“Ainda existe a Lobrás?”
“O que é Lobrás?”. O outro, mais novo, não sabia do que se tratava.
“Lojas Brasileiras”
“Existem as Americanas, ainda, apesar dos balanços Mandrake”.
“Eram concorrentes”.
Aí o mais novo se ligou no que se tratava.
“Ah, agora eu meu lembro. Eu era bem pequeno, passava de ônibus aqui com a minha mãe e via o letreiro da janela”.
E foi exatamente por causa disso que a memória do mais velho foi buscar lá no fundo a lembrança de uma marca há anos falida.
“Ficava exatamente aqui nessa galeria, eu também passava de ônibus por aqui”, e apontou, braço estendido, para a entrada do centro comercial. Estavam na Conde de Bomfim, quase na esquina com a Rua Uruguai. “Eu gostava de vir aqui com a minha mãe. Enquanto ela fazia compras, eu subia até o Maeda para ficar vendo as corridas de autorama”.
O outro sorriu. Apesar dos anos que os separavam, chegou a pegar a pista, também ficava olhando os pequenos carrinhos correndo, com inveja dos donos, moleques iguais a ele.
“Você teve autorama?”
“Nunca”
“Nem eu, nem aquele vagabundo com a cara do Emerson”.
Sorrindo, o mais velho contemplava o lugar em que ficava a Lobrás, e era como se estivesse contemplando a própria lembrança, porque na verdade olhava sem ver. Suas vistas se desocupavam do presente e se enchiam da infância e da adolescência.
“Aqui era legal por causa da pista de autorama, mas eu gostava também de ir nas Lojas Americanas, minha mãe me dava um pedaço de pizza com laranjada. Não era suco; era suco misturado na água. Era muito bom”, e pode sentir, revisitando o paladar, o sabor do molho de tomate e o da muçarela e o gosto do refresco.
“Quando eu era menor, ela comprava também aqueles carrinhos de plástico, bem vagabundos. Eram tão vagabundos, que na outra semana já não prestavam para brincar”.
“Eu tive um que o plástico era tão fino que uma dia esqueci no quintal, debaixo do sol, e o carrinho ficou todo molenga, quase derreteu todo”.
Sorriram juntos da graça que alguns acontecimentos não perderam e jamais perderiam.
“Lá em Brasília agora tem uma tal de Casas Brasileiras. Acho que abriu não tem tanto tempo, não tinha quando eu fui morar lá. Tem aqui no Rio?”
“Não sei, se tem, eu nunca vi”, parado, o outro voltou o rosto para o chão, como se assim pudesse responder se havia ou não na cidade a tal loja.
“São as mesmas cores que eram da Lobrás, as cores da bandeira, óbvio. Acho que vende o mesmo tipo de coisa. Não sei”.
Mas ele sabia que vendia papel celofane, o que a loja da infância também vendia. E foi nesse momento, que um filete de reminiscência trouxe à tona um ar saudoso que ainda não se declarara em seu rosto. Seu sorriso, que era céu claro, nublou-se em décimos de instante, e em um estalar de dedos, seus olhos deixaram ir embora a vivacidade. Sabia que a tal Casas Brasileiras, de Brasília, vendia papel celofane porque em uma tarde de sábado, seis anos antes, Sabrina desceu apressada do bloco em que morava, com os cabelos ondulados sacudindo ao ritmar de seus passos inquietos e um vestido verde de flores alaranjadas escondendo pouco abaixo dos joelhos. Sabrina tinha um ar retrô de moça que viveu a juventude na virada dos anos setenta para os oitenta, e sempre que aparecia nos pilotis do prédio, era como se os maquinistas do passado puxassem uma antiga alavanca e o comboio desviasse para trilhos antigos.
Tomando-o pelo pulso, correu com ele à loja da comercial da 708 norte. Eram quase quatro da tarde e os funcionários já encaixavam as estruturas verticais de metal para cerrar as portas. Ela entrou e saiu feito um relâmpago da loja, carregando dois rolos de papel celofane. “É para embrulhar o bolo”, explicou, o bolo da festa surpresa da Luciana, que fazia geografia com Sabrina na UNB.
Ela o chamou para a festa, os dois torcendo para que acontecesse o que cada um queria, mas que não tinham certeza ainda se o outro queria realmente o mesmo. Quando viram e sentiram, os quereres eram siameses. Ficaram juntos, começaram a namorar e um amor imenso inundou suas vidas durante dois anos.
Até que Sabrina se formou.
E ganhou uma bolsa de pesquisa na França.
E viajou para ficar três anos.
E já se passaram seis, que pelo jeito chegarão a nove e logo serão doze, até que tudo se transforme em nunca mais.
Nunca mais Brasil, nunca mais Brasília, nunca mais ele.
Fica parado em frente à loja de sua meninice. Sem esforço, enxerga a mãe e suas sacolas, com o braço estendido segurando sua mão. Compondo a periferia da visão, estão o autorama, o carrinho de plástico vagabundo, a pizza e a laranjada. E sem que espere, surge Sabrina, com seus cabelos, vestido colorido e adereços que se coadunam com a imagem da mãe saindo com ele da loja que não existe mais. O imenso amor que resiste à distância e à falta de expectativa de que ela volte desenha em seus olhos abertos o movimento contente de Sabrina trazendo dois rolos de papel laminado e um sorriso apressado de que a vida é linda e pede a urgência da juventude.
Ele dá dois passos à frente e gira o pescoço na direção contrária, de modo que o outro não o veja chorar.