Os laços de Maria me enfeitiçavam. Eles me atraíam como uma medusa. Não era possível olhar diretamente nos seus olhos. Havia, de minha parte, uma tremenda vergonha. Ainda tinha um atrativo peculiar, o aparelho ortodôntico, com uma linha de aço que ficava para fora da boca, como um ser especial, de outro mundo. Conhecemo- nos desde a infância, mais especificamente no quarto ano, quando ela veio estudar na minha sala. A sua imagem me paralisou, ao entrar atrasada na primeira aula, vindo com a coordenadora, que nos apresentou a aluna novata. Apesar dos apetrechos, ela era bastante sorridente – e sorria mais com os olhos, esverdeados. Por sorte, ela sentou numa cadeira ao lado da minha. Numa pequena brecha da explicação da professora de português, ela me perguntou qual era o meu nome; eu disse: “Gustavo… mas pode me chamar de Guga” – o apelido que meu pai me dera por causa daquele tenista, para quem eu não dava a menor bola. Maria, na verdade, só se entrosava com os garotos, porque, pelo que parece, havia inveja das meninas, que tinham um grupo muito fechado. Passou a jogar futebol com a gente, e por isso foi apelidada pelas mesmas meninas de “Marião”. Eu brigava por ela, não deixava que a maltratassem, porque era novata e porque era o meu novo amor. Nos anos seguintes, Maria foi posta numa sala especial, a “D”, pequena, só com os alunos crânios. Mas, ainda assim, Maria não se afastou de mim – era o meu grande receio. Um dia perguntaram a ela se era minha namorada; ela disse que sim, muito assertiva, e eu me borrei de medo de que aquilo fosse mesmo verdade. “Não liga, Guga, prefiro que pensem que somos namorados”. Foi uma questão que ficou em aberto na minha mente por meses, até que Maria disse que eu estava passando do ponto. “Qual é, Guga, sem essa de pegar na minha mão; vão pensar que somos namorados de verdade!”. Mas eu era apaixonado por ela e ela por mim, disso eu sei. No sétimo ano, quando voltei de férias, soube que Maria tinha mudado de colégio. Eu queria saber o seu paradeiro, por que teria feito isso comigo? Depois de uma semana, recebi uma ligação dela – não consegui falar antes porque ela havia mudado de telefone. “Sabe, Guga, é tudo muito estranho no novo colégio; é como se as pessoas comessem os livros para passar no vestibular. E eu não sei por que tenho que me preocupar com isso, já que faltam alguns anos para o vestibular. Minha mãe disse que era para eu criar experiência, aprender a lidar com as dificuldades da vida logo cedo”. Nisso, Maria foi sugada pelos estudos e pouco falava comigo; sempre tinha provas e simulados. Chorei por um mês a sua partida definitiva da minha vida. Escutava The Cranberries, sua banda predileta, repetidas vezes – chorando. No vestibular, soube que teria feito para Medicina e passado de primeira. Ela era uma puta aluna, merecia. Enquanto isso, eu passei para Ciências da Computação – também um bom curso. Hoje, já formado e casado, me encontro com o meu primeiro amor no supermercado. Ela parece que vinha ou iria para a academia. Estava mais linda do que nunca. De primeiro, não me reconheceu, mas depois me abraçou e disse que tinha muita saudade da nossa pura amizade. Quando me preparei para pedir o seu telefone, ela se virou e disse que teria de ir, porque seu marido e sua filha esperavam no carro. Desde esse dia, mantenho constantes visitas ao mesmo supermercado, a dez quilômetros da minha casa, para um dia encontrá-la de novo, só para vê-la. Minha mulher pergunta por que vou fazer o mercantil tão longe, e eu digo que é pelo preço dos produtos – que de fato são bem mais acessíveis, já que é um atacadão. O tempo a esconde de mim, mas hei de achá-la.
Adriano Espíndola Santos é autor de “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto” e “Viver morrendo”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. Instagram.com/adrianobespindolasantos/