A Vida Privada e o Transporte Público

  • A Vida Privada e o Transporte Público

    Há bastante tempo, penso em falar sobre um hábito que se tem mostrado cada vez mais comum entre nós, brasileiros. Minhas numerosas procrastinações e desistências ocorreram menos por causa da complexidade do costume do que pela virtual controvérsia que ele carrega em si. Haja vista o uso generalizado de tal prática, suponho que poderei ferir certos egos e criar algumas animosidades. Mas assumo que quem vive de dar pitacos pretensamente sociológicos deve encarar os riscos e as consequências de ter uma bocarra descomedida.

    Como eventual usuário do transporte público de nossa cidade, tenho notado em mim uma crescente curiosidade pela vida alheia. Não creio que isso seja efeito da velhice ou do ócio. Por razões pouco pertinentes a este desabafo, assumo que minha idade não seja tão avantajada e que minha rotina não seja tão monótona. Mas o certo é que esse interesse surge, repentina e incontrolavelmente, quando estou dentro de um ônibus urbano. Você já deve ter passado por alguma situação parecida, e, por isso, saberá do que estou falando. Os diálogos que os usuários do transporte coletivo estabelecem aos seus celulares parecem cada vez mais frequentes e instigantes. Na maioria das vezes, o que antigamente costumava ser dito em ligações telefônicas é retratado, hoje em dia, por meio do envio de sucessivos e frenéticos áudios. Minha experiência permite afirmar que, quanto mais cheio estiver o ônibus, mais altas e indiscretas soarão essas conversas!

    Carolina, não adianta insistir! Já saí do trabalho, e não tenho dinheiro!

    Confesso que tive vontade de perguntar o motivo do aborrecimento. Mas, aparentemente, minha cara de pau estava de recesso. O calor extenuante do começo de verão e a superlotação do ônibus impediram-me de satisfazer minha curiosidade. A bem da verdade, acho que a fadiga foi amiga do bom-senso. Geralmente, as pessoas não gostam de bisbilhoteiros. “A curiosidade matou o gato!”, diria meu finado avô. Mas o volume daquela conversa era bastante elevado para alguém preocupado com sua privacidade. Suponho eu que uma filha adolescente exigia daquela mulher que ela passasse no mercado para comprar alguma guloseima. O mercadinho ficava logo ali, entre o trabalho e o ponto de ônibus. Pobre mulher! Após um dia inteiro de trabalho, não via a hora de chegar a sua casa. Já estava no ônibus, ora! Por que não pediu antes?! E dizer que também já fomos adolescentes intransigentes…

    Estou sem internet há quase dois dias! E vocês continuam só enrolando!

    Convenhamos! Ninguém merece ficar sem internet por tanto tempo! Atualmente, tal infortúnio equivale a condenar o desaventurado sujeito a uma espécie de solitária, sem contato com o mundo exterior. O caso daquele rapaz parecia distante de uma resolução satisfatória. A julgar por sua indignação, nem mesmo um atendimento feito por uma pessoa de carne e osso seus protestos mereceram receber. A tranquilidade com que o atendente virtual fazia-lhe perguntas já respondidas em ligação precedente aumentava a sua impaciência e, por consequência, a irritação de meus ouvidos. Apesar de toda aquela ruidosa reclamação, consegui sustentar minha mais íntima solidariedade a ele. Torci por aquele infeliz, mas suspeito que minha honesta simpatia não foi suficiente para acabar com seu calvário.

    — Amiga! Eu tenho que te contar! A Mari terminou o namoro!

    Isso foi demais! Como se não bastassem uma mãe sendo importunada pela filha adolescente e um cidadão enclausurado digitalmente por seu provedor de internet, agora eu acompanhava o triste fim de um romance. Não pude evitar que lembranças tão longínquas e supostamente superadas voltassem à tona. Mas o que dizer à minha psicóloga?! Tive uma recaída por causa de uma conversa que escutei no ônibus. Enxerido! Cuide de sua vida! Mas a pobre menina está sofrendo! Isso não é de sua conta! Felizmente, a notícia completa foi guardada para um posterior encontro entre as duas amigas. Os áudios enviados foram apenas o famoso lide, aquela síntese feita para capturar a nossa atenção. Por pouco não cometi a indiscrição de perguntar como estava o antigo casal. Afinal, um término tão inesperado como esse é capaz de abalar ambas as partes. Minha sorte foi que a jornalista de plantão chegou ao seu destino antes de mim.

    Entre dívidas cobradas, fofocas contadas e términos relatados, noto que meus deslocamentos pela cidade tornaram-se, aparentemente, mais rápidos. O problema é que, como tenho prestado atenção a vidas alheias em demasia, sinto-me sobrecarregado com tantos assuntos curiosos e pertinentes. Obviamente, não seria de bom tom pedir a tanta gente que falasse mais baixo. Sem poder me retirar do agradável convívio social que somente um coletivo é capaz de proporcionar, restam-me desabafar com você e dar o troco na mesma moeda a tantos falantes anônimos. Aguarde, pois, minha próxima ligação!

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