
Anjo-cão
Não à toa, diz-se o cão é o melhor amigo do homem.
Lá fomos nós para o passeio rotineiro no ParCão, eu e o Capitão.
Capitão é um Beagle que mora com a nossa filha. Nos três dias da semana que ela trabalha o dia inteiro, ele fica conosco. A modernidade da guarda compartilhada.
Na época do caso a ser narrado ainda não tínhamos adotado a Mafalda.
Sempre que chegamos, antes de brincar com os aumigos no ParCão, Capitão cheira todo o terreno com o super focinho. Desenterra qualquer coisa estranha e late incansavelmente até que vejamos.
Acho interessante o fato de não sabermos os nomes dos frequentadores humanos, mas conhecemos todos os cães pelo nome. Assim é com o Capitão.
— Oi, Capitão! Quer água.
— E aí, Capitão! Disposto hoje?
— Capitão… a Abgail já quer brincar com você.
E todos são amáveis com os quatro-patas. Mas entre os adultos, uns se falam e outros não. Complexo.
Naquele dia de outono, os machos reinavam no campo cercado. Abgail era a única fêmea. Uma linda Beagle. Eu, concentrada na leitura, sentada no banco de concreto, acolhida pela sombra da Amendoeira, seguia alheia ao ambiente. Queria concluir a história pois já estava de olho em outro livro. Quem lê me julga traidora-literária, com um e já almejando outro.
De repente, reboliço. Capitão, como sempre, espiou a confusão e desconsiderou, prosseguindo com a cheiração local. Ele não é chegado a tumultos, nem eu.
Compenetrada na história não reparei no início da correria.
Ambulância.
Espichei o olhar.
— A coisa foi feia. — balbuciei.
Acalmados os ânimos, fui assuntar.
Caminhei até a aglomeração onde uma senhora era porta-voz.
— Abgail se aproximou de um senhor sentado em um dos bancos de cimento. Latiu insistentemente de maneira diferenciada — de acordo com a relatora do ocorrido. — Dessa maneira, a cadela conseguiu chamar a atenção dos outros cães e das pessoas.
Menos a do Capitão — pensei.
O idoso estava passando mal, desfalecendo. Abgail foi a única a perceber o estado do senhor. Os latidos alertaram a todos.
— Gritei: corre, corre, corre! — contou a senhora.
Foi socorrido a tempo por um homem que lhe segurou a cabeça para não bater no chão. Ataque cardíaco. Infartou.
Estamos à mercê de infortúnios a qualquer segundo da vida.
Graças ao Anjo canino Abgail, o idoso não morreu.
Encafifada com a esperteza da cadela fui buscar explicações neurocientíficas. Pessoas em processo de infarto exalam substâncias químicas que podem ser detectadas pelos cães logo no início do ataque.
Mais um motivo à adoção canina!
Feliz de quem tem um Anjo-cão!
*Especialmente no Dia Mundial do Cachorro























