Crônica de quinta-feira por Raul Tartarotti

  • Sem direção

    Os humanos mais valentes creem que a solidão não vá corroer seus desejos, ao vagar pelo mundo sem olhos para fitar, que não é a forma mais sutil de ser gente. Passar minutos apreciando os outros se amontoarem em si, vagando em suas ideias ou cruzando pelas ruas frias e úmidas, pode nos trazer uma sabedoria solitária. 

    Porém, é uma companhia quase ausente de um par de mãos, que poderiam acalentar um nobre olhar. O oposto a esses instantes se percebe na vivência amorosa de quem se doou por outra vida.

    Quanto pode pesar para um pai no leito de morte de seu filho? A mão que a poucos minutos pressionava com o amor de um abraço, foge para o silêncio eterno. 

    A criatura foi gerada do desejo de um ser, que acalentava sua forma de manter-se vivo no filho, e nos breves instantes seguintes, o rumo muda o tempo.

    A vida inteira acreditamos que temos tempo, mas depois disso, descobrimos que ele era escasso, e se foi entre os dedos.

    Imagine se você encontrasse a criança que você foi um dia, numa mesa de uma cafeteria, pronta para uma conversa leve.

    O que você acha que ela diria com franqueza sobre sua vida? Que parte mais lhe interessa saber? e qual dela esconder?

    A parte mais difícil não é partir, mas sim voltar ao lugar onde você estava. 

    Porque quando você retorna percebe que não trouxe de volta quem você costumava ser. Aquela versão de você, ficou para trás, perdida em algum lugar no tempo. Você caminha pelos mesmos lugares, pelas mesmas ruas, mas algo não se encaixa. 

    Os lugares ainda estão lá, intocados, como se o tempo nunca tivesse passado. E você olha ao redor e entende o quanto você mudou. As pessoas ainda veem a sua versão antiga, como se você fosse uma fotografia guardada na memória delas. Mas aquela versão de você, não existe mais, foi deixada para trás pelo tempo, e você se sente deslocado em um lugar tão familiar. 

    Talvez por isso, a parte mais difícil não é partir. É voltar. E perceber que você não cabe mais onde um dia pertenceu.

    Por vezes novas vidas nos lembram a peça de Samuel Beckett, “Esperando Godot”, onde dois homens esperam por alguém, que nunca chega. Nada acontece. E, ainda assim, tudo acontece. 

    Eles conversam, repetem gestos, esquecem o que disseram, pensam em ir embora, mas ficam, sempre ficam, como nós, esperando algum sentido, ou respostas. Esperando o momento que a vida finalmente começará. Ele nos mostra que a existência humana não é uma jornada épica, mas uma repetição de dias, hábitos, pensamentos e esperas que sustentam nossa própria angústia. 

    O vazio não é falta de conteúdo, é o próprio conteúdo. Essa espera pode ser pelo sentido da vida, ou pela felicidade futura que prometemos a nós mesmos, ou apenas uma desculpa para não confrontar o vazio do presente. No final ninguém é salvo, e nada é resolvido, mas mesmo assim eles continuam esperando. 

    Admitir que nada é mais angustiante do que imaginar que algo deva estar a caminho. “O Ser humano suporta o absurdo, desde que possa esperar por algo” (Samuel Beckett)

  • Mirar no espelho!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonho, que descrevem experiências que vivi. 

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, e que eu gostaria de rever, trocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui a escola pela primeira vez, senti vontade de ficar mais tempo por lá com os amigos, porque aquela, era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão a parte, haviam presentes, e toda garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram, mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar para realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se preencher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se avalie um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena sentir-se mal ao mirar no espelho.

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