Cães & Pessoas

Por que os ataques de cães estão cada vez mais mortais?

A morte recente de uma veterinária, causada pelo ataque de um pastor-belga-malinois da Polícia do Senado, reacendeu o debate sobre prevenção. O que está por trás de tantas mortes? Descuido, excesso de confiança, irresponsabilidade ou falta de conhecimento? Provavelmente, uma combinação de todos esses fatores.

Os dados são alarmantes. A forma como a sociedade passou a se relacionar com os cães tem contribuído para essas tragédias. Há um exagero em nome de uma convivência excessivamente humanizada. E não falo de coisas banais, como vestir os cães com roupinhas, deixá-los dormir na cama dos donos ou permitir que subam no sofá. Falo de ignorar as necessidades, os limites e as características próprias da espécie.

Os cães seguem uma lógica própria. Mesmo inseridos em nossas famílias, conservam traços ancestrais. Negar isso não os torna mais humanos nem mais adaptados. Apenas aumenta a distância entre o que eles são e o que esperamos que sejam.

Nas minhas aulas e mentorias, falo sobre a importância de respeitar cada fase da vida do cão. Desde filhote, quando, não raro, ele é impedido de experimentar plenamente o mundo, muitas vezes em razão do ciclo vacinal — e aqui não faço juízo de valor sobre a importância das vacinas. É preciso, porém, ponderar e buscar equilíbrio durante essa fase.

O cão não é um ser totalmente imprevisível: ele pode começar a apresentar sinais de alterações comportamentais desde cedo. Quando ignoramos esses sinais, corremos riscos reais e, em algumas situações, isso pode ser fatal.

Existem também outros aspectos. Não é difícil encontrar pessoas que acreditam piamente que podem mudar o comportamento de um cão apenas oferecendo mais amor. O cuidado sem conhecimento pode produzir conflitos e tornar o animal confuso. Além disso, a hierarquia não deve ser demonizada em nome desse amor.

Enquanto isso, políticas públicas continuam sendo criadas sob pressão, após tragédias e especulações midiáticas. Em vez de investir em educação, fiscalização, criação responsável, formação técnica e prevenção, escolhe-se o caminho mais fácil: culpar o animal, proibir raças e esperar que nenhuma morte volte a acontecer.

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Francci Lunguinho

Francci Lunguinho é jornalista, radialista e escritor. É coautor do livro O Treinamento Invisível: educar cães e transformar pessoas é muito simples (2023), publicado pela editora Arribaçã. Também é treinador de cães há 21 anos e sócio-fundador da Escola Lobatos. Fundador e editor do portal literário Crônicas Cariocas, mora no Rio de Janeiro com a esposa e dois cães da raça cocker spaniel. É pai de Matheus e faixa-preta de jiu-jitsu.

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