Desde cedo, acostumamo-nos a avaliar a coerência como uma elogiável característica a ser vista nas atitudes de algumas pessoas. Em sua ausência, as divergências entre o que se diz e o que se faz costumam ser apontadas com a virulência de que apenas os mais empedernidos moralistas dispõem. Mas uma vivência menos tirânica e intransigente pode sugerir que todos nós, sem exceção, refletimos em nossos atos as próprias contradições internas. Diferentemente de máquinas cuidadosamente planejadas, somos seres incompletos e em permanente mutação.
Evidentemente, nem sempre essas transformações levam-nos às nossas melhores versões. Por mais que tentemos acreditar numa história linear de superação e de evolução, somos apresentados a desafios que nos fazem, volta e meia, sucumbir moral e animicamente. No entanto, as histórias de sucesso tendem a alcançar mais espectadores que os relatos de fracasso. Poucos parecem ser aqueles que nutrem uma honesta simpatia pelos derrotados e marginalizados. Em vista disso, creio ser suficiente contar o caso não de um errante qualquer, mas o de uma respeitada pessoa que viu na própria incoerência sua tábua de salvação. Conhecer um pouco de Rodolfo Pacheco ajudar-nos-á, pois, a rever alguns de nossos dogmas existenciais – essas supostas verdades absolutas que nos fazem ser tão casmurros e cabeças-duras.
Dedicado pai de família, honesto e trabalhador, seu Pacheco era um típico pequeno-burguês a habitar uma de nossas efervescentes cidades. Proprietário de uma loja de materiais de construção, seu trabalho não lhe conferiu grande riqueza. Mas, apesar dos sacrifícios e da austeridade, ascendeu socialmente, chegando a ter uma vida razoavelmente confortável. Teimoso por natureza e sovina por convicção, não admitia que seus funcionários fizessem corpo mole durante o expediente. Se o trabalho era coisa a ser levada a sério, a disciplina acompanhava-o também em casa, onde sua esposa conseguia, muito raramente, amansá-lo. À relativa harmonia familiar sobrepunha-se, entretanto, a rigidez na criação de seu único filho. Seu Pacheco projetava em Diego nada menos do que a excelência, tanto em seus estudos como em seus afazeres fora da escola.
— Ai de você, se um dia souber que anda fazendo coisa errada por aí! Não criei filho pra ser vagabundo! — prevenia um pai excessivamente preocupado com as armadilhas que rodeiam a juventude.
Para satisfazer seu ego, seu Pacheco costumava comparar-se com os outros. Visava, especialmente, a família de seu antigo vizinho Antônio Ramires, pai de dois filhos adolescentes e servidor público. Se o trabalho do pobre vizinho gerava um certo desprezo, muito pior era o tipo de criação que a família Ramires dispensava para seus rebentos. Excessivamente permissivo e liberal, Antônio
deveria, segundo o antiquado seu Pacheco, ser visto como um espantalho moral para todo e qualquer cidadão de bem, devidamente cioso dos perigos que ideias muito modernas representariam às famílias e à juventude.
Essa discreta antipatia por Antônio foi, ao longo de muitos anos, alimentada por futricos e fofocas até que Diego revelou ter transcendido os limites de uma criação tão rígida. Tomado pela mais lancinante angústia, mas também pela mais resoluta coragem, Diego revelou a seus pais ser homossexual. Tamanho desplante não poderia, obviamente, passar sem maiores consequências! Onde já se viu?! O descaramento custou a antiga e superficial harmonia da casa. Não era mais possível dirigir a palavra tampouco o olhar àquele indecente jovem que vivia sob o mesmo teto do impoluto Rodolfo Pacheco! Se o amor não era costumeiramente expressado, nunca havia faltado conforto material àquele que outrora era chamado de filho.
Por muitos anos, o suporte materno foi o único esteio que amparou o pobre rapaz. Sem perspectiva de mudança na relação com seu pai, Diego formou-se na faculdade e foi trabalhar no estrangeiro. Não sei dizer em qual país, mas atravessou o Atlântico – distante o suficiente para tentar esquecer o sofrimento que um pai pode causar a seu filho. Mas, com o tempo, até mesmo as pessoas mais inflexíveis e intransigentes são capazes de surpreender. De vez em quando, o grande espetáculo da vida demanda improvisos e correções, haja vista a limitada serventia de seus roteiros. Assim, foi por meio de um telefonema que Diego soube que seu pai, angustiado por uma doença terminal, desejava corrigir o maior de todos os seus erros.
— Que bom que você veio, meu filho! Eu não poderia descansar em paz, se não pudesse te pedir perdão por ter sido tão injusto com você.
Entre lágrimas e beijos, abraçaram-se pai e filho. Talvez pela primeira vez, Diego sentia como era ser amado por seu pai. Seu nervosismo e sua apreensão foram abafados pelo calor que emanava do peito daquele homem tão claramente debilitado, mas tão forte e impávido em outros tempos. Todo o sofrimento causado por anos de desprezo esmaecia diante do reconhecimento paterno de que estava errado. Não obstante o pedido de perdão ter chegado somente na véspera de seus derradeiros estertores, a sinceridade de tal ato transbordava dos olhos do enfermo pai. Diego sabia o quão difícil seria para um sujeito tão caturra e grosseirão como o pai reconhecer um erro e expressar seu amor. Nem mesmo a deprimente situação em que se encontrava reduziria a importância do último capítulo da história de Rodolfo Pacheco.
Seu Pacheco foi, ao longo de praticamente toda sua vida, escravo de uma determinada visão de mundo. Suas ideias não admitiam o diferente, o heterogêneo, o sincrético. Não estava autorizado sequer a colocar em dúvida a valência moral de tal código de conduta. Mas seu último ato gravou na memória e no coração de seu filho que algumas de nossas incoerências podem ser salutares.
Mais do que romper os grilhões de seus preconceitos, seu Pacheco conseguiu libertar-se, enfim, da tirania de uma inútil e nefasta coerência.