O último ônibus para o Rio de André Giusti

  • O último ônibus para o Rio

    Encostado ao trailer, pedi a última cerveja. Proença disse que para ele estava bom. Pagou sua parte. “O ônibus é às nove. Tu tá ligado, né?”, me lembrou, já saindo e me dando as costas, percebendo que eu ficaria por ali ainda um pouco mais. Fiz que sim com um gesto rápido de cabeça para o lembrete do horário do ônibus. Passavam das sete da noite. Ainda havia um resquício violeta de luz do dia no horizonte, sumindo no mar naquele anoitecer de domingo de quase inverno. Eu voltaria com Proença e o resto do pessoal para o Rio, ao menos era esse o combinado. Eles estavam em casa, certamente se aprontando. A hora passava e eu teria que andar até lá, dali uns quinhentos metros, guardar tudo na mochila e tomar um banho para viajar. Só que mesmo antes do Proença sair fora, eu já havia decidido ficar, porque eu estava desconfiado, ou quase certo, do que aconteceria. E já com o Proença longe, ela deslizou os dedos pelo meu antebraço, olhou-me e disse que estava ventando frio. Para completar, passou a língua nos lábios. Concordei, “Sim, tá ventando frio”, só de camiseta regata, sunga e chinelo. “Entra, bebe aqui dentro”. Eu aceitei imediatamente. Quando entrei, ela fechou o trailer. “Está mesmo na hora de fechar”, soltou com malicia, acrescentando que àquela altura e com aquele vento não havia mais ninguém na praia.

    No meio do primeiro beijo, sua minissaia foi ao chão e, logo em seguida, o biquini lilás, o que fazia girar pescoços quando ela dava um tempo do batente e passava pela areia a caminho de um mergulho. “Para me revigorar com os fluidos de Iemanjá”, explicava, com um riso que fingia ser puro, mas que não me convencia. Aliás, acho que a ninguém. Ela ria do jeito que os demônios devem ensinar as mulheres a rir. Os olhos de todos, os meus incluídos, a devoravam por trás dos óculos escuros. Não era bonita. Para dizer a verdade, passava longe disso. Alguns de nós diziam que ela tinha cara de boneco de ventríloquo. Mas seus peitos, suas pernas e, principalmente, sua bunda, a cada vez mais que vínhamos do Rio para os fins de semana e feriados, mais punha ao chão o queixo de todos. Naquele dia, em um desses mergulhos, cruzou comigo, que voltava do mar. Me olhou de cima a baixo, como jamais havia feito. “Aparece aqui no trailer, lá pelas seis”, ela pediu pouco depois, quando eu estava indo embora, perto do almoço. Na hora combinada, apareci, cheguei com o pretexto de acertar as três cervejas que eu havia levado para a areia de manhã. É que Proença estava por lá e eu não queria que ele desconfiasse das minhas intenções. Bebeu a tarde toda, mas agora fazia cara decidida de quem já estava mesmo indo, o que fez em menos de dez minutos. Sozinhos, ela me chamou para dentro, trancou o trailer, nos beijamos e ela mandou ao chão a minissaia e o biquini. Feito isso, se sentou no freezer, daqueles horizontais, usados no comércio. Abriu as pernas. Seu cheiro engoliu o de cerveja passada misturado ao de fritura de peixe, aroma natural dos trailers de praia. Era mais forte, intenso e, claro, delicioso. Naquele momento, tive certeza de que nunca mais na vida o esqueceria. Definitivamente, eu não voltaria para o Rio no ônibus das nove da noite. De repente, me veio um estalo de preocupação, e não era com a volta. “E teu marido?”, me dei conta. Ela dividia com ele a administração do lugar. “Tá em Macaé, foi tentar fechar a venda de uns terrenos por lá. Volta na terça”. Quando acabamos, eu, em êxtase por ter sido o escolhido entre os outros nove que dividiam comigo o aluguel da casa de veraneio, queria mais; aquela ali, meio apressada, no desconforto do lugar, não seria o suficiente, uma oportunidade de ouro como aquela não poderia se resumir a uma única trepada. A ocasião merecia cama, conforto, e mais do que fizemos até ali. Pedi que fosse comigo para a casa. Subindo o biquini, aceitou na hora, como se já estivesse pensando na possibilidade. Disse apenas que eu fosse na frente, que tinha que fechar o caixa, tomar outras providências, e que lá pelas nove apareceria. Fui embora radiante. Repetiríamos noite adentro tudo que aconteceu no trailer. Aquela cavala dos sonhos de toda a casa só para mim.

    “Porra, vamos perder o ônibus por tua causa”, um dos caras reclamou assim que entrei. Comuniquei que ficaria, que só voltaria na segunda, de manhã cedo. Todos fizeram cara de “Então, foda-se. Vam’bora!”. Todos, menos Proença, que muitas vezes funcionava como meu irmão mais velho. “Tem certeza de que não vai?”, e me olhou com olhos de radiografia, de quem havia percebido o que, lá no trailer, estava suspenso no ar. Sim, eu tinha certeza, confirmei, firme. Saíram feito uma tropa, deixando a sala em silêncio e tomada por minha ansiedade pela noite.

    Ela chegou meia hora depois. Estava com maquiagem leve e batom, os cabelos ajeitados pela umidade do banho. Não estava feia ali. Até pensei se ela era realmente feia como dizíamos, ou se nos preocupávamos apenas se ela era gostosa. Usava uma blusa colorida casada com uma bermuda de tecido fino, um pouco transparente, através da qual dava para ver a marca da calcinha, ainda menor do que o biquíni que provocava o êxtase coletivo.

    A noite se desenhava memorável, daquelas de contar para os melhores amigos no bar. Mas não fomos longe e tudo se tornaria sim memorável, só que por outros motivos. A cama incendiava quando percebemos um vulto encostar junto à janela do quarto que dava para a pequena garagem, que por sua vez começava no portão de entrada da casa. Os caras saíram, não trancaram o portão. Apesar da vidraça espraiada, que distorcia as imagens vistas através dela, ele, o dono do vulto, pode perceber nossos movimentos e ter a certeza do que fazíamos. Algum filho da puta, escondido na praia deserta, deu o serviço, e o corno, nome real do vulto, veio em tempo recorde de Macaé.

    Do lado de fora, ele chamou nossos nomes e pediu que abríssemos a porta. Saí de cima dela, me vesti e fui abrir. Seria patético tentar negar. Nos passos que dei entre o quarto e a porta da sala, a principal da casa, me senti em uma reportagem dos antigos jornais populares, aquelas que não acabam bem. Eu só tinha 22 anos, pensei nisso antes de girar a fechadura, já arrependido para o resto da vida de não ter voltado com os caras. Quando abri a porta, o sujeito entrou olhando-me nos olhos, mas em silêncio, para a minha surpresa, que esperava, no mínimo, uma porrada no meio dos cornos. Parado no meio da sala, disse o nome da mulher e perguntou se era eu quem estava no quarto. “Não, era o presidente dos Estados Unidos”, ela respondeu. Meu silêncio tenso abafou minha risada.

    Quando apareceu na sala, já estava vestida, para dar à situação ao menos um pouco de decência. Começaram uma discussão típica dessas horas. Gritos, acusações de ambos os lados, a merda de uma vida conjugal se revelando, vindo à tona em golfadas de raiva e mágoa, como se fosse vômito. Eu tinha a ver com o que havia acontecido do trailer até ali. O que veio antes não era minha culpa.

    Ele ia dos gritos ao choro, retornava do choro aos gritos. “Eu te dei tudo quando você tava fodida, sem ter onde cair morta, quase passando fome, morando de favor. Mais um pouco e ia pra zona”. “E eu que me mato de trabalhar naquela porra, vendendo cerveja e fritando peixe, enquanto você some dizendo que vai vender terreno e nunca que aparece com a porra do dinheiro”. Foi aí que ele se abaixou em pegou uma garrafa de cerveja, encostada no canto da sala. Havia outras por ali. Os putos se mandaram e nem se deram ao trabalho de recolher a porra das garrafas. O movimento dele em pegar a garrafa, apenas este, foi o suficiente para que eu projetasse um enorme caco rasgando minha jugular. Eu só tinha 22 anos, pensei novamente.

    Levou alguns minutos discutindo com a mulher, segurando a garrafa. Em alguns momentos chegou mesmo a sacudi-la no ar. Mas ao contrário do que insinuava, deixou, propositalmente, a garrafa cair da altura dos joelhos. Ela bateu no chão, rodopiou, caiu deitada e não quebrou. Vidro forte, pensei pateticamente e, principalmente, aliviado. Virou-se para mim. Seu choro tornou-se seco e seus olhos, vazios. “E eu te considerava como um irmão”, e falando mais baixo, jogou na minha cara o modo como me tratava. Irmão era exagero, mas ele era realmente camarada de todos nós, dez rapazes entre vinte e vinte e cinco anos que rachavam o aluguel da casa, dormiam empilhados em dois quartos pequenos e uma sala de tamanho médio e se derretiam de tesão pela sua mulher. Se ele percebia isso, não deixava transparecer. Deu as costas e foi embora, sem dizer mais nada. Ela saiu em seguida; não se despediu, não olhou na minha cara.

    Vi as horas. Eram dez e vinte e cinco. De modo algum eu poderia dormir ali naquela noite. Aliás, em nenhuma outra noite mais. O sentimento de vingança poderia vir com a madrugada, nas semanas e meses seguintes, em algum momento até o fim da vida daquele sujeito. Embolei toda minha roupa, enfiei na mochila, apaguei as luzes, tranquei tudo. Agora faltavam quinze para as onze. Até a rodoviária, que não passava de um recuo à margem da rodovia, dava cerca de meia hora andando rápido. Seria o tempo exato de pegar o ônibus, o último da noite.

    A passos largos, quase correndo, ganhei a rua escura, de terra, assustado por qualquer movimento que eu percebesse atrás de árvores e em becos entre as casas. Na beira da rodovia me senti menos inseguro e apertei o passo, confiante de que chegaria a tempo. Mas foi quando de uma rua transversal saiu um carro, arrancando; mesmo no escuro deu para ver que era um Voyage. Com a arrancada, os pneus deslizaram na terra batida, e cantaram quando alcançaram o asfalto. Ao se aproximar de mim, um sujeito colocou metade do corpo para fora da janela do carona, pôs uma das mãos na cintura e fez o movimento de que dali tirava uma arma. Gritou “Vai morrer, filho da puta!”, e apontou para mim. Havia um objeto escuro, pontudo, preso entre o polegar e o indicador de sua mão direita, mas com a iluminação fraca, não era possível saber do que se tratava. O tempo em que o carro levou passando por mim ficou congelado em algum lugar do espaço sideral. Congelados também ficaram minha respiração e meus batimentos. Eu tinha 22 anos. Não imaginei que nessa vida se pudesse morrer na beira de um estrada, longe de casa, num fim de noite de domingo, tão rápido e por um motivo tão idiota: uma buceta misturada a cheiro de peixe e cerveja choca. Finalmente reagi, e intentei me jogar no matagal a minha esquerda, mas antes que eu fizesse isso, o desgraçado recolheu as mãos para dentro do carro, e ainda com a cara do lado de fora, me olhando feito um palhaço no picadeiro, deu uma risada escandalosa, que ecoou na noite e foi sumindo a medida em que carro ganhava velocidade com o arranque e desparecia na escuridão da estrada. Agora com o coração aos pulos e quase sem ar, não sei quantos segundos levei para realmente entender o que havia acontecido. Quando confirmei que estava vivo, voltei a apressar o passo, pensando que aquele imbecil jamais irá supor que não havia pior hora e pessoa mais errada para ele fazer uma brincadeira tão estúpida.

    Olhei o relógio. Onze e dez. Faltava cerca de meio quilômetro para o arranjo de rodoviária. Apressei o passo; agora, praticamente correndo, estava chegando. Foi quando vi, ainda a certa distância, o letreiro luminoso: Macaé – Rio, 23h15. A porta aberta, dois ou três embarcavam. Juntei todas as forças que tinha numa corrida desabalada, mas a porta fechou e o motorista deu seta para a esquerda, anunciando que pegaria de volta a pista. Perder aquele ônibus poderia significar a diferença entre morrer e continuar vivo. Então, tirei ar de não sei onde e gritei que nem um desesperado, acenando que me esperasse. Quase me joguei na frente, como se achasse melhor morrer com a logomarca da Mercedez Benz na cara do que com possíveis requintes de crueldade de um marido traído.

    Para meu alívio, o maior que senti na vida até então, escutei o barulho de ar comprimido do freio do monstro de lata. Em seguida, a porta se abriu, subi e quase sem respirar, sem conseguir falar, tremendo, tirei o dinheiro da carteira e comprei a passagem direto com o motorista. Ele me vendeu uma poltrona da última fileira. Se fosse pendurado no teto, já estaria ótimo.

    Como não havia ninguém ao lado, abri a janela, para que o vento frio da noite, acelerado pela estrada, secasse o suor da minha cara e da minha camiseta. Quando secou, fechei a janela e deitei um pouco o encosto. Lá fora, mesmo fracas as luzes da saída da cidade clareavam a espuma das ondas e o deserto da praia. Repassei tudo o que acontecera naquela noite, lembrei-me dela, de pernas abertas em cima do freezer, no trailer, mas na memória do olfato não me veio seu cheiro, aquele que eu tive certeza de que lembraria para o resto da vida. Naquela lembrança tão recente, estava apenas e tão somente a mistura enjoativa de cerveja passada e fritura velha de peixe.

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