Vida nova mas o mesmo eu ou não?

  • Vida nova mas o mesmo eu, ou não?

    Vida nova para mim mesmo teve início nesse mês de agosto. Do casulo do home office para o palco do magistério. Direto , sem escalas e muito desejado.

    O silêncio perdeu seu espaço privilegiado em minha rotina. Antes, era soberano, só cedia seu lugar sagrado para as eventuais intervenções de minhas filhas. Agora precisa se contentar com as horas que sobra, como as horas mortas de Garcia Marques.

    Ruim? Nem tanto. A tudo, ou quase, se acostuma. Em lugar do silêncio, meus ouvidos agora captam novas vozes, todas antes desconhecidas para mim e muito, mas muito mais jovens do que eu. É a vida.

    No palco do magistério não atuam mímicos. Gestos sem palavras nada significam. É preciso representar por inteiro, corpo e voz conectados para o desempenho cênico perfeito.

    É necessário criar uma imagem que atraia a atenção, modulando-a a cada apresentação, sem superar o seu discurso. Porque o roteiro do espetáculo muda e com ele a expectativa da audiência. Levo, dou, troco, misturo, gero. Malabarista sem rede de proteção ou cordas de segurança, voando no espaço aos olhos do público. Me reconhecerei após experiência tão intensa? Provavelmente, sim. Não sou mutante de hoje. Ninguém é.

    Durante a encenação, as palavras ganharão mais força à medida que escorrerem da língua formando ideias, propondo desafios, inserindo dúvidas, desatando nós, sugerindo caminhos. Porque não há quarta parede, ator e público se mesclam, trocando de papéis momentaneamente à conveniência do espetáculo.

    Ao final, as cortinas se fecharão e todos irão embora.

    Mas muito longe de continuarem sendo os mesmos. Serão todos outros. Seremos todos outros. Seres metamorfoseados, refletindo o embate entre as opiniões e argumentos proferidos ao longo do espetáculo.

    Híbridos, por fim. A cada subida ao palco, a cada cerrar de cortinas.

    Subo híbrido, desço híbrido. Por isso vivo.

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