Alimentar o silêncio

  • Alimentar o silêncio

    Ele sabe e por isso se cala. Ela sabe e por isso fala. Ele bebe o seu café com creme. Fica com um pouco de espuma no lábio superior. Ela se incomoda com isso, mas não diz nada. Não vai pronunciar a palavra lábio, porque é uma palavra perigosa. Suscita ideias, desejos, vontades. O silêncio a protege, ela imagina, assim como o ruído ao redor: naquele momento, o burburinho do entorno é seu melhor aliado porque preenche o vazio entre os dois. Muito ruído é bom, como o da colherzinha contra a louça da xícara, o som ambiente da cafeteria ou a risada dos casais nas outras mesas. Ela ensaia um diálogo mesmo assim, com timidez. Ele se aborrece, boceja. Que interesse pode ter uma conversa — cuja conclusão ele já intuiu — diante de uma xícara de café quase vazia, faltando apenas um gole, um só golinho? Ele bebe esse gole, o último, e deposita a xícara sobre o pires com um barulho maior do que o necessário. De alguma maneira ele tem de mostrar que está ali, ouvindo, embora não quisesse ouvir nada. Ela age de outra forma: resiste, e bebe seu café devagar, mesmo sabendo que, dali a instantes, sua xícara ficará vazia e aí serão só os dois, sem café, com as xícaras imóveis cada qual em seu pires como boquinhas implorando por algum conteúdo para preencher o impreenchível.

    Outro café?, pergunta o garçom, e os dois dizem não quase ao mesmo tempo. Muito café provoca azia e insônia. Ambos estão com creme nos lábios e nem um nem outro dá qualquer aviso sobre isso. A mancha não é pigmento, sairá com uma passada de mão ou de guardanapo ou de língua — língua, outra palavra perigosa, que não deve ser pronunciada naquela mesa. Vista de perto, a mancha de creme é oca por dentro, é só espuma, e isso não deveria incomodar, mas não é o que acontece. Os olhos de um e de outro não desgrudam dos lábios de um e de outro.

    Num ato de legítima defesa, ela junta em sua boca todas as palavras necessárias para aquele momento e as espalha na mesa como se fossem cartas de tarô, uma ao lado da outra. Palavras sólidas feito pedras: trabalho, marido, pecado, tempo, filhos, religião. E arremata: Não posso mais.

    O beijo que não será dado alimenta o silêncio entre eles, e o barulho do ambiente ou a risada dos casais nas outras mesas passam a incomodar. São só os dois agora, sem palavras, sem café, com creme esquecido nos lábios. Dois pares de olhos estão fixos nas xícaras vazias. Dois fantasmas chamam o garçom e pedem a conta.

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