Cinzas

  • Cinzas

    Como um anjo caído, eu virei cinzas, me dispersando por cada lugar que passei. Gritei aos céus para que me recebessem de volta, enquanto bebia minha dor.

    Nenhuma luta para me levar ao cosmos foi suficiente, somente muito sangue foi derramado.

    Era a batalha interminável das duas coisas que me sobraram: a busca pela indiferença dos sentimentos, como uma boa estoica, e a hedonista que tentava sobreviver.

    Enquanto anjo caído, espalhei a dor que queimava como o inferno dentro de mim e que me enfeitiçava com um beijo gentil em meus lábios.

    Nesse descompasso, perdi o controle das horas, dos dias e de mim mesma. Tudo que eu tinha era um quarto escuro, borrado de lágrimas que insistiam em cair.

    Fui velada viva, enquanto amaldiçoavam meu nome em meus ouvidos e desejavam que eu ficasse. Meu luto por mim mesma continuava, envolvendo tudo que fui no passado, o nada que eu era naquele presente, e o futuro jamais seria o mesmo.

    Depois de velada e cremada, voltei ao início: como cinzas. Dessa vez, em pequenas andanças, fui recolhendo minhas cinzas. O fogo que antes ardia em mim começava a amornar. Esse era meu recomeço, meu acordar.

    Começava minha corrida contra o tempo. Era a hora. Eu precisava refazer meus passos pra não cair em descompasso.

    Revivi por mil anos todos os sentimentos que já habitaram em mim, encontrei flashes esquecidos de felicidade e amor.

    Vivi a eternidade desses momentos e colei entre meus ossos e minha pele, para que nunca mais saíssem de mim.

    Despedi-me do meu outro ser, porque sabia que esse começo queimava, mas de vontade de ser, estar e viver. Era o tipo de fogo que incendeia e não o que queima.

    Tudo era avassalador. Um pequeno sorriso, uma pequena paixão e milhares de momentos que começavam a se repetir, fazendo de mim a criatura que mais rogava por desejo.

    Fui, enfim, sentenciada. Liberdade era a palavra que gritava em minha cabeça. Eu podia morrer de outras mil formas, mas não dessa, porque nenhum pedaço meu era mais da minha dor.

    Fechei a conta. Fui aceita no céu.

  • CINZAS

    As cinzas dele

    “Espero que me perdoe, querida, pelo trabalho que lhe dou como meu último desejo.” Assim terminava a carta que ela leu com alguma indiferença. Era um pedido do marido (nem quando morto ele deixava de incomodar), que a essa altura estava convertido num montinho de cinzas. Saiu do crematório com a urna embaixo do braço. Pensou durante uns minutos. “Não vou dirigir duzentos quilômetros até o litoral nem morta.” Foi para casa. Parada no meio da cozinha, olhou em volta. Descartou de imediato, por uma questão de higiene, as panelas, a batedeira elétrica e o liquidificador. Pelo mesmo motivo não considerou a banheira nem o bidê. Decidida, foi até a área de serviço e jogou as cinzas na lavadora de roupas. Adicionou uma colher de sal. Escolheu um programa de lavagem rápida e ligou a máquina. Olhou o giro do tambor por alguns minutos, apreciando como as cinzas se misturavam à água salgada. Não era mar, mas parecia. Deu como cumprido o último desejo do marido. Que Deus ou Seja-Lá-O-Que-For o tenha. E pronto.

    As cinzas dela

    Tu tranquila aí, meu bem, que teu marido aqui ainda tem sangue, nervos e coração. Tô com um dilema, matutando aqui, mas vou resolver isso logo. Tu fica aí, quietinha e sem medo, que as coisas se ajeitam. Hum… O vaso grego, tá lembrada? Vai ser dentro dele, acabei de decidir. Sou muito rápido pra cuidar desses assuntos, tu me conhece. Tu quis comprar esse troço cafona porque combinaria com as almofadas do sofá, foi assim que tu disse, mas no mês seguinte tu trocou a estampa das almofadas, tem cabimento? Agora o vaso não combina com porcaria nenhuma nem tem serventia. Bem que pensei em usar a peça como bebedouro do Pipoca, ou então encher de terra e plantar margaridas, mas desisti. Fique sossegada, nada de terra aqui, que não sou um homem desalmado, ora bolas. Não me esqueci da paúra que tu tinha com a ideia de um monte de terra em cima de ti, por isso mandei te cremar. Agora tu é esse montinho de cinzas e não precisa temer mais nada. Tua última vontade foi cumprida: não vai ter terra em cima do teu corpo mirrado. No máximo, coloco na boca do vaso aquela toalhinha de crochê que tua mãe deu, que é pra não entrar bicho. Assunto enterrado, ops, encerrado.

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