Quando o tio Luís encontrava alguns meninos brincando com pião, logo se oferecia para demonstrar a sua habilidade. Escolhia o pião mais gordinho, que era o de que mais gostava, e mais liso, de tanto uso. Enrolava a fieira no pião com um capricho minucioso de filósofo. Escolhia a área de terra mais limpa, que não tivesse nenhum empecilho para quando o pião girasse sobre si mesmo. E então o lançava, não para a terra, como seria de se esperar, mas para a frente; dava depois, ou melhor, concomitantemente, um jogo com a mão e o trazia de volta, para que viesse girar na sua mão grossa de homem da roça.
Em seguida repetia a operação. Enrolava novamente a fieira no pião com o seu capricho minucioso de filósofo. Todos os mesmos passos anteriores; mesmo a escolha do pião: examinava um a um os piões dos meninos, para enfim se decidir pelo mesmo pião. Quando o lançava, com a ponta da língua de fora, para maior exatidão na pontaria, e o trazia de volta, não o pegava mais na palma da mão, mas na unha. Na unha!, exclamavam interiormente todos os meninos. E todos, os meninos e o tio Luís, se punham a observar em êxtase o universo na forma de um pião encantado a girar, primeiro na mão calejada, depois na unha disforme de um homem rude, para por fim cair exausto, vencido.
Todos, os meninos e o tio Luís, mal podiam resistir à tentação de aplaudir o desempenho exímio do universo, que girava como um simples pião nesses calos grosseiros ou nessa unha feia, estragada.