Ye Olde Pub

  • Preservação da dignidade

    Em 20 de dezembro de 1943, o bombardeiro americano B-17 “Ye Olde Pub”, severamente danificado, pilotado por Charlie Brown, de apenas 21 anos, retornava de uma missão sobre a cidade de Bremen, na Alemanha. A aeronave tinha dois motores destruídos, sistemas avariados, vários tripulantes feridos e um artilheiro morto. Voando como um “straggler” (retardatário), isolado de sua formação, o bombardeiro era um alvo fácil. Em um determinado momento, o piloto alemão Franz Stigler, um veterano de 28 anos com 27 vitórias aéreas, decolou em seu Messerschmitt Bf 109 para o que seria mais um abate. Ao se aproximar do bombardeiro americano, Stigler viu através dos buracos na fuselagem, um tripulação ferida e indefesa, e ao invés de atirar, Stigler tomou uma decisão surpreendente. Ele emparelhou seu caça com o bombardeiro, gesticulou para que Brown pousasse e se rendesse e, diante da incompreensão dos americanos, assumiu um risco imenso: escoltou o inimigo para fora do território alemão, voando em formação cerrada para que a artilharia antiaérea não atacasse o B-17, confundindo como uma escolta alemã. Ao chegar ao mar do Norte, Stigler saudou Brown e retornou à base. Os dois pilotos só se reencontraram quase 50 anos depois, em 1990, quando Brown, após décadas de busca, publicou um anúncio em uma revista de aviadores. Tornaram-se grandes amigos e morreram com poucos meses de diferença, em 2008.

    Para Stiegler, a dignidade não é um dado, mas um processo de elevação através da sublimação das pulsões. Stigler não viu apenas um alvo, mas seres humanos feridos e agonizantes. Ele os equiparou a pilotos em paraquedas, indefesos, e merecedores de clemência sob o código de honra que escolheu seguir. Stiegler, ao invés de ser um mero instrumento da máquina de guerra nazista, afirmou sua autonomia ética. Transformou o encontro com o inimigo abatido em uma oportunidade para agir conforme seus próprios valores, mesmo correndo o risco de ser fuzilado por traição. O reencontro dos pilotos décadas depois e a amizade que formaram, simbolizam a recuperação da dignidade coletiva. A história de Stigler e Brown é a encarnação histórica do conflito entre a pulsão de rebaixamento e a capacidade de elevação do ser. É a prova de que, mesmo sob o jugo de uma máquina ideológica e militar, o ser humano pode resistir à racionalidade e preservar um núcleo de dignidade. Esse ato de misericórdia do piloto alemão, nos céus da Segunda Guerra Mundial, pode ser interpretado como uma manifestação prática da “elevação” ética humana. No próximo domingo, comemoramos a ressurreição de Cristo, após sua morte na cruz, simbolizando a vitória da vida sobre a morte. Nessa Páscoa, procure encontrar a quem voce possa salvar, como fez o sr Browm, mesmo que seja somente ouvir as lágrimas de sofrimento do outro.

    Feliz Páscoa

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