Crônicas

Travessuras

A primeira travessura ninguém esquece. Quando a gente era criança, vivia com o pé no chão. A rua onde eu moro era sempre cheia. A gente jogava futebol de rua, andava de carrinho de rolimã, brincava de bola de gude, queimada, peteca, vôlei e soltava pipa.

O fim da brincadeira era quando a mãe de cada um chegava na porta de casa, olhava para um lado e para o outro e gritava: “Menino, vem logo pra dentro que a janta está esfriando.”

Mas o bom mesmo eram as travessuras.

Certa vez, um de nós deu um jeito de conseguir um barbante e o outro — pasme — uma cobra. De mentirinha, claro. A gente sentava do outro lado da rua e depois assobiava alguma coisa.  Quando alguém passava, a gente puxava a linha. A vítima tomava o maior susto.

A primeira vítima foi uma mulher que, depois de passar no sacolão, subia a rua com as compras quando alguém da turma puxou a corda. Ao ver uma cobra ali, sem mais sem menos, a mulher deu um grito e as verduras foram parar todas no chão. Claro, foi correndo bater campainha lá em casa e chamou minha mãe, que ralhou comigo. Mas logo voltei pra rua.

Meninos da cidade grande, pelo que eu me lembre, cobra só no zoológico mesmo. Agora, a de pano, ah, qualquer um pendurava no pescoço ou segurava na mão. A brincadeira durava horas. As vítimas eram tantas. Cada berro mais hilário e diferente do outro.

Depois veio um homem de bigodes, sempre na dele, até que se deparou com uma cobra. Deu um berro. Ele dizia uns absurdos, batia na porta da casa de alguém da turma, falava qualquer coisa com o pai ou a mãe. O que divertia era o pânico de quem passava, a pessoa suando frio, brava.

Bom também era gente vindo da missa ou do culto, num domingo, e se deparar com um animal peçonhento bem ali, numa rua tão calma e com um bando de crianças fingindo que não acontecia nada.

Um velho subindo o morro, idosas vindo da igreja, vizinhos das outras ruas, tios, tias, o pastor, o padre, o mendigo e a mãe do amigo. Todos já tinham se deparado alguma vez na vida com uma cobra de pano ou de plástico. Achavam que era verdade, claro.  Ou então não teria graça.

Depois todo mundo entrava para casa. Hora de jantar. Dormir ou separar o uniforme da escola para o dia seguinte.

A rua ficava em silêncio, a noite vinha. Logo viria a segunda-feira. Mas, ao chegar da escola, cada um jogava a mochila de lado e tudo recomeçava.

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Leandro Alves

Leandro Alves é mineiro. Formado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a PUC Minas. Como cronista, participou do Jornal Porta Voz de Venda Nova, criou o blog Preciso De Uma Crônica, além de ter publicado também no site OperaMundi. Cinéfilo apaixonado pelo cinema brasileiro, pela MPB, por poesia, Carnaval, sem falar em ler seus cronistas preferidos como Rubem Braga, Carlinhos de Oliveira, Martha Medeiros e Affonso Romano de Sant'anna.

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