O Auto da Compadecida

  • Um pequeno elogio à mentira

    Muitas são as facetas do comportamento humano que atraem os mais bisbilhoteiros como eu. Estudiosos dos mais diversos campos dedicam horas a fio para compreender as incríveis nuances de atitudes consideradas desviantes do padrão moralmente desejável. Seja por uma perspectiva sociológica, seja por uma abordagem psicológica, os desvios comportamentais são sempre vistos como uma transgressão de regras socialmente criadas.

    O que é visto como “normal” não apenas nos compele a agir de certa maneira, como também promove uma certa estabilidade nas relações sociais e uma até saudável previsibilidade do comportamento humano. Entre as diferentes formas que rompem essa segurança e que mais chamam minha atenção está a chamada pseudologia fantástica – termo um tanto empolado para mentira patológica. Aqui, não me refiro às mentirinhas que, de vez em quando, tanto eu como você acabamos contando por aí. Falo do sujeito que mente, compulsivamente, por prazer, sem maiores necessidades práticas. Mais do que isso, do indivíduo que acaba acreditando em suas próprias invencionices e relatando fantasias com total convicção.

    Como leigo que sou, não sei dizer o quão tênue pode ser a linha que demarca, arbitrariamente, a diferença entre o “normal” e o patológico, o saudável e a mitomania. Na verdade, nem tenho a pretensão de discutir a fundo tema tão alheio aos meus mirrados
    conhecimentos. Todavia, o que me instiga a falar sobre a mentira é o lado cômico desse desvio comportamental. São as estórias tão fantásticas e absurdas, que raras são as pessoas que as levam a sério. Algo como aqueles contos relatados por um certo Chicó – imortalizado pelo mestre Ariano Suassuna em sua obra O Auto da Compadecida. Ou ainda aquela falsa gravidez de quadrigêmeas desmascarada por um programa de televisão em Taubaté.

    Creio que poucos tenham tido a oportunidade de conhecer e de interagir com um mitômano. Talvez não existam manuais que ensinem a lidar com situações do tipo, mas a sensatez e a razoabilidade dispõem-se a servir de orientação para esses casos potencialmente tensos e embaraçosos. Claro está que as mentiras podem envolver questões muito mais sérias do que a comicidade que aqui menciono. Mas deixemos seu lado obscuro e antissocial aos psicólogos e aos sociólogos de plantão. Satisfaçamo-nos, pois, com a superficialidade mais profana de um atento e meticuloso ignorante.

    Existem os mentirosos anônimos, que ainda não foram descobertos pela grande imprensa. Esses podem ser vistos em quaisquer cantos, engambelando seus vizinhos, contando vantagens inexistentes, criando um passado que não existiu. A maioria deles é
    inofensiva, salvo quando o assunto envolve pecúnia ou empréstimo de algum objeto. Convém sempre manter uma certa cautela, visto que, se tiverem oportunidade, não hesitarão sequer em ludibriar seus amigos mais próximos. Se o sujeito for parente, abra o olho! Prudência redobrada, como diz o outro! Mas suas fantasias costumam ser tão absurdas que delas até Deus duvida.

    Existem também os mentirosos que viraram celebridades. No começo, todo mundo admira seus supostos feitos, suas pretensas qualidades e suas inexistentes credenciais sociais. Costumam associar a lábia ao charme, a criatividade à trapaça. É daí que surgem vigaristas como Frank Abagnale, Jr, aquele personagem vivido por Leonardo DiCaprio em filme de Steven Spielberg. O problema é que, conforme mostra o enredo de Prenda-me se for capaz, golpistas desse tipo costumam cair em contradições insolúveis. Eis o momento em que o trapaceiro perde o controle sobre sua narrativa e seus ouvintes e passa a responder por estelionato, o famoso artigo 171 de nosso Código Penal.

    Enfim, que fique claro que não incito ninguém a tal tipo de desvio de comportamento! Eu mesmo tento sempre ser verdadeiro em minhas falas e ações. Mas quem nunca foi pego em flagrante com alguma mentira de menor valor? Só sei que, quando confrontado com perguntas que desmoronam meu relato desprovido de base factual, costumo me lembrar da tão utilizada resposta do famoso Chicó: não sei, só sei que foi assim!

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