O MORRO

  • O MORRO

    No centro da cidade ergue-se um estranho morro. Verde e coberto de flores o ano inteiro, lar de pássaros e vários animais, mas estranho: ninguém o escalou até hoje.

    Contam os antigos que muitos tentaram, mas nenhum retornou; redobraram as tentativas, a subida não oferecia perigo algum; julgou-se que eles haviam se perdido, mas onde? Não se conseguiu saber por que não regressavam.

    Contra todas as recomendações, João e Manuel resolveram subir o morro. Fui com eles, sei do que estou falando; bom, deveria saber. Acontecem coisas nesta vida que não tem explicação mesmo.

    João subiu primeiro; eu e o Manuel ficamos olhando; nada fora do normal: João entrou no meio de umas árvores, apareceu mais acima, depois mais acima ainda, e, quando deveria já estar no topo, sumiu. Gritamos e gritamos, e nada.

    Onde João estaria? Estava tão perto, quase podíamos ouvir a sua respiração. Ouvimos o gemido agônico de um pássaro. Manuel falou: “Não é João.”

    Mas não estava muito convencido: subiu o morro para procurar João e o seu gemido feio. Logo pude ouvir dois gemidos agônicos. Por sete dias ouvi esses gemidos horríveis. Depois, mais nada.

    Ninguém mais da cidade ouviu. E o morro continua lá, agradável, acolhedor, e inexpugnável.

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