— Vai onde mesmo? Pensei que íamos conversar…
— Desculpe, mas hoje não estou disposta.
— Devia ter me dito, assim não teria descido.
— Não! Fiquei feliz em te ver, só não quero “trocar ideia”.
— Ok! Volto pro apartamento. Quando você melhorar, me chama. Tchauzinho!
Minha vizinha se foi. Tão bacana ela!
O fato de eu ser mais velha a faz ter cuidado comigo. Ora um pedaço de bolo, ora uma fofoca, ou apenas uma visita para jogar conversa fora.
Gosto dela.
Mas, por esses dias, estou cultivando o silêncio.
“Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.” Alguém falou isso.
Penso um pouco e logo refuto essa ideia. Não se trata de poder ou dever. Mas uma questão de coerência.
Não acabei de dispensar a Vera?
Se resolvi que não quero discutir, isso vale para todos, inclusive para um “monólogo silencioso” de minha mente.
Uma hora depois, minhas plantas regadas, minhas gatas alimentadas e acarinhadas, a bela manhã transcorrendo em calmaria, e lá estou eu, pensando no silêncio.
Nas tragédias que ele esconde, na serenidade que proporciona, nas palavras que dispensa e nas discussões que evita. Ou provoca.
Como?
Jogando “conversa fora”?
Não mesmo!
Coloco uma música suave, acomodo-me em minha poltrona e exerço o meu direito: joguinhos de passatempo.