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Crônicas
Ultimo café
Contemplou em silêncio o burburinho alegre à sua frente. Da mesa de canto no terraço onde estava sentado espiava as demais espalhadas. A maioria com casais, fora uma grande com seis pessoas. Na sua, permanecia só. O sol da tarde era ameno e com luz leve. Escondido atrás do telhado da cafeteria, fazia sombra em sua mesa
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Crônicas
Ruptura
Toda vez que olhava pela janela era em busca de distração. A vista não era de frente para o mar mas também não era para alguma parede. Do alto de sua janela avistava a cidade com sua arquitetura confusa e mista. Prédios clássicos que evocavam o passado de glória do bairro resistiam em meio a edifícios decadentes e lanç
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Crônicas
Montanha
A inspiração é forte. A concentração, igual. Olha-se adiante, para cima, em busca de cada reentrância na pedra que permita firmar as mãos ou só os dedos. Meio pé em um calço é o suficiente para subir mais um pouco no paredão. Visto por baixo, a parede parece lisa e impossível de ser conquistada. De perto, a visão é out
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Crônicas
Conversas aos pedaços
Nada mais moderno e urbano do que escutar parte de uma conversa. Na rua, no elevador, em uma loja, no metrô, no cinema, enfim em qualquer lugar onde seres humanos circulem falando. Você passa e capta um pedaço da frase. Algo como “leva o cachorro para passear antes” e não conseguia escutar mais nada. Tinha que imaginar
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Crônicas
Cinco gravatas
Cinco gravatas estavam sobre a cama. Ele as escolhera para aquela semana de trabalho. Fazia muito tempo que não vestia nada tão formal e curiosamente sentia saudade. Escolhera aquele quinteto cada uma por uma razão. A primeira era justamente como sua re-estréia no mundo formal. De cor sóbria, lembrou os momentos em que
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Crônicas
Crepúsculo da bruxa
A chuva forte não convidava a sair. Em outros tempos era o momento de dar uma ajeitadinha no visual, montar na vassoura e voar pelo mundo. Agora não. A vassoura está ali mas a confiança em subir nela desapareceu. Ou melhor, está adormecida. Não é de hoje que ela duvida se ainda sabe mexer com os poderes que a tornaram
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Crônicas
Viver é melhor que sonhar
Viver é melhor que sonhar. É do Belchior e está na belíssima canção “Como nossos pais”. A letra é um primor e acredito que as leitoras e leitores – sei que são poucos rsrs – que eventualmente se aventuram em ler o que eu escrevo têm idade para conhecer a letra. Mas vale lembra-la. Está lá que “Eles venceram/E o sinal e
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Crônicas
Aos sonhos, afinal
Acordou mal. A noite foi ruim. Um sonho, o único que ele lembra, foi o responsável pelo seu estado atual. Um sonho ruim onde a dúvida se tornava certeza. Nada mais dela na sua vida, nada mais com ela ou sobre ela. Nada mais. Passou o dia angustiado com a mera lembrança do sonho. Piorou quando recordou que à luz da psic
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Crônicas
O beijo salvador
Vida de mãe de adolescente é dureza. Que foi, a namorada de algum deles tá tirando o seu sono ou o dele? Não, nada, nesse campo está tudo calmo. O que foi então? O meu mais velho fez 18 anos há três meses e rapidinho aprendeu a dirigir. Ai ai, agora começa a fase de fazer cara de cachorrinho e pedir “empresta um pouqui
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Crônicas
Cobra no ventilador
Juro, mas deu cobra no ventilador da minha avó. Mas esse negócio aconteceu lá em Minas, terra da sua avó? Que Minas que nada, isso foi com minha outra avó e aconteceu no Rio de Janeiro, lá no Recreio dos Bandeirantes. Ah, que é isso? No Recreio? Zona Oeste do Rio, selvagem desse jeito? Como é possível? Porque naquele t
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Crônicas
Retorno às névoas perfumadas
Chegou antes da hora marcada. Uns minutinhos somente mas tempo suficiente para se acomodar no café. Escolheu uma mesa na parte externa que dava para o jardim interno da ala elegante do shopping. E ficou ali. Marcou o encontro com uma amiga de anos e escolheu aquele lugar para agradar a ela e, sendo sincero, também a si
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Crônicas
Do anonimato e outras não-percepções modernas
Em meio a muitos, me diluo. Entre tantos, sou menos que um. Passo despercebido aos olhares. Percebo que alguns olhos passam por mim. Eu noto esses olhares discretos. Olhos que não me registram em sua retina. Não focam em mim porque não me percebem. Minha imagem sumirá da lembrança deles antes que percebam. Lembrança ef
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Crônicas
Maria Lattes
Eu tenho uma amiga que é Maria Lattes. Não, ela não é parente do Cesar Lattes, físico e prêmio Nobel ainda não reconhecido, e que dá nome ao serviço do CNPq que registra a vida acadêmica e profissional de pesquisadores e estudantes. Não sabe o que é CNPq? Pesquisa, vai, porque a estória que vou contar é outra. Como eu
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Crônicas
Considerações de véspera sobre a véspera
Véspera. Do latim vesperae. A tarde, ao cerrar da noite. Poeticamente, ao encerrar um ciclo solar. Dos pequenos, claro. Deriva também de Vésper, a estrela que não é estrela, visível a olho nu quando a tarde cai. Véspera é o território preferencial da ansiedade. Quando estamos a poucos passos ou horas daquilo que deseja
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Crônicas
Cry me a river
Se você de repente descobrir que se perdeu de mim, não sofra muito. Ou ao menos faça como eu e tente não sofrer muito. A falta da presença minimamente incomoda e honestamente se não conseguir tudo bem porque eu mesmo nem sei se isso é possível. Mas sei que se perder acontece. Lamentavelmente. Pode ter sido algum caminh
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Crônicas
Padre no avião
Tem mais de 20 anos eu estava em um vôo para os Estados Unidos. Ao meu lado estava um padre brasileiro que foi deslocado para a diocese de Chicago. Sujeito de conversa agradável e bom de copo. Cada vez que o carrinho de bebidas passava não menos que quatro pequenas garrafas ficavam ali com a gente, duas para cada um, é
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Crônicas
Jogo contra jogo
Era para ser xadrez. Um jogo elegante e íntimo. Como se as mentes por instantes se vaporizassem se entrelaçando no espaço entre os dois. Peças brancas e pretas, com dois reis impávidos e duas rainhas poderosas. Ao redor seus respectivos exércitos prontos para matar e morrer. Sem contudo faltar a admiração mútua, parte
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Crônicas
O CACHORRO ENCADERNADO
Tenho uma relação antiga com o livro. E feliz. Eu acredito que ninguém é obrigado a ler tudo. O básico de cada um é o resultado de suas predileções e inclinações. Momentâneas ou não, ditadas por tantas coisas que reúnem um pouco de tudo que se chama você. Mutante por natureza, esponja que absorve e que despeja os exces
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Crônicas
Notas para um jovem professor
Meu prezado aprendiz. Deixo esses apontamentos na esperança de tornar sua jornada pelo magistério mais suave. Você sabe e eu sei que isso é impossível. Mas enganar a si mesmo é um dos passatempos dos viventes e eu, eventualmente, o pratico sem pudor quando a causa me interessa. Portanto, preste atenção que seu sucesso
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Crônicas
Videomakers ou a arte de surpreender seu pai (mais uma vez)
Minha competente editora me manda um recado por escrito: tu precisas fazer um vídeo promocional do teu livro para jogarmos no Tik Tok. Ela é gaúcha, do Alegrete, e com gente da fronteira não se brinca. Se ela disse “tu precisas” é porque nem quero pensar o que pode me acontecer se não o fizer. Me aprumei decidido a cum
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Crônicas
Para sempre Urca
Naquela tarde quente de verão ele desceu do táxi na avenida Portugal, um pouco depois da igreja de Nossa Senhora do Brasil. Parou na mureta de pedra de frente para o mar apreciando a vista da enseada de Botafogo, do Iate Clube até a curva em direção ao Aterro. Suspirou sorrindo e disse para si com o peito estufado do m
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Crônicas
Minhas melhores companhias e eu
. Da minha varanda imaginária contemplo o novo tempo que chega. Por circunstâncias da vida, a convivência com minhas melhores companhias vai duplicar. O que antes era “semana sim, semana não” agora ser torna “semana sempre”. Será intenso e mais profundo. Seremos nós três. E isso conta a favor. Minhas melhores companhia
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Crônicas
Paraíso também fica nublado
Não foi difícil achar essa cadeira de frente para o mar. O sol, que estava poderoso desde as primeiras horas da manhã, cansou da função e foi se esconder atrás das nuvens. Os turistas, ou melhor, os outros turistas porque também não sou daqui, bateram em retirada e se espalharam pelos bares e lojinhas. De onde estou, n
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Crônicas
Moça de azul no metrô
A moça estava de azul na plataforma da estação do metrô. Um vestido leve e elegante. Os sapatos bem cuidados, brilhavam até. Uma bolsa completava com elegância o quadro que tinha diante de mim. Próximo a ela, lá estava eu. Não tão próximo a ponto de aspirar seu perfume mas o suficiente para ver seu rosto em detalhes. A
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Crônicas
Pede que Iemanjá atende
Ela saiu de São Paulo decidida a dar um rumo na própria vida. Não era definitivo, só viagem de fim de ano. Mas precisava arrumar a casa. Fazia tempo que sua vida estava uma bagunça. Nem tudo, para ser honesto. O trabalho até que estava ficando no jeito certo mas tinha o divórcio que estava um nó só. O ex não se posicio
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Antes que seja tarde
A chuva caí forte no solstício de verão. É de tarde. O barulho da água lá fora, junto com os trovões, atiça minha preguiça. Uma luz suave entra pela janela coada pelas gotas grossas do temporal, o primeiro do verão conforme indica o calendário. Em 10 dias mais um ano terminará. Penso em quantas pessoas eu não dirigi um
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Crônicas
Três passarinhos
Três passarinhos vieram me ver um dia desses. Se penduraram na rede de proteção da minha janela e me chamaram. Parei o que estava fazendo e fique a observa-los. Piavam muito. Em princípio achei que era só animação matinal mas depois reparei que eles giravam o corpo e ficavam pendurados na rede do lado de dentro do meu
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Crônicas
Nova 99, a estrada perfeita
Toda vez que eu me vejo diante de uma situação de entrave burocrático causado pela tecnologia eu me lembro da Nova 99. Era uma autoestrada controlada por computador, considerada perfeita, e era personagem de uma estória em quadrinhos publicada na saudosa revista Kripta, lá dos loucos anos 70, que misturava ficção e ter
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Crônicas
Livro, o cachorro encadernado
Tenho uma relação antiga com o livro. E feliz. Acredito que ninguém é obrigado a ler tudo. O básico de cada um é o resultado de suas predileções e inclinações, momentâneas ou não, ditadas por tantas coisas que reúnem um pouco de tudo que se chama você. Mutante por natureza, esponja que absorve e que despeja os excessos
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Crônicas
K-Pop apresenta Tom Jobim
Respeito muito a ideia de que cada geração tem sua música. Nem sempre concordo com o que é tocado, já vou avisando. Mas respeito. Em outro momento, volto a falar sobre música geracional, mas confesso que meu respeito é movido menos por qualquer elevação espiritual e mais pelo medo de ser apedrejado em praça pública. A
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