Crônica de Quarta

  • A Subversão de um Insone

    Desde criança, Armando sente verdadeiro fascínio pelas noites. Segundo ele, é de noite que sua mente consegue trabalhar mais eficaz e diligentemente. Independentemente da estação do ano e do lugar onde se encontra, noites quentes, frias, chuvosas e estreladas sempre despertam em seu interior o gozo pela vida e a curiosidade pelo desconhecido. Mais do que uma contemplação serena do universo e de seus mistérios, Armando embarca em excitantes e intermináveis aventuras pelo imponderável e pelo inexplorado.

    Talvez você, cara leitora, identifique-se com o protagonista deste relato. Talvez você apenas conheça alguma pessoa que não desfrute de um sono bem regulado. Mas nós dois sabemos o quão desafiante é conciliar o apreço por uma noite em claro e a necessidade de um trabalho diuturno. Mesmo aqueles que não sofrem de insônia já experimentaram o acre sabor de uma noite maldormida, ao serem enxotados da cama por um sádico e ruidoso despertador. É claro que nosso improvável herói não sacrifica, intencionalmente, um dia de trabalho pelo indescritível prazer de ver o sol nascer e a cidade acordar. Se diversas tarefas laborais acumulam-se sobre sua mesa e cobranças por seu lento e sofrível desempenho fazem-se ouvir da boca de seu chefe, ressalvo que Armando sempre tentou ser comprometido com seu trabalho. Não sou psicanalista, mas, a meu ver, essa relação caótica e subversiva com a noite é que coloca quase tudo a perder.

    Subversiva, sim! Não que Armando queira derrubar a ordem política vigente. Sujeito parcamente politizado, avesso a discussões ideológicas, nosso amigo nunca pensou em alternativas ao que lhe dizem ser o correto e o natural. No entanto, sustento que a subversão que sua insônia carrega é de um tipo muito mais sutil e engenhoso. Enquanto a maioria recobra suas energias para a jornada de trabalho seguinte, Armando teima, ainda que inconscientemente, em não se submeter aos ditames de um tirano e mordaz relógio. Para nós, acostumados a orientar nossos feitos e nossos desejos conforme uma só temporalidade, tal resistência pode parecer fútil e pueril. Mas, até mesmo Cronos, o titã grego do tempo, admirar-se-ia com o simbolismo e a resiliência de nosso nobre guerreiro.

    A noite foi feita para dormir, Armandinho! – advertia-lhe sua avó, para quem as esquisitices de seu neto eram apenas coisas de gente jovem.

    Armando tornou-se adulto, amadureceu como pessoa, empregou-se num escritório de contabilidade, mas essa singular esquisitice continuou a fazer parte de seu dia a dia. Só que, diferentemente de quando era jovem, nosso estimado subversivo passou a usar as horas disponíveis para enriquecer sua criatividade. Nutrindo-se do silêncio e da beleza noturnos, Armando começou a dedicar sua insônia ao deleite que somente a pintura é capaz de provocar-lhe. Até tentou trabalhar com escultura, mas os vizinhos reclamaram do barulho e seu verdadeiro talento direcionou-o para o pincel e as tintas. É naqueles momentos de solidão, quando seus monstros mais indomáveis e cruéis ameaçam atazanar sua existência, que ele se entrega de corpo e alma aos seus quadros. Como numa mágica transmutação, Armando esquece a aridez patrimonial dos endinheirados clientes de seu escritório e mergulha na imensidão de possibilidades que somente sua imaginação é capaz de criar.

    De dia, trabalho por obrigação; de noite, trabalho por prazer – costuma dizer Armando, em vãs tentativas de justificar-se, moralmente, perante olhares de incompreensão e de hostilidade.

    Não, minha cara senhora… Não incito ninguém à rebelião! Não tenho a pretensão de causar tumultos e desordens, visto que os tempos são difíceis e requerem prudência de todos nós. Mas o caso que aqui lhe conto parece ensinar-nos que somos muito mais potentes do que aparentamos ser. É verdade que estamos muito aquém de uma pretensiosa e arrogante onipotência. Tendo a acreditar que a maior parte de nossos sonhos esfacela-se contra a dureza de nossas existências. Mesmo assim, de seu antigo sofrimento crônico, Armando extraiu a seiva que enriquece seu ser e que fornece esperança a uma vida até então sem propósito. Nosso valente pintor complementa-se com sua arte, expressando por meio dela suas dúvidas e suas inquietações.

    Claro está que ele continua precisando cumprir uma estafante e modorrenta carga horária no escritório. Mas as descobertas que apenas as noites permitem-lhe fazer servem como um anteparo contra a frieza de uma vida dedicada, exclusivamente, à sobrevivência. Diferentemente de tantos por aí, Armando cria, reflete, pergunta, desafia e sorri. Suficiente? Creio que não! Porém, enquanto estiver sozinho, o que mais poderá ele fazer?

  • A arte de não se levar a sério

    Poucas são as pessoas que realmente sabem como não se levarem a sério. Infelizmente, não faço parte desse privilegiado grupo. Mas posso afirmar que esses seres iluminados costumam ter uma expectativa de vida mais longeva que os demais mortais, com menos cortisol e mais endorfina. Em outras palavras, menos estresse e mais alegria. A bem da verdade, para não ficar apenas em elucubrações pseudocientíficas e melhor sustentar minha tese, usarei o exemplo de um velho e estimado amigo chamado Jânio.

    Diferente de seu tocaio Jânio Quadros – que se levou muito a sério, tentou uma manobra política estapafúrdia e deu com os burros n’água -, meu amigo Jânio sabe como não se levar a sério com maestria. É o tipo de sujeito que faz galhofa de si, escarnece de seus defeitos e zomba de seus erros. Mas quem o conhece bem, como é o meu caso, sabe que suas idiossincrasias não se dão por autocomiseração tampouco por autodesprezo. Pelo contrário! A leveza característica com que lida consigo e com os outros sugere uma paz de espírito e uma inteligência emocional invejáveis.

    Creio que a primeira vez que a elevada maturidade espiritual de Jânio chamou minha atenção foi quando assisti a sua derrota no campeonato de botão do bairro. Em plena adolescência, não tínhamos tantos compromissos para os quais dar mediana importância. Aquele torneio, entretanto, valia mais que a honra de todos os seus competidores. Um fim de semana inteiro dedicado à magia do futebol de botão, desde o sorteio de grupos até a entrega do troféu. Jânio, notório botonista do bairro, era considerado o favorito ao título por todos os comentaristas esportivos da região. Embalado por uma campanha avassaladora e invicta, chegou à final com pinta de campeão. O problema é que, ao comemorar seu único gol na partida, machucou sua mão direita. Com apenas a esquerda à sua disposição, não conseguiu mais jogar satisfatoriamente e levou uma virada triunfal de seu oponente. Apesar dos olhos marejados, superou o baque e, muito dignamente, reconheceu a vitória com um sorriso no rosto e um abraço em seu adversário.

    A segunda vez foi quando soube de seu fracasso no concurso para a Receita Federal. Muitos podem até tentar contemporizar o feito, mas fui testemunha de seu comprometimento e de sua dedicação para aquele certame. Sei o quão importantes eram aqueles malditos exames para ele. Por mais de um ano, Jânio dedicou, diariamente, horas a fio na preparação para as provas. Priorizou os estudos, prescindiu do futebol das quartas-feiras, abriu mão de muitas festas. Mas, infelizmente, a aprovação não foi conquistada. Todos nós, amigos de Jânio, pensávamos que ele sucumbiria a uma fase de desgosto e de tristeza profundos. Ledo engano! No dia seguinte à divulgação da lista de aprovados, lá estava Jânio fazendo piada de seu malogro e organizando o futebol daquela semana.

    Devo admitir que por muito tempo, esses e outros feitos de Jânio me passaram despercebidos. Geralmente, levamos um tempo para compreender o significado e a importância de muitos dos eventos que testemunhamos. Talvez por desatenção, talvez por insensibilidade. O fato é que a vida seguia seu rumo, sem que a altivez de Jânio pudesse ser, devidamente, apreciada por mim e pelos demais amigos. Até que um dia assisti à uma entrevista dada por uma veterana e renomada atriz. Com mais de seis décadas de trabalhos na televisão, no teatro e no cinema, a octogenária artista foi perguntada sobre qual seria seu segredo para tamanha longevidade.

    Não se levar a sério – sentenciou, muito originalmente, a jovem senhora.

    A simplicidade e a objetividade de tal resposta cativaram minha atenção. Quase imediatamente, a figura de Jânio veio-me à mente como um poderoso exemplo de vida. Não somente pelo modo com que lidou com alguns de seus fracassos, senão que por suas atitudes mais cotidianas. Livre das insanas métricas de perfectibilidade e de produtividade, meu amigo concebe uma vida mais equilibrada e saudável. Ciente de suas limitações, mas também de suas qualidades, celebra menos os resultados instagramáveis do que os longos processos de aprendizagem. Longe de levá-lo ao desleixo ou à passividade, sua visão de mundo permite-lhe desfrutar da graça e da beleza da vida nas coisas aparentemente mais simples e banais.

    Pessoas que se levam, demasiadamente, a sério tendem a ser chatas e egocêntricas. Em tempos de tantas rabugices e malquerenças, nada melhor do que desfazer carrancas e maus-humores com boas doses de humor. Colocando em xeque, antes de tudo, nossa sisudez, teremos mais chances de administrar nossas falhas e de apreciar nossas conquistas. Oxalá possamos todos aprender mais com pessoas como Jânio!

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