fazer curvas.

    Ela disse: a menor distância entre dois pontos é uma reta, não sabia?

    Ele disse: pode ser a menor mas não é a melhor.

    Ela disse: demorou por que escolheu o melhor caminho ao invés do menor?

    Ele disse: demorei porque meu caminho não foi reto mas sinuoso.

    Ela disse: sinuoso como o quê?

    Ele disse: como suas curvas.

    Ela disse: minhas curvas tiram você do rumo?

    Ele disse: suas curvas me põem na direção certa.

    Ela disse: e se estiver escuro?

    Ele disse: na noite mais escura, seu olhar ilumina meu caminho até você.

    E nunca mais se desencontraram.

  • A volta

    Estavam bem velhinhos, ela já doente, ele lhe fazendo companhia. Tudo que tinham eram as lembranças dos velhos tempos, que pareciam cada vez mais indistintas. Como não tinham tido filhos, encheram a vida com passeios, viagens e uma rotina silenciosa. Pareciam se entender sobre quase tudo e sentiam pouca necessidade de falar um com o outro.

    Entre as lembranças, tocava-os especialmente a do primeiro encontro. Foi num parque de diversões. Ele a convidara para um cachorro-quente com refrigerantes; ela aceitou meio envergonhada, com medo de parecer “fácil”. Enquanto esperavam a comida, ouviam na “radiola” do quiosque a música de um filme americano. Ele comentou que a melodia era muito bonita, ela concordou e até encheu os olhos d’água. Era a música de uma fita romântica, dessas em que o amor triunfa depois de muito sofrimento. Por coincidência, os dois haviam assistido.

    Nenhum deles iria esquecer aquele momento. A música parecia ter sido feita para a ocasião. Sempre que a ouviam, lembravam-se do primeiro encontro. Ou era o contrário: a lembrança do primeiro encontro evocava a melodia, que se integrara à história dos dois.

    Com voz cansada, ela lhe disse que daria tudo para viver de novo aquele instante. Então se deu o inimaginável: apareceu no quarto uma mulher grisalha, com jeito de fada e um sorriso enternecedor. Não disse quem era, apenas comentou que ouvira o pedido da mulher e viera satisfazê-lo. Eles mereciam, pelo tanto que se amaram. Iriam voltar no tempo e reviver aquele momento no quiosque do parque. Tudo tal como acontecera: as mesmas roupas, os mesmos rostos, a mesma música. A diferença é que conheceriam o futuro.

    E de repente se viram 50 anos mais novos. O parque era aquele mesmo, com seus brinquedos, guloseimas e barracas de tiro ao alvo. Os dois caminham entre as pessoas e olham furtivamente um para o outro. Depois do longo flerte, ele se aproxima e lhe faz o convite para o cachorro-quente com refrigerante. Ela aceita, mas não pode deixar de sorrir da ironia: ele detestava cachorro-quente e não suportava refrigerantes. Dizia que eram muito calóricos. Mas isso ela só saberia depois.

    Sentam-se na mesa do quiosque e, enquanto esperam, ouvem a música. Ele comenta que a melodia o comove pelo romantismo. “Você? Romântico?” “Sou…” Ela, interiormente, acha graça de novo; ninguém menos romântico do que ele! O hábito de falar pouco, que ela foi absorvendo, era apenas um dos meios com que abafava as emoções. Mas isso, claro, ela só saberia depois.

    Enquanto comem, cada qual fala um pouco de si. Ela diz que foge de agitação; ele, pelo contrário, confessa gostar da rua e das pessoas. Fica entediado em casa. “Sou um tipo social… De que você está rindo?” “Nada, nada.” O riso o deixa sem graça, o que não tinha acontecido da primeira vez.

    Pouco a pouco, retornam ao presente. A mulher ainda se encontra no quarto e pergunta se ficaram satisfeitos. Sem esperar resposta, vai embora. O dois se dão as mãos e sorriem um para o outro. Ela pede: “Fique junto de mim. Vamos aproveitar este momento.” E completa, depois de um suspiro: “Nada volta, e bom mesmo é não saber o que virá depois.”

  • O rouxinol

    O tio Argemiro gostava tanto de lendas, que tudo era pretexto para tirar uma do fundo do baú da memória, nem que fosse inventada – que a memória é assim, uma boceta de Pandora que tudo guarda, tudo inventa, tudo cria.

    Eis que numa tarde linda um beija-flor azul, tchibum!, mergulha de repente nas águas limpas de seus olhos.

    Não, não era um beija-flor, e não era azul; no remoinho da memória do tio Argemiro, o beija-flor tinha se transformado num rouxinol, com um canto doce como um sonho. Tinha uma cor que era a suma de todas as cores para o tio, um preto retinto, tão preto que brilhava no espelho d’água do pequeno lago do jardim.

    – Filomena! – disse o tio Argemiro, encantado.

    E não adianta insistir que Filomela era a princesa grega transformada num rouxinol para não ser sacrificada; ele teima, no seu encantamento, repetindo:

    – Filomena!

    E é como se a sua Filomena ressurgisse das cinzas do tempo nas asas de um pequeno beija-flor, que se transformava num rouxinol, fugindo num voo mágico das entranhas da terra onde estava sepultada há séculos.

    A escrava Filomena, que fora uma princesa na sua terra, sacrificada para que não se alastrasse a peste negra da varíola que os brancos trouxeram da Europa, voa nas asas do rouxinol, que os gregos chamaram de Filomela.

    – Filomena, o amor alado! – traduz a seu modo o tio Argemiro.

  • Dores inevitáveis

    A casa do senhor Elias cheira a livros velhos, café passado e madeira encerada. Nas paredes, não há quadros retos. Uma estante inclina-se para a esquerda, resultado de uma tentativa fracassada de montagem há quarenta anos. Ele a chama de “minha Torre de Pisa particular”. No centro da sala, sobre uma mesinha manchada de círculos de copo, há um vaso colado com esmero, as rachaduras desenhando mapas dourados pela superfície. Há quem visite Elias e veja apenas desleixo: o tapete desfiado onde tropeçou e quase quebrou o tornozelo numa noite de chuva, a janela que nunca fecha direito porque ele a pintou num dia de calor excessivo, emperrando a madeira. Pedem-lhe: “Por que não conserta? Por que não troca?”. Ele balança a cabeça, serve mais café e conta histórias.

    O vaso rachado foi um presente de uma amada, num tempo em que o amor era mais urgente do que cuidadoso. Ele o derrubou numa discussão fútil, e ela partiu antes que a cola secasse. Olhar para aquelas rachaduras não lhe traz arrependimento pelo amor, nem pela raiva. Traz a textura nítida daquela tarde, o cheiro do jasmim do jardim, o gosto amargo das palavras não ditas e, depois, o cuidado paciente de unir os cacos. O vaso guarda a história inteira, não apenas a parte bonita.

    A estante torta foi montada na véspera do nascimento do primeiro filho, entre ansiedades e sonhos. As peças foram mal encaixadas, mas o tempo era curto e o coração estava cheio de um futuro que batia no peito da esposa. Ela riu quando viu o resultado. “Parece que vai dançar”, dissera. E a estante dançou, suportando enciclopédias, romances, fotos de formatura, até ficar cansada e inclinar-se para um lado. Consertá-la seria apagar a pressa sagrada daquela véspera.

    Elias abriu uma pequena oficina de restauro, que o sustentou com mais alegria do que aquele cargo público jamais o faria.

    Senhor Elias sabe que os arrependimentos são os pesos mais pesados que carregamos para a velhice. São fantasmas de caminhos não andados, de palavras engolidas, de medos que nos paralisaram. Seu avô, no leito de morte, não chorou pelos tropeções ou pelas xícaras quebradas. Chorou pelos beijos não dados, pelas viagens adiadas, pelas cartas que nunca enviou. Chorou pelo vazio, não pela bagunça. Cada lasca, cada trinca, cada coisa fora do prumo é um marco em sua geografia pessoal. A casa não é um museu de perfeições, é um diário em três dimensões. Ao anoitecer ele não sente o frio do arrependimento, mas o calor de uma vida habitada. Os erros foram portas, alguns que levaram a salas escuras, outros a jardins inesperados. O corpo já traz suas dores inevitáveis, por que carregar também o fardo pesado e inútil do “e se”? É melhor conviver com uma estante torta, que sustentar livros bem amados com a perfeição imaculada de uma prateleira vazia. Nessa falta de arrependimento, encontra uma estranha e tranquila sabedoria: a de que uma vida inteira pode caber nas rachaduras de um vaso.

  • INSTANTÂNEO

    A velha de lenço preto na cabeça não se incomoda de ficar horas dando voltas na casa feita destroços. Era a sua casa. Tenta reconhecer, sem conseguir, a parede do quarto, onde era o banheiro, a sala em que fazia crochê, a cozinha que, nos fins de tarde, parecia um paraíso com cheiro de comida. Traz num dos braços um cobertor sujo de poeira e nas mãos duas colheres de pau — o que sobrou depois do bombardeio, depois da casa no chão. Ela fala sozinha enquanto rodeia os escombros, provavelmente dialogando com seus fantasmas. Ali ao lado dois cachorros mortos aguardam sepultamento e do ventre de cada um sai um fio de sangue que chega até perto da casa. Mas o que é isso? Não basta não existir mais casa, agora também o chão será encharcado de sangue?, pragueja ela.

    O fotógrafo pediu permissão para tirar um instantâneo, mas ela não deu atenção. Estava ausente. Só buscava alguma coisa, talvez buscasse nada. De vez em quando se abaixava para recolher algo do chão e em seguida continuava a rodear a casa e a dialogar com o silêncio.

    Ela e sua família já estavam com as malas prontas, mas não era para sair de férias. Iam para outro lugar, fugindo da guerra interminável. Partiriam como refugiados, gente de nenhuma parte, sem raiz, sem chão próprio, sem nação. Gente de segunda classe, ralé, estorvo para os países ricos. Na noite anterior, os aviões que voavam baixo sinalizavam o terror, e ela tinha ido até outro bairro buscar comida para a viagem. Na volta, encontrou os escombros. Estes, que agora ela e seus fantasmas circundam. Não sobrou nada, nem casa, nem família, nem malas, nem viagem. Só ela.

    Plasmar a alma daquela anciã com sua máquina de eternizar momentos: era isso que o fotógrafo pretendia, mas a incredulidade diante do inexplicável lhe fechava a garganta e o impedia de pensar. Estava mergulhado numa guerra que não era sua, mas era como se fosse, porque era contra toda a humanidade. Posicionou o equipamento diante do rosto da velha e captou um instante daquela miséria, apesar dos próprios olhos marejados.

  • Malhação 2003

    Leandro gostava de Kátia. Desde a quarta série. Já estava no fim do sexto ano. Leandro nunca teve coragem de cumprimentar Kátia.

    Kátia achava Leandro bonito. Achava Leandro e mais uns cinco ou seis da sexta série B bonitos. Sem contar as dezenas de garotos que deixavam Kátia com as maçãs do rosto bem firmes, quando passavam por ela sorrindo. Kátia era uma das muitas garotas cobiçadas do colégio.

    Leandro nunca soube que Kátia o achava bonito. Nem nunca imaginou essa possibilidade. Mesmo desejando tanto que isso fosse possível. Costumava acreditar em novelinhas da Malhação ou das 9 em que, no fim, o mocinho e a mocinha ficam juntos para sempre.

    O sinal toca. Último dia de aula. Kátia se despede de Larissa, Roseane, Aline, Mariane, Lucas, Daniel e Felipe. A uns três metros de distância, seus olhos castanhos e doces abraçam Leandro pela primeira e última vez.

    Naquele mesmo instante, Leandro aguardava ansiosamente o último capítulo da temporada de Malhação 2003.

  • Sunshine

    Fui surpreendido com a doença do Sunshine. Ele sempre foi tão esperto; um gato para além dos limites. Agitado, inquieto. Veja, já passou três dias fora de casa e apareceu como se não tivesse acontecido nada, magro, arranhado de briga etc. Fez aventuras de todos os tipos, como subir na minha antiga casa e pular de telhado em telhado até desaparecer no horizonte. Sunshine nunca foi um gato “normal”. Desde o primeiro dia que o vi, no grupo da cria da casa da minha cunhada, percebi que era diferente. Ele veio direto ao meu encontro, para brincar de subir pela minha camisa com suas pequenas unhas afiadas, até se aconchegar quietinho na minha cabeça. Depois, quando o levei para casa, para ser um guia a cuidar da minha depressão, ele me fazia esquecer a doença; pulava de armário em armário; subia ágil o projeto de guarda-roupa; tomava água corrente, apenas na pia. Vários costumes permaneceram. A excentricidade, por muito tempo, foi sua característica. Isso não quer dizer que não era carinhoso. Apesar de ser intrinsecamente individualista, gostava de deitar-se na cama e passar horas esparramado esperando carinho na barriga. Mas, infelizmente, ele ficou doente. Muito acabrunhado, ficava pelos cantos, diferente dos nossos outros gatos. Tenho um sentimento de culpa muito grande, porque não percebi que o problema poderia se agravar. Poucos dias se passaram, e Sunshine não conseguia urinar. Fazia mil posições, tentava urinar em locais mais confortáveis, mas o líquido não vinha. Levamos imediatamente a uma clínica veterinária. Na primeira consulta, a médica-veterinária parece ter passado um remédio paliativo, para dor, principalmente. Ele melhorou a disposição, já pulava pelos cantos. Mas um mês depois veio a queda de novo. Dessa vez, mais grave, expelindo sangue. Levamos imediatamente a outra clínica, da qual temos confiança, e a médica-veterinária foi mais prudente e o internou. Foram dias de aflição. Ele estava com cristais na bexiga (sabe-se lá o que é isso), um problema ligado à alimentação e à falta de consumo de água. Foram feitas lavagens com soro para tirar os tais cristais obstrutores. Até que, no terceiro dia de internação, segundo a médica-veterinária, ele teve uma parada cardiorrespiratória e não suportou os agravamentos. É importante falar do componente da idade, ele já tinha dez anos. É uma tortura a culpa, não queira saber. Poderia ter feito mais – e urgentemente. Poderia ter amado a ponto de não aceitar o seu abatimento. Sunshine, sim, foi um anjo, me curou milhares de vezes. Eu o amo como nunca. Ele era o meu melhor parceiro de escritas (sou escritor, e ele ficava ao meu lado velando o meu labor). A médica-veterinária disse que foi uma fatalidade inimaginada. Geralmente corre tudo bem. Ele não suportou uma sepse. Na verdade, não era deste mundo cão. Mas teve uma existência digna – e nisso que me fio para não cair em desgraça.

  • INSTANTÂNEOS

    No meio da rua um veio d’água, a luz amarela da madrugada, um homem capengando junto ao muro longo, o som da camisa fina raspando no chapisco de quando em quando. Incertos dias, estes. Em que não somos nem sombra do que pensávamos ser. O sorriso lacônico e de entrega, como se sorri diante da derrota concreta. Um ônibus para o sul, o último da noite. Depois dele, os espaços de silêncio se alongam, ouve-se coisas mínimas, ouve-se dentro, agora que o homem se vê parte do todo, todo o tempo ali, abafado por horas a fio pela insanidade do dia. E dói saber. Ver-se liso de disfarces, o espanto da nudez, os penduricalhos desta vida dita dinâmica arrastados para o sul e para o silêncio pelo último da noite. Ouve-se o coração bater. O som do vento, bravo e tortuoso por entre os labirintos de uma seringueira densa e antiga.

    No meio da rua, um risco brilhante de luz esticando para o sul. A boca entreaberta da não compreensão, ou da verdade que chegou de repente, ela que rondava por ali dentro há tempos, caindo agora, na hora do grande momento. Um garoto, descansando sobre a moto encostada, acendeu o cigarro e puxou um trago longo que se ouviu do outro lado da rua. E olhou a fumaça fundindo-se com a noite. O outro homem agachou-se e suas costas rasparam pelo chapisco até o chão. O garoto atravessou a rua e lhe entregou o resto do cigarro aceso. Nenhum julgamento, nem perguntas. Um instante, dos muitos por aí, depois que o último da noite some para o sul.

  • Egocentrismo

    O alarido invade meus ouvidos ofendidos. Quero silêncio. Não tenho.

    Ainda é manhã e vespertino. Talvez até anoiteça, madrugue. Não sei.

    O barulho continua. Eu continuo. Queria poder parar os dois. Dormir? Acho que não. A vida me chama. Só a queria um pouco mais silenciosa. Estou sensível! A poeira me incomoda o nariz, a claridade, os olhos, o barulho… Maldito!

    Quero o silêncio de música escolhida. Quero o silêncio do livro preferido, quero o silêncio de amigos queridos por perto, quero o silêncio de estar em casa, em família. Quero o silêncio da agenda fechada. O silêncio de sonhar de olhos abertos, de escolher o que contemplar. Quero o silêncio do sol de outono sobre a pele…

    Quero discrição, segredo, intimidade.

    Quero esquecimento.

    Quero lembrança.

    Quero de novo o mesmo.

    Quero! E-go-ís-ti-ca-men-te!

    Um outro lugar que não seja aqui.

  • Poema #73: Valpurgis

    A inquietação daquela noite
    levou-me ao extremo de deixar a cama
    em pleno delírio da febre sem causa
    que me acometia desde há muito.

    Nunca em meus transportes noturnos,
    que eram então muito frequentes,
    eu havia experimentado essa ânsia de fuga
    que só se compara à de uma suicida na ponte.

    Corri como que alucinado fantasma
    até o porão da casa onde a umidade
    havia impregnado as paredes de morte,
    e peguei no baú o espelho quebrado.

    A chuva era intensa e os relâmpagos
    cortavam a estrada barrenta ao norte,
    para a qual fui levado rumo ao destino
    que o maldito espelho me reservara.

    O cemitério estava deserto e escuro
    mas havia um rumor quase que imperceptível
    entre as catacumbas, abertas na véspera
    para o desfecho insólito da profecia.

    Então eu pude sentir os murmúrios
    daqueles espectros putrefeitos pelo tempo,
    cujos aspectos de decomposição física
    acentuaram em mim a antiga náusea do futuro.

    Ali, em meio à tempestade de abril,
    o espelho quebrado que eu encontrara
    junto aos aposentos da velha inquilina,
    emitiu em reverberações estranhas e malignas
    um brilho intenso que me cegou os olhos.

    Agora sinto que a velha desfigurada se aproxima
    e toca meu rosto com suas mãos de morte vazia.
    Como num passe de hipnotismo ou subtração de raciocínio
    sou conduzido para o rito anual de bruxaria.

    O Acaso das Manhãs

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