A tirania da coerência por Guilherme Backes

  • A tirania da coerência

    Desde cedo, acostumamo-nos a avaliar a coerência como uma elogiável característica a ser vista nas atitudes de algumas pessoas. Em sua ausência, as divergências entre o que se diz e o que se faz costumam ser apontadas com a virulência de que apenas os mais empedernidos moralistas dispõem. Mas uma vivência menos tirânica e intransigente pode sugerir que todos nós, sem exceção, refletimos em nossos atos as próprias contradições internas. Diferentemente de máquinas cuidadosamente planejadas, somos seres incompletos e em permanente mutação.

    Evidentemente, nem sempre essas transformações levam-nos às nossas melhores versões. Por mais que tentemos acreditar numa história linear de superação e de evolução, somos apresentados a desafios que nos fazem, volta e meia, sucumbir moral e animicamente. No entanto, as histórias de sucesso tendem a alcançar mais espectadores que os relatos de fracasso. Poucos parecem ser aqueles que nutrem uma honesta simpatia pelos derrotados e marginalizados. Em vista disso, creio ser suficiente contar o caso não de um errante qualquer, mas o de uma respeitada pessoa que viu na própria incoerência sua tábua de salvação. Conhecer um pouco de Rodolfo Pacheco ajudar-nos-á, pois, a rever alguns de nossos dogmas existenciais – essas supostas verdades absolutas que nos fazem ser tão casmurros e cabeças-duras.

    Dedicado pai de família, honesto e trabalhador, seu Pacheco era um típico pequeno-burguês a habitar uma de nossas efervescentes cidades. Proprietário de uma loja de materiais de construção, seu trabalho não lhe conferiu grande riqueza. Mas, apesar dos sacrifícios e da austeridade, ascendeu socialmente, chegando a ter uma vida razoavelmente confortável. Teimoso por natureza e sovina por convicção, não admitia que seus funcionários fizessem corpo mole durante o expediente. Se o trabalho era coisa a ser levada a sério, a disciplina acompanhava-o também em casa, onde sua esposa conseguia, muito raramente, amansá-lo. À relativa harmonia familiar sobrepunha-se, entretanto, a rigidez na criação de seu único filho. Seu Pacheco projetava em Diego nada menos do que a excelência, tanto em seus estudos como em seus afazeres fora da escola.

    — Ai de você, se um dia souber que anda fazendo coisa errada por aí! Não criei filho pra ser vagabundo! — prevenia um pai excessivamente preocupado com as armadilhas que rodeiam a juventude.

    Para satisfazer seu ego, seu Pacheco costumava comparar-se com os outros. Visava, especialmente, a família de seu antigo vizinho Antônio Ramires, pai de dois filhos adolescentes e servidor público. Se o trabalho do pobre vizinho gerava um certo desprezo, muito pior era o tipo de criação que a família Ramires dispensava para seus rebentos. Excessivamente permissivo e liberal, Antônio

    deveria, segundo o antiquado seu Pacheco, ser visto como um espantalho moral para todo e qualquer cidadão de bem, devidamente cioso dos perigos que ideias muito modernas representariam às famílias e à juventude.

    Essa discreta antipatia por Antônio foi, ao longo de muitos anos, alimentada por futricos e fofocas até que Diego revelou ter transcendido os limites de uma criação tão rígida. Tomado pela mais lancinante angústia, mas também pela mais resoluta coragem, Diego revelou a seus pais ser homossexual. Tamanho desplante não poderia, obviamente, passar sem maiores consequências! Onde já se viu?! O descaramento custou a antiga e superficial harmonia da casa. Não era mais possível dirigir a palavra tampouco o olhar àquele indecente jovem que vivia sob o mesmo teto do impoluto Rodolfo Pacheco! Se o amor não era costumeiramente expressado, nunca havia faltado conforto material àquele que outrora era chamado de filho.

    Por muitos anos, o suporte materno foi o único esteio que amparou o pobre rapaz. Sem perspectiva de mudança na relação com seu pai, Diego formou-se na faculdade e foi trabalhar no estrangeiro. Não sei dizer em qual país, mas atravessou o Atlântico – distante o suficiente para tentar esquecer o sofrimento que um pai pode causar a seu filho. Mas, com o tempo, até mesmo as pessoas mais inflexíveis e intransigentes são capazes de surpreender. De vez em quando, o grande espetáculo da vida demanda improvisos e correções, haja vista a limitada serventia de seus roteiros. Assim, foi por meio de um telefonema que Diego soube que seu pai, angustiado por uma doença terminal, desejava corrigir o maior de todos os seus erros.

    Que bom que você veio, meu filho! Eu não poderia descansar em paz, se não pudesse te pedir perdão por ter sido tão injusto com você.

    Entre lágrimas e beijos, abraçaram-se pai e filho. Talvez pela primeira vez, Diego sentia como era ser amado por seu pai. Seu nervosismo e sua apreensão foram abafados pelo calor que emanava do peito daquele homem tão claramente debilitado, mas tão forte e impávido em outros tempos. Todo o sofrimento causado por anos de desprezo esmaecia diante do reconhecimento paterno de que estava errado. Não obstante o pedido de perdão ter chegado somente na véspera de seus derradeiros estertores, a sinceridade de tal ato transbordava dos olhos do enfermo pai. Diego sabia o quão difícil seria para um sujeito tão caturra e grosseirão como o pai reconhecer um erro e expressar seu amor. Nem mesmo a deprimente situação em que se encontrava reduziria a importância do último capítulo da história de Rodolfo Pacheco.

    Seu Pacheco foi, ao longo de praticamente toda sua vida, escravo de uma determinada visão de mundo. Suas ideias não admitiam o diferente, o heterogêneo, o sincrético. Não estava autorizado sequer a colocar em dúvida a valência moral de tal código de conduta. Mas seu último ato gravou na memória e no coração de seu filho que algumas de nossas incoerências podem ser salutares.

    Mais do que romper os grilhões de seus preconceitos, seu Pacheco conseguiu libertar-se, enfim, da tirania de uma inútil e nefasta coerência.

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