Giselle Nunes

  • O mal-entendido

    Ela tinha oito anos. Voluntariosa, engraçada, decidida, solidária. Ficava horas a desenhar. Implorava aos pais que parassem na rua e dessem de comer aos cães abandonados. Alma caridosa e artista por vocação. Tinha uma cadela, a Princesa, negociada em seu aniversário de seis anos.

    — Já que não vão me dar um irmão no meu aniversário de seis anos, desejo um cachorro.

    E assim foi. 

    Defensora fervorosa dos animais, e confiante nas palavras do ser humano, não imaginava sofrer por uma galinha.

    Numa tarde, em casa com o pai, este a convida:

    — Filha, vamos comprar uma galinha?

    Ela logo entusiasmou.

    — Oba! Vamos!

    Se arrumou cuidadosamente. Penteou os cabelos ondulados e nada de chinelos. A ocasião pedia belo calçado.

    Lá foram os dois. O aviário ficava a poucos minutos a pé, de casa. Que aliás, tinha um enorme quintal à volta.

    Enquanto caminhavam, a menina pensava como seria a vida com a nova amiga.

    Que nome darei à nova mascote? Tem que combinar com o nome da Princesa. Pororoca? — grande demais na hora de chamar. Pérola. — não combina. Penélope? — gostei! Igual ao desenho da “Corrida Maluca”, “Penélope Charmosa”. Vou escolher uma galinha bem branquinha e colocar um laço rosa.

    Chegaram.

    — E aí, boa tarde! — cumprimentou o vendedor. — O que vão querer?

    A menina serelepe, imediatamente respondeu:

    — Uma galinha bem bonitinha.

    — Pode escolher. — autorizou o homem sorrindo, apontando para um cercado enorme no chão, na lateral do recinto.

    Local de azulejos que um dia tinham sido brancos e o chão emitia cor indefinida entre o cinza, marrom e preto. O cheiro forte de fezes aviárias incomodava a menina.

    Retorcendo o nariz a filha só queria escolher a nova amiga e sair dali.

    Esse lugar não é para bicho nenhum morar.

    Prestes a ter mais uma mascote, extasiada, se aproximou das penadas.

    Tem que ser bonita. Penas branquinhas. Cara de brava pra se defender da Princesa. Não muito grande, pra pegar e abraçar. 

    Aquela ali que tentou voar. — falou apontando o dedo para a eleita.

    — A mocinha é quem manda. — disse o homem que exibia um palmo de barriga, incapaz de ser acolhida pela camiseta.

    Passado alguns minutos…

    — Tomem a galinha.

    O homem entregou dois sacos grandes onde jaziam a morimbuda penada e um saquinho com o sangue da vítima, que viraria molho pardo.

    A menina empalideceu.

    — Você matou a minha galinha. — desandou a chorar. — Assassino! — e tentou socar a saliente barriga.

    Sem entender a atitude da filha, o pai a deteve. 

    — Que isso, filha! 

    — Ele matou a minha Penélope! — chorava, dolorosamente.

    O pai, sem graça e atrapalhado, não sabia se pedia desculpas, segurava os sacos com a vítima ou acalentava a filha.

    Na caminhada de volta o pai tentou, inutilmente, explicar o motivo do assassinato da penosa. 

    — Filha, você entendeu errado.

    Apegada a ideia da mascote-galinha, a menina aos prantos gritava: 

    — Assassino! Assassino! Assassino!

    E os pedestres olhavam interrogativamente para o pai.

    Explicações em vão.

    Palavras precisam de clareza e intenções inconfundíveis, principalmente ao serem ditas às crianças.

  • Anjo-cão

    Não à toa, diz-se o cão é o melhor amigo do homem.

    Lá fomos nós para o passeio rotineiro no ParCão, eu e o Capitão. 

    Capitão é um Beagle que mora com a nossa filha. Nos três dias da semana que ela trabalha o dia inteiro, ele fica conosco. A modernidade da guarda compartilhada. 

    Na época do caso a ser narrado ainda não tínhamos adotado a Mafalda. 

    Sempre que chegamos, antes de brincar com os aumigos no ParCão, Capitão cheira todo o terreno com o super focinho. Desenterra qualquer coisa estranha e late incansavelmente até que vejamos. 

    Acho interessante o fato de não sabermos os nomes dos frequentadores humanos, mas conhecemos todos os cães pelo nome. Assim é com o Capitão.

    — Oi, Capitão! Quer água.

    — E aí, Capitão! Disposto hoje?

    — Capitão… a Abgail já quer brincar com você.

    E todos são amáveis com os quatro-patas. Mas entre os adultos, uns se falam e outros não. Complexo.

    Naquele dia de outono, os machos reinavam no campo cercado. Abgail era a única fêmea. Uma linda Beagle. Eu, concentrada na leitura, sentada no banco de concreto, acolhida pela sombra da Amendoeira, seguia alheia ao ambiente. Queria concluir a história pois já estava de olho em outro livro. Quem lê me julga traidora-literária, com um e já almejando outro.

    De repente, reboliço. Capitão, como sempre, espiou a confusão e desconsiderou, prosseguindo com a cheiração local. Ele não é chegado a tumultos, nem eu.

    Compenetrada na história não reparei no início da correria. 

    Ambulância. 

    Espichei o olhar. 

    — A coisa foi feia. — balbuciei.

    Acalmados os ânimos, fui assuntar.

    Caminhei até a aglomeração onde uma senhora era porta-voz.

    — Abgail se aproximou de um senhor sentado em um dos bancos de cimento. Latiu insistentemente de maneira diferenciada — de acordo com a relatora do ocorrido. — Dessa maneira, a cadela conseguiu chamar a atenção dos outros cães e das pessoas.

    Menos a do Capitão — pensei.

    O idoso estava passando mal, desfalecendo. Abgail foi a única a perceber o estado do senhor. Os latidos alertaram a todos.

    — Gritei: corre, corre, corre! — contou a senhora.

    Foi socorrido a tempo por um homem que lhe segurou a cabeça para não bater no chão. Ataque cardíaco. Infartou.

    Estamos à mercê de infortúnios a qualquer segundo da vida.

    Graças ao Anjo canino Abgail, o idoso não morreu. 

    Encafifada com a esperteza da cadela fui buscar explicações neurocientíficas. Pessoas em processo de infarto exalam substâncias químicas que podem ser detectadas pelos cães logo no início do ataque. 

    Mais um motivo à adoção canina!

    Feliz de quem tem um Anjo-cão!

    *Especialmente no Dia Mundial do Cachorro

  • Vira-lata Escudeira

    Há exatamente dois anos, no dia 21 de julho, adotei uma rebolativa de cambitos finos. No recesso profissional fomos à feira de filhotes. Queríamos adotar uma cadela como companheira à nossa Pretinha, já idosa, que entristeceu com a morte da parceira.

    Domingo invernoso ensolarado. Descemos a Serra contando o tempo. Chegamos com meia hora para a feirinha acabar. Não planejei e nem nunca quis ter um cão. Elvis, o Canário Belga, como já contei, esbarrou em minha caminhada na calçada. Não voava, só corria e pulava. Como cantava! Parceiro de felicidade por cinco anos. Sofri. Estanquei vontade de outro bichinho. Mas o destino nos prega peças. É pretensioso.

    Na Feira, avistei uma cadelinha de olhos brilhantes, cílios castanhos e orelhas caídas, nos braços da Veterinária. Encantei. Não tenho palavras para explicar. Não sei o que me deu. Me aproximei, encantada com aquele olhar. Está para adoção? É fêmea? Emoção estranha me apoderou. Senti o coração a comemorar em saltitos. Um afeto brotou instantaneamente. Que lindinha! Posso pegar? Tomei-a nos braços. E assim Mafalda, com dois meses de nascida, entrou para a família.

    Dois anos após a adoção ainda não consigo explicar aquele encontro. Mafalda parecia estar me esperando. Só ela restava da ninhada, encontrada abandonada em uma rua de Teresópolis. Ambas viemos para o Rio de Janeiro. Eu de Petrópolis e ela de Teresópolis. Descemos a Serra para o encontro mágico. Ser tão pequeno e indefeso que emana só felicidade. A propósito, também adotamos a Nina para ser amiga da Pretinha.

    Agora tenho vários pedacinhos de alegria durante o dia. Mafalda é minha fiel escudeira. Adora coco seco, ovo cozido e olhar a rua pelo vidro da varanda latindo para os cães que passam. Uma fofoqueira! Sabe quando não estou bem, quando estou para chegar do trabalho e vai comigo para todos os lugares e viagens. Acordo com os olhinhos dela a me darem bom dia. Ao chegar do trabalho, por mais que eu esteja cansada, zangada com o trânsito, tudo se desfaz quando a vejo. Ela me enche de lambeijos e não sossega enquanto não lhe dou carinho. Sou grata por esta artimanha do Universo chamada AMOR.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar