Belford Roxo

  • Memórias gravadas nas paredes

    As paredes de uma casa de infância raramente são apenas tijolos e tinta. Em Belford Roxo, onde o afeto era escasso e o ódio falava mais alto que os abraços, a literatura se fez presente para mim não na lombada de livros encadernados, mas no reboco. E, mais especificamente, na porta do banheiro.

    Acho que aquele era o refúgio do meu genitor, de quem à época ainda valia a pena chamar de pai. O lugar onde ele se trancava, acendia seus baseados e tentava fugir do peso da própria rotina. Foi no verso daquela porta que ele deixou registrado o seu manifesto, numa época em que ele e minha mãe ainda tentavam engrenar a família que resolveram formar. “Queria viajar mas não tinha dinheiro, fumei um baseado e viajei o dia inteiro”, dita como de Bob Marley, dividia o compensado de madeira com a altivez de Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.”

    Eu, bem criança, sem nem saber direito o que era poesia, já me fascinava pela destreza daquelas letras pintadas no refúgio dele. Soavam como um enigma poético. Havia um ritmo ali, uma rota de fuga imaginária e uma tentativa de grandeza no meio de tanta desestrutura. Anos mais tarde, o novo marido da minha genitora raspou aquelas frases da madeira, tentando apagar o fantasma e os vestígios do homem de antes. Mas a literatura tem essa teimosia: depois que entra na cabeça, não há espátula ou lixa que remova. Eu já guardava cada palavra de memória.

    Pouco adiante, na porta de entrada da casa dos meus avós, a terceira sentença marcava o território: “Se sua estrela não brilha, não tente apagar a minha.” Muito provavelmente, obra do meu avô. O patriarca tinha o hábito quase ritualístico de culpar o oculto por qualquer fracasso pessoal. Se algo dava errado, não era imperícia ou desleixo; era “macumba” feita pelos outros. Afinal, jogar a responsabilidade para o mundo sempre foi mais confortável do que encarar as próprias falhas.

    Cresci cercada por essas inscrições de dor e fuga. Uma mistura surreal de brisa de banheiro, transcendência pessoal e defensiva de ditado popular.

    Hoje sei o que é poesia, mas aprendi a lê-la no lugar mais improvável: raspada do compensado de uma porta em Belford Roxo, gravada no meu coração e na minha mente para nunca mais sair.

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