Albert Camus

  • Sem caminho

    Num dos seus poemas, Manuel Bandeira fala dos suicidas que se matam sem explicação. Esses são os que mais impressionam. Esconder o motivo pelo qual se chega ao “gesto extremo” aumenta-lhe o enigma e a dramaticidade. Talvez seja a atitude mais coerente, pois não há por que justificar um ato que se explica por si mesmo. Além disso, como acreditar nas razões dos suicidas? Até que ponto eles são capazes de avaliar com lucidez o seu ato? 

    Alguns deixam bilhetes ou cartas se desculpando (o que é curioso, pois se o suicida deve pedir desculpas a alguém é a ele próprio). Esses textos são no fundo um tardio pedido de ajuda ou uma forma de incriminação.

    Há os que se matam para ficar “mais vivos”. Foi o caso de Getúlio Vargas, que antes de atirar no coração deixou uma carta com a frase célebre: “Saio da vida para entrar na História”. Ele tinha consciência de como o seu papel na vida pública foi aos poucos se denegrindo. O único jeito de restabelecer a imagem era com um gesto que representasse um sacrifício extremo. E qual soaria melhor do que tirar a própria vida?

    O bilhete deixado por Flávio Migliaccio, que há alguns anos tirou a própria vida, não continha um pedido de desculpas. Tampouco valia como uma incriminação, pois ele se referia ao caos político do País e não acusava especificamente ninguém. Sua acusação se direcionava à humanidade, que “não tinha dado certo”.

    O curioso é que, quando alguém diz que não aguenta mais a humanidade, raramente está disposto a se subtrair ao convívio com os outros (o que seria a consequência lógica). Está na verdade clamando, ainda que inconscientemente, para ser resgatado pela humanidade que diz desprezar. Muitas vezes se usa o “desencanto com a humanidade” como um escudo, uma camada intelectual ou cínica que protege o sujeito da angústia mais crua e intransferível, que é o confronto com o próprio vazio. É muito mais fácil alguém dizer “o mundo é um lugar terrível” do que admitir que não encontra um sentido em si mesmo. Criticar a sociedade, a política ou a moralidade alheia é, muitas vezes, uma forma de evitar olhar para dentro de si.

    Albert Camus, em O Mito de Sísifo, coloca o suicídio como a única questão filosófica verdadeiramente séria. Para ele, o absurdo nasce do confronto entre o desejo humano de sentido e o silêncio irracional do mundo. A superação, segundo Camus, estaria não em fugir, mas em aceitar o absurdo e continuar “empurrando a pedra”.

    Concordo com que a humanidade “não vem se acertando” (e nada garante que ela um dia se acerte), mas não sei se há quem se mate por estar desencantado com ela. O desencanto – por decepção, dor ou cansaço – é sobretudo consigo mesmo. Dostoiévski, em “Crime e castigo”, escreve que para viver o homem precisa sentir que vai a algum lugar. O suicida é alguém que chega à dolorosa constatação de que não tem mais para onde ir. Ou porque não há mais caminho, ou porque, havendo, ele já não tem saúde ou disposição para percorrê-lo.

  • Pérolas Clássicas!

    Mantenho minhas armas em punho durante o dia que corre mais que o vento, não desmanchei minhas trincheiras expostas na sala de estar e no quarto. 

    Bem verdade há muitos anos me preparo para atacar quando necessário, e me defender, quando balas de mau-humor e desinformação cruzam meus ouvidos atentos. 

    Vez por outra meus olhos enxergam o mau se apoderando de um local público, ou testemunho um evento radical voltado ao populismo desmedido.

    Porém, o que mais me importa são as balas e armas que mantenho estocadas agora com mais espaço e segurança.

    São meus livros. 

    Eles me embriagam de conhecimento e tonteiam meus rumos, devido à quantidade de possibilidades em suas páginas. 

    Essas verdadeiras armas contra todos os males, tornam o papel um farol noturno aos olhos cegos e inexatos, que por vezes teimam na busca de ideias fascistas ou sectaristas ao extremo. 

    Em minha cabeceira está o livro “Como a Loucura Mudou o mundo”, escrito pelo professor de psicologia Christopher J. Ferguson, que analisou o comportamento de líderes que já se foram para uma pior, já que por aqui deixaram dor e sofrimento.

    O personagem do capítulo da vez é Calígula, que manteve relações sexuais com as irmãs, e forçou alguns desafetos ao suicídio. Aquela mente perturbada governou Roma e promoveu o medo e a morte como uma das propostas de gestão. Impressionantes heranças consanguíneas mantiveram indivíduos desse calibre no poder. E a Loucura se mantém exposta aos desatentos e desafetos as soluções propostas. 

    Outro livro que me ronda é “Parque Industrial”, um romance proletário de Patrícia Galvão, a Pagu. Um importante documento social e literário, com uma perspectiva feminina e única do mundo modernista de São Paulo. Ele trata da vida dos operários no bairro paulistano do Brás, e relata a hipocrisia que se vale da desigualdade social para subjugar a mulher proletária. Um panorama dolorido e presente nos nossos dias, que ainda insistem ser ensolarados.

     Outro livro muito curioso que me surgiu presenteado é o “Guia de Leitura, 100 autores que você precisa Ler”, de Léa Masina, uma enciclopédia de escritores. Com minibiografias de 3 a 4 páginas dos escritores em destaque, com suas histórias, estilos, melhores livros, elaborado em companhia de críticos, jornalistas, professores e intelectuais da literatura, que contribuíram com seus conhecimentos para dar vida a um aperitivo sobre autores como Albert Camus, Umberto Eco, Thomas Mann, e um de meus preferidos Fiodor Dostoiévski que de Engenheiro a Militar, repousou na literatura, pérolas clássicas que cruzam os tempos.

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