Leandro Alves no Crônicas Cariocas

  • A infância bateu na porta

    No domingo de manhã, enquanto eu lia no computador, percebi que a rua onde moro estava mais agitada do que o normal. Parei de escrever e fui ver o que era. Cheguei à rua e fiquei abismado: tanta gente andando de carrinhos de rolimã. A vizinhança toda. A rua, que foi fechada só para isso, ficou cheia de gente com velhos, crianças, marido e mulher, homem quarentão. Todo mundo com seu carrinho. Estava tão bom que resolvi deixar a leitura para outro dia. Quando eu vi uma mulher, de cabelos grisalhos amarrados, descendo naquela algazarra toda — meu Deus!  — nada mais pra mim no mundo importava.

    Quando fui colocar o pé na rua para ver, meu primeiro desejo foi filmar. Peguei o celular, apontei a câmera e, de repente, um homem sorriu ao ver que eu estava gravando. Minha vontade era postar o vídeo e dizer: “Olha que delícia a minha rua!  Ela é tão divertida e alegre!” Eu, que já beiro os meus 42 anos, só me preocupava em gravar, registrar, compartilhar.  Enquanto isso, todo mundo ali só pensava em correr, gritar, sair, voltar. A ladeira, aqui em frente à minha casa, é íngreme. Naquele dia, ônibus só na rua de trás.

    Na minha infância, nada era mais simbólico do que o carrinho de rolimã. Naquela época, como não havia ainda celular, jogos, redes sociais, posso dizer que fui uma criança com o pé no chão.  Os carrinhos faziam a rua parecer uma pista de Fórmula 1.  A molecada corria veloz, gritava, ralava o joelho e, o pior de tudo, é que na minha infância o Mertiolate ardia. Parar? Só quando a mãe chegava à porta para avisar que a janta estava pronta. Mas, antes do jantar, a mãe da gente sentava com as vizinhas na porta de casa para colocar o papo em dia.  Para falar a verdade, nunca tinha andado de carrinho de rolimã até domingo passado.  Como também nunca fui de subir na laje para soltar pipas, cortar a linha dos outros meninos com cerol, a vida toda fui ruim de bola. Mas, na semana passada, já homem, enquanto eu filmava, um rapaz perguntou se eu iria ficar olhando. Quer saber?  Peguei meu carrinho, fui  até  lá  e me juntei a todo mundo.

    Eu olhava para a rua e é como se, pelo menos naquela manhã, ela voltasse a ser o que ela nunca deveria ter deixado de ser.  Aquela alegria barulhenta, com gente conversando na porta de casa, crianças inventando brincadeiras, o tempo passando devagar.

    De uns tempos pra cá, com essa história de todo mundo passar tanto tempo no celular, a rua ficava assim meio quieta demais.  Todo mundo ainda passa, dá bom dia; mas, aquele papo demorado e as horas de domingo na calçada pareciam ter ficado no passado.  Só que, semana passada, com uma tenda montada com água mineral e frutas, a gente foi à forra. Quando eu via aqueles homens feitos, do meu lado, subindo e descendo a rua com o carrinho, eu quis que aquela manhã não acabasse nunca. Era como se, de repente, a meninice de todo mundo fosse uma só. Idosos dos bairros vizinhos, crianças, avós, marido e mulher, todo mundo junto.

    No começo, confesso, pensei em ficar apenas no desejo mesmo. Queria admirar, assistir, até mesmo fazer uma crônica. Mas… a minha vontade de “brincar com os coleguinhas” falou mais alto. Eu subia, descia, ia, voltava mesmo com o sol e aquele calor danado que eu estava sentindo.

    Dali, descobri uma coisa interessante. A criança que a gente foi nunca some de todo.  Precisa só que a gente dê asas à imaginação, aproveite as oportunidades. Certa vez, um amigo que gosto muito, me disse que certas chances na vida da gente não voltam, que é preciso aproveitar. Aí deixei a vergonha de lado e saí para brincar. Eu não sei quando vai acontecer outra vez, mas sempre que acontecer, eu vou.

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