Há uma pergunta que atravessa os séculos sem nunca envelhecer: se tudo passa, o que nos resta pensar, e porque valorizar o que temos e vivemos hoje? Os gregos chamavam esse fluxo ininterrupto de panta rhei (tudo flui) e Heráclito o personificou no rio onde jamais nos banhamos duas vezes na mesma água. A efemeridade não é apenas uma característica acidental da existência, ela é a própria textura. Talvez o primeiro espanto filosófico diante da brevidade das coisas venha da comparação entre a solidez aparente do mundo e a fragilidade real de tudo o que nele habita. As montanhas parecem eternas, mas a geologia nos ensina que elas também se erguem e se desgastam, como ondas petrificadas. As estrelas, que os antigos supunham fixas na abóbada celeste, nascem, brilham e morrem em explosões tão vastas quanto silenciosas. Se até o cosmos tem seu prazo de validade, o que dizer de nós, criaturas de passagem?
Há uma dimensão trágica nessa constatação, mas também uma beleza sutil. Os estoicos compreenderam que a consciência da finitude não deveria nos lançar no desespero, mas sim na valorização radical do presente. Marco Aurélio escrevia para si mesmo: “Você poderia viver agora a vida que pensa que viverá quando se aposentar”. A efemeridade, vista com olhos lúcidos, é um convite à presença. Se o instante é tudo o que temos, que seja então plenamente vivido. Os existencialistas do século XX radicalizaram essa percepção. Para Heidegger, o ser para a morte não é uma patologia, mas a condição que nos torna autênticos. É a consciência de que nossa existência é limitada que nos permite escolher, nos comprometer, dar direção à vida. Sem o horizonte do fim, tudo seria indiferente, poderíamos adiar eternamente as decisões, como personagens de um teatro sem cortinas.
No Oriente, o pensamento budista oferece outra chave, a impermanência (anicca), é uma das três marcas da existência, ao lado do sofrimento e da ausência de um eu permanente. Mas longe de ser uma maldição, ela é precisamente o que torna possível a transformação. Se tudo fosse permanente, estaríamos condenados à repetição do mesmo. Devido a mudança continua temos a oportunidade de florescer, aprender, nos libertar.
A contemporaneidade, no entanto, vive uma relação esquizofrênica com a efemeridade. Por um lado, aceleramos o fluxo, por outro, tentamos desesperadamente congelar a vida em imagens, memórias digitais, registros que prometem imortalidade num disco rígido qualquer. Fotografamos a flor para que ela não murche, sem perceber que a flor murchou enquanto a fotografávamos. A experiência do belo, do amor, da amizade, todas elas são intensas justamente porque são passageiras. Uma felicidade eterna deixaria de ser felicidade para se tornar uma tediosa repetição. O que dá sabor ao vinho é saber que a garrafa se esvazia, o que torna precioso o encontro é saber que ele termina, mesmo entendendo que, mais cedo ou mais tarde, uma mão distraída nos colherá, pois as coisas duráveis são feitas do tempo que passa.