Estreia de Jorge Lannes Júnior no Crônicas Cariocas

  • A liturgia do indizível

    Há dias em que acordo acreditando que ainda caminho em direção a mim. Em outros, compreendo que não existe caminho algum. Existe apenas o intervalo entre um pensamento e outro, onde a escrita resolve acontecer.

    Não escrevo porque sei.

    Escrevo porque desconheço.

    O cigarro, quase sempre, anuncia esse instante. A fumaça sobe como se soubesse o percurso que eu jamais consegui aprender. Enquanto ela desaparece, alguma palavra decide permanecer.

    Há um ritual nisso tudo.

    O papel nunca me pergunta quem sou. A caneta nunca exige explicações. Ambos apenas aceitam aquilo que consigo suportar dizer.

    Quando a tinta acaba, resta o lápis. Quando o lápis falha, ainda existe alguma margem onde a mão insiste.

    Talvez escrever seja isso.

    Insistir.

    Visto cores diferentes conforme o dia, mas nenhuma delas consegue vestir completamente aquilo que me habita. O branco tenta me pacificar. O cinza aceita minhas dúvidas. O preto conhece meus silêncios. O azul, curiosamente, sempre me devolve uma esperança que nunca faz barulho.

    Tenho vivido mais recolhido.

    Não por medo do mundo.

    Talvez por excesso dele.

    Existe uma solidão que machuca e existe outra que organiza. Ainda não sei em qual delas habito, mas aprendi a não fugir quando ela bate à porta.

    Tenho saudade de mim.

    Não daquele que fui.

    Também não daquele que imagino ser.

    Tenho saudade de alguma parte que ainda não encontrei.

    E isso deixou de me assustar.

    Hoje prefiro a curiosidade à certeza. As certezas costumam envelhecer depressa. As perguntas permanecem respirando dentro da gente.

    Sou feito de muitas versões que dificilmente conversam entre si. Algumas se abraçam. Outras se contradizem.

    Há dias em que uma salva a outra. Há dias em que todas desaparecem ao mesmo tempo.

    Talvez seja isso que chamam de existir.

    Escrevo sem procurar beleza.

    Sem procurar respostas.

    Sem procurar leitores.

    Escrevo porque algumas dores só aceitam existir depois que recebem um nome.

    E, curiosamente, depois de escritas, já não me pertencem da mesma forma.

    Cada palavra leva um pouco de mim.

    Cada texto devolve alguém que ainda não conheço.

    Enquanto isso acontece, continuo vivendo.

    Transformando-me.

    Desfazendo-me.

    Refazendo-me.

    Sobrevivendo.

    Talvez a escrita nunca tenha sido minha salvação.

    Talvez ela seja apenas a ponte que me impede de desaparecer completamente antes de chegar ao outro lado.

    Quando escrever já não é uma escolha

    Quando eu quero escrever, a minha linguagem não permite. Ela se recolhe, fecha as portas, apaga as luzes e permanece em algum lugar onde não consigo alcançá- la. Quando eu não quero escrever, entretanto, ela me empurra para a escrita. Insiste. Persiste. Bate contra alguma coisa dentro de mim até que eu ceda.

    E eu, querendo escrever, não encontro as palavras certas, como se existissem palavras certas para escrever. Como se a linguagem fosse uma espécie de território sagrado onde algumas palavras estivessem destinadas a determinadas coisas e eu precisasse encontrá-las, exatamente aquelas, para finalmente dizer o que ainda não sei dizer.

    Não consigo escrever.

    E é justamente quando digo isso que alguma coisa começa a ressoar.

    Talvez porque, quando eu quero escrever, eu possa encontrar alguma coisa que me mate. Alguma coisa entre o meu eu e aquilo que ainda permanece escondido em algum lugar do meu inconsciente. Não sei. Talvez existam coisas que não querem ser encontradas.

    Há palavras que, quando pronunciadas, não revelam.

    Ferem.

    E talvez seja por isso que a linguagem se recuse quando eu a convoco. Talvez ela saiba que, se vier, trará consigo alguma coisa que eu ainda não estou preparado para reconhecer.

    A única coisa que sei é que agora, sim, eu quis escrever.

    Mas fui empurrado para dentro da escrita no meio do próprio percurso, como se tivesse começado a caminhar em direção a uma porta e, quando percebi, já estivesse do outro lado.

    Eu queria começar a escrever e agora já não quero escrever mais.

    Mas alguma coisa já começou.

    E quando alguma coisa começa dentro da linguagem, talvez não seja mais possível simplesmente voltar.

    Entrei num abismo.

    Não sei se caí ou se fui levado. Não sei se havia alguma coisa me esperando lá embaixo ou se fui eu quem levou tudo comigo.

    Afoguei-me nas minhas próprias lágrimas, sangrei do meu próprio sangue e bebi do meu próprio veneno.

    E talvez seja essa a parte mais terrível da escrita: descobrir que o abismo não estava diante de mim.

    O abismo era a própria linguagem.

    E eu, ao tentar escrever, apenas descobri que já estava dentro dele.

    Tudo Escapa, Inclusive Eu

    Eu desejo o ontem no mesmo lugar do hoje, embora o ontem ainda insista em permanecer. Do amanhã já não sei. Nada me agrada. Nem eu me agrado. O que seria agradar a si mesmo? Não sei. Uma felicidade medida em cinco segundos? O ponteiro do relógio aguardando a hora da bela saída para um show marcado há anos? A euforia de uma noite entre amigos? De que matéria se faz a felicidade? E o que se faz dela depois que passa? Como se escreve quando não se quer escrever? Empurra-se a escrita ou é a escrita que nos empurra para sermos escritos? Minha linguagem é a morada de uma alma que sangra, que se fecha, que se abre por todos os buracos do corpo. Costurei cada rasgo com linha e agulha, mas cansei. Agora deixo tudo aberto. Continuo escrevendo de amanhã, porque daqui a um minuto já será tarde. Posso olhar as horas, mas quando escrevo não vejo o relógio, apenas escrevo. E por que escrevo? Talvez porque exista em mim um enigma que jamais se deixe decifrar. Há uma morada dentro de mim que insiste em escrever, talvez para viver, talvez para sobreviver. O que escrevo pode ser profundo ou apenas superfície. Nunca se sabe o que vai sair daqui.

    Mas tudo escapa.

    Quando escrevo, escapa.

    Quando não escrevo, também escapa.

    Hoje é dia da minha sessão com a analista.

    Não estou a fim de fazer análise.

    Hoje não quero.

    Não quero sair do quarto.

    Também não quero que alguém entre nele.

    Não quero falar com ninguém.

    Não quero que ninguém fale comigo.

    Não quero telefonar para ninguém, nem que alguém me telefone.

    Quero apenas o indispensável.

    Tomar banho.

    Comer e beber.

    Para não agredir tanto o corpo.

    Apesar disso, não comi nada.

    Alimentei-me de palavras escritas.

    De tudo aquilo que me atravessa.

    Uma travessia de mim por mim mesmo, fazendo do próprio corpo uma morada.

    Entre um eu e outro eu, contradigo-me naquilo que me falta e naquilo que desejo.

    Talvez seja justamente dessa contradição que a escrita continue a nascer.

    Solidão e Desejo

    Fico hipnotizado, olhando a parede, até virar o rosto e olhar para a janela. A chuva cai, e por alguns instantes eu fico esperando que, junto dela, caia alguma coisa por aqui. Um amor. Uma resposta. Qualquer coisa que atravesse o vidro e faça companhia.

    Mas não cai amor.

    São só águas.

    Águas que despencam do céu, escorrem pelo vidro e seguem seu caminho, enquanto eu permaneço aqui, acordado, tentando entender o que faço com aquilo que não passa.

    Estou sem sono. Um pouco triste. E talvez a tristeza seja apenas isso: uma coisa que chega sem pedir licença, senta ao nosso lado e fica em silêncio.

    Mas vai passar.

    Eu sei que vai.

    Porque eu também já caí.

    Já me quebrei inteiro, já pensei que não havia mais nada para juntar, e mesmo assim alguma coisa em mim insistiu em nascer de novo.

    Talvez seja por isso que eu ame tanto os pássaros e os bichos. Eles não precisam explicar a liberdade. Eles simplesmente existem. Voam, caminham, partem, retornam. E, de algum modo, me lembram que ainda é possível recomeçar.

    A noite continua.

    A chuva continua.

    E eu continuo também.

    Talvez seja isso que a gente chama de renascer: não voltar a ser quem era, mas descobrir que, mesmo depois de tudo, ainda existe alguma coisa dentro da gente que se recusa a morrer.

    Entre os ventos

    E repousaria entre os ventos, com um cobertor amarelo por cima, para que eu fique rico, mas não de dinheiro, e sim de saúde. Terei o meu sono dos justos. Assim faço da minha casa uma morada, e do meu quarto, cada quadro que existe nele. Cada casa tem seu canto. E cada canto representa alguma coisa, talvez um santo, talvez um pecado.

    Em cima da mesa tem uma maçã. Nunca fui de comer maçã. E agora me pego pensando: será porque dizem que a maçã foi o fruto do pecado? Então eu pequei, porque uma vez dei uma mordida nela. A maçã e eu. Ela fica lá em cima, mas, quando vejo, vai desaparecendo. Alguém come. Eu não sei quem é. Ou talvez saiba e não queira escrever aqui.

    Já a banana, por ser amarela, eu como. Justamente para ficar rico em saúde.

    São meus preparativos para a grande festa espiritual das crianças. Logo, logo chega o dia delas. Que vivam as crianças, que dizem ser o futuro da humanidade. Mas, se as crianças são o futuro da humanidade, um dia eu fui criança. Então, eu sou o futuro de quê?

    Não sei. E, neste momento, também não quero saber. Estou no presente. Não quero saber do futuro e tampouco lembrar o passado. Quanto mais escrevo, mais lembro do passado.

    Uma criança em cima do morro, descendo em uma tábua com rodas e se espatifando lá embaixo, com os joelhos ralados. A mãe passa Merthiolate.

    Ah, como arde!

    A criança reclama. Depois sara.

    Agora, adulto, ah, como arde a mesma angústia do Merthiolate. Só que não existe remédio para esse tipo de coisa. Talvez a vida e o amor sejam assim: escorregar para doer e encontrar, de vez em quando, algum líquido preto que anestesie a ferida.

    Não dá para sofrer sempre, nem sempre viver sofrendo. Também dá para ser feliz.

    Passa rápido. Às vezes devagar. E depois disso, o que se faz?

    Eu não sei o que se faz. Nem sei o que eu faço. Só sei das sensações do momento, que passam desvanecendo meus sentimentos, a falta, a angústia da minha alma, entre o cigarro nos dedos e a fumaça rolando para lá e para cá, enquanto vou me lapidando.

    Dormirei entre os ventos, numa corrente própria, onde, dentro dos sonhos, eu possa ser tudo aquilo que não quero ser.

    Porque tudo aquilo que eu não quero ser é justamente aquilo que quero que eu seja.

    Mas não posso.

    Que a minha solidão não me abandone

    Que a minha solidão não me abandone e me faça companhia nos dias a dias, especialmente, especialmente nos dias em que eu estou triste, como hoje. Que eu saiba diferenciar solidão e solitude a cada virtude que se ganha. Que eu possa me contentar com nada e, mesmo assim, me sentir por inteiro em tudo. Ou pelo menos quase tudo.

    Talvez eu não me compreenda tanto, mas talvez a minha forma de me compreender seja escrever, para eu não me sentir tão sozinho e saber que a escrita me acompanha na solidão que sinto em meu caminho. E que, em cada rua, cada esquina, cada estrada, eu deixe rastros de mim. Que minha linguagem saiba produzir alguma coisa do meu inconsciente e que eu saiba parar e negociar com a escrita quando o meu momento for apenas de ter o meu próprio devaneio e sentir a dor que é preciso sentir. Hoje, escrever foi o meu jeito de ficar comigo quando eu não queria ficar sozinho.

    E que, mesmo nos dias todos, no mais amargo deles, como um café sem açúcar, eu possa reconhecer o amargo sem precisar adoçá-lo. Há dias que simplesmente são difíceis. Há tristezas que não precisam produzir nada, não precisam ensinar nada e muito menos se transformar em alguma coisa bonita. Às vezes, o dia é apenas um café amargo que a gente bebe porque ele está ali, porque aquele é o dia que temos, e porque, de algum modo, precisamos chegar ao outro lado dele. Hoje eu estou triste. Não há uma grande lição escondida nisso. Não quero transformar a minha tristeza em alguma coisa bonita. Quero apenas poder escrevê-la.

    Talvez seja por isso que eu escreva tanto quando não sei o que fazer com aquilo que sinto. A escrita não resolve. Não cura. Não tira de mim aquilo que dói. Mas fica. E, às vezes, isso basta.

    A depressão me pegou. Eu não preciso fazer dela uma virtude, nem encontrar beleza onde hoje só existe cansaço. Hoje eu apenas reconheci o que sinto e deixeialgumas palavras sobre a mesa.

    Talvez eu não tenha encontrado uma resposta.

    Mas encontrei um lugar para colocar o silêncio.

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