COntos

  • No limbo

    Zími entregou a Mila Cox uma sacola para discos com um LP dentro.

    Ele não a havia presenteado em seu aniversário, dois dias antes.  

    Conhecem-se desde o nascimento de Mila Cox, e trocavam presentes eventualmente, mas sempre com alguma zoeira sutil envolvida.

    O LP era uma edição nacional e comum de uma coletânea da Siouxsie and the Banshees, em bom estado de conservação.

    A contracapa, no entanto, trazia uma dedicatória escrita com esferográfica, que deixava claro que alguém ganhou o disco de presente e passou adiante sem remorsos.

    A dedicatória tomava quase a metade da contracapa, e Zími havia comprado por dois reais, por conta de depreciação.

    Zími havia esquecido a sacola na Kombi de Silvano no dia anterior, e a encontrou naquele momento, num compartimento oculto que há no banco traseiro.

    Zími falou: “Não é um disco raro, mas essa edição vem com um texto na contracapa.”

    Mila Cox: “Nossa! Dedicatória de 1985! Amei! Valeu!”

    Eram onze horas da noite do sábado, fazia frio e o camarim e ponto comercial dos Crop Circles era a kombi do camarada Silvano, uruguaio que morava no mesmo prédio que Mila Cox e Zími.  

    Mila Cox e Zími eram os Crop Circles.  Um duo, com baixo, sintetizador e bateria.

    Silvano definia o som deles como uma mistura de Violeta de Outono com X-Ray Spex.

    Ele era músico também e atuava como uma monobanda.  

    Tocava sentado, usando violão microfonado ou guitarra, e fazia a bateria com os pés, uma gambiarra com caixa, bumbo, chimbal e muita silver tape.

    Zími também usava um kit minimalista de bateria e tocava de pé. Era apenas caixa, prato e chimbal.

    Silvano falava português sem sotaque porque vivia em São Paulo desde os quatro anos de idade.

    Para pagarem suas contas, Mila Cox era copywriter, assim como Zími.  

    Silvano fazia carretos e entregas com sua kombi.

    Ambas as atrações se apresentaram numa festa junina nessa noite de sábado.  

    Silvano tocou antes. Os Crop Circles haviam encerrado seu show às dez horas. Ambos os shows agradaram o público.

    Esses shows aconteceram na casa de Miro, um agitador cultural do bairro da Casa Verde, que já teve uma banda de Hard Core chamada ‘Colaterais’, e queria fazer uma festa junina com rock alternativo.  

    Era uma casa grande, a última de uma rua curta e sem saída. Os demais moradores da rua endossaram a ideia e tudo correu dentro do previsto.

    Conheceram-se num show dos Crop Circles ocorrido meses antes, em Santo André.

    Tinham outro show marcado para o fim da tarde do domingo, em São Caetano.

    Era como se estivessem no intervalo entre o primeiro e o segundo tempo de um jogo de futebol.  

    Mila Cox tinha vinte anos e sabia que a vitória só se consolidaria ao término do show do dia seguinte, caso tudo fosse mantido sob controle.

    Zími e Silvano tinham quase cinquenta.  

    Os dois sabiam que muitos artistas com a idade deles, nos dias de hoje, começam a se preocupar com excessos, especialmente naquele momento em que uma agenda estivesse apenas parcialmente cumprida.

    Quando bebiam, sempre repetiam um ao outro, em meio a gargalhadas, que só não eram completamente inúteis para o sistema, porque ainda faziam mercado e pagavam por gasolina.  

    Com medo de que os dois ficassem muito loucos e dessem milho no show de domingo, Mila Cox buzinava na kombi parada a cada vez que um deles cochilava de bêbado, enquanto ficavam vendendo camisetas dos Crop Circles por mais um tempo depois do show.

    Quando ela buzinava, o som era tão estrondoso dentro e próximo ao veículo, que os dois pulavam de susto e ela ria.  

    Zími e Silvano estavam felizes porque estavam com gasolina paga e alguma bonança financeira com o show de sábado. Tomavam Domecq, cada um com sua garrafa, bebendo no gargalo.  

    Era o dia de aniversário de Gene Vicent, e naquele dia Silvano tocou clássicos desse mestre e de alguns de seus contemporâneos, em versões mais aceleradas, para complementar seu repertório de músicas próprias.  

    Silvano falou para Mila Cox: “Você deveria ter paciência conosco, e entender que sair pra tocar num sábado sem ter prejuízo financeiro como muitos artistas que pagam pra tocar, e ainda lucrar com camisetas e discos, e além de tudo ter um show no dia seguinte, num ambiente completamente diferente, com o tanque da kombi cheio! Amanhã não tem cachê. Terá o pagamento do valor de um tanque de kombi cheio de gasolina, mesma coisa que foi hoje. Amanhã quando voltar pra São Paulo e estacionar na garagem do prédio, teremos lucrado com essa logística bem elementar. Eu e o Zími somos coroas, mas você sabe que mesmo que um de nós morrer hoje, vai levantar e fazer o show assim mesmo, zumbi. Então fique sossegada. A gente já vai voltar pra casa, quando miar o movimento aqui.”

    Zími falou: “Eu adoro a ideia de ter show amanhã. Eu descanso na segunda. Estou vivendo um momento sublime. Na segunda dormirei, enquanto algum escravo assalariado contemplará o próprio retrato na parede de alguma firma por ter sido eleito o funcionário do mês, enquanto seus verdadeiros superiores hierárquicos estarão em orgias, em plena manhã de segunda. E em seguida um gerente patético o chamará de mocorongo e o fará voltar ao trabalho. E nós poderemos lamentar essa condição social mórbida criando mais uma música.”

    Mila Cox: “Eu tenho paciência suficiente. Sei que a Carole King não gravou o ‘Tapestry’ do nada. Foi preciso passar por muita coisa antes de entrar definitivamente pra história. Está tudo bem, agora nós temos uma kombi. Antes de mudarmos pro apartamento e conhecermos o Silvano, foram dois anos com um Chevette 79, e naquele tempo o Zími tinha pavor de fazer shows em dias seguidos. Vocês já estão cozidos por essa bebida e nem sentem o frio que está fazendo. Mas eu não reclamo. Fazer merda virar adubo tem que ser um lema quando ainda se está construindo uma reputação.”

    Zími: “Alcançamos alguma prosperidade sem sucumbir a ideias megalomaníacas de estrelato. Seguirei com essa postura em tudo que eu fizer. Lembre-se sempre que se nós tivéssemos nos transformado naquilo que nossos pais sonharam pra gente, teríamos um destino tão diferente que nem é bom tentar imaginar. Então estar aqui é uma glória. Expectativas exageradas sobre o futuro diminuem a importância do nosso presente vitorioso. Além do mais, São Caetano é perto.”

    Mila Cox: “Você pelo menos fez faculdade. Pelo menos um de nós. Eu ainda sofro com esse tipo de pressão. A vida acadêmica me tomaria um tempo precioso.”

    Zími: “Fiz a faculdade de jornalismo apenas pra me livrar dessa pressão. Não reclamo daquele tempo. Hoje eu vejo no que meus colegas se transformaram e agradeço ainda mais pela minha sorte. Com diploma, ainda que inútil pra minha vida prática, sem filhos, com uma banda, e tentando prolongar a juventude sem fazer um papel ridículo.”

    Ao redor da kombi, estacionada na frente da casa de Miro, adultos conversavam e bebiam, crianças brincavam, cachorros passavam farejando alimentos que caíam no chão, e uma trilha sonora mais tradicional em festas juninas era o que se ouvia naquele momento.

    Pessoas que sabiam que a segunda feira chegaria rápida e impiedosamente, dançavam bêbadas sabendo com o sossego de estarem próximas de suas casas.  

    Eram cerca de duzentas pessoas.

    Silvano pensava secretamente se realmente valeria a pena voltarem para casa, ou se seria vantajoso dormir na kombi com os equipamentos, e na tarde seguinte seguir para São Caetano e fazer o show.

    Dessa vez, mais duas bandas tocariam: Silvícolas e Secreção.

    Zími falou: “Amanhã será outro dia de glória. Vamos tocar antes das duas bandas. É um jogo ganho. Há um sabor especial em fazer a nossa parte e ter mais dois shows pra assistir. Gosto de tocar domingo. A atmosfera não é carregada daquela urgência em se divertir a qualquer custo. Os Silvícolas são ‘posers’, certamente vai ser engraçado de assistir. Ouvi umas músicas na internet e não consegui entender se eles fazem sátira com o ‘hair metal’ ou se realmente se levam a sério. Espero que seja sátira. O Secreção tem umas músicas boas, mas vamos ver se ao vivo chamam a atenção. Mas gosto da forma como eles desprezam o sistema e todo tipo de estrelismo no comportamento de quem se torna afetado por ter uma banda e consegue agendar um show. Musicalmente são de uma linhagem derivada do Minor Threat.

    Eu não sei se a pessoa que chamou essas bandas tão diferentes fez de propósito ou se faltou critério. O antagonismo entre eles é brutal. Mas é bom misturar. Não é possível que vá rolar alguma treta. Mas se rolar, o Silvano vai filmar pra colocarmos num documentário futuro.”

    Silvano: “Ainda existe treta desse tipo? São moleques criados pela avó, não vai ter nada disso. Além do mais, será outra festa junina!”

    Mila Cox: “Existe gente cretina o suficiente pra tudo que se imaginar, mas eu conversei com eles pela internet, vai ser sossegado. O público que eles vão levar será as namoradas e meia dúzia de amigos também criados pela avó.”

    Zími: “Sim, são moleques da sua idade. Vão ficar com vergonha de fazer qualquer merda juvenil depois que o Silvano e nós tocarmos. Provavelmente eles têm grandes expectativas sobre o futuro, e como quase ninguém os conhece, não vão querer queimar o filme.”

    Por volta da meia noite, as pessoas começaram a se despedir e ir embora.

    Mila Cox falou: “Vamos embora, temos que atravessar o rio Tietê pra chegar no centro. É um rolê. Antes que fiquem ainda mais bêbados.”

    Ao ver abortada sua ideia secreta de estacionar perto de alguma loja de conveniência e dormir na kombi, Silvano se ajeitou ao volante resmungando sutilmente.

    Foram embora dormir em casa.

  • A Melhor Estação

    Ela sabe que já é outono pelo barulho crocante das folhas secas rachando sob seus passos. Ainda que não possa distinguir as cores nem os galhos secos, ela sabe. Não percebe a diferença entre os ocres, os marrons ou os amarelos-avermelhados que forram o chão, mas sente a mudança do ar, que é mais fresco na sua estação preferida. Suspira. Já não sente tanto calor quando passeia pelo parque e ainda não faz um frio que a impeça de se deitar na grama e deixar o tempo passar. Está aliviada. No outono ninguém vai persegui-la ou intimidá-la. É o tempo em que seus hormônios relaxam e ninguém irá machucá-la. Será deixada em paz. Em dias assim, não poder enxergar não lhe causa tristeza. No outono não corre o risco de ser violentada. Enquanto durar a estação, seus dias serão dedicados a desfrutar a platitude de cachorra cega e abandonada nas ruas da cidade.

  • Um dia na vida

    Era quinta-feira e Mila Cox marcou dois shows para os Crop Circles no fim de semana.  

    Duas festas juninas, uma delas raiz, na periferia de São Paulo, e a outra era mais gourmetizada.  

    Sexta na Casa Verde e sábado em São Caetano.  

    Na sexta seria sossegado, show deles com abertura do uruguaio Silvano.  

    No sábado foram quatro shows.

    Dessa vez deram sorte, porque a organização do evento os colocou para fazer o segundo show, logo depois que Silvano tocasse.

    Depois deles, mais duas bandas tocaram, os Silvícolas e o Secreção.  

    Nenhum dos dois tinha ouvido falar dessas bandas, mas prontamente pesquisaram ao verem o flayer do evento.  

    Zími falou: “O Secreção é banda punk com caras jovens e os Silvícolas são Glam, tem vocalista de penhasco e são espalhafatosos. Na pesquisa constatei relatos sugerindo que eles usam as cuecas uns dos outros sem problemas. Não vai haver nada de novo ali. Acho incrível que algumas bandas gostem de tocar por último. Espero que seja sempre assim, até mesmo se a nossa popularidade crescer com o tempo. Assistir ao último show com a sensação de missão cumprida e com um grande drink na mão é um momento glorioso. Não importa nem mesmo qual seja o último show.”

    Para eles, haveria mais necessidade de conhecer as bandas se o show dos Crop Circles fosse o último da noite.  

    Gostavam de tocar em festas juninas. Elas eram diferentes entre si, e eles quebravam por pouco mais de uma hora os protocolos desse tipo de evento.

    Então, Zími entrou no apartamento que dividia com Mila Cox, e ela estava na sala tratando dos detalhes desses shows, pelo computador.

    Ele fechou a porta e falou: “Devemos fazer uma música sobre o coach. Ele me abordou no elevador, e todas as suposições que tínhamos sobre o charlatanismo dele se confirmaram.”

    O ‘coach’ era um vizinho do prédio que treinava as pessoas para serem felizes.

    A cara que ela fez quando foi interrompida, lembrou a Zími a cara que a gata de sua avó fazia quando era tirada de cima de um travesseiro enquanto dormia.  

    Ela usava uma camiseta com a cara do Jello Biafra fazendo uma careta.

    Ela falou: “De qualquer maneira essa música só ficaria pronta na semana que vem. Não estamos atrasados em termos de lançamentos. Lançamos um single há dez dias.”

    Zími: “Então o tema já fica estabelecido pra próxima faixa. Ele me falou sobre como seus clientes tiveram resultados incríveis e agradecem a ele diariamente. Ele nunca teve banda, nunca jogou bola, talvez nunca tenha tido namorada. Ele gosta de Coldpay e Silverchair.”

    Mila Cox: “Que show de horror! É muita loucura que ele tenha te abordado tão rápido. Falamos dele ontem.”

    Zími: “Eu estava entrando no elevador, enquanto ele entrava no prédio. Eu fingi que não vi, e não esperei. Mas ele chegou a tempo e abriu a porta antes que o elevador subisse. Extraí o máximo de informação que pude, mas ele viu que viraria zoeira e deu fuga antes de responder mais perguntas.”

    Mila Cox: “Zoar o coach numa música pode gerar uma crise com a classe dos coachs, caso sejamos mal interpretados.”.

    Zími: “Se a música atingir essa repercussão, então será um single de sucesso. Mas não acho que seremos mal interpretados. Esse vizinho é o único coach para ensinar as pessoas a serem felizes que conhecemos com essa proximidade. Ele me abordou questionando minha insatisfação com o mundo sem nunca ter conversado comigo antes. Mas ele já me viu antes tomando cerveja na padaria, de manhã, no meio da semana, e ficou bege. Se a música estourar, as pessoas saberão que estamos falando do indivíduo e não necessariamente da classe. Quando eu perguntei do que ele gostava de música, ele se engasgou, respondendo sem saber se a resposta merecia ou não o constrangimento de ambos. Mas foi quando perguntei sobre a concepção que ele tem de felicidade, e qual era a felicidade que seus clientes atingiam, que ele se esquivou alegando pressa, desceu no quarto andar, e eu vim pra casa.”

    Mila Cox: “Essa gig de sábado em São Caetano vai ser louca, ainda estaremos na força do show de sexta.”

    Zími: “Eu tenho o dobro da sua idade e acho meio cansativo, mas são coisas da vida. Não é uma questão de resistência física. Eu tenho prática e sei que o artista tem que melhorar com o tempo, e não piorar. Mas o que eu não tenho mais é a urgência juvenil, de se jogar como se fosse a última chance sempre. E também fui ter internet pela primeira vez na minha casa quando eu já era mais velho do que você é hoje. A gente era obrigado a estar mais nas ruas por mais tempo, para tomar conhecimento de qualquer coisa que estivesse acontecendo. A telefonia naquele período anterior à internet era completamente precária não apenas pela falta de portabilidade dos telefones, mas pelos intermediários que atravessavam as chamadas, que muitas vezes eram atendidas por alguém que não era a pessoa com quem se desejava falar. A impressão que eu tenho é que apesar dessa tosquidão, havia a necessidade de mais compromisso com o que era combinado, especialmente se você tivesse uma banda. Mas esse rolê de São Caetano vai ser bom mesmo. Temos kombi pra levar e servir de acampamento. É uma vitória.”

    Então Silvano bateu à porta, foi chamado para entrar em coro por Mila Cox e Zími.

    Ele anunciou que vai comprar um gerador de gasolina para poder ligar amplificadores em lugares descampados e ermos. Seria bom para shows, ensaios e atividades experimentais.

    Disse também que a ideia do gerador já era antiga para outros fins.  Mas durante o ensaio para os dois shows do fim de semana, ocorreu-lhe que agora precisava do gerador também para ligar o amplificador da guitarra, já que se consolidava como artista monobanda que dá ênfase a esse instrumento.

    Oitenta por cento de sua prática é num violão uruguaio que comprou usado e que ficou encostado por anos, mas pelo qual tinha grande estima. Os outros vinte por cento era com uma Guibson ligada ao pequeno amplificador que usa em casa, para avacalhar um pouco menos com as regras do condomínio. Tinha um maior que leva a shows onde não há qualquer equipamento.Também falou que tem uma música nova pronta.

    Então Zími falou: “A gente lançou single há dez dias, mas já definimos o tema da próxima música.”

    Silvano: “Qual é o tema?”

    Zími: “É o coach, aquele vizinho que treina as pessoas para serem felizes.”

    Silvano: “Aquele sujeito do quarto andar? Aquele é um picareta de marca maior! Eu apenas tento me esquivar das abordagens. Já me fiz de louco pra escapar algumas vezes.”

    Zìmi: “Eu tentei escapar. O cara correu e abriu o elevador antes que ele subisse.”

    Silvano: “Aí você vai usar o estereótipo desse cretino pra dizer que quanto mais ignorante alguém seja, mais obediente esse alguém é. depositando a maior e mais absoluta confiança em quem o dirige. Pode ser um político de estimação, um pastor que vende terrenos no céu ou esse cretino que treina as pessoas pra que elas se tornem felizes.”

    Zími: “Isso mesmo! E a sonoridade vai soar como uma mistura de Ministry e B52’s!”.

    Mila Cox: “No lado B vai entrar uma música sobre ser livre na medida do possível. Sobre o transtorno de saber que não nascemos livres. E que a luta é por uma liberdade pelo menos parcial, já que a liberdade total é um conceito complexo que existe mais para que seja buscado, do que realmente alcançado. O rebanho não é livre, nem quer ser livre, porque nem sabe que não é livre. O rebanho é rancoroso, poque a única alegria que tem é quando o lobo come a ovelha ao lado. Essa faixa vai sair só no compacto em vinil de sete polegadas. E depois de anos será relançada numa caixa que lançaremos com tudo que gravamos.”

    Silvano: “E com e gerador, ao longo desses anos a gente vai poder fazer muito mais coisa, tocando até de graça em certos lugares. Levamos tudo na kombi, montamos nos lugares remotos e tocamos. Logicamente isso não é algo pioneiro, mas é tão viável que é exatamente o que faremos.”

    Do forno de padaria na cozinha de Mila Cox e de Zími saíram quatro pizzas naquela véspera de show. Zími guardava as bordas para comer com requeijão na manhã seguinte.

    Na televisão colocaram um show do Fugazi, que terminava e começava de novo, servindo como inspiração.

  • ARREBATADO

    Quase morto de sede, o homem implorou ao céu por chuva, mas não caiu uma gota. Olhou pra cima e não viu uma só nuvem, só luz e azul. Rogou uma praga. Perambulou pela estrada poeirenta, o sol na cabeça. Viu algo no meio do caminho: uma escultura de madeira que alguém jogou fora. Era um rosto, uma cabeça. Uma cabeça completa. O homem a pegou nas mãos e a acariciou. Limpou a poeira e viu surgirem uns olhos, um nariz, uma boca. Um rosto. O rosto de um santo? Ele não sabia. Beijou aqueles lábios, quis saber que gosto havia ali. Colocou a escultura de pé, encostada numa pedra, e tomou distância para avaliá-la por inteiro. Aproximou-se novamente. “Escute aqui, meu chapa”, começou a conversar, como se estivesse na frente de uma pessoa de carne e osso (é assim que um solitário faz com aqueles que não o ouvem, para que o ouçam: “Escute aqui, meu chapa”).

    Pediu que mandasse chover. Não choveu. Pediu que saciasse sua sede. Não saciou. Por último, implorou que o livrasse da miséria. Continuou tão miserável quanto antes. Desolado, contemplou a imagem, os traços rudes, grosseiros, talhados a canivete. Ia atirar a escultura longe, por inútil, quando percebeu um brilho rápido naquele olhar: o rosto também pedia por alguma coisa. Nos limites de sua madeira estropiada e do seu silêncio, implorava que alguém o encontrasse jogado por ali e o limpasse e lhe dirigisse orações. Suplicava que o adorassem como se adora um deus ante seu altar. Então o homem compreendeu tudo. Perdeu a sede, esqueceu-se de si e da chuva e dançou diante daquela carranca de madeira velha e carcomida. Dançou, dançou como arrebatado.

  • Os olhos dela

    Ele ia deixá-los abertos, os olhos dela, mas decidiu cerrá-los para parecer que dormia.

    Conheceram-se numa festa de final de ano, na casa de amigos. Ele gostou do jeito e da graça com que ela levantou a taça de vinho durante o brinde para a contagem regressiva. Viu quando ela tomou um grande gole no “zero!” e abriu os braços para cumprimentar quem estava próximo. “Quero ela, quero essa boneca pra mim”, ele pensou, excitado. Já era quase de manhã quando caminharam pela calçada, buscando um café aberto. Lá dentro, com as mãos sobre a mesa, trocaram carícias e toques de dedos e unhas. Conversaram muito e marcaram novo encontro, cansados demais para irem para a cama àquela hora. O dia estava quase amanhecendo.

    Na segunda vez em que se viram, ela confessou, rindo muito, que era uma bruxa poderosa e podia ver o futuro num baralho. Disse também que não revelava tudo o que as cartas lhe diziam, não gostava de provocar pânico nas pessoas. Só contava os acontecimentos mais leves, do tipo “você vai se casar com um colega da igreja” ou “seu destino será viajar pelo mundo”, coisas assim, inofensivas. Ele falou vagamente sobre seu trabalho numa instituição financeira, atividade enfadonha e desimportante. Não revelou seu fascínio por bonecas, aqueles brinquedos infantis quase insuportáveis de tão perfeitos. Também escondeu que tinha uma pequena coleção delas em sua casa. Foram para a cama naquela noite e em muitas outras nas semanas seguintes. Criaram um laço afetivo e de muita tensão sexual e apertavam-no um pouco mais a cada encontro.

    Começaram a namorar.

    Num dos tantos encontros, na casa dele, ela concordou em ler o futuro do namorado nas cartas, desde que se reservasse o direito de não dizer tudo. “Fechado”, concordou ele. “Diga-me só as coisas boas, como a data do nosso casamento, por exemplo”, ele brincou. Sentados em volta da mesa forrada com um cobertor, ela espalhou as cartas viradas para baixo e se concentrou. Virou uma a uma e comentou em voz alta e aos risos o que elas diziam. À medida que avançava na leitura dos naipes, seu rosto aos poucos se crispou e se transformou numa máscara de pavor. Olhou para o namorado, que sorria de maneira que ela nunca tinha visto. Fez menção de sair correndo de lá, mas ele a segurou pelo pescoço e o apertou até o corpo dela amolecer.

    Agora ela está deitada na cama como uma dessas bonecas que têm uma bolsa na barriga para guardar o pijama. Ele ia deixá-los abertos, os olhos dela, mas estavam tão mortos que decidiu cerrá-los para parecer que dormia. Levou o corpo inerte para o porão, onde costuma executar os procedimentos de retirada de órgãos e a dissecação do cadáver. Tarefa para a manhã seguinte.

  • Cheiro de jaula

    Ainda era um pensionato aquela casa da rua Humaitá, onde Zími sempre parava na frente quando passava por ela, e ficava olhando durante a duração de um cigarro .

    Ele havia morado lá por alguns anos, atravessando o período da pandemia ali. Aquele lugar não havia sido a sua última moradia antes de dividir um apartamento com sua parceira musical Mila Cox.

    Ele alugou o quarto menor no apartamento de seu irmão mais novo, e ficou ali por seis meses. Era o prazo que tinha para tomar outro rumo.

    E então Mila Cox, que queria sair da casa em que morava com a mãe e a avó, no bairro da Penha, aceitou dividir um apartamento com Zími, num lugar mais perto do centro.

    Encontraram o lugar com melhor custo-benefício no bairro da Liberdade. Num domingo, Mila Cox estava de bicicleta, voltando da feira cultural do Bixiga, e parou na frente da pensão que Zími havia morado.

    Viu um casal que morava ali sair para a rua. O portão ficava destrancado, Não havia placa indicando que ali havia aluguel de quartos.

    Então ela entrou na casa e a conheceu parcialmente a parte de baixo por dentro. Havia ainda uma escada e um andar superior.

    Pela escada, logo apareceu um sujeito que era gerente, e ele mostrou a Cox um quarto que estava disponível. Depois mostrou-lhe o resto da casa.

    Os moradores ficaram curiosos com a presença de qualquer pessoa nova na casa dela. Abriram suas portas e a viram passar com o gerente.

    O cheiro que pairava nos corredores era uma mistura de xampú, maconha e incenso. Nos quartos em que moravam mulheres, havia mais ordem e limpeza, mas na maioria dos quartos, onde apenas moravam homens, havia quartos em ordem e outros degradados.

    Mas havia um quarto que tinha cheiro de jaula. Dois sujeitos dividiam o cômodo. Havia um deles que Mila Cox já tinha visto antes, e não estava lembrando de onde. O cara também a olhou como se já a tivesse visto.

    Antes de sair, Mila Cox perguntou ao gerente se ele conheceu Zími.

    O cara disse que sim, mas que nunca mais teve notícias desde que ele foi embora dali. Falou também que Zími dividia o espaço com um dos sujeitos que ainda morava no quarto com cheiro de jaula, o que esclarecia parcialmente a questão sobre como ela conhecera aquele cara.

    O gerente falava e a olhava embasbacado, quase intrigado com aquela figura tão cool. Quase baixinha, jovem, cabelo chanel vermelho, com franja, tatuada, e usando uma camiseta com estampa do álbum ‘No more heroes’, dos Stranglers.

    Tinha um olhar seco, sério e fulminante.

    O sujeito pensava sobre como ela conhecera Zími, se havia entre eles algum parentesco ou se havia outros motivos.

    A verdade é que antes de Mila Cox nascer, Zími foi colega de faculdade de Sara Cox, tia de Mila, e os dois ajudaram muito a moldar o gosto musical da garota.

    Zími e Sara se formaram em Jornalismo nos anos noventa. Depois, ela se mudou para a Inglaterra e ele seguiu uma jornada errante, da qual ele nunca se arrependeu.

    E agora Mila Cox pensava novamente sobre a podridão do universo masculino, ao mesmo tempo em que tentava imaginar o que aconteceria com o apartamento que dividia com Zími, caso ela tivesse que se ausentar por alguns dias.

    Cox saiu da pensão sem memorizar a fisionomia do cara que a atendeu, mas não esqueceu do cheiro de jaula até chegar em casa.

    Ela pegou a bicicleta e desceu da Bela Vista até a Liberdade. O caminho era de descida e ela chegou rápido.

    Subiu ao apartamento e ali estava Zími.

    Com ele estava Silvano, o vizinho uruguaio que morava na porta ao lado, que é multiinstrumentista e morava sozinho em seu apartamento.

    Silvano já morava naquele prédio muito antes de Mila Cox e Zími. Seu apartamento, embora não tivesse cheiro de jaula, não primava pela ordem.

    À essa altura, Mila Cox já entendia e partilhava dessa que era a razão em comum para quem resolve morar sozinho.

    E era muito simples. Poder fazer em casa o que não se fazia quando ainda se morava com a mãe. E provavelmente o que não faria depois, se a pessoa fosse casada.

    Zími e Silvano fumavam, bebiam a comiam no sofá.

    Ainda não estavam tão horrendamente bêbados. Nunca ficavam muito loucos antes que ela chegasse em casa.

    Ficavam mais bêbados só depois que ela soubesse antecipadamente que isso aconteceria inevitavelmente, quando era dia de folga das atividades que exerciam para pagar as contas, ou atividades musicais.

    E preferiam beber em casa, pois é mais barato que beber na rua.

    O assunto era música e Zími dizia: “Pelo menos três discos dos Beach Boys são ainda melhores que o Pet Sounds, e estão naquele período posterior a ele. Nesse bloco, entram o ‘Friends’, ‘Wild Honey’ e o espetacular ‘Surf’s Up’, que tem na faixa título a prova daquilo que estou querendo dizer. O ‘Holland’ também é muito bom. Depois veio aquela coletânea que só abrangia a primeira fase, sobre surf e carros, o que estigmatizou ainda mais a banda, depois da tentativa de fazer uma música muito mais abrangente nas temáticas. Foi uma tentativa muito bem sucedida, mas não comercialmente falando O que importa é que aqueles discos ficaram pra provar a relevância que deveriam ter também na época. Mas no fim dos anos sessenta e início dos anos setenta foram lançados tantos discos maravilhosos e as pessoas ainda associavam os Beach Boys à velha fórmula com que tiveram sucesso dez anos antes, falando de surf e carros.”

    Silvano queria fazer uma cover de Beach Boys.

    Zími falou: “Se é pra fazer cover, que seja como os Byrds fizeram com as músicas do Bob Dylan, dando uma roupagem diferente, recriando as músicas.”

    Quando ele falou essa frase, Mila Cox percebeu em sua voz, agora já um pouco pastosa, os primeiros sinais de embriaguez.

    Então ela falou: “Entrei na pensão que você morava, na Bela Vista.”

    Zími respondeu: “Nem posso imaginar o atual estado daquele lugar. Mas a época em que morei lá será mencionada no livro que estou escrevendo.”

    E o cara com quem você dividia o quarto?” – Mila Cox perguntou.

    “É o Elton, é baterista, tocou em várias bandas.”– Zími respondeu.

    Mila Cox: “Ele estava lá, e eu não lembrava de onde o conhecia. Na verdade não lembro ainda”

    Zími: “Foi num show em Catanduva, a banda dele tocou no mesmo evento. Na época ele era baterista de uma banda chamada ‘Quase’. O tempo em que morei lá com ele foi o pior momento da minha vida. Eu estava sem grana e dividi quarto pra baratear o aluguel. Dividir um quarto com quem quer que seja é inconcebível pra mim. Não sei quanto aos outros, e espero que façam o que quiserem com suas vidas, mas ter um quarto individual é essencial.”

    A pergunta seguinte de Mila Cox seria sobre o cheiro de jaula, mas ela preferiu deixar quieto naquele momento, já que Zími, de uma certa forma, já havia respondido.

    Antes de ter lembrado do cheiro de jaula e esperado pela oportunidade de falar sobre isso, Mila Cox pensou sobre sua antisociabilidade, já que tinha apenas vinte e um anos e também preferia beber em casa, independente da economia feita com a compra de bebidas no mercado.

    Eventualmente bebiam na padaria que havia no quarteirão onde moravam, quando o aluguel já estava pago e havia como gastar ali para beber.

    Mesmo sendo jovem, viu o declínio das competências linguísticas e intelectuais das pessoas, produto da falta de leitura e de referências culturais de qualidade.

    A qualidade humana, de uma maneira geral, parecia estar em declínio, principalmente pelo fato de tanta gente ter perdido a capacidade de pensar com a própria cabeça, ou mesmo nem ter desenvolvido essa capacidade ao longo da vida, o que resulta em vidas infelizes e a espera de uma recompensa póstuma. Essa é uma deixa para pastores e coachs picaretas lucrarem milhões. E a quantidade de charlatões não para de crescer.

    Então Mila Cox via aqueles dois sujeitos que só sociabilizavam realmente quando faziam shows. Quem realmente importava estava lá e havia diálogo.

    Nessas ocasiões havia amigos que eles não podiam encontrar sempre e mulheres que gostavam de rock.

    Por isso ela os compreendia. A diferença é que os dois já beiravam os cinquenta anos e ela tinha vinte e um.

    Ela já havia lido nos livros o que os filósofos dizem sobre não se misturar ao rebanho e sobre como é alarmante se ver ao lado da maioria, no que quer que seja. Zími era o baterista e eventual vocalista da banda Crop Circles, um duo formado por ele e Mila Cox, que além de tocar contrabaixo e sintetizadores, se revezava com Zími nos vocais. O mote da banda eram as angústias da existência e o som lembra o da banda Suicide. Quando se uniram para tocar, Zími já conhecia essa banda, mas Mila Cox, ainda não.

    Silvano era uma monobanda. Autodidata, Nos shows, ele tocava guitarra e fazia a parte de bateria minimalista de suas músicas no pedal.

    Eles e Zími diziam que Mila Cox era um prodígio em coisas que eles tanto prezavam, entre elas, buscar sempre frustrar as expectativas capacitacistas, higienistas, competivistas e produtivistas da asquerosa sociedade neoliberal em que vivem.

    Os três sabiam que qualquer solução ou revolução só pode realmente acontecer se for primeiramente pelo indivíduo, e talvez depois pela sociedade. Nunca pelo Estado.

    Eles sabiam também que o medo da opinião dos outros é a maior escravidão do mundo.

    Para ter paciência com a maioria das pessoas, lembravam que nem todo mundo é artista.

  • Cruel

    — Estou aqui, Maria Helena.

    Quando recebeu o recado, ele não deu pelo motivo. Disseram que ela queria vê-lo, insistia em vê-lo. Estavam divorciados havia mais de dez anos, e nesse período só tinham se visto duas ou três vezes para discutir a separação dos bens. Nessas ocasiões, tratavam-se como estranhos. Ela era francamente hostil, como se o culpasse pela vida amargurada que levava após o fim do casamento. Para ele, as coisas também não tinham sido fáceis: a saída do apartamento, a perda dos amigos comuns, a mudança de emprego. E a solidão. Agora, depois de tantos anos de afastamento, ela queria vê-lo. Ele foi.

    Chegou ao hospital no começo da noite. O quarto estava na penumbra e ela, sozinha. O corpo, cheio de fios ligados a aparelhos, denunciava o seu estado terminal.

    — Mandou me chamar, Maria Helena?

    Ela virou o rosto lentamente em sua direção. Ele pôde perceber, mesmo na penumbra, os olhos embaçados, que nem de longe lembravam o belo olhar que a ex-esposa tinha outrora. Sua cabeça, quase sem cabelos, era agora uma bola acinzentada. O corpo magro e sem carnes parecia ser incapaz de suportar o peso de uma folha de papel. Era um quadro grotesco, difícil de encarar.

    — Queria me ver, Maria Helena?

    Ela emitiu um som débil e fixou seus olhos nos dele. Esticou o braço lentamente para alcançar o interruptor e acendeu a luz. Com o quarto todo iluminado, ele pôde ver o indescritível. Mal teve tempo de sair correndo dali, sufocando um grito, quando ela escancarou a boca sem dentes e expôs as gengivas negras numa gargalhada perversa, sem som e repleta de rancor.

    Na rua, apoiando-se numa parede para suportar a sensação de cair num abismo, ele subitamente compreendeu tudo: ela o chamara para que ele testemunhasse a sua decadência física e guardasse na memória, enquanto vivesse, aquela imagem medonha feita de pus, secreção e toda a crueldade do mundo.

  • O doce Augusto

    Nasceu palhaço, um grande palhaço, mas não se deu conta disso, e ninguém lhe disse. E então passou os anos fingindo uma seriedade que não tinha. Jamais prosperou: nunca foi capaz de cuspir nem dar pontapé no traseiro dos outros ou fingir que gostava de criança, pois gostava de verdade. Era mesmo um palhaço, só que não sabia que era. E por isso foi infeliz.

    Um dia, numa reunião familiar sem importância, disse com voz de falsete: “Definitivamente, não sou ninguém-guém-guém.” E todos estavam de acordo, não merecia consideração um homem frouxo como ele, que não levantava a voz ou batia o punho na mesa para defender suas ideias. Quando por acaso alguém lhe dava ouvidos, não conseguia evitar um sorriso. “Você poderia ser um grande humorista, um palhaço”, costumavam lhe dizer, “sempre teve grande talento para o humor, deveria investir nisso, ganhar dinheiro, ficar rico fazendo graça.” Ele não acreditava e mudava de assunto. Sentia solidão com frequência, mas nunca perdeu o sorriso. E era um sorriso triste.

    Numa dessas festas de casamento, teve oportunidade de exercitar sua verve humorística. Deram-lhe um microfone e ele subiu num pequeno tablado.

    — Sabem qual é o menor circo do mundo? Uma bombacha, porque nela só cabe um palhaço.

    Ninguém riu.

    — E por que um bebê de proveta não pode ser palhaço, alguém sabe? Porque não nasceu gozado.

    Novamente nenhum riso. Ele não conseguiu continuar, ninguém lhe dava a menor atenção.

    A última vez que o vi foi num encontro casual. Ele usava um chapéu-coco de feltro preto. Nos abraçamos com carinho, ele sempre atrapalhado com os braços. Dei risada e quis saber como ia a sua vida, o que fazia para viver.

    — Minha vida vai bem, muito bem, bem, bem. Sou zelador daquele prédio ali na frente.

    — E o humor?

    Ele ficou sério por um segundo. Depois sorriu: “Ora, isso acabou. Ninguém queria saber das minhas piadas. Achei melhor desistir. Aliás, você sabe o que um prédio falou para o outro?”

    Fiz que não com a cabeça. E ele: “Você tem um andar lindo!”

    Deu tchau com os dedos e foi embora, perdido nos pensamentos e tropeçando nos enormes sapatos coloridos.

  • Laranjas azedas com sal

    É pegar uma laranja azeda, cortar exatamente ao meio, e ir colocando sal, aos poucos, em micro-pitadas, à medida em que se vai chupando. Umas três pequenas adições de sal dão conta. O que se sente? Bem. Um pouco do azedume da laranja, um pouco do salgado, obviamente, e, surpreendentemente, um leve sabor adocicado que não deveria estar ali — pois a laranja não é do tipo doce — mas está. Ele transava, desde sempre, experimentações gastronômicas. Contudo, a laranja azeda com sal aprendera com a mãe e com as tias quando ainda menino. Hoje ele é um homem velho a relembrar o seu passado com as cores fortes de um presente que fosse. Cores e sabores, como o da única laranja que neste dia estava em cima da mesa. Para sua alegria, era uma laranja azeda. E ele a chupou com sal. O gosto era de passado.

    No sol da sua longínqua juventude ele se aquecia. Certo dia, muitos anos atrás, perguntaram-no sobre qual era a coisa de que ele mais gostava, no que ele respondeu, depois de pensar um pouco: “ —Maconha e sexo”. Ele não levou mais de trinta segundos para eleger essas duas coisas como as suas preferidas. E pensou em como estava tanto tempo sem fumar um. E pensou também que já não fazia sexo com a freqüência de meses antes — não que n’algum dia estivesse satisfeito com a freqüência de suas relações sexuais. E o fumo… O fato de o fumo ser ilegal o perturbava, pois isso o restringia na impossível liberdade de fumar onde quisesse. Maconha ilegal, sexo restrito. Ah, o sexo… Este requeria um mínimo de paixão, e, ainda, requeria uma outra pessoa, e essa outra pessoa nem sempre estava apaixonada ou presente. Ele buscava na vida o prazer das coisas do corpo – que é o mesmo que alma. Buscava satisfação. Satisfação, para ele, era uma palavra como Comunismo, ou como Extraterrestre: essas coisas que são lindas, mas que não se sabe se um dia poder-se-á ver.

    Numa tarde, ele pegou seu velho carro, que era uma extensão da velha bicicleta — sempre coisas velhas — e foi em direção ao incerto. Uma estradinha de asfalto centenário — datada de quando quase não existia asfalto. O incerto dele nunca era algo muito distante, em termos automobilísticos e viários, dada a situação do tanque com pouco combustível, sempre com pouco combustível. A velha estradinha sempre o esperava. Em silêncio e acolhedora. Ela o recebia, ele, o eterno menino velho — que sempre seria menino e sempre fora um velho –, com seu carro velho e com seu baseadinho, mas sem companhia para sexo. Numa das curvas ele acelerou mais que o considerado seguro, até que colidiu com um animal de grande porte. Era um burro. Na testa agora um pouco de sangue. No burro, caído no chão, não se via sangue, mas se via um animal tentando levantar sem sucesso — provavelmente uma fratura na bacia, ou na perna. Olhou para os olhos tristes, por fim, do burro, que parecia ter, após muitas tentativas, desistido de levantar. Sentou-se na grama, à beira da estrada, a quatro metros do burro e permaneceu, fitando-o. Sentiu vontade de chorar, mas não chegava a chorar em situações trágicas pessoais – os filmes o faziam chorar com muito mais facilidade. A morte de artistas queridos o faziam chorar, fossem contemporâneos seus ou não. Ali não chorou. Aquela situação, no entanto, era muito triste: um rapaz pobre com seu carro velho com o pára-lama direito amassado, sangue descendo na face, um pobre burro deitado na lateral da estrada, a incerteza sobre o que fazer naquele momento. E um burro, por si só, já é uma coisa triste.

    Fugir e abandonar o animal: pensou. Mas que merda… dois burros, sem ação, à beira do caminho: pensou novamente. E pensou um milhão de coisas. E multiplique-se isso pelo efeito da Canabis-sativa em sua mente. Pensamentos de todas as cores, sabores, cheiros, medos e conclusões diversas. Não seria honroso um burro abandonar o outro. Ele pensava em sua honra, ainda que não houvesse expectadores. O sol, o vento frio, o céu que avermelharia com o ir das horas.

    Milagres acontecem. Ela parou seu carro, bem mais novo, vermelho, e o ofereceu solidariedade, perguntando, primeiramente o que havia ocorrido, e como, e o que fazer, e em que posso ajudar, e como posso ajudar, e como isso foi acontecer, e como você pode mesmo ficar aí parado pensando no burro ferido quando podia dar o fora antes que o dono do burro apareça, e achou como ele era bonito, e ele também achou isso dela, e ela pegou na mão dele, e comoveram-se juntos com a situação, e saíram de perto do burro pra pensar na situação sem a imagem triste dos olhos tristes do triste animal, e ultrapassaram uma cerca, e fumaram juntos, e roubaram umas laranjas, e eram azedas, e aquilo era bom, e ela limpou seu rosto com a blusa molhada no riacho, e fizeram amor, e foram felizes, felizes, felizes… Voltando à estrada ela disse: “— Há uma hospedaria de cavalos perto daqui onde podemos avisar que há um pobre burro com a pata quebrada. Tem veterinário lá. Eles poderão dar um jeito. Não precisamos falar que você o atropelou”. E assim foi feito. E assim eles disseram: “— Até qualquer dia!” E eles nunca mais se viram. E o burro viveria feliz até o fim dos seus dias.

    Voltando pra casa com o velho automóvel, de sua pequena viagem, ele trazia na mochila algumas laranjas azedas. Já na cozinha, as chupou com sal.

    *Publicado originalmente no Crônicas Cariocas em seg., 15 de jun. de 2009, 10:21

  • Estou pobre de heroínas…

    Neste site, onde publicamos crônicas, poemas, contos e reflexões, existe uma aba chamada Autores. Lá está a nossa descrição: quem somos, o que nos qualifica como escritores, nossa formação. Enfim, um retrato resumido de cada um.

    Tenho filhos, netos, família e amigos. Estudo. Publiquei livros de contos e crônicas, além da minha autobiografia. Tenho três graduações, fiz pós-graduação e posso afirmar: estudar foi e, ainda é parte importante de quem sou.

    No entanto, minhas referências como autora em “nosso site” são as pautas que me inquietavam quando decidi me dedicar exclusivamente à escrita: envelhecer e parar de trabalhar.

    Dois dilemas que me ocupavam a mente, provocavam reflexões e despertavam temores.

    Águas passadas…

    Aposentei-me entre os cinquenta e oito e os sessenta e seis anos.

    Nesse intervalo, flertei com a leveza de não ter horários, com a liberdade de escapar da rigidez hierárquica, da dureza das opiniões e de tudo aquilo em que me transformara como funcionária pública.

    Passei a ser uma estagiária sênior.

    Gostei! E, quando cansei, deixei de vez a vida pública e me tornei aposentada.

    Quanto ao envelhecer, só me dei conta quando troquei o batom vermelho pelo “cor de boca”; quando substituí os saltos pelos tênis, seja por conforto, seja por questões físicas.

    Aos sessenta e nove anos, saudei a minha velhice com um poema. Fiz isso com galhardia, consciência e verdade.

    Resolvidos, portanto, os dilemas da idade e do tempo ocioso, restava-me outra inquietação: quem seriam, agora, as minhas heroínas?

    As heroínas!

    Aquelas que, das páginas dos romances, nos forjaram, inspiraram, despertaram inveja ou compaixão.

    Mulheres que nos fizeram pensar não só em nós mesmas, mas no mundo, nas relações, em nossos direitos…

    Ou aquelas de quem apenas copiamos modelos de roupas ou frases de efeito.

    As mocinhas destemidas, submissas ou valentes, lindas e amadas.

    E também as que sofriam, ou faziam sofrer, a quem condenávamos ou aplaudíamos.

    Também conhecemos personagens que, mesmo em sua feiúra ou pequenez, nos fascinaram a ponto de não conseguirmos abandonar a leitura antes do fim.

    Mulheres descritas de forma nua e crua, com falhas humanas, como aquela que, ao perder a beleza e os prazeres da carne, passou a comer sem parar até se tornar obesa em Shangri-la, o Horizonte Perdido?

    Ou a governanta cruel de Primo Basílio?

    O que dizer de Madame Bovary, no misto de idealização romântica, insatisfação crônica e busca por relações insustentáveis?

    Tudo mesmo já foi dito, escrito, lido?

    Não haverá mais heroínas que possam me inspirar?

    Ou será que elas continuam escondidas nas entrelinhas, aguardando que eu as descubra, como quem abre uma janela e deixa entrar um sopro de vento novo?

    Quero ainda me surpreender, enternecer, admirar…

    No meio da multidão, no silêncio dos asilos, nos cabelos brancos exaltados pelo modismo, eu busco, eu quero, eu preciso.

    Onde estão minhas heroínas?

  • Na casa do pasto

    Perto do pasto só há uma casa. Em pé na soleira, um homem e uma mulher discutem. Em questão de horas sairá dela outro filho, a parteira já deve estar chegando. As outras crianças, cinco ou seis, já crescidas, brincam na terra com o cachorro.

    Da barriga da mulher escorregou uma menina. Pequena, chorona, magricela, sem muita roupa para vestir, ainda bem que estava fazendo calor. A comida que há na casa do pasto não é suficiente para a fome de todos. A mãe precisa comer mais do que os outros, tem de encher os peitos de leite. O leite vai para a criança que ainda nem abriu os olhos.

    O homem se encarregou de enterrar a menina atrás da casa, abaixo da janela. Cova rasa, que o volume não precisava de muita fundura. Foi sem batismo, porque não deu tempo. Cruz, flores e uma tábua para quem quisesse ler o que estava escrito nela: Marilda. O cachorro vive enfiando as patas na terra em volta da casa, cavucando.

  • BORNOUT

    Nasci um nada. Fui criado para ser um nada. Desde pequeno, nunca soube que o dinheiro pode ser usado para o lazer. Aliás, qual o significado disso? Meus pais só trabalhavam e tudo era minimamente economizado para podermos pagar as parcelas de nossa casa em um condomínio classe média e do carro do ano, a grande paixão do meu genitor. Objetos nos quais ele empregava seu tempo livre e sua matéria.

    Enfim, fui criado para ser insignificante e decidi vencer esse destino.

    Logo aos dez anos de idade comecei a trabalhar vendendo doce na porta da escola. Era onde eu estudava? Não. Para sustentar seus desejos de aparência, meus pais sempre me matricularam em escolas públicas. Longe da minha casa, é claro. Ninguém tinha grana para comprar doce de criança. Então, eu não podia vender lá. Por isso, ia para um colégio de bacanas onde a playboyzada sempre comprava tudo. Nunca soube se era por pena ou só para se livrar rápido de mim. Foda-se, isso não importava, estava fazendo o meu dinheiro.

    Minha relação com a grana sempre foi de respeito. Ao mesmo tempo em que eu queria juntar cada vez mais, tinha medo de ficar deslumbrado e gastar tudo. Por isso, deixava ela lá, guardada, bem no cantinho dela. O único motivo justificável para mexer nas economias era para investir. Sempre buscava novas formas de aumentar minhas economias.

    Trabalhei durante toda a minha infância e adolescência, nunca tive tempo para brincadeira ou para perder tempo com inutilidades. O trabalho era meu único foco. Quando fiz dezoito anos, peguei o que tinha, comprei uma moto, aluguei uma quitinete e sai da casa dos sonhos. Nunca mais voltei a falar com meus pais, apesar de eles terem tentado muito. Eu não tinha raiva deles. O que não tinha era tempo.

    Passava os dias fazendo entregas em meu “amigo” de duas rodas, quase nunca ia para a casa. Quando raramente estava livre, ficava pensando em qual era a utilidade de pagar aquele lugar. Entretanto, logo caia na real. Ali, ao menos, poderia jogar meu corpo cansado quando precisasse. Não dá para morar em uma moto.

    Por esse motivo, meus anos como motoboy foram sempre objetivando comprar um carro. Não queria um modelo pra aparecer para ninguém. Queria um econômico que não quebrasse muito. Trabalhei como boy por cinco anos até tingir esse objetivo.

    Agora, eu precisava de mais, eu sempre quis mais. Meu objetivo era conseguir juntar o meu primeiro milhão. Dá para juntar isso sendo motorista de aplicativo? Impossível? Eu não conhecia essa palavra. Se alguma hora ela viesse em minha cabeça, eu ligava o celular, colocava um vídeo de motivação e assistia focado. Meu pouco tempo livre era unicamente dedicado a assistir um canal de um cara que saiu do nada e ficou rico. Ele ensinava os outros a fazerem o mesmo. Eu ouvia aquilo até cansar para ver se acontecia
    comigo.

    Comecei trabalhando dez horas, muito pouco. Passei para doze, dá pra aumentar. Quatorze, posso fazer um esforço. Dezesseis, foca no seu objetivo. Dezoito? Tá puxado, quase não pareço um ser humano, mas preciso aguentar.

    Certo dia, eu já estava completando umas dezesseis horas de trabalho, meu corpo pedia arrego, mas minha mente me chicoteava pedindo pra aguentar mais. Faltavam “só” duas horinhas. No meio dessa briga, eu apaguei. Quando fui acordar, estava em cima de uma cama de um hospital. Quando acordei, meus pais logo se aproximaram. Olhavam com uma puta cara de tristeza de merda. Eu fiquei puto, falei “o que ta acontecendo“. Minha mãe apenas falou “Filho, sinto muito, você perdeu todos os movimentos da cabeça para baixo“.

  • Uma Noite Alucinante

    zzzzzzzzzzzzz…..

    zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz…….

    Júlio mexeu na cama enquanto se recusava a abrir os olhos. “Pernilongo maldito.” Pensou tentando não despertar por completo.

    SLAP! Uma batida de palma na escuridão, inútil. O diabo do mosquito pousou em seu nariz. “Isso é um despeito.” SLAP!

    “Aí!” Gritou enquanto massageava o nariz e abria os olhos contra sua vontade. Tateou ao lado da cama em busca da raquete. “Agora vocês vão ver seus filhos da puta.” 

    VUSH, VUSH, VUSH. Nenhum barulho; nada…

    zzzzzzzzzzz, Júlio pula da cama irritado e acende a luz. Seus cinco graus de miopia o impediam de distinguir qualquer coisa além dos móveis, ele se arrasta até o banheiro, resmungando enquanto coloca sua lente. Vlad, seu buldogue o encara sonolento, se levanta sacudindo o corpo e desce pela escada recém comprada pela internet seguindo o papai.

    A lente úmida encontra a retina e Júlio se olha no espelho, dezenas de pequenas marquinhas vermelhas cobrem todo seu rosto enquanto a veia da sua testa começa a pulsar, o ódio surgindo de suas entranhas. Ele olha as horas.

    03:15 cedo demais para acordar, tarde demais para voltar a dormir, levantava às seis para passear com Vlad antes do trabalho. Toda sua rotina arruinada por aqueles malditos sanguessugas barulhentos. 

    Furioso, irrompe pelo quarto buscando a raquete, mas seus olhos se arregalaram entre a surpresa e o medo. Milhares de pernilongos vagueavam pelo ar, outros parados na parede, alguns pousados sobre os móveis. Seus dedos se fecham ao redor do cabo e ele começa a balançar a esmo a raquete elétrica, como se estivesse segurando uma espada em um campo de batalha medieval. 

    Vlad corre pela escada, subindo na cama e se juntando no que acredita ser uma nova brincadeira. VUSH, VUSH. NHAC!

    Os olhos de Júlio arregalam ao perceber que Vlad acabara de abocanhar um pernilongo, os dois se olham nos olhos encarando-se por alguns segundos antes do pequeno animal abrir um sorriso e colocar a língua pra fora. Estava inchada.

    O ódio atravessa pelos poros do homem que grita de raiva enquanto continua a matar os mosquitos até que  a bateria da raquete acaba. Furioso, ele começa a usá-la como um martelo, esmagando os pernilongos ao invés de fritá-los com a eletricidade. Um sorriso sádico começa a se formar em seu rosto, uma crueldade que nem mesmo Vlad, sempre tão próximo e tão atento a cada expressão e tom, nunca vira.

    Assustado, o buldogue sai do quarto, deixando Júlio e seu ódio sozinhos com o inimigo. “Morram malditos!” Ele grita em plenos pulmões enquanto esmaga mais uma dezena de pernilongos. “Vai dormir filho da puta!” Uma voz aguda de outro apartamento no prédio urra.

    Percebendo um pernilongo perigosamente perto de seu rosto, Júlio abre a boca e usando a técnica ensinada por Vlad o abocanha. Sente um gostinho de sangue, gosta. Abandonando a raquete ele começa a pular atrás dos mosquitos, caçando-os com seus dentes, engolindo seus corpos inteiros, dois, três, cinco, dez por vez. O sangue se misturando a saliva em seu sorriso macabro.

    Ele arranha a própria pele se coçando cada vez mais, as unhas ferindo a pele, rasgando a carne. NHAC! Júlio abocanha mais uma dezena de pernilongos. Coça a pele, rasga a carne, morde o bicho, o sangue deles se misturando ao seu.

    “Ahhhhhhhhh” Ele urra arrancando um pedaço de seu braço revelando uma outra pele, uma outra forma, ao invés de um braço, uma pata. Seus olhos arregalam aterrorizados.

    Ele senta uma coceira nas costas e não conseguindo se segurar usa a grade da raquete para coçá-la, esfrega e esfrega, com força, violência, ódio.

    Um par de asas rompe por suas omoplatas, elas batem 

    zzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

    seus pés saem do chão, ele flutua. Sorri. Engole mais pernilongos enquanto se despe de sua carne e forma, arrancando por último seu rosto, nenhum outro vestígio de humanidade.

    Vlad volta ao quarto, preocupado, apenas para encontrar um enorme mosquito, o encarando com aqueles olhos gigantes, aquelas presas prontas para consumir sangue. Ele late, uma, duas, três vezes.

    O que era Júlio olha o buldogue à sua frente e pousa ao chão. 

    Silêncio, não haviam mais pernilongos no quarto. Vlad late novamente subindo a escada até a cama, calmamente deitando em seu lugar favorito. 

    Ele vê a pata gigante daquele ser se aproximar de sua cabeça, fazer-lhe um carinho. Ele arfa antes de se ajeitar novamente para dormir. Seu olhar acompanhando aquela figura que encarava a janela como se questionasse seu destino.

    Vlad late e o enorme pernilongo vira aquela cabeça com olhos muito grandes para ele. Late novamente.

    O pernilongo então fecha a janela e se espreguiça ao lado do buldogue. Talvez ainda conseguisse dormir uma horinha antes de acordar.

    FIM

  • A doença

    Olhei no espelho e vi uns olhos que não eram os meus. Esse rosto assim magro, assim pálido, assim descolorido, não era o meu. No entanto, era eu que estava refletido, era eu que me olhava. Baixei os olhos, quem sabe a imagem do outro lado desaparecesse e eu voltasse a me ver como era antes. Levantei o olhar e vi, de novo, esse rosto assim magro, assim pálido, assim descolorido. Suspirei, conformado, e comecei. Passei a espuma nas bochechas e fiz massagem delicada com o pincel. O cheiro era agradável, mistura de menta e madeira. A lâmina descia suave sobre a pele, arrancando os pelos indesejados.

    Então me lembrei dela, a maldita. A lembrança se materializou e ela surgiu atrás de mim, olhando-me calada. Senti um calafrio na espinha e medo, muito medo. Sua imagem refletida no espelho me assustou, sua aparência não era bonita, mas isso não tinha a menor importância, não naquele momento em que uma fera se prepara para o bote. Virei-me e a encarei. Precisei pensar se a deixaria ficar ali ou não. Decidi que não. Disse num sussurro: “Seu lugar é no inferno, não aqui, no meu corpo. Vá!” Sem nada responder, ela me mostrou sua mão e nela havia uma ferida, como a chaga de Cristo, aquela produzida por obra de prego e martelo impiedosos.

    Parei segurando a lâmina no ar, a cara ainda cheia de espuma. Ela tentou grudar a chaga em meu peito, como uma tatuagem, uma identificação. Fiz um gesto brusco: “Não seja estúpida!” Não queria ficar marcado para sempre — “Ali vai o homem marcado, que o destino escolheu. Coitado.”

    “Não seja estúpida!”, repeti. Ela recuou. Olhou com medo para a lâmina que eu empunhava e desapareceu. Voltei a ficar de frente para o espelho e continuei escanhoando meu rosto. A espuma foi sumindo e o que surgiu foi meu rosto limpo, ainda magro, ainda pálido, ainda descolorido. Mas agora já o considerava meu de novo.

  • A extinção dos Bocanegra

    Houve um tempo em que na casa dos Bocanegra a vida era tranquila, quase imóvel. O tempo, para os membros da família, passava como passa o tempo para as vacas num pasto verdejante: sem pressa, modorrento e com fartura de grama para mascar. Uma história pode começar em qualquer lugar e em qualquer momento, e é necessário ter fé em quem a conta para que se acredite no que é contado. Acreditem em mim: a história dos Bocanegra e de sua extinção está cheia de nós, vãos, vazios, fendas, brechas. A existência de razão, ou a ausência dela, depende do ponto de vista pelo qual se escolhe analisar o que aconteceu, mas é a expressão da verdade. Eu vi, eu testemunhei. Acreditem.

    Eis aqui, para quem quiser saber, o triste caso da extinção dos Bocanegra, família que sobreviveu com sucesso aos dinossauros, às pestes em geral, às guerras, às pragas todas, às epidemias e à fome. Chegou bravamente até nossos dias, mas destes não passou.

    ***

    Aos domingos havia o sagrado almoço na casa da velha matriarca viúva, ocasião em que filhos e filhas, genros e noras, cunhados e cunhadas, sobrinhos, primos e agregados apareciam para o beija-mão semanal e para compartilharem a comida, os comentários, as críticas a tudo e os xingamentos distribuídos no ar de maneira indistinta e inconsequente. Enquanto comiam, conversavam, e nisso não havia nada de estranho. O repertório das ideias e palavras jogadas no ar era variado e cada membro tinha pronto o seu pequeno veneno para destilar, tarefa realizada com entusiasmo por todos. Lançavam farpas uns contra os outros entre uma garfada de ironia e um gole de vinho tinto, como costuma acontecer quando há muita gente no mesmo ambiente. À mesa, todos falavam ao mesmo tempo e as opiniões acerca de qualquer assunto eram expelidas da boca junto com a respiração do falante, caíam sobre a toalha de linho ou sobre a porcelana e invariavelmente alcançavam algum ouvido disponível naquele momento. O dono do ouvido disponível fingia não ter percebido a provocação e mudava de assunto. Isso sempre acontecia de forma aleatória, sem prévio acerto entre os integrantes da família. Assim, nunca havia atrito entre eles porque não era possível determinar se alguém tinha ofendido intencionalmente o outro. Tudo muito civilizado, emoldurado por sorrisos amarelos ou francas gargalhadas. Passavam de um assunto morto para um natimorto enquanto devoravam lasanhas, postas de peixe com alcaparras e rosbifes no ponto certo e vermelho da carne. Após a refeição e a sobremesa, o cafezinho e o tradicional jogo de cartas, outra oportunidade para continuarem o lançamento de mais e variados dardos uns contra os outros. No final da tarde, despediam-se com beijos e abraços e confirmavam a presença na semana seguinte.

    A farra dos domingos durou meses, talvez anos. Durou, é forçoso dizer, o tempo necessário que devia durar, porque em qualquer família é assim: nada é, o tempo todo, o que parece ser e nem tudo permanece do jeito que está para toda a eternidade. A convivência, forçosamente, chega a um ponto irreversível de desgaste. E também porque na vida não há nada sem separação, já decretou o compositor, que na mesma canção se conformou: a vida tem sempre razão. Com os Bocanegra não foi diferente.

    ***

    Muitos domingos depois, o clima em volta da mesa beirava o insuportável. A matriarca, que antes tomava sua sopa com os olhos baixos, passou a erguê-los e a encarar cada um dos membros para entender o que se passava em sua família. Nos últimos tempos, o silêncio que de repente se instalou na sala de refeição podia ser cortado com faca, tão espesso era. Possibilitava que todos ouvissem o ruído dos talheres se chocando contra os pratos — isso era assustador! Os olhares, mudos, soltavam faíscas. Aos poucos, as palavras voltaram a frequentar as refeições, mas, quando saíam das bocas, não mais flutuavam aleatoriamente sobre a toalha de linho ou sobre a porcelana. Assim que se desprendiam dos lábios, as flechas verbais iam certeiras para o destinatário, que agora tinha nome e sobrenome. As opiniões, antes inofensivas e etéreas, vinham acompanhadas do olhar fulminante do emissor. Os telefones celulares não tinham descanso e eram usados com destreza para provar de maneira irrefutável o que queriam dizer, desde a cunhada que tinha ingressado na família havia poucos meses e não imaginava que havia bichas no seio de família tão distinta, até o primo marxista que era tratado com deboche. Está no Google, vejam aqui, dizia um agregado para provar uma tese. Eu recebi essa notícia de uma fonte muito confiável do Whatsapp, alardeava uma nora. O sobrinho gay entrava na conversa e, para mostrar erudição, indicava notícias escritas em inglês sobre o assunto que estavam discutindo. As mulheres passaram a se estranhar umas às outras. Uma delas comentou com a sobrinha sobre como aquela cunhada tinha ficado tão vulgar. Onde já se viu usar um decote desses, com a idade que tem? É quase uma centenária, Deus me livre! Pensa que vai arranjar outro amante?, ironizou. Os homens riam na cara uns dos outros, um dizia que tudo iria melhorar no país, o outro retrucava indicando o corredor da casa imensa, dizendo que lá no fundo estava a Idade Média e que lá era o lugar dele. Um outro batia o punho na mesa e quase chorava ao repetir o que tinha ouvido na assembleia do partido: só haverá justiça quando todos repartirem o pão. E engolia com gosto um naco grande de galinha ao molho pardo. Bicha cega comunista, retrucava, entredentes, a cunhada sentada na frente dele.

    As crianças e os adolescentes se divertiam mais, trocando entre si os insultos e impropérios que aprendiam na escola e nos sites da internet. Eu vou fazer um golden shower em cima de você, riu o adolescente, ameaçando abrir a braguilha e olhando para a priminha de cinco anos.

    O barulho de murros dados na mesa tornou-se uma constante durante o almoço de domingo. Nos duelos verbais, nem um só laço afetivo permaneceu apertado. Ninguém mais ficava para o cafezinho ou para o jogo de cartas. E assim as reuniões semanais deixaram de acontecer. A matriarca passou a tomar sozinha o seu prato de sopa enquanto dedilhava a tela do celular à cata de notícias de que gostava de ler, enviadas por um afilhado trumpista roxo que morava nos Estados Unidos. Ainda vou morar naquele país, pensava a velha. O silêncio era total na mesa em que agora só estava sentada uma pessoa. A estupidez, por fim, fizera morada na mesa dos Bocanegra.

    ***

    Hoje mal se falam. Ou melhor, hoje não se falam. Quando se encontram por acaso no centro da cidade, fingem que não se conhecem. Mudam de calçada. As mulheres não frequentam mais o mesmo salão de beleza nem pisam no mesmo shopping. Os homens fizeram o que nenhum homem faz: passaram cada um a torcer para time diferente de futebol (não queriam correr o risco de terem de se abraçar para comemorar o mesmo gol) e também mudaram, cada um, o banco onde guardavam o dinheiro investido para o futuro das crianças. Não se cumprimentam mais nos aniversários. Assim como os almoços de domingo, a família deixou de existir. Têm poucas fotos juntos, que não dão para encher um álbum. Não deixaram rastro de sua passagem por este mundo. Elo frágil de uma apodrecida cadeia de relacionamentos, os Bocanegra sucumbiram à era da falta de delicadeza e de empatia e desapareceram da face da Terra. Como aconteceu um dia com os dinossauros. Só que, destes, conhecem-se as pegadas e o esqueleto. Daqueles, nem isso.

  • Um dia, uma mosca

    Ainda que não soubesse, não percebesse nem desconfiasse, ele estava esperando por ela. O seu corpo engordurado de suor era como um pote de mel para a mosca que entrou pela janela e se precipitou em voo rasante na direção dele. A modorra da tarde, o calor entorpecente, a ausência de vento e a sala vazia não fosse ele ali deitado, lendo: a mosca recém-nascida começava a apreender o mundo.

    Ele a afasta com um gesto de mão, inútil, os olhos postos no livro. Não entende que, naquele momento, está convertido num banquete de oito talheres para um ser faminto. A mosca volta a se aproximar, sem cautela, decidida. Quer lambê-lo, acariciá-lo, beijá-lo, chafurdar nas lagoas de suor formadas entre as dobras da pele. Amor: ela ama e é dessa maneira que ela ama. Novo desprezo, gesto de mão mais enérgico, tão inútil quanto o anterior. Ela o olha, pousada na borda da mesa. Ele não se dá conta, entretido na leitura, embora tenha perdido um pouco a concentração. É difícil manter-se atento às palavras impressas quando uma mosca – a sua mosca! – está aí tão perto.

    Ela o estuda. Prepara nova investida, tomada pelo desejo incontrolável, lascivo, de se misturar ao cheiro podre que emana daquele corpo suado. Rechaçada uma e outra vez pela mão violenta dele, ela pousa não muito longe dali, perto da janela. Uma lâmina aquosa quase imperceptível desliza, como orvalho, por seu rosto diminuto e brilha durante um décimo de segundo sob o sol daquela tarde. Ela chora a rejeição. Pouco tempo depois estará morta, possivelmente esmagada pelo tapa que ele lhe dará quando ela menos esperar. Pronto. Assim, ele voltará à leitura e à tarde modorrenta, e continuará a suar sem ter nunca a consciência de que um dia houve uma mosca que o amou mais do que ninguém.

  • Juno

    — Não tenha vergonha de olhar para mim.

    Ele falava com uma senhora muito elegante, cujo cão tinha parado para fazer suas necessidades perto de onde ele estava sentado, sobre um papelão sujo, com as costas apoiadas na parede de uma padaria no centro de São Paulo. A senhora, que esperava o bicho se aliviar, olhava de soslaio para ele: o corpo magro, a barba branca que lhe cobria quase o rosto todo, os cabelos compridos e também brancos, os andrajos imundos, os pés pretos de sujeira enfiados em velhas havaianas, uma mochila surrada ao lado. Perto, um copo de plástico com duas ou três moedas, uma garrafa de água, um guarda-chuva, uma sacola de supermercado com algumas frutas.

    — Não tenha vergonha de me olhar, já estou acostumado. Posso suportar. — Ele repetiu, esboçando um sorriso.

    A senhora se agachou com um saco plástico na mão para recolher o cocô do cachorro e, ao se levantar, manteve os olhos baixos.

    — O senhor pode suportar, mas eu não. — A mulher deu um nó no saco plástico com as fezes do animal e olhou em volta, procurando a lata de lixo mais próxima.

    — Senhor não, não precisa. Pode me chamar de você. Meu nome é José Núncio. A turma me chama de Juno.

    — Maria do Carmo. Desculpe, o meu cachorro fez sujeira bem perto de você.

    — Não tem problema. Vejo que você carrega um livro.

    — Sou professora. De História.

    Juno pegou a mochila e tirou de dentro um exemplar de História do Mundo Contemporâneo: um velho livro de bolso com as folhas encardidas pelo manuseio.

    — Já li outros livros, mas este foi o único que me sobrou. Ler é instrutivo e eu gosto muito.

    — Ler é uma das coisas mais importantes da vida. — Maria do Carmo concordou, ainda procurando onde jogar o saco com o cocô do seu cachorro.

    — Uma vez ouvi dizer que só existem duas maneiras de se ganhar conhecimento: viajar e ler. Como não posso viajar, eu leio.

    — Se você quiser, amanhã trago outro livro para você.

    — Como não vou querer? Se puder, me traga um sobre o mundo antigo, para comparar com esse de história contemporânea que tenho aqui. Ficarei agradecido.

    Maria do Carmo fez um aceno com a cabeça e se despediu. Andou oito ou nove passos e voltou para deixar algumas moedas no copo de plástico.

    — Não precisava ter se incomodado.

    — Não foi nenhum incômodo.

    — Deixe comigo também o saco de cocô do seu cachorro. Tenho que me desfazer do meu cocô também.

  • ESCOLHAS

    Pode-se não dizer nada (e isso talvez não seja tão difícil). Pode-se guardar as palavras, esquecer os substantivos, calar os adjetivos, ignorar os verbos. Pode-se não pensar no toque de peles mornas nem em anoiteceres compartilhados, muito menos em entardeceres com cheiro de comida. Pode-se não intuir nem imaginar. Pode-se tirar tudo da frente dos olhos: os relógios, os mapas, as geografias, as histórias, as memórias, o passado e o futuro. Pode-se não ler livro algum. Pode-se ler todos os livros. Pode-se queimar todos os livros do mundo. Pode-se cancelar os nomes e as coisas, confundir as línguas, negar as emoções, camuflar as lágrimas, dissimular os sorrisos, refrear os abraços, interromper os diálogos, prantear ou não os mortos. Pode-se fingir que a lâmina não fere rente.

    Pode-se fazer tudo isso e segurar as consequências nos dentes. Ou então se sentar na frente de uma montanha, passar a vida contemplando-a e morrer lentamente de morte natural.

    Está posta a escolha.

  • Agora não é hora

    Agora não é hora, e peço que não me perguntem quando e como aconteceu. Se fazia frio ou calor, se a lua estava cheia girando no céu ou, ao contrário, se havia nuvens se juntando para a conspiração da chuva, se a cidade estava tranquila ou era o formigueiro habitual de cotovelos se chocando, se os pássaros gloriosos de Harold e Maude singravam a amplidão ou se havia quietude no firmamento, se os carros tiravam faíscas do chão ou se o asfalto dormia seu silêncio: não me perguntem nada, nem queiram saber de nada.

    Perguntem-me, isso sim, se me lembro de sua blusa florida aberta até a altura dos seios, de sua saia rodada que terminava perigosamente na altura dos joelhos, de seus sapatos pretos que faziam círculos na terra sob o banco em que estávamos sentados sob aquele céu, naquele parque, naquele dia. Não tenham receio de querer saber se ainda me recordo de seu pescoço descoberto, com a cascata de cabelos cuidadosamente depositada sobre um dos ombros, deixando o outro exposto para a contemplação e o desejo. Sim, disso tudo eu me lembro.

    Minhas retinas também não esquecem suas mãos, sempre nervosas, seus olhos, inquietos todo o tempo, e seus lábios, de onde saíram as palavras que me mataram por dentro. Perguntem-me sem medo se ainda sinto o contato de seus dedos no meu rosto, nas minhas pernas, no meu cabelo, mas não queiram saber se havia pessoas ao redor ou se algum cachorro latiu naqueles momentos intermináveis de agonia. Disso eu não sei.

    Perguntem-me pelo rosto dela, ainda que não saiba defini-lo nem descrevê-lo e ainda que ele esteja gravado em minha memória. Mas não me perguntem pelas lágrimas que brotaram daqueles olhos, por aquela forma de chorar que me cortou o coração, que era a forma líquida, junto com a concretude das palavras, de me matar. Nem falarei de como ela enxugou o rosto com o dorso das mãos, de como se soltou de meus braços, de como se levantou e caminhou pelo parque, se distanciando de mim, perdendo-se entre as pessoas, sumindo na cidade para entrar definitivamente nos meus sonhos: ela, convertida em sombra; eu, em nada.

    Eu sou esse nada sentado sozinho nesse banco, nesse parque, sob esse céu que ainda não se decidiu se despeja a chuva ou se mantém lá no alto a lua cheia girando sem sentido, sem razão, sem porquê. Mas não me perguntem nada, agora não é hora.

  • O velho piano

    Com as costas curvadas e as mãos apoiadas nos joelhos, o velho Amadeu contabilizou o produto de sua semeadura: recolheu duas cenouras que tinham brotado no meio das alfaces e das couves. Gostou da surpresa. Analisou e viu que as cenouras eram boas. Preparou e comeu uma salada fresca no almoço. No mesmo dia, resolveu experimentar algo novo: plantou no meio das abobrinhas uma flauta, um violino, duas partituras de Bach e um Dó Maior. Cobriu tudo com muito cuidado, apalpou com força a terra, regou e foi descansar. Sentou-se na varanda e contemplou o bom trabalho que fizera. Cuidou da plantação por dias, semanas. Arrancou as ervas daninhas e nunca deixou que faltasse água. Uma manhã, quando abriu a janela, gritou de alegria. Chamou os vizinhos e apontou sua horta, onde reluzia um majestoso piano de cauda.

    Tinha brotado ali, por sua dedicação e cuidado, o mais belo piano de cauda que todos jamais viram. A notícia correu a cidade e virou assunto de todas as conversas. Logo a multidão chegou para ver e passar os dedos sobre a madeira cintilante. Discutiram sobre a excelência da marca, a qualidade das teclas, o branco tão branco e o negro tão retinto que até doía nos olhos. Que instrumento imponente! Não tardou os professores e artistas da cidade organizaram concertos, aulas de música a preços camaradas, concursos para descobrir novos talentos musicais em toda a redondeza. O velho Amadeu não cabia em si de contentamento. Quando perguntavam, dizia que o segredo daquilo tudo era… um segredo. E mais não contava.

    Numa tarde de abril, o velho Amadeu levou as mãos ao peito e fechou lentamente os olhos. Estava sentado na varanda olhando o piano no meio de sua horta. Pensava nas belezas sonoras que brotariam daquela madeira reluzente. Quem o encontrou disse que ele partira com um sorriso.

    O tempo e sua crueldade se encarregaram de diminuir o viço daquela novidade extraordinária. Uma manhã, quando somente os passarinhos visitavam o piano e o limo cobria quase todo o teclado, veio uma máquina e levou o velho instrumento para o depósito municipal de sucatas e ferro velho. E lá ele permanece até hoje, silencioso e coberto de poeira, ao lado do projetor de filmes, dos aparelhos de som, do foguete espacial e de outros objetos que já não têm mais nenhuma importância ou serventia nos dias de hoje.

  • Striptease

    De longe, só se vê que há luz no quarto, mas pouco se distingue o que acontece lá dentro. Com meu binóculo, escondido atrás da cortina no apartamento do prédio em frente, tenho visão privilegiada e posso ver tudo com detalhe. Posso vê-la tirar a roupa, por exemplo. Como agora. Ela acabou de entrar. Jogou a echarpe no chão e sentou-se na borda da cama para tirar os sapatos de salto. Joga-os num canto. Começa a desabotoar a blusa. Noto que está um pouco mais cansada do que o habitual, há rugas acentuadas na testa, olheiras fundas. Imagino o dia puxado de trabalho que ela teve e me comovo.

    Agora de pé, ela abre o zíper da saia e a deixa cair até os tornozelos. Com um movimento da perna direita, joga a peça em cima da cama. Vai de um lado ao outro do quarto, olhando em volta, como se procurasse algo. Para e inclina-se para tirar a meia-calça, que larga no chão. Assim, de blusa e calcinha, descalça, solta o coque e balança a cabeça enquanto os cabelos lhe cobrem as costas. Parece que encontrou o que buscava. Acende o cigarro e fuma na frente da janela, olhando o movimento da rua.

    Volta-se para dentro e apaga o cigarro no cinzeiro da mesinha de cabeceira. Retorna ao ritual de desnudamento. Tira as rugas, aquelas que ainda povoam seu rosto e que resistem ao creme hidratante usado diariamente. Arranca também as manchas dos braços e as olheiras escuras que lhe fazem penumbra nos olhos. Desfaz-se completamente das varizes e estrias das coxas e panturrilhas. Aos tufos, e com movimentos bruscos das mãos, livra a cabeça dos indesejados cabelos brancos que envelhecem a moldura de seu rosto. Olha-se de costas no espelho grande da penteadeira e arranca de uma vez a gordura acumulada nas nádegas. Agora de frente, elimina por completo, com a ajuda de uma esponja, o olhar sombrio que tinha até então. Esfrega os seios e o sexo, empurrando para o chão todos os homens que escreveram a história de seu corpo. Por último, respira fundo como se precisasse tomar coragem e puxa de uma só vez a cicatriz da cesariana.

    Completamente nua, o olhar sereno, fecha as cortinas e apaga a luz.

  • Uma nova quadrilha

    Carlos gostava dos dias frios. Laura, dos ensolarados e quentes. João, dos chuvosos. Laura assistia a todas as telenovelas. Carlos, às partidas de futebol. João preferia os livros. Laura falava muito, sempre. Carlos, um pouco menos. João, só o necessário. Laura acreditava em Deus sobre todas as coisas. Carlos era ateu. João, agnóstico. Carlos adorava dançar e era ótimo nos bailes. Laura gostava mais dos concertos; ficava louca com Debussy. João era cinéfilo e sabia de cor os diálogos de Cidadão Kane. Laura se vestia com simplicidade e descontração. Carlos sempre combinava o sapato com o cinto. João não abria mão do jeans e camiseta.

    Carlos, Laura e João eram grandes amigos. Colegas de faculdade, não se largavam. Iam os três ao cinema, para que João ficasse feliz. Ou aos concertos, para que Laura pudesse chorar de tanta emoção. E aos bailes, para que Carlos mostrasse suas habilidades de bailarino. Laura amava Carlos, mas não era correspondida porque Carlos amava João. E João não escondia sua paixão por Laura. Até que Laura, num concerto de Stravinski, conheceu Edgar e se casou com ele (morria de medo de ficar para tia). Carlos mudou de sexo, adotou o nome artístico de Kátia e fez carreira como cantora lírica na Itália. João ficou solteiro e tornou-se escritor; Laura, Edgar e Kátia foram convidados para o lançamento de seu primeiro romance, Quadrilha

  • Os esquecidos

    Existe esse bairro do qual pouco se ouve falar, encravado na periferia extrema de uma grande cidade. Um lugar miserável feito de papelão, barro e lata velha, com cadeiras coxas nas portas e arremedo de jardim sem flores debaixo das janelas. Nesse ermo, sempre deixado de lado, vivem os esquecidos, uma gente feia à qual a gente da cidade entende por bem dar as costas. É um aglomerado de mortos-vivos que perambulam, comem quando conseguem o que comer, transformam coisas em cores e só têm olhos para onde seus pés pisam.

    Um dia desses, um dia qualquer desses, algo surpreendente aconteceu no mundo. A terra tremeu e rachou, o mar se agigantou para além do que é ser gigante, bilhões de insetos romperam os ovos ao mesmo tempo, a lavoura secou, os animais caíram doentes, os homens e as mulheres sentiram o pavor na pele e choraram pelo destino de seus filhos. A água que se bebia ficou podre, a comida escasseou, o mato cresceu e tapou a paisagem, uma enfermidade veio após a outra, o ar se encheu de poeira, a lua se aquartelou atrás de um planeta desconhecido, o sol perdeu seus raios e pareceu esfriar.

    Enquanto tudo isso acontecia, o bairro dos esquecidos, de tão esquecido que era, foi deixado de lado. Em lugar já tão miserável, não havia espaço para mais miséria. Quis a sorte que as latas velhas e as pessoas que viviam dentro delas sobrevivessem ao apocalipse.

    Agora é com eles, com os esquecidos, e só com eles, que está esse negócio de crescer e se multiplicar de que falava um tal livro que eles nunca leram.

  • Diário do comandante do grupo de sobreviventes

    Segunda-feira, 15 de março

    Cruzamos a linha que tínhamos marcado no chão como limite infranqueável e com isso provocamos esse desastre que nos trouxe até aqui, à beira do abismo. Fomos imprudentes e as consequências não tardaram. Acredito que nada possa piorar. É grande a sensação de que fodemos com tudo. Quase podemos sentir a respiração dos inimigos em nosso pescoço, o bafo quente deles em nossa nuca. Estamos vulneráveis, mas ainda armados e lutando e nos defendendo todos os dias. Abatemos três esta manhã.

    Sexta-feira, 26 de março

    É hora de levantar e respirar um pouco. Temos que recobrar os ânimos e buscar a cor verde para alegrar as pupilas de todos. Precisamos ver árvores, florestas, bosques, passarinhos piando entre as folhas. Para onde estendemos os olhos só vemos o cinza, a fumaça, o céu preto. Está na hora de nos abraçar e começar de novo. Necessitamos de um pacto entre nós. Sobreviver, para poder viver.

    Tenho animado a tropa na medida do possível, quando o tiroteio dá uma trégua. Não está sendo fácil, mas vou conseguir.

    Quinta-feira, 2 de abril

    Esse tem sido o meu maior erro nos últimos tempos: ignorar a verdadeira natureza do ser humano, que é capaz de produzir o desastre mais inacreditável sobre ruínas já existentes. Não nos contentamos com o ruim, queremos sempre chegar ao pior.

    Perdemos o Desidério, ele se deu mal no corpo a corpo com o inimigo. O Anacleto pisou numa mina que estraçalhou seu corpo, tivemos que enterrá-lo aqui mesmo, perto da trincheira. O Negro quase pisou também, mas viu a tempo e conseguiu se salvar.

    A comida está perto de acabar. A água também. Todos comemos uma vez só ao dia. Estamos economizando a ração que nos resta.

    Aqui o tempo demora a passar. Às vezes parece que nem passa.

    Quarta-feira, 15 de julho

    Não há mais razão para continuar lutando. Tudo degringolou de maneira que ninguém poderia imaginar. A catástrofe de alguns meses atrás foi somente um prelúdio inocente em comparação com o que ocorre agora. Estou escondido numa cova com uns poucos soldados. Eles resistem com bravura, mas não sei por quanto tempo estarão dispostos. Eles são cada vez em menor número e dia após dia perdem o entusiasmo. Tenho que ser criativo para animar a tropa. Não é sempre que consigo.

    Sexta-feira, 17 de agosto

    A bravura dos soldados se esfumaçou. A vida deles também. Enterrei um ao lado do outro. Pus um pedaço de tábua com o nome de cada um para identificar quem era quem. Fiquei só. A comida está no limite. Água, só a que está dentro do meu cantil.

    O tempo ainda demora muito para passar.

    Sábado, 18 de agosto

    Esta guerra, qual é mesmo a razão dela? Já não me lembro mais por que tudo começou. Ou como viemos parar aqui. Ou quem nos mandou para cá. Não vejo a hora de voltar para casa, tenho muita saudade.

    Domingo, 19 de agosto

    Estou só. O inimigo teve tantas baixas quanto nós. Percebo que no outro lado há apenas um também. Já o localizei com a mira telescópica da metralhadora e tenho a cabeça do sujeito no alvo. Sei que ele também aponta sua arma para o meio da minha testa.

  • Os imitadores

    São excelentes na arte de fingir que vivem e que respiram como nós. Imitam com tanta perfeição os movimentos humanos, que só a constante e mecânica repetição de gestos e olhares os denunciam como bonecos de palha. Homens, mulheres e crianças vagam pelas ruas e cidades parecidos com o que pretendem ser e são bastante convincentes. Só não têm alma ou qualquer vestígio de emoção. Não salivam de alegria na frente de um sorvete de morango nem piscam de excitação diante de uma obra de arte. Nada os desequilibra ou impede que se multipliquem e invadam todos os lugares, casas, restaurantes, escolas, museus, parques, transporte público. Estão por toda parte e é fácil identificá-los: orgulham-se de sua semelhança com os humanos e demonstram isso falando alto em público e gargalhando de maneira esganiçada para chamar atenção.

    O dono desses seres exercita sua habilidade criadora nos menores detalhes: forja à perfeição o brilho da pele, o volume da carne, o torneado dos músculos, o arregalado dos olhos, o floreio das mãos, o sorriso na visita ao zoológico. Um homem tem tique nervoso, uma mulher esboça de maneira permanente um meio sorriso, uma criança resfriada engole o muco que desce do nariz como se fosse gelatina.

    Tudo transpira a humano, mas não é. São criaturas manipuladas como títeres, sujeitadas por cordões invisíveis e se movimentam e agem de acordo com a orientação que receberam quando vieram à luz: “Façam o que os humanos fazem, suguem como esponja as palavras e os gestos deles, misturem-se à multidão, aos pedestres que zanzam nas ruas e avenidas. Em pouco tempo serão como eles são. Boa sorte a todos.”

    Se são quase perfeitos na imitação da vida, eles se superam na perfeição absoluta da morte: quando ela está para chegar, o rosto deles é tomado por uma palidez inicial e, aos poucos, ganha tonalidades intensas de vermelho, marrom ou roxo, o corpo perde os movimentos e a elasticidade e, de maneira surpreendentemente rápida, apodrecem. O destino, implacável, cuida do resto: a sobrevida dessa gente artificial se dá por pouco tempo, em alguma fogueira aleatória. É no meio das chamas que estrebucham pela última vez, contorcendo o corpo e agitando os membros em súplica. Transformam-se rapidamente em cinzas, que é o fim de tudo o que cai na língua do fogo. O vento termina o serviço.

  • CINZAS

    As cinzas dele

    “Espero que me perdoe, querida, pelo trabalho que lhe dou como meu último desejo.” Assim terminava a carta que ela leu com alguma indiferença. Era um pedido do marido (nem quando morto ele deixava de incomodar), que a essa altura estava convertido num montinho de cinzas. Saiu do crematório com a urna embaixo do braço. Pensou durante uns minutos. “Não vou dirigir duzentos quilômetros até o litoral nem morta.” Foi para casa. Parada no meio da cozinha, olhou em volta. Descartou de imediato, por uma questão de higiene, as panelas, a batedeira elétrica e o liquidificador. Pelo mesmo motivo não considerou a banheira nem o bidê. Decidida, foi até a área de serviço e jogou as cinzas na lavadora de roupas. Adicionou uma colher de sal. Escolheu um programa de lavagem rápida e ligou a máquina. Olhou o giro do tambor por alguns minutos, apreciando como as cinzas se misturavam à água salgada. Não era mar, mas parecia. Deu como cumprido o último desejo do marido. Que Deus ou Seja-Lá-O-Que-For o tenha. E pronto.

    As cinzas dela

    Tu tranquila aí, meu bem, que teu marido aqui ainda tem sangue, nervos e coração. Tô com um dilema, matutando aqui, mas vou resolver isso logo. Tu fica aí, quietinha e sem medo, que as coisas se ajeitam. Hum… O vaso grego, tá lembrada? Vai ser dentro dele, acabei de decidir. Sou muito rápido pra cuidar desses assuntos, tu me conhece. Tu quis comprar esse troço cafona porque combinaria com as almofadas do sofá, foi assim que tu disse, mas no mês seguinte tu trocou a estampa das almofadas, tem cabimento? Agora o vaso não combina com porcaria nenhuma nem tem serventia. Bem que pensei em usar a peça como bebedouro do Pipoca, ou então encher de terra e plantar margaridas, mas desisti. Fique sossegada, nada de terra aqui, que não sou um homem desalmado, ora bolas. Não me esqueci da paúra que tu tinha com a ideia de um monte de terra em cima de ti, por isso mandei te cremar. Agora tu é esse montinho de cinzas e não precisa temer mais nada. Tua última vontade foi cumprida: não vai ter terra em cima do teu corpo mirrado. No máximo, coloco na boca do vaso aquela toalhinha de crochê que tua mãe deu, que é pra não entrar bicho. Assunto enterrado, ops, encerrado.

  • O Sótão

    Se desejava chorar, a avó subia até o sótão. Ali cobria o rosto com as mãos para, inutilmente, conter as lágrimas, imaginando que ninguém a escutava. As crianças todas íamos devagar e colávamos o ouvido na porta. Ouvíamos quando ela suspirava, quando assoava o nariz no lencinho, quando ficava em silêncio, esperando que a calma secasse seus olhos. Se algum de nós ficasse com dó e fizesse menção de entrar para fazer um carinho em sua cabeça, a mãe nos impedia com um gesto de “deixe que isso logo passa”.

    Quando queria rir, a avó também subia para o sótão e gargalhava de quase se acabar. Também nessas ocasiões íamos pé ante pé e ficávamos escutando o riso atrás da porta. Mãe dizia que, se o caso era de riso, podíamos entrar no cômodo e rir junto com a avó, mas preferíamos ouvir as gargalhadas ali mesmo, diante da porta fechada.

    Um dia, a avó resolveu que nunca mais iria chorar ou rir, nem que tivesse vontade. Desde então, nós, em dias alternados da semana, subíamos até o sótão para rir ou para chorar. Ignoramos se a avó nos escutava atrás da porta.

  • A Pílula dos Sonhos Eróticos

    O nome do negócio é Reveride. Uma pílula azul-turquesa, lisinha, meio translúcida, parecendo bala de hortelã gourmet. E a promessa? Simplesmente esta: você escolhe com quem quer sonhar, o cenário, a trilha sonora — tudo sob medida, como um delivery de delírio.

    Na primeira noite, fui de Emmanuelle, interpretada por Sylvia Kristel, claro — aquela do olhar lânguido e voz de cigarro francês. Estávamos num hotel à beira-mar em Saint-Tropez, quando ela apareceu de biquíni, sentou no guidão da minha bicicleta e mandou eu pedalar devagar. E eu, obediente, pedalei como se o paraíso fosse logo ali na curva.

    Na noite seguinte, o algoritmo me leu por dentro e trocou a musa. Veio Mônica Bellucci, em carne, osso e vestido colado de “Malèna” — aquele filme que tirou minha virgindade cinematográfica e me deixou três dias sem conseguir olhar uma bicicleta sem tremer. Ela passou por mim em câmera lenta, cabelo ao vento, e eu senti na espinha a puberdade inteira voltar.

    Depois veio Leila Diniz. A de “Todas as Mulheres do Mundo”, claro — deusa absoluta dos meus delírios juvenis. Foi por causa dela que gastei pequenas fortunas na locadora do bairro, sem contar os atrasos e as multas acumuladas como pecados reincidentes. Só pra ver aquela cena outra vez, e mais uma, e só mais uma, juro que é a última.

    Mas, no sonho, a atriz favorita não tirava a roupa — me dava um biscoito, um abraço e um beijo na bochecha. E era isso. Nada de gemidos, só um cafuné e cheiro de bolacha de maizena.

    Ah, mas quer saber? Ruim não era. Tinha um conforto ali, meio bobo, meio materno, como cochilar no sofá com novela ao fundo. Era desejo reciclado em ternura.

    No outro dia, o cenário mudou. A filha do vizinho, aquela que nem me cumprimentava, apareceu de biquíni, com o olhar misterioso, e me levou para o quarto. Chegando lá, se transformava num gorila gigante, me arrastava para um circo bizarro e começava a me fazer correr em volta da lona, enquanto socos iam estourando nas paredes. Eu fugia, tentava me esconder, mas era como se ela estivesse sempre atrás, esperando o momento certo para me caçar. Quando eu acordava, suando frio, o som do punho batendo na parede ainda ecoava na minha cabeça.

    Por fim, larguei o Reveride e as fantasias. O desejo, esse touro bravo, recusa-se a ser domado, previsível, clichê. Eu, que nunca tive vocação para toureiro, prefiro hoje a vida real — imprevisível, cheia de surpresas. Algumas boas, outras nem tanto. Mas é a vida que se entrega, sem promessas, sem pílulas mágicas. Só o que é, e o que virá, para bem ou para mal.

  • Invenções

    Quando o primeiro homem pôs os pés na Terra e esticou os olhos em volta, viu que estava vazia e que era um desperdício tanto espaço ocioso. Passeou um pouco por ali até ficar entediado e cansado, já que, quanto mais andava, mais distância descobria. Aqui falta alguma coisa, pensou, uma coisa com quatro pés para uma pessoa se sentar em cima e descansar. Inventou a cadeira. Sentou-se e ficou horas admirando o horizonte. Wonderful. Mas não foi suficiente, ainda faltava alguma coisa. Falta uma coisa com quatro ângulos retos para esticar as pernas embaixo e descansar os cotovelos em cima. Inventou a mesa. Sentou-se na cadeira, esticou as pernas sob a nova invenção e apoiou os cotovelos em cima. Gastou mais horas apreciando o horizonte. Wonderful.

    Logo o homem percebeu que o vento começou a soprar mais forte e que o céu tinha se tornado escuro. Não demorou a sentir os primeiros pingos da chuva sobre a cabeça. Choveu muito. This is no wonderful. Pensou que ainda faltava alguma coisa, uma coisa com outra coisa em cima, que me proteja do vento e da chuva. Inventou a casa. E inventou as paredes, o telhado, a porta e a janela. Assim, confortável e seco, entrou e fechou a porta, sentou-se na cadeira, esticou as pernas sob a mesa, descansou os cotovelos em cima e admirou por horas a chuva pela janela. Wonderful. Foi então que viu outro homem caminhando sob a água, perto de sua casa. Ouviu as batidas na porta e correu para abrir.

    — Com licença, posso me abrigar aí dentro? — perguntou o visitante encharcado.

    — Please, come in. Entre, por favor.

    Enquanto admiravam a chuva pela janela, conversaram muito. O dono da casa falou sobre suas invenções: a cadeira para sentar, a mesa para esticar as pernas embaixo e descansar os cotovelos em cima, as paredes e o telhado para abrigar-se da chuva, a porta para abrir e a janela para olhar para fora. O visitante analisou todas as coisas inventadas e elogiou o trabalho de seu anfitrião, que perguntou:

    — E o que você tem feito ultimamente, my dear friend?

    O visitante ficou calado. Não se atreveu a dizer que tinha sido ele o inventor do vento e da chuva, porque lá longe, onde vivia, estava insuportavelmente quente e o sol queimava a sua pele. Então tratou de inventar o vento e a chuva para refrescar um pouco aquele verão que parecia ser eterno. Tinha inventado também o trovão e seu barulho assustador, porque o silêncio ao redor de onde morava era insuportável. E os raios para iluminar a escuridão, porque com a tempestade o céu ficava escuro e não se via mais nada. Mas o visitante não contou sobre suas invenções. E os dois homens ficaram quietos, admirando por horas a chuva e o horizonte pela janela.

  • Cecília, Paulo e Lucas

    Lucas tem sete anos e mora com Cecília. Cecília é sua mãe. Lucas passa os fins de semana na casa de Paulo. Paulo é seu pai.

    Paulo e Cecília não moram juntos há muito tempo, desde que Lucas tinha um ano. Ou desde que Paulo deu a primeira e única bofetada no rosto de Cecília. Cecília ficou três dias com o olho direito inchado. Saiu sangue de seus lábios. Paulo e Cecília brigaram na frente de um juiz pela guarda de Lucas. Cecília ganhou, era a mãe do menino e esse foi o desfecho natural. Cecília e Paulo quase não se falam, só o necessário e só quando o assunto é Lucas. A escola de Lucas, a saúde de Lucas, as roupas de Lucas, os sapatos de Lucas, o videogame novo de Lucas.

    Paulo vai à casa de Cecília toda sexta-feira à noite para pegar Lucas e todo domingo no fim da tarde para devolver Lucas. Lucas passa os fins de semana jogando videogame e vendo filmes com o pai. Os dois gostam de filmes com muita ação. Quando o bandido toma um tiro, Paulo grita Chupa! Lucas repete Chupa! Lucas se diverte muito vendo filmes com seu pai.

    No último domingo, quando devolveu Lucas para a mãe, Paulo falou: O menino tá com caspa e tem dificuldade com a matemática. Paulo falou essas coisas sem olhar nos olhos de Cecília, como se o problema fosse dela. Cecília passou a semana inteira tentando acabar com as caspas de Lucas. Comprou xampu anticaspa, loção anticaspa, creme anticaspa. Gritou com ele, atrás da porta fechada do banheiro, para esfregar bem a cabeça e o cabelo no banho. Também gastou toda a semana discutindo com Lucas para largar a porcaria de videogame e estudar matemática. Lucas detestava matemática e ficou com raiva de Cecília. Ficou com muita, muita raiva de Cecília.

    Nessa sexta à noite, enquanto Paulo o esperava no carro, Lucas não quis se despedir de Cecília com um beijo, como costumava fazer. Só falou: Estou com raiva de você, vou pedir pro meu pai te cobrir de porrada.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar