Coluna ‘Cães & Pessoas’

  • Por que os ataques de cães estão cada vez mais mortais?

    A morte recente de uma veterinária, causada pelo ataque de um pastor-belga-malinois da Polícia do Senado, reacendeu o debate sobre prevenção. O que está por trás de tantas mortes? Descuido, excesso de confiança, irresponsabilidade ou falta de conhecimento? Provavelmente, uma combinação de todos esses fatores.

    Os dados são alarmantes. A forma como a sociedade passou a se relacionar com os cães tem contribuído para essas tragédias. Há um exagero em nome de uma convivência excessivamente humanizada. E não falo de coisas banais, como vestir os cães com roupinhas, deixá-los dormir na cama dos donos ou permitir que subam no sofá. Falo de ignorar as necessidades, os limites e as características próprias da espécie.

    Os cães seguem uma lógica própria. Mesmo inseridos em nossas famílias, conservam traços ancestrais. Negar isso não os torna mais humanos nem mais adaptados. Apenas aumenta a distância entre o que eles são e o que esperamos que sejam.

    Nas minhas aulas e mentorias, falo sobre a importância de respeitar cada fase da vida do cão. Desde filhote, quando, não raro, ele é impedido de experimentar plenamente o mundo, muitas vezes em razão do ciclo vacinal — e aqui não faço juízo de valor sobre a importância das vacinas. É preciso, porém, ponderar e buscar equilíbrio durante essa fase.

    O cão não é um ser totalmente imprevisível: ele pode começar a apresentar sinais de alterações comportamentais desde cedo. Quando ignoramos esses sinais, corremos riscos reais e, em algumas situações, isso pode ser fatal.

    Existem também outros aspectos. Não é difícil encontrar pessoas que acreditam piamente que podem mudar o comportamento de um cão apenas oferecendo mais amor. O cuidado sem conhecimento pode produzir conflitos e tornar o animal confuso. Além disso, a hierarquia não deve ser demonizada em nome desse amor.

    Enquanto isso, políticas públicas continuam sendo criadas sob pressão, após tragédias e especulações midiáticas. Em vez de investir em educação, fiscalização, criação responsável, formação técnica e prevenção, escolhe-se o caminho mais fácil: culpar o animal, proibir raças e esperar que nenhuma morte volte a acontecer.

  • Rebuliço no Cãodomínio

    Lugar de peripécias acaloradas é condomínio. Histórias inimagináveis. Não importa o número de apartamentos. Condomínio surpreende até aos Anjos da Guarda preparados para os fortuitos. Edifício de 11 apartamentos. Alguns adultos, muitos idosos, cinco jovens, um bebê e nove cães. Mesmo comedido, valem contos prazerosos.

    Convivência pacífica, polida e amigável entre alguns condôminos. O rol está sempre bem decorado pela moradora-design. A síndica é pulso firme e às vezes vira ursa na resolução de conflitos, defendendo o prédio com zelo e meticulosidade. O zelador parece um polvo-faz-tudo. Sabe tudo, vê tudo, ouve tudo. Tem a senhorinha educadíssima, o homem quase não visto, os casais de jovens adultos bonitos, as jovens que sempre passeiam com os cães, a neném recém-nascida que é uma fofura, o casal intelectual e nós.

    Aqui estamos há mais de uma década e o edifício nunca foi abundante em crianças. Talvez seja reflexo dos novos tempos ou por não termos área de lazer ou os dois. Não sei. A verdade é que não há crianças pelos corredores.

    Morar aqui é silencioso, fresquinho e ensolarado. Corredores cheirosos e portas branquinhas com maçanetas variadas, das que fazem reconhecimento facial às antigas, que engolem as chaves, emperram e não querem devolvê-las.

    Mas a pouco tempo tivemos uma moradora subversiva expulsa do apartamento. Um Oficial de Justiça apreendeu o carro alugado que ela também não pagava. Aliás, acho que esse apartamento precisa de exorcismo. Até hoje, nele só vieram morar transgressores, desobedientes, esquisitos, baderneiros. Uma moradora logo que chegou, montou um brechó na recepção. Foi um auê…

    Por isso, sempre que alguém se muda, proclamo o ditado japonês: Boa sorte e tenha bons vizinhos. Afinal, vizinho está do seu ladinho.

    Mas, dia desse, já noite, ouvimos latidos, gritos. Mafalda e o Capitão começaram a rosnar na fresta, embaixo da porta. Deitada, iniciando a leitura do ritual do sono, meu telefone toca, a síndica: Vocês estão com outro cachorro, um preto? Respondi negativamente. Tem um cachorro preto solto nos corredores. Minha filha não consegue sair com nossos cães para passear. Percebi temor na voz. Acordei meu marido que foi ver o furdunço no prédio. Caos generalizado em plena quarta-feira.

    Ele saiu com uma vassoura e enorme bacia de plástico, daquelas que se põe roupas brancas de molho no bicarbonato. Portas entreabertas com olhinhos nas frestas espiando o fuzuê. Espada-vassoura e escudo-bacia em punho lá foi ele. Eram três cães pelos corredores. O Guerreiro e os três dragões. Pessoas gritavam nos apartamentos: Chame os bombeiros. Liguem para polícia. São brabos! Cuidado! Joga spray de pimenta!

    Os três cachorros corriam, subiam, e desciam as escadas do prédio assustados, eufóricos, desnorteados. Pelo olho-mágico, os vi saracoteando e pareciam adorar a liberdade. Sabíamos que só um vizinho tinha três cães. Os pais da bebê. Munido da armadura improvisada, o Cavaleiro foi até o apartamento do casal. Porta escancarada. A chave permanecia na fechadura por dentro. Um dos cães entrou no elevador, subiu, ganiu, desceu enlouquecido.

    O Destemido usou a espada-vassoura e enxotou o maior para dentro do apartamento. Fechou a porta. Os outros dois, mais serelepes, subiam e desciam as escadas felizes, latindo em brincadeira. Encurralou o menorzinho entre a parede e o escudo-bacia e o arrastou, preso, até a porta e adentrou-o.

    O terceiro, mais levado, o driblava. O Valente Guerreiro levou uma canseira. Esbaforido, subia e descia as escadas atrás do fujão. Os joelhos reclamaram. Parou. Sentou no degrau. O cão o olhou ressabiado. Distante, aguardava seu perseguidor retomar a empreitada. Mal sabia o foragido que o Guerreiro sessentão estava exausto. Rendido, largou a espada-vassoura, o escudo-bacia e argumentou: Você venceu. Desisto. Não dá para mim. O cão virou a cabeça de lado e percebeu o cansaço do homem à sua frente. Pode ficar zanzando pelo prédio. Não vou te pegar. E foi acalmando a respiração. Ciente da desistência e de ter sido proclamado vencedor, o fugitivo, calmamente se aproximou e roçou o focinho na mão do perseguidor. Meu marido acarinhou a cabeça do cachorro e mansamente pegou a coleira e o levou até o apartamento. O fujão entrou sem retrucar.

    Horas depois, o morador do apartamento chegou. Atualizado dos fatos e tendo a chave pelo lado de fora da porta, trancada, veio agradecer e pediu inúmeras desculpas.

    Tenho certeza que os cães foram dormir extasiados de felicidade na brincadeira da liberdade.

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