Kafka Milena

  • A clandestina

    Eu inaugurei sua era, e qualquer um que olhasse, minimamente, em meus olhos saberia que eu estava escondendo um sorriso. Era impossível me conter.

    Inconformada como sou, não aceitava que Kafka tinha Milena e Dostoiévski tinha Nastenka. Os maiores e mais complicados amores da literatura puderam ser nomeados, e o seu não.

    E essa era nossa diferença: enquanto eu queria dizer seu nome para o mundo, você me tinha como um segredo. Eu era aquela desejada às escondidas.

    Eu apreciava cada minuto com você, com a relutância de me entregar completamente, porque eu sabia que era um caminho sem volta. Mas você tinha a ressalva das palavras, da nomenclatura, do que os outros sabem.

    E então, eu tinha que ser a clandestina. Era a única forma de existirmos, mas me pergunto: o que acontece com aquilo que se tem medo de dizer o nome?

    Eu queria que tivesse nome, talvez até sobrenome. Eu queria que fosse reconhecido, que fosse vivido.

    Seria prepotência da minha parte achar que você também sente tudo isso? E, se sente, tem medo de dizer, porque, uma vez dito, está dito. Não há maneira de se desdizer.

    Confessar para o mundo minha existência talvez fosse a menor das penas; a maior delas seria dar voz ao sentimento e deixar que ele morra só porque agora existe.

    E, nesse descompasso, eu vivo à espera de ver você dizer meu nome para o mundo.

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