As Meias Rotas do Presidente

  • As meias rotas do Presidente

    Não raramente, atribuímos a personagens importantes da história oficial qualidades inigualáveis e sobre-humanas. Altas autoridades, políticos de grande projeção, empresários bem-sucedidos, artistas de renome, todos eles adquirem um status que os coloca vários degraus acima da grande massa dos mais vis mortais. A fama, a riqueza e/ou o poder de que desfrutam obrigam-nos a projetar em suas figuras as características necessárias para que a atração e o frenesi que costumam provocar sejam, devidamente, justificados e legitimados.

    Ainda no começo de minha carreira profissional quando já não estava mais tão deslumbrado com o jornalismo, mas também não me indispunha com facilidade para aventuras investigativas -, fui designado por minha chefa para cobrir a visita de nosso então Presidente da República a um país árabe. Quando fui comunicado de tal missão, devo admitir que um misto de receio com satisfação tomou conta de mim. Afinal, para alguém acostumado a trabalhar como setorista em Brasília, mais afeito a questões de política doméstica do que de política exterior, o desafio da empreitada não poderia passar despercebido. A viagem do Presidente poderia, todavia, significar meu primeiro passo numa tão sonhada carreira como correspondente internacional.

    Como nunca fui uma exceção às regras que melhor caracterizam nossa sociedade, em geral, e nossa psique, em particular, posso dizer que eu também sofria daquela idealização pueril e ingênua que nos acomete com certa frequência. Aquele personagem, em especial, por ocupar o mais alto cargo representativo de nossa República, não poderia incitar no ainda inexperiente profissional nada menos do que temor e deferência. O problema é que, enquanto o respeito abria portas, o receio criava uma barreira instransponível entre nós dois. Não ousava fazer a ele perguntas um pouco mais incômodas não por falta de oportunidade ou por parca relevância. Estou certo de que as questões que me vinham à mente eram pertinentes e condiziam com o que meu público buscava saber. O que me imobilizava, porém, era imaginar aquele ser humano sobre um pedestal supremo e inatingível.

    Aos trancos e barrancos, tentei lidar com essas limitações da melhor forma possível. No fundo, estava ciente de que as perspectivas de curto prazo não eram nada animadoras. Até que, durante nossa estadia no exterior, o Presidente foi convidado a visitar uma mesquita na capital daquele belíssimo país. A princípio, apenas mais um compromisso protocolar na atribulada agenda de um chefe de Estado. Apesar do laicismo do país visitado, tal gesto poderia, de alguma forma, consolidar a almejada aproximação dos nossos potenciais clientes árabes. No entanto, o detalhe que nosso governante desconhecia é que, ao entrar na mesquita, pediriam a ele que retirasse seus sapatos. Assim, o que seria um pormenor transformou-se, rapidamente, numa fonte de embaraço e de comicidade.

    Talvez por desmazelo, talvez por descuido… Não importa! As meias do Senhor Presidente da República estavam rasgadas! Não posso cometer a difamação de dizer que estavam sujas! Isso, não! Por uma questão de ética, não costumo aumentar o teor das fofocas. Digo, das notícias! A cena foi, levemente, constrangedora, mas não chegou a gerar um incidente diplomático. A verdade é que aquelas meias estavam muito esburacadas, especialmente a que tentava, em vão, cobrir o pé direito! E para deleite de todos os fotógrafos presentes, os dedos daqueles pés quase desnudos pareciam encolher-se de vergonha, como se aquela mínima contração pudesse mitigar o efeito visual da insólita cena.

    — Por que não me avisaram que eu teria de ficar descalço?! perguntou a seus assessores um furibundo e envergonhado, mas ainda educado, chefe de Estado.

    Após o primeiro impacto, o experiente e matreiro político teve a habilidade suficiente para fazer daquele imprevisto mais uma oportunidade de aproximação de seus interlocutores árabes. Como um verdadeiro sem-vergonha, quebrou o protocolo com risadas e piadas, dando àquela situação um elevado grau de informalidade e de descontração. Mas, para mim, aquele acidente de percurso do homem mais poderoso de nossa República foi um autêntico divisor de águas. Reveladoras da simplicidade mais humana e comezinha, aquelas meias rotas e escangalhadas esfacelaram o muro que se erguia entre mim e o Presidente. E se, em minha mente, aquele poderoso homem caía, fragorosamente, de sua base celestial, quem mais poderia incutir medo e timidez neste não mais jovem correspondente internacional?

    Hoje em dia, não sei se o agora ex-Presidente continua descuidado com suas meias. Mas o que ele me ensinou, ainda que involuntariamente, segue guardado como um antídoto contra esses medos que habitam em nosso inconsciente. Vez ou outra, devo lembrar essa peculiar história a fim de superar meus bloqueios internos. No fim das contas, somos todos feitos da mesma matéria! Mas, então, onde estaria nosso diferencial? Creio, pois, que ele deve estar apenas na espirituosidade com que revelamos nossa face mais humana diante de terceiros, sendo eles estranhos ou não.

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