Leandro Alves no Crônicas Cariocas

  • Happy hour

    Sempre me impressionou a mania que muita gente tem de marcar encontros que  sabe que nunca vão acontecer. “Precisamos nos ver qualquer dia desses”, “Para a semana talvez, quem sabe”, “A gente precisa se ver por aí.” Tenho para mim que é algo brasileiro. Brasileiríssimo.

    “Dessa vez a gente marca. Prometo. Sem enrolação.” Aquele passeio nunca vai acontecer, todo mundo sabe; mas gosta de fingir que vai.

    Um acampamento na montanha, um bate e volta na praia, um chope numa noite de sexta-feira, happy hour da firma, visita na casa do amigo domingo à tarde, aquela caminhada ao redor da lagoa.

    A graça é combinar. Descrever o passeio. Comparecer já é outra história.

    É como se, por exemplo, antes da saída propriamente dita fosse preciso sonhar, imaginar, narrar, visualizar. Até os perrengues são imaginados primeiro. Talvez nunca aconteçam, mas tudo bem.

    Gosto tanto de ouvir conversas dos outros. No ponto de ônibus, na fila de um show, na lanchonete. Por experiência própria, sei quando, entre dois amigos, eles marcam algo sem a menor intenção de concretizar a promessa.

    Não é mentira por maldade nem nada, não chega a ser desfeita, pouco caso, nem mesmo rompimento de uma amizade antiga — é um jeitinho todo particular nosso. É, na verdade, uma identidade nacional, um costume que, de tão antigo, já está quase para ser patenteado.

    Quando dois ou mais amigos se encontram, há um acordo tácito, cúmplice, em torno de uma promessa que jamais será cumprida.

    É nessa hora que muita gente usa ao máximo sua dose de humor, imaginação e paciência.

    Ninguém chega a se odiar, tampouco acontece um bate-boca mais acalorado. Não há nenhuma guerra iminente, insultos ou processo em andamento. Quando me deparo com conversas assim, vejo um ar sereno no rosto dos amigos envolvidos, um riso debochado nos lábios, uma maluquice sem maiores consequências.

    De vez em quando, um amigo pergunta ao outro se aquele tal bar, que ficou tão famoso no Comida di Buteco, continua funcionando ou se já fechou. “Ah, então qualquer dia desses a gente marca. Pode ser? Desta vez a gente vai mesmo. Nada de ficar só de papo.”

    Aí eles descrevem a cerveja gelada, porção de fígado com jiló, um grupo de chorinho tocando, uma turma se acabando de tanto sambar. Qualquer dia desses e qualquer hora dessas eles irão finalmente, vão deixar de conversa fiada, nem que chova no dia. Por enquanto, eles combinam indefinidamente o dia. O pior é que ninguém reclama. E isso é o que mais me diverte.

  • Travessuras

    A primeira travessura ninguém esquece. Quando a gente era criança, vivia com o pé no chão. A rua onde eu moro era sempre cheia. A gente jogava futebol de rua, andava de carrinho de rolimã, brincava de bola de gude, queimada, peteca, vôlei e soltava pipa.

    O fim da brincadeira era quando a mãe de cada um chegava na porta de casa, olhava para um lado e para o outro e gritava: “Menino, vem logo pra dentro que a janta está esfriando.”

    Mas o bom mesmo eram as travessuras.

    Certa vez, um de nós deu um jeito de conseguir um barbante e o outro — pasme — uma cobra. De mentirinha, claro. A gente sentava do outro lado da rua e depois assobiava alguma coisa.  Quando alguém passava, a gente puxava a linha. A vítima tomava o maior susto.

    A primeira vítima foi uma mulher que, depois de passar no sacolão, subia a rua com as compras quando alguém da turma puxou a corda. Ao ver uma cobra ali, sem mais sem menos, a mulher deu um grito e as verduras foram parar todas no chão. Claro, foi correndo bater campainha lá em casa e chamou minha mãe, que ralhou comigo. Mas logo voltei pra rua.

    Meninos da cidade grande, pelo que eu me lembre, cobra só no zoológico mesmo. Agora, a de pano, ah, qualquer um pendurava no pescoço ou segurava na mão. A brincadeira durava horas. As vítimas eram tantas. Cada berro mais hilário e diferente do outro.

    Depois veio um homem de bigodes, sempre na dele, até que se deparou com uma cobra. Deu um berro. Ele dizia uns absurdos, batia na porta da casa de alguém da turma, falava qualquer coisa com o pai ou a mãe. O que divertia era o pânico de quem passava, a pessoa suando frio, brava.

    Bom também era gente vindo da missa ou do culto, num domingo, e se deparar com um animal peçonhento bem ali, numa rua tão calma e com um bando de crianças fingindo que não acontecia nada.

    Um velho subindo o morro, idosas vindo da igreja, vizinhos das outras ruas, tios, tias, o pastor, o padre, o mendigo e a mãe do amigo. Todos já tinham se deparado alguma vez na vida com uma cobra de pano ou de plástico. Achavam que era verdade, claro.  Ou então não teria graça.

    Depois todo mundo entrava para casa. Hora de jantar. Dormir ou separar o uniforme da escola para o dia seguinte.

    A rua ficava em silêncio, a noite vinha. Logo viria a segunda-feira. Mas, ao chegar da escola, cada um jogava a mochila de lado e tudo recomeçava.

  • Passou o tempo de roubar amoras

    “Passou o tempo de roubar amoras, mangas, goiabas e mexericas no quintal do vizinho”.
    Elias José, em “Cantigas de adolescer”

    Nunca fui de subir em árvore.

    Fui um menino tímido.

    Era ruim de bola e não subia na laje para soltar pipas.

    Mas teve um acontecimento que me deixou um gosto de aventura: foi quando, pela primeira vez, eu ouvi “I want to hold your hand”, dos Beatles.

    Eu não sabia quem eram os Beatles. Não sabia nadinha de nada de inglês. Mas, quando ouvia aquela música, não conseguia ficar parado, dava vontade de dançar, de cantar, de rir, de rodopiar pela sala.

    A música tocava no intervalo de um jogo de futebol, na hora da propaganda. Não me interessava o jogo, quem ganhava ou quem perdia, a bola rolando pouco me interessava. Eu queria a música, aquele trecho, que não era de tocar no rádio lá de casa.

    Mas aí veio um homem rabugento, acho que era amigo do meu tio, que estava com o controle remoto. Quando me viu, o danado, gostando tanto assim dos Beatles, fez pirraça e tratou de ver o jogo em outro canal. Não adiantou espernear, nem falar nada. Minha mãe viu meu desespero e me levou para passear no quintal.

    Doeu mais do que joelho ralado, mais do que se tivessem furado a bola de futebol, era pior do que repetir de ano. Depois daquilo, eu teria que esperar tocar no rádio.

    Hoje ouvi “I want to hold your hand”. A infância, há muitos anos, ficou para trás. Passou o tempo de roubar amoras, de jogar bola na rua, de ter medo do escuro, de chegar em casa com o corpo cheio de poeira. Mas se pensam que me dou por vencido, se enganam. O passaporte para minha época de menino é a velha canção dos Beatles. Viajo para lá quando quero e volto quando me dá na telha. Depois de muito viver e muito estudar, canto juntinho com os Beatles a música toda. De cor e salteado. Ninguém desliga o som, não preciso esperar o intervalo da televisão, nem preciso de controle para dançar e cantar. Chegou o tempo de ter um notebook e convém aproveitar.

    Hoje, ao ouvir “I want to hold your hand” sinto que minha infância volta, inteira, apagando tudo ao redor. Com a imaginação viajo para onde eu quiser. Por isso escolhi o ofício de escrever.

  • A infância bateu na porta

    No domingo de manhã, enquanto eu lia no computador, percebi que a rua onde moro estava mais agitada do que o normal. Parei de escrever e fui ver o que era. Cheguei à rua e fiquei abismado: tanta gente andando de carrinhos de rolimã. A vizinhança toda. A rua, que foi fechada só para isso, ficou cheia de gente com velhos, crianças, marido e mulher, homem quarentão. Todo mundo com seu carrinho. Estava tão bom que resolvi deixar a leitura para outro dia. Quando eu vi uma mulher, de cabelos grisalhos amarrados, descendo naquela algazarra toda — meu Deus!  — nada mais pra mim no mundo importava.

    Quando fui colocar o pé na rua para ver, meu primeiro desejo foi filmar. Peguei o celular, apontei a câmera e, de repente, um homem sorriu ao ver que eu estava gravando. Minha vontade era postar o vídeo e dizer: “Olha que delícia a minha rua!  Ela é tão divertida e alegre!” Eu, que já beiro os meus 42 anos, só me preocupava em gravar, registrar, compartilhar.  Enquanto isso, todo mundo ali só pensava em correr, gritar, sair, voltar. A ladeira, aqui em frente à minha casa, é íngreme. Naquele dia, ônibus só na rua de trás.

    Na minha infância, nada era mais simbólico do que o carrinho de rolimã. Naquela época, como não havia ainda celular, jogos, redes sociais, posso dizer que fui uma criança com o pé no chão.  Os carrinhos faziam a rua parecer uma pista de Fórmula 1.  A molecada corria veloz, gritava, ralava o joelho e, o pior de tudo, é que na minha infância o Mertiolate ardia. Parar? Só quando a mãe chegava à porta para avisar que a janta estava pronta. Mas, antes do jantar, a mãe da gente sentava com as vizinhas na porta de casa para colocar o papo em dia.  Para falar a verdade, nunca tinha andado de carrinho de rolimã até domingo passado.  Como também nunca fui de subir na laje para soltar pipas, cortar a linha dos outros meninos com cerol, a vida toda fui ruim de bola. Mas, na semana passada, já homem, enquanto eu filmava, um rapaz perguntou se eu iria ficar olhando. Quer saber?  Peguei meu carrinho, fui  até  lá  e me juntei a todo mundo.

    Eu olhava para a rua e é como se, pelo menos naquela manhã, ela voltasse a ser o que ela nunca deveria ter deixado de ser.  Aquela alegria barulhenta, com gente conversando na porta de casa, crianças inventando brincadeiras, o tempo passando devagar.

    De uns tempos pra cá, com essa história de todo mundo passar tanto tempo no celular, a rua ficava assim meio quieta demais.  Todo mundo ainda passa, dá bom dia; mas, aquele papo demorado e as horas de domingo na calçada pareciam ter ficado no passado.  Só que, semana passada, com uma tenda montada com água mineral e frutas, a gente foi à forra. Quando eu via aqueles homens feitos, do meu lado, subindo e descendo a rua com o carrinho, eu quis que aquela manhã não acabasse nunca. Era como se, de repente, a meninice de todo mundo fosse uma só. Idosos dos bairros vizinhos, crianças, avós, marido e mulher, todo mundo junto.

    No começo, confesso, pensei em ficar apenas no desejo mesmo. Queria admirar, assistir, até mesmo fazer uma crônica. Mas… a minha vontade de “brincar com os coleguinhas” falou mais alto. Eu subia, descia, ia, voltava mesmo com o sol e aquele calor danado que eu estava sentindo.

    Dali, descobri uma coisa interessante. A criança que a gente foi nunca some de todo.  Precisa só que a gente dê asas à imaginação, aproveite as oportunidades. Certa vez, um amigo que gosto muito, me disse que certas chances na vida da gente não voltam, que é preciso aproveitar. Aí deixei a vergonha de lado e saí para brincar. Eu não sei quando vai acontecer outra vez, mas sempre que acontecer, eu vou.

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