COntos

  • O SACRIFÍCIO

    Dinah, nascida da mãe de Caim e Abel, era irmã desses dois. Irmã legítima, de mesmo sangue, mas diferente pelos músculos menores, pelas tetas, pelas pernas roliças. Diferente também por dentro: tinha útero. Olhavam-na. A mãe: “É uma mulher como eu, quando chegar o dia certo vai sangrar no meio das pernas.” O pai: “Não tem força pra me ajudar na lavoura, não serve de muita coisa.” E os irmãos: “É como uma ovelha, só que maior; quando chegar a hora, Deus se agradará de uma oferta assim gorda.”

    Tempos mais tarde, a família colocou Dinah na frente da pedra do sacrifício. A mãe cobriu o rosto com as mãos. O pai cuidou de despir as roupas da filha, cobrindo sua nudez com um mínimo de panos. Os irmãos tratavam de avivar as chamas do carvão. O fogo estalava. Antes de tudo, oraram de olhos fechados, braços abertos e dirigidos para o alto.

    Ouve-nos, Deus!
    Olha-nos, Deus!
    Aceita esta oferta, Deus!
    Abençoa-nos, Deus!

    O sol do meio do dia é inclemente e queima tanto quanto o fogo. A medula de Dinah começa a derreter. Um espanto: acima dos músculos dilacerados, bem acima das tetas inchadas, no fim do labirinto do útero, Dinah tinha uma cabeça. E olhos, e boca, e ouvidos. Como num riscar de pedras, como numa faísca, naquele instante antes do fim, Deus, pela primeira vez, lhe dirigiu a palavra e, pela primeira vez disposto a ouvir uma mulher, perguntou-lhe algo.

    Antes de ser consumida pelo fogo, Dinah respondeu.

    Deus não ouviu.


  • O Beco

    Dia frio, chuvoso, cair da tarde. Penido se preparou para a volta à casa, depois de um expediente na repartição que lhe rendera uma tremenda enxaqueca. Não era para menos, pois o contato com o público lhe estressava. Na maioria dos casos ignorava as queixas desses “infelizes”, como bem dizia, que lhe importunavam e canetava um “indeferido” na petição. A têmpora direita latejava. Tomou uma dose dupla dos comprimidos que sempre guardava na gaveta, fechou os olhos por alguns segundos para esperar o efeito do medicamento.

    O barulho dos pingos no vidro da janela aumentou, invadiu seus tímpanos causando um temporal de dor. Lembranças afogadas em poças d’água foram tomando conta de sua mente. Os sintomas da cefaléia cresciam, uma névoa lhe toldava a visão.

    ***

    De paletó, galochas, e guarda-chuva só lhe restava enfrentar o caminho até o ponto de ônibus, caminhando atento ao chão. O percurso era grande, a noite baixava sem luar, deserta, soturna. Começou a tremer de frio e desconforto, sentindo os pés mergulhados na água enlameada que cascateava pelos paralelepípedos irregulares da ruela em frente ao escritório. A cabeça pesava e um reboliço gasoso começou a lhe importunar o estômago.

    Se viu frente à entrada da viela estreita e íngreme que dava acesso à avenida. Sentiu as pernas bambalearam. Sempre teve maus pressentimentos em relação a essa viela tortuosa, furtiva.

    Pelas paredes molhadas, o reflexo dos raios pipocando no céu formavam figuras fantasmagóricas. As criaturas bruxuleavam a cada rajada de vento e aqueles seres aprisionados, emparedados em sua mente, sopravam lamúrias, blasfêmias, ameaças.

    A ruela tinha uma curva fechada e dali se deparou com um fim de linha – a viela havia se transformado em um beco sem saída.

    Viu se aproximarem as criaturas que se despegaram das paredes, e a elas foram se juntando outras, e mais outras que o alcançaram. Não tinha para onde fugir, se esconder.

    Esse círculo de algozes com olhos ameaçadores, bocas peçonhentas, corpos desformes, desferiam golpes em sua cabeça. A cada machadada, evocavam uma das injustiças, descasos, desrespeitos, ilegalidades, por ele cometidos.

    ***

    Banhado de suor, sentiu uma mão lhe sacudir os ombros.

    — Penido, que está a fazer aí cochilando? Não vê que a fila está imensa atrás do balcão?


  • Quando um amigo me visita

    Amigos. É assim que os chamo. Caracterizam-se por exalar nítido cheiro de afeto. Dessa nitidez brotam o contorno de seus ombros, seu nome, suas palavras e gestos, sua presença, mesmo quando já não estão perto de mim. São o contrário da pedra dura. São o revés do espinho. São o oposto do metal cortante. Gosto de pensar neles como esponjas com formato humano.

    Eis que um deles chega à minha casa. Aperto sua massa corporal entre meus braços e fico feliz por me sentir um dos seus. Peito com peito, calor compartilhado, olhar terno indo e vindo. “João!”, ele exclama. “Dalton!”, eu exclamo igual.

    Assim que começamos a conversar, a linguagem ganha corpo e sentido em torno de nós. Repartimos, como pão, a luz do dia em dois. Falamos de literatura, nosso assunto predileto. Falamos de poesia. Falamos de amigos comuns. Eu o convido a um pássaro, ele retribui com o balançar de um ramo seguro de árvore, perfeito para um ninho. Pergunto-lhe sobre o mar, que há tempos não vejo, e sobre o sol nele refletido. Ele me pede que fale das montanhas e do verde que há no lugar onde moro agora. A distância nos aproxima, a saudade nos irmana, o desterro nos mimetiza.

    A tarde escorre com centenas de lembranças e cheiro de comida. Depois que nos despedimos, acompanho com o olhar sua figura se afastando. Comprovo nesse instante que metade de mim vai com ele, que metade dele permanece comigo.


  • ENQUANTO ISSO

    O tempo está sujeito a chuvas e trovoadas, o horizonte parece mais distante e inatingível como o daquelas tardes à beira do mar, quando se faz planos inúteis para o futuro. Uma garota brinca com seu cachorro na rua onde poucos carros passam. Corre uma ambulância com a sirene ligada, e eu jogo fora, mais uma vez, outro poema que escrevi sem pensar.

    A história é escrita diariamente por um robô, tantos fatos iguais se repetem até que fiquemos fartos. Caem os heróis de ontem, e hoje não conseguimos fabricar um novo — não tiramos ninguém de real valor do meio dessa gente de pele mole, olhos opacos e nervos flácidos. Minha memória tenta resistir, mas já conhece seu tempo de validade, e eu luto à exaustão para permanecer. Sei que só ela sobrará quando eu não estiver mais aqui.

    Vejo presidentes passando na rua, vejo também os opositores, e a proximidade entre todos eles me espanta. Vejo um bloco de Carnaval vestido de falsa alegria, os foliões tocam bumbo e corneta e gritam frases estridentes, mas as vozes não têm vibrato nem metal e não alcançam além dos próprios ouvidos.

    Ouço sobre o suicídio coletivo das baleias no Mar do Norte, a televisão se esforça para mostrar só o seu ponto de vista, as galinhas põem ovos coloridos, eu tomo um sorvete de chocolate e observo com preguiça o deputado corrupto que vocifera no plenário contra a corrupção.

    Enquanto isso, tua cintura cresce e se arredonda feito lua cheia, beijo teu umbigo e juntos aguardamos a chegada da nossa cria.

  • Vertigem

    Se olham, se pressentem, se desejam,
    se acariciam, se beijam, se desnudam,
    se respiram, deitam juntos, se cheiram,
    se penetram, se chupam, se demudam,
    adormecem, despertam, se iluminam,
    se apalpam, se mastigam, se babam,
    se confundem, se encaixam, se machucam,
    se apertam, se beliscam, estremecem,
    se tateiam, se grudam, desfalecem,
    se repelem, se chutam, se provocam,
    se irritam, se cospem, se esbofeteiam,
    se enlaçam, se apartam, se procuram,
    se lambem, se mordem, se ferem,
    se apressam, se perfuram, se injetam,
    desmaiam, revivem, resplandecem,
    gritam, se querem, se perseguem,
    se inflamam, enlouquecem, se abrem,
    se derretem, se soldam, se incendeiam,
    se maldizem, se xingam, mentem,
    sentem cãibra, torcicolo, tendinite,
    estrebucham, arregaçam, empinam,
    praguejam, se odeiam, se matam,
    ressuscitam, se buscam, se esfregam,
    choram, se acalmam, respiram
    e se amam.


  • Ulisses

    Silas e Douglas eram escritores iniciantes. Assistindo a uma conferência num evento literário, ouviram do palestrante que dois importantes autores portugueses haviam decidido escrever um livro juntos: o primeiro redigia um trecho, o outro continuava a história. Silas e Douglas resolveram reproduzir essa ideia. O resultado da experiência pode ser conferido a seguir:

    “Ulisses jamais foi visto na companhia de outras pessoas. Nunca cumprimentava os vizinhos, não tinha amigos, parentes nem animais de estimação. Também não tinha emprego. As pessoas comentavam que vivia de herança. Morava na última casa da vila fazia pelo menos quarenta anos. Dona Mirtes, atualmente com 90 anos de idade, era a única moradora do lugar mais antiga do que ele. Quando uma loja de roupas femininas foi inaugurada nas redondezas, Ulisses passou a postar-se diante das vitrines por horas, queria examinar cada detalhe das roupas expostas. Se alguma vendedora vinha ao seu encontro oferecendo ajuda, ele a repelia com um gesto rude”.

    O pessoal da loja até chegou a chamar a polícia. Só que Ulisses não estava cometendo crime algum, e nada pôde ser feito contra ele. Esse doido espanta os fregueses, alegou a gerente. Em vão. Um dia, Ulisses passou a fotografar os modelos. Um mês depois, na véspera do dia de finados, rendeu as vendedoras com uma faca e exigiu que elas o deixassem entrar na vitrine. Lá dentro, começou a estrangular um manequim de cabelos ruivos vestido com um longo vermelho. Jogou o manequim no chão e pisou em cima dele com decisão ao mesmo tempo que gritava: ‘Não aceito pessoas falsas! Pessoas falsas não merecem viver! Abaixo os simulacros!’ Nesse dia, Ulisses finalmente acabou preso.”


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